quinta-feira, 17 de julho de 2025

POSTAIS SEM SELO


Tenho a paixão de compreender os homens.

Jean-Paul Sartre

VELHOS RECORTES


O meu pai comprou o livro de Sartre, Março de 1967, num alfarrabista. Dentro encontrava-se este telex da «Reuters» sobre as audiências do tribunal sobre os crimes cometidos pelos americanos no Vietnam.

« O Tribunal Russell, também conhecido como Tribunal Internacional de Crimes de Guerra, foi uma iniciativa do filósofo Bertrand Russell para investigar e julgar as ações dos Estados Unidos e seus aliados no contexto da Guerra do Vietnã. O tribunal, formado em 1966, não tinha poder legal, mas buscava denunciar crimes de guerra e mobilizar a opinião pública internacional. Bertrand Russell, com o apoio de personalidades como Jean-Paul Sartre e outros, buscou legitimar o tribunal através da participação de figuras proeminentes de diversas áreas.»

Wikipédia

OLHAR AS CAPAS


Sartre Por Ele Próprio

Francis Jeanson

Tradução: Vergílio Ferreira

Colecção Escritores de Sempre nº 2

Portugália Editora, Lisboa, Julho de 1965

Pode talvez ser-se do mesmo Partido, mas não se entrou nele pelas mesmas razões.

CONVERSANDO

As memórias que acomodamos no bolso de trás das calças.

E lembrem-se: a vida é para ser sempre, sempre, celebrada.

O Egito Gonçalves dizia que a felicidade não tem história.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Há algum tempo – pouco? muito?, não lembro – Marques Mendes entendeu que, face aos muitos problemas que Isaltino de Morais enfrentava na justiça, não poderia ser um candidato autárquico. 

Era uma vergonha. 

Onde a ética política que Sá Carneiro tão apreciava?

Isaltino não gostou, tornou-se independente e foi sendo presidente da Câmara de Oeiras.

Aplicou-se a tal frase que o homem pode abotoar-se com alguns tostões, mas deixa obra.

Hoje, o inenarrável personagem que é Luís Montenegro, manda o PSD dar apoio, para as autárquicas de Outubro, ao independente Isaltino de Morais.

Marques Mendes, candidato presidencial apoiado pelo PSD, que pensará deste episódio montegrino?

AS PALAVRAS

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

 

Eugénio de Andrade em Poemas

quarta-feira, 16 de julho de 2025

POSTAIS SEM SELO


Dê a cada dia a possibilidade de ser o melhor dia da sua vida.

Mark Twain

À LUPA


 Leu, com espanto, que Alice Vieira está na Comissão de Honra da candidatura de Marques Mendes à presidência da república.

Desconhece qual o motivo para uma coisa destas ter acontecido.

Mário Castrim, onde quer que esteja, ter-se-á perguntado:

«Mas o que terá passado pela cabeça da moça?»

REOLHARES

Um reolhar por memórias.

(Texto publicado em 30 de Dezembro de 2020)


LISBOA AO VOO DO PÁSSARO


Quando há dias Mr. Ié-Ié colocou por aqui a fotografia da placa, que num edifício em Lisboa, nos diz que ali viveu Luis de Sttau Monteiro, ficou à conversa com JC a lembrar um escritor que caiu no completo esquecimento.

Contou então que fora na “Livraria Anglo-Americana,” ali no Cais do Sodré, Rua Bernardino Costa, 32, Lisboa 2 – Telefone 327703, que comprara a edição-fora-do-mercado de “Terra Santa”, que valeu a Sttau Monteiro uns tempos passados em Caxias.

7 de Abril de 1967

O Magalhães Godinho, esta tarde:

O Supremo Tribunal de Justiça negou, por unanimidade o “Habeas Corpus” ao Sttau Monteiro.

E com voz nítida e articulada, para o futuro ouvir bem, repetiu:

- POR UNANIMIDADE.

A palavra “unanimidade” ainda conseguiu assombrar o grupinho…

Nem um, ao menos? Nem um juiz, ao menos?

José Gomes Ferreira em “Dias Comuns”, Vol. II

Eduardo Olímpio, alentejano de Santiago do Cacém, não teve lições de livros doirados, nasceu entre as dobras de ventos e trigos mas nunca traiu os amigos, como diz numa canção de que é autor, ou “um cavalo de perder corridas” como gostava de se chamar, foi, até ao seu encerramento, empregado da “Livraria Anglo-Americana”.

Com ele estabeleceu laços de amizade e cumplicidade. Quando certos livros chegavam à livraria, e ele sabia que não tardaria muito que a PIDE por lá passasse para os apreender, guardava um exemplar. Sabia o que esta casa gastava.

Gratas recordações. Conversas sem fim. 

Pena a “Zarzuela” não ter um bagaço decente para acompanhar a bica enquanto se olham as raparigas, dizia o Eduardo já com a cara a avermelhar.

Ao Lado da “Anglo-Americana” havia a Pastelaria “Caneças”. Tempos depois do 25 de Abril, a “Caneças” transformou-se em Boutique do Pão e mais tarde amplia as suas instalações comprando a “Anglo-Americana", onde se vendia um outro tipo de pão.

Um pão vale mais que um Shakespeare?

Alguém a murmurar: words words, words…

Em redor da “Anglo-Americana” havia todo um mundo daquilo que todos chamavam porta-aviões.

A barra mansa do “British-Bar”, o velho “English-Bar”, quase um clube inglês daqueles dos romances policiais, hoje está lá uma cervejaria, do outro lado da rua o “Bar Americano” onde o José Cardoso Pires se sentava em silêncio, copo de whisky sobre a mesa e, ao lado, o “Califórnia”, café, restaurante, bilhares na cave, também barbeiro e manicure, kioske de jornais e revistas e o António, ao findar-da-tarde-quase-noite, a fritar uns “pregos”, carregados de alhos, ovo a cavalo, fininhos com dois dedos de espuma.

E se ele um dia perde a memória de tudo isto?

Não quer pensar nisso, chega à janela das traseiras e grita: – “Oh Incas, oh incas, oh sol d’Asía!”.

PS - O título do “post” é roubado ao Mário-Henrique Leiria, a fotografia é tirada, num dia cinzento, por um incrível caixote Kodak, máquina que deixou numa qualquer mesa, num qualquer balcão. A “Anglo-Americana” é naquela esquina onde se pode ver um reclame aos cigarros “Chesterfield”.

OLHAR AS CAPAS


Eça de Queiroz

Antonio Cabral

Portugal, Brasil Sociedade Editora, 1916

Eça de Queiroz é um dos escriptores portugueses sobre quem mais duramente, e nem sempre com inteira justiça, tem passado a acusação de plagiário. Algumas vezes o romancista se deixou influenciar muito de perto e em demasia por outros auctores? É certo. Mas quem há ahi – repita-se ainda -, no vastíssimo campo das letras, que possa, com verdade, gloriar-se de nunca ter pousado o se pé na «pégada que deixaram outros?» Não é verdade que a luz refulgente dos grandes astros, os máximos, da literatura de todo o mundo, nos seus variados ramos, da poesia ao romance, da tragedia ao conto, da historia à crítica, tem sido diminuída pela mais intensa luz de outros astros, por vezes da escala inferior?



TRAVESSIA DA INFÂNCIA

Quietos fazemos as grandes viagens
só a alma convive com as paragens
estranhas

lembro-me de uma janela
na Travessa da Infância
onde seguindo o rumor dos autocarros
olhei pela primeira vez
o mundo

não sei se poderás adivinhar
a secreta glória que senti
por esses dias

só mais tarde descobri que
o último apeadeiro de todos
os autocarros
era ainda antes
do mundo

mas isso foi depois
muito depois
repito


José Tolentino Mendonça

terça-feira, 15 de julho de 2025

VELHOS RECORTES


O Notícias da Amadora, juntamente com o Jornal do Fundão, e o Comércio do Funchal, foram bastiões regionais contra a ditadura que caiu a 25 de Abril de 1974

O semanário publicou-se desde 25 de Outubro de 1958 até Dezembro de 2006.

A censura nunca o deitou abaixo, o que levou ao seu fim foi a crise económica que tem vindo a destruir a imprensa escrita.

A censura sempre foi implacável com o semanário.

Em 2001 foram publicados diversos suplementos em que se  mostrava o quanto a censura invadiu as prosas que se queriam publicadas e amiúde eram cortadas, parcial ou totalmente.

Um extraordinário e importante espólio que pode ser consultado na Torre do Tombo.

Hoje, publicanos um artigo de Vitor Silva Tavares, totalmente cortado pela censura:

À LUPA


Lamine Yamal é um jogador espanhol, de 18 anos, actua no Barcelona, aufere um ordenado anual de 15 milhões de euros, reuniu,  na recente festa de aniversário, realizada numa quinta, nos arredores de Barcelona, 250 convidados, e contratou anões e prostitutas para animarem a festa.

A Associação de Pessoas com Acondroplasia e Outras Displasias Esqueléticas com Nanismo critica fortemente o jogador do Barcelona.

Um dos anões contratados para o espectáculo dentro da festa, defendeu o seu trabalho e adiantou:

«Ninguém nos faltou ao respeito, deixem-nos trabalhar em paz. Não percebo porque é que há tanto alarido. Somos pessoas normais que fazem o que querem fazer de uma forma absolutamente legal».

A notícia apenas fala dos anões.

As prostitutas não receberam críticas e não se pronunciaram.

Segundo o jornal A Marca, o governo espanhol pediu ao Ministério Público para investigar a festa. 

DATA

Tempo de solidão e de incerteza
Tempo de medo e tempo de traição
Tempo de injustiça e de vileza
Tempo de negação

Tempo de covardia e tempo de ira
Tempo de mascarada e de mentira
Tempo de escravidão

Tempo dos coniventes sem cadastro
Tempo de silêncio e de mordaça
Tempo onde o sangue não tem rasto
Tempo da ameaça

Sophia de Mello Breyner Andresen

segunda-feira, 14 de julho de 2025

OLHAR AS CAPAS

As Pombas São Vermelhas

Urbano Tavares Rodrigues

Introdução de Jorge Correia Jesuíno

Colecçao: Livro de Bolso Europa-América nº 427

Publicações Europa-América, Lisboa 1985

A Revolução é uma exaltação, a mais pura, entre dois tempos. Amigos, façamos que ela dure, que se aprofunde, que não se corrompa. Eu sei que é difícil. Mas sei que atingiremos, com o nosso saco às costas, pleno de erros e decepções, a margem certa e segura de uma existência mais humana. E isso, afinal, por pouco que a alguns se afigure, vale bem a aposta: a nossa vida.

TRUMPALHADAS

«Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel e formalmente acusado pelo Tribunal Penal Internacional por crimes de guerra e contra a humanidade, decidiu indicar Donald J. Trump ao Prêmio Nobel da Paz. Sim : o homem que lidera uma campanha militar responsável por mais de 55 mil mortes em Gaza, acredita que o presidente norte-americano — condenado por 34 crimes e investigado por tentativa de subversão eleitoral — é hoje um símbolo global de fraternidade entre as nações.»

Maria Pereira Guimarães no Público

TRABALHO DE CASA

 O que faço na memória de um degelo de rios, quando

as águas caem sobre as águas, sob a espuma redundante

de ideias brancas? Aqui me afundo até ao próprio

fundo de mim próprio, aqui onde os gestos humanos

da despedida e do amor não têm outro sentido

além do que nasce das próprias águas: efémeros,

como o tempo, e como o tempo presos ao que, cada um de nós,

ignora do outro. Acendo cigarros nos cigarros,

respirando o fumo húmido das origens, vigiando

a transparência que se desfaz no intervalo das folhas,

quando o vento as empurra para a estrada, pergunto

de onde vem a minha saudade de ti, e até onde

vai o meu desejo de te ouvir, de novo, à minha frente,

enquanto as horas passam como se não tivessem de passar,

e os teus lábios bebem todo o tempo da minha vida. Como

se o desejo não se esgotasse, também ele, como

estas águas que acabam em cada instante em que se renovam,

trazendo as chuvas eternas do norte para dentro de poços

sem fundo, até ao fundo dos lagos mais subterrâneos,

puxando com a sua negra densidade os meus

impulsos de treva: cama obscura para onde desço

quando adormeço. Mas tu, com os teus braços de raiz aérea,

puxas-me para esse cimo de montanha onde o silêncio

se transforma em sílaba - a sílaba inicial

do mundo, a interrogação do gesto nascente de todas as

origens, o soluço de um suicídio de murmúrios,

percorrida pela única percepção inútil: a da vida

que se esvai no instante do amor. E encostamo-nos à pedra

abstracta do horizonte, a que nos deixou sem voz quando

as grutas do litoral se abriram; para que a pedra nos beba,

gota a gota, todo o sangue. Então, é nas suas veias

que correm as nossas pulsações. E afastamo-nos, devagar,

para que a terra viva através de nós

uma existência puramente interior, despida

do fulgor animal das manhãs. Sentamo-nos

no mais longínquo dos quartos, de janelas fechadas, e

abraçamo-nos com o rumor de primaveras clandestinas,

com o inverno nos olhos.

 

Nuno Júdice

domingo, 13 de julho de 2025

À LUPA


«Nos (prováveis) 500 anos do seu nascimento, pouco se sabe da vida do poeta nacional. Mas é certo que escreveu Os Lusíadas e alguns dos mais assombrosos poemas da lírica portuguesa. Deveria bastar.»

Luís Miguel Gaspar no Público de 9 de Junho

Legenda: ilustração de Susa Monteiro

OLHAR AS CAPAS


Essa História

António Salvado

Capa: Henrique Cayatte sobre versão de João da Câmara Leme

Colecção Poetas de Hoje

Portugália Editora Junho de 2008

 

É Então

 

A vinda do crepúsculo

nunca sabe que a sombra

surgirá como seu véu

tecido pelos astros

a encurtarem    dóceis

a entre nós distância

e o ignoto infinito.

É Então que se vê

o que as estrelas dizem:

que o infinito tem

a extensão do amor.

FERNANDO GUIMARÃES (1928-2025)


 Morreu Fernando Guimarães, poeta e crítico.

DITOS & REDITOS


Viver é enganarmo-nos sobre pessoas.  

Tu cá, tu lá com a Cidália.

Os mortos não sofrem, sofrem os que cá ficam.

O diabo está nos detalhes.

Há peão p’rá bola.

Todo o unanimismo é burro.

Saber de onde se vem, saber para onde se vai.

O infinito tem a extensão do amor.

MÚSICA PELA MANHÃ


Sempre aqueles versos dum poema de Ruy Belo: «uma casa é a coisa mais séria da vida»

Ou João Miguel Fernandes Jorge: «a casa é onde temos o coração».

Ou Emily Dickinson, «uma casa mais justa que a prosa».

Também um qualquer vagabundo:

«A rua é a casa de todos».

Por que não Vinicius de Moraes e Toquinho?

«Era uma casa muito engraçada
Não tinha tecto, não tinha nada

Ninguém podia entrar nela, não
Porque na casa não tinha chão

Ninguém podia dormir na rede
Porque na casa não tinha parede

Ninguém podia fazer pipi
Porque penico não tinha ali

Mas era feita com muito esmero
Na rua dos Bobos, número zero»

 

Legenda: ilustração de André Bolino

sábado, 12 de julho de 2025

CONVERSANDO


Em miúdo pensava muito, não eram sonhos, porque não me lembro de sonhar, com barcos, comboios, aviões, moinhos de vento.

Duvido que coisas destas façam, hoje em dia, pensar um único miúdo.

Durante muito tempo fui guardando, num caderno, palavras, poemas, fotografias de barcos, comboios, aviões, moinhos de vento.

Como este poema de Gastão Cruz publicado  no nº 5, Fevereiro de 1960, dos Cadernos do Meio-Dia, coordenação do António Ramos Rosa:

 

Erguem-se os braços como velas altas

como um comboio que largasse a linha

e fosse perseguido alucinado

 

Sobem os braços nos outonos verdes

nas primaveras em que a folha cai

 

Braços com mar por dentro

e sol por fora

que nadam na vida

sem redes nem areia

e são pontes de todos os espaços

 

Braços ontem

nas tardes de hoje e noites de amanhã

À LUPA

«Ser um famoso jogador da bola não é um exemplo para a sociedade, é um jogo com uma bola. Os heróis estão no SNS, nas escolas, nos bombeiros, na polícia, na luta cívica e política pelos mais desfavorecidos em todo o mundo, nos ucranianos que vão para a linha da frente, por causa de uma guerra que é contra toda a Europa, está nos que fazem frente à tirania de Trump, arriscando ficar esquecidos numa prisão de El Salvador... Estes são os verdadeiros heróis. Mas, se a mensagem que mandamos aos novos e já não tão novos é a de que ser um herói é ser um futebolista de topo, milionário, e alugar um carro superdesportivo e conduzi-lo a altíssima velocidade, então depois não se queixem do mundo de esterco que estamos a construir para os nossos filhos.

(…)

20.000 crianças que morreram na Palestina com a cumplicidade de todos nós, ou se preferirem aos 5.000.000 de crianças com menos de 5 anos que morrem em todo o mundo, todos os anos, na sua maioria de fome ou por mortes preveníveis ou tratáveis?»

Gustavo Carona no Público

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Depois de, em abril do ano passado, o Governo ter prometido aplicar um plano de 100 dias para a Saúde - completamente fracassado - a ministra Ana Paula Martins anuncia agora uma reorganização das urgências. Quem acredita nela?»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias