segunda-feira, 28 de março de 2022

O VERVADEIRO ARCO-IRÍS DA MINHA INFÂNCIA


Não é lamúria, mas ainda não consegui endireirar o esqueleto.

As ideias andam aos solavancos.

As palavras – as palavras? - recusam-se a dizer seja o que for, não saem e o que sai não tem qualquer jeito.

Neste baralhar confuso de cartas mais que viciadas, as leituras também não mostram vislumbres de endireitar o tal esqueleto e a cabeça que o encima.

Decidi neste dia de chuva – em que estação de caminho de ferro ficou a Primavera, esperará um recoveiro? – voltar a pegar na Autobiografia de  Woody Allen que foi lida assim um tanto a correr não sei para onde.

O Luís Miguel Mira já fez por aqui uns apanhados do livreco, chamando-lhes «Tiradas».

Irei fazer outros apanhados. Repetirei cenas? Admito que sim, mas…

Será um lugar, talvez de silêncio, perante um realizador que me habituei a gostar desde o primeiro filme, e ficava sempre à espera de quando chegava o tempo de novo filme, como em cada Outono esperava pelo último livro do António Lobo Antunes, até que o desencanto se instalou naquele lugar de silêncio, talvez de solidão…

Agora nem Allen – virou propagandista turístico – e Antunes virou um insuportável chato.

 

«Mas deixem-me voltar aos filmes, a paixão de Rita. Agora lembrem-se, eu tenho cinco anos, e ela tem dez. Para lá de cobrir as paredes com fotografias coloridas de todas as estrelas de Hollywood, ela ia frequentemente ao cinema, o que significava todos os sábados à tarde para a sessão dupla, normalmente no Midwood, e embora fosse com amigos, levava-me sempre. Eu via todos os filmes que Hollywood lançava. Todas as grandes produções, todos os filmes da série B. Eu sabia quem entrava nos filmes, reconhecia-os os intervenientes mais desconhecidos, os atores secundários, reconhecia as músicas, pois conhecia todas as músicas mais populares, dado que Rita e eu nos sentávamos e ouvíamos rádio juntos incessantemente. O Make Believe Ballroom, Your Hit Parade. Nestes dias, o rádio tocava desde o minuto em que acordávanos até àquele em que íamos dormir. Música, notícias, e mais música.»

 

Woody Allen em A Propósito de Nada

Legenda: Luís Miguel Mira «vendendo» bilhetes a Woody Allen no «Chaplin's World»

1 comentário:

Seve disse...

Não será lamúria mas hoje senti-me invadido por uma boa dose de nostalgia...