quarta-feira, 17 de setembro de 2025

À LUPA

A Lupa, por vezes, perde-se e nem sempre abrange o que vale a pena referir.

 Desconheço se os responsáveis editoriais das televisões noticiaristas: SIC, RTP 3, CNN, CMTV, NOW, peregrinam até Fátima, ou se andam de avental pelas salas das maçonarias.

Mas, muito regularmente, têm uma sorte levada da breca: o elevador da Glória que perdeu os freios e provocou uma tragédia; as próximas eleições autárquicas, a ainda distante eleição presidencial em que o presidente «daquela coisa», anunciando a sua candidatura, seria a estrela da noite, mas os deuses contrariaram-no e o colapso de Bruno Lage, à frente da equipa de futebol do Benfica, estragou-lhe a festa circense, e os tudólogos, os sabe-tudo, invadiram, madrugada dentro, os écrans e apenas se falou de futebol.

NOTÍCIAS DO CIRCO


O Luís continua a trabalhar.

O anteprojeto de reforma da legislação laboral aprovado pelo Governo, que será negociado com os parceiros sociais, prevê a revisão de “mais de uma centena” de artigos do Código de Trabalho e já foi contestada pelas centrais sindicais.

As alterações previstas na proposta - designada "Trabalho XXI" e que o Governo apresentou em 24 de Julho como uma revisão “profunda” da legislação laboral - visam desde a área da parentalidade (com alterações nas licenças parentais, amamentação e luto gestacional) ao trabalho flexível, formação nas empresas ou período experimental dos contratos de trabalho, prevendo ainda um alargamento dos setores que passam a estar abrangidos por serviços mínimos em caso de greve.

ROBERT REDFORD (1936-2025)


Morreu o actor e realizador Robert Redford.

As memórias que continuam a desvanecer. Já muito poucas restam.

FIM DO SÉCULO

Já só o encantamento de ti resta

no verso em que soubeste transportar

a luz desaparecida de uma festa

para a amargura acesa de um olhar.

 

O século que finda já nos deu,

para além das palavras mais vazias,

a estrela d’alva aonde morre o céu

em vãs constelações, por demais frias.

 

Manhã se diz a treva iluminada

que ri no limiar do pensamento,

como se à terra nua e devastada

coubesse o culminar do firmamento.

 

Como um deus que se esconde na folhagem,

o vão poeta nasce desta imagem.

 

Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos

terça-feira, 16 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Não falar a língua é a primeira janela virada para a solidão, confirma o austríaco Billy Wilder que tanto havia de filmar Marilyn: olhos, lábios, seios, nádegas e pernas, e nunca por esta ordem, reconhecendo ao corpo dessa extraordinária mulher uma solidão que mais ninguém tão bem lhe reconheceu.

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra 

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO


 «Nada nem ninguém parece capaz de impedir o Governo de Benjamin Netanyahu de avançar sobre a Cidade de Gaza, nem mesmo a confirmação pelas Nações Unidas, através de um relatório publicado esta terça-feira, de que aquilo que parece um genocídio é mesmo um genocídio cometido por Israel contra o povo palestiniano na Faixa de Gaza.»

«O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, garantiu que Israel “não cederá e nem recuará – até à conclusão da missão”. Uma missão que cada vez mais se confunde com a destruição total das infra-estruturas de Gaza de tal forma que a vida seja insustentável. Katz, qual Nero perante o incêndio de Roma, escreveu na rede social X: “Gaza está a arder”.»

António Rodrigues no Público

PAIXÃO

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos
situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos
erguer entre eles uma parede e abrir
depois caminho à água.

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia
de súbito em profundas minas, a memória
das suas mais lonquínquas galerias
extrai aquilo de que é feito o coração.

Ficávamos no quarto, onde por vezes
o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior
paixão que pelo coração se chega à pele.
Não há então entre eles nenhum desnível.

Luís Miguel Nava em Poesia

segunda-feira, 15 de setembro de 2025

À LUPA


O CDS estava morto. 

Faltava ser enterrado. 

Luís Montenegro, para os seus objectivos, para os seus fins, necessitava de uma muleta e foi buscá-los ao Largo do Caldas.

Como alguma direita nunca gostou do 25 de Abril, trataram de reinventar o 25 de Novembro e Montenegro colocou Nuno Melo à frente dessa reinvenção.

Tendo sido o CDS o único partido da Assembleia Constituinte que votou contra a Constituição, não deixa de ser significativo colocá-lo na missão de nos oferecer as comemorações do 25 de Novembro.

OLHAR AS CAPAS

A Breve Vida das Flores

Valérie Perrin

Tradução: Maria de Fátima Carmo

Editorial Presença, Lisboa, Maio de 2023

Os meus vizinhos são determinados. Não têm preocupações, não se apaixonam, não roem as unhas, não acreditam no acaso, não fazem promessas nem barulho, não têm segurança social, não choram, não procuram as chaves nem os óculos, o telecomando, os filhos ou a felicidade.

Não leem, não pagam impostos, não fazem dieta, não têm preferências, não mudam de opinião, não fazem a cama, não fumam, não fazem listas, não pensam duas vezes antes de flar. Não têm substitutos.

Não são graxistas, ambiciosos, rancorosos, sedutores, mesquinhos, generosos, invejosos, desleixados, limpos, sublimes, curiosos, viciados, avarentos, sorridentes, maliciosos, violentos apaixonados, mal-humorados, hipócritas, dóceis, duros, mudos, maus, mentirosos, ladrões, jogadores, corajosos, falsos, crentes, pervertidos, otimistas.

Estão mortos.

A única diferença entre eles é a madeira do caixão: carvalho, pinho ou mogno.

CORO DOS EMPREGADOS DA CÂMARA

É tão vazia a nossa vida,

é tão inútil a nossa vida

que a gente veste de escuro

como se andasse de luto.

Ao menos se alguém morresse

e esse alguém fosse um de nós

e esse um de nós fosse eu…

 

 … O Sol andando lá fora,

fazendo lume nos vidros,

chegando carros ao largo

com gente que vem de fora

(quem será que vem de fora?)

e a gente pràqui fechados

na penumbra das paredes,

curvados pràs secretárias

fazendo letra bonita.

Fazendo letra bonita

e o vento andando lá fora,

rumorejando nas árvores,

levando nuvens pelo céu,

trazendo um grito da rua

(quem seria que gritou?)

e a gente pràqui fechados

na penumbra das paredes,

curvados pràs secretárias

fazendo letra bonita,

enchendo impressos, impressos,

livros, livros, folhas soltas,

carimbando, pondo selos,

bocejando, bocejando,

bocejando.

 

Manuel da Fonseca em Poemas Completos

domingo, 14 de setembro de 2025

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO


Milhares de pessoas com bandeiras e outros símbolos da Palestina invadiram neste domingo as ruas de Madrid, pelas quais deveria passar o circuito final da última etapa da 80.ª Volta a Espanha em bicicleta, forçando a organização da prova a anular a tirada. Conclusão: a Vuelta 2025 terminou numa espécie de anticlímax, com Jonas Vingegaard como vencedor e João Almeida como segundo classificado, mas sem direito ao habitual ritual de consagração.
 

À LUPA


A Lupa, passando os olhos pelo Editorial do Público de ontem, assinado por Marta Moitinho Oliveira, deteve-se no comentário que um leitor entendeu deixar sobre o que lera:

«A pobreza e a ignorância são os principais garantes da direita no poder. Quem, afinal, deseja eleitores saudáveis e esclarecidos? Isso exigiria políticos igualmente saudáveis, competentes e profissionais. Quanto mais estúpido e boçal for o povo, mais estúpidos e boçais serão os seus representantes. Ventura teve o “mérito” de revelar o número de cidadãos dispostos a abraçar a estupidez no Portugal democrático. Parabéns às televisões, parabéns a Ricardo Costa e ao Grupo Impresa, à TVI/CNN, ao Correio da Manhã e a Cristina Ferreira: o povo que ajudaram a formar é estúpido, boçal e doente.»

DITOS & REDITOS


Ele é ruim, mas tem bom coração.

Quem não os conhecer que os compre.

Acontece aos melhores, já que aos piores não acontece nada.

Não existem relações felizes, existem pessoas felizes em relacionamento.

O que arde cura.

Só se arrependia do que não fazia e do que não dizia.

Afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

Conter danos e aguentar.

sábado, 13 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO

Vejamos: há o fio da navalha. E a nossa vida é ir, pé ante pé, por esse fio. Mas, o que nos faz cair para o lado bom ou mau do fio da navalha? Que grão de areia ou leve sopro de vento nos balança para o lado do santo ou o lado do jagunço?

Manuel S. Fonseca


MÚSICA PELA MANHÃ


Na sua habitual crónica no Público, a de 21 de Agosto de 2025, Nuno Pacheco levou-nos até tempos antigos, não vividos por muitos, esquecidos por outros, lembrados – sempre! – por aqueles que não querem o silêncio.

«No dia em que armas e cravos por aqui se cruzaram em festiva euforia, Portugal estava “entalado” entre ditaduras: por terra, a da vizinha Espanha, que ainda duraria até à morte de Franco, em Novembro de 1975; por mar, do outro lado do Atlântico, a do Brasil, que só terminaria em 1985, após um abrandamento da repressão militar e política em 1979.

(…)

Nestes tempos, porém, mais do que celebrações festivas, é uma velha e corrosiva canção catalã que nos vem à memória. Ainda não deixou de animar plateias (fê-lo em Portugal, nos idos de 74) e promete continuar. Escreveu-a Pi de la Serra e intitula-se Si els fills de puta volessin no veuríem mai el sol. Dispensa traduções e não perdeu a actualidade.»

No velho Coliseu o grito que Pi de la Serra largou, ainda hoje tem toda a justificação.

Se os filhos da puta voassem nunca mais veríamos o sol.

É esse grito que hoje recordamos.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

NOTÍCIAS DO CIRCO

O governo PSD/CDS, com a ajuda «daquela coisa», apresentou uma proposta de revisão à legislação laboral, visando alterar mais de 100 artigos, “profunda” revisão como lhe chamam, que vão desde a área da parentalidade (com alterações nas licenças parentais, amamentação e luto gestacional) ao trabalho flexível, formação nas empresas ou período experimental dos contratos de trabalho, prevendo ainda um alargamento dos setores que passam a estar abrangidos por serviços mínimos em caso de greve.

Deixem o Luís trabalhar e vão poder assistir à ascensão – ainda mais flagrante – do patronato.

ESTOU CANSADO, É CLARO

 Estou cansado, é claro,

Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.

De que estou cansado, não sei:

De nada me serviria sabê-lo,

Pois o cansaço fica na mesma.

A ferida dói como dói

E não em função da causa que a produziu.

Sim, estou cansado,

E um pouco sorridente

De o cansaço ser só isto —

Uma vontade de sono no corpo,

Um desejo de não pensar na alma,

E por cima de tudo uma transparência lúcida

Do entendimento retrospectivo...

E a luxúria única de não ter já esperanças?

Sou inteligente: eis tudo.

Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,

E há um certo prazer até no cansaço que isto me dá,

Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.


Álvaro Campos em Poesias

quinta-feira, 11 de setembro de 2025

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO


 

Certo que há o apoio, ou silêncio da grande maioria dos judeus pelo mundo.

Que parte da comunidade internacional terá o poder para fazer parar o assassino, o genocida O apoio, ou silêncio da grande maioria dos judeus pelo mundo.

Que parte da comunidade internacional terá o poder para fazer parar o assassino, o genocida Benjamim Netanyahu?

Como é que, sem protesto algum, se admitiu que certa gente afirme que Israel é o povo escolhido para ocupar aquele pedaço de terra?

NOTÍCIAS DO CIRCO


O título pertence ao Público, para que a província saiba que não é só por aquelas paragens, que a CP acaba com ramais, com linhas, com estações, com comboios.

SETEMBROS


 Chile, 11 de Setembro de 1973.


Nova Iorque, 11 de Setembro de 2001.

ESPERA

Aqui onde o exílio
dói como agulhas fundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um pássaro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade de As Mãos e os Frutos em Poemas

quarta-feira, 10 de setembro de 2025

OLHAR AS CAPAS

Jean-Paul Sartre

Alfredo Margarido

Capa: A. Dias

Biografia de Bolso nº 14

Editorial Presença, Lisboa 1965

Recusando-se a aceitar a dúvida sistemática de Descartes, que lhe aprece como um «trompe-l’oeil», Sartre prende-se antes ao conjunto das situações empíricas que lhe revelam o homem. É na rua, diz-nos ele algures, na cidade, no meio da multidão, coisa no meio das coisas, homem no meio dos homens, que nos podemos descobrir.


ADIRO E REMEMORO

Adiro e rememoro, calo e vejo

o que não é de noite nem de dia:

outro mar interior que se esvazia. 

Arrumo e já persisto, corro e beijo

 

a raiz de somenos, de entretanto, 

que era ou que não era mais ao lado 

de um tempo ferido mais que de passado. 

Ao sair de pequenos, por enquanto, 

 

olhares de luzes, moitas, agonias, 

encontro mãos abertas, correnteza 

de sumos, e a pedra em que me vias: 

 

veludo teu de flores, de flor firmeza, 

tua casa de mato e cantarias, 

janela entreaberta para a mesa.

 

Pedro Tamen de Escrito de Memória em Tábua das Matérias

terça-feira, 9 de setembro de 2025

OLHARES


 Fotografia de Aida Santos.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Luís Montenegro é um político fraco e o seu governo é um rol de bajuladores, incultos e incompetentes.

Neste momento encontra-se de visita à China, ao Japão.

Aos jornalistas, com aquele sorriso que conhecemos, disse que acredita que Xi Jimpimg, pela sua relação próxima com Putin, conseguirá a paz na Ucrânia.