quinta-feira, 10 de julho de 2025

RETORNO À MEMÓRIA

estar sempre com frio

como o caminhar à noite só sem luz

como a árvore que olha com raiva a tempestade

talvez mesmo como a cama

que conserva apenas as formas já desfeitas

dos corpos que nelas se deitam

 

depois com o vento

é a saudade das madrugadas doutros tempos

quando o simples descer uma escada

era a mais extraordinária das aventuras

quando a certeza de encontrar uns braços abertos

estava evidente no fundo da escuridão

 

então tudo era simples muito belo

qualquer palavra tua

era a mais maravilhosa das afirmações

qualquer gesto que fizesses

era o mais belo movimento de amor

caminhar ao acaso

era a grande viagem sempre renovada todos os dias

e à noite

não havia frio como agora

mesmo que o mar nos cobrisse de algas

mesmo que a areia

trouxesse consigo o gelo das mais remotas estrelas

 

agora amor escuto o teu olhar

através da distância cada vez maior e mais alucinante

que nos separa

escuto-o através da ponte

que formaram os caminhos por nós percorridos um dia

vejo-te como partiste

muito pura flores na testa mãos abertas

igual às madrugadas doutros tempos

igual à grande aventura

de caminhar ao acaso


Mário-Henrique Leiria

quarta-feira, 9 de julho de 2025

À LUPA

Sim, eu sei: estou a ficar velho.

Chega-se aos 80 anos e começamos a olhar para o lado.

Há algum tempo que ando em releituras.

Já o li, já o reli e volto a andar às voltas com um livro maravilhoso: As Memórias de Rómulo de Carvalho ou António Gedeão.

A Lupa tem andado por aquelas palavras:

«Na verdade, já que estou a falar-vos em fim da existência, dir-vos-ei a ideia de tal fim nunca me perturbou, nem em velho nem em novo. Nunca consegui adaptar-me à vida e sempre nela vagueei com desagrado, embora sorrindo e até gracejando. Sempre procurei dar aos outros aquilo que sempre deles desejei receber mas cada um é um baluarte inacessível. Bate-se à porta e ninguém responde. Trabalhei a vida inteira e procurei ser útil a quem de mim se aproximava, o que hoje me é afirmado quando isso vem a propósito. Agora cheguei ao termo final, mais de trinta e dois mil dias de vida e, presentemente, só estou a dar incómodos aos outros, sem utilidade de qualquer espécie. Ela que venha pois, a morte, que será bem recebida. Alguns olhos chorarão por mim, mas com o tempo tudo passa, e secarão.»

ÉS COMO UMA TERRA

És como uma terra
que nunca ninguém disse.
Não espera nada
a não ser a palavra
que brotará do fundo
como fruto entre os ramos.
Um vento que se aproxima.
Coisas secas e mortas
embaraçam-te e vão no vento.
Membros, palavras antigas.
Tremes no verão.

 
                      29 de Outubro de 1945

Cesare Pavese em Virá a Morte e Terá os Teus Olhos

terça-feira, 8 de julho de 2025

POSTAIS SEM SELO

«Debati-me diante da tua face como a fêmea do açor no seu primeiro cobrimento. Mas a tua saliva vestiu-me de branco o dentro do corpo.

Maria Velho da Costa em Corpo Verde 

REOLHARES


 PRIMUS INTER PARES

(Texto publicado em 28 de Outubro de 2011)


Há no Porto um café onde se pensa. Há no Porto um café onde se escreve. Há no Porto um café onde se discute. Há no Porto um café onde se é intelectual pelo preço acessível, a qualquer bolsa, de meia de leite e torrada bijou.

Tem um ar recatado, simples: o aspecto, doce e calmo, de um domingo de Novembro. Mas não se iludam, amigos: confesso que este café me preocupa e intimida. Que me suam as mãos, quando lá entro. Que me sinto mesquinho e sem valia, quando me atrevo a mergulhar na mansuetude quase líquida da sala.
Nesse 
café do Porto, os intelectuais contam-se pelo número de clientes. Há-os verdadeiros e de pacotilha, circunspectos e irreverentes, académicos e revolucionários. Há-os de todas as escolas e matizes, novos, velhos, morenos, bexiguentos, altos, ínfimos, com rendosas conezias ou dificuldades de dinheiro. Escrevem, pintam, dissertam, analisam, definem. Sobretudo definem, quer dizer: classificam de acordo com a morfologia conveniente, etiquetam, intitulam, fossilizam. É um café virado do avesso, onde as janelas dão para o íntimo da pequenez das coisas: só por se estar olhando a rua através das cortinas ondulantes, a rua e o seu sentido hieroglífico tornam-se perigosamente inexistentes. Depois, quando se vem, de novo, para a alegria do sol, é indispensável e urgente reinventar a rua sem limites até ao mais inútil e inofensivo dos disfarces. E para quê, afinal?
Pois, senhores, é bem fácil a resposta: para que, à mesma hora do mesmo dia igual, qualquer cliente possa fechar os olhos à presença do mundo, pensando, discutindo, escrevendo. E registe-se, para uso dos iletrados irrecuperáveis, e nosso próprio conforto espiritual, que isto de latim é uma bela coisa.

 

Daniel Filipe em “Discurso Sobre a Cidade” 

 

Legenda: são lindíssimos os cafés do Porto. Alguns ainda resistem.

Segundo o jornalista Germano Silva, o café que Daniel Filipe invoca nesta crónica, é o Café Rialto, que já não existe. Ficava na Praça D. João I  e uma das tertúlias reunia o Daniel Filipe, o Egito Gonçalves, o Papiniano Carlos, o Luís Veiga Leitão, o António Rebordão Navarro, às vezes o José Augusto Seabra. Mantinham na altura uma colecção de poesia: Notícias do Bloqueio.

Andei à procura de uma fotografia do Rialto, mas não encontrei.

A que ilustra o texto é do Café Majestic, um ex-libris da cidade.


NOTÍCIAS DO CIRCO

1.

Apesar dos sucessivos problemas que a cada hora vão sucedendo no Serviço Nacional de Saúde, a senhora ministra garante que está  «absolutamente de consciência tranquila» e nunca irá desistir das missões que lhe forem confiadas pelo primeiro-ministro Luís Montenegro.
2.

A ministra da Justiça explicou que as possibilidades de fuga das prisões portuguesas acontecem porque os guardas prisionais são insuficientes.

Os dois reclusos que fugiram de Alcoentre, já recapturados, encontraram facilidades porque não havia nenhum guarda no pátio e ninguém, por falta de pessoal, se encontrava as câmaras de videovigilância.

3.

O ministro da Educação, Fernando Alexandre, lamentou esta terça-feira as intervenções da deputada do Chega Rita Matias, nas redes sociais, e do líder do partido, André Ventura, no Parlamento, durante as quais leram nomes estrangeiros de alunos inscritos numa escola, insinuando que estão a ocupar o lugar de alunos portugueses nesses estabelecimentos de ensino e que há uma suposta substituição cultural no país.

4.

Começou o julgamento do ex-ministro José Sócrates: um homem capaz de tudo!

HISTÓRIA ANTIGA

Compromissos, não tinha, mas faltei;
Não prestei juramento, mas traí:
Sentir-se réu alguém, não depende
Do juízo dos outros, mas de si.
É fácil companhia a consciência
Se mansamente aceita e concilia,
Difícil é calá-la quando somos
Mais retos afinal do que se cria.
Um dia tornarei às dores do mundo,
À luta onde talvez já não me esperam,
Mas não agora, que as mãos tenho amarradas
Neste corpo de mulher aqui deitado.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

segunda-feira, 7 de julho de 2025

VELHOS RECORTES

Já que aqui trouxemos A Praia do Cesare Pavese, o filme do Jorge Silva Melo, leia-se o pequeno recorte tirado  da revista Ler, Verão de 2017, em que Leonor Baldaque aborda o livro de Pavese.

REOLHARES


Talvez por uns largos tempos, Jorge Silva Melo andou às voltas com A Praia de Cesare Pavese. O resultado é o filme Agosto. Tempo de Reolhar o que aqui se publicou em 2 de Agosto de 2022.


O QU’É QUE VAI NO PIOLHO?


Um atento leitor de Cesare Pavese sabe que A Praia será o menos político dos romances de Pavese.

A observação deixou-a, também, Pedro Mexia, no Expresso, quando em 2011 a Ulisseia reeditou A Praia.

Pavese resume A Praia como um relato da amizade de dois rapazes que uma mulher, casada com um deles, ao mesmo tempo une e separa.

Aparentemente nada acontece.

Quando o tempo de Verão era outro, tão lento, no devagar depressa dos tempo, para citar Guimarães Rosa: bebidas, bailes, jogos na praia, paixões de Verão, que as mães diziam que ficavam enterrados na areia, pores-de-sol, ambientes, sensações, estados de espírito, melancolias, situações de que a maior parte não se conseguem entender mas que gostamos de olhar e sentir, as aparências que revelam mais do que iludem, o carácter efémero das coisas, nostalgias de tempos perdidos, ele, Jorge Silva Melo que, naquele tempo, quando andava a ler romances arrepende-se de não ter dançado o twist e andar de carro descapotável.

No Verão todos os pecados se confundem.

Rilke dizia que só o Verão vale a pena, ou Ruy Belo, mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar caminha para o mar pelo Verão.

Jorge Silva Melo lê A Praia em 1965 e, ficou a moer por dentro que a novela poderia dar um filme.

«Sempre li Pavese com os meus “jeans”, uma camisa aos quadrados vermelha e os cigarros Porto que então fumava , entre os postais que regularmente punha no correio.»

Dessas leituras, dessas melancolias, em 1987, Jorge Silva Melo fez um filme e chamou-lhe Agosto.

 La Spiaggia, de Cesare Pavese, cuja acção se passa nos 40, na Itália do pós-guerra, e aborda a ascensão da burguesia intelectual depois de alguns anos de recuperação económica. O meu filme fala do momento em que li a novela: é mais uma adaptação da leitura que fiz em 1965. Agosto é, se calhar, o filme que gostava de ter feito quando ainda não podia fazer cinema. E um filme que me faltou; é, talvez, o filme que gostava que a geração de João Bénard da Costa tivesse feito quando se encontravam na Arrábida.


É em A Praia  que Pavese deixa escrita a frase que pelos tempos fora tem sido repetida, e sempre continuará a ser, e que vem na pág. 154 da minha velhinha edição de bolso da Portugália Editora:

Começava a compreender que nada é mais inabitável do que um lugar onde se foi feliz.

Se fosse vivo, Cesare Pavese faria hoje 106 anos.

 E tão cedo que ele nos deixou, quando apenas tinha 42 anos, e com tanto ainda para nos dar.

Em O Diabo Sobre as Colinas escreve que da sua infância só lhe ficara o Verão, e num daqueles muitos seus dias depressivos e tristes, escreveu: basta-me a companhia do mar. Não quero ninguém. Na vida não tenho nada de meu. Deixem-me ao menos o mar.

SUNT LACRIMAE RERUM

 Pedras, cardos, ervas sem préstimo,

daquelas que se pisam

sem que a consciência doa.

 

Terra arável transfigurada em poeira

 de que os caprichos do vento fazem remoinhos

e onde nenhuma semente já se arrisca,

nem nenhum tráfego de arados sobrevive.

 

Diante disto, resta

dizer adeus às armas da paz,

fechá-las na arca e deitar a chave fora,

represar as águas que transbordam

da extrema secura do solo.


A,M. Pires Cabral em Gaveta do Fundo

domingo, 6 de julho de 2025

UM RAPAZ DE PORTUGAL


Talvez que o brutal e estúpido desastre de viação que vitimou dois jovens tenha um motivo para os movimentos de dor e homenagem que se espalharam por toda a parte.

Diogo Jota era um bom executante futebolistico, daqueles jogadores que qualquer treinador, que tenha visão específica da profissão e um grau de sentimento e cultura que complete essa visão, gosta de ter na sua equipa. Jurgen Klopp, então treinador do Liverpool, olhou Diogo Jota e viu que havia ali qualquer coisa e foi buscá-lo aos Wolves para o incluir na sua equipa, uma das mais prestigiadas do mundo.

«Agora, face à terrível morte, não deixou de dizer: « Deve haver um propósito maior, mas não consigo vê-lo».

Diogo Jota não era um jogador de levantar estádios, mas a emoção que a sua morte gerou, espalhou-se largamente, mesmo naqueles que não gostam de futebol, e fez ressaltar, dito por colegas de equipa, adversários, treinadores, dirigentes, que era um jovem que gostava mesmo do que fazia, não se preocupava quando não entrava de início nos jogos, nem fazia má cara quando era substituído, um rapaz humilde, que fugia dos holofotes, que subiu a pulso nas equipas por onde andou, daquelas pessoas que nunca se esquecem.

Morreu jovem, deixa uma enorme angústia nos familiares, principalmente nos pais, na mulher e nos seus três filhos menores. Há um vídeo arrepiante, e comovente, que o mostra, antes de um jogo em Anfield Road, a trocar bolas com o filho mais velho, com o mais novo por perto, todos com a camisola 20 do Liverpool

Os Oasis, que até são adeptos do City, que se reuniram ao fim de 6 anos, deram um concerto em Cardiff, e quando estão a cantar «Live Forever», projectaram nos écrans uma imagem do Diogo Jota.

O tapete de flores, bandeiras e cachecóis, que os adeptos do Liverpool estenderam nos jardins em redor do estádio, é um reflexo da dedicação, do gosto que nutriam por Diogo Jota, um rapaz de Portugal.

Foram os ingleses que inventaram o futebol, têm um enorme respeito por ele e chamam-lhe «The Beautiful Game.»

Não é impunemente que os adeptos do Liverpool, tomaram uma velha canção dos anos 60, You’ll Necer Walk Alone, composta por Richard Rodgers e Oscar Hammerstein II para o musical da Broadway Carousel, de 1945 que, em 1956, foi adaptado ao cinema por Henry King, mas seria com a versão de Gerry &The Pacemaker, conjunto oriundo da própria cidade, se tornaria o hino do clube.

Nunca caminharás sozinho!


sábado, 5 de julho de 2025

CONVERSANDO


 As vidas de cada vida são tantas, tantas, que é impossível que se possa dizer que este ou aquele, são livros de uma vida.

Peguei há dias em O Estrangeiro do Albert Camus e poderia dizer que é o livro de uma vida. Não digo. Mas é um grande livro. Sujeito a uma série larga de leituras – quantas vezes o João Bénard da Costa viu o Johnny Guitar? - o livro tem um milhão de sublinhados, mas a minha atenção de agora fixou-se na frase:

«… a partir desse dia senti que a minha casa era a minha cela, e que a vida parava ali.»

Meursault estava preso porque, a seguir à morte da mãe num asilo de velhos, matara um árabe.

Donde partiu esta minha atracção pelas casas?

Só pode ter sido naquele poema do Ruy Belo

«Oh as casas as casas as casas
as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro»

A tal ponto que arranjei uma etiqueta para casas e fui lá colocando o que sobre casas ia encontrando. Passei por lá os olhos e trago-vos algumas leituras, a maior parte são versos de poemas e acabo de ler no João Miguel Fernandes Jorge que «um verso fora do poema não deve despertar qualquer interesse.»

Nada se passa por detrás das janelas desde que deixámos de estar por detrás delas.

Palavras encontradas em Alexandre O’Neill

 … a primeira estrela é como a última casa.

Rainer Maria Rilke

A minha casa é onde estás.

José Agostinho Baptista

O importante não é a casa onde moramos, mas onde, em nós a casa mora.

Mia Couto

Habitamos
uma casa quando
a sombra dos nossos gestos
fica mesmo depois
de fecharmos a porta.

Margarida Ferra

Acho que quando for grande nunca vou conseguir encontrar o caminho para casa.

Autor desconhecido

Também nós não voltaremos à mesma casa.

Manuel S. Fonseca

sexta-feira, 4 de julho de 2025

A ESTAÇÃO IMPOSÍVEL

O poema exprime-se em frases entrecortadas

linhas da corrente, irrisórias explosões

mas espera qualquer coisa

suficientemente brilhante

qualquer coisa

para lá dos caudais escoados

que no alto erga

a estação impossível

esse momento em que a língua dos homens

não possa mais mentir

José Tolentino Mendonça

quinta-feira, 3 de julho de 2025

DIOGO JOTA (1996-2025)


Num trágico acidente de automóvel, morreu o internacional português Diogo Jota.

Com ele seguia o irmão André Silva, que jogava no Penafiel.

O Liverpool vai eternizar Diogo Jota, guardando para sempre o número 20 que o português envergava.

Muitos adeptos do clube inglês pediram publicamente para que o número fosse retirado e mais nenhum jogador envergasse aquela camisola.

Os adeptos do Liverpool, não só pelas qualidades futebolísticas, gostavam de Diogo Jogo e, em teempos fizeram-lhe uma canção.



PRIMAVERA


                           A João José Cochofel

Rescendem de aroma os montes

E entre rosas e balidos,

Cantam líricas as fontes.

E outros tantos sentidos

Do alvoroço dos sexos

Espalham-se no ar perplexos.

 

Agora que o tempo abre

Não há festa de mais festa

Do que ser flor ou ser ave:

Ser a cor e o chilreio

Onde o céu se manifesta,

Donde a poesia me veio.

 

E os deuses que andaram cá

Bem souberam o que há:

Pois se o caule se abraça a hera

Queres que abrace ninguém?

Como a terra é esposa e mãe,

Vem de noiva a primavera.

 

Mas, ai, flores, tudo flores,

Nas imagens dos altares,

Na poesia e nos amores

E nas pedras tumulares.

Flores me levem ao céu,

Na terra chorarei eu.

 

Sim, primavera da vida,

Quanta lágrima perdida

Anda debaixo de chão!

Flores, suor do meu rosto,

Espinhos me dão encosto,

Flores me negam o pão.

 

Flores, flores olorosas,

Ai, néctar de urnas discretas,

Cai a abelha de fadiga

No pólen, o pão das rosas,

E é esta sempre a cantiga

Que agrada ao mundo e aos poetas. 


Afonso Duarte em Ossadas

quarta-feira, 2 de julho de 2025

OLHAR AS CAPAS


As Máscaras Finais

Urbano Tavares Rodrigues

Capa: Luís Filipe de Abreu

Livraria Bertrand, Lisboa s/d

-Em que ano é que você anda?

- No terceiro… Não me interessa estudat, isto é, desta maneira… Já reprovei duas vezes.

- E o que é que lhe interessa?

- Tanta coisa! O cinema, o jazz, a praia… Gosto de me divertir, pois claro. Mas também gostava de fazer qualquer coisa que fosse útil, que se visse…

- O quê?

- Não sei. Podia tratar de crianças. Tenho jeito para isso, já experimentei. Mas a minha paixão, verdadeiramente, era ser actriz.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Os grandes livros terão que ser lidos mais do que uma vez.

E em cada leitura se descobre novos motivos de encantamento. Olhemos grande parte dos livros de José Saramago. Por exemplo: O Ano da Morte de Ricardo Reis, Ensaio Sobre a Cegueira, Manual de Pintura e Caligrafia, O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Memorial do Convento.

Peguemos em Memorial do Convento.

Teria uns sete anos quando os pais, numa excursão com vizinhos, o levaram até ao Convento de Mafra e o quanto a estátua de São Bartolomeu lhe chamou a atenção, ao ponto, de passados muitos anos, voltando a Mafra, olhando a estátua ter dito de si para si: «Um dia, gostava de poder meter isto num romance.»

Assim terá nascido Memorial do Convento.

«Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos.»

Para o caso, Memorial do Convento.

O sublinhado que aqui me trás, foi a releitura (página 169) da apresentação da Passarola a Domenico Scarlatti.

Para além do músico, entram o Padre Bartolomeu Lourenço, Baltazar, Blimunda e… cerejas.

“Na sua frente estava uma ave gigantesca, de asas abertas, cauda em leque, pescoço comprido, a cabeça ainda em tosco, por isso não se sabia se viria a ser falcão ou gaivota., É este o segredo, perguntou, Este é, até hoje de três pessoas, agora de quatro, aqui está Baltasar Sete-Sóis, e Blimunda não se demora, anda na horta. O italiano fez uma pequena vénia na direcção de Baltasar, que respondeu com outra mais profunda, ainda que inábil, sempre era ele o mecânico, e além disso estava sujo, enfarruscado da forja, em todo ele só brilhava o gancho, do muito e constante trabalho. Domenico Scarlatti aproximou-se da máquina, que se equilibrava sobre uns espeques laterais, pousou as mãos numa das asas como se ela fosse um teclado, e, singularmente, toda a ave vibrou apesar do seu grande peso, cavername de madeira, lamelas de ferro, vime entrançado, se houver forças que façam levantar isto, então ao homem nada é impossível, Estas asas são fixas, Assim é, Nenhuma ave pode voar sem bater as asas, A isso Baltasar responderia que basta ter forma de ave para voar, mas eu respondo que o segredo do voo não é nas asas que está, E esse segredo não o posso saber eu, Não posso dar mais que mostrar o que aqui se vê, Já isso basta para que eu agradeça, mas, havendo esta ave de voar, como sairá, se não cabe na porta.


Baltasar e o padre Bartolomeu Lourenço olharam-se perplexos, e depois para fora. Blimunda estava ali, com um cesto de cerejas, e respondia, Há um tempo para construir e um tempo para destruir, umas mãos assentaram as telhas deste telhado, outras o deitarão abaixo, e todas as paredes, se for preciso. Esta é que é Blimunda, disse o padre, Sete-Luas, acrescentou o músico. Ela tinha brincos de cerejas nas orelhas, trazia-as assim para se mostrar a Baltazar, e por isso foi para ele sorrindo e oferecendo o cesto.

(…)

Sentaram-se todos em redor da merenda, metendo a mão no cesto, à vez, sem outro resguardar de conveniências que não atropelar os dedos dos outros, agora o cepo que é a mão de Baltasar, cascosa, como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do padre Bartolomeu Lourenço, a mão exacta de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e maltratada, com as unhas sujas de quem veio da horta e andou a sachar antes de apanhar as cerejas. Todos eles atiram os caroços para o chão, el-rei


 que aqui estivesse faria o mesmo, é por pequenas coisas assim que se vê serem os homens realmente iguais. As cerejas são grossas, carnudas, algumas já vêm bicadas pelos pássaros, que cerejal haverá no céu para que também lá possa ir alimentar-se, chegando a hora, este outro pássaro que ainda não tem cabeça, porém se vier a ser de gaivota ou vulcão podem os anjos e os santos confiar que comerão as cerejas intactas, pois, como se sabe, aqueles são aves que desprezam o vegetal.

OS CICLISTAS

Com um surdo rumor de escavadora

ressoa no subsolo a tua voz.

Muitos tapam os ouvidos delicados.

Outros escondem-se para não ouvir.

E outros estremecem de pavor.

Mas, rápidos, os ciclistas pedalam

na bruma dos subúrbios ao teu encontro.

Rosto baixo, mãos no guiador, pés

bem firmes nos pedais, geram

o movimento, o ritmo alado

das máquinas frágeis que cavalgam

ao amanhecer. Perpassam como espectros

sob a bruma e juntam-se, confluem,

avançam como um rio poderoso

sobre a cidade adormecida.

Os ciclistas. Os que erguem os andaimes

e fazem girar os fusos dos teares.

Os que movem as gruas. Os que transportam

o dinamite nas mãos calosas.

Os que não sabem envelhecer de tédio

à mesa do café nem vivem de mercadejar

preservativos, palavras, casas pré-fabricadas.

Os que não sonham morrer em glória

como jovens deuses trespassados na batalha.

Os que não hão-de apodrecer, como muitos

de nós, roídos de lepra e desespero.

Esses merecem bem a tua voz, Orfeu.

Papiniano Carlos em O Desporto Na Poesia Portuguesa

 

terça-feira, 1 de julho de 2025

POSTAIS SEM SELO


Os poemas nunca estão terminados, estão meramente abandonados.

Paul Valéry

NOTÍCIAS DO CIRCO

A Federação Nacional de Professores estima que, neste ano lectivo, quase 1,4 milhões de alunos foram penalizados pela falta de docentes. As aulas no 1.° Ciclo e atividades do Pré-Escolar terminaram na última semana sem que o Governo divulgasse a prometida auditoria ao número de estudantes sem aulas.

O ministro da Educação, Ciência e Inovação reconheceu, esta terça-feira, que o Governo “não sabia que não sabia” o número de alunos sem aulas, mas sublinhou que será criado um novo sistema que permita medir com rigor o problema.

ATRÁS DA VELHA SÉ

(não trazer os limoeiros do jardim

de novo para o poema)

 

Lisboa já não é suficiente

faz-me falta um povoado sub-regional onde exista

precisamente este quarto musicado, sumido

entre a cal sobreposta dos séculos

 

lugar despojado, despido, eu tenho

fome de não comer, abater o que em mim arvora

permanecer sentado no sangue que cursa

a ribeira deste corpo e um dia secará

 

para que o gato sujo se aborreça

outra e outra vez sobre o muro, à sombra

dos limoeiros


Miguel-Manso

segunda-feira, 30 de junho de 2025

À LUPA


 A tarefa fotográfica tinha por finalidade o enquadrar uns barcos colocados no Tejo, não lembro para que acontecimento.

Eduardo Gageiro, a determinado tempo, fez por esquecer os tais barcos e barquinhos  e esgalhou uma das mais brilhantes fotografias que consegue mostrar a solidão do homem de Santa Comba, que, vindo de Coimbra, colocou a vida dos portugueses, durante perto de meio , num inferno.

Salazar passava alguns dias de férias no Forte de Santo António no Estoril onde, por uma manhã de Agosto, caiu de uma cadeira e iniciou o seu fim.

O calista Hilário preparava-se para fazer o seu trabalho e Salazar, com o Diário de Notícias na mão, sentou-se numa cadeira de lona.

Acabou por cair e bater com a cabeça nas pedras da esplanada do Forte.

Manuel Marques, barbeiro de Salazar disse aos jornalistas que Salazar tinha a mania de se sentar atirando-se para cima das cadeiras,

O poeta António Gedeão  contou o episódio aos filhos dos seus netos:

«Costumava o nosso homem, para descansar o corpo, e especialmente o cérebro, do assédio das preocupações da governação, sentar-se, olhando o mar, no isolamento pastosos de uma esplanada do forte de Santo António do Estoril, situado na linha das praias, a pouca distância de Lisboa. Aí, só, irremediavelmente só, aconchegava-se na cadeira de repouso, cerrava as pálpebras e dormitava na paz do Senhor, embalado pelo sussurro das águas.»

Mas a Lupa acabou a deslizar por um dos Bilhetes de Colares de Mr. A. B. Kotter:

«Oh Senhor professor, por amor de Deus, quem passava o verão no Forte em 1940 eram as meninas de Odivelas, indignou-se a fiel Margarida, quebrando a regra sagrada de não falar enquanto se serve à mesa. E, perdida por cem, perdida por mil, acrescentou: «Nessa altura não iam para a praia de maminhas ao léu.»

CANÇÃO DA MANHÃ

Como os estranhos pássaros nascidos em tua boca
como os rios que te correm entre os olhos
como   as   esmeraldas   que   formam   as   asas   dos   teus ombros
como os longos ramos da árvore de sono do teu braço
como o grande espaço em que o teu corpo repousa
deitado na tua própria mão
como a tua sombra idêntica à nuvem
que se encontra no mar

assim é a presença que de ti tenho
nas noites em que o fogo se acende
nas montanhas longínquas e fulgurantes
quando os meus passos me projetam
para os mais elevados cumes solitários
quando o sangue canta
através do aço vibrante do meu corpo
levando-me ao longo do caminho de flores rubras
que tu plantaste

assim é o desejo de te encontrar
nascida nas minhas mãos
erguida como torre de catedral perdida
envolta na minha boca
caminhando comigo
pela estrada que nossos pés abrirão     triunfantes

 

Mário-Henrique Leiria em Poesia

domingo, 29 de junho de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

António Vitorino: mais uma vez a dona Constança não vai à festança.

O socialista disse não estarem reunidas as condições para uma candidatura e que deve haver apenas um nome da área política a concorrer a Belém, numa altura em que António José Seguro  já avançou e Santos Silva começou a equacionar ser presidenciável.

Vitorino, ao longo dos tempos transformou-se um caso de estudo de oportunidade, de oportunismo.