segunda-feira, 14 de novembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Maria Alzira Seixo escreveu que o Manual de Pintura e Caligrafia «é o cadinho de todas as tendências pré-ficcionais de José Saramago, e daí a sua grande importância e originalidade na consideração evolutiva da sua obra».

Baptista-Bastos lamentará até que o autor não tenha aprofundado essa via: «Acho que o Manuel de Pintura e Caligrafia é um grande livro, que devia ser um caminho que ele devia ter encetado. É a minha opinião. Porque é uma coisa gira sob o ponto de vista das interrogações que um artista tem para fazer as coisas. É um bocado parecido com Os Sonâmbulos, do Herman Broch, é um bocado umas perplexidades do autor.»

Numa conferência, realizada em Turim no ano de 1997, José Saramago falou sobre a sua obra. O que aí foi dito, encontra-se num livro intitulado a Estátua e a Pedra:

«Com alguma surpresa de quem me escuta, desde há algum tempo que cada vez menos me interessa falar de literatura.»

Dessa conversa, posta em livro, retiro hoje o que Saramago escreveu sobre o seu Manual de Pintura e Caligrafia:

«Em 1977, portanto dois anos depois de ter deixado ou de ter sido compelido a deixar as funções que tinha no Diário de Notícias, eu publiquei um romance que se chama Manual de Pintura e Caligrafia. É o meu romance mais italiano, quer dizer, eu diria mesmo, que é o único romance italiano porque é de facto um romance onde a Itália tem uma presença, digamos, mesmo em termos quantitativos, número de páginas, bastante evidente. O Manual de Pintura e Caligrafia não promete nada ser um romance histórico. E eu começo já por acentuar isto para que se veja como é redutora, e penso que cada vez mais, esta definição de José Saramago romancista histórico. O Manual de Pintura e Caligrafia não é um romance histórico, é um romance de actualidade, é um romance que foi escrito no ano de 76, publicado em 77 e que se reporta exactamente às semanas anteriores à Revolução de Abril de 74. É a história de um pintor, não há que estranhar, eu, enfim sempre me interessei muito pela pintura, é a história dum pintor, mas não é a história de um pintor genial, é a história dum pintor medíocre, um pintor que ainda por cima tem a consciência da sua mediocridade, o que é verdadeiramente extraordinário, e é um pintor que não está contente com aquilo que faz e começa por tentar pintar melhor, ser melhor pintor, mas evidentemente essas coisas não resultam da simples vontade e ele reconhece que não, enfim, que não pode ir além daquilo que é o seu campo possível de trabalho. Então decide começar a escrever sobre a pintura que faz e inevitavelmente acaba por escrever sobre a escrita que está fazendo sobre a pintura que faz. Por isso o livro se chama Manual de Pintura e Caligrafia, como alguém que não está a aprender por um manual porque o livro começa por não existir, o livro é escrito. A história é contada na primeira pessoa, enfim como se calcula, a Itália aparece porque ele faz umas quantas viagens e portanto descreve o que viu, é, no que se refere à Itália, uma espécie de percurso artístico, mas, no que se refere à sua própria vivência pessoal, é um mergulho dentro daquilo que ele julga ser, como hipótese de poder vir a ser outra coisa. É o primeiro romance, sendo o primeiro romance desta minha última vida, e é também o romance onde imediatamente a figura da mulher aparece como o elemento de transformação. Este pintor conhece uma mulher e é esse conhecimento que o faz reconsiderar que os caminhos pelos quais ele estava tentando conhecer-se a si mesmo não eram com certeza aqueles que poderiam levá-lo a ter uma ideia clara de si mesmo, porque era indispensável que nesse percurso para ele chegar a si mesmo tivesse de passar por outro, neste caso, pelo outro que é essa mulher, para que o caminho pudesse ter um sentido. O livro acaba precisamente na noite da Revolução do 25 de Abril de 1974. O futuro desses dois, o pintor e a mulher a quem ele ama e que o ama a ele não o sei, não sei se ainda estão felizes ou se entretanto qualquer coisa lhes aconteceu que interrompeu aquela união. De romance histórico, portanto, nada. Não há aqui nada de romance histórico.»

Na conversa tida em Turim, Saramago diz que o livro acaba na noite da Revolução do 25 de Abril.

Assim:

«O regime caiu. Golpe militar, como se esperava. Não sei descrever o dia de hoje: as tropas, os carros de combate, a felicidade, os abraços, as palavras de alegria, o nervosismo, o puro júbilo. Estou neste momento sozinho: M. foi encontrar-se com alguém do Partido, não sei onde. Vai acabar a clandestinidade. O meu auto-retrato já esta muito adiantado. Dormíamos em minha casa, M. e eu, quando o Chico, noctívago, telefonou, aos gritos, que ouvíssemos a rádio. Levantámo-nos de um salto (estás a chorar, meu amor?): «Aqui Posto de Comando das Forças Armadas. As Forças Armadas portuguesas apelam para todos os habitantes da cidade de Lisboa...» Abraçámo-nos (meu amor, estás a chorar), e embrulhados no mesmo lençol, abrimos a janela: a cidade, oh cidade, ainda noite por cima das nossas cabeças, mas já uma claridade difusa ao longe. Eu disse: «Amanhã vamos buscar o António.» M. apertou-se muito contra mim. «E um dia destes dar-te-ei uns papeis que aí tenho. Para leres.» «Segredos?», perguntou ela, sorrindo. «Não, papeis. Coisas escritas.»

José Saramago em Manual de Pintura e Caligrafia, página 351.                                                              

MÃOS LIMPAS

Do gesto de matar a ambas mãos,

O jeito de amassar não é diferente…

(Que bom este progresso, que descanso!

O botão da direita dá o pão;

Com o botão da esquerda, facilmente,

Disparo, sem olhar, o foguetão,

E o inimigo alcanço.)

José Saramago em Os Poemas Possíveis

domingo, 13 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 O amor é um lugar sem resposta, sem lógica.

José Saramago

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

«Queriam saber tudo quanto me aconteceu e fiz, desde que nasci como escritor e como pessoa. Era como se procurassem a receita mágica, ou não tanto, que faz passar alguém do anonimato nas letras ( sempre relativo) às letras da fama ( relativa sempre). Falo-lhe de trabalho e de disciplina, digo-lhes que não ter pressa não  é incompatívl com não perder tempo,que o pecado mortal do escritor é a obsessão da carreira, ilustro tudo isto com a minha própria vida, valha ela o que valer, e não me esqueço de acrescentar que para tudo se necessita sorte: a sorte grande de que os leitores nos descubram a tempo, ou, menor sorte essa, que nos descubram ainda que já seja demasiado tarde para que o saibamos nós.»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Volume III

CRAVEIRA

Não quer amor que o meçam, antes mede,

Incorrupto juiz que tudo afere

Na craveira da sua desmedida.

Chamados todos somos: só elege

Quantos de nós saibamos converter

Em chama vertical a hora consumida,

Em mãos de dar os dedos de reter.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

sábado, 12 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 O diabo tem tão bom ouvido que não precisa que lhe digam as coisas em voz alta, Valha-nos então deus, Não vale a pena, esse é surdo de nascença.

José Saramago em Ensaio Sobra a Lucidez

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Por agora, terminamos os sublinhados, que encontrámos, e que José Saramago dedicou aos filmes, aos artistas, aos cinema da cidade onde viveu.

O texto está publicado em O Caderno nº2 e mostra uma curiosíssima memória que desde tenros anos ficou de Charlot, para concluir que não lhe deixou grande coisa.

Curiosamente o poeta José Gomes Ferreira também não era um incondicional adepto de Charlot, preferia Eisenstein, tal co deixou escrito numa crónica publicada, Junho de 193º na revista Imagem:

«Enquanto Charlie Chaplin, com os seus cabelos brancos de palhaço no declínio, o seu sorriso amargo de quem sofre uma dor imaginária, continua a gitar o eterno Charlot, espantalho de pano que infunde respeito ao público e aos poetas líricos, - Eisenstein sorri, cria, não se contenta com o que já está convencionado, afasta-se definitivamente da arte pura e dos seus artifícios pretensiosos.»

Numa destas últimas noites vi na televisão alguns filmes antigos de Chaplin, a saber, dois ou três episódios nas trincheiras da primeira guerra mundial e um filme mais extenso, “The Pilgrim”, que, retoma, com menos felicidade que noutros casos, o tema recorrente de um Chaplin sem culpas procurado pela polícia. Não sorri nem uma única vez. Surpreendido comigo mesmo, como se tivesse faltado a uma jura solene, dei-me ao trabalho de tentar recordar, tanto quanto me seria possível oitenta anos depois, que risos, que gargalhadas me terá feito soltar Charlot nos dois cinemas populares de Lisboa que frequentava quando tinha seis ou sete anos. Não recordei grande coisa. Os meus ídolos nessa época eram dois cómicos suecos, Pat e Patachon, que esses, sim, eram, para mim, autênticos campeões da gargalhada. Continuando a reflectir com os meus botões, sempre bons conselheiros porque em princípio não mudam de casa nem de opinião, cheguei à inesperada conclusão de que Chaplin, afinal, não é um cómico, mas um trágico. Repare-se como tudo é triste, como tudo é melancólico nos seus filmes. A própria máscara chaplinesca, toda ela em branco e negro, pele de gesso, sobrancelhas, bigode, olhos como pingos de alcatrão, é uma máscara que em nada destoaria ao lado das representações plásticas clássicas do actor trágico. E há mais. O sorriso de Chaplin não é um sorriso feliz, pelo contrário, aventuro-me a dizer, sabendo ao que me arrisco, que é tão inquietante que ficaria bem na boca de qualquer drácula. Se eu fosse mulher, fugiria de um homem que me sorrisse assim. Aqueles incisivos, demasiado grandes, demasiado regulares, demasiado brancos, assustam. São um esgar no enquadramento rígido dos lábios. Sei de antemão que pouquíssimos vão estar de acordo comigo. O caso é que, uma vez que foi decidido que Chaplin é um actor cómico, ninguém lhe olha para a cara. Creiam no que lhes digo. Olhem-no de frente sem ideias feitas, observem aquelas feições uma por uma, esqueçam por um momento a dança dos pezinhos, e digam-me depois o que viram. Chaplin levaria todos os seus filmes a chorar se pudesse.

José Saramago em O Caderno, 2º volume 

ESTÁ QUASE A CHEGAR!


 Será que a crise, a guerra, podem retirar alegria ao Natal de cada um?

Colaboração de Aida Santos

CARTA DE JOSÉ A JOSÉ

Eu te digo, José: por esta carta

Não garanto mentira nem verdade:

A ciência de mim sempre se aparta

Desta náusea de ser e de vontade.

São inúteis cobiças, vãos desgosto,

São braços levantados, já caídos,

São as rugas que vincam os cem rostos

Da comédia e do jogo repetidos.

Desse lado da mesa (ou deste espelho)

Vais seguindo as palavras invertidas:

Verás melhor assim se (quanto) valho

Ao invés dos sinais e das medidas.

(correm águas geladas no meu rio,

E mortos cantos de aves, derivando

Por silêncio frustrado e calafrio,

Vão amanhã doutro dia recordando.)

Cai a chuva do céu, e não te molha,

Está a noite entre nós, e não te cega.

Não sorrias. José: à tua escolha

O que me sobra de alma e se nega.

Desse lado da mesa, onde me acusas,

Te levantas. A marca do teu pé,

Na soleira da porta que recusas,

Fecha de vez a carta abandonada.

Tua sombra pisada, teu amigo – José

José Saramago em Os Poemas Possíveis

sexta-feira, 11 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 O sentido da frase tem dois destinatários, depende, A ambiguidade não é sempre um defeito.

José Saramago em História do Cerco de Lisboa

É HOJE

É hoje. Hoje é o dia da independência de Angola. Angola acabou, a nossa Angola acabou. Não sei para que estou a olhar para a televisão, não sei por que estou aqui.

Os homens têm os fumos por cima dos casacos, uma ideia do Pacaça que diz, estou de luto, hoje morreu-me a minha terra, hoje tornei-me um desterrado, vivemos na certeza de que a terra onde enterramos os nossos mortos será nossa para sempre e que também nunca faltará aos nossos filhos a terra onde os fizemos nascer, vivemos nessa certeza porque nunca pensamos que a terra pode morrer-nos, mas hoje morreu-me a minha terra, hoje morreram os meus mortos e os meus filhos perderam a terra onde os fiz nascer, os meus desterrados como eu. O Pacaça cala-se e começa a falar o Sr. Belchior, estou de luto pela terra onde fui gente, antes de ir para lá era uma barriga inchada de fome e uma cabeça cheia de piolhos.

Dulce Maria Cardoso em O Retorno

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Ainda estamos nas lembranças cinematográficas de José Saramago, também a lembrança das muitas histórias das muitas partes de casa em que viveu: «lembro-me de dormir no chão, no quarto dos meus pais…».


«Lembro-me de dormir no chão, no quarto dos meus pais (único, aliás, como já disse), e dali os chamar a tremer de medo porque debaixo da cama, ou num capote dependurado do cabide, ou na forma distorcida de uma cómoda ou de uma cadeira, seres indescritíveis se moviam e ameaçavam saltar sobre mim para devorar-me. A responsabilidade de tais pavores, creio, teve-a aquele famoso Cinema «Piolho», na Mouraria, onde, com o meu amigo Félix, me alimentei espiritualmente das mil caras de Lon Chaney, de gente malvada e cínicos da pior espécie, de visões de fantasmas, de magias sobrenaturais, de torres malditas, de subterrâneos lôbregos, enfim, de toda a parafernália, então ainda no jardim da infância, do susto individual e colectivo a baixo preço. Numa dessas fitas, em certa altura, romanticamente sentado numa varanda e, pela expressão da cara, a cismar na mulher amada, aparecia o galã da história (era assim que se dizia na época, mas nós, os do «Piolho», chamávamos-lhe, sem cerimónias, o rapaz), com o antebraço direito descansando sobre um murete, por trás do qual, após um momento de expectativa, começou a subir, tenebrosamente encarapuçado e com medonha lentidão, um leproso que assentou uma das mãos carcomidas pela doença sobre a mão alvíssima do actor, o qual, acto contínuo, ali mesmo e à nossa vista, contraiu, na pessoa da personagem, o mal de Hansen. Nunca, em toda a história das enfermidades humanas, se haverá dado um caso de contágio tão rápido. O resultado de um tal horror foi que, nessa noite, dormindo eu na mesma cama que o Félix (não sei por que razão, uma vez que não era costume), acordei a altas horas e vi no meio do quarto, também casa de jantar da outra família, o leproso da fita, exactamente como nos tinha aparecido, todo de negro, com um capuz em bico e um bordão que lhe chegava à altura da cabeça. Sacudi o Félix, que dormia, e sussurrei-lhe ao ouvido: «Olha, olha para ali.» O Félix olhou e, explique-o agora quem puder, viu exactamente aquilo que eu estava a ver, isto é, o leproso. Apavorados, enfiámos a cabeça debaixo da roupa e assim ficámos por muito tempo, asfixiando de medo e falta de ar, até que nos atrevemos a espreitar por cima da dobra do lençol para verificar, com infinito alívio, que a pobre criatura se havia ido embora. No final da fita, o rapaz curava-se pela virtude da fé que o tinha levado a banhar-se na gruta de Lourdes, de onde, tendo entrado manchado, saiu limpo para os braços da ingénua, ou rapariga, como com igual desrespeito lhe chamávamos.

José Saramago em As Pequenas Memórias, página 57

SENTIR NA BOCA O TRAVO A PINHEIRO


Dia de São Martinho.

Vai à tua adega e prova o teu vinho.

Lido, há muito tempo, já não sei onde. 

Desconheço o autor, e uma pequena investigação pela diversa papelada, deu em nada.

«Incendeia um monte de caruma,

deixa que nele caia um saco de castanhas.

Que tostem, que absorvam chamas, que escaldem,

que se exaltem com sucessivos punhados de sal.

À tua volta, algumas presenças muito sorridentes.

Remexe o lume com uma vara até que a caruma fique em brasa.

Suja os dedos, abre as castanhas e sente na boca o travo a pinheiro.

Nunca tinhas saboreado nada assim – experimenta-as.

Marca com os dedos cheios de cinza uma fronte a teu lado.

Traz contigo as gargalhadas e os lábios salgados».

Legenda:  Os Bêbados ou Festejando o S. Martinho, quadro de José Malhoa.

PEQUENO COSMOS

Ah, rosas, não, nem frutos, nem conforto!

Já basta de veludos nestes versos,

De velhas consonâncias e bordões!

Astronauta do espaço que rodeio

(Noutra hora diria que infinito…)

Uma fome de rosas e de frutos

A frouxidão da pele ao osso chega.

Assim recalcinado, mais me torno

Matéria combustível nos poentes

Das estrelas convulsas que contenho.

Talvez, enfim, o aço apure e faça

Do espelho em que me veja e me defina.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

quinta-feira, 10 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


Lendo, fica-se a saber quase tudo.

José Saramago em A Caverna

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Nunca perderei a mania de, à volta dos livros de José Saramago, dizer certas parvoeiras – deixem que lhes chame assim. Aqui vai mais uma: As Pequenas Memórias é um livro fabuloso. Por causa do inevitável gosto de Saramago pelo cinema, ando a relê-lo. Quantas vezes já o fiz, como se não houvesse outros, tantos livros, aqui na Biblioteca da Casa?

 

«Nem tudo foram sustos nas salas de cinema aonde o garoto de calções e cabelo cortado à escovinha podia entrar. Havia também fitas cómicas, em geral curtas, com o Charlot, o Pamplinas, o Bucha e o Estica, mas os actores de quem mais gostava eram o Pat e o Patachon, que hoje parece terem caído em absoluto esquecimento. Ninguém escreve sobre eles e os filmes não aparecem na televisão. Vi-os sobretudo no Cinema Animatógrafo, na Rua do Arco do Bandeira, aonde ia de vez em quando, e recordo quanto me ri numa fita em que eles (estou a vê-los neste momento) faziam de moleiros. Muito mais tarde viria a saber que eram dinamarqueses e que se chamavam, o alto e magro, Cari Schenstrom, o baixo e gordo, Harold Madsen. Com estas características físicas era certo e sabido que chegaria o dia em que teriam de interpretar Dom Quixote e Sancho Pança, respectivamente. Esse dia chegou em 1926, mas eu não vi a fita. De quem eu não gostava mesmo nada era do Harold Lloyd. E continuo a não gostar.

José Saramago As Pequenas Memórias, página 60 

´NOTÍCIAS DO CIRCO


O Homem Que Ri.

Era um livro de Victor Hugo, edição popular salvo erro da Lello Editores que existia na Biblioteca do meu pai, para o qual muitas vezes olhei mas nunca li. Quando fechei a casa onde nasci, e aí vivi, até casar, comecei a colocar os livros em caixas para chegarem aqui, à continuação da Biblioteca da Casa, e não me lembro de o arrumar.

O destino que O Homem Que Ri levou não vale a pena, agora, pensar.

 De que ria Fernando Medina enquanto, na Assembleia da República, estava a ser discutido o orçamento para o ano de 2023?

Um sorriso cínico, ofensivo, desprezível.

Segundo as mais recentes estatísticas da Autoridade Tributária, que se reportam a 2020, existiam mais de 736 mil contribuintes no escalão mais baixo de rendimentos, isto é, entre zero e cinco mil euros brutos anuais, pelo que é possível deduzir que milhares tenham apresentado a declaração de IRS sem qualquer tipo de rendimento.»

 Agravamento do custo de vida fez disparar furto de alimentos nas superfícies comerciais. Leite, salsichas e latas de atum estão entre os produtos mais roubados.Há supermercados portugueses a colocar alarmes em produtos alimentares básicos e produtos congelados, entre os quais bacalhau e salmão, avança o jornal Expresso.

 A inflação rouba 66 euros a quem ganha o salário mínimo.

 Marcelo Rebelo de Sousa diz que o mundo vive um momento de "imprevisibilidade associada aos preços da alimentação" e pede a todos o contributo para o "objetivo comum de garantir uma alimentação saudável e nutricionalmente equilibrada para todos."

 Vários falsos mendigos foram sinalizados pela GNR por aproveitarem todas as grandes celebrações religiosas no Santuário de Fátima para, simulando doenças e deficiências, obter esmolas dos fiéis.

De que riem os políticos?

Legenda: O Homem que Ri, filme de Paul Leni

GAL COSTA (1945-2022)



Que raio!

Então agora ficámos sem a Gal Costa?

«Difícil Demais», disse a Maria Bethânia.

E Walt Whitman que vem aqui fazer não sei bem o quê, mas veio: «é bom estar vivo e também é bom morrer.» 




DE MIM AO SOL...

De mim ao sol um passo me separa:

Fogos da mesma luz que dispersou,

Na explosão casual do nascimento,

Entre as noites de antes e depois,

A glória solar do pensamento.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


Decidir é dizer sim ou não, sopro da boca para fora, as dificuldades é depois que vêm, na parte prática, como diz a grande experiência do povo, ganha à custa de tempo e da paciência de suportá-lo, com poucas esperanças e mudanças ainda menos.

José Saramago em A Jangada de Pedra

OLHAR AS CAPAS


O Caso do Anúncio Falso

Erle Stanley Gardner

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Capa: Lima de Freitas

Colecção Vampiro nº 296

Livros do Brasil s/d

A causa da morte é sempre um problema médico. Em contrapartida, o modo como a morte foi infligida nunca é um problema médico.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Continuamos no cinema com José Saramago e são as páginas de As Pequenas Memórias que nos ajudam nessa memória.

Na rua onde nasci, não havia qualquer sala de cinema mas, em redor, havia uma enormidade de cinemas.

Mentalmente percorro essas ruas, sigo em direcção à Graça e encontro o Cine-Oriente, o Royal, junto à Morais Soares o Max, o Imperial, na Almirante Reis o Cinema Império, o Lys, o Rex, mais abaixo o Salão Lisboa, e se subir até à Duque de Ávila encontro o Avis.

Desapareceram quase todos, outros mantêm o espaço, mas viraram diversos, quiçá estranhos, locais de consumo.

Saramago refere o Salão Oriente mas o nome exacto é Cine-Oriente.

Mário de Carvalho, que também andou no Gil Vicente, vivia com os pais na Rua das Enfermeiras da Grande Guerra, e também frequentou esses cinemas.

«Mentiras mais desculpáveis foram as de ter inventado enredos de filmes que nunca tinha visto. Entre a Penha de França, onde morávamos, e o liceu, no caminho que é hoje a Avenida General Roçadas e depois a Rua da Graça, havia dois cinemas, o Salão Oriente e o Royal Cine, e neles nos entretínhamos, eu e os colegas que moravam para aqueles lados, a ver os cartazes expostos, como era então uso em todos os cinemas. A partir dessas poucas imagens, no total umas oito ou dez, armava eu ali mesmo uma completa história, com princípio, meio e fim, sem dúvida auxiliado na manobra mistificadora pelo precoce conhecimento da Sétima Arte que havia adquirido no tempo dourado do «Piolho» da Mouraria. Um pouco invejosos, os companheiros ouviam-me com toda a atenção, faziam de vez em quando perguntas para aclarar alguma passagem duvidosa, e eu ia acumulando mentiras sobre mentiras, não muito longe já de acreditar que realmente tinha visto o que apenas estava inventando…»

José Saramago em As Pequenas Memórias, página 112

Legenda: as fotografias do Cine- Oriente e Royal Cine foram tiradas do blogue Restos de Colecção

RETRATO DO POETA ENQUANTO JOVEM

Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.

Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se furtam para o lado
Com o rumor de seda amarrotada.

Há um nascer do sol no sítio exacto,
Na hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Uma ânsia de sede inextinguida.

Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu dessa memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que narra do retrato a velha história.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

terça-feira, 8 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


Há coisas que nunca se poderão explicar por palavras.

José Saramago em O Homem Duplicado

NESTA SECRETA GUERRA

Nesta secreta guerra em que persisto,

Tudo está certo, não desejo paz.

E se nem sempre fujo a este jeito

(Herdado doutra era)

De bater com os punhos no meu peito,

Não é pelo gosto de chorar desgraça,

Mas porque a vida passa,

E mesmo quando aceito,

O coração à espera desespera.


José Saramago em Os Poemas Possíveis