domingo, 22 de junho de 2025

OLHAR AS CAPAS


Bilhetes de Colares de A.B. Kotter

José Cutileiro

Tradução de J. Fonseca

Capa: desenho deAndré Carrilho

Colecção: Horas Extraordinárias

O Independente, Lisboa 2004

A Mãe chamou-me outro dia a atenção para o estado em que está o Preto da Queijadas. Numa altura em que o Protocolo de Estado deste maravilhosos País, animado pelos triunfos africanos de Suas Excelências o Senhor Presidente da República e o Senhor Primeiro-Ministro, deveria servir apenas queijadas do Preto, esquecendo as das outras marcas, não só não parece haver preferência –dizem-me que, se não virem os rótulos, nem o Senhor General R. Eanes nem o Senhor Dr. P. Balsemão são capazes de distinguoir uma queijada do Preto de uma Piriquita ou da matilde -, como o próprio Preto, o boneco de madeira fardado de manante a apresentar um pacote de queijadas, está reduzido a um taco desbotado pelo e pela chuva, em vez de ser, como era dantes, a presença colorida e galharda de África em Sintra.

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos

sábado, 21 de junho de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Às 02,42 horas começou o Verão.

O Ruy Belo adorava o Verão, eu nem por isso. 

Fico-me com as restantes estações do ano e fico bem.

O Cesare Pavese escreveu que  «a gente sente-se não sei como quando sai e vê as mulheres com vestidos de Verão.»

Seguindo o calendário, dir-se-á que a Primavera acabou ontem.

Por um Março de 2019, Manuel S. Fonseca saudava assim a chegada da Primavera:

«A Primavera é como a primeira luz que rompe a escuridão da sala de cinema. Enche-nos da pior das volúpias, a volúpia infantil. Às 11 da manhã já o Chiado, já a Rua de Santa Catarina lavam os olhos nas nuas e frescas pernas das raparigas, nos decotes que deixam fugir a redonda carne em direcção ao sol. É Primavera e decoto-me eu também: segue-se a cândida exposição das coisas de que, diletante, gosto muito e sem vergonha.

 

Gosto:


Da primeira saia que o cinema levantou para, mostrando a perna, parar um carro e conseguir uma boleia. Era a perna de Claudette Colbert em “It Happened One Night”.

Do teu decote.

Da dúbia adolescência da perna de Evvie, entalada entre o desejo de um branco e o desejo de um negro, em “La Joven”, o filme americano de Luis Buñuel.

De acácias e jacarandás, do cheiro do jasmim finalmente em flor.

Do fumo de uma sórdida esquadra de polícia de “Basic Instinct”, em que as cruzadas e descruzadas pernas de Sharon Stone são o pêndulo que nos troca os olhos.

De imaginar a espavorida fuga dos inocentes anjinhos nos momentos de volúpia de Deus.

Da alva pureza dos shorts de Jean Seberg em “Bonjour Tristesse” e da indizível convulsão que, querendo desabrochar, neles se esconde.

De um dry martini ao fim de tarde, no Shutters on the Beach, em Santa Monica.

Da miniatura de um Simca vermelho descapotável com que Curd Jürgens faz Brigitte Bardot içar do chão o simétrico e irretocável rabo que dourava ao sol.

De golos de bandeira ao domingo, numa tarde de sol.

Do vestido às riscas de Anna Karina a fazer pendant com os estofos de couro vermelhos e creme do descapotável em que foge com Pierrot. Ele, louco. Ela com a boca cheia de liberdade e de Rimbaud.

De risos e beijos.

Dos olhares de quatro mulheres para o tronco nu de William Holden que, em “Picnic”, de Joshua Logan, queima o lixo no quintal, “naked as an Indian”. Olhares que mordem, olhares de mulheres bonitas cansadas de serem apenas olhadas, que foi o que, quando vi o filme, ouvi Kim Novak dizer.

Sim, gosto das pernas das raparigas quando chega a Primavera.»

sexta-feira, 20 de junho de 2025

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO


Notícias do genocídio que o criminoso Benjamin Netanyahu prossegue em Gaza:

«Mortos a tiro 45 palestinianos que esperavam ajuda alimentar.»

Entretanto o governo português entende que o reconhecimento da Palestina está sujeito aos ditames da cinzenta Comissão Europeia.

Respondendo a uma pergunta do deputado do PS João Torres, durante o debate preparatório do Conselho Europeu dos próximos dias 26 e 27, no parlamento, Luís Montenegro recusou que Portugal faça “um reconhecimento individualizado” ou numa “corrida para ver quem chega à frente” pois o Governo português mantém “uma avaliação permanente sobre a possibilidade de reconhecimento”, que, considerou, deve ter “um efeito útil”, o primeiro-ministro elencou uma série de condições que devem ser salvaguardadas.

 “Estas condições, uma vez garantidas, salvaguardadas, vão abrir a possibilidade para que esse reconhecimento se possa efetuar, num quadro de concertação estratégica à escala europeia”, comentou Montenegro.

Segundo o líder do executivo português, estas condições passam pela garantia, pela Autoridade Palestiniana, de uma “libertação segura dos reféns que o Hamas tem na sua posse” e pelo desarmamento do grupo islamita palestiniano, no poder na Faixa de Gaza.

A Autoridade Palestiniana, acrescentou, deve proceder a “reformas internas com vista a poder perspetivar-se no médio prazo realização de eleições presidenciais e legislativas”, além de reconhecer o Estado de Israel.

Além disso, a Palestina deve ser desmilitarizada, cabendo a segurança externa a missões de proteção internacional.

Montenegro adiantou que Portugal está em contacto com outros parceiros europeus e “mais preocupado em estabelecer pontes e parcerias e não tanto em fazer números para aparecer mais nas notícias internacionais”.

OLHAR AS CAPAS


O Próximo Outono

João Miguel Fernandes Jorge e Pedro Calapez

Capa: Carlos César Vasconcelos

Relógio D’Água Editores, Lisboa Outubro de 2012

Dia de muito sol. Perto da lua cheia. O melhor autocarro para o atelier do Pedro C. é o 26, em frente ao rapidamente desaparecido Caffè di Roma perto do Saldanha. A exposição será a 14 de outubro de 2004 e terminará a 15 de janeiro de 2005. Teremos em conta somente as obras a partir dos anos 90.

Por vezes fixo uma data, talvez até ao fim da minha vida. E quando chegar um dia antes desse dia, posso lembrar-me sempre de um facto que se lhe prende. Não importa que seja um aniversário. Pode não passar de um gesto, de um rosto que para sempre ficou perdido na distância não só do tempo como de uma rua, de uma sala de museu, de uma loja. Durou segundos, mas traz o traço, a sombra, a luminosidade capaz de se prender pelo que houver de longo na minha vida. Irrompe no exacto dia do aniversário da sua aparição, ou andará próximo desse instante. Nem sempre é um rosto, um corpo, ou um melro morto à beira de um passeio. Um objecto pode ser o senhor desse domínio festivo. Mesmo a morte de um melro ou de alguém amado transporta consigo um sentido de festa, de coisa que se comemora no mais secreto. Neste dia assalta-me sempre o tapete de Samarcanda. Como se descesse no meu pátio vindo dos céus do Uzbequistão.

O VIANDANTE

Trago notícias da fome
que corre nos campos tristes:
soltou-se a fúria do vento
e tu, miséria, persistes.
Tristes notícias vos dou:
caíram espigas da haste,
foi-se o galope do vento
e tu, miséria, ficaste.
Foi-se a noite, foi-se o dia,
fugiu a cor às estrelas:
nesta negra solidão
só tu, miséria, nos velas!

Carlos de Oliveira de Mãe Pobre em Poesias

quinta-feira, 19 de junho de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

 «Lei laboral, lei da greve, SNS, 2%para a Defesa já em 2025, imigração ou RSI. As novidades, caladas na campanha, são onde Montenegro sente que tem apoio à direita. Quer mudar o país com a IL e com o Chega e aprovar orçamentos com o PS. A esquerda tem de se recompor da depressão e preparar a reacção a esta guinada. Se o PS se resigna, a deriva para a direita não vai ficar por aqui.»

Daniel Oliveira, Expresso

ALENTEJO

A luz que te ilumina

Terra da cor dos olhos de quem olha

A paz que se adivinha

Na tua solidão

Que nenhuma mesquinha

Condição

Pode compreender e povoar!

O mistério da tua imensidão

Onde o tempo caminha

Sem chegar...

Miguel Torga em Diário XII

quarta-feira, 18 de junho de 2025

POSTAIS SEM SELO


«Mesmo se quisesse propor uma verdade, só o poderia fazer, usando uma linguagem inventada. A do quotidiano não traduz essa magia, nem o lugar fantástico onde ocorreu este episódio, na fronteira entre mundos, incluindo o da realidade e o da ficção.

Mia Couto 

REOLHARES


O TEJO GLAUCO A FECHAR AS VISTAS

«Gosto de melros, os espertotes, ladinos, com aquele jeito preto de recalcitrar de lado. Há poucos pelas relvas de Lisboa, não sei se da concorrência de pardais fura-vidas e pombalhões abafa-espaços, se duma vontade de saltitar ao de leve por outras bandas.
Ainda assim, aparecem uns tantos na feira do livro, a lavrar no parque. Negrejam aos picos no verde, dão-se a uns desenfados de voejo breve, armados em superiores. Bonito bicho, de muita inspiração literária. Ele é o Jean-Baptiste Clément, ele é o Junqueiro…
Não há melros num espaço fechado, num armazém tristonho e esquadrinhado de encontrões sem sol. Todos os anos aquele para-baixo e para-cima, os encontros de fulano e cicrano, as capas que amadurecem de ano para ano, a luz explosiva de Lisboa, os revérberos, o Marquês que medita, as frondes da avenida, o Tejo glauco a fechar as vistas.
Tenho estado em salões, por essa Europa. Salões, salas grandes, com o seu quê de fábrica e hangar. Em parte nenhuma há esta cor, esta brisa, este céu, esta extensão clara, esta alegria. Mude-se o que houver a mudar. O espaço, deixar estar».

Mário de Carvalho e, “Os Livros no Parque”, Lisboa Maio 2004

(Texto publicado em 12 de Maio de 2011.)

OLHAR AS CAPAS


Nos Bastidores de Hollywood

Mário Augusto

Prefácio de António Pedro de Vasconcelos

Há não muito tempo, em Madrid, fui entrevistar uma vez mais o actor Nicolas Cage e o produtor Jerr Bruckheimer, a propósito de “O Tesouro”. Com eles vinha também o realizador. Na conversa com a equipa espanhola da Disney (a empresa produtora do filme) fiquei  a saber que só para o “staff” dos mues três entrevistados foram necessários 14 carros de luxo. Isto porque, para além dos guarda-costas pessoais, cada um deles trazia o seu agente, a sua secretária, o seu cabeleireiro, a sua maquilhadora, o seu “personal trainer”, o seu relações-públicas e ainda umas quantas pessoas que nunca se percebe muito bem o que ali estão a fazer, mas que andam com papéis de um lado para o outro, a falar nervosamente com os “walk-talkies” que trazem na mão.

Colaboração de Aida Santos

OS LIVROS ESTÃO SEMPRE SÓS

Os livros estão sempre sós.
Como nós.
Sofrem o terrível impacto do presente.
Como nós.
Têm o dom de consolar, divertir, ferir, queimar.
Como nós.
Calam sua fúria com sua farsa.
Como nós.
Têm fachadas lisas ou não.
Como nós.
Formosas, delirantes, horrorosas.
Como nós.
Estão ali sendo entretanto.
Como nós.
No limiar do esquecimento.
Como nós.
Cheios de submissão ao serviço do impossível.
Como nós.


Ana Hatherly

terça-feira, 17 de junho de 2025

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Actualmente, 145 dos 193 estados-membros das Nações Unidas reconhecem o Estado da Palestina, o que representa cerca de 75% dos membros da ONU. Além disso, o Vaticano e o Saara Ocidental, que não são membros da ONU, também reconhecem a Palestina.

Nos dias que correm, Benjamin Netanyahu, perante a indiferença dos povos do mundo, prossegue o genocídio do povo palestino. 

Em 1869 o nosso Eça de Queiroz foi em viagem com o Conde de Resende até ao próximo Oriente, onde assistiram à inauguração do Canal de Suez. Dessa viagem, resultaram uma série de cadernos de apontamentos que, postumamente foi publicada em livro com o título de Folhas Soltas.

Os editores Lello & Chardon publicam uma notícia aparecida em O Primeiro de Janeiro de 9 de Outubro de 1870.

Já em 1926 a Livraria Chardron de Lello & Irmão publica o livro O Egipto constituída pelas notas tomadas por Eça de Queiroz quando da sua viagem com o conde de Resende (de 23.10.1869 a 03.01. 1870.

Este livro chegou a fazer parte da Biblioteca da Casa, mas quando fechei a casa de meu pai e transportei os livros para aqui, não o encontrei.

Para além dos capítulos Palestina e Alta Síria, também constam Sir Galahad e Os Santos, recuperados por Maria filha de Eça De Queiroz, constam de manuscritos já incluídos por Luís de Magalhães em Últimas Páginas, livro publicado em 1912.

Fonte: Dicionário de Eça de Queiroz de A. Campos de Matos

Legenda: mapa da Palestina desenhado por Eça de Queiroz.

OLHAR AS CAPAS

Folhas Soltas

Eça de Queiroz

Mapas desenhados por Eça de Queiroz

Apresentação Maria d’Eça de Queiroz

Lello & Irmão Editores, Porto, 1966

Avistámos Jafa como uma colina escura de casas; o sol aparecia por trás e dava à cidade um fundo de nuvens, colorindo-a violentamente.

Jafa assenta à beira do mar; para o lado do Norte, ao longo da costa, começam logo os areais.

Defronte de Jafa há uma linha de rochedos que parecem os raios desolados duma muralha cheia de brechas.

O mar ataca e bate eternamente aquelas negras penedias.

A sua eterna demência torna assim difícil e áspera a entrada da Palestina. 

ÚLTIMO BLUES, PARA SER LIDO UM DIA

Foi só um namorico

decerto o sabias –

alguém ficou ferido

há muitos dias.

 

Nada muda

tempo já não há –

um dia é tua a vinda

um dia és quem morrerá.

 

Alguém morreu

há muito foi o dia –

alguém que tentou

mas não sabia

                              11 de Abril de 1950

Cesare Pavese em Virá a Morte  e Terá os Teus Olhos

segunda-feira, 16 de junho de 2025

MARIA JOÃO PIRES


A pianista Maria João Pires anuncia afastamento prolongado por problema de saúde. Além dos concertos de Junho em Portugal, ficam também cancelados os concertos no Japão:

«Estimados amigos, lamento informar-vos que terei de me afastar dos palcos por algum tempo. Surgiu-me um problema de saúde cerebrovascular, que encaro como um sinal, talvez um aviso.»

Lembramos palavras que José Saramago escreveu, Novembro de 2009, sobre Maria João Pires, e que se encontram publicadas no 2º volume de O Caderno:

«Maria João Pires não teve muita sorte com o país em que nasceu. Sessenta anos de carreira (e que extraordinária carreira a sua) justificariam uma homenagem de âmbito nacional capaz de expressar a nossa gratidão por pisarmos o mesmo chão e respirarmos o mesmo ar. Não será assim, pelos vistos, ainda que não lhe venham a faltar na terra portuguesa outras manifestações de admiração e respeito. Foi em casa de uns amigos que a ouvi pela primeira vez, quando ela não passava de uma adolescente que, com o seu frágil corpo, mal parecia haver saído da infância, e que me fez temer se os braços e as mãos lhe chegariam para enfrentar-se ao gigantesco teclado. O piano familiar, vertical, talvez não estivesse em perfeito estado de afinação, mas as primeiras notas saltaram límpidas, cristalinas, dando-me a sensação, não de serem a mera consequência do choque dos martelos com as cordas, mas de haverem brotado directamente dos dedos da própria pianista. Foi o meu baptismo na arte de Maria João Pires. Depois, ao longo dos anos, sempre que ela, já viajante emérita, aparecia por Lisboa a dar os seus recitais, eu lá estava, rogando às potestades celestes que a protegessem do mau-olhado, de um simples sopro de ar que a perturbasse. Talvez por efeito das minhas petições e do crédito que tenho no céu, todos os concertos e recitais de Maria João Pires a que assisti chegaram felizmente ao seu termo. Desta vez, por razões de distância e também de saúde, não poderei estar presente, dar palmas e beijar as suas mãos tão cheias de música, de humanidade, de beleza. Por tudo o que me fez ouvir e sentir, Maria João, obrigado.» 

POEMA EM PROSA

                                               ao António Lobo Antunes

 

Tive um encontro de Verão com o senhor José Fontinhas.

Eu, o Pina, o Lage, tantos que têm vazio o coração pela

falta de novos versos. Foi pelas seis da tarde, a água do

Douro continuava em luta contra as ondas, na foz. As

 

palmeiras encostadas ao vento e, mais uma vez, o auditório

pequeno para tanta saudade. Tive um encontro, chamo

José Fontinhas ao telefone, por favor, gritava o empregado

no Piolho há quarenta anos, contava o Pina. Ele, reverente

 

 

ao Poeta pregava-lhe a partida mais inominável – a da

identidade. O dito José sentado na esplanada, contou,

chamo José Fontinhas ao telefone, por favor, o Pina

na cabine espreitando o olhar impávido, o sorriso

 

invertido de ex-José, nosso Eugénio. A identidade é

uma coisa nossa, constituída com anos e anos de visões

ao espelho. O senhor José tinha morrido quando matou

o pai, o senhor Eugénio tinha nascido do amor à mãe. Mas

 

faltou tanta gente aos ciprestes do cemitério. Pensei

que as vendedoras do Bolhão deixariam os verdes, que os

rapazes da foz que ele tanto amava se chegariam em tronco

nu de mais um salto desde o cais da Ribeira. Que as borboletas

viriam em enxames de cor pousar na urna e esconder

o castanho da madeira nova. As árvores abanando as nuvens

junto à foz e o Pina a contar da morte lenta do nosso poeta.

Aponto uns versos pedindo ao rio que desista de afrontar

 

 

o mar. E sigo dizendo sílabas ao som das frases do senhor

José, lendo, quarenta anos depois, os poemas que uma nova

identidade criou. Encontrei no Verão o senhor Fontinhas.

Hei-de ir a Lisboa bater à porta do senhor Antunes.


Jorge Reis-Sá 

domingo, 15 de junho de 2025

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Há gente que nunca desiste. É impossível desistir. Sempre.

Abriu a 24 de Maio fechará portas a 24 de Agosto. Uma exposição com fotografia do 25 de Abril, no Parque Empresarial da Mutela (em frente à antiga Lisnave) | de 5ª feira a domingo das 11h às 19h.

Serge Tréfaut, curador da exposição, explica:


                                              Para Margarida Medeiros, in memoriam

Venham mais cinco foi uma ideia que surgiu no Verão de 1993, quando Margarida Medeiros e Ana Soromenho me desafiaram para produzir uma grande exposição com as imagens dos fotógrafos estrangeiros que haviam retratado o processo revolucionário português. No ano seguinte seria comemorado o vigésimo aniversário do 25 de Abril.

Eu acabara de organizar O Mês da Fotografia, um conjunto de exposições, que incluíam Trabalho, de Sebastião Salgado, e a colectiva Magnum no Leste. Estava em diálogo com alguns dos autores que queríamos contactar. Margarida e eu rumámos a Paris e mergulhámos nos arquivos das grandes agências internacionais, vasculhando milhares de provas de contacto.

Para nossa tristeza, a exposição não se pôde fazer em 1994.  Não era politicamente oportuna. Em 1999, transformei o desejo da mostra no meu primeiro documentário, Outro País, que aborda quase o mesmo tema. Participaram Sebastião e Lélia Salgado, Guy Le Querrec, Jean Gaumy e Dominique Issermann, entre outros.

Apesar da existência do filme, ao longo de três décadas, nunca desistimos da exposição. Margarida e eu reescrevemos várias vezes a proposta. Finalmente, em 2023, graças à insistência de uma amiga comum, a jornalista Kathleen Gomes, conseguimos que a Comissão Comemorativa do Cinquentenário do 25 de Abril advogasse em nosso favor junto do Ministério da Cultura. De repente, a porta se abriu.

Três décadas depois, muitos dos arquivos tinham mudado de mãos, alguns tinham desaparecido. Nem todos os fotógrafos continuavam vivos.

Três décadas depois, a exposição vai abrir as suas portas.  Entre o início da nossa pesquisa, no Outono de 1993, em Paris, e o seu recente desaparecimento, Margarida tinha se transformado numa das maiores especialistas de fotografia em Portugal, autora de livros de referência, curadora de exposições e responsável pela formação de várias gerações de estudantes. Esta exposição nasceu da nossa amizade.

Portugal no centro do mundo

Entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975, Portugal foi manchete quase diária de toda a imprensa internacional. Nunca nada de semelhante acontecera ou viria a acontecer no país, por um período tão largo de tempo.

O fim abrupto de uma ditadura de 48 anos, o início da democratização que parecia seguir por caminhos inesperados, as dúvidas a respeito do processo de independência de grandes países africanos, tudo fazia com que o mundo inteiro voltasse os olhos para Portugal. De um dia para o outro aterraram em Lisboa fotógrafos das maiores agências internacionais, jovens e veteranos, que captaram imagens por todo o país, acompanhando a sucessão vertiginosa dos acontecimentos.

Muitos vieram em missões de curta duração, outros instalaram-se vários meses para perceber e retratar o que se passava. Quase tudo era surpreendente para os estrangeiros: a situação política inédita num país europeu, o quotidiano dos portugueses, a forma como a política entrava na vida da população. Eram fotógrafos experientes. Tinham um olhar incisivo, procuravam imagens para as capas das revistas de maior tiragem, mas também revelavam empatia, encantamento e genuíno interesse antropológico. Durante cerca de um ano e meio fotografaram tudo.

A galeria de imagens começa no final de Abril, quando o golpe de Estado do Movimento das Forças Armadas se transforma em revolução, com as ruas cheias de uma população a quem fora pedido para ficar em casa, e que, pelo contrário, subia para cima dos tanques, entregava café e flores aos soldados, gritava e chorava de alegria. Seguem-se imagens da detenção dos agentes da PIDE (prémio World Press Photo 1974, de Henri Bureau), mas também fotografias de cravos nas espingardas que transmitiram ao mundo esse novo conceito: a revolução dos cravos.

Muitos fotógrafos estavam na tomada da PIDE/DGS, na chegada dos exilados políticos e na irrepetível manifestação do primeiro de Maio de 1974, com soldados e marinheiros abraçados a uma população feliz como nunca fora.

Nos meses que se seguiram, quando tudo podia acontecer e a surpresa era a regra do quotidiano, os fotógrafos seguiram as ocupações de fábricas, as nacionalizações, a Reforma Agrária, as Campanhas de Dinamização Cultural promovidas pelo MFA, o surgimento dos partidos políticos, as campanhas eleitorais para a Assembleia Constituinte.

Os mesmos fotógrafos voaram para Angola e Moçambique, procurando retratar o processo de descolonização e o regresso massivo de portugueses que viviam em África.

A partir da segunda metade de 1975 transmitiram para o mundo imagens de um país dividido, com ataques às sedes do Partido Comunista e a outros movimentos de esquerda. Seguiram as ocupações do Jornal República e da Rádio Renascença, bem como a politização crescente da igreja católica. Retrataram, finalmente, as tensões no exército, o conflito militar latente no 25 de Novembro e o sentimento de orfandade de alguns militares na base de Tancos.

Depois do 25 de Novembro, os fotógrafos estrangeiros deixam gradualmente o país. Alguns tornam-se estrelas maiores do mundo da fotografia. Portugal terá sido um balão de ensaio, onde puderam provar que tinham a distância e a sabedoria para sintetizar em imagens um processo extremamente complexo.

Neste catálogo, tal como na exposição, as fotografias não surgem sempre de forma cronológica. São agrupadas por temas e também se articulam numa narrativa dramática, onde duas imagens de momentos diferentes podem estar lado a lado por contraste, estabelecendo choques e pontes.

Após 50 anos, alguns arquivos desapareceram. Por esta razão, em casos excecionais, quando não houve acesso a negativos nem a provas em papel, decidiu-se reproduzir imagens publicadas em livros. À data de hoje é única forma de partilhar imagens únicas, de um período decisivo da história de Portugal.

Venham mais cinco

É o título de uma célebre canção de José Afonso, escolhida pelos militares do MFA para ser tocada no Rádio Renascença na madrugada de 25 de Abril de 1974, como senha do início do golpe militar. Mas, dois dias antes, perceberam que a canção estava numa lista negra e não poderia ser transmitida sem levantar suspeitas. Decide-se então usar outro tema de José Afonso, Grândola (não proibido), para sinalizar o início do golpe. Ao escolher Venham mais cinco como título desta exposição, prestamos homenagem à grandeza única de José Afonso e ficamos à espera de mais cinco revoluções.

                                       

 

Tomem nota que, nos sábados e domingos que ainda faltam, existirá visitas guiadas à exposição:

21 junho, sábado, 17h - Manuel Martins Guerreiro Nuno Santos Silva com Luisa Tiago de Oliveira  
28 junho, sábado, 17h - José Neves,  Manuel Begonha com Luisa Tiago de Oliveira   
05 de julho, sábado, 17h - Fernando Rosas, Sónia Vespeira de Almeida com Luisa Tiago de Oliveira 
12 de julho, sábado, 17h - Ana Luísa Rodrigues, Irene Pimentel com Luisa Tiago de Oliveira 
19 de julho, sábado, 17h - Jacinto Godinho José Pacheco Pereira com Luisa Tiago de Oliveira.  

As inscrições nas visitas comentadas devem ser feitas através do email: venhammaiscinco1974@gmail.com

NOTÍCIAS DO CIRCO


MAS ESTAVAM À ESPERA DE QUÊ?!

Sirvo-me do artigo de Filipe Santa-Bárbara e Natália Faria  no Público de hoje e reparem no sorriso cínico do trauliteiro Carlos Abreu Amorim… e aguardem o que os próximos dias, meses por aí fora, lhes trará…

Travão a fundo na imigração, aperto nos subsídios e revisão das leis do trabalho
Luís Montenegro deu as pistas todas durante a campanha, teve sempre dos maiores aplausos quando falava no controlo da imigração e o programa do Governo é o espelho disso: travão a fundo. Além da vontade em flexibilizar a legislação laboral e de "equilibrar" a lei da greve, o executivo dá também corpo à mensagem que o primeiro-ministro andou a transmitir de que não aceita "um país em que muita gente que trabalha tem menos dinheiro do que quem não trabalha".


Travão a fundo na imigração, aperto nos subsídios e revisão das leis do trabalho
No campo da imigração, uma das principais novidades é que o visto para imigrantes que procuram trabalho em Portugal vai ser restringido a “candidatos com elevadas qualificações”. Mas não é a única. E o facto de o Governo estar a ponderar restringir a renovação da presença no território nacional aos imigrantes que apresentem “critérios de progresso no domínio da língua portuguesa” surge embrulhado na ideia de que é preciso prevenir “a formação de núcleos fechados à integração na comunidade e ao respeito dos valores constitucionais portugueses”.

Legenda: fotografia do Público da autoria de José Sena Goulão da Lusa.

MÚSICA PELA MANHÃ


 Continua a violência na Califórnia.

É disto que Donald Trump gosta, quer.

Para poder chegar a outros degraus da América que ele sonha que seja uma realeza, ou uma oligarquia.

E a música continua por aquelas paragens, aproveitando para assinalar a morte de Brian Wilson, personagem quase único dos Beach Boys.

Ouvi Sloop John B divulgado pelo Em Órbita.

Reuni os tostões e corri à Melodia comprar o Epezito.

CAPITOL - EAP 1-20 820 - edição portuguesa

Sloop John B - We’ll Run Away -You're so Good to Me - Girls on the Beach

Mais tarde o Luís Miguel Mira, brilhantíssimo conhecedor da Música Folk, ensinou-me que Sloop John B é uma canção que pertence à longa história da música folk.

Colocaremos a versão dos Beach Boys, também a dos Kingston Trio e dos Weaver.

Aproveitando o balanço, ouviremos a versão dos Beach Boys de California Dreamin.

Ontem colocámos a dos Mamas and Papas.




TRUMPALHADAS


Os Estados Unidos, A maior nação do mundo?, a maior democracia do mundo?, vem assistindo, como nos pátios de escola, a brincadeiras de garotos irresponsáveis.

Foram amigos, perseguem trabalhadores, os imigrantes, Musk gritou que para fazer a América grande havia de «agir depressa e quebrar tudo». Agora desataram a ofender-se um ao outro, pelo meio situações completamente escabrosas.

Os intérpretes são Donald Trump e Elon Musk.

«Se não fosse eu, não conseguias chegar a presidente»!

Numa qualquer esquina Musk soprou que irá constituir um terceiro partido e conseguiu dizer que Trump andou metido em orgias com Jeffrey Epstein & Co.

Mas agora diz que, nisso, foi longe demais e já apagou a acusação.

Mas estas coisas não se apagam assim… tão facilmente!...

O outro replicou:

«Vais arrepender-te!»

Aguardam-se os próximos episódios.

sábado, 14 de junho de 2025

À LUPA

- Manel, atão tu já na me procuras?

- Ora Mari, tu já na te escondes!

MÚSICA PELA MANHÃ


 Segundo a loucura de Donald Trump, Los Angeles está a ferro e fogo.

Forças Armadas perseguem os manifestantes.

Duas canções que lembram a Califórnia de outros tempos.



DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


De muito, nas suas convulsões patéticas, se esperava de Donald Trump e da troupe com que se rodeou  na Casa Branca, mas tudo o que tem acontecido, ultrapassam as expectativas e aconteceram de um modo muito rápido. 

O senador democrata do Estado da Califórnia Alex Padilla foi expulso de uma conferência de imprensa em Los Angeles, onde a secretária de Segurança Interna, Kristi Noem, falava sobre o combate à imigração ilegal.

 "Sou o senador Alex Padilla. Tenho perguntas para a secretária", disse aos elementos da segurança de Kristi Noem, antes de ser travado e empurrado para trás, e depois levado à força para uma sala adjacente enquanto exigia que o largassem e acabou imobilizado no chão e depois algemado.

 Enquanto o senador era afastado, Noem dirigiu-se aos presentes para criticar a interrupção, afirmando que Padilla, que não conhece, não pediu uma reunião consigo.

 "Acho que todos nos Estados Unidos concordariam que isto foi inapropriado", afirmou Noem.

 "Trump e a sua polícia de choque estão fora de controlo", afirmou o governador democrata da Califórnia.

 Trump ordenou o envio de 4.000 soldados da Guarda Nacional e 700 fuzileiros navais, para a perseguição aos trabalhadores imigrantes não documentados, apesar dos protestos do governador democrata da Califórnia e da presidente da Câmara de Los Angeles, Karen Bass, que consideraram a iniciativa desproporcional e provocatória.

“Continuaremos aqui para libertar esta cidade dos socialistas e da liderança opressiva que este governador e esta mayor impuseram ao país”, declarou a mais alta responsável federal pela segurança pública.

1.

Em quatro anos a Associação Portuguesa de Apoio à vítima  apoiou 6523 idosos vítima de violência doméstica, uma média de 136 pessoas por mês, cinco a cada dia. A grande maioria, 52,7%, é alvo de violência ao longo dos anos. As estatísticas referem-se ao período 2021-2024 e revelam um aumento de 8,5% do número de crimes contra estas pessoas. A maioria das vítimas é do sexo feminino (76,5%) e tem entre 65 e 74 anos (49,4%). A pessoa agressora é quase sempre um descendente, o que acontece em 31,4% das pessoas apoiadas pela APAV.

Segundo a APAV, a violência pode assumir diferentes formas: psicológica, física, sexual, financeira, negligência ou abandono.

2.

Duas mulheres que integram equipas de voluntários que distribuem ajuda alimentar a pessoas em situação de sem abrigo, no Porto, foram injuriadas e vítimas de “empurrões e murros” por dois homens, que, depois de terem feito a saudação nazi, as responsabilizaram pelo aumento de imigrantes no país.

3.

A Liga portuguesa voltou a superar a barreira dos 3,7 milhões de espectadores nos estádios, em 2024/25. No final desta temporada contabilizaram-se exatamente3 761 888 de adeptos nas bancadas, mais 54 598 do que na época anterior, altura em que se tinha ultrapassado pela primeira vez a fasquia dos 3,7 milhões e batido o recorde de 2017/18, que registou 3 654 720 espectadores nos estádios. Os números desta temporada significam que estiveram presentes nas bancadas 111 006 adeptos, em média, por jornada, ou 12 334 adeptos, em média, por jogo.

4.

Perto de meio milhar de trabalhadores de uma empresa de Palmela,  a Vanpro, que trabalhava para a Autoeuropa, vão ficar desempregados até ao final do ano, prevendo-se que o despedimento coletivo comece em outubro.

5.

Em 2024 as apostas realizadas em Portugal ultrapassaram 24 mil milhões de euros, impulsionadas pelo jogo online  e as perdas dos apostadores ultrapassaram os 2600 milhões de euros.

6.

 «Parece-me que a verdadeira ideia da Reforma do Estado do Governo PSD/CDS, aplicada por “alunos” da Fundação Francisco Manuel dos Santos, só pode ser uma: desmantelar vários serviços públicos e entregá-los ao mundo dos negócios.»

Pedro Tadeu, no Diário de Notícias

7.

Quem ganha menos de 746 euros na Grande Lisboa fica abaixo do limiar de pobreza

Quem ganha menos de 746 euros na Grande Lisboa fica abaixo do limiar de pobreza

Quem ganha menos de 746 euros na Grande Lisboa fica abaixo do limiar de pobreza

O limiar da pobreza a nível nacional está nos 632 euros líquidos mensais, mas quando se olha para as diferentes regiões, esse limiar varia e a Grande Lisboa piora o seu desempenho, a par com Setúbal.

OLHAR AS CAPAS


Roteiro de Emergência

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: João da Câmara Leme

Colecção O Livro de Bolso nº 87/88

Portugália Editora, Lisboa, Janeiro de 1966

Aquela mesma janela, no intervalo das rondas, havia eu de tornar depois de quantas vezes, em noites de azedume e cansaço sem fim, para refrescar ainda o olhar e recobrar a esperança, uma réstia de esperança, nessas azuis imobilidades da aurora, que começavam a latir, em liberdade sobre o mágico rio, com o despertar dos barcos, das gaivotas, e pedir depois, apesar do frio que me trespassava, a um céu em brasa, que não havia de aquecer-me: dai-me forças de homem para prosseguir sonhando, já que assim me escolhi e que acredito no estatuto do sonho e no rumo da fraternidade – e sobretudo, ainda e sempre, a coragem de contestar o crime triunfante.