Tenho a paixão de compreender os homens.
Jean-Paul Sartre
« O
Tribunal Russell, também conhecido como Tribunal Internacional de Crimes de
Guerra, foi uma iniciativa do filósofo Bertrand Russell para investigar e
julgar as ações dos Estados Unidos e seus aliados no contexto da Guerra do
Vietnã. O tribunal, formado em 1966, não tinha poder legal, mas buscava
denunciar crimes de guerra e mobilizar a opinião pública
internacional. Bertrand Russell, com o apoio de personalidades como
Jean-Paul Sartre e outros, buscou legitimar o tribunal através da participação
de figuras proeminentes de diversas áreas.»
Wikipédia
Sartre Por Ele Próprio
Francis Jeanson
Tradução: Vergílio Ferreira
Colecção Escritores
de Sempre nº 2
Portugália Editora,
Lisboa, Julho de 1965
Pode talvez ser-se do mesmo Partido, mas não se entrou nele pelas
mesmas razões.
As memórias que acomodamos no bolso de trás das calças.
E
lembrem-se: a vida é para ser sempre, sempre, celebrada.
O
Egito Gonçalves dizia que a felicidade não tem história.
Há algum tempo – pouco? muito?, não lembro – Marques Mendes entendeu que, face aos muitos problemas que Isaltino de Morais enfrentava na justiça, não poderia ser um candidato autárquico.
Era uma vergonha.
Onde a ética política que Sá Carneiro tão apreciava?
Isaltino não gostou, tornou-se independente e foi
sendo presidente da Câmara de Oeiras.
Aplicou-se a tal frase que o homem pode abotoar-se com
alguns tostões, mas deixa obra.
Hoje, o inenarrável personagem que é Luís Montenegro,
manda o PSD dar apoio, para as autárquicas de Outubro, ao independente Isaltino
de Morais.
Marques Mendes, candidato presidencial apoiado pelo
PSD, que pensará deste episódio montegrino?
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
Eugénio de Andrade em Poemas
Desconhece qual o motivo para uma coisa destas ter
acontecido.
Mário Castrim, onde quer que esteja, ter-se-á
perguntado:
«Mas o que terá passado pela cabeça da
moça?»
Um reolhar por memórias.
(Texto publicado em 30 de Dezembro de 2020)
LISBOA AO VOO DO PÁSSARO
Quando há dias Mr. Ié-Ié colocou por aqui
a fotografia da placa, que num edifício em Lisboa, nos diz que ali viveu
Luis de Sttau Monteiro, ficou à conversa com JC a lembrar um escritor que caiu
no completo esquecimento.
Contou então que fora na “Livraria Anglo-Americana,” ali no Cais do Sodré, Rua
Bernardino Costa, 32, Lisboa 2 – Telefone 327703, que comprara a
edição-fora-do-mercado de “Terra Santa”, que valeu a Sttau Monteiro uns tempos
passados em Caxias.
7 de Abril de 1967
O Magalhães Godinho, esta tarde:
O Supremo Tribunal de Justiça negou, por unanimidade o “Habeas Corpus” ao Sttau
Monteiro.
E com voz nítida e articulada, para o futuro ouvir bem, repetiu:
- POR UNANIMIDADE.
A palavra “unanimidade” ainda conseguiu assombrar o grupinho…
Nem um, ao menos? Nem um juiz, ao menos?
José Gomes Ferreira em “Dias Comuns”, Vol. II
Eduardo Olímpio, alentejano de Santiago do Cacém, não teve lições de livros
doirados, nasceu entre as dobras de ventos e trigos mas nunca traiu os amigos,
como diz numa canção de que é autor, ou “um cavalo de perder corridas” como
gostava de se chamar, foi, até ao seu encerramento, empregado da “Livraria
Anglo-Americana”.
Com ele estabeleceu laços de amizade e cumplicidade. Quando certos livros
chegavam à livraria, e ele sabia que não tardaria muito que a PIDE por lá
passasse para os apreender, guardava um exemplar. Sabia o que esta casa
gastava.
Gratas recordações. Conversas sem fim.
Pena a “Zarzuela” não
ter um bagaço decente para acompanhar a bica enquanto se olham as raparigas, dizia o Eduardo já com a cara a avermelhar.
Ao Lado da “Anglo-Americana” havia a Pastelaria “Caneças”. Tempos depois do 25
de Abril, a “Caneças” transformou-se em Boutique do Pão e mais tarde amplia as
suas instalações comprando a “Anglo-Americana", onde se vendia um outro
tipo de pão.
Um pão vale mais que um Shakespeare?
Alguém a murmurar: words words, words…
Em redor da “Anglo-Americana” havia todo um mundo daquilo que todos chamavam
porta-aviões.
A barra mansa do “British-Bar”, o velho “English-Bar”, quase um clube inglês
daqueles dos romances policiais, hoje está lá uma cervejaria, do outro lado da
rua o “Bar Americano” onde o José Cardoso Pires se sentava em silêncio, copo de
whisky sobre a mesa e, ao lado, o “Califórnia”, café, restaurante, bilhares na
cave, também barbeiro e manicure, kioske de jornais e revistas e o António, ao findar-da-tarde-quase-noite,
a fritar uns “pregos”, carregados de alhos, ovo a cavalo, fininhos com dois
dedos de espuma.
E se ele um dia perde a memória de tudo isto?
Não quer pensar nisso, chega à janela das traseiras e grita: – “Oh Incas, oh
incas, oh sol d’Asía!”.
PS - O título do “post” é roubado ao Mário-Henrique Leiria, a fotografia é
tirada, num dia cinzento, por um incrível caixote Kodak, máquina que deixou
numa qualquer mesa, num qualquer balcão. A “Anglo-Americana” é naquela esquina
onde se pode ver um reclame aos cigarros “Chesterfield”.
Antonio Cabral
Portugal, Brasil
Sociedade Editora, 1916
Eça de Queiroz é um dos escriptores portugueses sobre quem mais
duramente, e nem sempre com inteira justiça, tem passado a acusação de plagiário.
Algumas vezes o romancista se deixou influenciar muito de perto e em demasia
por outros auctores? É certo. Mas quem há ahi – repita-se ainda -, no vastíssimo
campo das letras, que possa, com verdade, gloriar-se de nunca ter pousado o se
pé na «pégada que deixaram outros?» Não é verdade que a luz refulgente dos
grandes astros, os máximos, da literatura de todo o mundo, nos seus variados
ramos, da poesia ao romance, da tragedia ao conto, da historia à crítica, tem
sido diminuída pela mais intensa luz de outros astros, por vezes da escala
inferior?
Quietos fazemos as
grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas
lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo
não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias
só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo
mas isso foi depois
muito depois
repito
José Tolentino Mendonça
O Notícias da
Amadora, juntamente com o Jornal do
Fundão, e o Comércio do Funchal,
foram bastiões regionais contra a ditadura que caiu a 25 de Abril de 1974
O semanário publicou-se desde 25 de Outubro de 1958
até Dezembro de 2006.
A censura nunca o deitou abaixo, o que levou ao seu
fim foi a crise económica que tem vindo a destruir a imprensa escrita.
A censura sempre foi implacável com o semanário.
Em 2001 foram publicados diversos suplementos em que
se mostrava o quanto a censura invadiu
as prosas que se queriam publicadas e amiúde eram cortadas, parcial ou
totalmente.
Um extraordinário e importante espólio que pode ser
consultado na Torre do Tombo.
Hoje, publicanos um artigo de Vitor Silva Tavares,
totalmente cortado pela censura:
Lamine Yamal é um jogador espanhol, de 18 anos, actua no Barcelona, aufere um ordenado anual de 15 milhões de euros, reuniu, na recente festa de aniversário, realizada numa quinta, nos arredores de Barcelona, 250 convidados, e contratou anões e prostitutas para animarem a festa.
A Associação de Pessoas com Acondroplasia e Outras Displasias
Esqueléticas com Nanismo critica fortemente o jogador do Barcelona.
Um dos anões contratados para o espectáculo dentro da
festa, defendeu o seu trabalho e adiantou:
«Ninguém nos faltou ao respeito,
deixem-nos trabalhar em paz. Não percebo porque é que há tanto alarido. Somos
pessoas normais que fazem o que querem fazer de uma forma absolutamente legal».
A notícia apenas fala dos anões.
As prostitutas não receberam críticas e não se
pronunciaram.
Segundo o jornal A Marca, o governo espanhol pediu ao Ministério Público para investigar a festa.
Tempo de solidão e de
incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação
Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão
Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça
Sophia de Mello Breyner Andresen
As Pombas São Vermelhas
Urbano Tavares
Rodrigues
Introdução de Jorge
Correia Jesuíno
Colecçao: Livro de
Bolso Europa-América nº 427
Publicações
Europa-América, Lisboa 1985
A Revolução é uma exaltação, a mais pura, entre dois tempos. Amigos, façamos que ela dure, que se aprofunde, que não se corrompa. Eu sei que é difícil. Mas sei que atingiremos, com o nosso saco às costas, pleno de erros e decepções, a margem certa e segura de uma existência mais humana. E isso, afinal, por pouco que a alguns se afigure, vale bem a aposta: a nossa vida.
«Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel e formalmente acusado pelo
Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e contra a humanidade,
decidiu indicar Donald J. Trump ao Prêmio Nobel da Paz. Sim : o homem que
lidera uma campanha militar responsável por mais de 55 mil mortes em Gaza,
acredita que o presidente norte-americano — condenado por 34 crimes e
investigado por tentativa de subversão eleitoral — é hoje um símbolo global de
fraternidade entre as nações.»
O que faço na memória de um degelo de rios, quando
as águas caem sobre as
águas, sob a espuma redundante
de ideias brancas? Aqui
me afundo até ao próprio
fundo de mim próprio,
aqui onde os gestos humanos
da despedida e do amor
não têm outro sentido
além do que nasce das
próprias águas: efémeros,
como o tempo, e como o
tempo presos ao que, cada um de nós,
ignora do outro. Acendo
cigarros nos cigarros,
respirando o fumo
húmido das origens, vigiando
a transparência que se
desfaz no intervalo das folhas,
quando o vento as
empurra para a estrada, pergunto
de onde vem a minha
saudade de ti, e até onde
vai o meu desejo de te
ouvir, de novo, à minha frente,
enquanto as horas
passam como se não tivessem de passar,
e os teus lábios bebem
todo o tempo da minha vida. Como
se o desejo não se
esgotasse, também ele, como
estas águas que acabam
em cada instante em que se renovam,
trazendo as chuvas
eternas do norte para dentro de poços
sem fundo, até ao fundo
dos lagos mais subterrâneos,
puxando com a sua negra
densidade os meus
impulsos de treva: cama
obscura para onde desço
quando adormeço. Mas
tu, com os teus braços de raiz aérea,
puxas-me para esse cimo
de montanha onde o silêncio
se transforma em sílaba
- a sílaba inicial
do mundo, a
interrogação do gesto nascente de todas as
origens, o soluço de um
suicídio de murmúrios,
percorrida pela única
percepção inútil: a da vida
que se esvai no
instante do amor. E encostamo-nos à pedra
abstracta do horizonte,
a que nos deixou sem voz quando
as grutas do litoral se
abriram; para que a pedra nos beba,
gota a gota, todo o
sangue. Então, é nas suas veias
que correm as nossas
pulsações. E afastamo-nos, devagar,
para que a terra viva
através de nós
uma existência
puramente interior, despida
do fulgor animal das
manhãs. Sentamo-nos
no mais longínquo dos
quartos, de janelas fechadas, e
abraçamo-nos com o
rumor de primaveras clandestinas,
com o inverno nos
olhos.
Nuno Júdice
«Nos (prováveis) 500
anos do seu nascimento, pouco se sabe da vida do poeta nacional. Mas é certo
que escreveu Os Lusíadas e alguns dos mais assombrosos poemas da lírica
portuguesa. Deveria bastar.»
Luís
Miguel Gaspar no Público de 9 de Junho
Legenda:
ilustração de Susa Monteiro
Essa História
António Salvado
Capa: Henrique
Cayatte sobre versão de João da Câmara Leme
Colecção Poetas
de Hoje
Portugália
Editora Junho de 2008
É Então
A vinda do crepúsculo
nunca sabe que a sombra
surgirá como seu véu
tecido pelos astros
a encurtarem
dóceis
a entre nós distância
e o ignoto infinito.
É Então que se vê
o que as estrelas dizem:
que o infinito tem
a extensão do amor.
Viver é enganarmo-nos sobre pessoas.
Tu cá, tu lá com a Cidália.
Os mortos não sofrem, sofrem os que cá ficam.
O diabo está nos detalhes.
Há peão p’rá bola.
Todo o unanimismo é burro.
Saber de onde se vem, saber para onde se vai.
O infinito tem a extensão do amor.
Sempre
aqueles versos dum poema de Ruy Belo: «uma casa é a coisa mais séria da vida»
Ou
João Miguel Fernandes Jorge: «a casa é onde temos o coração».
Ou Emily Dickinson, «uma casa mais justa que a prosa».
Também um qualquer vagabundo:
«A rua é a casa de todos».
Por que não Vinicius de Moraes e Toquinho?
«Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada
Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão
Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede
Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali
Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos, número zero»
Legenda: ilustração de André Bolino
Em
miúdo pensava muito, não eram sonhos, porque não me lembro de sonhar, com
barcos, comboios, aviões, moinhos de vento.
Duvido
que coisas destas façam, hoje em dia, pensar um único miúdo.
Durante
muito tempo fui guardando, num caderno, palavras, poemas, fotografias de barcos,
comboios, aviões, moinhos de vento.
Como
este poema de Gastão Cruz publicado no
nº 5, Fevereiro de 1960, dos Cadernos do Meio-Dia, coordenação do
António Ramos Rosa:
Erguem-se os braços
como velas altas
como um comboio que
largasse a linha
e fosse perseguido
alucinado
Sobem os braços nos
outonos verdes
nas primaveras em que a
folha cai
Braços com mar por
dentro
e sol por fora
que nadam na vida
sem redes nem areia
e são pontes de todos
os espaços
Braços ontem
nas tardes de hoje e
noites de amanhã
«Ser um famoso jogador da bola não é um exemplo para a sociedade, é um jogo com uma bola. Os heróis estão no SNS, nas escolas, nos bombeiros, na polícia, na luta cívica e política pelos mais desfavorecidos em todo o mundo, nos ucranianos que vão para a linha da frente, por causa de uma guerra que é contra toda a Europa, está nos que fazem frente à tirania de Trump, arriscando ficar esquecidos numa prisão de El Salvador... Estes são os verdadeiros heróis. Mas, se a mensagem que mandamos aos novos e já não tão novos é a de que ser um herói é ser um futebolista de topo, milionário, e alugar um carro superdesportivo e conduzi-lo a altíssima velocidade, então depois não se queixem do mundo de esterco que estamos a construir para os nossos filhos.
(…)
20.000 crianças que morreram na
Palestina com a cumplicidade de todos nós, ou se preferirem aos 5.000.000 de
crianças com menos de 5 anos que morrem em todo o mundo, todos os anos, na sua
maioria de fome ou por mortes preveníveis ou tratáveis?»
«Depois de, em abril do ano passado, o Governo ter prometido aplicar um plano de 100 dias para a Saúde - completamente fracassado - a ministra Ana Paula Martins anuncia agora uma reorganização das urgências. Quem acredita nela?»
Pedro Tadeu
no Diário de Notícias