Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.
Conclui, mais uma
vez, passados que são 45 anos de democracia, que não elevámos o nível de
cultura dos portugueses.
Entristeceu-se
com o cair do dia, a chegada da noite.
Sabe o porquê da
tristeza e não pode dizer que é só por os pássaros terem partido para o sul.
1.
Francisco Mendes
da Silva, membro da comissão política do CDS, numa entrevista ao Público,
disse que «o aparecimento do Chega põe em causa todo o regime.»
Diz também que a
direita terá de se entender para poder ir a eleições e governar, mas exclui o
Chega porque não basta dizer que os políticos são todos uma cambada de ladrões,
ou dizer mal dos ciganos.
2.
Rui Montenegro perfila-se
para discutir a presidência do PSD a Rui Rio.
O partido
necessita de uma lufada de ar fresco, disse, ou alguém por ele.
Nada tenho nada,
mesmo nada a ver com o PSD, mas garanto que prefiro que a conduzir os destinos
do partido esteja Rui Rio, do que o antigo parlamentar, um sorriso cínico, um encadeador de palavras
que nada dizem, que lembra as políticas pedropassoscoelhos, mais o Relvas, a
Maria Albuquerque .
O rapaz diz,
agora, que o Partido Socialista era batível se tivesse existido uma oposição
firme.
Pois… ou os prognósticos
só no fim do jogo, como diria o outro…
3.
Recortes do Público.
4.
Não digo que não existam razões, mas tudo o resto é uma mentira e uma imbecilidade.
Ninguém deixa de
ser culpado neste circo de vaidades, desprezos e vinganças.
Ainda sou do
tempo em que havia jornais e jornalistas e, com a sua morte, já não resta quase
ninguém como eçe.
.já poucos restam
Rogério
Rodrigues foi fundador do semanário O Jornal, foi um dos últimos chefes
de redação do jornal A Capital, foi jornalista no Público e Jornal
de Notícias trabalhou na RTP e no Rádio Clube português.
Quando Fernando
Assis Pacheco morreu, Rogério Rodrigues escreveu uma emocionada prosa:
«Morreu o Assis como é do conhecimento público, como
já tinha morrido o Esteves da leitaria, o O’Neill da seda chinesa em feira de
cigano. Morreu o Assis, o doido que me foi buscar a um modesto liceu de
Trás-os-Montes, em má hora me trouxe para os jornais, durante meses me
aklimentou, foi meu mestre, foi meu amigo e foi meu compadre. Aquele barbas,
aquele doido. Porque o Assis era doido – de ternura, de generosidade, de
talento.»
Rogério
Rodrigues foi também jornalista do Diário de Lisboa, no qual, em Maio de
1975, publicou uma crónica sobre uma mulher, de seu nome Teresa Olga, que, num
intervalo do tratamento psiquiátrico, dançava nua no cruzamento da Avenida
Miguel Bombarda com a Avenida 5 de Outubro, acontecimento de que José Afonso
faria poema e música e que faz parte do álbum Com as Minhas Tamanquinhas.
É que eu nasci para eremita. Gosto do barulho dos meus
passos, de vento a bater na cara. Gosto de silêncio e solidão. E sobretudo
gosto de estar longe.
Amor, eu não sei se dói. Caíu-me a arma das mãos e
ninguém a virá recuperar para as mãos que tomaram o meu lugar na guerra. O meu
último pulmão enche-se de uma agonia de corais, como quando os navios encalham
nas rochas. Sei que o gelo é um sinal. Mas nada me dói mais do que sentir que
as algas me enrolam. Revolvem-me no meio do lodo, com o tal derradeiro pulmão e
chafurdar no pântano das águas silenciosas. Sei que virão os médicos, os
helicópteros, o rosto tenso das aves com olheiras: alguém chamará pelo meu
nome, abre os olhos, respira fundo, respira fundo. Só não sabem que o pulmão
recebeu já a maré grossa das tripas e marulha numa cidade subterrânea. Abre pois
os olhos, a folha espessa encontrará o sol; respira fundo, pois, respira fundo,
para que não se atrevam as aves a pensar que estás pronto. Tens ainda um amor à
espera, Tens uma memória para acusar. Tens um grito para deixar escrito ao cimo
do mármore onde te vão gravar o nome: QUIS APENAS SEGUIR O CURSO DOS RIOS,
PASSAR A PÉ AS MONTANHAS DO MEU PAÍS. AGORA VAI MORRER UM HOMEM. VAI MORRER UM
PAÍS QUE MATOU UM MILHÃO E QUINHENTOS MIL HOMENS NA GUERRA. COMO SERÁ A SUA
MORTE?
A entrada do
deputado apoiado pela CMTV no Parlamento é uma péssima notícia.
Trágica, mesmo.
A comunicação
social de sargeta já esfrega as mãos porque tem ali um filão.
No tempo de
intervenção que terá no Parlamento, montará um festival de javardice.
No café do
bairro, ouvi dizer que os que votaram naquilo fizeram-no porque o dito
personagem é do Benfica e não gosta de ciganos.
Um grupo de
benfiquistas fez chegar uma carta aberta à Direcção do clube em que lembram que
o personagem, para além de outras coisas, é uma figura xenófoba e que a
Direcção do clube não pode continuar a pactuar com a sua evidência mediática.
A parte clubística
do personagem é um pormenor complicado e o clube, um tanto ou quanto de mãos
atadas, recusou, segundo a Lusa, comentar a carta aberta e remeteu para os
estatutos do clube, nos quais é indicado que o clube não diferencia os sócios
"em razão da raça, género, sexo, ascendência, língua, nacionalidade ou
território de origem, condição económica e social e convicções políticas,
ideológicas e religiosas".
Este jogo em que o Benfica espetou cinco ao Real Madrid, tem agarrado uma história curiosa: o
guarda-redes suplente do Real Madrid era, nem mais nem menos, Júlio Iglésias, o
cantor-delicodoce-romântico que desfaz corações a meninas gritantes e
balzaquianas desesperadas.
Dessa condição
de guarda-redes suplente, o jornalista José Neves de Sousa escreveu uma
maravilhosa crónica no semanário «Sete» que intitulou: «Julito: como vão esses ossos.»
Ei-la:
Ilustre multimilionário: aplausos para uma voz. Talvez
não se recorde de mim: recuando no tempo (viajando até 1963) eu estava naquela
fila de jornalistas que, na Embaixada de Espanha, em Lisboa, participou na
Conferência de Imprensa em que o Real Madrid adiantava que não tinha medo
nenhum do Benfica.
Este seu distante amigo botou umas perguntas: responderam os Puskas e os
Gentos, a gente importante dos “merengues”, você (simples guarda-redes
suplente, mas já a abarrotar de dinheiro por via do papá cirurgião-mor) nem
abriu o bico.
Hoje, pagam-lhe fortunas só para cantarolar umas tretas que reviram os olhos
das meninas.
Naquele tempo, daí a horas, o Real apanhava cinco na Luz, o Eusébio foi um
portento, o Julito nem saiu da lateral: mudar de “portero” não adiantava nem
atrasava, elas entravam como bólides, o pagode só queria o Eusébio e até estou
em crer que você, ilustre personagem hoje mundial, nem sequer deu um autógrafo.
Era bonitão, mas não funcionava como “craque” dos relvados. Entrava mudo e saía
calado.
Agora entra a desfazer-se em melaço e sai em ombros. É isso que me leva a ficar
cismando como o mundo vira. Sei lá se continuaria “pobretanas” caso tivesse
também feito uma agulha a 180 graus e me tornasse (por exemplo) piloto de
helicóptero, caçador em safaris, político profissional ou pianista para baile.
Você, Julito, nasceu confortavelmente, em berço de ouro: teve tempo para fazer
experiências e até antes de ser marido da esbelta senhora que lhe deu dois
filhos, já tinha tido nos braços meio mundo de misses espampanantes.
Eu tive de me governar com a prata da casa. Desculpe se não me vir no Estoril:
ir ao Casino para o rever (um quarto de século depois do anonimato da futura
vedeta) dava cabo do orçamento lá de casa e os “indios” tinham de travar os
serrotes dentais.
Mas, em espírito, estou ao pé de si: é impossível deixar de admirar-se quem é
esperto e sabe bem governar a vidinha. E vá aparecendo, a malta gostará de o
ver um dia que se faça uma festa para a terceira idade, a rapaziada do nosso
tempo tiver uma lagrimazita ao canto do olho e você der uma borla. Talvez a
única de uma vida onde só o cifrão tem sido comandante.
Aquele (longínquo) abraço do admirador Neves de Sousa.»
O Tribunal Supremo
de Espanha já autorizou o Governo a transferir o corpo de Francisco Franco do
Vale dos Caídos para o cemitério de Mingorrupio, na povoação de El Pardo,
arredores de Madrid.
O ditador Franco
e o vale dos Caídos trouze-me à memória algo que aconteceu em Fevereiro de 1965.
Num jogo, para a
Taça dos Clubes Campeões Europeus, o Benfica de Eusébio & Cª, no Estádio da
Luz, derrotou o Real Madrid por cinco bolas a uma.
Face a essa
vitória, o tri-semanário Mundo Desportivo, titulou, à largura da sua 1ª página:
«O “Vale dos Caídos” mudou-se para Lisboa.»
Na crónica,
assinada por José Valente, a abrir a prosa, podia ler-se:
«Não foi realmente a batalha de Aljubarrota. Nem tão pouco a de Valverde, ou
qualquer outra em que os espanhóis e os portugueses tivessem escrito páginas
gloriosas da sua história. Mas foi bonito assistir-se à vitória do futebol
sobre o do Real Madrid.»
Franco terá
amarinhado pelas paredes acima, Salazar fez suas as dores do colega ditador, e
terá mandado recado à direcção do jornal.
Em resultado do
recado o jornalista foi despedido e a censura determinou a proibição, durante
oito dias, da publicação do jornal.
No dia 5 de Março, quando o jornal voltou a ser publicado, lia-se na 1ª página:
«A Empresa Nacional de Publicidade e o director do “Mundo Desportivo” lamentam
e repudiam as expressões contidas numa crónica inserida neste jornal e que
muito feriram a sensibilidade dos seus leitores. Ao autor da referida crónica,
chefe de redacção do “Mundo Desportivo”, único e total responsável pelo escrito
que veio a público, foram aplicadas as sanções que o caso requeria.»
Já agora,
recorde-se que, nesse jogo, o Benfica alinhou:
Costa Pereira,
Cavém, Germano, Raul, Cruz, Pérides, Coluna, José Augusto, Torres, Eusébio e
Simões.
Os golos foram
marcados por José Augusto, Eusébio (29), Coluna e Simões.
O Benfica chegou
à final da Taça mas acabou por a perder. Num jogo, realizado em Milão, 27 de Maio
de 1965, com o Inter, Costa Pereira deu um enorme frango, e, ressentindo-se de
um toque com Mazzola, abandonou o relvado. Naquele tempo, não havia
substituições e Germano foi para a baliza, ficando o Benfica reduzido a dez
unidades.
Quando a
comitiva do Benfica chegou ao Aeroporto da Portela, Costa Pereira fazia-se
transportar numa cadeira de rodas.
Da tal «lesão» acabou por curar-se mas, da vergonha daquele enorme frango, jamais.
Sim, eu sei que escrever sobre o Chega e o seu líder
tem sempre o risco de lhe dar ainda mais protagonismo. Sim, eu sei que, neste
momento, decorrem negociações para a formação de um novo governo e que o
centro-direita atravessa uma crise sem precedentes. Sim, eu sei que,
politicamente, o país tem problemas gravíssimos que mereciam ser denunciados
nestas linhas de texto. Mas não posso - não consigo - deixar de alertar para os
riscos que a nossa democracia enfrenta com a eleição de André Ventura para a
Assembleia da República. E, ao contrário do que muitos pensam, não é ignorando
e muito menos normalizando os "venturas" que se faz este combate.
Confesso que fui daqueles que, até os dados serem
oficiais, não acreditaram que fosse possível. Não porque seja ingénuo ao
ponto de achar que os extremistas, os populistas e os oportunistas não
conseguem penetrar e ascender nas democracias mais desenvolvidas - o mundo está
cheio de exemplos desses -, mas porque achei sempre que o que se está a passar
no Estados Unidos, no Brasil ou no Reino Unido, só para citar alguns casos, era
suficientemente elucidativo para o eleitorado português.
Não foi. Por ignorância ou porque, afinal, há mais
"venturas" no país do que eu imaginava, a verdade é que estas
eleições mostram bem como uma parte do eleitorado da abstenção e dos votos
nulos encontrou um "salvador" em quem se revê. Não tendo eu - e,
felizmente, a esmagadora maioria dos eleitores - contribuído para a eleição do
deputado do Chega, é bom que quem o fez tenha consciência daquilo em que nos
meteu a todos. E do que ainda pode vir aí.
Chamar extremista e populista a André Ventura é quase
um elogio que se lhe faz. Na verdade, o deputado do Chega é apenas um
oportunista político que se ama a si próprio acima de todas as coisas e que não
tem outro propósito que não seja a autopromoção. Um extremista - de esquerda ou
de direita - tem um programa e uma ideologia política, com a qual podemos
concordar ou discordar, mas tem. A agenda de André Ventura é a capa do tabloide
em cima da mesa de café e a conversa que ela provoca durante horas entre um
copo de três. É apanhar meia dúzia de conversas de pé de orelha e reproduzi-las
com ênfase, para parecer convicto e determinado no que se está a dizer, mas sem
qualquer substância.
Em André Ventura, a tática é falar primeiro e nunca
pensar depois. Não há um pingo de política, o mínimo de visão estratégica. Ali
mora um cata-vento que vai girando para noroeste e para sudoeste, num movimento
rotatório constante que lhe permite dizer tudo e o seu contrário, mas deixando
sempre um soundbyte no ouvido de quem o estiver a ouvir.
Em André Ventura há, pelo menos, uma incoerência
insanável - que o Ricardo Araújo Pereira retratou de forma brilhante esta
semana: a do político que se diz antissistema e que, ainda há dois anos, não só
fazia parte dele como o elogiava.
Em André Ventura não há uma ideia sobre economia,
saúde, educação, justiça ou mesmo sobre segurança interna, de que gosta tanto
de falar. Há, isso sim, um aproveitamento vergonhoso do sofrimento dos outros,
que é depois capitalizado eleitoralmente em proveito próprio, sem que quem vota
nele se aperceba de que está a ser usado.
É por tudo isto - e por mais algumas coisas - que a
eleição de André Ventura para deputado é uma ameaça à democracia. Porque,
mesmo sozinho no Parlamento, pode fazer muitos estragos. Não pelas propostas
que possa apresentar, que dificilmente - espero - terão acolhimento dos
restantes partidos. Mas porque o novo deputado do Chega vai querer transformar
o plenário da Assembleia da República num estúdio de televisão e fazer aquilo
que sabe fazer melhor: montar um circo onde ele possa ser o protagonista
principal.
André Ventura simboliza um enorme retrocesso para a
nossa democracia. E desenganem-se os que acham que esta eleição é um
epifenómeno que não vai crescer. Quem votou nele deu-lhe o palco de que ele
precisava para poder crescer e "acordar" outros espíritos que andam
para aí ocultos, escondidos cobardemente nas redes sociais. Só temos de estar
"agradecidos": a Pedro Passos Coelho, por lhe ter dado o seu primeiro
grande palco político; aos chamados partidos do sistema, que nas últimas
décadas falharam com as pessoas e escancararam as portas da casa da democracia
aos "venturas" desta vida; e a quem o elegeu, por nos proporcionar a
todos este odor insuportável a mofo. Espero que durmam todos de consciência
tranquila.
Nem mesmo Miranda Van Zelden podia afastar de mim o
sonho que se me desenrolava na cabeça à esquina de Picadilly com Haymarket.
Era uma daquelas noites. Sabem o que quero dizer. Tudo
corria bem e uma pessoa sente-se capaz de bater todos os adversários no jogo de
aventura em que está metido. Sentia-me no tecto do mundo e não é muitas vezes que isso sucede.
Olhem para mim. O meu nome real é Lemmy Caution, mas
tenho tido tantos outros que às vezes já nem sei se me chamo João Ninguém ou se
sou Quinta-Feira. Em Chicago – aquele ligar que os rapazinhos sabidos chamam
Chi, apenas para mostrarem que já leram um livro policial escrito por um
fedorento qualquer que declara ter sido quase morto por um dos pistoleiros de
Capone, mas que nem sequer sai de casa à noite com medo da sombra – costumavam chamar-me
o «’Duas vezes» porque diziam que era sempre preciso acertarem-me duas vezes
para me fazerem parar e noutros sítios onde os chuis mudam de cor quando pensam
em mim chamam-me Toledo.
É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.
Mas insisto: é uma cidade.
Ou é, ela a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?
Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?
E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.
«Uma obra de arte entendida dinamicamente consiste,
precisamente, no processo de disposição das imagens na mente e nas sensações do
espectador, princípio dinâmico que está na base de todas as imagens verdadeiramente
vivas.» Estas palavras de Eisenstein assumem, à distância dos anos, uma ressonância
de apelo, sobretudo agora, em que a posição de um grupo de intelectuais e
escritores portugueses, cujas obras reflectem uma séria tentativa para
redescoberta do homem nacional, se opõem teses abstractas e um formulário que,
nascido de erros gnoseológicos, coloca o homem no plano de uma impenetrável
natureza morta. Com o estatismo contemplativo, alçapão por onde têm tombado
alguns bons escritores portugueses, se antagonizam os intelectuais, que,
através de uma pesquisa mais humana do que laboratorial, procuram localizar os
problemas modernos. A polémica que se avizinha afigura-se-nos, talvez, mais
importante e concludente do que a estabelecida na década 30-40. A chave, nessa
altura, foi o neo-realismo. O neo-realismo de ontem está ultrapassado? Viva o
realismo de amanhã!
O que nos fica, finda a leitura deste livro, não é a
imagem de um homem fazendo gestos para que o vejam: é a imagem de uma alma
segredando aos outros qualquer coisa impossível de calar.
João Gaspar
Simões, crítica ao livro As Solicitações e Emboscadas de Mário Dionísio
O dia está a findar,
uma temperatura amena, de quase Verão, vagueia por Lisboa.
As eleições
trouxeram os resultados que, mais ou menos, se esperavam.
O número de abstencionistas
cifrou-se em 45%.
É triste que quase
metade dos eleitores se estejam borrifando para quem, durante quatro anos, nos
vai governar.
Não se consegue vislumbrar
quem queira dar a volta a este problema.
Mas estas
eleições trouxeram um dado tremendamente negativo de consequências futuras
preocupantes: como partido, a extrema-direita acaba de entrar no Parlamento
português.
Em cada dia
vamos perdendo a capacidade de nos indignarmos.
Mas não nos
podemos resignar a este temor.
Aquele advogado,
que é tromba do partido de extrema-direita, não merece apenas o nosso desprezo,
a nossa tristeza, merece, acima de tudo, o nosso combate.
Face a esta
canalha, é perigosíssimo baixarmos de vez os braços.
O que importa é que as palavras em contexto ficcional,
nunca são neutras. São ultravibráteis. Ao menor movimento, ressoam. São
caprichosas, sensíveis a cada minuto que passa, a cada relance de luz. Não é
indiferente lê-las numa página amarelada, numa página de brancura rasa, ao alto
da folha, em baixo. A própria grafia implica uma ligeira alteração de tom.
As palavras são volúveis. Vêm de contrabando, estabelecem-se,
envelhecem, desaparecem. Às vezes morrem, outras vezes ficam adormecidas e são
despertadas pelo beijo mágico de algum príncipe das letras, que pode ser um
humilde jornalista. Pulsam, ecoam, modulam a sua própria ressonância.
Reverberam, espalham reflexos para todo o lado. São rebeldes, desapertam as
cordas, esgueiram-se das clausuras. São leves e aéreas. São pesadas como
tanques. Abismam-se, ampliam-se, encolhem-se. Redimensionam-se. São como o deus
grego Proteu, sempre a mudar de forma e mesmo de género ("mha
senhor", dizia-se antes de "senhora" assumir o feminino).»
Prestava serviço
militar obrigatório no Regimento de Infantaria nº 5 nas Caldas da Raínha e, por esse
motivo, uma qualquer entidade recensearam-me nessa cidade.
Se fossemos votar, tinham-nos
avisado de que os nossos votos seriam rigorosamente vigiados.
Decidimos na mesma
ir votar em força na Oposição Democrática.
Sabíamos da
inutilidade dos nossos votos, mas isso era uma outra história.
Se nas sessões
de instrução nocturna fazíamos, em lugar das balelas militares, a leitura de
poemas de A Praça da Canção de Manuel Alegre, aquele domingo não era tempo de assobiar
para o lado.
Ainda na noite
das eleições, o comandante da unidade foi informado da expressão do voto dos
milicianos na CDE. O número (cerca de 80) permitiu que não houvesse graves
consequências. Quem daria instrução no dia seguinte?
Mas, obviamente,
a PIDE ficou a saber das nossas opções políticas.
Copio da
Wikipédia:
«As eleições legislativas portuguesas de 1969 foram
as primeiras realizadas após a saída de António de Oliveira Salazar da
Presidência do Conselho. Decorreram num clima de aparente abertura política,
designado por Primavera Marcelista. Realizaram-se no dia 26 de
Outubro, tendo concorrido quatro listas: União Nacional ("Lista
A"), Comissão Eleitoral de Unidade Democrática ("Lista
B"), Comissão Democrática Eleitoral("Lista D") e Comissão
Eleitoral Monárquica ("Lista C"). A União Nacional elegeu a
totalidade dos 130 deputados, obtendo 980 mil votos. As listas
oposicionistas obtiveram somente 133 mil, não conseguindo , no quadro do
sistema eleitoral maioritário e plurinominal, eleger qualquer deputado para
a Assembleia Nacional.»
Para que a farsa
dessas eleições fosse completa, Salazar, em estado vegetal. foi votar. Na
fotografia que encima o texto, Salazar encontra-se ladeado por uma enfermeira e
pela governanta Maria.
As eleições
realizaram-se no dia 26 de Outubro de 1969 e no dia 24 Marcelo Caetano
dirigira-se à Nação.
São estas as
palavras finais da comunicação:
Ficam os títulos
dos jornais no dia seguinte às eleições:
Diário de
Notícias:
«O Primeiro Grande Resultado da Eleição de Ontem:Vitória do Civismo.
Afluência record e ordem completa.
A Oposição Não Conseguiu Vencer em Nenhum dos Círculos
em que se Apresentou e a Assembleia Nacional Será Constituída pelos Deputados
que Eram da União Nacional.»
O Século:
»A Expressiva Vontade da Nação:«Sim» ao Prof. Marcelo Caetano.»
Diário da Manhã:
Esmagadora Vitória da Nação Sobre as oposições Ditas
Democráticas.
Em números
toscos refere-se que, da população maior, em cada 1000, 700 não estavam
recenseados; dos 300 recenseados, 115 abstiveram-se, 162 votaram pela União
Nacional e 22 pela Oposição Democrática.
Recorde-se, que
Mário Soares realizou o seu primeiro acto público de divisionismo constituindo a CEUD contra a CDE. A ditadura apreciou o sinal. Não que os votos da CEUD, juntamente com os da CDE, servissem para eleger um deputado, os dados estavam antecipadamente viciados, mas, como diria o outro, «não havia necessidade!»
A substituição de Salazar no lugar de Presidente do
Conselho, não poderia deixar de ter fundas repercussões no viver político
português. Acrescente-se, para ficar como dado importante, que essa substituição
não se deu cabalmente, uma vez que a morte cívica de Salazar não foi morte
física, nem mesmo morte política. O facto de se manter vivo, e em S. Bento, o
homem que para tantos servidores fiéis foi ( e talvez seja ainda para muitos)
um mito, «salvador e encarnação da Pátria», também contribui para o complexo de
condições em que se faz a política portuguesa.
Nesse complexo de condições, há que ter em conta o peso
que a mudança faz pender para o lado das condições subjectivas. Quer isto dizer
que se «sentiu» que qualquer coisa de novo acontecia. De certo modo, para
tantos de nós foi a surpresa de ver realidade o que seria previsível e inevitável.
Nessas novas condições subjectivas, as forças
políticas repensaram como actuar dentro das condições objectivas da sociedade
portuguesa.
Cá estamos nós
na tal pausa reflexiva antes das eleições do próximo domingo.
A discussão
política esteve completamente em parte incerta durante a campanha eleitoral.
Houve insultos,
palavreado oco e… o caso de Tancos.
O que se passou
e não passou no episódio do roubo do armamento, na encenação do retornar das
armas, um ministro da defesa saído de uma banda desenhada de última gaveta,
generais e mais generais em contradições infantis, um tal de José Paulino,
líder do bando assaltante que disse ao Expresso que iria contar tudo na justiça,
o «Fechaduras» que vendo o caso mal parado, deu de frosque e a invocação de um
papagaio-mor do reino que ninguém sabe quem é mas pode-se desconfiar…apenas
desconfiar…
Cenas patéticas
que arrasam governantes, justiça, militares e acabam numa lamentável ópera
bufa.
Sabe-se agora
que as campanhas eleitorais já não são o que eram.
Alguma vez foram
necessárias?
Numa das
primeiras eleições, o recorte não tem data, Margarida, 60 anos, militante do Partido Comunista, trabalhadora
rural numa aldeia perto de Aviz, disse ao jornalista que não sabia discutir
política. «Só sei discutir o que a gente dantes não tinha e hoje tem, aquilo
que passei e hoje já não passo.»