terça-feira, 2 de setembro de 2025

NESTE DIA


No ficheiro ideográfico da Biblioteca da Casa, Nos Mares do Fim do Mundo de Bernardo estava classificado nos Diários.

O volume que então existia, era a 1ª edição das Edições Ática, datada de 1959.

O meu pai, durante a ditadura salazarista/marcelista, emprestava livros aos companheiros que estavam nas cadeias da PIDE. Nunca vi o meu pai registar a quem emprestava os livros. Uns regressaram às estantes, outros não. Uma tarefa política como esta, não pode, não tem que ter registo, dizia-me e o meu avô, silenciosamente, concordava

Só por volta do ano de 2001 consegui encontrar uma edição do livro, mais uma vez editada pela Ática, mas sem as fotografias da 1ª edição.

Recentemente, por iniciativa da E-Imprimatur, Fevereiro de 2016, saiu uma nova edição, com fotografias de Nos Mares do Fim do Mundo.

Da publicidade da editora:

«Na história da literatura portuguesa do século XX, este livro é um objecto estranho e raro, onde a poesia e a realidade dão as mãos num cenário de natureza inóspita que realça o elemento humano.

«Nos Mares do Fim do Mundo foi, em grande parte, escrito a bordo do arrastão "David Melgueiro", na primeira campanha de 1957, a primeira também em que eu servi na frota bacalhoeira portuguesa, como médico. Mas depois desta, tomei parte numa segunda, em 1958, agora a bordo do "Senhora do Mar" e do navio-hospital "Gil Eannes", em que assisti sobretudo aos barcos de pesca à linha: assim pude de facto conhecer, por vezes intimamente, todos os aspectos da vida dos pescadores bacalhoeiros portugueses, em mares da Terra Nova e da Gronelândia, e completar este livro.»


A PARTIDA


«Enquanto o “David Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa,
eu surpreendo-me com as mãos abertas ao vento,
para nele colher um certo olhar negro e patético,
ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima,
ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado,
ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura,
ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim…
Com as minhas longas mãos abertas ao vento…»

 

Bernardo Santareno é o pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (1920 - 1980), considerado o maior dramaturgo português do século XX.
Licenciou-se em medicina em 1950 e entre 1957 e 1959 exerceu actividade médica junto da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova. Esta experiência deu origem, no imediato, a uma colecção de textos escritos em pequenos blocos de notas e que mais tarde resultariam no presente título. Mas também nalgumas das suas mais famosas peças O lugre ou A promessa.
Bernardo Santareno iniciou-se na escrita como poeta sendo os seus três primeiros livros coleções de poesia. A partir de 1957, o teatro foi registo de eleição, tendo escrito 15 peças. Bernardo Santareno é o pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (1920 - 1980), considerado o maior dramaturgo português do século XX.
Licenciou-se em medicina em 1950 e entre 1957 e 1959 exerceu actividade médica junto da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova. Esta experiência deu origem, no imediato, a uma colecção de textos escritos em pequenos blocos de notas e que mais tarde resultariam no presente título. Mas também nalgumas das suas mais famosas peças O lugre ou A promessa.
Bernardo Santareno iniciou-se na escrita como poeta sendo os seus três primeiros livros coleções de poesia. A partir de 1957, o teatro foi registo de eleição, tendo escrito 15 peças.

Bernardo Santareno muitas vezes, durante a dura luta junto da frota bacalhoeira, se interrogou se seria capaz de cumprir a tarefa:

 

«Serei capaz? São mil e tantos homens entregues aos meus cuidados, confiantes na minha proficiência médica… Estarei eu preparado para tal? Terei ue me habituar a decidir, rápida e eficazmente, nos casos de urgência: serei capaz? Sou tão doentiamente indeciso! Sinto a vontade anestesiada pela penumbra tépida dos cinemas, envenenada pelo aromas das rosas nocturnas de sombra, desgrenhada pelo desespero agudo de tantas horas amarelas e inúteis… 

 Tenho que me endurecer: habituar-me a morder os «talvez» e os «depois se verá»; mudar saliências redondas em ângulos acerados; fazer de curvas insinuadas e subtis, rectas simples e firmes, tensas de energia!..

Serei capaz? E se eu desistisse, se voltasse para Lisboa? Pretexto? Uma neurose, por exemplo… Isso seria aumentar a cobardia, a irresponsabilidade. Não quero. Lutarei e hei-de vencer!

A sombra contínua que, dentro de mim, nunca deixa que a madrugada seja simplesmente madrugada e que persiste mesmo no risos solar do meio-dia, essa sombra (ou cicatriz dum estigma sagrado, ou nostalgia de não sei que pomar maldito…) há-de fugir de mim para sempre: e eu ficarei livre e transparente, despovoado e jovem.

As sonâmbulas presenças ambíguas, os gestos babados, os veludos asfixiantes, os metais de «jazz» que pesam nas rugas do meu rosto… o mar, o vento e a neve os hão-de lavar: e de novo a minha face ficará pura e lisa, pronta a receber o verbo, aquela palavra única entre mil escolhida…

- Senhor doutor, um doente chama-o!

Como Jesus lavando os pés aos apóstolos, assim eu queria servir esta gente.»

OLHAR AS CAPAS


São Jorge dos Ilhéus

Jorge Amado

Capa: Clóvis Graciano

Livraria Martins Editora, São Paulo, 1968

No dia 2 de janeiro o “Jornal da Tarde” estampava um telegrama, datado de Nova Iorque, que anunciava uma grande queda nos preços do cacau. Dos quarenta e sete mil-réis, alturas em que pairava no dia 31 de dezembro, descera a trinta. Não chegou a haver, naquele dia, maior agitação entre os coronéis e os pequenos lavradores. Estavam ainda entregues à animação das festas de começo de anoa, a maioria curtindo a ressaca da noite de primeiro. No outro dia a tabela marcava vinte e nove mil-réis. Já aí os fazendeiros começaram a assustar-se. Há muito que o cacau não baixava dos quarente e dois mil-réis. 

À LUPA

A maioria dos migrantes, chegados, há semanas, a Vila do Bispo, atualmente retidos em Centros de Instalação Temporária do Porto e de Faro, apresentaram pedidos de proteção humanitária a Portugal, que suspendem o processo de retorno a Marrocos. A decisão cabe à AIMA. O único menor desacompanhado vai ser reinstalado nos termos da lei de proteção de crianças e jovens.

As notícias têm sido escassas. Os imigrantes causam pele-de-galinha a muita gente. Não só em Portugal, mas é aqui que vivemos e não queremos desprezo e silêncio sobre o assunto. 

E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão Ferreira

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

CONVERSANDO

«Setembro. E isso é belo como um poema que não sei inventar», como dizia o Vergílio Ferreira.

Por Setembro, lembrando sempre o meu pai quando, em plenos calores estivais, dizia: «em Setembro voltamos a ser gente.»

Eugénio de Andrade conhecia Setembro pelo cheiro.

O ar ainda é quente, mas mais lá para a frente, começará a cheirar a Outono, e tardará  pouco para ir ao armário buscar uma lãzinha, talvez se encontrem uns trocos num qualquer bolso, também o entusiasmado fumo dos vendedores de castanhas a espalhar-se pela cidade.

Em Setembro, planta, colhe e cava, que é mês para tudo.

Hão-de apanhar-se as uvas e tudo ficará a cheirar a mosto.

Ramo curto, vindima longa.

Cheiros e mais cheiros.

Bom dia, Setembro.

NESTE DIA


A nova maneira para abordar os Diários que existem na Biblioteca da casa, permitem voos diversos.

Estamos, hoje, com o Diário de Miguel Torga.

Miguel Torga não é um escritor que me entusiasme. Provavelmente nunca o soube ler. Mas do que escreveu, os Diários são o que me despertaram uma atenção diferente das restantes obras.

Lamento de José Saramago no momento da morte de Miguel Torga:

«Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele.

(…)

Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.

Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde».

 José Saramago em Cadernosde Lanzarote, 3º volume

Agustina Bessa-Luís não gostava de Torga?

Provavelmente não.

Agustina Bessa-Luís em em O Livro de Agustina:

«Escrevi o Mundo Fechado enquanto minha filha dormia; a cozinha era de telha-vã e havia um ratinho esperto ao qual eu punha comida na dispensa todas as noites. E lá vinha o aroma das tílias anunciando os exames e o seu terror laureado de esperanças. O livro foi recebido com agrado, só o Torga me deu uma resposta convencional que não me caiu bem. Fiquei fula e qualifiquei-o entre os sete fariseus-hipócritas que estão registados no Talmude e dos quais faz a sátira.»

Luiz Pacheco sobre Torga:

«O Torga não era um escritor avençado! Era até um escritor único em Portugal, e no mundo, porque se editava a si próprio. Mas é um chato do caneco. Por exemploi, faz um poema para cada Natal: é como quem mata uma galinha ou um perú.»

Entrevista a Mário Santos no Público, Março de 1995 em O Crocodilo Que Voa

Miguel Torga, no dia 14 de Abril de 1974, está em S. Martinho de Anta. Neste dia, escreve um poema que intitula ABRIL, contrariando o Luiz Pacheco, não é um poema sobre o Natal:


Dia feliz, passeado.

Sol a jorros, sem calor;

Os santos de sentinela

Nos miradoiros lavados

Onde flameja a brancura

Da graça do seu renome;

Centeio a jurar à fome

O advento da fartura;

Ninhos, namoros, ternura,

E caminhos de amargura

Atapetados de flores

De uma insolência sincera:

Vulvas de todas as cores

No impudor da primavera.

 

A curiosidade possível deste simples poema é que 11 dias depois acontecerá o 25 de Abril e Torga escreve:

«Coimbra, 25 de Abril de 1974 — Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada...»

Miguel Torga, Diário  no 12º volume

OLHAR AS CAPAS


Bater Sempre Também Cansa… Mas às Vezes até é Pouco: Como Um Jornal de Economia Salvou Luiz Pacheco

Luiz Pacheco e Nicolau Santos

Capa: Ilídio J.B.Vasco

Guerra E Paz Editores, Lisboa, Agosto de 2025

Setúbal, 24 de Julho de 1995

Meu Caro Nicolau Santos,

Vai mais uma artigalhada. O calor não apoquenta só o Mário Viegas, que foi às gavetas buscar retalhos do Mário-Henrique Leiria para compor (?) a crónica dele. Também me lixa a mim; estou a escrever às sete da matina. Daqui para mais tarde a minha capoeira transforma-se num micro-ondas e eu, sem ar condicionado e as duas ventoinhas, era um Pacheco de Churrasco.

Atenção, isto não é uma reclamação. Apenas um esclarecimento.

Um forte abraço

Luiz Pacheco

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


 Continua a não haver uma Festa como esta!

À LUPA

Aquele cínico sorriso de Luís Montenegro.

Não sei a propósito de quê, no discurso de fecho da universidade do PSD, em Castelo de Vide, ao seu sorriso se referiu.

Mas é um sorriso de alguém que não oferece confiança, tal como, ontem, no Público, Ana Sá Lopes registava:

«Montenegro mentiu à hora do almoço e depois veio desmentir-se a si próprio, através de um comunicado oficial, ao fim da tarde. Devemos aceitar que umprimeiro-ministro pode mentir? Não.»

DEIXEI DE OUVIR-TE

Deixei de ouvir-te. E sei que sou

mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

 

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida

domingo, 31 de agosto de 2025

NESTE DIA


A ideia era interessante para a rubrica NESTE DIA, mas não estava a funcionar muito bem por, na escolha do dia e do ano, existirem limitações.

A partir de amanhã, manteremos o título, mas a escolha recairá, não no dia, nem no ano, mas em temas, personalidades, em que os autores dos Diários, existentes na  Biblioteca da Casa, se envolveram e nos deixaram para que os conhecêssemos.

Por hoje, trazemos a introdução que Mécia de Sena fez para os Diários de Jorge de Sena, publicados em 2004 pelas Edições Caixotim.




QUOTIDIANOS


 A notícia pertence ao Jornal de Notícias:

«Um homem com cerca de 30 anos foi baleado, na manhã deste domingo, por outro, que se pôs em fuga, na sequência de uma discussão devido a um lugar de estacionamento, em Leça da Palmeira, no concelho de Matosinhos.

O quotidiano das cidades está a transformar-se numa violência completamente estúpida.

Por uma qualquer discussão de lana-caprina, puxa-se de uma pistola e tenta-se matar uma pessoa.

Colaboração de Aida Santos

OLHAR AS CAPAS


As Filhas de Loth

Bento da Cruz

Capa: Armando Alves

Editorial Labirinto, Lisboa 1988

-Este ano estamos mal com as batatas.

-Olhai que é uma desgraça.

- A como se vendem?

- Sete… oito… nove tostões.

- Dadas.

- E ninguém as procura.

- Quilhedela assim.

- Vamos ter de as levar ao grémio.

Prefiro deitá-las ao gado.

O gado também está de rastos.

- O lavrador não pode viver

- Se o governo não olha por isto.

O grande mal são os intermediários. As batatas vendem-se em Lisboa e bo Porto a dois escudos. Se houvesse justiça nesta malfadada terra…

sábado, 30 de agosto de 2025

NESTE DIA


Neste dia, no ano de 1983, Vergílio Ferreira acabou a leitura dos Cahiers de Jean-Paul Sartre e manifesta, numa longa entrada, a surpresa de quase no fim dos Cahiers, Sartre gaste páginas e páginas a demonstrar a impossibilidade de Deus e e de Deus criador, algo que já não seduz ninguém.

São interessantes as observações.

Sabemos que Vergílio Ferreira sempre se interessou por Sartre, que deixou expresso que o Existencialismo é um Humanismo mas está, hoje, muito calor e seguiremos, antes, as breves notas que Vergílio Ferreira , fora de Sartre, neste mesmo dia, deixou no 4º Volume da sua Conta-Corrente.

vés dos milénios. Esse ser miraculosos, na vertigem dos acasos, és tu.

Legenda. Contra-capa de O Existencialismo é um Humanismo

NOTÍCIAS DO CIRCO

 O Governo faz questão em celebrar o 25 de Novembro e faz muito bem. Foi uma data importante. Assinalou o fim de um combate ideológico e político que poderia ter descambado numa guerra civil. O PS e Mário Soares foram os grandes vencedores, a par de militares como Melo Antunes, Vasco Lourenço, Pezarat ou Vítor Crespo. Foi a estratégia, a coragem e a mobilização dos socialistas e daqueles militares que permitiram conter uma escalada de ‘esquerdização’ soviética do regime. O resto foi tudo atrás. Mas esses protagonistas amavam o 25 de Abril, que acabou com o fascismo, com a guerra colonial, devolveu a liberdade individual e coletiva, libertou as mulheres de uma subalternidade inadmissível, abriu caminho para robustecer a escola pública. Os protagonistas de hoje nesse fervor celebrativo ‘novembrista’, como o ministro da Defesa e alguns apaniguados oriundos dessa inutilidade política em que se transformou o CDS, mas não só, também do PSD, são apenas pessoas ressentidas com o 25 de Abril. Que o odeiam. São uma espécie de Venturas envergonhados. Querem aumentar uma data por diminuição da outra. Não têm a dimensão dos homens e mulheres de então, que abriram os horizontes do País com esperança, solidariedade, liberdade, democracia, valores éticos e sociais. Estes, na verdade, são apenas pessoas que não gostam do 25 de Abril. Numa dimensão mesquinha, vingativa e ressentida.

Eduardo Dâmaso      



sexta-feira, 29 de agosto de 2025

NESTE DIA


Neste dia, do ano de 1967, José Gomes Ferreira cumpria o signo diário de ler jornais, e indignava-se:


NOTÍCIAS DO CIRCO

O candidato a presidente da república, e ex-Almirante da Marinha portuguesa, criticou Marcelo Rebelo de Sousa pelas suas declarações na Universidade do PSD em Castelo de Vide:

«O Presidente não deve fazer comentários pessoais ou de índole pessoal, porque representa o Estado português, e nós somos um Estado aliado do Estado norte-americano».

Marcelo classificou Donald Trump como “activo soviético”, algo que se vai dizendo pelos cafés em qualquer parte do mundo.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


 Esta é a parte muito positiva das presidências de Marcelo Rebelo de Sousa.

OU ISTO OU AQUILO

 Ou se tem chuva e não se tem sol,

ou se tem sol e não se tem chuva!

Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!

Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo nos dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo…
e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranquilo.

Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

 

Cecília Meireles

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Naquela que pode ser considerada uma vitória política do CDS, o Governo aprovou a criação de uma comissão para comemorar os 50 anos do 25 de Novembro. Caberá ao ministro da Defesa, Nuno Melo, designar quem vai presidir a esta comissão, que deverá ser “apartidária” e cujas funções só terminarão em Maio do próximo ano. Além desta comissão, na ressaca dos grandes incêndios das últimas semanas, o Conselho de Ministros também já tomou decisões a pensar em futuros fenómenos meteorológicos extremos.

O Estado cumprirá a sua obrigação em relação a uma data que é fundamental para a consolidação da democracia e da liberdade em Portugal”, afirmou Nuno Melo no final da reunião do Conselho de Ministros desta quinta-feira, prometendo uma comissão que será composta por nove elementos, três dos quais designados pelo presidente da Assembleia da República (ouvidos os grupos parlamentares), outro pela ministra da Cultura e ainda pelo director-geral de Política da Defesa Nacional, o presidente da Comissão Portuguesa de História Militar e representantes da Sociedade Histórica da Independência Nacional e da Associação de Comandos.»

Notícia do Público de hoje.

Quando é que esta gentes da direita agarram um bocadinho que seja de juízo?

NESTE DIA


Neste dia, 28 de Agosto de 1995, José Saramago acaba de escrever uma carta a Susan Sontag,  premiada escritora, ensaísta, cineasta, filósofa, professora, crítica de arte e activista dos Estados Unidos.

É riquíssima a correspondência que Saramago manteve com os seus pares e com os milhares de leitores. Até hoje, a Fundação José Saramago ainda não encetou a publicação destas correspondências que são de um valor transcendente.

Desconheço o porquê e estou velho para lhe bater à porta e saber das razões.

Hélas!

OLHAR AS CAPAS

Tempo de Cinzas

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Alfredo Martins

Capa: Alfredo Martins

Editora Ulisseia, Lisboa, Julho de 1968

Nesta Paris de Agosto, quase deserta de parisienses, com os «beatnicks» de longa cabeleira de estopo e brinco à pirata na orelha a soletrarem de noite as estrelas nos cais do Sena ou a dançarem freneticamente o «jerk» no «Bus Palladium, ainda reina a mini-saia nos Campos Elísios e o povo continua a escrever frases acesas contra  a intervenção americana no Vietname.

À LUPA

A Lupa passou pela Antologia do Esquecimento de hmbf e registou:

«Alguém explique ao André Ventura, por favor, que Portugal não se esgota nos 1.437.881 eleitores que votaram Chega. Há 9.412.334 que não votaram Chega. Obrigado.»

NOS TEUS OUVIDOS

 Nos teus ouvidos isto explode

de amor, palavra ampola sob

os astros funcionando abril à boca das cidades, dos

imperturbáveis muros aos quais as crianças

que de cristais nos punhos acontecem passam,

seus chapéus brevíssimos, os indícios

de nada, o modo de ler, de acender um texto

de amor nos ouvidos, isto explode e entra

nesta página o mar da minha infância, meigo

no modo de lembrá-lo, lê-lo, de acender

de carícias um texto na memória. De astros

as ruas eram cheias que os cuspiam hoje

na minha mãe de outrora, nas crianças de água, nos

pensamentos nenhuns que eu punha em seus joelhos, em

seus amáveis joelhos a que os astros acorriam,

minha mãe que arranco ao sono, às areias virgens

das palavras, que amanhecido eu gero, as mãos

tão de repente em pânico nos muros.

Luís Miguel Nava em Poesia

quarta-feira, 27 de agosto de 2025

OLHAR AS CAPAS

Marés de Mar

Luísa Dacosta
Capa e Ilustração: Luís Filipe Cunha

Parque Expo 98, Lisboa Maio de 1997

De que cor é este mar, nunca igual e sempre diferente, de ritmos vários, cadenciado como o bater certo dos remos, inquieto como a ansiedade dos que trazem os afectos sobre as ondas, fervente como um cachão raivosos, quieto, quieto, marginado pela linha, rubra, do crepúsculo? De que cor é este mar, onde se miram nuvens e gaivotas, onde se esfriam e se apagam as estrelas da madrugada.

Azul. Azul, como o manto das imagens milagrosas. Azul, como o olhar perdido dos náufragos. Azul da cor da noite. Verde fel. Verde da cor dos limos, Verde da cor dos barcos. Loiro cor de areia, das tranças e do cordame, Ferrugem, cor das âncoras e das redes. Castanho cor do sargaço. Palhetado de sol e luz. Irisado, como as escamas dos peixes. Rosa, com certas algas e corais, como a garridice das blusas em dias festivos. Rosa, como as flores de papel do altar do padroeiro. Vermelho da cor das guelras. Sanguíneo. Violáceo, cor de tinta. Roxo, como uma quaresma líquida. Cinzento. Brumosos de névoa e mistério. Metálico, como uma roda de navalhas. Branco de sal e espuma. Branco da cor das velas. Negro, como as faixas das mulheres e o luto das viúvas. Sem cor, como a angústia das que não Têm sequer um cadáver para velar.