quarta-feira, 12 de julho de 2023

JOSÉ LUÍS CARNEIRO NÃO FOI CHARLIE?


 «O ministro José Luís Carneiro declarou, placidamente, como se fosse a coisa mais normal deste mundo, ter telefonado diretamente ao presidente do conselho de administração da RTP, a televisão pública, para "manifestar desagrado" (cito as palavras usadas pelo próprio) com um cartoon animado que caricaturava o suposto racismo da polícia francesa, na sequência dos acontecimentos que geraram vários dias de motins, mas cujo desenho foi entendido por alguns como sendo também uma acusação à polícia portuguesa.

 O ministro José Luís Carneiro, que tutela as polícias, talvez tenha sentido que essa era a sua obrigação, que tinha de defender a imagem dos polícias portugueses, mas para o fazer usou algo que liquida a sua própria credibilidade democrática - abusou da autoridade que o cargo de ministro da Administração Interna lhe confere.

 É verdade que os Estatutos da RTP dão aos diretores de Informação toda a autonomia e responsabilidade editorial do jornalismo da RTP, sendo teoricamente imunes a interferências do próprio conselho de administração, quanto mais do governo.

 Na programação, a força formal dessa blindagem não existe. Porém, para além do próprio conselho de administração, há estatutariamente vários órgãos que lateralmente podem verificar se a RTP está a cumprir na programação os requisitos do serviço público que presta, como o conselho geral independente e o conselho de opinião.

 A ERC e a própria Assembleia da República também podem pronunciar-se, dentro dos limites da regulamentação existente, sobre o que anda a televisão pública a fazer.

Há ainda provedores de espectadores, instituídos pela própria estação, que fazem análise crítica ao conteúdo das emissões.

 Nada na comunicação social portuguesa é tão escrutinado como o conteúdo da RTP, televisão e rádio, Isso acontece todos os dias, e ainda bem que é assim.

Mas ninguém do governo, enquanto tal, tem enquadramento legal para fazer o que José Luís Carneiro disse que fez. Nem, sequer, o ministro da tutela - e esta distância entre a televisão pública e o executivo foi algo duramente construído ao longo de quase cinco décadas de democracia, e que afasta a RTP dos tempos em que ministros telefonavam a diretores de Informação para discutir o alinhamento do Telejornal.

 Esse progresso, que aparentava ser consensual, está, pelos vistos, em risco de regressão.

 A simples sensibilidade política é também diferente se for um membro do governo a refilar contra a RTP ou se for um partido da oposição a protestar por uma qualquer notícia que lhe desagrade.

 Os partidos, isoladamente, não têm poder efetivo sobre a RTP e, por isso, as suas reclamações são um direito de intervenção pública que não lhes pode ser negado.

Poderá ser eventualmente aceitável que um membro do governo faça críticas ou elogios públicos a qualquer conteúdo da RTP, mas, na realidade informal, o peso do poder de um ministro implica que neste caso seja mais ténue a linha que separa a manifestação de uma posição política legítima da de uma interferência abusiva.

 José Luís Carneiro ultrapassou claramente essa linha ao telefonar diretamente ao presidente do conselho de administração, Nicolau Santos, pois esse contacto pode legitimamente ser interpretado como uma tentativa de coação política direta, um afrontamento personalizado de alguém, que está no poder executivo do país, sobre alguém que executa um contrato de serviço público. Nessa conversa, implicitamente, apesar de todas as defesas legais, está subentendido quem manda mais, quem está por cima, quem está por baixo e quem pode começar a trabalhar para fazer a vida negra ao outro. É, repito, um abuso de poder.

 Mas, pior do que isto tudo, é o ridículo. Meu Deus! Estamos a falar de um cartoon, que uns gostarão e outros não, mas é um cartoon, não é para levar a sério, não é para gastar tempo político e nos tribunais.

 Quantos destes ofendidos não se disseram um dia, em 2015, emocionados, solidários com os cartoonistas assassinados do Charlie Hebdo e usaram, desafiadores à distante ameaça islâmica, o autocolante "Eu sou Charlie"?...

 Que patetas!

 Pedro de Tadeu no Diário de Notícias de hoje.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Continuam as manhãs de notícias sempre iguais.

A Polícia Judiciária está a fazer buscas nas sedes do PSD em Lisboa e Porto, em casa de Rui Rio, de alguns funcionários do partido, entre eles Hugo Carneiro, deputado social-democrata que foi responsável pelas contas do partido durante a liderança de Rui Rio.
 Segundo o Público, estará o facto de terem sido pagos ordenados a funcionários do PSD com recurso a verbas da Assembleia da República que seriam exclusivamente destinadas a cargos de assessoria dos grupos parlamentares.

Luís Montenegro ainda não apareceu a botar palavra sobre o assunto, ele que costuma, em outros casos e casinhos , ser tão célere.

Bom Dia Alexandra Alpha:

«Isto não é um país, é um sítio mal frequentado». 

terça-feira, 11 de julho de 2023

ESCRITA DA TERRA

1.

Sê tu a palavra,

branca rosa brava.

2.

Só o desejo é matinal.

Poupar o coração

é permitir à morte

coroar-se de alegria.

4.

Morre

de ter ousado

na água amar o fogo.

Beber-te a sede e partir

– eu, que sou de tão longe.

Da chama à espada

o caminho é solitário.

7.

Que me quereis,

se me não dais

o que é tão meu?

Eugénio de Andrade dee Ostinato Rigore em Poesia

segunda-feira, 10 de julho de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 É difícil perceber o que se passa com António Costa. A ideia que o governo transmite é que tanto o primeiro-ministro, como os ministros, como os secretários de estado, andam a escorregar na maionese.

Ana Sá Lopes no Público:

«Quando foi interrogado sobre o caso do secretário de Estado da Defesa suspeito de corrupção, Costa – que na véspera se tinha recusado a comentar a demissão - disse que era preciso deixar a justiça fazer o seu trabalho. Aí, tudo bem.
O problema é o que diz a seguir: “Sem ter que diminuir aquilo que preocupa muito os comentadores e o espaço político, eu sinceramente aquilo que eu sinto que preocupa as pessoas são temas bastante diferentes. Eu ando muito na rua, vou ouvindo o que as pessoas me dizem, e as pessoas dizem-me coisas que têm pouco a ver com esses assuntos.” Segundo o chefe do Governo, a inflação, a melhoria de rendimentos, sim, isso “interessa às pessoas”; a possibilidade de corrupção e da péssima gestão do Estado não interessa a ninguém.
Não se percebe se António Costa teve consciência da enormidade que disse ou se pensa exactamente assim ou se teve um descolamento da realidade similar a um desmaio.

1.

 Em Portugal 210 mil pessoas acima dos 65 anos continuam a trabalhar enquanto 255 mil pessoas têm segundo emprego, o número mais alto dos últimos anos.

2.

De acordo com os dados mais recentes (2020), há cerca de 345 mil crianças em Portugal a viver abaixo do limiar da pobreza.

3.

Em apenas 10 anos a Igreja Católica perdeu perto de 240 mil fiéis, enquanto quase todas as outras crescem, com a Evangélica em destaque. Mas a grande mudança em curso na sociedade portuguesa é o crescimento de quem não professa qualquer religião.

4.

Numa  entrevista à CNN, Joe Biden acusa os ultranacionalistas que actualmente suportam o governo de Telavive, liderado por Benjamin Netanyahu, de serem "parte do problema" do conflito israelo-palestiniano, por aprovarem a instalação de colonos judeus "onde lhes apetece".

POÉTICA

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. Diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o
cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de excepção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora
de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário
do amante exemplar com cem modelos de cartas
e as diferentes maneiras de agradar às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbados
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

– Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Manuel Bandeira de Libertinagem em Obras Poéticas

domingo, 9 de julho de 2023

... E SERÁS RECORDADO COMO MERECES!

Aproveito os calores que vão fazendo, nos vão desfazendo, para ir fazendo a poda da jornalada que vou guardando, com boas ideias certamente, mas depois não lembro quais.

Guardei isto para quê?

Aníbal Cavaco Silva, com algum atraso e pedidos de desculpa, escreveu um longo artigo político-filosófico, dando os parabéns a António Costa pela maioria absoluta, recordando também as suas maiorias absolutas, as reformas que promoveu nesses governos e esperando  que o novo executivo faça ainda melhor.

Pedro Garcias, cronista do suplemento Fugas do Público, leu o artigo de Cavaco e apeteceu-lhe recortar:

«Eu li o artigo de Cavaco no computador e, graças a Deus, não senti nada. Apreciei, sobretudo, aquela passagem em que o ex-Presidente da República falou dos jornalistas. “O senhor Primeiro-Ministro sabe que nunca tive jeito ou apetência para a arte de sedução dos jornalistas e que, ainda hoje, muitos deles não gostam de mim, o que nada me incomoda. Esta é uma área em que V. Exa. é, e continuará a ser, muito melhor do que eu”. Aqui, o ex-Presidente da República foi chorinhas mas modesto. Os jornalistas do seu tempo (eu acompanhei-o em algumas visitas a Trás-os-Montes) lembram-se bem de como Cavaco era um querido, mesmo com quem não tinha o famoso “cartão laranja”. E os seus seguranças também eram uns fofos, até bolos nos davam. Cavaco nem devia perder tempo com estes lamentos. Presumo que a mulher o tenha avisado:

- Ó Aníbal, não escrevas essas coisas. Deus é grande e justo e um dia serás recordado como mereces.»

MÚSICA PELA MANHÃ


 Elton John despediu-se ontem à noite dos palcos com um concerto em Estocolmo, no qual agradeceu a todos por "52 anos de pura alegria a tocar música".

Elton tem 76 anos, mais de 50 anos de carreira, 4.600 actuções por todo o mundo e fechou o concerto cantando  Goodbye Yellow Brick Road.

sábado, 8 de julho de 2023

VELHOS RECORTES


 Ao longo dos anos em que por este Cais ando, uns disparatados 13 anos!... tenho dito que gosto de crónicas de jornais porque sou do tempo tempo em que havia jornais/jornais e os escrevinhadores eram gente de eleição.

Encontrei este velho recorte que regista a morte de João Carreira Bom.

Andou por vários jornais e revistas e a morte apareceu-lhe tinha ele crónica no «Diário de Notícias».

Esta é a homenagem que os camaradas lhe prestaram.

POR UMA CERTA MEMÓRIA


Há um estudo que mostra que a quantidade de informadores da PIDE era tão grande que quase metade da população portuguesa era constituída por informadores. Muitos ainda andarão por aí.

A maior parte seria salazarista, mas outros actuaram como vingança sobre pessoas de que não gostavam: vizinhos, familiares.

As denúncias dos informadores levaram à prisão pessoas que nada tinham a ver com nada, mas outros redundaram  na prisão de militantes que lutavam pela Liberdade e acabaram por ser julgados nos Tribunais Plenãrios.

O poema reproduzido acima é da autoria de José Carlos de Vasconcelos e pertence ao livro «Poemas Para a Revolução». O poeta lembra os juízes dos tribunais plenários, e pergunta: «que direis no dia do vosso julgamento?»

Nada disseram porque deles não se fez qualquer julgamento.

Deles, dos pides, de todas as ratazanas que, durante, perto de meio século, nos infernizaram a vida.

Provavelmente, muitos deles continuaram, não naquelas funções, mas noutras, as suas vidinhas na justiça. Hoje, por ventura, ainda gozam chorudas reformas, bons carros, casas na praia, nada lhes perturba o sono pela simples razão de não serem gente… apenas isso…

Como puderam estes abutres julgar homens?

Homens que apenas lutavam por um país limpo.

Que foi feito dos abutres?

Sim, somos homens de justiça e não de vingança, mas foi um crime deixá-los impunes!

As sombras que envolvem, hoje, a nossa justiça, tiveram gente desta como eventuais mentores, disciplinadores.

A perpetuação da ditadura verificou-se, durante tanto tempo, porque muitas foram as instituições que a protegeram: forças armadas, pide, censura, tribunais plenários.

E o medo, sim o medo.

Era terrível a nossa vida, mas grande parte da população, com a sua inércia, com o seu medo, permitiu que aqueles monstros sobrevivessem, se multiplicassem.

TAL COMO ELE É

«Desejo, pois ser ignorado. Se, ainda assim, alguém quiser prestar-me atenção, pela minha parte não prestarei atenção àqueles que prestam atenção. A escrita dos meus livros anteriores não foi forçada. Creio que escrever muito não garante uma escrita de qualidade. E não me venham falar dos «primeiros livros»! Que estes não sejam sobrevalorizados e que se tente compreender o Walser vivo, tal como ele é.»

Robert Walser em Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos

sexta-feira, 7 de julho de 2023

POSTAIS SEM SELO


 «Creio que escrever muito não garante uma escrita de qualidade.»

 Robert Walser em Cinza,Agulha, Lápis e Fosforozitos

 Legenda: Pormenor da capa de Cinza, Agulha, Lápis e Fosforozitos, pintura de Cornelis Norbertus Gijsbrechts.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Não deverá existir um único dia em que comece a ler as notícias e não fique a saber que a Polícia Judiciária não foi a uma qualquer Câmara Municipal para averiguações de desvios disto e daquilo e consequente visita ao domicílio de um qualquer autarca.

Hoje, ficámos a saber que o Secretário de Estado da Defesa demitiu-se após buscas ao seu domicílio e ao Ministério da Defesa.

Marco Capitão Ferreira deveria ser ouvido na próxima semana no Parlamento para dar explicações sobre um contrato de assessoria à Direcção-Geral de Recursos da Defesa Nacional.

António Costa aceitou a demissão o Presidente da República fez o mesmo.

Comentários sobre o nível de personagens que António Costa escolheu para o seu governo, ou lhe foram impostos, redundariam em nítido chover no molhado.

E voltamos sempre aos dizeres da Alexandra Alpha no romance do José Cardoso Pires:

 «Isto não é um país, é um sítio mal frequentado».

quinta-feira, 6 de julho de 2023

OS LOUCOS

A profissão de deus, o discurso do mundo, os pilares do universo,

eis um princípio magnânimo para abrir um poema.

A sua vastidão sem nome foge aos nomes,

solta na cabeça uma animalidade, lirismos, novas criaturas.

 

Quer passear com deus, a pobre alminha gráfica,

e recruta os anjos nos olhos da malícia, diz-se que deus é pobre

que não sabe sorrir, que se dá com crianças, putas e publicanos,

que não tem afinal profissão definida.

 

Que ladainha triste e sem filosofia,

sem as cavernas do grego, as mónadas do alemão,

sem o deus sive natura do judeu herege,

sem a teimosia daquele lá porque pensa existe e deus é perfeição

e basta.

 

Olhai: apenas um passeio de trôpegas palavras,

por vezes inquietas, infantis, e logo velhas à nascença,

consoante os cantos em que se vão esconder.

Perdidas dos fenómenos e nómenos, tacteiam-se entre si e logo gritam

que tocaram deus.

 

Há uma cegueira diversa no olhar dos loucos

que os leva a puxar pelo mundo

em segurança.

Como se o mundo fosse uma simples pesca, uma companha,

daqui saltam os peixes corredios, a prata da casa,

tudo o que foi cardume e percorreu o mar,

ciente e cauteloso,

dali crescem moluscos, grossos anéis de coragem,

sem dúvidas, firmes, e poderosos

na morte.

 

Rodam o pescoço à volta do universo, os loucos,

e tudo é matemática, biliões de anos-luz, a imensidão do silêncio

à entrada de deus.

É sua profissão purificar a saliva,

dar maior brilho às almas, criar as labaredas que não ardem,

deixar a casa limpa e ordenar aos anjos

que não adormeçam.

 

Armando Silva Carvalho

quarta-feira, 5 de julho de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Um mês, e mais alguns dias, que vamos percorrendo sem a Eduarda Dionísio.

Se já pouco lhe ligavam em vida, após a partida, apenas sombras e silêncios.

Fui à estante e percorri páginas e mais páginas de Retrato de Um Amigo Enquanto Falo.

 Aqueles extraordinários anos 60. Depois o início dos anos 70.

Os «revisas», os «troskas», os «maos».  No meio de tudo isto um ele que (ainda) conseguia unir – o ódio de morte à ditadura fascista. Depois foi o golpe do Pinochet no Chile. A grande discussão. Uns copos bebidos no tasco do costume Foi quando o Pedro quis escrever um artigo contra Salvador Allende. E alguns de nós a pensar que a censura até o deixaria passar. Sabendo-se que a censura cortaria tudo o que referisse o governo de Unidade popular. A mais leve evocação que fosse. Foi terrível. Foi também a divisão. E ainda não chegara o 25 de Abril. E agora nem sequer nos encontramos no tal tasco para um copo. Os sobressaltos dos  anos 60/70. O desespero. A esperança. O tempo das opções. As hesitações. As grandes e inultrapassáveis hesitações. Os livros do Marx, do Lénine , da Rosa Luxemburgo, do Mao, lidos à sucapa. Passados de mão em mão. Traduções péssimas mas as únicas que tínhamos. E sabemos com que riscos.

Portugal anos 60 e 70: o 25 de Abril. Um itinerário. Ou seja: o livro da Eduarda Dionísio, Retrato de Um Amigo Enquanto Falo. Um livro lindo que apetece ter sempre no bolso do casaco. A tal malta dos anos 60/70 está ali toda, está lá (quase) tudo. Um som e um ambiente ainda a pssar pelas veias. Levámos pontapés. Tivemos alegrias. Resistimos. Optámos. Aprendemos. Aprendemos mesmo? Um tempo vivido em bruto sem tratamentos de ácidos e cloros. Também uma certa ternura. Este livro não é uma romagem de saudade. Saudades só do futuro.

Eduardo Lourenço:

«Desta geração, em sentido literário, mais que vital, poucas expressões me parecem tão significativas como a que ficou consagrada em Retrato de Um Amigo Enquanto Espero, de Eduarda Dionísio.»

 Jorge Listopad:

«Li o livro, nas primeiras páginas, devagar. Como se lê em línguas abstractas, mal aprendidas. À medida que se avança, o discurso – e a leitura – acelera-se, precipita-se, ritmando em filigrana rostos, cenários, brincando por entre as arcadas como Maria Casarés, a bela morte, no «Orfeu» de Cocteau. Histórias da vida encobertas. Um diário que esconde a matéria-prima, mas revelando-a. Itinerário. Eu sou apenas um leitor. As críticas que fiquem para os outros. Há outros? Haverá?»

Para os «encartados» como dizia o Eduardo Guerra Carneiro.

 Fui buscar memórias de antes de Abril, mas este livro da Eduarda é um documento desencantado sobre o tempo que sucedeu ao que foi a Festa do 25 de Abril, que nos estragaram, que estragámos.

Um livro que não poderá deixar de ser lido, um livro que muito releio. Um livro que me sabe às manhãs da amizade, gentes que, por isto e por aquilo, deixei de ver, que gostaria de reencontrar para apanhar pontas de um novelo, um estranho novelo, diga-se.

terça-feira, 4 de julho de 2023

AINDA A FEIRA DO LIVRO


Muito longe, mas mesmo muito longe, vai o tempo em que todos os dias dava um salto à Feira  em busca dos Livros do Dia.

Agora estão todos na Internet.

A Feira este ano apresentava 340 pavilhões em representação de 981 chancelas editoriais.

 Se 61% dos portugueses, num ano, não leem um único livro, interrogo-me quem são os leitores da esmagadora dos livros que se publicam em Portugal, dos mais diversos temas, religiões e sei lá mais o quê.

As minhas pernas já não conseguem percorrer aqueles extensos corredores que são a Feira do Livro no Parque Eduardo VII. Vou-me socorrendo do mapa da APEL e, por atalhos, vou direito aos pavilhões  onde quero encontrar  os livros que procuro. 

Como agora dedico-me mais a releituras do que palmilhar livros de gente nova e outros escritores que não conheço sequer de nome.

Há livros, autores que vou tendo dificuldade em ler, arrasto-me pelas páginas. 

Humildemente, ponho sempre as culpas em mim.

Mas terei sempre que ir à Feira. Noutras feiras para tirar a fotografia ao pavilhão da & Etc., mas a Letra Livre já não lhe dá boleia porque a & Etc. acabou mesmo, uma das mais interessantes aventuras editoriais, comandada pelo Vitor Silva Tavares, mas vou sempre pela vista com o Tejo ao longe e pelos jacarandás.

Gosto das editoras que ainda guardam a possibilidade de pagar o livro no acto da sua compra. Odeio quando terei que ir para a bicha das editoras que estão colocadas nas aglomerações dos grupos editoriais. Aconteceu-me com o livrinho da Assírio & Alvim. Encontrei-o facilmente  no pavilhão mas depois fiquei à espera uns 10/15 minutos para o poder pagar.

Nada a fazer: vou ficando velho e rezingão!

CONVERSANDO

A Frenesi, num livro que tem por lá à venda, informa:

«Exemplar em bom estado de conservação; miolo irrepreensível.»

 Quando compro livros em segunda mão, não me preocupo com «miolos limpos». Gosto de ver sublinhados e observações que alguém vez enquanto foi lendo o livro, um qualquer chamar de atenção para o leitor do livro que, agora, passei a ser eu.

CRONICANDO POR Aí

«Maria de Lurdes Modesto ao classificar como uma “obscenidade” o pastel de bacalhau com queijo da Serra, estaria decerto de acordo comigo (e eu com ela). E que dizer da recente invenção do pastel de nata com Nutella ou com sabor a maracujá, a não ser: volta Álvaro, estás perdoado?»

De uma «velha» crónica de Ana Cristina Leonardo no Público

segunda-feira, 3 de julho de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Acho que quando for grande nunca vou conseguir encontrar o caminho para casa.

Autor desconhecido 

CIDADES

Nunca será esta a cidade que amaste

no segredo da tua infância,

com livros e mapas junto do peito e os sonhos

de mares distantes e mulheres  debruçadas

na amurada dos navios piratas.

 

Qualquer cidade é pouco para o que traz um sonho.

No entanto, ah, no entanto,

alguns lugares na terra pensaste

que podiam tornar-se uma morada. Mas logo partias

e o encanto de mudar de abrigo se te fazia destino,

destino de adivinhar a linha da costa

a desenhar-se pouco a pouco no horizonte.

 

Entretanto olhavas as mulheres debruçadas

nas amuradas dos navios.

A nada podemos em verdade chamar nosso.

Tudo é partir e o próprio amor

não passa de um incerto percurso na terra.

Qualquer cidade é aquela mesma cidade

que amaste no segredo da infância,

enquanto os olhos das mulheres

desenham o teu perfil no horizonte de uma perdida costa.

 

Luís Filipe Castro Mendes

domingo, 2 de julho de 2023

MÚSICA PELA MANHÃ


 Make Me An Island – If You Care A Little Bit About Me


Permitam-lhe que ele desarrume a memória e que, por uma história de nada – ou de tudo? – ponha o Joe Dolan a rodar.

Um café de província, Alfeizerão, junto a uma bomba de gasolina, uma bomba de gasolina da Mobil, que não era como as bombas de gasolina que o imaginário dos filmes americanos lhe transmitiu.

Duas, três mesas, uma jukebox a um canto, todas as sextas-feiras do último mês, de quase quarenta meses de tropa, dez tostões na ranhura da jukebox e o Make Me An Island do Joe Dolan a cantar no sonolento café, 2, 3 gins tónicos a completar o cenário.

Ele que até à data, depois de um milhão de gin-tónicos – chapelada a Mr. Humphrey Bogart – bebidos, em muitos e diversos bares, uns rascas, outros a armar ao fino, terá sempre na memória o sabor daqueles gins.

As circunstâncias fazem milagres e ele sabe que os gins eram merdosos e aproveita para  citar Nuno Júdice:  nada nos faz reviver melhor o passado do que um cheiro que em tempos lhe esteve associado.

É isso.

O gin era marca Bols, a água tónica era Canada Dry, o limão não tinha casca, o dono do café aproveitava as cascas para os martinis, o gelo tirava-o das paredes da geladeira dos gelados Olás, mas nada, que Joe Dolan e o seu Make Me An Island, o saber que, em passo de corrida, o findar da tropa se aproximava não fizessem esquecer.

Terminou a tropa ao bater do meio-dia de 30 de Setembro de 1970.

Apanhou a camioneta azul da carreira dos Claras, chegou a casa, pegou na Aida e zarpou para Os Perús, à Praça do Chile, frango assado, no dizer do escritor e jornalista Rui Cardoso Martins,  os melhores frangos assados do mundo, uma garrafa de tinto Aliança, pudim flan, Antiqua, em balão aquecido, se faz favor, e  ala que se faz tarde para  o 3º anel da Luz, que ainda não era Catedral, ver o Glorioso espetar 8 a 1 no Olimpija, uma rapaziada que em Liubilana, na 1º mão da 1ª eliminatória da Taça dos Clubes Campeões Europeus, tinha cometido a soberba proeza de empatar a um golo.

Para o informe ficar como deve ser:

O árbitro foi o Sr. Queudeville do Luxemburgo e o Glorioso alinhou com José Henrique na baliza, Malta da Silva, Humberto Coelho, Zeca e Toni (Barros entrou aos 80 m), Jaime Graça, Matine, Simões (capitão), Artur Jorge, Torres e Eusébio.

O treinador era o inglês Jimmy Hagan, o garagista.

O pantera negra meteu 5 golos, Zeca, Artur Jorge, Jaime Graça, completaram o placard.

Na jukebox de um café de província, junto a uma bomba de gasolina, Joe Dolan acabou de soltar os últimos versos take me and break me and make me an island, I'm yours.

Ainda sente o último gole de gin antes de se pôr a caminho para o último recolher do dia, no RI 5 das Caldas da Rainha, a mesma porta de armas por onde, 42 meses depois, por um 16 de Março, um grupo de militares saiu, a caminho de Lisboa, para aquilo que, ainda hoje, ninguém sabe explicar muito bem o que foi.

Um ensaio para o 25 de Abril, dizem os que pormaiores querem abreviar.

Sing again, Joe!

sexta-feira, 30 de junho de 2023

POR JUNHO EM FINALMENTES


 Para além de Dezembro – o mais maravilhoso tempo do mundo – o mês de que mais gosto é Junho. O mês das grandes festas populares em todas as cidades do país. O tempo de perfumes mágicos, o perfume dos manjericos das sardinheiras em flor, de sardinhas assadas, de bifanas de porco fritas. E toneladas de jarros de sangria.

Guardo da infância as quentes noites de Verão, lembro a miudagem a correr nas ruas, e as pessoas vinham para a porta da rua conversar, outras ficavam à janela, as pessoas conheciam-se, falavam, por vezes zangavam-se, outros iam para os jardins, ficavam pelos bancos ou bebiam cervejas e capilés nas leitarias do bairro.

A televisão viria a destruir o feliz convívio das gentes simples do meu bairro. As pessoas fecharam-se nas casas. E passámos a não saber nada uns dos outros, como numa peça de teatro de Peter Handke.

 Por Junho havia os bailes dos Santos Populares abrilhantados por conjuntos apenas com instrumentos de cordas. Hoje colocam por lá uns DJs que apenas têm por missão fazerem barulho.

«Pelos Santos Populares organizavam-se bailes de rua «abrilhantados» (era assim que se dizia) por agrupamentos musicais de corda: banjos e bandolins, violas. Chamavam-lhes «trupes-jazz», e tocavam as canções da época: sambas e boleros, e alguns tangos. Mas começavam sempre por valsas. Eu ficava-me por ali, feito tolo, a observar os dançarinos. Bem gostaria de me recostar a uma rapariga, e sentir o perfume do seu corpo, mas não sabia dançar, e era melhor estar parado do que fazer figura de tolo ainda maior.»

Baptista-Bastos em A Bolsa da Avó Palhaça

 Agora, ao passar os olhos por algumas das páginas de Viver com os Outros, reparo que Isabel da Nóbrega também reteve essa imagem das gentes sentadas à porta de casa, nas quentes noites de Junho, que foi o mês em que nasceu, e talvez por isso tenha escolhido um jantar,numa noite de Junho, para enredo de Viver Com Os Outros. :

 «Descobríamos que aquelas pessoas sentadas nos degraus de pedra, à porta de casa, os garotos na borda do passeio, os homens em mangas de camisa ou casacos de pijama, junto ao muro, quase não falando, recebendo a noite morna e o luar tal como os cedros e as olaias e as tílias do parque, estavam a ser felizes e não o sabiam.

 Os cheiros que andam misturados numa noite de Junho, mesmo na cidade, basta que se encontre um parque próximo. E também o cheiro do manjerico, ali no nicho, por entre as outras plantas, sobre o qual pousei instintivamente a palma da mão quando a Ana me arrastou para aqui.»

 

quinta-feira, 29 de junho de 2023

OLHAR AS CAPAS


Pequenas Coisas Como Estas

Claire Keegan

Tradução: Inês Dias

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio d’Água Editores, Lisboa, Outubro de 2022

Era sempre a mesma coisa, pensou Furlong; avançam sempre mecanicamente, sem pausas para a tarefa seguinte. Como seria a vida, perguntava-se, se tivessem tempo para pensar, para refletir sobre as coisas? Será que as suas existências seriam diferente ou quase iguais? Ou deixariam apenas de saber a quantas andavam?

domingo, 25 de junho de 2023

CONVERSANDO


As minhas leituras encerram um mundo de histórias, birras, mal-entendidos, onde as lacunas são demasiado evidentes para que possam passar em claro.

Na Biblioteca da Casa não havia um único livro do Cormac McCarthy.

Um dia quis aventurar-me num livro de Cormac e perguntei ao meu pai por onde deveria começar. Foi-me respondido que ainda tinha uma série de escritores norte-americanos por conhecer e que me dedicasse a essas leituras.

Cormac McCarthy morreu em 13 de Junho, aos 89 anos, em Santa Fé.

Apesar de ter lido muitos dos autores norte-americanos que o meu pai dizia que eu ainda desconhecia, nunca me deu para ler um livro seu.

Na sua última crónica no Público, Ana Cristina Leonardo, fugazmente, abordava o MacCarthy:

«Os igualmente formidáveis que nem por isso nos despertam para a alegria, esse afecto que Espinosa intuiu dever ser o guia do comportamento ético. Pensei de imediato em Cormac McCarthy, morto no passado dia 13 de Junho, escritor a quem não se poderão negar os adjectivos de apocalíptico, violento, cruamente difícil. Ao contrário do que se poderá imaginar, não é um escritor consensualmente amado. Sei de quem o considere intragável, cultor de um universo repulsivo, falocrata, numa palavra, reaccionário. Nada de novo. Apenas mais um nome a acrescentar à lista dos grandes escritores reaccionários – para conservar o termo –, uma lista que vai de Ezra Pound a Céline, passa por Montherlant, Mishima, Nelson Rodrigues, Camilo José Cela… E acrescente-se que, por cá, não eram poucos os que torciam publicamente o nariz à obra de Agustina Bessa-Luís ou de Vitorino Nemésio, perdoado há muito a Eça o seu conservadorismo tardio ou a Pessoa os seus arroubos antidemocráticos.»

sábado, 24 de junho de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO

Declaração de Interesses: sou sócio do Sport Lisboa e Benfica.

Mas não posso estar, de modo algum, de acordo com esta frase do presidente Rui Costa a propósito da regulamentação dos novos direitos audiovisuais:

«O Benfica não irá cumprir nenhuma lei se se sentir prejudicado.»

Esta gente do futebol devia apenas dedicar-se ao pontapé na bola e deixar de dizer disparates boca fora.

É provável que esta rapaziada entenda que o futebol está acima do que quer que seja. Não está. Muito menos das leis que os governos apresentam.

sexta-feira, 23 de junho de 2023

O QUE É QUE ISSO TEM DE NOVO?

 

O Dia Mundial do Refugiado foi assinalado pelas Nações Unidas na terça-feira.

Não vi, também não procurei muito, quais as manifestações – se é que isso interessa para a resoluçãp dos problemas!....  - que as Nações Unidas ou a Europa dedicaram à efeméride.

O que sei é que, nesta semana, as televisões passaram horas e horas, tantas e tantas horas a exibir uma novela de 5 milionários perdidos numa cápsula em que se meteram para observarem os destroços do Titanic  naufragado em 1912.

Em junho deste ano, os dez norte-americanos mais ricos possuíam conjuntamente um património líquido de 1,005 biliões de dólares (910 mil milhões de euros). Esse valor supera o PIB combinado dos 106 países mais pobres do Mundo, que é de 998,2 mil milhões de dólares (908,7 mil milhões de euros).

 Na quarta-feira dia 21, coloquei aqui um Postal Sem Selo com uma frase de Sholom Aleichem:

 «Meu caro Yankel: pedes-me que te escreva uma carta longa, mas de facto não há muito para dizer. Os ricos continuam ricos e os pobres estão a morrer de fome, como sempre. O que é que isso tem de novo?»

 No Mediterrâneo, ocorrem, quase diariamente naufrágios com centenas de migrantes mortos e desaparecidos a que as televisões dedicam uns meros 3/4minutos.

Um manto de silêncio envolve estas tragédias.

As autoridades marítimas declaram que não têm meios suficientes para ajudarem esta gente deseperada que busca uma qualquer ponta de esperança para as suas miseráveis vidas e que são vítimas da ganância de mafias a que as diversas polícias não conseguem – não querem? – pôr um fim.

Face às tragédias que ocorrem no Mediterrâneo, para além das autoridades marítimas, o dedo acusador também é apontado às autoridades europeias que em sucessivos e longos anos têm ignorado a situação e não conseguem criar condições, monetárias e outras, que impeçam estas angustiantes mortes.