sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

OLHAR AS CAPAS


O Homem Revoltado

Albert Camus

Tradução: Virgínia Motta

Capa:  Infante do Carmo

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Que vem a ser um homem revoltado? Um homem que diz – não. Mas, se ele Recusa, não renuncia: é Também um homem que diz sim, a partir do seu primeiro movimento. Um escravo que durante toda a sua vida recebeu ordens considera subitamente inaceitável uma nova ordem. Qual é o conteúdo desse «não»?»

QUOTIDIANOS


 A notícia está perdida entre as demais com que os jornais nos aparecem nos dias.

Um imigrante foi brutalmente agredido por um grupo de jovens em Olhão. O objetivo seria roubar o homem, tendo os agressores, inclusivamente, tentado incendiar o cabelo da vítima.

Videos mostram o momento da agressão.

O homem, que seguia de bicicleta, foi interpelado de forma violenta pelo grupo de cinco jovens que, entre risos, o agridem com um pau.

No chão, a vítima implora, em inglês, para que os agressores parem, assegurando não ter dinheiro.

A dado momento, um dos jovens tenta atear fogo ao cabelo do homem com um isqueiro, sendo travado por outro, atrás da câmara. “Guedes, já chega”, ouve-se.

Não se sabe por onde andava a polícia que, agora, tenta encontrar o fio da meada.

Lembro-me de «A Laranja Mecânica» do Stanley Kubrik.

Lembro-me de umas palavras da Maria Velho da Costa:

«É o ar do tempo.  Sabemos que este país está cheio de gente de outras  partes e que a maioria vive em estado de alto risco.»

O homem seguia de bicicleta…  

AUTO-RETRATO

Está incompleto. Ainda se vê metade do rosto. Sabe-
mos
como se acentua junto dos olhos a mesma sombra. Os
lábios
fecham-se; à sua volta, um halo apenas: continuam
afastadas
as pregas da cor, o rumor trazido pela luz. Há um con-
torno
que pode tornar-se nítido. É tudo o que se
procura. Depois esperamos
que venha a respiração ao encontro dessa superfície
até se encontrar
um nome. É o meu. Se quiserem podem esquecê-lo
agora.

Fernando Echevarria 

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2023

QUOTIDIANOS


 À procura de uma outra coisa, que não morangos, dei com este texto, publicado por aqui no dia 10 de Janeiro de 2021:

 «É Janeiro e faz um frio de partir os ossos.

Na frutaria nepalesa da rua – sou um apaixonado defensor do comércio de bairro – comprei os primeiros morangos do ano – 3,99 euros por quilo - domingo que foi, vindos não sei de que estufa espanhola mas, nas agruras deste dia, o primeiro sinalzinho de que a Primavera há-de chegar.

Lembrar o poeta polaco Czelav Milosz: «Meu deus, como gostava do doce de morangos e da doçura nocturna do teu corpo.»

Lembrar a cena inesquecível de Pretty Woman, quando Richard Gere, garrafa de champanhe aberta,  oferece morangos à Julia Roberts.

 Ela olha interrogativa, e ele responde: « os morangos realçam o sabor do champanhe.»

Hoje, também faz um frio de partir os ossos e estou na frutaria nepalesa da minha rua.

Os morangos estão a 6,99 euros o quilo.

- Como é, Anitta, tão caros?...

- Senhor, se lhe disser a como os compro no Mercado, não vai acreditar… trago-os porque há clientes que perguntam por morangos… no fim, a margem de ganho é curta e mais diminui porque os morangos vão envelhecendo  poucas pessoas os compram porque  porque estão muito caros…

 A resposta da Annita não é bem o português que aqui, coloco, fiz uma adaptaçãozinha… mas não me disse que estão caros por causa da guerra…

A guerra serve para tudo, especialmente para os que são ricos fiquem ainda mais ricos…

Não é o caso dos simpáticos nepaleses da frutaria da minha rua.

Hoje, no Diário de Notícias:

«Lucro do Santander Totta quase duplica para 568, 5 milhões de euros em 2022.»

E mesmo há instantes,  os vampiros do Banco Central Europeu aumentaram  as taxas de 0,5 pontos percentuyais, o mais alto valor dos últimos 15 anos e a senhora Lagarde ainda deixou a flutuar a ideia de que na reunião Março aumentarão mais.

Que José Afonso nos ajude!

CONVERSANDO


Há algum tempo, numa modificação descabelada aos seus cronistas, o Expresso mandou bugiar dois, que eu muito apreciava: Ana Cristina Leonardo e Manuel S. Fonseca. Ficaram por lá encomendas como a Clara Ferreira Alves, o Pedro Mexia, o Henrique Monteiro, um tal de Luís Pedro Nunes, etc.

No caso de Cristina Leonardo tive sorte porque a reencontei, às sextas-feiras no suplemento Ipsilon do Público. Quanto ao Manuel S. Fonseca voou para o Correio da Manhã, e aí nada feito porque não leio o pasquim.

Acontece, porém que Manuel S. Fonseca tem um blogue, a sua Página Negra, e nem tudo está perdido.

Vai agora publicar um livro na sua editora Guerra & Paz. Chama-se Crónica de África.

«Livro narcisista com foto minha, quase de bibe, na capa. É um livrinho em três actos, infância, adolescência e independência. Livro de fim de império, aqui se contam, com espanto e reverência, as coisas que desfilaram pelos meus olhos míopes: chimpanzés a beber coca-colas, indolentes caranguejos em fuga, idealistas a correr desenfreados para assistir a tiroteios». 

 Deverá ser interessante, mas o que gostava mesmo, é que publicasse, em livro, as crónicas do Expresso e outras que andam por aí espalhadas.

Mas por hoje pego num texto da sua Página em que fala de Alfred Hitchcock e da actriz Tallulah Bankhead:.

 «“Lifeboat” é um filme à deriva no mar da II Guerra. Filmou-o Hitchcock num bote onde meteu nove vidas sem destino. O caos tomou conta do oceano e no salva-vidas, no início, só está uma mulher madura e bela, cabelo, maquilhagem e jóias irrepreensíveis, casaco de arminho, esplêndidas meias de vidro. Tão certo como ser um filme de Hitchcock, uma delicada cinta de ligas mantém essas meias esticadas para que, sem dobras nem refegos, bem torneiem a bela perna.

A mulher é a mais libertina das actrizes, Tallulah Bankhead, e posso jurar que não traz cuecas.

 Também a secreta britânica, o MI5, lhe quis escrutinar o frondoso jardim. Descobriu lá, de uma vez, cinco jovens de Eton, colégio que agora formou os dois príncipes britânicos. O rendez-vous foi no selecto Hotel Café de Paris e o espião alega que ela se terá regalado, em prática imorais e antinaturais, com os cinco, como nunca Enid Blyton imaginaria.

O agente do MI5 jurou que numa só noite pararam 100 limusinas à porta do hotel e também a acusou de lésbica. Tallulah, que sempre lamentou não ter chegado a esse impertinente toque de delicadeza com Greta Garbo, foi peremptória: “Jamais me tornaria lésbica, tanta é a falta de humor que têm!”

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO


 O pagamento que a Federação Portuguesa de Futebol, engendrou ou permitiu, para o pagamento dos ordenados e demais coisas, ao seleccionador Fernando Santos e seus adjuntos, não se revestiu de clareza e transparência e a situação está envolvida num imbróglio.

O Bloco de Esquerda fez um requerimento para audição ao Presidente da Federação para esclarecimento de eventuais fugas ao fisco e à Segurança Social.

O Partido Socialista, na Comissão de Orçamento e Finanças da Assembleia da República, fazendo jus à sua ética republicana, chumbou o pedido do Bloco de Esquerda. O Partido Social Democrata absteve-se. O Partido Comunista votou favoravelmente.

Que dizer?

Não sei, o que é visível, risível, não sei que mais, é que o futebol, para além de ópio do povo, é rei-senhor-também-dono-disto-tudo!

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


 Se quisermos tentar a definição política do Eduardo Guerra Carneiro, poderíamos dizer que era um homem de esquerda. Partidariamente, nessa esquerda, nunca ouvi, nunca li nada que o colocasse num partido. À maneira do seu grande amigo Vitor Silva Tavares.

Zeferino Coelho, o velho editor de José Saramago, em 27 de Janeiro do ano passado, deu uma entrevista à revista Visão, sobre a sua vida de editor.

A determinado passo, podemos ler:

«Em resumidas contas foi este o ambiente em que me integrei no Porto dos anos 60. Por isso não é de espantar que pouco depois de chegar me tivesse tornado militante do PCP: o que ainda hoje me soa estranho é ter ido lá parar por iniciativa do Eduardo Guerra Carneiro, o poeta sensível que, nas homéricas discussões políticas e ideológicas características da época – nada se fazia sem se examinar à lupa a sua adequação aos princípios teóricos que deviam guiar a ação prática – acabava sempre a glosar o Cesariny dizendo que “pequenos burgueses somos nós todos, ou ainda menos”. E não espanta também que viesse a participar nas “eleições” de 1969 como candidato da CDE, Comissão Democrática Eleitoral, pelo círculo do Porto.»

Curiosa a observação de Zeferino: o achar estranho ter ido parar ao Partido Comunista Português por iniciativa do Eduardo Guerra Carneiro.

Maravilhosos os itinerários, mesmo que não declarados, do Eduardo.

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Partir é tudo o que do céu sabemos, e do inferno basta aqui.

Emily Dickinson

Legenda: fotografia do Arquivo Imagem Global

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Este livrinho regista os discursos que foram proferidos no Porto, em Janeiro de 1969, por ocasião do 78º aniversário do 31 de Janeiro de 1891.

A Coordenação e edição pertence a Júlio Sereno Cabral e estão incluídos onze discursos proferidos por: Óscar Lopes, Joaquim Felgueiras, Velosos de Pinho, Ribeiro da Silva, Armando Bacelar, Mário Sacramento, Vergínia Moura, Alexandre Ferreira Barros, Fernanda Gonçalves, Mário Brochado Coelho.

Trata-se de uma Edição de Autor, sem indicação de data, mas supõe-se que seja Março de 1970. No prefácio, Sereno Cabral lembra Mário Sacramento que morreu a 27 de Março de 1969 e, por motivo de doença, não esteve presente nas comemorações do 31 de Janeiro desse ano, mas enviara uma mensagem que faz parte do livro.

Como epígrafe do livro, uma frase de Mário Sacramento:

«A terra de ninguém só dá cardos, se é que os dá.»

OLHAR AS CAPAS


 A Revolta de Ontem Nas Palavras de Hoje

Coordenação e edição de Júlio Sereno Cabral

Textos de Óscar Lopes, Joaquim Felgueiras, Velosos de Pinho, Ribeiro da Silva,

                  Armando Bacelar, Mário Sacramento, Virgínia Moura, Alexandre

                  Ferreira Barros, Fernanda Gonçalves, Mário Brochado Coelho

Edição de Autor, Porto s/d

A República está por fazer, como em 31 de Janeiro de 1891! Não basta retirar um rei e pôr nesse mesmo trono outro homem, para se fazer a República. É nosso dever lutar por ela, hoje como ontem. E só a unidade pode vencer a opressão!

(Do discurso de Mário Sacramento).

DUAS VEZES ME FINDEI ANTES DO FIM

Duas vezes me findei antes do fim –

Mas ainda estou pra ver

Se lá na Imortalidade

Isto torna a acontecer

 

Por forma tão medonha e deseperada

Como as duas que sofri.

Partir é tudo o que do céu sabemos,

E do inferno basta aqui.

Emily Dickinson em 80 Poemas

segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

QUOTIDIANOS

O mês de Janeiro do ano que corre quase a despedir-se – adeus, adeus, adeus… - e ele ainda não veio aqui lamentar qualquer coisinha sobre os ódios aos meses de Janeiro e Fevereiro que o avô, em tempos de meninice, lhe foi transmitindo e ele tem arrastado por uma vida quase a bater os 78 anos e quando disto fala, nunca se esquece de ir buscar o velho Eugénio:

«Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados.»

Curiosamente, o avô nasceu no dia 6 de Fevereiro de 1883 e morreu no dia 27 de Fevereiro de 1969.

domingo, 29 de janeiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Ao qu’isto  chegou!

O circo político português é um amontoado de absurdos que não foge ao absurdo em que o país se transformou.

 Os disparates são tantos que não há mãos a medir, o único problema é por onde começar.

Por agora, fujo às notícias, e começo com um poema da Ana Hatherly.

O poema chama-se Balada do País Que Dói:

 

O barco vai

o barco vem

 

português vai
português vem

 

o corpo cai
o corpo dói

 

português vai
português cai

 

o barco vai
o barco vem

 

português vai
português vem

 

o país cai
o país dói

 

o tempo vai
o tempo dói

 

português cai
português vai
português sai
português dói

 

1.

Quanto vai custar a Jornada Mundial da Juventude, a realizar em Lisboa no próximo Verão?

Ninguém tem números exactos, mas é provável que ultrapasse largamente os 100 milhões de euros.

De fonte quase segura, sabe-se que o Palco-Altar onde o Papa Francisco celebrará missa, se continuarem com a mesma ideia, custará mais de 6 milhões de euros.

Que dirão os sem-abrigo que dormem nas imediações da Gare do Oriente, em Sete Rios?

Lembrar-se-á Marcelo Rebelo de Sousa que prometeu a erradicação dos sem-abrigo?

Lembrar-se-á a Câmara Municipal de Lisboa, conforme notícia da página 20 do Público de 27 de Junho de 2019, que iria tirar todos os sem-abrigo da rua até final do ano de 2021?

No final do ano de 2018, havia em Lisboa cerca de 2470 pessoas sem-abrigo, das quais 361 a viver rua e 1967 em centros de acolhimento.

Obviamente estes números, nos dias de hoje, terão largamente aumentado.

Face a esta situação, a que se junta a fome e a doença, que percorrem os dias desta gente,não há qualquer argumento que possa explicar o megalómano despesismo com o Festival da Juventude

A jornalista Helena Pereira, escrevia no Público:

«Ninguém sai bem na fotografia. Nem a Igreja, nem a Câmara de Lisboa, nem o coordenador do projecto da Jornada Mundial da Juventude, nem o Governo. O que é que andam afinal a fazer? A verdade é que, somando cada uma das partes, o cidadão comum ainda não percebeu quanto dinheiro e como anda a ser gasto para a recepção da JMJ e do Papa Francisco, em Agosto, no Parque Tejo, em Lisboa.»

2.

Segundo o INE, 2,6 milhões de portugueses vivem com menos de 660 Euros.

3.

Vinte e tal dias depois de se ter demitido, Pedro Nuno dos Santos  descobriu que afinal tinha enviado um whatsapp a aprovar a indemnização de meio milhão de euros da TAP a Alexandra Leitão.

Esta gente poderá governar um país?

Esta gente pode encontrar ponta de solução para os professores, para os médicos e enfermeiros que se manifestam nas ruas do país?

Esta gente é igualzinha a outra gente que se perfila para conquistar o poder.

O PSD, numa sondagem-sujeita-a-todas-as-suspeitas,feita para a TVI/CNN Portugal, consegue ultrapassar o PS e de imediato, vemos Montenegro a ameaçar Costa, caso não mude rumo na governação, irá de imediato a Belém exigir eleições.

4.

Fernanda de Almeida Pinheiro, nova bastonária da Ordem dos Advogados:

 "Portugal tem um problema de corrupção grave"

O problema não é apenas português, mas, sabe-se, que onde houver dinheiro, há corrupção.

Há dias soube-se que na Ucrâniavários elementos do governo de Zelensky desviaram centenas de milhares de dólares destinados a apoiar o povo ucraniano. Há suspeitas de desfalques de muitos milhões.

CONVERSANDO


 Nos dias que correm, terríveis dias, não há momento que não se ouça o sentir do perigo de uma guerra a acontecer, resultante da invasão de Putin à Ucrânia.

A morte recente de David Crosby trouxe-me à memória este triplo álbum comprado na então  Discoteca Melodia na Rua do Carmo, lado direito de quem subia a rua e que me custou 1.050 escudos, ao cambio de hoje  5 euros e vinte e cinco cêntimos.

No Nukes: The Muse Concerts For a Non-Nuclear Future,  continha seleccções dos shows do Madison Square Garden, Setembro de 1979, realizado pelo coletivo Musicians United for Safe Energy . Jackson Browne , Graham Nash , Bonnie Raitt e John Hall como os principais organizadores do evento.

O documentário/Filme do Concerto do Madison Square Garden de Danny Goldberg, Antonio Poenza e Julian Schlossberg de 1981, esteve em exibição, Fevreiro de 1983, em Lisboa, no então Cinema Roma.

Este é o alinhamento dos discos:


DISCO 1


Lado A

Dependin' On You (Doobie Brothers) - Runaway (Bonnie Raitt) - Angel From Montgomery (Bonnie Raitt) - Plutonium is Forever (John Hall) - Power (Doobie Brothers with John Hall & James Taylor)

Lado B

The Times They Are A-Changin' (James Taylor, Carly Simon, & Graham Nash) - Cathedral (Graham Nash) – The Crow On The Cradle (Jackson Browne & Graham Nash) - Before the Deluge (Jackson Browne)

DISCO 2

Lado A

Lotta Love (Nicolette Larson & The Doobie Brothers) - Little Sister (Ry Cooder) - A Woman (Sweet Honey in the Rock) - We Almost Lost Detroit (Gil Scott-Heron) - Get Together (Jesse Colin Young)


Lado B


You Can't Change That (Raydio) - Once You Get Started (Chaka Khan) - Captain Jim's Drunken Dream (James Taylor) - Honey Don't Leave L.A. (James Taylor) - Mockingbird (James Taylor & Carly Simon)

DISCO 3

Lado A

Heart of the Night (Poco) Cry to Me (Tom Petty & The Heartbreakers) - Stay (Bruce Springsteen & Jackson Browne & The E Street Band) – Devil With The Blue Dress Medley (Bruce Springsteen & The E Street Band)

Lado B

You Don't Have to Cry (Crosby, Stills & Nash) - Long Time Gone (Crosby, Stills & Nash) - Teach Your Children (Crosby, Stills & Nash) - Takin' It To the Streets (Doobie Brothers & James Taylor)

O disco tem pérolas verdadeiramente estimáveis, a maior será a primeira aparição oficial de Bruce Springsteen, e da E Street Band ao vivo.

Outra pérola estimável, mera opinião pessoal, é a participação do público enquanto Crosbt, Stills and Nash cantam «Teach Your Childreen»: « : don't you ever ask them why, if they told you, you would cry, so just look at them and sigh and know they love you.», que aqui no vídeo, tirado do You Tube aparece depois de «You Don't Have to Cry».

sábado, 28 de janeiro de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ

Numa entrevista à agência Associated Press, no início desta semana, o Papa Francisco declarou que «ser homossexual pode ser pecado, mas não é crime».

Crime e Pecado.

É provável que há quem fique um tanto ou quanto à nora com a afirmação do Papa, que tem sido visto como um Papa de vistas largas. Mas também se sabe que pelo Vaticano ainda passeiam uma série de mentalidades completamente retrógradas, autênticos velhos do Restelo como se diria por aqui.

Há uma canção do Chico, a que Ney Matogrosso deu uma interpretação deliciosamente provocante, em que se declara que não existe pecado no lado de baixo do Equador Equador.

É para lá que vanos!

Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado safado debaixo do teu cobertor
Me deixa ser teu escracho, capacho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é lição de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou professor

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me usa, me abusa, lambuza
Que a tua cafuza
Não pode esperar

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me esgota, me bota na mesa
Que a tua holandesa
Não pode esperar

Não existe pecado do lado de baixo do equador
Vamos fazer um pecado, rasgado, suado a todo vapor
Me deixa ser teu escracho, teu cacho
Um riacho de amor
Quando é missão de esculacho, olha aí, sai de baixo
Que eu sou embaixador

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me usa, me abusa, lambuza
Que a tua cafuza
Não pode esperar

Deixa a tristeza pra lá, vem comer, me jantar
Sarapatel, caruru, tucupi, tacacá
Vê se me esgota, me bota na mesa
Que a tua holandesa
Não pode esperar


sexta-feira, 27 de janeiro de 2023

BLOGUEANDO POR AÍ

A 27 de Janeiro assinala-se o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto, implementado através da Resolução 60/7 da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas.

 O propósito deste dia é não esquecer o genocídio em massa de seis milhões de judeus pelos Nazis e respetivos colaboracionistas. Este constitui um dos maiores crimes contra a Humanidade de que há memória. Por outro lado, pretende-se educar para a tolerância e a paz, bem como alertar para o combate ao antissemitismo.

Ana Cristina Leonardo colocou no seu blogue a imagem que encima este texto, a respectiva citação em inglês, e nós, por aqui, fizemos, à lepra, a tradução:

«O museu de Auschwitz disse na quarta-feira que, por causa da guerra na Ucrânia, a Rússia será excluída da cerimônia que marcará os 78 anos desde que o Exército Vermelho libertou o campo de extermínio nazista.

“Dada a agressão contra uma Ucrânia livre e independente, os representantes da Federação Russa não foram convidados a participar da comemoração deste ano”, disse à AFP Piotr Sawicki, porta-voz do museu no local do antigo acampamento.»

O POEMA

O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce.

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve.

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece.

Natália Correia

quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

REGRESSOS

Voltou. Não disse nada.

Mas era claro que tivera algum azar.

Deitou-se vestido.

Pôs a cabeça debaixo do cobertor.

As pernas encolhidas.

Anda pelos quarenta mas não neste momento.

Está mas apenas tanto quanto no ventre da mãe,

para lá de sete peles, na protecção do escuro.

Amanhã dará uma conferência sobre homeostase

na cosmo náutica metagaláctica.

Por agora, enrolou-se, adormeceu.

 

Wislawa Szymborska

quarta-feira, 25 de janeiro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 Roteiro Afectivo de Palavras Perdidas

António Mega Ferreira

Capa: V. Tavares

Tinta-da-China Editores, Lisboa, Outubro de 2022

Quando viro o espelho retrovisor da memória para o percurso da minha já longa vida, é sob a forma de palavras que as diversas etapas, episódios ou afetos me aparecem. Muitas dessas palavras eram para mim correntes à data dos sucessos que nomeiam e descrevem; mas, resgatadas hoje, parecem-nos obsoletas, fora de uso, inutilizadas. Que mistério envolve o envelhecimento e a obsolescência das palavras? Porque caem em desuso termos como trampolineiro, infernizar e larápio (ao longo deste livro, as palavras que tenho por «perdidas» aparecem sempre em itálico), mesmo quando as realidades que nomeiam se mantêm presen‑ tes, ainda que sob outras formas?

Confesso que é com alguma nostalgia que me lembro de certas palavras da minha juventude, cujo fulgor rutilava no intenso fascínio do significante, antes mesmo que o que elas queriam dizer tivesse para mim um significado inteligível. Colhera o belo verbo nas «rútilas estrelas» de Gonçalves Crespo e só mais tarde soube que rutilante (arruivado, doura‑ do, cintilante) era um elegante latinismo de Camões (de rutilans, rutilantis), possivelmente acolhido por via castelhana. Porém, aqui não me refiro tanto às palavras «caras», que os adultos pronunciavam com aplicação e algum pretensiosismo, quanto às outras, as que povoavam a conversação, nem sempre densas de uma história multissecular, mas às palavras sem traço de novo-riquismo, nobres apenas porque enraizadas na fala vulgar da cidade de Lisboa, onde nasci, cresci e sempre vivi. Resgatar palavras do relativo esquecimento em que caíram é desencadear exercícios de reminiscência pessoal sobre os modos, as circunstâncias, o tempo em que elas foram correntes.

Ao longo dos anos, fui registando numa lista laboriosa palavras que fui perdendo, palavras que tiveram um tempo no meu discurso (na minha vida?), ou que, pelo menos, nela traçaram um rasto fulgurante de cintilações afetivas rapidamente extintas no céu do meu olvido. O que tinha em mente era uma coletânea de murmúrios e reminiscências, de segredos e memórias, um inventário de adversidades e afetos, cada uma das nossas histórias dando às palavras o sentido que lhes atribuí‑ mos, em lentas, sucessivas, respeitosas aproximações. Mas o que resultasse não seria um exercício lexicográfico, muito me‑ nos filológico, e só instrumentalmente etimológico: antes, um álbum de memórias vazadas em palavras cujo eclipse parcial me apetecia resgatar pela evocação, mais um roteiro do que um dicionário. Nada nele seria exaustivo: na realidade, me‑ nos de um terço das palavras listadas acabou por vir à escrita (80 de uma lista de 250). E, dessas, nem todas desapareceram da fala comum; algumas delas apenas se tornaram mais raras, menos correntes, mais «antigas».

terça-feira, 24 de janeiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia pediu a demissão. A jornalista Bárbara Reis, sobre essa demissão, escreveu o Público:

«É uma maravilha ouvi-la falar. Na era da desesperança política, Ardern é frescura, é inspiração, é alegria, é luz. Demitiu-se antes de tempo, sem um escândalo ou uma crise — para além da crise geral. Podia continuar no poder, mas disse que já não tem o “tanque cheio, mais a reserva” e que só faz sentido ocupar o lugar quando o tanque está muito cheio.

Notem as suas palavras: “Não estou a sair porque é difícil. Se fosse isso, provavelmente teria saído dois meses depois. Estou a sair porque esta função, tão privilegiada, exige responsabilidade. A responsabilidade de saber quando somos a pessoa certa para liderar e, também, quando não somos.”

E mais esta: “Espero ter deixado a convicção de que se pode ser gentil, mas forte. Empático, mas decidido. Optimista, mas focado. Que podemos ser o nosso próprio tipo de líder — um líder que sabe qual é o melhor momento para sair.”

Agora que passou o choque da demissão-surpresa, vai especular-se sobre as reais razões da saída. O “tanque” de Ardern deixou de estar cheio simplesmente porque é isso que acontece após cinco anos e meio a chefiar um país? Porque a sua popularidade caiu mais 1% e o rival de direita subiu 2%? Porque vai ser difícil formar o próximo governo? Porque tem uma filha de quatro anos e quer ir buscá-la à escola? Porque, por mais que se diga que “já foi pior”, é muito difícil ser mãe de um bebé e chefe, sobretudo de um país.

Helen Clark, a primeira mulher eleita para chefiar o governo na Nova Zelândia, disse que Ardern recebeu ataques “sem precedentes” e que a sua demissão devia pôr a país “a pensar se quer continuar a tolerar a polarização excessiva que está a tornar a política uma vocação cada vez menos atraente”: “As pressões sobre os primeiros-ministros são sempre grandes, mas nesta era de redes sociais, notícias feitas para atrair clicks de leitores e ciclos de media 24 horas por dia, 7 dias por semana, Jacinda enfrentou um nível de ódio sem precedentes.”

Clark não está sozinha. Outros líderes dizem que a quantidade e intensidade de abusos e ameaças contra Ardern contribuíram para a sua saída antes de tempo. Ameaças de morte, perseguições e agressões na estrada, insultos de todo o tipo, para além de anos a responder às perguntas mais misóginas de se possa imaginar.»

 Devagar vamos aprendendo que os problemas da participação das mulheres na vida política é um problema de natureza cultural e, como tal, não se resolve por meio de quotas, decretos ou simpatias.

O filósofo Sófocles, lá muito para trás, deixou escrito: disse lá muito parabtr

«Quando uma mulher está em condições de igualdade com um homem, torna-se superior» e o escritor Somerset Maugham admitiu que somente a mulher sabe do que a mulher é capaz.

1.

Continuam as investigações em quase tudo o que são autarquias aqui no pedaço, e tanto quanto se consegue ver, ou inventar, na Câmara de Lisboa as investigações vão até ao tempo em que António Costa era presidente.

Continuam os crimes – os que se vão conhecendo –dos padres pedófilos com crianças: A diocese de Viana do Castelo anunciou, ter proibido um padre de Monção, de exercer o sacerdócio depois de este ter confirmado um caso de abuso sexual de menor.

Continuam os imbróglios com as migrações: Pode chegar aos oito mil euros o salário do diretor da nova Agência Portuguesa para as Migrações e Asilo que vai herdar as funções administrativas do SEF - mais do dobro do vencimento dos diretores nacionais da Polícia Judiciária,  

Os problemas com o SEF, e similares, denotam que os efectivos são poucos para resolverem as questões que o assunto exige.  Abrimos as portas aos migrantes mas depois não conseguimos iniciar, conduzir e finalizar o processo de cada migrante no nosso país.

Continuam os casos de imigrantes espoliados e tratados como escravos nos campos onde o trabalho sazonal é assegurado exclusivamente por estes trabalhadores, história bem sinistras que, volta e meia, chegam ao nosso conhecimento, onde as diversas máfias impõem a sua força.

 Não continua, porque começou agora, a polémica com o altar-palco onde o Papa Francisco celebrará, no próximo Verão, a missa final da Jornada Mundial da Juventude  e que  vai custar 4,2 milhões de euros.

A procissão ainda não saiu do adro, mas as palavras do Papa necessitam de um palco com este custo? O que se torna importante: as palavras ou o local onde elas serão proferidas?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2023

CONVERSANDO


 Dando destino aos jornais e revistas que se vão acumulando por aqui e por ali, dei com um Fugas do Público de 23 de Julho de 2022 em que Edgardo Pacheco escrevia o obituário de Maria de Lourdes Modesto.

«Conheci Maria de Lourdes Modesto, que morreu esta terça-feira aos 92 anos, em meados dos anos de 1990, num dos Congressos de Gastronomia do Minho, organizados por Francisco Sampaio e Nuno Lima de Carvalho. Eram encontros estupendos porque, entre debates sobre papas de sarrabulho e as estratégias para o turismo termal, havia sempre tempo para se chegar a estados etílicos alegres e em diferentes escalas, tais eram as solicitações das adegas da região para a aferição da qualidade do Alvarinho, do presunto e dos enchidos variados.

O grupo de Lisboa ia para o Minho num autocarro fretado. À frente, os palestrantes, a meio, uns eruditos (com o jornalista António Valdemar à cabeça) e, atrás, a maralha, liderada por esse pândego cativante que era o Hélder Pinho – conhecido no universo gastronómico como Dom Pipas (Capital).»

Guardei o recorte porque a sua morte mandou-me para os tempos dos meus 13/14 anos em que determinados programas, na televisão Nordmend, a preto e branco, não tinham outros assistentes que não o avô, eu e o gato Trafaria.

Ali ficávamos os dois, o Trafaria, ronronando, aconchegado nos joelhos do meu avô, olhando as habilidades culinárias da então colaboradora semanal da televisão-canal-único, a sua simpatia, o trato fácil, excelente comunicadora, era professora no Liceu francês, os seus gestos, o seu grande sorriso, o gosto pela cozinha alentejana, Beja a viu nascer, um tempo em que não havia «chefs», apenas cozinheiro(a)s que falavam do que portuguesmente queriam saber, e José Quitério no seu  Histórias e Curiosidades Gastronómicas, chamou a Maria de Lourdes Modesto, uma das cada vez mais raras Guardiãs do Fogo.

Mas o recorte também ficou guardado porque Edgardo Pacheco falava do Helder Pinho, meu grande amigo, jornalista, desde os primeiros números, de A Capital, das andanças e trangalhadanças de D. Pipas.

Saudades.

Curiosamente, há dias, guardei uns recortes em que Jorge Pereirinha Pires, no «Expresso» escrevia sobre os portugueses na Califórnia («O primeiro europeu a chegar à costa da actual Claifónia foi, como, como se sabe, João Rodrigues Cabrilho. Natural da freguesia de Cabril, perto de Pitões das Júnias, no concelho de Montalegre.») e onde era referido o nome de Helder Pinho e o livro, Portugueses na Califórnia, que reuniu as reportagens que realizou para A Capital», com prefácio de Jorge de Sena.



Do prefácio de Jorge de Sena, e sabe-se que Sena não era homem de elogio fácil:

«Pede-me Helder Pinho algumas palavras de apresentação do seu livro sobre os portugueses na Califónia que ele publicou por Abril e Maio do corrente ano (1977), no jornal A Capital, e que representavam a soma das suas pesquisas e contactos de jornalista consciencioso e lúcido como poucos, para tão complexo tipo de reportagens jornalisticas e/ou literárias. Pelo que até aqui já vai dito é óbvio que os contactos que com ele tive já vai dito é óbvio que os contactos que com ele tive, o modo como o vi actuar, o que ouvi da actuação dele junto das várias pessoas, e os textos que li atentamente e com prazer e enorme proveito (quem de todos nós faz deste estudos brilhantes e ao mesmo tempo da funda seriedade e sólida documentação, se escreve de gentes e lugares que foi ver só para escrever deles?), me fazem julgar o autor como um admirável e os artigos que ele publicou como nada de efémero, e sim como essencial base documental para entender-se o problema dos portugueses e seus descendentes no estrangeiro, e em particylar na América do Norte.»

Conversando, o meu amigo Helder Pinho, Jorge de Sena, o meu avô, o gato Trafaria, Maria de Lurdes Modesto, a rara Guardiã do Fogo, como lhe chamou José Quitério, uma televisão Nordmend, a preto e branco, comprada a prestações, que levou anos e anos a pagar, e o primeiro programa que nessa televisão vi, «Nat King Cole Show» e em boa hora isso aconteceu, memórias e mais memórias…

DISSESTE

Disseste: o sol nasceu.

Foi verdadeiramente então que o sol nasceu

e que nos habituámos todos a dizer

que o sol nasceu.

Às vezes pensamos que acontece várias vezes

mas é uma ilusão de óptica que não nos deixa ver

o grande círculo azul em cujo centro

tu dizes eternamente: o sol nasceu.

 

Pedro Tamen 

domingo, 22 de janeiro de 2023

DITOS & REDITOS


 Amanhã é outro dia. E também o seguinte.

Morrer virá a seu tempo.

Vida de cão é não poder dizer que não.

Agir como se o tempo não passasse.

Atrás de mim virá quem de mim bom fará.

A inveja é cega.

Tostão poupado é tostão ganho.

O que o mar leva, o mar devolve.

sábado, 21 de janeiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Os portugueses vivem dias difíceis, o governo de maioria absoluta, anda envolvido numa sucessão de crises, casos e casinhos, Marcelo tenta chamar a miudagem à razão mas perde-se em palavras e ideias com pouco nexo, e para completar, no meio destas trapalhadas diversas e sem fim, numa recente sondagem para o DN, JN e TSF, 63% dos inquiridos declararm que Montenegro e o PSD não estão prontos para liderarem um governo.

Mas para atrapalhar mais a situação, soube-se que Fernando Medina ministro das Finanças, enquanto Presidente da Câmara Municipaçl de Lisboa, ou alguém por ele, foi o responsável pela escolha de Joaquim Morão.

José António Cerejo escreve no Público que «a Câmara de Lisboa tinha centenas de engenheiros, arquitectos e gestores de obras nos seus quadros. Mas os seus responsáveis resolveram, no meio da trapalhada que o Ministério Público está a investigar, ir buscar o homem de Castelo Branco. Porquê? Não se sabe. »

Pelo seu lado, António Guerreiro escrevia, um destes dias no Público:

«Podemos facilmente observar, porque os seus signos são de uma enorme evidência, que a vergonha é um sentimento que desapareceu da política. E digo “da política”, e não “dos políticos”, para evitar a psicologização e apelar, antes, à referência espinosista que, refutando uma falsa antinomia entre ideia e afecto, afirma que os afectos são o material da política.

Os políticos apanhados a cometer infracções legais ou morais que os destituem tanto no aspecto político como cívico parecem ser indiferentes ao ethos social e mantêm geralmente uma atitude de realismo apático e desavergonhado. A desvergonha tornou-se mesmo um capital simbólico e um motor fundamental da acção política.

A manifestação protocolar de agradecimento pela dedicação e sentido do dever aos que se demitem (voluntária ou coercivamente) porque já não têm condições para ficar, devido a palavras ou decisões impróprias, tem de ser entendida como uma operação de branqueamento e uma contribuição para a anulação da vergonha e da culpabilidade enquanto sentimentos que a racionalidade política do nosso tempo expulsou da sua acção e até do seu horizonte. A manifestação individual de vergonha afecta todo o edifício político e afecta, portanto, até aqueles que não têm nenhuma razão para se sentirem envergonhados. A positividade ética da vergonha tornou-se uma negatividade política.»

1.

Os valores praticados no mercado de arrendamento de Lisboa sofreram um aumento de 36,9% no último ano, atingindo um preço médio de 21 euros por metro quadrado. Com esta subida, arrendar casa na capital portuguesa ficou com um custo semelhante ao praticado em Barcelona e mais caro do que em Madrid (17 euros/m2). Aliás, o aumento verificado em Lisboa é o mais elevado quando comparado com os registados em Paris, Milão, Madrid e Barcelona.

2.

Fernando Medina falou em "boas notícias" no que se refere aos receios de recessão na Europa após a reunião do Conselho de Assuntos Económicos e Financeiros e rejeitou a necessidade de novo aumento de salários em 2023.

3.

Mário Centeno confiante de que a zona euro não vai entrar em recessão técnica.

Poder de compra do trabalho estagnado há 20 anos, Medina rejeita necessidade de novo reforço agora.

Salários: mais de metade dos trabalhadores recebia menos de 1.000 euros em 2022.

Ainda Fernando Medina:

«A nossa política salarial é a política adequada para responder às necessidades de assegurar o poder de compra durante o ano de 2023, sem com isso contribuir para um amento das tensões inflacionistas no nosso país».

MÚSICA PELA MANHÃ

Num curioso livro intitulado “A idade das Obras-Primas”, os investigadores Francesco Antonini e Stefano Magnolfi levantam a questão do fator idade na produção das obras marcantes de uma vida. Todos nos impressionamos que Mozart tenha começado a compor aos 4 anos de idade, a dar concertos aos 6 e que um mestre com a consciência de Franz Joseph Haydn tenha dito de um Mozart ainda rapaz que era o maior compositor que havia encontrado.

José Tolentino Mendonça, de uma crónica no Expresso.

Também pretexto para deixar duas pequenas árias de As Bodas de Fígaro de Mozart.