O diabo tem tão bom ouvido que não precisa que lhe digam as coisas em voz alta, Valha-nos então deus, Não vale a pena, esse é surdo de nascença.
José Saramago em Ensaio Sobra a Lucidez
José Saramago em Ensaio Sobra a Lucidez
Por agora, terminamos os
sublinhados, que encontrámos, e que José Saramago dedicou aos filmes, aos
artistas, aos cinema da cidade onde viveu.
O texto está publicado em O Caderno
nº2 e mostra uma curiosíssima memória que desde tenros anos ficou de Charlot,
para concluir que não lhe deixou grande coisa.
Curiosamente o poeta José
Gomes Ferreira também não era um incondicional adepto de Charlot, preferia
Eisenstein, tal co deixou escrito numa crónica publicada, Junho de 193º na
revista Imagem:
«Enquanto Charlie Chaplin, com os seus cabelos brancos de palhaço no declínio, o seu sorriso amargo de quem sofre uma dor imaginária, continua a gitar o eterno Charlot, espantalho de pano que infunde respeito ao público e aos poetas líricos, - Eisenstein sorri, cria, não se contenta com o que já está convencionado, afasta-se definitivamente da arte pura e dos seus artifícios pretensiosos.»
Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, “The Pilgrim”, que, retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Charlot nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cómicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada. Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cómico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas clássicas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula. Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrisse assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez que foi decidido que Chaplin é um actor cómico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.
José Saramago em O Caderno, 2º volume
Eu te digo, José: por esta carta
Não garanto mentira nem verdade:
A ciência de mim sempre se aparta
Desta náusea de ser e de vontade.
São inúteis cobiças, vãos desgosto,
São braços levantados, já caídos,
São as rugas que vincam os cem rostos
Da comédia e do jogo repetidos.
Desse lado da mesa (ou deste espelho)
Vais seguindo as palavras invertidas:
Verás melhor assim se (quanto) valho
Ao invés dos sinais e das medidas.
(correm águas geladas no meu rio,
E mortos cantos de aves, derivando
Por silêncio frustrado e calafrio,
Vão amanhã doutro dia recordando.)
Cai a chuva do céu, e não te molha,
Está a noite entre nós, e não te cega.
Não sorrias. José: à tua escolha
O que me sobra de alma e se nega.
Desse lado da mesa, onde me acusas,
Te levantas. A marca do teu pé,
Na soleira da porta que recusas,
Fecha de vez a carta abandonada.
Tua sombra pisada, teu amigo – José
José Saramago em Os Poemas Possíveis
José Saramago em História do Cerco de Lisboa
É hoje. Hoje é o dia da independência de Angola. Angola acabou, a nossa Angola acabou. Não sei para que estou a olhar para a televisão, não sei por que estou aqui.
Os homens têm os fumos por cima dos casacos, uma ideia do Pacaça que
diz, estou de luto, hoje morreu-me a minha terra, hoje tornei-me um desterrado,
vivemos na certeza de que a terra onde enterramos os nossos mortos será nossa
para sempre e que também nunca faltará aos nossos filhos a terra onde os fizemos
nascer, vivemos nessa certeza porque nunca pensamos que a terra pode
morrer-nos, mas hoje morreu-me a minha terra, hoje morreram os meus mortos e os
meus filhos perderam a terra onde os fiz nascer, os meus desterrados como eu. O
Pacaça cala-se e começa a falar o Sr. Belchior, estou de luto pela terra onde
fui gente, antes de ir para lá era uma barriga inchada de fome e uma cabeça
cheia de piolhos.
Dulce Maria Cardoso
em O Retorno
«Lembro-me de dormir no chão, no quarto dos meus pais (único, aliás, como já disse), e dali os chamar a tremer de medo porque debaixo da cama, ou num capote dependurado do cabide, ou na forma distorcida de uma cómoda ou de uma cadeira, seres indescritíveis se moviam e ameaçavam saltar sobre mim para devorar-me. A responsabilidade de tais pavores, creio, teve-a aquele famoso Cinema «Piolho», na Mouraria, onde, com o meu amigo Félix, me alimentei espiritualmente das mil caras de Lon Chaney, de gente malvada e cínicos da pior espécie, de visões de fantasmas, de magias sobrenaturais, de torres malditas, de subterrâneos lôbregos, enfim, de toda a parafernália, então ainda no jardim da infância, do susto individual e colectivo a baixo preço. Numa dessas fitas, em certa altura, romanticamente sentado numa varanda e, pela expressão da cara, a cismar na mulher amada, aparecia o galã da história (era assim que se dizia na época, mas nós, os do «Piolho», chamávamos-lhe, sem cerimónias, o rapaz), com o antebraço direito descansando sobre um murete, por trás do qual, após um momento de expectativa, começou a subir, tenebrosamente encarapuçado e com medonha lentidão, um leproso que assentou uma das mãos carcomidas pela doença sobre a mão alvíssima do actor, o qual, acto contínuo, ali mesmo e à nossa vista, contraiu, na pessoa da personagem, o mal de Hansen. Nunca, em toda a história das enfermidades humanas, se haverá dado um caso de contágio tão rápido. O resultado de um tal horror foi que, nessa noite, dormindo eu na mesma cama que o Félix (não sei por que razão, uma vez que não era costume), acordei a altas horas e vi no meio do quarto, também casa de jantar da outra família, o leproso da fita, exactamente como nos tinha aparecido, todo de negro, com um capuz em bico e um bordão que lhe chegava à altura da cabeça. Sacudi o Félix, que dormia, e sussurrei-lhe ao ouvido: «Olha, olha para ali.» O Félix olhou e, explique-o agora quem puder, viu exactamente aquilo que eu estava a ver, isto é, o leproso. Apavorados, enfiámos a cabeça debaixo da roupa e assim ficámos por muito tempo, asfixiando de medo e falta de ar, até que nos atrevemos a espreitar por cima da dobra do lençol para verificar, com infinito alívio, que a pobre criatura se havia ido embora. No final da fita, o rapaz curava-se pela virtude da fé que o tinha levado a banhar-se na gruta de Lourdes, de onde, tendo entrado manchado, saiu limpo para os braços da ingénua, ou rapariga, como com igual desrespeito lhe chamávamos.
José Saramago em As Pequenas Memórias, página 57
Dia de São Martinho.
Vai à tua adega e prova o
teu vinho.
Lido, há muito tempo, já não sei onde.
Desconheço o autor, e uma pequena investigação pela diversa papelada, deu em nada.
«Incendeia um monte de caruma,
deixa que nele caia um saco de castanhas.
Que tostem, que absorvam chamas, que escaldem,
que se exaltem com sucessivos punhados de sal.
À tua volta, algumas presenças muito sorridentes.
Remexe o lume com uma vara até que a caruma fique em
brasa.
Suja os dedos, abre as castanhas e sente na boca o
travo a pinheiro.
Nunca tinhas saboreado nada assim – experimenta-as.
Marca com os dedos cheios de cinza uma fronte a teu
lado.
Traz contigo as gargalhadas e os lábios salgados».
Legenda: Os Bêbados ou Festejando o S.
Martinho, quadro de José Malhoa.
Ah, rosas, não, nem frutos, nem conforto!
Já basta de veludos nestes versos,
De velhas consonâncias e bordões!
Astronauta do espaço que rodeio
(Noutra hora diria que infinito…)
Uma fome de rosas e de frutos
A frouxidão da pele ao osso chega.
Assim recalcinado, mais me torno
Matéria combustível nos poentes
Das estrelas convulsas que contenho.
Talvez, enfim, o aço apure e faça
Do espelho em que me veja e me defina.
José Saramago em Os Poemas Possíveis
Nunca perderei a mania de, à volta dos
livros de José Saramago, dizer certas parvoeiras – deixem que lhes chame assim.
Aqui vai mais uma: As Pequenas Memórias é um livro fabuloso. Por causa do
inevitável gosto de Saramago pelo cinema, ando a relê-lo. Quantas vezes já o
fiz, como se não houvesse outros, tantos livros, aqui na Biblioteca da Casa?
«Nem tudo foram sustos nas salas de cinema aonde o garoto de calções e cabelo cortado à escovinha podia entrar. Havia também fitas cómicas, em geral curtas, com o Charlot, o Pamplinas, o Bucha e o Estica, mas os actores de quem mais gostava eram o Pat e o Patachon, que hoje parece terem caído em absoluto esquecimento. Ninguém escreve sobre eles e os filmes não aparecem na televisão. Vi-os sobretudo no Cinema Animatógrafo, na Rua do Arco do Bandeira, aonde ia de vez em quando, e recordo quanto me ri numa fita em que eles (estou a vê-los neste momento) faziam de moleiros. Muito mais tarde viria a saber que eram dinamarqueses e que se chamavam, o alto e magro, Cari Schenstrom, o baixo e gordo, Harold Madsen. Com estas características físicas era certo e sabido que chegaria o dia em que teriam de interpretar Dom Quixote e Sancho Pança, respectivamente. Esse dia chegou em 1926, mas eu não vi a fita. De quem eu não gostava mesmo nada era do Harold Lloyd. E continuo a não gostar.
José Saramago As Pequenas Memórias, página 60
O Homem Que Ri.
Era um livro de Victor Hugo, edição popular salvo erro da Lello Editores que existia na Biblioteca do meu pai, para o qual muitas vezes olhei mas nunca li. Quando fechei a casa onde nasci, e aí vivi, até casar, comecei a colocar os livros em caixas para chegarem aqui, à continuação da Biblioteca da Casa, e não me lembro de o arrumar.
O destino que O Homem
Que Ri levou não vale a pena, agora, pensar.
Um sorriso cínico,
ofensivo, desprezível.
Segundo as mais
recentes estatísticas da Autoridade Tributária, que se reportam a 2020,
existiam mais de 736 mil contribuintes no escalão mais baixo de rendimentos,
isto é, entre zero e cinco mil euros brutos anuais, pelo que é possível deduzir
que milhares tenham apresentado a declaração de IRS sem qualquer tipo de
rendimento.»
De que riem os políticos?
Legenda: O Homem que Ri, filme de Paul Leni
Que raio!
Então agora ficámos sem a Gal Costa?
«Difícil Demais», disse a Maria Bethânia.
E Walt Whitman que vem aqui fazer não sei bem o quê, mas veio: «é bom estar vivo e também é bom morrer.»
De mim ao sol um passo me separa:
Fogos da mesma luz que dispersou,
Na explosão casual do nascimento,
Entre as noites de antes e depois,
A glória solar do pensamento.
José Saramago em Os Poemas Possíveis
Decidir é dizer sim ou não, sopro da boca para fora, as dificuldades é
depois que vêm, na parte prática, como diz a grande experiência do povo, ganha
à custa de tempo e da paciência de suportá-lo, com poucas esperanças e mudanças
ainda menos.
José Saramago em A Jangada de Pedra
Erle Stanley Gardner
Tradução: Fernanda
Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº
296
Livros do Brasil s/d
A causa da morte é sempre um problema médico. Em contrapartida, o modo
como a morte foi infligida nunca é um problema médico.
Na rua onde nasci, não
havia qualquer sala de cinema mas, em redor, havia uma enormidade de cinemas.
Mentalmente percorro essas
ruas, sigo em direcção à Graça e encontro o Cine-Oriente, o Royal, junto à
Morais Soares o Max, o Imperial, na Almirante Reis o Cinema Império, o Lys, o
Rex, mais abaixo o Salão Lisboa, e se subir até à Duque de Ávila encontro o
Avis.
Desapareceram quase todos,
outros mantêm o espaço, mas viraram diversos, quiçá estranhos, locais de
consumo.
Saramago refere o Salão
Oriente mas o nome exacto é Cine-Oriente.
Mário de Carvalho, que
também andou no Gil Vicente, vivia com os pais na Rua das Enfermeiras da Grande
Guerra, e também frequentou esses cinemas.
«Mentiras mais
desculpáveis foram as de ter inventado enredos de filmes que nunca tinha visto.
Entre a Penha de França, onde morávamos, e o liceu, no caminho que é hoje a
Avenida General Roçadas e depois a Rua da Graça, havia dois cinemas, o Salão Oriente
e o Royal Cine, e neles nos entretínhamos, eu e os colegas que moravam para
aqueles lados, a ver os cartazes expostos, como era então uso em todos os
cinemas. A partir dessas poucas imagens, no total umas oito ou dez, armava eu
ali mesmo uma completa história, com princípio, meio e fim, sem dúvida
auxiliado na manobra mistificadora pelo precoce conhecimento da Sétima Arte que
havia adquirido no tempo dourado do «Piolho» da Mouraria. Um pouco invejosos,
os companheiros ouviam-me com toda a atenção, faziam de vez em quando perguntas
para aclarar alguma passagem duvidosa, e eu ia acumulando mentiras sobre
mentiras, não muito longe já de acreditar que realmente tinha visto o que
apenas estava inventando…»
José Saramago em As
Pequenas Memórias, página 112
Legenda: as fotografias do Cine- Oriente e Royal Cine foram tiradas do blogue Restos de Colecção
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se furtam para o lado
Com o rumor de seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
Na hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Uma ânsia de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu dessa memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que narra do retrato a velha história.
José Saramago em Os Poemas Possíveis
Nesta secreta guerra em que persisto,
Tudo está certo, não
desejo paz.
E se nem sempre fujo a
este jeito
(Herdado doutra era)
De bater com os punhos
no meu peito,
Não é pelo gosto de
chorar desgraça,
Mas porque a vida
passa,
E mesmo quando aceito,
O coração à espera desespera.
José
Saramago em Os Poemas Possíveis
José Saramago em O
Caderno 2º Volume
Como não poderia deixar de acontecer, José Saramago teria que se interessar pelo cinema.
No
final de José Saramago: A Consistência dos Sonhos, é publicado, como apêndice,
uma lista dos filmes, que constam de algumas das suas agendas pessoais, vistos entre
1976 e 1991.
Estão lá, entre muitos outros realizadores, Ingmar Bergman, Visconti, Woody Allen, Jean Renoir, Sergei Eisenstein, Fellini, George Cukor, Sidney Lumet, Eric Rohmer, Truffaut, Coppola, Wim Wenders, António Reis, Sergio Leone, John Huston.
A Cinemateca está com o Centenário do Nascimento de José Saramago:
«No ano do
centenário do nascimento de José Saramago (1922-2010) e integrado no vasto
programa de iniciativas que foi sendo apresentado ao longo de 2022 pela
Fundação José Saramago, a Cinemateca Portuguesa associa-se à evocação do Nobel
da Literatura português com um Ciclo de cinema que integra as mais importantes
adaptações retiradas da sua obra e alguns dos documentários sobre a sua figura.
Nos mais de 40 títulos que escreveu, Saramago foi o criador de um singular e
inconfundível estilo literário, que funde o erudito e o popular, integrando
toda a riqueza da tradição literária portuguesa com traços narrativos da
oralidade, levando às suas histórias um experimentalismo orgânico que
estilisticamente se expressa pela supressão da pontuação, enquanto mantém o
domínio da lógica discursiva e intensifica o ritmo frásico e a respiração da
narração e dos diálogos entre as personagens. Mais do que isso, as suas
histórias ligam-se a um projeto ético e político que sempre reiterou, e que se
materializa, nos seus livros mais célebres, na construção de mundos ora
utópicos, ora distópicos, nos quais as dimensões metafórica e alegórica se
enredam num preciso e existencial olhar sobre a humanidade.
O apelo dos universos mais utópicos ou distópicos de Saramago foram propícios à
sua adaptação cinematográfica, dando origem a múltiplos projetos nacionais e
internacionais, entre os quais produções americanas de grande visibilidade
internacional como BLINDNESS (2008), de Fernando Meirelles, que explora a
cegueira epidémica e coletiva de Ensaio Sobre a Cegueira e a
exploração existencialista do caos da identidade humana em ENEMY (2013), de
Denis Villeneuve, baseado em O Homem Duplicado. As suas metáforas
foram também aproveitadas na Europa por George Sluizer, em A JANGADA DE PEDRA
(2002) e em EMBARGO (2010), do português António Ferreira, que partiu da
premissa do conto O Embargo, integrando o seu argumento na situação
de um hipotético embargo de petróleo que cortou o fornecimento de gasolina no
mundo inteiro. Das restantes adaptações relevantes da sua obra ao cinema,
o Ciclo integra também a curta-metragem de animação LA FLOR MÁS GRANDE DEL
MUNDO (2007), transposição de um conto infantil de Saramago e com narração do
próprio, e a sua incursão pelo universo pessoano vista por João Botelho em O ANO
DA MORTE DE RICARDO REIS (2020). Programado na semana em que o escritor faria
cem anos, este Ciclo relembra igualmente a sua presença nos documentários JOSÉ
E PILAR (Miguel Gonçalves Mendes, 2010), SARAMAGO: DOCUMENTOS (João Mário
Grilo, 1995) e ENSAIO SOBRE O TEATRO (Rui Simões, 2006) e propõe uma conversa
sobre a boa ou má fortuna das adaptações cinematográficas da sua obra numa
conversa entre o Prof. Carlos Reis (Comissário para o Centenário de José
Saramago) e o Prof. Abílio Hernandez.»
Irei transcrever,
nos dias que se seguem, sublinhados de Saramago relacionados com o cinema.
Mas começo já
hoje com uma citação do Manual de
Pintura e Caligrafia, acreditem, até porque Saramago, muito claramente o
disse, que é o mais autobiográfico dos seus livros.
A transcrição é
retirada da página 242
«E, agora repouso em Positano, nesta costa de Salerno que eu baptizei de «bem-aventurada» antes de saber que a propaganda turística oficial lhe chamava «la divina costiera». Ambos temos razão: esta paz é divina e bem-aventurada. Mas ali vai, é ela Melina Mercouri, de chapéu de palha e vestido comprido, pálida e magra, com Jules Dassin. Arranco-me à indolência do sol e imagino este diálogo entre mim e ela: «Então, Melina, continua fora da Grécia. Aqui tão perto, e não pode entrar na sua terra. Como vão as coisas por lá?» E logo a resposta: «E por lá, como vão as coisas?»
Regresso ao meu lugar, olho as águas paradas deste mar interior que sabe tantas e tão antigas histórias, e repito a mim mesmo a pergunta: E por lá, como vão as coisas?»
Legenda: Melina Mercuri e Jules Dassim em «Never On SundayEstá o mundo coberto de piolhos
Não há palmo de terra onde não mordam,
Não há recanto de alma que não espreitem
Nem sonho que não sujem e pervertam
Nos seus lombos peludos se divertem
Todas as cores que, neles, são ameaças
Há-os castanhos verdes, amarelos
Há-os negros vermelhos e cinzentos.
E todos se encarniçam, todos comem
Vorazes se concertam no seu fim
De deixar como restos de banquete
No deserto da terra ossos esburgados
José Saramago em Os Poemas Possíveis
A quem
isso interessar, fica o registo de que todas as transcrições das obras de José
Saramago que, neste Cais são feitas, tanto nos Sublinhados Saramaguianos, nos
Postais Sem Selo, nos Poemas, dizem respeito às primeiras edições dos seus
livros.
Não
que seja um obcecado por primeiras edições – o que gosto é de livros - mas, simplesmente, acontecia logo que os
livros de Saramago apareciam nos escapartes das livrarias, os comprava. E esse
hábito começou logo naquela tarde de chuva de 1966, na Livraria Portugal, sem
conhecer o autor de parte alguma que fosse, comprei os Poemas Possíveis, tinha
então 21 anos.
Este
chamar de atenção tem mais a ver com os Poemas de Saramago, pois o autor, em
edições posteriores, procedeu a ligeiras alterações.
Colocado
o aviso à navegação, o sublinhado de hoje recai sobre esse extraordinário livro «Viagem a Portugal»:
«A
viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem
prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o visitante sentou
na areia da praia e disse:
“Não há mais o que ver”, saiba que não era assim. O fim de uma viagem é apenas o começo de outra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na primavera o que se vira no verão, ver de dia o que se viu de noite, com o sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para repetir e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O Viajante volta já.»