segunda-feira, 18 de novembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Histórias Com Juízo

Mário Castrim
Capa e ilustrações. Isabel Laginhas
Plátano Editora, Lisboa, Novembro de 1973

Ofício

-Mãezinha cadeira, o que é preciso fazer para ser uma boa cadeira?
- Muita paciência, filha, e ter as costas largas.

TISANA 45


 De cada vez que respiro sei que alternadamente perco e recupero o meu corpo. Depois penso que é na praia-mar da respiração que o meu corpo se forma, nesse intervalo. (Quando as pessoas dormem ou estão no cinema, por exemplo, o ar do recinto fica alternadamente cheio e vazio de corpos!) Respirar o corpo para fora inspirar o corpo para dentro. Eis como a ginástica é uma forma de vampirismo. Penso nisso quando estou na praia olhando um homem deslizar numa prancha de surf por uma onda fora. De repente desequilibra-se e cai. Tudo o que é profundo se revela à superfície.

Ana Hatherly em Tisanas

domingo, 17 de novembro de 2019

VELHAS CANÇÕES


Domingo de chuva.
Arrumações tendo em vista o Natal que se aproxima.
E de repente, cai este velho disco da Eurovisão de 1967, quando as canções da Eurovisão eram mesmo canções e não um folclore de macacadas e efeitos especiais, excepção feita ao nosso Salvador Sobral em que se chegou a pensar que o Festival poderia voltar aos velhos tempos… mas não… não voltou…
Devem lembrar-se que a Sandie Shaw apresentou-se a cantar Puppet on s String, descalça.
Conversa puxa conversa e, de repente, saltou que também existe uma canção do Elvis Presley que faz parte de um filme do Elvis que nunca vi. Também se chama Puppet on a String e, escusado será dizer, que o Elvis é sempre o Elvis e o que canta faz a sua diferença.



O MEU RESPEITO PELOS SEUS PODERES


Ela estava tão profundamente implantada na minha consciência que durante o meu primeiro ano de escola eu julguei, tanto quanto me lembro, que cada uma das minhas professoras era a minha mãe disfarçada. Assim que soava o último toque eu precipitava-me para casa, perguntando a mim próprio, enquanto corria, se seria possível chegar ao nosso apartamento antes de ela conseguir transformar-se. Mas ela já estava invariavelmente na cozinha quando eu chegava, pronta a servir-me o leite e as bolachas. Em vez de pôr fim ao meu delírio, no entanto, tal proeza limitou-se a intensificar o meu respeito pelos seus poderes. Aliás, era sempre um alívio não a apanhar entre encarnações, se bem que eu nunca deixasse de tentar; sabia que o meu pai e a minha irmã ignoravam a verdadeira natureza da minha mãe, e o peso da traição que — imaginava eu — recairia sobre mim se alguma vez a apanhasse desprevenida era mais do que eu me sentia capaz de suportar aos cinco anos de idade. Acho que receava mesmo ser morto se porventura a avistasse, vinda a voar da escola, a entrar pela janela do quarto, ou a aparecer membro após membro, saindo de um estado invisível e preenchendo o seu avental.
Quando ela me pedia que lhe contasse tudo o que fizera durante o dia no jardim-escola, eu, é claro, fazia-o escrupulosamente. Não tinha a pretensão de entender todas as implicações da sua ubiquidade, mas que esta se destinava a descobrir que género de rapazinho eu era quando julgava que ela não estava presente — eis o que era indiscutível. Uma consequência desta fantasia, que subsistiu (sob esta forma particular) até à primeira classe, foi que, verificando não ter alternativa, eu me tornei honesto.

Philip Roth em O Complexo de Portnoy

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


As pessoas juntam-se pelo Natal. 
Poderiam fazê-lo mais vezes ao longo do ano mas, por isto ou por aquilo, não estão para aí voltadas.
Há quem diga que estes almoços/jantares de amigos, de colegas de trabalho, são uma hipocrisia como outra qualquer.
Eu, que gosto tanto do Natal, que logo que a quadra termina começo a contar os dias até ser Natal outra vez, não levo as coisas para esse lado. Que se juntem, que hipocritamente alguns façam um sorriso para o parceiro do lado, mas que se juntem.
Por mim, já comecei a trazer das lojas por onde passo, catálogos e toda a papelada que cheire a Natal.
Para cumprir, como diz o João, meu neto de 4 anos, que, na família, quem sabe de Natal é a avó Aida.

FUNDI UMA BALA...


Fundi uma bala para ti
Para te atingir no meu próprio coração
É de pedra, talhada por forçados
É de chumbo, temperado no sangue
É de ferro, temperada no mel
É de minério, talhada
Em toscas mordeduras
Para mais dilacerar
Para que sintas enfim
O que quer dizer morte de amor.

sábado, 16 de novembro de 2019

QUOTIDIANOS


De telemóvel em punho atrapalham as entradas e saídas nos transportes públicos, atravessam as passadeiras de peões.
E pode-se morrer a falar ao telemóvel...
Segundo o Jornal de Notícias, uma mulher morreu atropelada na Linha do Norte, em Valadares, Vila Nova de Gaia, depois de ter sido colhida por uma máquina de serviço da CP. Estaria a falar ao telemóvel, enquanto atravessava a linha, não tendo ouvido os sinais sonoros de alerta emitidos pela composição de serviço interno da CP.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

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Tropeço em velhas agendas, e fico a saber que há dezenas e dezenas de projectos para este Cais, que nunca viram qualquer linha e outros que começaram e ficaram a meio.
Um desses projectos é o das vilas de Lisboa.
Apenas fiz o registo de algumas dessas vilas – e elas são tantas! -  e foi isso que me levou a pensar que já tinha colocado a Calçada do Sol no Olhar as Capas. Mas não. A Calçada doSol apenas foi um pretexto para falar na Vila Rodrigues, largamente referida no livro do Zé Gomes Ferreira.

«Como hoje, sempre vivi a meditar em coisas em que pouca gente repara ou pensa», escreve o José Gomes Ferreira na Calçada do Sol.

OLHAR AS CAPAS



Calçada do Sol

José Gomes Ferreira
Capa: Luís Duran
Moraes Editores, Lisboa, Setembro de 1983

Então, o meu pai principiou a levar-nos à Ópera do Coliseu e aos concertos do Teatro da República, hoje São Luís.
Quando nos portávamos mal durante a semana, castigava-nos com rigor de olhos acesos:
- No Domingo não vão ao concerto.
Mas pouco a pouco os olhos apagavam-se, contentes de tanto amarmos a música que ardia na inocência dos nossos corações.
E nunca cumprimos qualquer castigo, determinado pelo meu pai que nos perdoava sempre com ternura de haver tão belas melodias no mundo.

MORTE


Sabemos que de todas as sementes
é a mais pesada. Havemos de esperar
por ela. Acolhemo-la e nada
podia ser tão nosso. Compreendemos
que no seu interior talvez exista
a última seiva, o rumor de outra
germinação para que fique
junto dela. Descai silenciosa
e devagar. A terra é o nosso corpo.


Fernando Guimarães em Resumo: a poesia em 2010

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Quando somos novos, pensamos que os velhos se queixam de os tempos já não serem o que eram porque isso lhes torna mais fácil não ter medo de morrer. Quando somos velhos, tornamo-nos impacientes com o modo como os jovens aplaudem o progresso mais insignificante mas não dão importância à barbárie do mundo. Não vou dizer que as coisas estão piores, o que digo é que, se estivessem, os jovens não dariam por isso. Os velhos tempos eram bons porque nós éramos jovens e ignorávamos quão ignorantes os jovens podem ser.

Julian Barnes em O Papagaio de Flaubert

Legenda: pintura de Edwarad Hopper

OLHAR AS CAPAS


Conspiração nas Trevas

Hartley Howard
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 267
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Na quarta-feira, 15 de Maio, o despertador acordou-o, como de costume, às sete e
Meia. Como de costume, também, às oito horas já estava barbeado, lavado e vestido. Enquanto tomava o pequeno-almoço leu o Daily Telegraph e, mais uma vez como de costume, levantou-se da mesa às oito e meia em ponto.
Todos consideravam Harry Brogan um homem que gostava de obedecer a um horário regular, a um padrão diário certo. Podia-se contar que, todas as manhãs, fazia as mesmas coisas, à mesma hora e do mesmo modo. Às oito e um quarto desdobrou o jornal e leu, na primeira página, as cartas ao director; às oito e vinte deu uma vista de olhos à secção desportiva e às oito e vinte e cinco leu os anúncios, na segunda página.

SARAMAGUEANDO


José Luís Peixoto começa alguns capítulos de Autobiografia com palavras de José Saramago:

Um dia escrevi que tudo é autobiografia, que a vida de cada um de nós a estamos contando em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objeto no chão. Queria eu dizer então que, vivendo rodeados de sinais, nós próprios somos um sistema de sinais. Seja como for, que os leitores se tranquilizem: este Narciso que hoje se contempla na água desfará, amanhã, com sua própria mão, a imagem que o contempla.
José Saramago, Cadernos de Lanzarote, 1997

Não me escondo por trás do narrador.
José Saramago, 1994

Somos as palavras que usamos. A nossa vida é isso.
José Saramago, 2008

Há que escolher. Memórias ou romance? Confissão ou ficção?
José Saramago, 1951

Damos voltas e voltas. Mas, na realidade, só há duas coisas: ou você escolhe a vida, ou se afasta dela.
José Saramago, 1987

A linha que parece uma linha recta, não o é.
José Saramago, 1997

O leitor lê o romance para chegar ao romancista.
José Saramago, 2009

O leitor deve ter um papel que vai mais além de interpretar o sentido das palavras.
José Saramago, 2008

Que este romance (Todos os Nomes) possa ser entendido como mum ensaio sobre a existência – talvez. Julgo que todos os livros o são, que escrevemos para saber o que significa viver.
José Saramago, 1997

Toda a obra literária leva uma pessoa dentro, que é o autor. O autor é um pequeno mundo entre outros pequenos mundos. A sua experiência existencial, os seus pensamentos, os seus sentimentos estão ali.
José Saramago, 2001

Somos todos escritores, só que alguns escrevem e outros não.
José Saramago, 1997

A literatura não é um compromisso. Nunca. Se o compromisso existe, será o dessa pessoa que é o escritor. A literatura não pode ser instrumentalizada.
José Saramago, 1998

José Saramago disse-me muitas vezes: o José tem de pensar na sua obra. O José era eu.
José Luís Peixoto, 2010

A literatura é o resultado de um diálogo de alguém consigo mesmo.
José Saramago, 2008

CORPO


Corpo serenamente construído
Para uma vida que depois se perde
Em fúria e em desencontro erguidos
Contra a pureza inteira dos teus ombros.

Pudesse eu reter-te no espelho
Ausente e mudo a todo outro convívio
Reter o claro nó dos teus joelhos
Que vão rasgando o vidro dos espelhos.

Pudesse eu reter-te nessas tardes
Que desenhavam a linha dos teus flancos
Rodeados pelo ar agradecido.

Corpo brilhante de nudez intensa
Por sucessivas ondas construído
Em colunas assente como um templo.

Sophia de Mello Breyner Andresen de Mar Novo em Cem Poemas de Sophia

MARCADORES DE LIVROS

quarta-feira, 13 de novembro de 2019

POSTAIS SEM SELO



A poesia é a arte de juntar palavras que cavalgam sobre os impossíveis do mundo.

João Pedro Condesso em O Poeta Super-Herói

Legenda: fotografia de Hengki Koentzhoro

MANUEL JORGE VELOSO (1937-2019)


Manuel Jorge Veloso, personalidade marcante na história do jazz em Portugal,  faleceu hoje, contava 82 anos.
Quando há quem diga as coisas de uma certa maneira, não hesito: Vitor Dias, em O Tempo das Cerejas, sobre a morte de Manuel Jorge Veloso.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Aquele rapaz que palreia sobre futebol na estação-sargeta, que é deputado chegado a cheiros de ultra-extrema direita, apresentou um projecto de resolução, na Assembleia da República, a recomendar ao Governo que proceda à instauração de uma celebração solene do 25 de Novembro, com o fim de que lhe seja dado a mesma dignidade do 25 de Abril.

No projecto de resolução, o rapaz lembra que a liberdade só foi devolvida aos portugueses no dia 25 de Novembro de 1975 e isso deve-se à intervenção pronta e eficaz do Regimento de Comandos da Amadora, então sob o Comando do Coronel Jaime Neves, pelo que à sua ação decisiva devemos todos nós a liberdade e o regime democrático de que hoje podemos usufruir.

Em Novembro de 1976, Maria Velho da Costa escreveu um texto, manuscrito acima, que intitulou ESTE DIA NÃO.

«O 25 de Novembro não é para celebrar.
Porque não foi um acto de alegria, foi
um acto de necessidade. Para os melhores,
dolorosa, para os piores, maligna.
Proponho a esta assembleia de povos um
dia de silêncio em honra da fala
portuguesa sem ódio. Que não viva a morte.»

OLHAR AS CAPAS


O Poeta Super-Herói

João Pedro Condesso
Capa e ilustrações: Marta Tex
Sinopse: Luísa Ducla Soares
Inclui CD: Letras, músicas e arranjos: Gerson Santos   
Edição do Autor, Lisboa, Junho de 2019

Pelo rosto do rapaz deslizaram algumas lágrimas, porque o seu plano não resultara. Fez-se um silêncio aterrador. Então, vieram-lhe à cabeça as palavras de William Shakespeare que o pai lhe dizia antes de adormecer, todos os dias:
-Antes de se render, tente de novo!
De repente, Aristides ajoelhou-se na terra vermelha e, à sua volta, rapidamente se elevou uma gigantesca nuvem de pó. Dela ecoavam várias vozes com diferentes timbres e tons envoltos no troar dos tambores africanos que replicavam:
Segue as palavras de Shakespeare! Não chores!
Tu és um poeta. Aceita este lápis e dá vida à tua poesia!

QUEM MUITO VIU, SOFREU


Quem muito viu, sofreu, passou trabalhos,
mágoas, humilhações, tristes surpresas;
e foi traído, e foi roubado, e foi
privado em extremo da justiça justa;

e andou terras e gentes, conheceu
os mundos e submundos; e viveu
dentro de si o amor de ter criado;
quem tudo leu e amou, quem tudo foi –

não sabe nada, nem triunfar lhe cabe
em sorte como a todos os que vivem.
Apenas não viver lhe dava tudo.

Inquieto e franco, altivo e carinhoso,
será sempre sem pátria. E a própria morte,
quando o buscar, há-de encontrá-lo morto.

Jorge de Sena, soneto retirado de Entrevistas

Legenda: Fotografia de Cassie Werber

terça-feira, 12 de novembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Preciso muito de noites, alimento-me delas, da solidão da casa quando já todos se deitaram, do silêncio apenas longe a longe interrompido por breves ruídos (o estalar dos móveis, uns passos ou um desentendimento entre os gatos, a respiração respirando), do tempo que parece ter parado. É a melhor altura para escrever ou para ler, ou então para não fazer absolutamente nada, apenas para estar.

Manuel António Pina em Dito em Voz Alta

NOTÍCIAS DO CIRCO


Esta gente devia estar atrás das grades, mas passeia-se por aí e sorri.
O Ministério Público acredita que Manuel Pinho terá favorecido o Grupo Espírito Santo nos investimentos projectados para a Comporta, o sonho lindo de Ricardo Salgado,
Manuel Pinho antes de ir para ministro da Economia do governo de José Sócrates foi administrador do BES. Quando deixou o governo, foi para administrador do BES África, entre 20110 e 2014 e o Ministério Público tem fortes indícios que Manuel Pinho terá continuado a receber do Grupo Espírito Santo.

Legenda: título de 1ª página do Público de 7 de Novembro

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

O HOMEM DAS CASTANHAS


Na Praça da Figueira,
ou no Jardim da Estrela,
num fogareiro aceso é que ele arde.
Ao canto do Outono, à esquina do Inverno,
o homem das castanhas é eterno.
Não tem eira nem beira, nem guarida,
e apregoa como um desafio.

É um cartucho pardo a sua vida,
e, se não mata a fome, mata o frio.
Um carro que se empurra,
um chapéu esburacado,
no peito uma castanha que não arde.
Tem a chuva nos olhos e tem o ar cansado
o homem que apregoa ao fim da tarde.
Ao pé dum candeeiro acaba o dia,
voz rouca com o travo da pobreza.
Apregoa pedaços de alegria,
e à noite vai dormir com a tristeza.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais calor p'ra casa.

A mágoa que transporta a miséria ambulante,
passeia na cidade o dia inteiro.
É como se empurrasse o Outono diante;
é como se empurrasse o nevoeiro.
Quem sabe a desventura do seu fado?
Quem olha para o homem das castanhas?
Nunca ninguém pensou que ali ao lado
ardem no fogareiro dores tamanhas.

Quem quer quentes e boas, quentinhas?
A estalarem cinzentas, na brasa.
Quem quer quentes e boas, quentinhas?
Quem compra leva mais amor p'ra casa.

José Carlos Ary dos Santos

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O que se lê na contracapa do livro é a sua sinopse:

«Na Lisboa de finais dos anos noventa, um jovem escritor em crise vê o seu caminho cruzar-se com o de um grande escritor. Dessa relação, nasce uma história que mescla realidade e ficção, um jogo de espelhos que coloca em evidência alguns dos desafios maiores da literatura.
A ousadia de transformar José Saramago em personagem e de chamar Autobiografia a um romance é apenas o começo de uma surpreendente proposta narrativa que, a partir de certo ponto, não se imagina como poderá terminar. José Luís Peixoto explora novos temas e cenários e, ao mesmo tempo, aprofunda obsessões, numa obra marcante, uma referência futura.»

Maria do Rosário Pedreira, no seu blogue Horas Extraordinárias, aborda, deste modo, o livro:

«Para começar, é bastante intrigante chamar a um romance Autobiografia; e talvez seja ainda um maior atrevimento meter dentro de uma Autobiografia o autor de romances José Saramago (sim, o nosso Nobel da Literatura) e um autor mais jovem que tem com ele uma relação formal e reverente, a quem é encomendada uma biografia do grande escritor (biografia que ele tentará transformar numa obra de cariz ficcional, como, de resto, é o próprio romance que estamos a ler). Podíamos também pensar, já agora, que o romance que estamos a ler é autobiográfico (afinal, José Luís Peixoto recebeu o Prémio Literário José Saramago das mãos do próprio Saramago) e que o protagonista, que devia escrever a biografia de Saramago, mas nunca o faz, é o próprio autor desta Autobiografia (que, por acaso, é um romance).»

Não desgostei da leitura da Autobiografia, é uma muito interessante proposta, mas perdi-me por ali. E detesto perder-me na leitura dos livros.

Acontece, meus caros.

Mas Miguel Real, na crítica que publicou no JL, qualifica Autobiografia como o melhor romance português publicado até ao Verão de 2019 e deixara aviso:

«A estrutura temporal de Autobiografia é, assim, um tempo de acumulação de acontecimentos cuja presumível unidade ou fil rouge só pode ser conferido pelo leitor. É a grande participação do leitor, prestar unidade ao que é mostrado multiplamente, detectar o todo onde só se vê partes. Autobiografia exige, assim, um leitor nada preguiçoso, aliás, convidado pelo narrador a participar, já que em certos momentos, fundem-se narração da realidade exterior e a própria realidade exterior, narrador e leitor.»

Falhei.

Onde e como?

É por isso que, lá mais para a frente, terei que regressar à sua leitura, pois então!

OLHAR AS CAPAS



Autobiografia

José Luís Peixoto
Capa: Rui Rodrigues
Quetzal Editores, Lisboa, Julho de 2019

Se alguém lhe tivesse contado que o filho se perdera em Lisboa, a mãe demoraria a acreditar. Por um lado, José estava sozinho na cidade havia dez anos, tempo de conhecer todas as vielas; por outro lado, não era capaz de imaginar que a escrita de um livro fosse razão para problemas de tal ordem. Para sua própria expiação, o filho alimentava essa influência cega, os livros.Antes tivesse apanhado meningite como o rapaz da vizinha, perdeu alguma audição, mas tornou-se mecânico gabado por todos. Em julhos da puberdade, enquanto os outros rapazes acertavam em pardais com os tiros de pressão de ar, saudável treino de pontaria, José passava horas oculto e silenciosos, lia deitado na cama ou escrevia doidices, inclinado sobre um caderno, No princípio a mãe rezou, pediu a Santa Cecília, protectora dos poetas, que lhe poupasse o filho, que o libertasse dessas ideias. Não alcançando resposta, conformou-se e baixou os olhos perante Deus aceitando os seus mistérios. A partir daí, passou a rezar pelo filho a Santo Aleixo, protector dos mendigos.