quinta-feira, 11 de julho de 2024

CADASTRO

Uma vez, aos sete anos,
Partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja.
Dez anos depois, conduzindo um carro,
Não parou num cruzamento de rua
Onde havia um sinal de stop.
Dois anos depois, teve uma briga
Num bar, e partiu a cabeça a um amigo
Com uma garrafa de cerveja.
Quando se recusou a combater no Viet-Nam,
O seu cadastro provava como desde a infância,
Sempre manifestara sentimentos
Nitidamente de traidor à pátria.

Jorge de Sena

quarta-feira, 10 de julho de 2024

OLHAR AS CAPAS


 Zuckerman Libertado

Philip Roth

Tradução: Francisco Agarez

Capa: Rui Garrido

Publicações Dom Quixote

Lisboa, Agosto de 2023

E entretanto deixa de comer em restaurantes manhosos. És um homem rico.

- Quem diz que eu como em reaturantes manhosos?

 O News ou o Post?

- Digo eu. E não é verdade? Compras frango assado a escorrer gordura nessas churrasqueiras infectas e come-lo com as mãos nesse apartamento miserável. Escondes-te no Pastrami Haven do Shloimie fazendo-te passar por um inofensivo zé-ninguém de nenhures. E agora tudo isso começa a perder o encanto excêntrico, Natahan, e a cheirar decididamente a paranoia. Afinal qual é a tua ideia?

A PALAVRE VERDADE

Primeiro quiseram levá-la (sem

uma boa razão)

algemou-se ao poema

no ponto mais frágil

do verso. Tentaram depois

                               esquartejá-la

(rasgá-la

sílaba a sílaba) mas

as letras arrojadas

mantiveram-se unidas como

numa cicatriz. Tentam agora

                                ocultá-la

(apondo-lhe

a venda azul)

quanto mais a pressionam

                                   tanto mais

se deixa ler num relevo

de sudário.

 

João Luís Barreto Guimarães

terça-feira, 9 de julho de 2024

SANTO E SENHA

Deixem
passar quem vai na sua estrada.
Deixem passar
Quem vai cheio de noite e de luar.
Deixem passar e não lhe digam nada

Deixem, que vai apenas
Beber água de sonho a qualquer fonte;
Ou colher açucenas
A um jardim que ele lá sabe, ali defronte.

Vem da terra de todos, onde mora
E onde volta depois de amanhecer.
Deixem-no pois passar, agora

Que vai cheio de noite e solidão
Que vai ser uma estrela no chão.

Miguel Torga

segunda-feira, 8 de julho de 2024

POSTAIS SEM SELO


A maioria das pessoas deseja que a eutanásia seja legalizada.

Françoise Hardy, numa carta, antes de morrer, ao presidente Macron

OLHAR AS CAPAS


Minas de San Francisco

Fernando Namora

Capa: Manuel Ribeiro de Pavia

Editorial Inquérito. Lisboa, Dezembro de 1952

Com os ventos de Espanha, corria agora a notícia de um achado de oiro negro, escondido nas rochas, saltando dos rasgões das enxadas, que enriquecia os miseráveis de um dia para o outro. Eram pedras negras que rendiam oiro, lá longe, onde apareciam estrangeiros que compravam terrenos áridos e os furavam como toupeiras, empreitando camponeses, pagando jornas de loucura.

NOTÍCIAS DO CIRCO


 
José Manuel Delgado em A Bola de hoje:

«Cristiano Ronaldo — Foi a figura mais mediática da competição. E só. A Portugal nada acrescentou, limitando o recurso a diversas opções que a riqueza do plantel lusitano constantemente sugeria. Vamos ser absolutamente claros? Ok, então vamos lá a esse penoso exercício. O avançado do Al-Nassr é capaz de oferecer produtos gourmet como o golo que marcou à Irlanda, em Aveiro, ao minuto 50 do último jogo de preparação, mas deixou de fornecer refeições. É ele que se alimenta da Seleção, enquanto que nas últimas duas décadas foi a Seleção a alimentar-se dele. Estarei a ser ingrato ao dizer que o Rei vai nu? Não sei, pelo menos é assim que me sinto ao fazê-lo. Mas, ao dia de hoje, Cristiano Ronaldo é, para a Seleção Nacional, um problema e não uma solução, e o melhor que podia acontecer era que caísse nele e anunciasse que depois de 21 anos de Quinas ao peito, 212 jogos e 130 golos, tinha chegado o momento de passar a ser um de nós, dos que torcem por fora por Portugal. Porque se não o fizer, terá de haver quem o faça por ele. Pelé e Cruyff souberam sair, Maradona, infelizmente, foi traído pelo vício e Messi sairá em tempo útil. Será uma pena se CR7 falhar o timing, embora nada apague tudo o que lhe devemos. Mas… obrigado e adeus.»

POEMA DOS MOTORISTAS OFICIAIS

Encontram-se um pouco por todos os lugares.

ora fumando,

Orando pelos filhos junto a um deus

Secretariado por magníficos

Patrões.

De fato azul e gravata preta

de anel cachucho e jornal da bola,

o rabo habituado aos bons cabedais

pousado no capot ultra-reluzente.

Trazem da província em cada bolso do corpo

e estendem olhos julgadores às mulheres solitárias

de cigarro na boca em plana rua.

Às vezes são quatro ou cinco à espera do final

de um conselho em pleno parto,

de uma portaria inacabada

ou de uma reunião de economia mística.

Derramam no passeio

o ócio inexplicável de rústicos fiéis

e contam anedotas num bocejo amarelo de melancolia.

Quem lhes dera a reforma, a courela da mãe,

ou num sonho longínquo

essa noite sem lua em que engravidaram

a prima por descuido.

Sinto por todos eles um sentimento soturno

e muito gostaria

que Cesário os conhecesse

ao passear  sozinho

pelas novas avenidas ao anoitecer.


Armando Silva Carvalho em Lisboas

domingo, 7 de julho de 2024

OLHARES


 Salinas de Tavira no Verão de há 3 anos.

Numa árvore ler que temos que ter cuidado com a saída de viaturas e também ter cuidado com o cão.

Colaboração de Aida Santos

OS DIAS VISTOS DO CAFÉ DO MONTE

Pela manhã, estão três alentejanos sentados junto a um sobreiro – chaparro para as visitas de casa… –, à beira de uma estrada secundária. Passa um carro. Passa uma hora. Um alentejano diz: “Ia ali um Toyota”. Passa mais uma hora. O segundo alentejano diz: “Não era um Toyota. Era um Honda”. Uma hora depois, diz o terceiro alentejano: “Tão cedo e já a discutir?!”.»

Ana Cristina Leonardo, crónica do Público de 24 de Maio de 2024 

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 O Dia seguinte.

Copio do jornal A Bola do dia 6:

«A prestação aquém das expectativas de Cristiano Ronaldo no Euro 2024 está a fazer correr muita tinta em França, país que deitou por terra as aspirações de Portugal em voltar a vencer o troféu, vencendo a Seleção nas grandes penalidades.

O único que tinha mesmo estatuto de insubstituível era Ronaldo. Mas esse Martínez sempre assumiu. Apesar de, como se viu, estar errado

Pela primeira vez na carreira, o avançado do Al Nassr terminou uma fase final de grandes torneios de seleções sem apontar um único golo e, no espaço de opinião, a RMC Sport não perdoou as exibições de CR7, que foi sempre titular nos cinco jogos de Portugal na prova. «O Cristiano Ronaldo arruinou o Euro para Portugal. Sempre disse que gosto de Portugal, é uma grande Seleção, com jogadores extraordinários e, depois do que conseguiram em 2016, é incrível que não tenham melhores resultados. Entendo que Cristiano Ronaldo é uma lenda, mas desde há vários anos impede a projeção de outros jogadores e não dá nada à equipa», lê-se no texto do jornalista Daniel Riolo.

Avançado do Al Nassr ficou em branco nos cinco jogos de Portugal no Euro 2024

«Isso foi visível diante da França, Portugal jogou com 10. É uma lenda, pode continuar a ser adorado, mas foi ele que impediu que Portugal fosse mais longe no Europeu. Não gosto de ver jogadores consagrados como este a fazerem uma última aparição como se fosse uma volta olímpica. Chega a ser patético e é necessário virar a página», atirou o francês.»

1.

Milhares de pessoas manifestaram-se em Barcelona contra o turismo excessivo na capital catalã, que recebe anualmente milhões de visitantes, demonstração de uma revolta crescente em Espanha, segundo destino turístico no mundo.

Com palavras de ordem como "Basta! Ponham limites ao turismo", cerca de 2.800 manifestantes, de acordo com a polícia, desfilaram para exigir uma mudança de modelo económico para a cidade, a mais visitada em Espanha.

2.

O sector da construção civil tem mais de 340 mil trabalhadores, dos quais 69 mil imigrantes e precisa de mais 80 a 90 mil pessoas.

 3.

A princesa Ana teve alta hospitalar e regressou a casa. A irmã do Rei Carlos III estava internada desde domingo passado, na sequência de um acidente com um cavalo que lhe provocou um traumatismo.

4.

Zero é o número de mulheres que a Assembleia da República elegeu para o Conselho de Estado desde 1982, quando foi criado. Na verdade, a única mulher que representou o Parlamento no órgão consultivo do Presidente da República foi Assunção Esteves, que desempenhou o cargo de presidente da Assembleia da República (logo, teve assento por inerência).Mulheres no Conselho de Estado só acontece por inerência ou nomeação presidencial. Isto fica patente na atual constituição, em que há quatro conselheiras (Maria Lúcia Amaral, provedora de Justiça, a maestrina Joana Carneiro, que entrou para substituir António Damásio, a escritora Lídia Jorge e a presidente da Fundação Champalimaud e ex-ministra Leonor Beleza).

5.

«É ao mesmo tempo fácil e difícil explicar por que razão eu e o Nuno não nos afastámos, em todos estes anos. Que nos manteve juntos? A Poesia? A Poesia não é senhora que partilhe os seus afetos. A política? Tem sido algo esporádico na nossa vida: só estamos lá quando faz falta. A admiração pelo poeta? Há tantos poetas que admiramos, mas que preferimos não encontrar...»

Luís Castro Mendes na morte do poeta Nuno Júdice

6.

O presidente da Associação Portuguesa de Arte Xávega reclama, exige dos governantes mais acção e apoios para este velho sector da pesca.

 7.

Marine Le Pen diz que, sem a maioria absoluta da extrema-direita, a França será um “pântano”
Marine Le Pen rejeitou as sondagens que mostram que o seu partido de extrema-direita, a União Nacional, deverá ficar muito aquém da maioria absoluta nas eleições legislativas francesas deste domingo e alertou para o "pântano" em que ficará o país se o seu partido não obtiver um mandato para governar.

sábado, 6 de julho de 2024

CRONICANDO POR AÍ


De que matéria é que se fazem os sonhos? De letras, diria eu. Ora vamos e vejamos, os sonhos dos filmes, antes de serem sonhos, antes de serem aventuras, antes de serem gargalhadas, são palavras escritas. Há, para cada filme, um argumentista, a senhora ou senhor que escreve os textos, que hão de guiar o realizador e ser frases na boca aos actores. Há tempos, os argumentistas mais reputados em actividade elegeram o melhor de sempre na profissão.

Vejam, elegeram Billy Wilder, um austríaco que pronunciava cada palavra inglesa com os pés, mas que tinha ideias e sacava diálogos de uma afrontosa originalidade, para não dizer virgindade. Escreveu coisas geniais e Ninotchka,filme realizado por Ernst Lubitsch, foi uma das obras-primas que saiu da sua máquina de escrever.

Deram-lhe um mote: “Jovem russa impregnada de ideais bolchevistas vai para a assustadora, capitalista e monopolista cidade de Paris. Apaixona-se e passa uns dias de gozo do caneco. Talvez o capitalismo não seja assim tão mau.” Deste briefing, Wilder inventou Ninotchka.

Pois bem, conhecemos a revolucionária Ninotchka na sombria Moscovo e, claro, estamos todos à espera de ver a cena da chegada, a uma gare de Paris, dessa Ninotchka, a que Greta Garbo emprestou rosto, corpo e a rouca voz.

Na gare estão à espera dela três camaradas soviéticos, já inclinados, pela vida que espreitam em Paris, à condescendência social-democrata para a qual, durante os anos da nossa geringonça, até mesmos os inflamados militantes bloquistas se deixaram deslizar, direitinhos ao bolso de António Costa.

Digo isto e não é um despropósito, há qualquer coisa de mortaguiano no primeiro contacto da camarada Garbo com um representante da espécie chauvinista, arrogante, machista, que é o aromático burguês de infeliz produção capitalista. Ela quer estudar a espécie, como um entomologista a sua minhoca.

Como se fosse a inescapável sessão de uma comissão parlamentar, Mortágua, perdão, a camarada Greta Garbo disseca o bicho capitalista e expõe, com uma imbatível lógica escolástica, as misérias que o lacinho de seda, o chapéu de feltro, o delicado fatinho, procuram ocultar. É delicioso ver a comunistíssima Greta Garbo desfazer a miséria do capitalismo.

Parêntesis: verifiquei, com surpresa, tão justa e científica é a previsão do fim do chauvinismo capitalista, que o filme foi, ao tempo, proibido na solaríssima União Soviética, onde julgo que nada era proibido.

 Palpita-me que a culpa foi das palavras que Wilder pôs na boca de Ninotchka, depois dela experimentar uns apaixonados french kisses, arrancados aos lábios e língua do execrável burguês, beijos acompanhados por umas flûtes desse borbulhante champanhe, que faz a glória da França e é a única etílica libação que a minha mulher, a revolucionária Antónia, consente. 

E diz Ninochka, de olhos postos no amado burguês e na taça de champanhe: “Estou tão feliz. Oh, que feliz que estou. Ninguém pode estar tão feliz sem ser castigado. Vou ser castigada. Tenho de ser castigada.

Wilder castiga-a! Se virem o filme, descobrem como: o sólido argumentista austríaco fá-la rir, e rir é o pecado que a velha revolução bolchevista nunca perdoou. Tenho de acrescentar que, hoje, o activismo militante, vetusto, furioso, albardado em culpas, ainda perdoa menos. A conversão de Ninotchka ao riso e ao prazer é o caminho das pedras da sua perdição em Paris e por Paris. As palavras de Wilder fazem com que a camarada Greta Garbo ponha cada pé na pedra certa, ou não fossem as palavras a matéria de que se fazem os sonhos.

Manuel S. Fonseca na sua Pàgina Negra

NOTÍCIAS DO CIRCO

«No dia em que escrevo, Portugal prepara-se para parar às 20 horas. Como há sempre meia dúzia de resistentes, eu vou estar a inaugurar uma exposição e a falar sobre liberdade e o 25 de Abril, coisas já gastas e sem novidade, no Teatro de Almada, uma hora antes de o país parar. Não sei se vai aparecer alguma gente, e qual vai ser o desfecho do destino da Pátria, mais uma vez em luta contra os franceses, desta vez sob a sombra de Madame Marine Le Pen. Quando me lerem já sabem tudo, mas na verdade a parte que vão saber é bastante irrelevante, a não ser como espelho dos maus costumes nacionais. Em 15 dias, se perdermos, está tudo esquecido e nesses 15 dias haverá um surto de logomaquia infeliz, acusatória, vingativa, depressiva e deprimida, porque mais uma vez a Pátria na versão Ronaldo não esteve à altura dos seus Maiores. Se ganharmos, rufarão mais tambores do que portugueses e a bandeira, que só serve para estas coisas, estará por todo o lado, nas casas, nas lapelas, pintada na cara de uns e umas, que estarão aos saltos por essa Europa fora. Ridículo visto de cima, não é? Mas é este o nosso único sobressalto patriótico, o dos nossos Menores. Os patriotas do futebol querem lá saber.»

José Pacheco Pereira, hoje, no Público.

sexta-feira, 5 de julho de 2024

POSFÁCIO

Foi esta ideia semelhante à pérola,
crescendo, como a pérola, no escuro
e apurando a sua perfeição sem se dar conta
de que o fazia, motivada apenas
pela vontade de cercar o mal,
e impedir que a doença respirasse
e tudo envenenasse em seu redor,
destruindo qualquer
expressão de vida?
Sim, teve essa ideia
a beleza e o brilho de uma pérola?

Ou terá vida, a ideia? Será ela
alguma coisa latejante e física,
a benigna bactéria que se adentra
pelo cérebro animal e ilumina
zonas até então desconhecidas,
zonas do nobre pensamento,
enfim liberto
das coreografias da matilha,
tornando humano o cérebro,
ensinando dentro dele as palavras
com as quais
o que existia foi organizado
e o poema nasceu,
a lei nasceu.

Quando alguém disse,
pela vez primeira,
«democracia»,
houve a revolução,
isto é,
tudo rolou sobre si mesmo.
E, ao levantar-se e recompor-se,
esse real,
reconhecendo embora os sítios
e as pessoas,
constatou que não eram os mesmos.
Viu os ombros direitos,
para sempre, julgava ele,
de modo decisivo,
ombros dos cidadãos que se afastavam
dos joelhos, da lama original,
de maneira que os olhos se encontravam
à mesma altura.
E uma alegria irrefletida,
o arrebatamento
de conferir
todo o poder à fala e não
ao ferro ou à riqueza ou ao que quer
que abrira fossos
a separar os cidadãos,
uma alegria,
mãe da arrogância, mãe do novo perigo
devido aos erros de avaliação,
uma alegria,
pérola gigante
rolando pelo chão
da assembleia,
uma alegria,
viva como um pássaro
que cruza o céu dos povos e os saúda,
uma alegria onde, por instantes,
a bondade habitou
deixou nos rostos
de uma cintilação extraordinária.

A história não relata o pormenor,
não há dele registo, não há prova,
pedra nem documento.
Mas o certo
é que um grande relâmpago cobriu
os recantos da terra.
Era um relâmpago
de certo modo sobrenatural,
não resultando de uma carga elétrica
mas da fulguração desse momento,
do esplendor da ideia nas cabeças.

Também em nós caiu essa alegria,
mãe da arrogância,
e a grande luz pousou
sobre a manhã que as flores avermelhavam.
Era muito manhã, por isso não
se distinguiram bem,
o sol e a fonte
de onde emanava aquele deslumbramento.

Tudo ali começava, o ano,
a era,
os tambores e o abraço
e o alimento,
A dança sob os pés energizados,
e a palavra, a volúpia da palavra,
essa palavra que era o leite e o mel
e corria nas ruas, ocupava
todo o espaço das ruas,
levantada
como folhagem pelo sopro
da ideia.

Se olharmos para trás, avistaremos
a poalha doirada, avistaremos
ainda os dias da libertação
reduzidos a horas, a minutos,
a pequenos detritos da memória
que, de inúteis, se empurram
para a valeta.

Recolhidos em casa,
desertada a Praça da Canção,
fechada a porta
dos acontecimentos exemplares,
dentro de nós escurecido o espaço
que a ideia, tão bela, iluminou,
estamos nós prestes a dobrar o corpo,
a entrar, de joelhos, na caverna,
mudos, de novo, à espera de um clarão?

Hélia Correia

Nota do Editor:  Este poema de Hélia Correia foi tirado do Público de 19 de Abril de 2024.

Poesia Pública é uma iniciativa do Museu e Bibliotecas do Porto comissariada por Jorge Sobrado e José A. Bragança de Miranda com o apoio do Público. Ao longo de 50 dias publicaremos 50 poemas de 50 autores sobre revolução.

quinta-feira, 4 de julho de 2024

POSTAIS SEM SELO


Tudo o que existe não é mais do que tudo o que acontece.

Maria Quintans

OLHAR AS CAPAS

Os Gatos

1º Volume

Fialho d’Almeida

Prefácio e Notas de J. da Costa Pimpão

Livraria Clássica Editora, Lisboa, 1945

Vem longe de-certo! Mas nada pode desviar a corrente, embora lenta, embora obscura, da conversação política de Portugal para a nação irmã, nem contrariar no futuro essa confederação ideal de toda a Ibéria, base duma era de oiro, em que os filhos dos nossos filhos, senhor, repassando em memória a fieira de reis da casa de Bragança, só encontrarão para V:M- estes dizeres:

- Sim, era um tal Carlos, sempre cercado de gastrónomos e de toureiros, e que chamava piolheira ao país de que era rei.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


O argumentista norte-americano Robert Towne, autor de «Chinatown», filme de Roman Polanski, dado como o melhor argumento alguma vez escrito, morreu, na segunda-feira, aos 89 anos.

Contribuiu com argumentos e ideias para vários filmes e lembramos, para além do «Chinatown»,«Bonnie & Clyde».

Quando Francis Ford Coppola recebeu um Óscar por o «O Padrinho, no seu discurso, Coppola saudou Robert Towne pela «belíssima cena entre Marlon Brando e Al Pacino no jardim».

Mas foi  com «Chinatown» que ganhou o óscar de melhor argumento.

É neste filme que o velho John Huston, na pele de Noah Cross, tem uma das mais célebres frases de filmes:

«Sou respeitável, sou velho. Os políticos, os prédios feios e as putas tornam-se sempre respeitáveis se viverem muito tempo». 

SERRA-MÃE

 

O agoiro do bufo, nos penhascos,...
foi o sinal da Paz.
O Silêncio baixou do Céu,
mesclou as cores todas o negrume,
o folhado calou o seu perfume,
e a Serra adormeceu.

Depois, apenas uma linha escura
e a nódoa branca de uma fonte antiga :
a fazer-me sedento, de a ouvir,
a água, num murmúrio de cantiga,
ajuda a Serra a dormir.

O murmúrio é a alma de um Poeta que se finou
e anda agora à procura, pela Serra,
da verdade dos sonhos que na Terra,
nunca alcançou.

E outros murmúrios de água escuto, mais além :
os Poetas embalam sua Mãe,
que um dia os embalou .

Na noite calma,
a poesia da Serra adormecida
vem recolher-se em mim.
E o combate magnífico da Cor,
que eu vi de dia :
e o casamento do cheiro a maresia
com o perfume agreste do alecrim ;
e os gritos mudos das rochas sequiosas que o Sol castiga
--passam a dar-se em mim .

E todo eu me alevanto e todo eu ardo.
Chego a julgar a Arrábida por Mãe,
quando não serei mais que seu bastardo.

A minha alma sente-se beijada
pela poalha da hora do Sol-pôr ;
sente-se a vida das seivas e a alegria
que faz cantar as aves na quebrada ;
e a solidão augusta que me fala
pela mata cerrada,
aonde o ar no peito se me cala,
descem da Serra e concentrou-se em mim.

E eu pressinto que a Noite, nesse instante,
se vai ajoelhar ...

..........................................................................................................................................................................................................................................

Ai não te cales , água murmurante !
Ai não te cales , voz do Poeta errante !

-- se não a Serra pode despertar .

Sebastião da Gama em Serra-Mãe

quarta-feira, 3 de julho de 2024

OLHAR AS CAPAS


História da Origem e Estabelecimento da Inquisisção em Portugal

Tomo I

Alexandre Herculano

Livraria Bertrand, Lisboa s/d

Durante os doze primeiros seculos da igreja foi aos bispos que exclusivamente incumbiu vigiar pela pureza das doutrinas religiosas dos fiéis. Era isso para eles, ao mesmo tempo, um dever e um direito que resultavam da índole do seu ministério: ninguém podia, portanto, intervir nesta parte tão grave do officio pastoral, sem ofender a autoridade do episcopado. Esta era a doutrina e a praxe dos bons tempos da igreja. 

SONETO DE CAMÕES

                         Car j’imite...Toit le monde imite,
                          Tout le monde ne dit pas.


                                                            Aragon

Que me quereis, perpétuas saudades?
 Com que esperança inda me enganais?
 Que o tempo que se vai não torna mais,
 E se torna, não tornam as idades.

 Razão é já, ó anos, que vos vades,
 Porque estes tão ligeiros que passais,
 Nem todos pera um gosto são iguais,
 Nem sempre são conformes as vontades.

 Aquilo a que já quis é tão mudado,
 Que quase é outra cousa, porque os dias
 Têm o primeiro gosto já danado.

 Esperanças de novas alegrias
 Não mas deixa a Fortuna e o Tempo errado,
 Que do contentamento são espias.

Carlos de Oliveira de Terra da Harmonia em Poesias

terça-feira, 2 de julho de 2024

MÚSICA PELA MANHÃ


Esse extraordinário disco de Fausto que dá pelo nome de «Por Este Rio Acima», tem em apêndice um «Diário de Viagem» das viagens de Fernão Mendes Pinto onde Fausto se baseou para as letras das canções.

Como a imagem que acima se reproduz não é muito nítida, faz-se a  o tea transcrição que pertence a «Peregrinação» de Fernão Mendes Pinto e que deu origem a «Porque Não Me Vês»:

 «O meu desejo  seria sair desta  viagem muito  rico em pouco  tempo sem

pensar quão arriscada eu então levaria a vida,  confiado nesta promessa

e enganado  nesta  esperança.  Na cidade de  Diu, preparava-se  então a

guerra por suspeita que se tinha da vinda da armada do turco.  Parti de

Portugal  na primavera  e,  navegando  todos os  barcos  pela sua rota,

cheguei ao mar da outra banda do oceano. A Índia.»

 

E este é o poema:

 

«Meu amor adeus 
Tem cuidado 
Se a dor é um espinho 
Que espeta sozinho 
Do outro lado 
Meu bem desvairado 
Tão aflito 
Se a dor é um dó 
Que desfaz o nó 
E desata um grito 
Um mau olhado 
Um mal pecado 
E a saudade é uma espera 
É uma aflição 
Se é Primavera 
É um fim de Outono 
Um tempo morno 
É quase Verão 
Em pleno Inverno 
É um abandono 
Porque não me vês 
Maresia 
Se a dor é um ciúme 
Que espalha um perfume 
Que me agonia 
Vem me ver amor 
De mansinho 
Se a dor é um mar 
Louco a transbordar 
Noutro caminho 
Quase a espraiar 
Quase a afundar 
E a saudade é uma espera 
É uma aflição 
Se é Primavera 
É um fim de Outono 
Um tempo morno 
É quase Verão 
Em pleno Inverno 
É um abandono

Porque não me vês

Meu amor adeus

Tem cuidado

Se a dor é um espinho

Que espeta sózinho

Do outro lado

Meu bem desvairado

Tão aflito

Se a dor é um dó

Que desfaz o nó

E desata um grito

Um mau olhado

Um mal pecado

E a saudade é uma espera

É uma aflição

Se é Primavera

É um fim de Outono

Um tempo morno

É quase Verão

Em pleno Inverno

É um abandono

Porque não me vês

Maresia

Se a dor é um ciúme

Que espalha um perfume

Que me agonia

Vem me ver amor

De mansinho

Se a dor é um mar

Louco a transbordar

Noutro caminho

Quase a espraiar

Quase a afundar

E a saudade é uma espera

É uma aflição

Se é Primavera

É um fim de Outono

Um tempo morno

É quase Verão

Em pleno Inverno

É um abandono»

 

 E esta é a canção:


segunda-feira, 1 de julho de 2024

POSTAIS SEM SELO


«O barco vai de saída, adeus ó cais de Alfama, meu amor adeus, tem cuidado se a dor é um espinho, por mais que seja santa, a guerra é a guerra, o escuro é muito grande, o tempo é mais frio, o mar é muito grosso, como se a terra corresse inteirinha atrás de mim, olhamos tudo em silêncio na linha da praia, vai de roda quem quiser e diga o que tem a dizer, e na verdade o que vos dói, é que não queremos ser heróis, a terra a navegar meu bem como eu vou por este rio acima, abranda Senhor a pena dos mortos, p’ra que te louvem com sono quieto, os anais do grande general chamado o «galego, o homem dos olhares fatais, navegar navegar ó minha cana verde, mergulhar no teu corpo entre quatro paredes, ó mar leva tudo o que a vida me deu, tudo aquilo que o tempo esqueceu, lembra-me um sonho lindo, quando ás vezes ponho diante dos olhos a lusitana viagem, medonha, que eu dobrei, os tormentos passados,  e os fados que chorei.»

Fausto, versos soltos tirados de Por Este Rio Acima                       

NOTÍCIAS DO CIRCO

Os canais televisivos de  notícias despacharam a notícia da morte de Fausto em 5/10 segundos.

O resto do noticiário estendeu-se durante largos minutos pelo futebol, pelo jogo da selecção logo à noite, em Frankfurt, para o Euro 2024.

Ainda lá estão com os adeptos à porta do Hotel para incentivar os jogadores a repetirem as frases patrióticas de sempre, que vamos ganhar e o Ronaldo, finalmente, vai marcar.

Há dias colocámos num «Postal Sem Selo», uma velha frase do Filipe Vicente:

Acabaram com a agricultura, com o tintol a martelo, com as morcelas caseiras, com o tabaco nos restaurantes, com o escudo, com a frota pesqueira, com o Aquilino nas escolas, com a tropa obrigatória. Agora espantam-se porque o povo só se sente patriota com a selecção? Pensassem nisso antes.

Em tempo:

Nas lamentações várias da morte do Fausto, refere-se outros cantoautores como José Mário Branco, José Afonso, Sérgio Godinho, nunca o Adriano Correia de Oliveira.

Veja-se o site da Presidência da República («Fausto pertencia a uma constelação de músicos que traduziu para as canções de intervenção o sentimento do povo português, e é por isso inevitável associar o nome de Fausto aos nomes maiores da música portuguesa, como José Afonso, José Mário Branco ou Sérgio Godinho.»).

FAUSTO BORDALO DIAS (1948-2024)

                    

Morte de Fausto Bordalo Dias, cantor genial músico e poeta.

Ainda há muito pouco tempo andou connosco nas Viagens de Abril. 

E vai continuar.

MAIAKOVSKI

Aos trinta e seis anos

um tiro ao coração.

Assim

crucificaste

este século.

 

Emigrante

doutro tempo,

acertaste

onde era preciso

tocar,

pôr as mãos,

encontrar o futuro,

Maiakovski.

 

De A Raiz Afectuosa em António Osório