sexta-feira, 3 de março de 2023

CONVERSANDO


 

No dia 26 de Fevereiro o Público publicava uma excelente entrevista, feita por Bárbara Reis,  a Maria Filomena Molder, nascida em Campo de Ourique, 72 anos, professora, filósofa, doutorada com a tese  O Pensamento Morfológico de Goethe, apreciadora de Agustina Bessa Luís, contra o Acordo Ortográfico, não tem telemóvel, nem televisão e a entrevistadora acaba por a puxar para algo que pouco ou nada aborda: a guerra, mas «um desafio é para mim sempre irresistível»  e vai dizendo:

 «Não tenho acompanhado, nem quero acompanhar a guerra, para além do mínimo possível. Como não tenho televisão, raras vezes vejo imagens, mas já aconteceu, não só imagens em directo, como também documentários de tese feitos ainda os mortos estão por enterrar (todos os dias há mortos por enterrar, não é?).

 Todo o género de interesses dos senhores da guerra e de tudo quanto se lhes associa, incluindo os meios de comunicação e quem os controla. Os turistas acham que sim, que 4000km é uma boa distância, e nós também.

 As palavras quer de Putin, quer de Zelensky são as de dois actores bem ensaiados, se bem que só um tenha estudos no ramo. Ambos são retóricos que utilizam as palavras como armas de arremesso ou como gestos de sedução. Ambos querem convencer.

 Putin tem uma escola mais elaborada, pois fez o seu tirocínio no KGB. Comparado com ele, Zelensky parece um amador, um principiante. Putin tem os traços de um espírito doente, um psicopata, como se diz na gíria do nosso tempo, um homem desprovido do sentimento de simpatia e da faculdade de comunicar de uma maneira íntima e universal, a que Kant chamava humanidade.

 Ao invés, ele está preparado para a destruição final, desde que nem um dos seus cabelos seja afectado (apesar de ele já poucos ter). Viu a série de entrevistas que Oliver Stone lhe fez? Vale a pena.

 Há uma coisa que falta a Putin e que se observa em Zelensky, a coragem. Putin não é um homem corajoso, é calculista de mais para poder exercitar essa disposição. Rodeia-se de mil protecções. Não se lembra como e onde ele esteve resguardado durante os períodos mais críticos da pandemia? Isso diz tudo sobre a sua solidariedade com o povo russo. Também tenho muita dificuldade em imaginá-lo numa reunião de conversações para pôr fim a esta guerra ou a outra qualquer empreitada em que esteja implicado.

 Por outro lado, também não vejo bem quem esteja interessado e tenha alguma ideia precisa sobre o modo de fazer acabar a guerra. Os impérios tendem a manter-se impérios até serem esfacelados por forças externas e/ou corroídos por forças internas.

 O império americano desejaria aniquilar o que resta do império russo-soviético. O que se irá passar não sei. Muitas vezes acho que a nossa vida tem uma estrutura dupla, que reproduz a dualidade da metafísica mais banal, como nos filmes do James Bond. Uma das estruturas, a que deriva da sociedade e dos seus afazeres, é manifesta e irrelevante. A outra, secreta e soberana, manobra os cordelinhos da estrutura manifesta. Como na história do burro e da cenoura ou a do jogador mecânico de xadrez de que [Walter] Benjamin fala. Neste caso, entra em cena uma relação entre história (a estrutura manifesta) e teologia (a estrutura oculta).

 Uma sociedade que quer a todo o custo evitar o acaso, a surpresa, empenhada em domesticar o desconhecido e em esconder, disfarçando-a, a violência da vida, está à mercê do medo sem fim. Com raras excepções, os meios de comunicação ajudam à festa. Heráclito achou que, para os seres humanos, a melhor coisa não é que aconteça tudo quanto querem. Será que estaremos algum dia preparados para entender isto?

 Agora a novidade radical é que os seres humanos assistem à morte em directo a milhares de quilómetros de distância, através de dispositivos técnicos de reprodução, sentados em casa ao abrigo das intempéries. Estamos no reino das imagens técnicas que se podem gravar, voltar a reproduzir, para repor mais tarde, depois do jantar. O que nos vale é a expectativa de inventar, para utilizar uma imagem com origem na guerra, espaços de manobra.

 Quanto aos 70 anos de paz na Europa, convém não esquecer a guerra sangrenta na ex-Jugoslávia e os seus horrores inabsorvíveis. Lembro-me de que em 1991 estava em Heidelberg [Alemanha] com uma bolsa do DAAD e via na televisão os transportes cheios de mulheres e crianças que acabavam de se despedir dos homens e rapazes que ficavam em Belgrado à mercê do que pressentiam e temiam. Ainda durou uns dez anos. Tanta gente morta ao deus-dará, tantas culpas por apurar, tantos interesses por esclarecer.

 Quem ganhou aquela guerra e quem ganhou com aquela guerra? Quem perdeu aquela guerra? Da emigração forçada temos notícia, pois vieram para Portugal sérvios, croatas, montenegrinos.

 Nesta guerra actual há um país invasor e um país invadido. Isso é absolutamente claro.»

 No meio da entrevista, Molder cita os poemas de Carlos de Oliveira, Descrição da Guerra em Guernica que fazem pate do livro Entre Duas Memórias,  diz que são sublimes e cita o Poema IX:

 

Casas desidratadas

no alto forno; e olhando-as,

momentos antes de ruírem,

 o anjo desolado

pensa: entre detritos

sem nenhum cerne ou água,

como anunciar

outra vez o milagre das salas;

dos quartos; crescendo cisco

a cisco, filho a filho?

as máquinas estranhas,

os motores com sede, nem sequer

 beberam o espírito das minhas casas;

evaporam-no apenas.

Por mim, saio aqui na Conversa,  mas deixo-vos uma frase imensamente batida de O Último Voo do Flamingo de Mia Couto:

«A guerra nunca partiu, filho. As guerras são como as estações do ano: ficam suspensas, a amadurecer no ódio da gente miúda.»

Dizer ainda  que esta guerra que devasta a Ucrânia, dizem os senhores da guerras não terá fim próximo.


Legenda: imagem de «Artsper Magazine.

O CÉU, A TERRA, O VENTO SOSSEGADO...

O céu, a terra, o vento sossegado…

As ondas, que se estendem pela areia…

Os peixes, que no mar o sono enfreia…

O nocturno silêncio repousado…

 

O pescador Aónio, que, deitado

Onde co vento a água se meneia,

Chorando, o nome amado em vão nomeia,

Que não pode ser mais que nomeado:

 

– Ondas – dezia – antes que Amor me mate,

Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo

Me fizestes à morte estar sujeita.

 

Ninguém lhe fala; o mar de longe bate;

Move-se brandamente o arvoredo;

Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.

 

Luís de Camões

quinta-feira, 2 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 

Uma frase terrivelmente maravilhosa de Elias Canetti: “Deus era coxo e criou os humanos como sua muleta”.

Que maravilhoso, os humanos são a muleta de Deus aquilo em que ele se apoia.

E sim que terrível, os humanos são a muleta de Deus.»

Gonçalo M. Tavares no Expresso. 

1.

Manuel Pinho, antigo ministro da Economia, nega ter praticado crimes de corrupção, mas assume, no requerimento de abertura de instrução, que cometeu “ao longo de vários anos crimes de fraude fiscal, tendo embarcado num esquema global dentro do Grupo Espírito Santos, em que os pagamentos de parte das remunerações e de prémios eram feitos por fora, inclusive para offshores”.

Pinho foi acusado da prática de crimes de corrupção, fraude fiscal e branqueamento de capitais no caso EDP.

Segundo o antigo governante, “esta era uma prática corrente no grupo, que tinha uma origem histórica, quando a família recuperou o controlo do banco, de que ao longo de anos beneficiaram dezenas, se não centenas, de pessoas, a qual, de resto, era conhecida do meio financeiro”.

2.

A defesa de Ricardo Salgado insiste na realização de uma perícia médica na fase de instrução do Caso EDP, devido ao diagnóstico de Doença de Alzheimer atribuído ao ex-banqueiro, e recusa a prática de qualquer crime.

«O arguido encontra-se à disposição do Tribunal Central de Instrução Criminal para realizar perícia médico-neurológica, para efeitos de comprovar o seu quadro clínico acima descrito, com as devidas consequências legais que daí devem ser retiradas, nomeadamente extinção/arquivamento dos presentes autos quanto ao arguido. Requer-se a realização de uma perícia médica da especialidade do foro neurológico».

3.

O parlamento finlandês aprovou a entrada da Finlândia na NATO visando ainda mais a expansão do bloco político-militar e a escalada de tensão. A entrada definitiva terá que ser aprovada pelos membros da NATO, sendo que a Turquia, que inicialmente se opunha, poderá favoravelmente caso a moeda de troca seja o repatriamento da população curda que se encontra em território finlandês.

4. 

O episcopado português reúne-se amanhã em Fátima para analisar o relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica, que validou 512 dos 564 testemunhos recebidos em dez meses.

5.

Um quarto das lojas situadas nas quatro principais artérias da Baixa de Lisboa estão fechadas desde 2020, o ano do início da pandemia. Rendas elevadas pedidas pelos senhorios é a principal razão.

Ao mesmo tempo vai-se assistindo à descaracterização  da cidade com especial incidência na Avenida Almirante Reis e na Rua Morais Soares. Praticamente a quase totalidade do comércio tradicional da zona foi substituída por frutarias, restaurantes de comidas exóticas e barbearias.

6.

A ASAE voltou ao terreno para fiscalizar os supermercados. Na mira dos inspectores estavam possíveis crimes de especulação.

Preços diferentes entre a prateleira e caixa, por exemplo em produtos como o queijo, a carne, a fruta e os cereais, peso a menos do que o indicado nos produtos e até um supermercado fechado temporariamente porque tinha problemas de calibragem nas balanças, foram algumas das irregularidades detectadas nesta quarta-feira.

Ao todo, a ASAE abriu dez processos-crime e 12 processos de contra-ordenação. Esta acção de fiscalização juntou dez brigadas no Norte do país, 12 brigadas no Sul e 16 brigadas na região Centro. No terreno, estiveram 80 inspectores que fiscalizaram um total de 123 supermercados.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

DOS JARDINS FANTÁSTICOS


 Luiz Pacheco no seu primeiro Texto Local, a que chamou Os Namorados, escreve:

«Dos jardins fantásticos da minha infância que eu nem tive infância nasci assim já velho mas sou um bonacheirão incapaz de rancor aos meninos que tiveram infância e jardins, trago um na lembrança que era um jardim muito engraçado havia um coreto a música tocava aos domingos havia um urinol com aquele velho maluco que fazia coisas aos rapazes e também lembro um jardim, outro ou seria o mesmo que era um jardim muito engraçado com uma estantazinha verde o tipo que emprestava livros à gente tinha uma farda preenchia-se um papel com o nosso nome e morada era coisa séria.»

 Maravilha de texto lido com um prazer de velhos tempos, agora que nos jardins já encontramos poucas crianças e as que vão aparecendo têm telemóveis e outros mecanismos dos tempos de hoje.

 Nuno Pacheco, na sua apreciada crónica das quinta-feiras, no Público, escreve sobre jardins:

 «Há coisas que parecem premonitórias. No seu mais recente trabalho em torno da obra pessoana, Faust, o cantor e compositor italiano Mariano Deidda escreveu (e cantou, a fechar o disco) uma canção intitulada Nos jardins de Lisboa, dedicando-a ao escritor Antonio Tabucchi. Vale a pena citá-la na íntegra (é cantada em italiano, mas no libreto do disco surge também traduzida para português): “Meu caro professor Tabucchi/ agora que você se encontra/ entre as águas do aqueronte/ e o vórtex furioso dos átomos/ onde tudo está disperso/ e onde tudo é criado de novo/ em breve poderá voltar/ aos jardins de Lisboa/ como flor/ que floresce em Abril/ ou como chuva nos lagos/ e nas lagoas de Portugal/ e quando eu estiver a passear/ voltarei a ouvir a sua voz/ percorrida pelo vento.” O disco foi lançado em Março de 2022, e, passado quase um ano, um jardim de Lisboa ganhou oficialmente o nome de Jardim Antonio Tabucchi. Foi inaugurado numa sexta-feira, dia 3 de Fevereiro, e era conhecido como Jardim da Travessa da Piedade, a curta distância da casa onde o escritor italiano viveu, a Rua do Monte Olivete, a meio caminho entre a Assembleia da República e o Largo do Príncipe Real. O Gogle Maps já o reconhece.

Ora esta inauguração, no bairro que Tabucchi “percorreu vezes sem conta” e onde “sempre se sentiu bem”, como ali recordou a viúva do escritor, Maria José de Lencastre, e onde, em nome do município, o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, afirmou que “o grande escritor, o grande lisboeta, o grande homem livre”, se tornava assim “parte da cidade” que foi a “sua segunda casa”, ocorreu no início do ano em que se celebrarão os 80 anos do nascimento de Tabucchi (em 24 de Setembro) e passados 11 anos da sua morte (em 25 de Março de 2012. Na mesma Lisboa que adoptou como sua e onde viveu desde 1965 até ao final da vida.»

 Difuso no texto da crónica do Nuno Pacheco, copio o poema de Mariano Deidda:


«Meu caro professor Tabucchi

 agora que você se encontra

 entre as águas do aqueronte

e o vórtex furioso dos átomos

onde tudo está disperso

e onde tudo é criado de novo

em breve poderá voltar

aos jardins de Lisboa

como flor/ que floresce em Abril

ou como chuva nos lagos

e nas lagoas de Portugal

e quando eu estiver a passear

voltarei a ouvir a sua voz

percorrida pelo vento.»

Legenda: Jardim Constantino, em Lisboa, numa quarta-feira, que é dia de ali se relizar uma Feira Ocasional de Livros Usados.

NOTÍCIAS DO CIRCO

O secretário-geral da Federação Nacional dos Professores, Mário Nogueira, apelou aos pais que não levem os filhos à escola esta quinta e sexta-feira.

Deste modo:

«Apelamos aos pais que não levem os filhos às escolas. E apelamos por dois motivos: um é a solidariedade. Pensamos que os pais apoiam a luta dos professores e também porque os serviços não são iguais em todo o lado e pode acontecer que muitos alunos tenham uma aula agora e o resto do dia sem atividades»

Que fique bem claro que não sou contra a greve dos professores, dos trabalhadores da CP, qualquer greve justa.

Sei da greve como arma de luta contra governos incompetentes, patrões que espezinham os direitos dos trabalhadores.

Mas há a pergunta:

Onde colocam os pais os filhos que não podem ir à escola?

Deixam de ir trabalhar, correndo os mais diversos riscos, inclusive o despedimento?

Este é um texto que odiei escrever.

Lembrar ainda que solidariedade é uma palavra morta, agora que se sabe que o Instituto Camões vai considerar palavras mortas, todas as palavras que não tenham sido utilizadas nos últimos três anos.

COLAGEM

 com versos de Desnos, Maiakovski e Rilke

 

Palavras,

sereis apenas mitos

semelhantes ao mirto

dos mortos?

Sim,

conheço a força das palavras,

menos que nada,

menos que pétalas pisadas

num salão de baile,

e no entanto

se eu chamasse

quem dentre os homens me ouviria

sem palavras?

 

Carlos de Oliveira em Sobre o Lado Esquerdo

quarta-feira, 1 de março de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Estou enfeitiçado por estes lugares. Às vezes, sonho que gostava de coltar a casa. Mas a minha casa não é em parte nenhuma, em casa nenhuma, em terra nenhuma e com nenhuma pessoa.

F. W. Murnau, numa carta à mãe.

Legenda: pintura de Raymond Wintz

O FECHAR SOS TAIPAIS


E voltamos à questão do aborto.

No Público de 26 de Fevereiro, a jornalista Ana Sá Lopes escreve um artigo de opinião: «ISTO DO ABORTO É UMA ESPÈCIE DE ILEGALIZAÇÃO NO SNS, NÃO É?:

«É proibido, mas faz-se.” A frase de Marcelo Rebelo de Sousa, opositor à legalização do aborto nos idos 98, e depois convertido à realidade jurídica no segundo referendo, deu um dos mais geniais sketches do grupo Gato Fedorento. Foi um “bit” tão marcante que alguns comentadores políticos acharam que o humor tinha tido, desta vez, genuína influência na vitória do “sim” no segundo referendo.

 Sou desse tempo, do “é proibido, mas pode-se fazer”. Era preciso primeiro arranjar um contacto; havia “senhoras” — habitualmente enfermeiras, mas também algumas médicas e não vou falar das possibilidades mais repugnantes — que aceitavam pagamentos a prestações. Havia clínicas de luxo em Benfica, Lisboa; havia marquises pobres em Benfica, Lisboa. Em todas as cidades algumas tabuletas revelavam casas onde vivia ou “exercia” uma “parteira diplomada”.

 A reportagem de Fernanda Câncio no Diário de Notícias da semana passada deu um retrato chocante — e confesso que para mim totalmente desconhecido — da realidade do que é conseguir fazer um aborto legal e gratuito no Serviço Nacional de Saúde. Na verdade, a forma como as mulheres são tratadas demonstra que o que se está a passar agora é uma ilegalização, não por força de políticos republicanos dos Estados Unidos que são contra o aborto, mas por incapacidade do sistema e por “estar-se nas tintas”. O resultado é o mesmo: se não se consegue abortar legalmente, não vale a pena achar que somos assim tão diferentes dos estados americanos que ilegalizaram a interrupção voluntária da gravidez. Aqui, não é proibido, mas não se faz.»

 

À PARTE

1.

O ministro da Saúde , Manuel Pizarro, declarou que irá resolver o problema em “meia dúzia de semanas”.

O senhor ministro é um homem optimista. Para bem do problema que seja apenas isso!

2.

Lá muito para trás, em 22 de Outubro de 1981, D. António Ribeiro, Cardeal-Patriarca de Lisboa, disse aos jornalistas:

 «Quem liberalizar o aborto terá de se haver com a igreja!»

E o bispo de Viseu, em 1 de Junho de 1988 aquando do referendo sobre a lei do Aborto, disse:

«Quem votar "sim" deve sair da Igreja!» 

3.

Também lembrar Natália Correia e a resposta poética a um deputado do CDS:

 


4.

 Alguns recortes dos anos 80:


5.

O poema «Crescei e multiplicai-vos», que encima o texto é da autoria do poeta e pintor espanhol Carlos San Roman e foi traduzido por Urbano Tavares Rodrigues.

QUE ESSA PRIMAVERA ERA OUTRA

Conta-me essa história, mas esquece deliberadamente

os nomes e as datas. Diz-me que essa primavera

era outra, muito mais antiga.

e agora lembrada sem querer ou por acaso. Conta-me

 

como foi, mas evita os pequenos detalhes intranquilos.

E, dos lugares, refere apenas os mais desconhecidos

e estranhos à memória. Não fales dos perfumes, dos desejos

ou dos demónios que de noite costumam enfeitiçar o corpo

e entretê-lo. E descreve todos os gestos hesitantemente,

como se fossem mesmo de outro tempo e deles

não mais guardasses que uma lembrança vaga e desprendida.

 

Conta-me de que falaram, mas escolhe, entre as palavras,

aquelas que pudesses não ter dito. E nunca escondas,

se os houve, os pensamentos tardios que, atrás delas,

tacteariam às cegas, sem destino. Conta-me essa história, sim,

 

se achares que deve ser, que tem de ser. Mas fá-lo sempre

com quem dela esqueceu a maior parte e não consegue

lembrar-se do desfecho, final feliz ou não.

Assim escutá-la-ei até ao teu silêncio

como um romance antigo, meio lido, perdido agora

entre outros numa estante e para sempre incompleto.

As outras histórias, de amanhã ou depois,

hei-de ouvi-las inteiras: são livros por escrever,

lugares distantes, coisas por inventar no tempo

que aí vem, nomes que não se adivinham nem magoam.

 

Maria do Rosário Pedreira em A Casa e o Cheiro dos Livros

terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Quando usamos as palavras dos mortos acontece uma coisa curiosa, é como se nos encontrássemos a meio do caminho, eles um pouco vivos e nós um pouco mortos.

Cristina Ferreira em Bicho Ruim

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2023

SOPA DE PEDRA

Desfaçam uma batata, depois de bem

cozida, num prato de água quente. Não ponham

sal, que faz mal à saúde, nem azeite, que

está caro. Partam a côdea aos pedaços e

deitem-na no prato. Se houver ervas à volta,

nem que sejam urtigas, também servem

para dar sabor. Se não houver, pensem

nelas, e juntem-lhe a memória de uma rodela

de chouriço. Mas não muito, porque até

a memória está pela hora da morte. Depois,

soprem na sopa: não vale a pena comê-la

muito quente, o sabor perde-se no queimado

da língua. Comam as côdeas de pão com

tempo e proveito: é pão que já tem uns

dias, e que deveria ter sido lançado

aos pombos, mas os pombos já foram

comidos por quem se apressou a

apanhá-los. E depois do pão, passem

ao caldo: e comam devagarinho, mesmo

que já esteja frio. E quando acabarem,

consolem-se com um único

pensamento: amanhã pode

não haver mais!

Nuno Júdice em O Fruto da Gramática

domingo, 26 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Domingo e as notícias, tirando as da guerra na Ucrânia,  estão rodeadas de dramas do quotidiano, mas também pode acontecer que nos falem de algo agradável e motivante.

O cineasta português João Canijo, ao receber o Urso de Prata da 3ª edição do Festival de Berlim exclamou: "Ainda nem acredito bem nisto!", exclamou ao receber o Urso de Prata da 73.ª edição do Festival de Berlim.

Trata-se de um dos mais importantes momentos do cinema português num grande festival, uma honra inédita que confirma o actual vasto reconhecimento internacional.

Anunciado na gala como um filme que constrói um espaço que absorve as mentes das personagens, Mal Viver de João Canijo foi um dos títulos com melhor receção crítica internacional .

O filme, segundo o Diário de Notícias, anda à volta de uma família de várias mulheres de diferentes gerações que gere um hotel no norte de Portugal. História de vidas roídas por ressentimento e um ódio palpável, cuja chegada inesperada de uma neta vem ainda tornar mais insuportável o clima.

1.

 

Quase dois terços dos portugueses (61%) garantem que votariam a favor da eutanásia se a despenalização da morte medicamente assistida fosse submetida a referendo. De acordo com os dados da sondagem feita pela Aximage para o DN, JN e TSF, só 41% dos inquiridos acreditam na possibilidade de o Presidente da República aprovar a lei nesta legislatura - 31% estão convictos de que Marcelo Rebelo de Sousa não o fará e 28% "não sabe".

2.

Há detalhes em que a maioria absoluta do governo do Partido Socialista se revela uma perfeita anedota, algo que custa a entender como serem possíveis. Há ali ministros que nem saberiam estar à frente de uma qualquer sociedade popular que ainda encontramos espalhadas pelo país profundo.

O ministro Cravinho, aparentemente sem consultar ninguém, convidou Lula da Silva para discursar na Assembleia da República no âmbito das celebrações do 25 de Abril.

Tanto quanto é possível saber, nenhum ministro pode tomar uma decisão destas sem consultar a Assembleia da República.

Está criado o caldinho perfeito e não precisamos nada, mas mesmo nada, deste tipo de casos e casinhos porque já nos chegam, e sobram, os problemas que temos por aí.

Completamente inaceitável e ainda por cima uma decisão vinda de um ministro que, neste e no anterior governos, se tem pautado por mediocridades e incompetências várias.

3.

Na Turquia, o presidente da câmara do distrito de Nurdagi - que é do Partido AK, de Erdogan - foi um dos detidos no âmbito das investigações sobre a queda dos prédios após a catástrofe que caiu sobre o país que já provocaram a morte de mais de 50.000 pessoas.

 Foram presos 184 empreiteiros suspeitos de terem responsabilidade pelo desabamento de edifícios durante os terramotos que abalaram o país. A investigação tem revelado as práticas de construção corruptas nesses edifícios.

4. 

Pelo menos 59 pessoas, a maioria migrantes do Irão, Paquistão e Afeganistão, morreram na madrugada deste domingo junto à costa italiana quando a embarcação em que seguiam se afundou. A Guarda Costeira informa que é provável que o número de vítimas mortais continue a subir, uma vez que ainda não está esclarecido quantas pessoas vinham a bordo - eram certamente mais de 100.

O naufrágio aconteceu em Steccato di Cutro, perto de Crotone, na Calábria depois de o barco de madeira ter embatido contra as rochas devido ao mau tempo. A embarcação tinha partido há quatro dias de Esmirna, na Turquia.

CONVERSANDO


 Porque hoje é domingo.

E o que faz ele ao domingo?

Antes de o obrigarem a poupanças energéticas, o almoço de domingo era sempre um assado no forno.

Agora entretém-se  a ler a crónica  de Pedro Garcia no Fugas do Público.

A de ontem metia futebol e vinhos de Colares.

Durante muitos anos passou fins de semana e férias em Almoçageme.

O pai normalmente, ao lanche, matava, no Café do João, uma garrafinha de Colares branco com uma torrada aparada e mais mais para o final da garrafa, chegava um sandes de presunto em pão saloio.

O João nem sempre arranjava Colares e o pai ficava-se com um honesto Beira-Mar da velha António Bernardino Chitas.

A Biblioteca da Casa tem os livros do Eça bem como toda uma série de livros sobre o autor e em que se destacam Livros e Roteiros sobre os comeres e os beberes que abundam na sua obra, todos eles da autoria de Dario Castro Alves, um brasileiro que se encantou com a obra de Eça de Queiroz.

 Estes livros são um divertimento, ainda possíveis de serem encontrados nas feiras livrescas de ocasião, que se fazem em alguns bairros de Lisboa, também em  alfarrabistas.

Esses livros são 

Era Porto e Entardecia

Roteiro de Os Maias de Eça de Queiroz e de Todas as Comidas e Bebidas no Romance.

Era Tormes e Amanhecia 1º Volume2º Volume

 Mas vamos então ao final de crónica que Pedro Garcias escreveu no Fugas do Público:

«Quando chegámos aos tintos, para acompanhar um cozido, desiludimo-nos logo com um Dão pelo qual tínhamos muito afecto e a seguir com o mesmo Colares de 1980, que estava tão defeituoso como os que tínhamos bebido no Chiado. E foi aí que o meu amigo lembrou Eça de Queirós, julgando ser este pouco amigo dos vinhos de Colares e, pelos vistos, com razão. Para o comprovar, leu um excerto de O Mandarim, na voz do personagem Teodoro:

«Ah!, que dia! Jantei num gabinete do Hotel Central, solitário e egoísta, com a mesa alastrada de Bordéus, Borgonha, Champagne, Reno, licores de todas as comunidades religiosas - como para matar uma sede de trinta anos! Mas só me fartei de Colares. Depois, cambaleando, arrastei-me para o lupanar! Que noite!».

Eu e outro amigo comensal, benfiquista tão antiportista que é incapaz de pronunciar o nome do FC Porto, franzimos o sobrolho. Ambos percebêramos na descrição um elogio, não uma crítica aos Colares. Num exercício hermenêutico, lemos e relemos aquela passagem e a verdade é que, com um pouco de favor, a interpretação pode dar para os dois lados. Certamente que, ao escrever “mas só me fartei de Colares”, Eça queria dizer que, de entre tantos vinhos bons, só se tinha saciado com Colares, ao ponto de ficar tão radiante que foi acabar a noite a um lupanar (bordel). Fartar tinha ali o significado de saciar. Morra Marta, morra farta! Mas ao terminar a frase sem um ponto de exclamação, recurso que usara antes e depois daquela frase, também deixava no ar a possibilidade de só se ter fartado, no sentido de fastio, com os Colares - daí ter ido afogar as mágoas em colo feminino. Um ponto de exclamação acentuaria o sentido de agrado e acabaria com as dúvidas.

A tese do meu amigo sportinguista podia ganhar força nesta passagem de O Primo Basílio: «Ele teve um sorriso infeliz. - Cear! Se se podia chamar cear ir ao Grémio rilhar um bife córneo e tragar um Colares peçonhento!». Mas, se não bastassem as muitas garrafas de Colares que Eça de Queirós bebeu ao longo da vida em borgas com os amigos, há um trechinho n' Os Maias que equivale a uma verdadeira declaração de amor aos famosos e cada vez mais escassos vinhos de areia. Numa carta interesseira ao tio Guimarães, o rico e gordo Dâmaso Salcede escreve: “O meu querido tio sabe como eu gosto de si, que até estava o ano passado com tenção, se soubesse a sua morada em Paris, de lhe mandar meia pipa de vinho de Colares”.

Meia pipa é muito vinho. Dava para o homem se fartar. Julgo que o meu querido amigo sportinguista andou durante muito tempo enganado com os Colares de O Mandarim

sábado, 25 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Por estes dias, no tempo de fechar os taipais do Kioske, a continuação dos acontecimentos e notícias que marcam o passar de um ano sobre a invasão da Ucrânia.

Um começo de escrita que nunca se quer desenhar, a guerra em suma, e ninguém gosta de abordar guerras.

1.

Vladimir Putin voltou acusar que o Ocidente quer destruir a Rússia.

Simplesmente a  "operação militar especial", como lhe chama Moscovo, desencadeou uma guerra de larga escala que mergulhou a Europa naquela que é considerada a crise de segurança mais grave desde a Segunda Guerra Mundial. 

2.

Os 27 aprovaram o décimo pacote de sanções na sequência da invasão da Ucrânia. Além do conjunto de medidas punitivas equivalentes vários milhares de milhões de euros de prejuízo para a economia russa, pela primeira vez vão ser listadas personalidades e empresas de um país terceiro, o Irão.

3. 

Marcelo Rebelo de Sousa  afirmou que a guerra na Ucrânia vai durar por muito tempo e acrescenta que o Governo pode ter de ponderar novas ajudas sociais. Complementares nos próximos meses.

O Presidente da República considerou que as concentrações são normais em democracia, são "manifestações legítimas", e "haverá outras certamente", mas recusou que esteja em causa a estabilidade.

4.

Ice Merchants, de João Gonzalez, venceu o prémio de melhor-curta metragem nos Annie, em Los Angeles. É a segunda vez que uma curta portuguesa vence os mais importantes prémios norte-americanos do cinema de animação, atribuídos pela Sociedade Internacional de Cinema de Animação. A vitória acontece na antecâmara dos Óscares, agendados para daqui a duas semanas, para os quais um filme de autoria portuguesa está nomeado pela primeira vez. 

5 

A SIC Notícias está a avançar que o projeto de parecer da Inspeção-Geral de Finanças aponta irregularidades no processo que envolveu o pagamento de uma indemnização de 500 mil euros pela TAP à antiga administradora e ex-secretária de Estado do Tesouro, Alexandra Reis.

MÚSICA PELA MANHÃ


Numa entrevista, não muito recente, Carlos Tê disse que Romance de um dia na estrada, de Sérgio Godinho, Queixa das almas jovens censuradas, poema de Natália Correia cantado pelo Zé Mário Branco, «foi algo que lhe tocou que o obrigou a pensar. Ouvi-os no Página Um do José Manuel Nunes e a sensação foi “Espera lá, alguém me está a falar de um sítio qualquer e na minha própria língua”. Foi um sinal.»

«Haverá sempre alguém, em qualquer parte do Mundo, que nunca tendo lido um livro será alcançado por um bocadinho de poesia que a canção traz. Uma arma invencível e por isso planetária. Fui tocado várias vezes. Ouvir as coisas do (Leonard) Cohen, “Songs of love and hate”, por exemplo, e sem perceber exactamente o que estava em causa ou o que ele queria dizer com aquilo, saber que estava ali poesia. Que a canção entrava pela poesia e que a poesia entrava pela canção.»

Por fim: «Nunca me lamentei por estar sozinho.»

As duas canções de que fala Carlos Tê, são as mesmas que me levaram a comprar os discos do Sérgio e do Zé Mário, duas canções notáveis, principalmente Romance de um dia na estrada, que cheguei a ter em EP, editado pela Guilda Música, Prémio de Imprensa de 1971, misteriosamente desaparecido, como tantos outros, muito antes do LP.

Andava há já vinte dias
Ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para a morte
Um dia fraco, outro forte

Quando um barulho de cama
A voltar-se de impaciente
Me fez parar de repente
Era noite e o casarão
Não tinhas lados nem frente
Dentro havia luz e pão
Me fez parar de repente

Ó da casa, abram-me a porta
Fiz as luzes se apagarem
Cheguei-me mais à janela
Vi acender-se uma vela
Passos de mulher andarem
E uma mulher muito bela
Chegou-se mais à janela

Não tenhas medo, eu não trago
Nem ódio nem espingardas
Trago paz numa viola
Quase que não fui à escola
Mas aprendi nas estradas
O amor que te consola
Trago paz numa viola

Meu marido foi pra longe
Tomar conta das herdades
Ela disse "Companheiro"
Eu disse "Vem", ela "Tu primeiro"
"Tu que me falas de estradas"
"E eu só conheço um carreiro"
Ela disse "Companheiro"

A contas com a nossa noite
Afundados num colchão
Entre arcas e um reposteiro
Descobrimos um vulcão
Era o mês de Fevereiro
E o Inverno se fez Verão
Descobrimos um vulcão

E eu que falava de estradas
E só conhecia atalhos
E ela a mostrar-me caminhos
Entre chaminés e orvalhos
Pela manhã, sem agasalhos
Voltei a rumos sozinhos
E ela a mostrar-me caminhos

Andarei mais vinte dias
ao frio, ao vento e à fome
Às escondidas da sorte
Um dia fraco, outro forte
Que o dia em que se não come
É um dia a menos para a morte
Um dia fraco, outro forte
Um dia fraco, outro forte

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS



 Um ano de guerra na Ucrânia.

Mortos, feridos, estropiados, desaparecidos, desalojados, refugiados.

De um lado e de outro, milhares e milhares de gente destroçada.

Deixemos o custo monetário de lado por impossibilidade de se saber o valor.

Também histórias mal contadas, opiniões que variam com o vento e do lado donde ele sopra.

Uma tragédia sem fim à vista!

1.

Um ano após a invasão russa à Ucrânia, o custo de vida disparou e nem os apoios do governo conseguiram evitar o impacto. Um ano mais tarde, o custo de vida está brutalmente mais alto, com especial reflexo na energia, alimentação e habitação. Só nos alimentos básicos, o cabaz  de compras ficou 43 euros mais caro. 

2.

A China avançou com uma proposta de 12 pontos para acabar com os combates na Ucrânia.

A presidente da Comissão Europeia e o secretário-geral da NATO desvalorizaram esta sexta-feira este plano de paz chinês para a guerra na Ucrânia, considerando que Pequim "não tem credibilidade", pois "tomou partido" e assinou uma "parceria ilimitada" com Moscovo.

3.

A Assembleia da República cumpriu hoje um minuto de silêncio pelas vítimas da guerra da Ucrânia, no dia em que se assinala um ano desde o início da invasão russa, sem a presença do PCP e da deputada única do  PAN.

4.

No relatório da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais contra as Crianças na Igreja Católica Portuguesa descrevem-se casos de promiscuidade entre as autoridades militares, civis e eclesiásticas no encobrimento das acções praticadas.

5.

O Expresso avança esta sexta-feira que a Federação Portuguesa de Futebol  se recusa a dar informações sobre os "contratos de trabalho celebrados ao longo dos anos com Fernando Santos e com os membros das direções de Fernando Gomes", uma posição que "choca com a assumida pelos juristas da Comissão de Acesso aos Documentos Administrativos, para quem a FPF está obrigada a especiais deveres de transparência e de publicidade".

6.

A Endesa teve lucros de 2541 milhões de euros no ano passado, um aumento de 77% em relação a 2021.

7.

As 250 maiores empresas de retalho do mundo aumentaram as receitas em 8,5%, para 5,2 biliões de euros no ano fiscal terminado em 30 de junho de 2022.

 No ranking da Deloitte, a Jerónimo Martins, dona do Pingo Doce, aparece no 47.º lugar, tendo subido duas posições em relação ao ano anterior.

Por sua vez, a Sonae, que detém o Continente, está desta vez no 143.º lugar, subindo uma posição face ao top do ano anterior.

MOSCA DO SERVIÇO DE URGÊNCIA

A velha está sentada na sala de espera.
Chegou amparada pela filha, que a depositou ali
enquanto trata dos papéis. A aflição
deve ter sido tão súbita e imperiosa,
que a velha vem descomposta,
não houve tempo para atender a pudores.
Perdeu algures um chinelo.

Está sentada, muito branca, e parece
mascar as dores com as gengivas nuas.

Tem a morte pousada na cara, sob a forma
de uma mosca insistente e de ar atarefado.
Não tem forças para a sacudir.
A mosca aproxima-se da boca, depois parece
interessar-se pelo nariz. Delicia-se
com o muco ao canto do olho, como a criança
que come a ocultas um gelado interdito.
É como se estivesse em casa e percorresse
os aposentos ao sabor dos afazeres.
Cansada do rosto, levanta voo
e vai pousar, desta feita, numa mão.
Mas breve volta atrás, como se se tivesse
esquecido ali de alguma coisa,
e demora-se um pouco a tentar lembrar o quê.

Esfrega uma na outra as patas dianteiras,
celebrando a vitória que logo virá.

A velha já nem se dá conta
desse penúltimo escárnio da morte.
Está visivelmente madura para ela,
pronta a entregar-lhe os destroços do corpo.

Consumada a posse daquele território,
a mosca vai no seu voo fortuito
em busca de mais carne a requerer.
Há dezenas de doentes na sala.
Apalpa-os um por um, como se faz aos figos,
para saber qual deve ser comido
em primeiro lugar.

O mais certo é que acabe - mais dia, menos dia -
por devorá-los todos.

A.M.Pires Cabral

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

RECORDAR, APENAS...

Amanhã cumpre-se um ano sobre a invasão russa à Ucrânia.

Um fracasso social diz respeito a TODOS.

Quando começou a guerra na Ucrânia Marcelo Rebelo de Sousa voltou a lembrar as pessoas em situação de sem-abrigo.

«O país tem tido outros problemas, mas não esquece nem pode esquecer este desafio, que também é um desafio nacional. E não é só um desafio quando chega o Inverno, nem só nas áreas metropolitanas, é um desafio nacional»

O presidente da República tinha chamado a Belém as duas maiores câmaras municipais do país para, juntamente com a secretária de Estado da Segurança Social,  Cláudia Joaquina, fazer o ponto de situação sobre a implementação da estratégia nacional para a integração de pessoas sem-abrigo. O Governo aprovara em Junho a estratégia para o período 2017-2023.

Que foi feito nestes anos?

Sejamos directos: pouco ou nada?

POSTAIS SEM SELO

 

A verdade das coisas está perto.

Luís Amaro

O FECHAR DOS TAIPAIS


 «Agora que as canções, boas ou más, memoráveis ou insignificantes, circulam livremente sem que alguém as trave ou proíba, convém recordar que no Portugal de há meio século a censura a canções e discos ainda estava bastante activa. Talvez por isso muita gente tenha assistido, com espanto, à vitória no Festival RTP de uma canção chamada Tourada. Com letra do poeta José Carlos Ary dos Santos e música de Fernando Tordo, que ali a defendeu, cantando-a, na noite de 26 de Fevereiro de 1973 (no palco do Maria Matos, em Lisboa), acabou por ir à Eurovisão, no Luxemburgo, ficando em décimo lugar (num total de 17). Porém, mais do que a vitória no festival, o relevo da canção ia para o que nela transparecia de escárnio face a uma ditadura travestida de “Primavera” que insistia em atolar-nos num “Inverno” sem fim à vista.»

Nuno Pacheco no Público

1.

A Assembleia da República vai assinalar o primeiro ano da guerra na Ucrânia, que teve início a 24 de fevereiro de 2022, com um debate temático e outras iniciativas, que arrancam esta quinta-feira com a iluminação da fachada do edifício do Parlamento com as cores da bandeira ucraniana, azul e amarelo.

2.

Artigo de João Pedro Pincha no Público:


«Falar desta guerra como uma luta em defesa da democracia cimentou a unidade entre Europa e Estados Unidos, mas está longe de convencer na Índia, na China ou na Turquia.

 Se europeus e norte-americanos estão alinhados no desfecho que consideram ideal — a vitória ucraniana com a reconquista de todos os territórios ocupados pela Rússia —, os cidadãos da Índia, da Turquia, da Rússia e da China são maioritariamente favoráveis a que a guerra termine o quanto antes, mesmo que isso implique cedências territoriais ucranianas.»

3.

O Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou, numa decisão publicada nesta quinta-feira, que o Estado português não tem de indemnizar os clientes do Banco Espírito Santo, que acumularam prejuízos avultados com a compra de produtos financeiros que a entidade bancária apresentava como seguros. Para os juízes europeus, os estados não têm "qualquer obrigação de cobrir as dívidas de entidades privadas". 

4.

Empresas de trabalho temporário alcançam facturação recorde de 1 550 milhões em 2022

5.

Os resultados da última sondagem do Centro de Estudos e Sondagens de Opinião da Universidade Católica para o PÚBLICO, RTP e Antena 1 dão aos socialistas 32% das intenções de voto e 31% aos sociais-democratas. Não é o PSD que melhora, é sobretudo o PS que piora: se as eleições legislativas se realizassem agora, haveria um empate técnico entre os dois maiores partidos e a direita conseguiria, toda junta, a maioria absoluta.

Dos inquiridos mais de metade (53%) classifica o desempenho do governo  de mau ou muito mau, mas 70% defendem que o melhor para o país é cumprir o mandato até 2026.

O MAR É LONGE

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.


Pedro Tamen

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


Quarta-feira de Cinzas

Para os católicos o tempo de sacrifício, meditação, do jejum de 40 dias e 40 noites de Cristo, conforme lhes consta os textos que grande parte não leu.

Que grande parte dos padres aproveitem este tempo para olharem os pecados cometidos. Mas os padres não lêem os livros que não são da seita. Por isso a vida dos mortais lhes passa completamente ao lado. E dizem barbaridades sem fim e sem tino. Atente-se nas afirmações que, de há tempos para cá, temos lido do Bispo do Porto, D. Manuel Linda.

O analfabetismo da esmagadora maioria dos senhores padres é aflitivo, triste, trágico.

Andaram pelos seminários a fazer o quê?

1.

António Sampaio da Nóvoa: «Segundo a UNESCO, no mundo, metade dos alunos terminam a escola sem terem aprendido praticamente nada».

2.

População de Portugal é a que mais está a envelhecer na União Europeia. A idade média da população em Portugal fixou-se nos 46,8 anos em 2022. a segunda mais elevada entre os 27 Estados-membros da União Europeia (UE), tendo sido a que mais aumentou nos últimos 10 anos, revelam dados do Eurostat.

3.

«Na sequência do terramoto na Síria, Israel bombardeou Damasco. O Público diz que o ataque matou pelo menos 5 pessoas, a CNN fala em pelo menos 15 mortos. Sentem o coro dos indignados?

 Lido na Antologia do Esquecimento

4.

Joe Biden em Varsóvia:

«A Rússia nunca vencerá na Ucrânia.»

5.

O Presidente da República anunciou esta quarta-feira que pretende entregar presencialmente o Grande-Colar da Ordem da Liberdade ao seu homólogo da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e reiterou a sua vontade de se deslocar a Kiev "logo que seja possível".

 6.

 Pedro Tadeu no Diário de Notícias:

 «A conclusão mais importante do que Vladimir Putin disse ontem no discurso sobre o estado da nação russa é a de que o mundo está à beira de defrontar uma guerra nuclear.

 Quando o chefe de Estado russo anunciou que suspendia a participação do país na execução do acordo nuclear New START, assinado em 2010, que previa cortar para metade as armas nucleares estratégicas russas e norte-americanas, deu mais um passo na caminhada, paulatina e louca, que ele próprio e Joe Biden estão a fazer rumo a um terrível holocausto na Europa.

 Putin explicou a medida por os EUA estarem a exigir acesso às bases russas para fiscalizarem o cumprimento desses acordos, mas negarem aos russos um acesso recíproco às bases norte-americanas.

 Por outro lado, Putin acusou ainda o governo de Biden de estar a desenvolver secretamente novos tipos de armas nucleares, violando assim os pactos existentes.

 Seja mentira, seja verdade, o ponto é este: à medida que a NATO se envolve cada vez mais no conflito na Ucrânia, enviando cada vez mais armas, fechando deliberadamente e ostensivamente todas as portas a um início de diálogo, exigindo a "derrota total da Rússia" e recusando qualquer tipo de compromisso, em vez de melhorar a situação, está a piorá-la.»

7.

Dizem todos os jornais, rádios e televisões que a selecção feminina de futebol fez história ao apurar-se, pela primeira vez,  o primeiro para um mundial de futebol.

8.

Paulinho, o carismático roupeiro do Sporting, hoje no Record: «Entre mim ou António Costa, quem é mais reconhecido na rua? Ele não tem hipótese!» 

BLOGUEANDO POR Aí


 Neste momento, Largo da Memória será o blogue mais antigo que percorre, bonitas  fotografias, que acompanham textos simples que, por vezes, enfrentam  assuntos espinhosos mas em que  hipocrisia está ausente das pedras do Largo.

Gostou da fotografia de hoje. Deixou lá um comentário:

 «Todos os dias por aqui passa, sempre se lhe oferece escrever uma, duas palavras mas nem sempre acontecem, porque os comentários que pensa escrever tornam-se palavrosos e, por vezes, pouco coincidentes com o texto em apreço.

Mas hoje não pode fugir porque a fotografia remete-o para tempos antigos em que, nascido em Lisboa, sempre gostou de Cacilhas e esta fotografia do Farol, agora tão diferente, remete-o para lembranças/saudades quando, aos domingos, ia almoçar àqueles tão populares restaurantes do Ginjal com, como dizia José Quitério, existia a beleza de comer uma caldeirada de peixe olhando as fragatas no Tejo. Lembra-se que o que mais frequentava era o «Grande Elias» e vem à memória, quando se pediam os cafés, a frase de um dos empregados: «e um anizinho para as senhoras e um bagacinho para os cavalheiros».

Apenas podia dizer: «bonita fotografia», como todas as que aqui são colocadas, mas, como disse, é um palavroso.»

ÀS VEZES

Às vezes sentimos que o tempo chegou ao fim, que

as portas se estão a fechar por trás de nós, que já nenhum ruído 

de passos nos segue; e temos medo de nos voltar, de dar

de frente com essa sombra que não sabíamos que nos

perseguia, como se ela não andasse sempre atrás de nós,

e não fosse a nossa mais fiel companheira. Às vezes,

em tudo o que nos rodeia, encontramos essa impressão de

que não sabemos onde estamos, como se o caminho para

aqui não tivesse sido o mesmo, desde sempre, e tudo

devesse ser-nos, pelo menos, familiar. A solução é pegar 

no fim e metê-lo à boca, como se fosse uma pastilha

elástica, derreter o sabor que o envolve, por amargo

que seja, e no fim pegar nesse resto que ficou e, tal 

como se faz à pastilha elástica, deitá-lo fora. Para

que queremos nós o nosso próprio fim? Já bastou

tê-lo saboreado, derretido na boca, sentido o seu

amargo sabor. Então, libertos do nosso fim, veremos

que as portas se voltarão a abrir, que a gente continua

a andar à nossa volta, que a sombra já não nos mete medo,

e que se nos voltarmos teremos pela frente o rosto

desejado, o amor, a vida de que o fim nos queria ter privado.


Nuno Júdice 

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS

Vladimir Putin acusou, esta terça-feira, o Ocidente de ser o instigador da guerra na Ucrânia, garantindo que tentou sempre a via diplomática para chegar a acordo com os países da Nato, evitando o conflito. "Passo a passo" os objetivos serão alcançados na Ucrânia, promete o líder russo, que suspendeu a participação no único acordo de não-proliferação de armas nucleares em vigor entre os EUA e a Rússia, o "New START

 «Foram eles que começaram a guerra. Nós estamos a tentar pará-la", afirmou, no discurso do Estado da Nação, em que caracterizou a Rússia como um país vítima da hegemonia ocidental e que sempre procurou a paz. "Nós defendemos a vida, o Ocidente quer poder", garantiu, dando o exemplo da dispersão de bases dos EUA pelo Mundo.

1.

Falta de camas em lares de idosos atira preços para os 1500 euros. As 100 mil camas existentes não respondem às necessidades do país.

2.

O PSD fez integrar na Comissão Parlamentar de Inquérito à TAP, Patrícia Dantas deputada que está a ser julgada por fraude na obtenção de subsídio  num megaprocesso centrado na entretanto extinta Associação Industrial do Minho, 120 arguidos e está relacionado com uma alegada fraude de cerca de 10 milhões de euros, envolvendo fundos europeus.

 Luís Montenegro não vê qualquer problema:

«Essa deputada exerce funções desde o início da legislatura, já esse processo corria termos, já ela tinha essa posição processual e está a fazer aquilo que já fazia antes de haver esta comissão de inquérito. Portanto, não há aí nenhuma novidade».

3.

Segundo o Jornal de Notícias, m padre de Loures, juntamente com a sua companheira foram acusados pelo Ministério Público de desviar cerca de 800 mil euros de IPSS -  instituições de solidariedade social (IPSS).

O padre Arsénio Isidoro e uma mulher, com quem mantinha uma relação amorosa, desviaram o dinheiro de seis instituições para fazerem uma vida de luxo. Viagens, restaurantes, um Porsche, roupas caras, um barco e uma vivenda em Peniche terão sido alguns dos bens comprados com o dinheiro angariado e destinado a apoiar idosos e crianças.

4. 

Fernanda Cãncio no Diário de Notícias de hoje:

«Não é decerto a conduta de uma organização arrependida e que busca a redenção na verdade e na justiça; não é contrição que vemos nos pedidos de perdão, mas disfarce, cálculo, determinação na sobrevivência a todo o custo. A arrogância suprema de quem acha que se se safou até agora se safará sempre - e decerto não crê em justiças divinas, ou sequer num poder maior que o seu, muito menos na justiça humana ou na coragem dos governos.»

5.

Da secção «Dinheiro Vivo» do Diário de Notícias:

«Com 1600 cavalos de potência, 380 km/h de velocidade máxima, 2,5 segundos para chegar a 100 km/h e 8,8 milhões de euros de preço, o Bugatti Centodieci é o carro mais raro de entre todos aqueles que os craques da bola guiam. Está nas mãos de Cristiano Ronaldo, um jogador muito mais caro do que o seu bólide mas, embora naqueles piques dele não pareça, não tão rápido. CR7, que tem ainda um McLaren Senna, entre outros objetos de coleção, é dono de um dos únicos dez Bugatti Centodieci do planeta.»

6.

Lê-se no Público:

Uma portaria conjunta das secretarias de Estado do Orçamento e das Infra-Estruturas, de 16 de Fevereiro, autoriza a CP “a assumir encargos relativos ao contrato de prestação de serviços para o aluguer e manutenção de 18 automotoras diesel série 592 para prestação de serviços em linhas não electrificadas” no valor de 19,6 milhões de euros, "entre 2023 e 2025”. Os encargos orçamentais prevêem uma primeira tranche de 7,7 milhões já este ano, 7,4 milhões em 2024 e 4,5 milhões em 2025.

Esta prorrogação do aluguer das automotoras espanholas deve-se à derrapagem das electrificações das linhas do Algarve, Oeste e Douro, cujas obras de modernização somam, pelo menos, nove anos e meio de atraso.