terça-feira, 17 de setembro de 2019

QUOTIDIANOS


O calor não me favorece a leitura.
Nunca favoreceu.
Sempre gargalhei face a essa história dos livros para férias.
Livros é um hábito de todos os dias.
Mas este calor que Setembro logrou oferecer, faz com que tropece nos livros… não os leia… não os releia…
Em O Caçador de Histórias, Eduardo Galeano tem esta frase: «escrever cansa, mas consola.»
O calor não me permite a leitura, a escrita.
O Cais ressente-se.
Desculpas parvas é o que é, diz o outro.
Que sejam.
E ainda faltam tantos dias para que seja Natal outra vez.

Legenda: fotografia de Roger Schall

O DESEJAR SER JORNALISTA


Assim foi nascendo em mim a paixão pela escrita. E comecei a enviar textos para os suplementos juvenis do Diário de Lisboa, dirigido pelo Mário Castrim e do República. Alguns foram mesmo publicados, quase todos sob pseudónimo, por influência – imagine-se a presunção! – dos heterónimos de Fernando Pessoa. A certa altura, fui ao República entregar um texto, e quem me recebeu foi o Pedro Foyos. Disse-me «venha daí comigo, que estou com pressa» e eu fui atrás dele até às oficinas. Nunca antes tinha estado numa tipografia e fiquei fascinado com aquilo. Era uma tipografia tradicional, com as suas linotypes, a rotativa barulhenta… Ainda guardo, na minha memória olfactiva, o cheiro intenso a tinta que impregnava o ar. Depois, voltámos à redacção e, espreitando lá para dentro, vislumbrei velhas secretárias de madeira, pejadas de jornais. Ouvia-se o matraquear de uma máquina de escrever. Foram momentos importantes, porque, talvez tenha sido então que, pela primeira vez na minha vida desejei ser jornalista.

Depoimento de Daniel Ricardo em Memórias Vivas do Jornalismo

Legenda: fotograma do filme Deadline de Richard Brooks com Humphrey Bogart

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

NÃO PENSAR EM NADA


Não respondi. Voltei a acender o cachimbo. Faz-nos parecer pensativos quando não estamos a pensar em nada.

Raymond Chandler em Perdeu-se Uma Mulher

Legenda: Greta Garbo

domingo, 15 de setembro de 2019

DITOS & REDITOS


Beira do Mar de Setembro.

Aquilo em que as pessoas acreditam importa.

O calculismo põe as pessoas velhas.

A desigualdade afectiva é uma máquina de fazer pobres.

É preciso união e não nacionalismos.

Tudo o que é bom é feito devagar ou com vagar.

A medicina é uma arte do comércio.

Quando se começa a odiar nunca mais se pára.

Legenda: pintura de Alberto Baldelli

sábado, 14 de setembro de 2019

O HOMEM DOS COMBOIOS


Quando estava de férias no Outono de 1935, o meu pai viu  num anúncio que estava aberto um concurso na função ´publica pata um lugar de classificador de correspondência e e telegrafista na estação central dos correios de Edimburgo, e disse-me que eu devia concorrer. E como naquela época os filhos faziam exactamente o que os pais lhe diziam para fazer, ou pelo menos eu fazia, fui prestar provas aos dezasseis anos. Para grande surpresa minha e da minha família fiquei em primeiro lugar em toda a cidade, e na manhã em que o envelope castanho chegou o meu pai disse-me que eu podia deixar a escola nesse mesmo dia.

Eric Lomax em Uma Longa Viagem

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

CACHIMBO


Perdi-o. E gostei tanto desse cisne negro, companheiro Leal dos bons e maus momentos. Não foi a primeira vez que perdi um cachimbo, mas a última é sempre mais dolorosa.

Perdi, não sei onde.


Dir-se-á que o facto não interessa a ninguém. De acordo.


Todavia, noite alta, tento relembrar os lugares onde o podia ter deixado. No transporte? No café? No jornal onde deixei o meu escrito numa correria para o emprego? No emprego? Em que andar de que reunião? Ou foi depois, ao almoço de peixe grelhado naquela tasca (que o pretende ser), ou quando dei um salto ao correio? Teria sido na sala de montagem onde estive a trabalhar, cheia de filmes, de coladeiras, entradas, saídas? No Conservatório, à noite? Talvez na Secretaria onde tive de preencher um papel selado? Na leitaria do bairro Alto onde bebi uma coca entre duas aulas? No cinema da meia-noite, para não perder enfim o filme tantas vezes perdido?


Tanta gente, tantos lugares; e eu em todos imagino o meu gesto com o cachimbo na mão. Imagino e vejo. E vejo o cachimbo, abandonado. Como se em todos os lados tivesse deixado o meu cisne negro, companheiro leal.


Ninguém tem nada com isto, bem sei.


Todavia, agora, noite alta, cismo quantos e diferentes lugares e espaços frequentei num dia banal, frequentei, estive, vivi, existi, para estar, existir. Odisseia em ponto pequeno. Sobre isso James Joyce escreveu um grande romance. Em vez de Lisboa, Dublin. Tanto faz.


Ele, um grande romance. Eu, esta pobre nota; na origem, porém, a mesma violenta vertigem da vida inominável.

Jorge Listopad de Secos &Molhados em Fruta Tocada por Falta de Jardineiro

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

E COMO LHE IMPORTA VIVER


O escritor não é ser passivo ante o mundo que o cerca. Apaixona‑se sempre. A diferença entre um escritor e um aprendiz, ou um medíocre, é que naquele nunca a paixão se faz retórica. Recusa padrões, fórmulas, os caminhos fáceis do naturalismo, mesmo que surjam, como agora, sob disfarces de vanguarda. Escolhe, representa, desencadeia a percepção e a imaginação do leitor: entrega‑lhe um instrumento, um estímulo, para penetrar na realidade e interpretá‑la também por sua vez. Para que cada leitor, outro homem biológico e social, sensitivo e diferenciado, recrie a seu modo, por vias algumas vezes insuspeitadas, a nova realidade que o escritor teceu. Todos eles, individual e colectivamente, participam na criação constante de um corpo vivo, projectado em milhentas imagens que se focam e desfocam ao sabor de quem lê e reimagina, segundo o tono que os habita. Também sob a coacção do grupo social, familiar ou político de que participam; segundo também o momento, o exacto momento psicológico em que o escritor cria e o público lê ou medita. Mas voltemos à minha experiência espontânea, logo depois premeditada. Muitos chamavam recolha, talvez impropriamente, a esta busca de contacto humano; outros apoucaram o processo, impropriamente também. Na verdade, não se recolhem os materiais da vida; vivem‑se. Ou inventam‑se. Mas escolhem‑se as vivências ou as invenções quando um escritor sabe para que vive. E como lhe importa viver.

Alves Redol, Breve História de um Romance em Avieiros

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Alibi Fatal

Rex Stout
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 258

Dorothy deu a sua gargalhadinha especial.
- Isso não passa de exuberância cordial congénita. Por outro lado, sinto um grande desejo de os proteger. Aliás, sinto mais ou menos assim acerca de muitos homens, daqueles com quem não simpatizo. São tão idiotas!

terça-feira, 10 de setembro de 2019

AQUELES COMBOIOS


 A primeira vez que fui, ainda não tinha chegado à Régua, perguntei: «Ainda falta muito para o Porto?». Era preciso meter água, era preciso meter lenha, depois manobras à espera do outro. Mas também eram uma animação, aqueles comboios. Concertinas, gaitas-de-beiços, comezainas, garrafões, tipos a contarem anedotas, tipos a venderem romances de cordel.

Manuel Hermínio Monteiro

Legenda: fotograma do filme Manhã Submersa de Lauro António

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

NOTÍCIAS DO CIRCO


Esperei por Setembro.
Mas não para enfrentar temperaturas de 27º.
Tenho dificuldades várias face a estas temperaturas.
Dizem que vão aumentar mais.
Vou aproveitando proveitei para colocar alguma ordem nas papeladas.
Encontrei o recorte que encima o texto.
Pertence ao Público de 23 de Agosto.
O calor não me facilita qualquer comentário.
Seria necessário?

A CASA PERTO DO MAR


As casas que tive tiraram-mas. Calhou
que fossem anos nefastos guerras desolações expatriamentos;
por vezes o caçador encontra as aves de passagem
por vezes não as encontra; a caça
era boa no meu tempo, os chumbos apanharam muitos;
os outros vagueiam ou enlouquecem nos refúgios.

Não me fales do rouxinol nem da cotovia
nem da pequena arvéola
que escreve algarismos na luz com a sua cauda;
não sei muito de casas
sei que têm a sua tribo, mais nada.
novas ao princípio, como as crianças de colo
que brincam nos jardins como as franjas do sol,
bordam coloridas persianas e brilhantes
portas sobre o dia;
quando o arquitecto acaba mudam,
enrugam ou sorriem ou mesmo teimam
com os que ficaram com os que partiram
com outros que voltariam se pudessem
os que se perderam, agora que o mundo
se tornou num imenso hotel.

Não sei muito de casas,
lembro-me da sua alegria e da sua tristeza
às vezes quando paro;
                                            mesmo
às vezes, perto do mar, em câmaras nuas
com uma cama de ferro sem nada meu
olhando a aranha nocturna cismo
que alguém se prepara para vir, que o enfeitam
com roupa branca e negra com jóias multicores
e em seu redor falam baixo damas veneráveis
cabelos cinzentos e rendado escuro,
que se prepara para vir e despedir-se de mim;
ou, uma mulher com pestanas em hélice talhe profundo
voltando de portos meridionais,
Esmirna Rodes Siracusa Alexandria,
de cidades fechadas com as quentes persianas,
com perfumes de frutos de ouro e com ervas mágicas,
que sobe os degraus sem ver
os que adormeceram debaixo das escadas.

Sabes as casas teimam facilmente, quando as despes.

Yorgos Seferis, tradução de Joaquim Manuel Magalhães.
Poema encontrado em Um Mar de Filmes, Cinemateca Portuguesa , 1998.
Legenda: pintura de Edward Hopper

domingo, 8 de setembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa

Selecção , prefácio de Eugénio de Andarde
Campo das Letras, Porto, Dezembro de 2002


Onde mora a memória obscura, onde
esse cavalo persiste como um relâmpago de pedra,
onde o corpo se nega, onde a noite ensurdece,
caminho sobre pedras na minha casa pobre.

Não conheço esse lago, não fui a esse país.
Mas aqui é um termo ou princípio novo.
Com a baba do cavalo, com os seus nervos mais finos
reconstruí o corpo, silenciei os membros.

Não se estancou a sede, no mesmo caos de agora,
mas a língua rebenta, as vértebras estalam
por uma nova língua por um cavalo que una

a terra à tua boca, e a tua boca à água.

Poema de António Ramos Rosa

A CARREIRA DA SAUDADE


No tempo em que os blogues eram interessantes, passava algum tempo a lê-los.

Fiz gratificantes descobertas , muitos acabaram e, hoje, os dedos das mãos dão para saber quantos blogues ainda me levam a uma leitura.

Essa coisa infantil, leviana, quiçá idiota, que dá pelo nome de «Facebook» matou os blogues.

Porque um blogue dá trabalho, pouco ou muito, dá trabalho, necessita de um outro tratamento, enquanto que o «Facebook» tem aquela ligeireza que dispenso.

Quando digo que não tenho «Facebook», as pessoas lançam um indignado: O quê? Não tens «facebook?»

O intróito serve para falar de O Largo da Memória, blogue que frequento há uns bons 10 anos.

Não lembro como entrei naquele largo, mas fiquei visita pelas fotografias, pelas histórias, pelos dizeres, pelas ideias, pelo sossego, pelo devagar dos dias, das gentes, coisas simples, aquelas coisas insignificantes que nos emocionam até aos limites da ternura.

É do Largo da Memória que retiro este comovente A Carreira da Saudade, texto de Joaquim Nascimento. A imagem também pertence ao Largo da Memória:

«Mais do que o seu percurso entre a Meda e o Pinhão, a carreira era para nós a velha camioneta que vinha todos os dias pela EN 222 e nos ligava à Vila, ao Comboio e ao Mundo, pela linha do Douro.
A carreira da Meda ou a carreira da Viúva passava nos Pereiros todas as manhãs, pelas oito horas e trinta minutos, e regressava às quatro e meia da tarde, depois de subir penosamente, curva-contra-curva, Pinhão, Bateiras, Casais, Ervedoza, até ao planalto da Pesqueira, num esforço notável para a provecta idade dos veículos que a firma Viúva Carneiro & Filhos, Ld.ª escolhia para fazer este percurso diário e exigente.
À ida, chegava à Pesqueira um pouco depois das nove, para que as pessoas dos Pereiros, do Vilarouco, do Vidigal e mesmo de freguesias mais afastadas da EN 222, como Valongo, Trevões e Vázeas, pudessem estar na Vila à hora de abertura das repartições onde a burocracia as chamava, sempre com algum receio da sua parte e quase nunca com qualquer proveito.
À vinda, passava outra vez pela Pesqueira, um pouco depois das três horas e ali fazia uma curta espera. Mostrar-se na Avenida para ver passar a carreira constituía a actividade social mais importante da gente da Vila, podendo dizer- se que o trabalho da parte da tarde só se iniciava depois de a carreira ter passado, ou era interrompido durante esse período e não vestir a melhor roupa para solenizar esse momento desqualificaria qualquer cidadão.
Neste curto intervalo desfilavam pela Avenida funcionários, artistas, comerciantes, desocupados, donas de casa virtuosas e meninas casadoiras, bisbilhotando que pessoas tinham chegado e imaginando o destino da viagem das que seguiam, assim alimentando o seu imaginário de moradores desta pequena vila do interior, onde nada se passava desde os tempos do Senhor Marquês de Pombal e da Real Companhia Velha.
Alguns grupos exibiam distintivos profissionais por si criados, como os alfaiates que espetavam na lapela do seu casaco escuro uma agulha onde enrolavam um bom pedaço de linha branca com as duas pontas a esvoaçar e, se estou a ver, punham mesmo ao pescoço a fita métrica do ofício feita de linóleo de cores berrantes.
A carreira da Meda também servia de relógio, nesse tempo em que os relógios eram raros e não se usavam todos os dias. “Já passou a carreira?” equivalia a perguntar “que horas são ?” e responder“ passou mesmo agora” era o mesmo que dizer “são oito e meia” se era de manhã, ou “quase cinco horas” se era de tarde, e dizer “hoje nem me dei conta de ter passado a carreira”, equivalia a afirmar “andei tão absorvido que nem dei pelas horas terem passado”.
Em boa verdade, a maior parte das vezes nem se via passar a carreira, pois a estrada velha, assim chamávamos à estrada nacional lá em cima, por contraposição ao pequeno ramal finalmente aberto e a que chamávamos a estrada nova, a estrada velha, dizia, não se avistava de todo o povo e, por isso, se quiséssemos ser rigorosos, teríamos que dizer, ouvi passar a carreira, pois era o ruído do seu cansado motor a arrancar para a paragem seguinte, na Horta, que chegava cá em baixo e despertava os nossos sentidos.
A nós, os dos Pereiros, onde o tempo se calculava pelo Sol, sem grande rigor, a carreira da Meda iniciou-nos no dever de cumprir um horário, pois toda a gente aceitava a obrigação de estar a horas, pois “ a carreira não espera por nós, nós é que temos que esperar por ela” , como responderia qualquer pessoa que subisse mais cedo até à paragem, dois quilómetros mais acima, a quem observasse “ainda é cedo, tens muito tempo” , e assim se aprendia, com naturalidade e os meios ao dispor, o dever de pontualidade.
A carreira da Meda também cumpria com muito rigor o seu compromisso de pontualidade com os passageiros e raramente terá chegado à paragem dos Pereiros, depois da sua hora, a menos que fosse Inverno e a neve lhe tivesse pregado alguma partida, e não consta que alguma vez tenha perdido, no Pinhão, o combóio descendente, ou que tenha daí partido antes de ver instalados todos os passageiros do combóio ascendente que a procuravam e isto constituía, ao fim e ao cabo, a obrigação maior deste transporte colectivo de passageiros e bagagens empilhadas no tejadilho, quando acabou o compartimento “J”.
Pela carreira da Meda se emigrou para o Brasil, para a África, para a França e para a cidade grande, com o coração apertado pela saudade e pelo receio do desconhecido e pela mesma carreira alguns regressaram um dia, umas vezes com a felicidade estampada no rosto, outras vezes mal disfarçando nas suas rugas cavadas as desilusões de uma vida, pois a sorte, contrariamente ao Sol quando nasce, não é para todos.»

sábado, 7 de setembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Podia ter sido um milionário mas o dinheiro arruinou-me a vida.

Leonard Cohen em A Chama

RELACIONADOS


Neste número 7 das Notícias do Bloqueio encontramos poemas de:

Joaquim Namorado
João Rui de Sousa
Alexandre O’ Neill
Jean Todrani, poemas traduzidos por Egito Gonçalves

Em separata, um desenho de Domingos Pinho a ilustrar o poema Ode de Mário Dionísio.



OLHAR AS CAPAS


Notícias do Bloqueio
Nº 7


Direcção literária: Egito Gonçalves, Papiniano Carlos
                                 Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro
Gráfica: Álvaro A. Portugal
Desenhos: Domingos Pinho
Porto, Março de 1960

Soneto

Sonetos garantidos por dois anos.
E é muito já, leitor que mos compraste
Para encontrar a alma, que trocaste
Por rádios, frigoríficos, enganos ...
Essa tristeza sobre pernas faz-te
Temeroso e cruel e tonto e traste.
Nem pior nem melhor que outros fulanos,
Não vês a Bomba e crês nos marcianos   ...
E é para ti que escrevo, é para ti
Que um verso lanço — O mão! — como o destino,
e nele ponho mesura, desatino,
Rasgo, invenção, lugar-comum, protesto?
Antes para soldado ou para resto,
Escroto de velho, ronco de suíno ...

Alexandre O’ Neill

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

POSTAIS SEM SELO


As festas do Avante, por muito que custe aos anticomunistas, são magnificas.

Miguel Esteves Cardoso, na Sábado, 13 de Setembro de 2007

Legenda: imagem do Expresso.

NÃO HÁ FESTA COMO ESTA!


Abre hoje a 43ª Festa do Avante.

Ruben de Carvalho deixou-nos no passado dia 11 de Junho.

Pela primeira vez não teremos a sua presença física de Ruben de Carvalho.

A Festa é um trabalho colectivo, mas desde o primeiro instante teve a talentosa e sábia intervenção do Ruben.

Relembro, naquele ano de 1976, o tempo que demorei até entrar no apinhadíssimo  pavilhão da velha FIL na Junqueira.

A Festa que Portugal nunca tinha visto!

O Mário-Henrique Leiria, então director do semanário Aqui, recorte no topo do texto, escreveu que apanhou pinhão de criar bicho, que estiveram lá 100.000 pessoas, ou mais, e que pró ano vai arranjar-se espaço para que caibam 500.000, diz o Álvaro.

E assim foi

No ano seguinte a Festa estava no Vale do Jamor.

Um estrondoso êxito, mas no segundo ano, trataram de dizer que ali não podia ser mais. Necessitavam do terreno para a construção de um campo de treino que nunca chegou a ser concretizado

A Festa viajou, então, para o Alto da Ajuda.

Melhor ainda.


Na Ajuda, a Festa esteve de 1979 a 1986, o tempo em que o então presidente da Câmara, Abecassis de seu apelido, disse que precisava do terreno para a construção da Faculdade de Arquitectura cujo início de obras só veio a acontecer passados 5 anos.

Em 1987, problemas logísticos não permitiram a sua realização.

Em 1888 a Festa mudou-se para a Quinta do Infantado em Loures..

Perdeu brilho.

Esteve lá só mais um ano  e o Partido entendeu que não mais se poderia andar com a Festa às costas.

Uma aguerrida angariação de fundos permitiu a compra da Quinta da Atalia na Amora, Seixal.
Tudo feito de raiz e se a Festa já era o que era, melhora de ano para ano.

Logo, ao cair da tarde, sempre que se ouvir a «Carvalhesa», sentiremos o Ruben  ao nosso lado.

Num tempo em que Portugal não vivia os grandes concertos que se faziam pelo mundo, o que nos dias de hoje se tornaram banalidade, a Festa do Avante era o único espaço para ver o que de melhor Rubem de Carvalho conseguia trazer até Lisboa.

Para ajudar um velhote a compor a sua parca reforma, dei-lhe uma série de revistas para que fossem encadernadas, casos da Seara Nova, de O Cinéfilo, e os primeiros programas da Festa do Avante.


Baseado nesse volume, consigo ter uma ideia dos artistas que passaram pela festa.

Raro será o artista português que não tenha passado por um dos palcos da festa, seria longa essa lista, pelo que apenas deixo, e só até 1985,  alguns dos artistas estrangeiros que por lá actuaram:

1976: Pi de la Serra, Area, Archie Shepp. Luigi Nono

1977: Soledad Bravo. Miriam Makeba, Fairport Convention

1978:  Charlie haden, Colette Magny

1979: Mercedes Soza, Max Roach, Richie Havens

1980: Tom Paxton, Chico Buarque de Holanda, Edu Lobo, Simone, MPB4

1981: Ivan Lins, Lúcia Lins, Dexys Midnight Runners

1982: Baden Powell, Odetta, Josh White, Manu Dibango, Buffy Saintt-Marie

1983:  Judy Collins, Elba Ramalho, Luís Gonzaga

1984: Alceu Valença, Waldemar Bastos

1985: The Band, Holly Near .

Em 1976 a EP custava cem escudos (100$00), em 1985 trezentos e cinquenta escudos (250$00. 

No ano de 2001 o preço cifrava-se em dois mil e cem escudos.

Este ano, a EP custa vinte e seis euros.

Legenda: recorte do semanário Aqui de 5 de Outubro de 1976, páginas dos programas da Festa para os dias em que actuaram Tom Paxton. Chico Buarque de Holanda e Juddy Collins.

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

HÁ TANTOS NEGÓCIOS QUE CORREM MAL... O DELE FOI UM DESSES!!!


Ter o exacto pressentimento de que não me deveria meter nisto.

Claro que ainda se pode dizer que vivemos os últimos dias da estação estúpida, mas – bolas! – nunca fui homem de ferro e não seria agora que passava a ser.

Ida ao barbeiro para aparar os poucos cabelos que restam,

O senhor Vítor é o barbeiro do bairro – devo-lhe, há anos, um texto com fotografias e tudo, a colocar aqui no Cais - , que há largo tempo frequento.

Apesar de ser Verão, cheguei e o senhor Vítor ainda estava às voltas com um cliente. Tempo de esperar e folhear os jornais e revistas que por ali estão. Os clientes compram, lêem, dão duas de conversa com o Sr. Vítor e deixam-lhe as revistas e os jornais para desfrute da clientela.

Peguei numa revista-dita-dor-de-rosa porque na capa vinha o ex-Dono Disto Tudo.

Fiquei basbaque a olhar para aquilo e digo-vos, desde já, que foi algo que me perturbou até ao limiar do vómito.   

Calculava que as coisas assim se passassem, ia dizendo não pode ser possível, mas está ali tudo, ou quase tudo.

A personagem continua a fazer a faustosa vida que sempre fez.

As férias na Comporta – as finanças já não tinham tomado conta daquilo? – têm algumas variantes: já não vão com tanta frequência aos restaurantes caríssimos da zona, o «Sal» ou o «Sublime», preferem encomendar a comidinha que prontamente lhes é levada a casa, e já não utilizam cartões, tudo é pago em dinheiro.

Por detrás de tudo isto estão todos os coniventes na enganosa e derradeira «expansão» do BES: o governador do Banco de Portugal, o ex-presidente Cavaco Silva –«para serem mais honestos do que eu têm de nascer duas vezes.» - todos os capachos e capachinhos que viveram à sombra das salgalhadas do BES.

Gente que devia estar a pão-e-água numa prisão ou num asilo.

Mas não, passeiam-se por aí, gozam férias paradisíacas, vestem bem, comem do melhor, deslocam-se em carros topo-de-gama.

Gente ingénua, também gananciosa, embalada por cantos de sereia, entregou-lhes as poupanças de uma vida.

Ficaram sem nada.

Uns não aguentaram o embate e suicidaram-se.

Outros estão a sobreviver rodeados de terríveis dificuldades.

Tenho a velada (?) ideia de que os casos de justiça que envolvem José Sócrates, Ricardo Salgado, outros personagens, acabarão por não dar em nada.


Os olhos continuam incrédulos a mirar a revista de sargeta, que peço emprestada ao senhor Vítor para fazer o recorte testemunhante.

Escreve o repórter: «houve muita gente que pensava que Ricardo Salgado não voltava a por os pés na sua amada Comporta, mas tal não tem acontecido. Compra os jornais na papelaria da povoação e ninguém esconde a simpatia que nutrem pelo casal. Diz o proprietário: «São meus amigos. Gosto muito dele, é muito educado e atenciosos dá sempre os bons dias e pergunta se está tudo a correr bem. Aqui a gente protege-o muito e evita dizer se ele está ou não, para não o incomodarem nas férias. O que dizem dele até pode ser verdade, mas a meu ver, há tantos negócios que correm mal… o dele foi um desses.»

Ainda o repórter: «Cristão praticante, mesmo estando de féria, Ricardo Salgado não falta às homilias semanais numa igreja local.»

Se esse tal Deus existe, e só ele sabe da tranquilidade do meu ateísmo e do respeito que tenho pela fé dos outros, apresto-me a gritar:

«Deus, não lhes dês o perdão porque eles sabem o que fazem!»

Esta gentalha merece todo o meu desprezo.

Estou desesperado, continuo a ter o exacto pressentimento de que não me deveria meter nisto… claro que não sou de ferro... também faz-se tarde e, como diria o Astérix, tenho um javali ao lume.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Santo e o Raio da Morte

Leslie Charteris
Tradução: Mascarenhas Barreto
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 121
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Simon Templar raramente lia os jornais. Quando lhes pegava, dava uma rápida vista de olhos pelas páginas. Não tinha o mínimo interesse na política; a notícia de que a mulher de um tipógrafo de Walthamstow dera à luz quatro gémeos deixou-o indiferente; artigos como «o lugar do homem é no bar» (por Anastasia Grorok, a brilhante autora de Passion in Pimlico) deixaram-no completamente frio; mas uma quarta coluna, com uma fotografia, de um certo jornal, que comprara para saber os resultados das corridas de cavalos, atraiu-lhe por acaso o olhar errante e conseguiu despertar-lhe um pouco a atenção.

terça-feira, 3 de setembro de 2019

DO BAÚ DOS POSTAIS



Os postais que a Cristina e o Miguel mandaram depois de uma semana em Tossa del Mar.

segunda-feira, 2 de setembro de 2019

NO FIM DE CADA DIA


O sol oferece um adeus sempre assombroso, jamais repete o crepúsculo de ontem nem o de amanhã.
Ele é o único que se afasta de maneira tão prodigiosa
Seria uma injustiça morrer e deixar de o ver.

Eduardo Galeano em O Caçador de Histórias

Legenda: fotografia de Luís Calisto

domingo, 1 de setembro de 2019

LIVROS EM BELÉM


Politicamente, Marcelo Rebelo de Sousa está muito longe dos meus horizontes.
Mas agrada-me ter um Presidente da República que gosta de livros e provoca os contactos que o povo, pelo menos o de Lisboa, possa ter com esses mesmos livros.
Por Setembro, abre as portas do Palácio de Belém para que se vejam livros, se ouça música, se possa passear pelos jardins.
Tão longe, mesmo muito longe, da múmia bafienta e cavaquista que tivemos de aturar.
Mas Marcelo não deixa de ser um homem perigoso.
Atrás, tem largos anos de comentador político nas páginas do semanário Expresso, nas televisões.
Por esses lados, foi cozinhando o caldo que lhe permitiu chegar a Belém.
Ainda não conseguiu responder se está interessado numa nova candidatura à presidência.

POR SETEMBRO


Estar à espera de Setembro.
Não sei bem, mas é uma espera como outra qualquer.
Será mesmo?
Mas de repente, Setembro aparece-nos com temperaturas de 40 graus.
Mais quente que Agosto.
Esperava pelos cheiros de Setembro, cheiro a terra molhada depois das primeiras chuvas.
Mas não, está tudo a mudar.
Resta continuar à espera.
O meu pai dizia que Setembro é o melhor mês do ano.
Que seja!
Mas restam os silêncios que tenho e que são difíceis de refutar.

NEM TODA A GENTE TEM O MAR EM CASA


Nem toda a gente tem o mar em casa
por setembro
no lento alegre dia de setembro. O mar de Peniche
clareando a luz do dia, um fogo azul. Azul
com seu halo de claridade espalha o azul
sob o peso do dia branco
por setembro
pelo espanto azul claro de setembro
arde azul nos muros de Peniche. Um mar assim
areia dividida deste fogo
desta luz ardendo no terraço
cada vez mais azul onde o azul clarece em azul
onde o sol vai do setembro saindo.
Apenas um mar uma luz única
visível cor atravessada de um azul denso
entre o esplendor do fogo azul sobre a noite quase.

João Miguel Fernandes Jorge

Legenda: pintura de Remo Faggi