terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

SOBREVIVER PORTUGUÊS


Neste dia, no ano de 1978, desde Santa Barbara, um Jorge de Sena descrente, doente, a braços com inúmeras dificuldades económicas, que sempre o acompanharam na vida que passou longe de Portugal, escrevia a José-Augusto França:
Enfim eu já não me queixo dos amigos, José-Augusto – para quê, todos tão importantes, tão rodeados de génios e talentos nessa pátria (vai subsistir ou não, nas últimas contradanças?)… Eu sei que não é por mal, é tudo pressa, correria, falta de tempo… Mas eu ficarei, mesmo que todos me traiam, e ficará só quem tiver embarcado na minha Barca do Inferno… sem remissão alguma. Desculpa o desabafo, de quem está cansado, exausto, cheio de trabalho, e até pensa pedir a cidadania cabo-verdiana, para ficar a meio caminho entre Portugal e Brasil, sem pertencer a nenhum por uma vez, e talvez até ganhando as vantagens de ser cidadão dos novos países.Contava ter um sabático na Primavera próxima e foi engano de contas da Administração. E ir a um simpósio de Fernando Pessoa, encontrar-me com uma data de «fernandinos» que ou são malandros, ou discípulos de malandros, ou raros amigos (o Lourenço riscou para mim, desde que em artigo recente, disse que eu devia estudar o Magalhães Godinho e o Saraiva – quando é sabido que eu sempre li as putas ou os patrões de putas deste país, tentando não ficar provinciano como eles), se é que o são, não tenho tempo, saúde, nem licença oficial para isso na semana em que as aulas do 3º trimestre começam aqui. Talvez que vá à Europa no Verão, mas sem mais que oito dias em Portugal – este convém que seja cada vez mais o país ideal gentil ou odiosamente ausente que sempre foi bom para se sobreviver português.
Em Correspondência Jorge de Sena/José Augusto França – Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa Junho de 2007
Legenda: fotografia tirada de Jorge de Sena, Vinte Anos Depois, Edições Cosmos, Lisboa 2001.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

À LUPA


O ex-presidente do BCP Jardim Gonçalves vai continuar a receber a sua pensão mensal de mais de 167 mil euros, depois de o Tribunal da Relação ter dado razão ao fundador do grupo agora liderado por Nuno Amado.
O Tribunal da Relação confirmou a decisão do tribunal de Sintra, de Maio de 2012, que se julgou incompetente para apreciar a pretensão do BCP de reduzir a pensão de reforma de Jardim Gonçalves.Com esta decisão, não passível de recurso, o ex-presidente da instituição liderada por Nuno Amado vai manter a pensão de cerca de 167 mil euros.
Dor jornais

POSTAIS SEM SELO


E este raio de sol onde se deita uma mulher.

José Gomes Ferreira em Revolução Necessária, Diabril, Lisboa Junho de 1975

Legenda: quadro de Leonid Afremov

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

SARAMAGUEANDO


Nas suas andanças por Lisboa, e tudo à volta, Mr. Ié-Ié, encontrou, em Massamá,a Rua José Saramago.
Massamá onde vive, ou vivia, esse sinistro-personagem-primeiro-ministro-do-reino, anda a dar-nos cabo da vida.
Obrigado pela cortesia.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Uma em duas, duas em uma, como preferirem
Carlos Paredes já há muito nos deixou, um homem do outro mundo, José Duarte dixit
Nada passou a ser como era.
Que saudades meu amigo
Das flores do teu jardim
Eu sentada num degrau
E tu esquecido de mim
Eram flores de fim de dia
Tinham gotas de luar
Que saudades meu amigo
Do teu jardim de encantar
A TAP está em vias de selvaticamente deixar de ser nossa..
Só não se sabe quando.
Há uma boa dezena de anos, ou mais, disse-me o Hans-Martin, um amigo alemão, que de aviões e companhias de aviação percebe, que a TAP era das melhores companhias de aviação do mundo, só não disse que era a melhor porque, por difícil de validar, essas coisas não se dizem.


Por um aniversário, a TAP convidou Carlos Paredes para gravar um disco para ser distribuído pelos passageiros e feito da seguinte maneira: eu fiz dois temas dedicados exclusivamente à TAP - «Asas sobre o Mundo» e «Nas Asas do Saudade» - que depois misturei com outros já gravados,e fez-se um disco novo, um disco que eu tive o cuidado de relacionar com aspectos da vida nacional: as sua paisagens, etc.
José Duarte que o ouvia, acrescentou: é a maneira de a tua música andar a voar por aí…
Disse, então, Carlos Paredes, naquela humildade que se lhe conhecia:
Tenho muita honra e devo à TAP imensos favores. Um deles é deixar levar no avião a guitarra junto a mim, porque se fosse para o porão podia sujeitar-se a ser furada… 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

QUOTIDIANOS


Neste país, a fome de tachos é insaciável.

De uma carta de Jorge de Sena a José-Augusto França, 12 de Outubro de 1963.

Em Correspondência Jorge de Sena/José Augusto França, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa Junho de 2007

OS CROMOS DO BOTECO

SARAMAGUEANDO


Rosa Parks, a mulher que esteve na origem do fim das leis de segregação racial nos Estados Unidos, vai ser a partir de 27 de fevereiro a primeira afro-americana a ter uma estátua no congresso norte-americano.

Os líderes dos dois partidos do Congresso anunciaram que a estátua vai ser inaugurada no final do mês, numa cerimónia que vai decorrer na Salão Nacional das Estátuas do Capitólio.

Um texto de José Saramago sobre Rosa Parks, publicado no 1º volume de O Caderno:

Rosa Parks, não Rosa Banks. Um lamentável desmaio de memória, que não terá sido o primeiro e certamente não vai ser o último, fez-me incorrer num dos piores deslizes que se podem cometer no sempre complexo sistema das relações entre pessoas: dar a alguém um nome que não é o seu. Salvo ao paciente leitor destas despretensiosas linhas, não tenho a quem pedir que me desculpem, mas já basta, para ver-me punido do desacerto, o sentimento de intensa vergonha que de mim se apossou quando, logo depois, me apercebi da gravidade do equívoco. Ainda pensei em deixar correr, mas afastei a tentação, e aqui estou para confessar o erro e prometer que doravante terei o cuidado de verificar tudo, até aquilo de que julgue ter a certeza.Há males que vêm por bem, diz a sabedoria popular, e talvez seja certo. Tenho assim a oportunidade para voltar a Rosa Parks, aquela costureira de 42 anos que, viajando num autocarro em Montgomery, no estado de Alabama, no dia 1 de Dezembro de 1955, se recusou a ceder o seu lugar a uma pessoa de raça branca, como o condutor lhe havia ordenado. Este delito levou-a à prisão sob a acusação de ter perturbado a ordem pública. Há que esclarecer que Rosa Parks ia sentada na parte destinada aos negros, mas, como a secção dos brancos estava completamente ocupada, a pessoa de raça branca quis o seu assento.Em resposta ao encarceramento de Rosa Parks, um pastor baptista relativamente desconhecido nesse tempo, Martin Luther King, dirigiu os protestos contra os autocarros de Montgomery, o que obrigou a autoridade do transporte público a acabar com a prática da segregação racial naqueles veículos. Foi o sinal para desencadear outras manifestações contra a segregação. Em 1956 o caso de Parks chegou finalmente ao Tribunal Supremo dos Estados Unidos, que declarou que a segregação nos transportes era anti-constitucional. Rosa Parks, que já desde 1950 se havia unido à Associação Nacional para o Avanço do Povo de Cor (National Association for the Advancement of Colored People), viu-se convertida em ícone do movimento de direitos civis, para o qual trabalhou durante toda a sua vida. Morreu em 2005. Sem ela, talvez Barack Obama não fosse hoje o presidente dos Estados Unidos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

MARCADORES DE LIVROS

DA MINHA GALERIA


Em Maio de 1967, não tinha dinheiro nem para mandar cantar um cego.

Foi essa mera circunstãncia que me impediu, no dia 19 de Maio, uma sexta-feira, de assitir ao show de Sammy davis Jr. no Monumental.

Já não lembro quanto custava o bilhete mais barato, 3º balcão pois claro, mas não deu mesmo.

Segundo o José Duarte, em 1967 um ordenado razoável andava à volta de cinco mil escudos, a plateia custou-lhe quatrocentos e foi por isso, que uma vez sem exemplo, os bilhetes foram vendidos a prestações! Duas!

Por essa altura já tinha recebido guia de marcha para assentar praça no CISMI em Tavira, o que veio a acontecer a 10 de Julho.

Havia que guardar os tostões para as viagens que teria que fazer para vir passar o fim de semana a Lisboa – quase seis horas de viagem em camioneta, ainda sem auto-estradas.

Foi a única vez que Sammy Davis Jr. veio a Portugal.

A 16 de Maio de 1990, em Beverly Hills, morreu de cancro na garganta.

Esta é a página 61 de O Século Ilustrado de 13 de Maio de 1967, onde se fala desse espectáculo em que, ainda segundo José Duarte, Sammy exibiu a arte de fazer música com os pés.

A história de Sammy Davis é a história de um negro que triunfa nos Estados Unidos, De um negro ainda por cima judeu, e coxo e cego de um olho, que graças a um talento sem igual para o «music-hall. A história de Sammy Davis, esse dançarino-músico-actor-cantor que vem actuar na próxima semana a Lisboa. É a história de uma excpeção, e ele próprio a conta numa autobiografia que publicou recentemente – intitulada «Yes I Can», «Sim, eu posso».

Transcreviam-se alguns pedaços dessa autobiografia, possivelmente ditada, porque Sammy Davis era praticamente analfabeto.

Aproveito este pedaço, o dia em que Sammy conheceu Frank Sinatra, o dia em que ficaram íntimos amigos, novamente José Duarte, companheiros de tudo e mais alguma coisa.

Foi mais ou menos por essa altura que conheci Frank Sinatra. Conheci-o de uma maneira muito simples: estava nos estúdios com o meu pai quando um rapaz dos sesu vinte anos se chegou a nós dos seus vinte anos de mão estendida e nos disse:: «Viva! Sou Frank Sinatra. Canto com a orquestra de Dorssey.».

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

UM ETERNO CARNAVAL!...


Patético ter um Relvas no governo declarar, sem ponta de vergonha na cara, que os portugueses montaram uma cabala contra o secretário de Estado do Empreendorismo, Franquelim Alves, um honesto e competente senhor, que passou pelo BPN, viu o que viu, que até era gravíssimo, mas assobiou para o lado, esperando que os dias do arco-íris trouxessem melhorias.

Patético é saber que o governo apesar, dos brutais sacrifícios que impôs aos portugueses, não ter acertado numa única previsão, numa única conta e dizer que há que nos sacrificarmos mais, exactamente no ponto em que o número de  famílias que deixaram de conseguir pagar empréstimos aos bancos voltou a aumentar nos últimos três meses de 2012, que o crédito mal parado excede os 5 mil milhões de euros em dívidas aos bancos, e que no final de 2012, o desemprego subiu para 16,9% e admite-se que, no decorrer do presente ano, chegará aos 17%, ou talvez mais...

Patético é ter um governo que não investiga, nem persegue a corrupção de políticos, banqueiros, autarcas, ex-membros de governos, ex-deputados, presidentes de clubes de futebol, advogados, uma lista variada e infindável de gentes, mas que tem um secretário de estado, dos sssuntos fiscais, Paulo Núncio nome de pia, que manda perseguir qualquer desgraçado que beba um café, beba uma água e não exija a respectiva factura.

Que nos resta?

Pouco… ,muito pouco mesmo…

Talvez por isso é gratificante ler a crónica de Ferreira Fernandes, hoje, no Diário de Notícias:

Quando saí do café, o homem, engravatado e educado, abordou-me: "Boa tarde, sou da AT, Autoridade Tributária e Aduaneira..." Eu, que nisto de diálogos com as autoridades tenho muito ano, desviei a conversa: "O senhor desculpe-me, mas como é que AT quer dizer Autoridade Tributária e Aduaneira?" Mas ele, também com muito ano, não atou nem desatou: "Mostre-me a fatura, por favor." E eu: "Fatura, não tenho." Ele: "Mas tem de ter, tomou café." Eu: "Não tomei, não." Ele, que a sabe toda: "O senhor entrou no café e como consumidor final tem de pedir fatura." Eu: "Mas qual consumidor? E final? De onde é que me conhece para me chamar consumidor final?! Entrei no café para aquecer." Ele: "O senhor está a obtemperar..." Eu sabia, ponham uma autoridade tributária a fazer de gnr e ele fica logo a falar como um gnr... Fugi para a frente: "Exijo uma lavagem ao estômago para ver se há cafeína." Olhei para o interior do café e vi as saquetas de publicidade: "E tem de ser Delta! Porque ainda devo ter resíduos do Nespresso que tomei em casa..." O tributário hesitou, guardou o papelinho da contraordenação (é o que eu dizia, é assim que eles chamam à multa) e mandou-me seguir. Fiquei a vê-lo a caçar outro cliente. Este estava tramado, ainda mastigava o croissant... Dali até à esquina, fui pelo passeio sempre a fazer sinais de luzes aos consumidores finais que iam em sentido contrário.

Como gratificante é ler um controverso Francisco José Viegas, ex-secretário de estado da Cultura, mandar, no seu blogue A Origem das Espécies, o secretário Paulo Núncio levar no cú:

Caro Paulo Núncio: queria apenas avisar que, se por acaso, algum senhor da Autoridade Tributária e Aduaneira tentar «fiscalizar-me» à saída de uma loja, um café, um restaurante ou um bordel (quando forem legalizados) com o simpático objectivo de ver se eu pedi factura das despesas realizadas, lhe responderei que, com pena minha pela evidente má criação, terei de lhe pedir para ir tomar no cu, ou, em alternativa, que peça a minha detenção por desobediência. Ele, pobre funcionário, não tem culpa nenhuma; mas se a Autoridade Tributária e Aduaneira quiser cruzar informações sobre a vida dos cidadãos, primeiro que verifique se a C. N. de Proteção de Dados já deu o aval, depois que pague pela informação a quem quiser dá-la.

No Verão de 1995, João Pedro Cotrim, para a revista Ler, entrevistou Luiz Pacheco e perguntou-lhe:

- Mensagem para as novas gerações?

- PUTA QUE OS PARIU!

PORQUE HOJE È DIA DE SÃO VALENTIM!


Momento de alívio foi quando Dona Verónica tratou Gustavo por primo e quis saber da namorada dele, «Ficou em casa a estudar», declarou o inocente; podia ter dito logo. Os outros foram saindo e eu fui ficando. À espera não sabia de quê, excepto de evitar que tudo continuasse na mesma, afastado de Erika e em perigo de que outro lhe lançasse a unha. Providencial, o doutor disse que não era má ideia um conhaque Napoleão. Recostámo-nos na saleta. Daí a nada, eramos só eu, ele e o Napoleão. À segunda dose deu-se o fenómeno da metamorfose da minha timidez em coragem. O tudo ou nada mas sem perder a face e a cortesia.
- O senhor doutor autoriza-me a escrever uma carta a Erika?
Suspendeu o balão do conhaque, fitou-me, escarafunchou com um dedo no ouvido e respondeu, vago: - Ela só tem recebido cartas da Áustria.
Percebi que evitava tomar posição quando chamou por dona Verónica que veio logo. E transmitiu-lhe:
- Aqui o nosso jovem amigo pretende escrever uma carta à Erika.
- Um a carta? Nesse momento ela já se voltava para mim e pedia esclarecimentos: - Que espécie de carta? Levantei-me, puxei as mangas da camisa, apertei o nó da gravata e surpreendi-me ao ouvir a minha voz firme:
 - Uma carta de amor.

Mário Zambujal em Já Não se Escrevem Cartas de Amor, A Esfera dos Livros, Lisboa Outubro de 2008.

A TRALHA


Filhos são bichos raros. Dizemos "são tal qual a minha cara", ou "são iguais a mim em tudo"- e depois um dia descobrimos que, em (aparentemente) insignificantes pormenores, são verdadeiros estranhos.
A minha filha, que é das pessoas com quem eu me dou melhor, que é uma cópia de mim em tantas coisas -noutras é diametralmente oposta. Uma das coisas que irremediavelmente nos separam é "a tralha". Ou aquilo a que ela chama "tralha". "Palavra que não sei como consegues viver no meio desta tralha toda", diz ela muitas vezes quando vem cá a casa. Acontece que a minha filha ainda não viveu tempo suficiente para ter a casa dela cheia de tralha e, pior do que isso, para não poder viver sem ela. Aquilo a que ela desdenhosamente chama "tralha" são objectos que marcaram a minha vida. Que me foram dados por pessoas muito amadas e que já morreram. Ou que estão vivas mas desapareceram do meu lado. Ou que estão longe e assim parecem mais perto. Ou que aparecem pouco, mas são muito importantes para mim. Coisas que não servem para nada - a não ser para me ajudarem a suportar a vida. Não seria capaz de viver numa casa decorada por profissionais - que decerto não iriam encher as minhas mesas de pedras, folhas secas, búzios, postais, desenhos dos netos, frascos cheios de canetas,etc. Tudo o que eu tenho em casa - tirando os objectos necessários à nossa vida quotidiana - tem uma história, recorda alguém, lembra um lugar ou marca um tempo. Um dos homens da minha vida deu-me esta pedra achada na rua, que é tal qual a cara de uma pessoa a rir. "Quando eu cá não estiver", disse, "já tens quem se ria como eu".E como tinha a paixão das folhas, enchia-me a casa com elas. Às vezes abro um livro e lá cai uma folha seca. E eu sei exactamente de que árvore veio, em que dia, e por que razão a guardei. Esta coisa estranha de madeira, a tapar um espelho, deu-me a minha amiga Mara em Timor, explicando-me que os espelhos têm de estar sempre bem tapados para que não nos roubem a alma. Este postal, com flores a rebentarem pelo meio de pedras, mandou-me a minha amiga Dina, com uma frase que me ajuda sempre nos dias maus. Este coração de vidro deu-me a Ana Gabriela, que enfrentou comigo maleitas complicadas, de que nos safámos ambas porque somos difíceis de abater. E ao lado está um minúsculo sino de metal que me deu o António, num dia em que chorámos baba e ranho no ombro um do outro. E que seria eu sem os retratos que me espreitam de todos os cantos? Como poderia andar pela casa se eles não olhassem para mim? Se eu não ouvisse as suas vozes, tão nítidas, rebentando das molduras? E agora digam-me lá como é que eu posso chamar "tralha" a isto.


Alice Vieira, Jornal de Notícias, 4 de Janeiro de 2009

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

OLHAR AS CAPAS



A Arte, o Artista e a Sociedade

Álvaro Cunhal
Design gráfico: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa Novembro de 1996

Pode, por exemplo, conhecer-se muito da história do Taj Mahal, mausoléu indo-islâmico da imperatriz Arjuman Bânu. Mas não se pergunte na altura em que o vemos ante nós quem o mandou construir, não se pergunte que sacrifícios custou a sua construção, esqueçam-se. Se se sabiam, elementos negativos na sua história e não se queira no momento mais nada saber além do verdadeiro êxtase provocado pela surpreendente beleza da construção, do conjunto, do espaço.
Pode, noutro exemplo, conhecer-se a vida e a obra incerta, dificultosa, torturada de Rachmaninov. Pode considerar-se que na sua obra há muito que outros fizeram tão bom ou melhor. Pode valorizar-se mais o virtuosismo que a inspiração. Mas não se responda com qualquer apreciação racional ou especializada ao espontâneo encanto do arranque crescente, envolvente e arrebatador do 2º Concerto para Piano e Orquestra.


terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

EM TEMPO DE CARNAVAL


Não tenho o recorte à mão, mas penso que terá sido o pintor Cruzeiro Seixas quem um dia reflectiu sobre
o como seria importante ter uma cuoteca.

O corpo humano sempre foi inspiração de artistas, mas partes existem que se tornam motivo de culto.
No ano de 2007, a Fundação Canal de Madrid mostrou ao público uma exposição – chamaram-lhe Ocultus - em que as múltiplas possibilidades artísticas que, como diria o Eça, de Queiroz, aquela parte do corpo em que as costas mudam de nome, têm um lado verdaeiramente artístico.
Estiveram expostos 70 retratos de sessenta e sete fotógrafos de vinte países, com realce para Cartier-Bresson,e Man Ray,

O fotógrafo José Maria Diaz-Maroto, organizador da exposição, disse, na altura, que quem vê rabos vê corações  e foi mais longe:

O Rabo é uma parte nobre do corpo humano mas que a cultura e a educação que recebemos sempre desprestigiou. Nessa parte do corpo pode haver beleza, curvas estupendas, desejo, mas sempre nos disseram que devia ser escondida pois é objecto de pecado.

Não é impunemente que o povo sempre disse que quem tem cu tem medo.

Em Março de 2005, Kylie Minogue foi votada, pelos leitores do tabloide britânico The Sun, como sendo proprietária do melhor cu do mundo.

Haja Deus!

Em finais de Setembro do ano passado concorrentes de todos os vinte e sete estados e distritos federais do Brasil, apresentarm-se no Miss Bumbum Brazil, um concurso que pretende escolher os melhores exemplos de bundas e que que a organização destacou como paixão nacional.


Maria Teresa Horta, em tempo que não era de Carnaval, dizia que para a minha sede nenhuma água chega, Graça Morai lamentava-se que não conseguia encontrar o fio da meada o novelo era grande, mágico e não era bruxa, mas o velho Fernando Assis Pacheco, por um Agosto desvelava-se por alguém igual a um pássaro.

É aqui que eu saio

Divirtam-se hoje porque que as cinzas não tardam nada.

O cu de Maruxa

Um cu que se desvela em Agosto em Ourense
redondo para olhar um cu magnificente
um cu como um bisonte
o teu cu Maruxa adivinhado num restaurante

eu rimo tanto cu que trago na memória
o teu fará por certo mais história
é um cu para a glória ó nena impante

rodando na cadeira el' deixa-nos suspensos
quase presos Maruxa pelos beiços

lembra-me nédio raxo assim forte de febra
lêveda e alva nas Burgas cozinhando
se de soslaio agora se requebra

é como canta Maruxa! igual que um pássaro
ao qual neste mesón péssoro vénia

teu ouriflâmio cu me faz insónia.


Em Variações em Sousa,Hiena Editora, Lisboa Maio de 1967

Nota do editor: a frase de Sofia Vergara é tirada do Expresso de 18 de Agosto de 2012.

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

VELHOS DISCOS


Já que foram falados, vou trazer alguns dos discos que comprei na Grande Feira do Disco, na Rua do Forno de Tijolo.
Comprava um LP por mês.
Estávamos nos inícios dos anos 60, a maior parte dos discos  não chegava a custar cem escudos mas, devo dizer, que já era um grande sacrifício.
Na altura de Natal ou aniversário, o número variava, mas nunca ultrapassou os três discos.
Até ao dia em que da Almirante Reis me mudei para outros ares, na Grande Feira do Disco ,nasceu a minha pequena e modesta colecção de discos.
Mas tenho uma imensa ternura por todos esses discos.
Volta e meia trarei aqui um.
 Hoje dançamos o tango.

O MELHOR POVO DO MUNDO!


Já não há espaço, nem tempo, para vergonhas.

A necessidade salta e nem sequer dá para fechar os olhos.

Andar para a frente.

Entre outras contenções, levar a marmita para o trabalho.

O termo, a ideia ficou mas levar marmita, é utilizar tupperwares.

A DECO estima que se levar refeições para o trabalho, tomando o pequeno almoço em casa poderá poupar qualquer coisa como 100 euros.

Entre os estados membros da União Europeia, Portugal continua a ter a terceira taxa de desemprego mais elevada, apenas atrás da Grécia (26,8%) e da Espanha (26,1%).

O mais recente relatório Think, da TNS Global, observava que 72% dos portugueses diziam ter dificuldade em chegar ao final do mês com todas as contas pagas. Neste conjunto, cerca de um quarto afirmava que o salário nunca chegava, enquanto 48% admitiam que vivem esta sensação de muito mês para tão baixo ordenado apenas de vez em quando.

No meio deste triste e negro panorama, António Borges, o ignóbil consultor ministerial, pago para com o nosso dinheiro para vir bolsar recados e barbaridades, considera o corte de quatro mil milhões nas funções do Estado uma questão acessória.

Continuam a dizer que vamos aguentar!...


Aguentar…

Como?

Até quando?

Até onde?

De onde deveria soltar-se um grito de revolta, não se vislumbra qualquer sinal.

Porventura, até ficamos agradados quando, solenemente, dizem que somos o melhor povo do mundo.

Será que no dia 19 haverá um mar de gente nas ruas?

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Anúncio publicado em O Século Ilustrado de 13 de Maio de 1967.

Estas carrinhas da SAPP, marca Citroen, percorreram o país vendendo peixe fresco.

Muitos se lembrarão delas.

A Gulbenkian adaptou o mesmo tipo de carrinha para as suas Bibliotecas Itinerantes.

De um artigo de Álvaro Garrido publicado na revista Análise Social:

De acordo com o regulamento que o institui, o SAPP define-se, em teoria,
como uma secção do Grémio que tinha por «finalidade orientar, coordenar
e desenvolver a revenda do peixe de arrrasto, dentro da orgânica corporativa
estabelecida, a sua conservação, filetagem e quaisquer outras aplicações industriais,
bem como a distribuição pelos processos julgados mais vantajosos
para a economia nacional»11. Foi a primeira medida estrutural de prevenção
de problemas no abastecimento de peixe definida no pós-guerra. Na
prática tratava-se de uma estrutura de tipo empresarial de distribuição de
pescado nascida e criada na dependência do GAPA, que viria a ter sede e
administração conjuntas com a Gel-Mar, coisa que a doutrina corporativa
não recomendava, mas que o «interesse nacional» justificava.

domingo, 10 de fevereiro de 2013

A CAMINHO DE SÃO VALENTIM


Neste dia, há 66 anos, Simone de Beuavoir estava em Nova Iorque e desesperava por ter constatado que durante a noite a neve derreteu-se e as ruas estavam cobertas de uma imundície cinzenta.

Também barafustava contra os costumes americanos, as montras dos estabelecimentos cheia de coraçõezinhos destinados ao Dia de São Valentim e irritava-se com essa história de em locais públicos se cantar o Happy Birthday.

Ella Fitzgerald também odiava a cantilena, sigo as pisadas da diva, mas abro uma pequenina excepção: aquele sussurro de Marilyn Monroe, no Madison Square Garden: happy birthday Mr. President.


Dentro de três dias, deixo Nova Iorque. Tenho muitas voltas a dar, negócios a arrumar, e toda a manhã palmilho as ruas lamacentas dos bairros elegantes. As pastelarias expõem nas montras imensos corações vermelhos, enfeitados de fitas e cheios de bombons; há também corações engenhosamente suspensos, nas papelarias, nas gravatarias. Não tarde que seja o dia de São Valentim, dia em que as raparigas devem oferecer presentes ao seu boy-friend. Há sempre qualquer festa em vistas, na América; isto distrai. Mesmo as festas particulares têm a dignidade de cerimónias públicas; em especial os aniversários: parece que o nascimento de qualquer cidadão é um acontecimento nacional. Uma noite destas, num clube nocturno, a sala inteira desatou a cantar em coro em coro Happy birthday, enquanto um senhor gordo, confuso e lisonjeado, apertava com acanhamento os dedos da mulher. Anteontem tive que telefonar: duas college-girls entraram antes de mim na cabina; e enquanto eu batia impacientemente os pés em frente da porta, elas fizeram uma ligação e entoaram: Happy birthday; cantaram-no até ao fim. Vendem-se nos bazares bilhetes postais de aniversário, com os parabéns impressos, com frequência em verso. E podem «telegrafar-se» flores por esta ocasião, como por outras. Todas as casas de floristas recomendam em grandes letras: Wire flowers.

Simone de Beauvouir em A América Dia a Dia, Editora Arcádia, Lisboa s/d

Legenda: imagem do filme de Nora Ephron Sintonia de Amor (Sleepless in Seattle), 1993.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

DO BAÚ DOS POSTAIS


UM ESCÂNDALO SEM FIM À VISTA


Sabemos que, até agora, o BPN, custou aos contribuintes 8000 milhões de euros.

Irá custar mais.

Muito mais.
A maior fraude financeira do Portugal pós-25 de Abril, é um caso de polícia que envolve centenas de barões do PSD.

E não só!

Conhecem-se alguns nomes, mas a procissão tem muitos mais figurantes.

Por norma, as autoridades competentes investigam mal, os tribunais são lentos, os juízes têm interpretações que roçam a esquizofrenia.

No final deste caso, se é que vai haver um final, ninguém sairá culpado.~, mas sairá dos nossos bolsos o custo desta fraude.

Mas pouco há a dizer quando fomos nós que colocámos esta gente nas cadeiras do poder.

O bailado mandado do centrão continuará.

Ora agora danço, ora agora danças tu.

Segundo uma sondagem, encomendada pelo Expresso/Sic, se as eleições fossem hoje, o Partido Socialista venceria com 34,1% dos votos.

Depois, voltaremos às lamentações, voltaremos a chamar nomes àquelas gentes, voltaremos a pagar todas as facturas que nos apresentarem, mas nada fazemos para lhes dar, de uma vez por todas, um pontapé no cú.

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?

O MAIOR DOS SOFRIMENTOS É NÃO TER SOFRIDO


Segundo a Lusa, um juiz chileno ordenou a exumação do corpo do poeta Pablo Neruda, no âmbito de uma investigação sobre as circunstâncias da morte, anunciou a Fundação responsável pelo seu legado literário.
O poeta, membro do Partido Comunista Chileno, que morreu 12 dias após o golpe de Estado militar de 1973, dirigido pelo general Augusto Pinochet e que implicou o derrube, e também a morte, do Presidente Salvador Allende, terá sido vítima de um cancro, de acordo com a versão então divulgada.
No entanto, responsáveis oficiais têm admitido nos últimos anos a possibilidade de Neruda ter sido assassinado às ordens dos militares da Junta.

Datado de Santa Bárbara, 24 de Setembro de 1973, Jorge de Sena escreveu o poema Pablo Neruda morreu de cancro:

Os cancros matam, vêm insidiosos,
sem preferência pelos bons ou maus.
Raízes implacáveis que se estendem
e não dão fruto mais do que só morte.
Destino fingem ser, cegos e surdos,
e mudos como a carne que vão roendo,
até que a vida não resiste já.

Na noite que se acende à beira-mar

lá onde as cordilheiras tocam céus,
o sangue brilha dos assassinados
em quem mais uma vez a liberdade
é morta nos quintais destas Américas.
O cancro alastra: os cancros são fascistas.

Importa pouco o cancro só da próstata

que assassinou Neruda, em conivência
com Pinochets, como este conspirando
há muito já, seguindo uma cartilha
que eu vira passo a passo noutro espaço
trazida à rua com panelas, tachos,
ou procissões desagravando a Virgem.

Importa pouco. É só uma raiz

humilde e pequenina de outro cancro
patriota e medalhado sobre o mundo,
abrindo em negra flor de companhias,
consórcios, trustes, negras agonias.

De 40 Anos de Servidão, Círculo de Poesia, Moraes Editores, Lisboa Setembro 1982.

Nota do editor: o título é um verso do poema Saudade de Pablo Neruda.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

NÃO SÃO OITO NEM DEZ


Não são oito nem dez. São 14. Catorze novelas que passam por dia na televisão portuguesa. Se isto não é monocultura televisiva, se isto não é um sinal da crise e uma enorme falta de criatividade, não sei o que será. Das 14 novelas que estão no ar, imagine-se, sete são repetidas. Direito de Nascer (RTP1), Podia Acabar o Mundo (SIC), Vingança (SIC), Páginas da Vida (SIC), Amanhecer (TVI), Tempo de Viver (TVI) e Doce Fugitiva (TVI). Palavras para quê?

Nuno Azinheira no Diário de Notícias.

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