segunda-feira, 14 de outubro de 2019

AS TRÊS PALAVRAS MAIS ESTRANHAS


Quando pronuncio a palavra Futuro,
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando pronuncio a palavra Silêncio,
destruo-o.
Quando pronuncio a palavra Nada,
crio algo que não cabe em nenhum não-ser.

Wislawa Szymborska

domingo, 13 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


Ainda que não chegue, avanço.

Álvaro Guerra em Memória

ETECETERA


Domingo de eleições.

Conclui, mais uma vez, passados que são 45 anos de democracia, que não elevámos o nível de cultura dos portugueses.

Entristeceu-se com o cair do dia, a chegada da noite.

Sabe o porquê da tristeza e não pode dizer que é só por os pássaros terem partido para o sul.

1.

Francisco Mendes da Silva, membro da comissão política do CDS, numa entrevista ao Público, disse que «o aparecimento do Chega põe em causa todo o regime.»

Diz também que a direita terá de se entender para poder ir a eleições e governar, mas exclui o Chega porque não basta dizer que os políticos são todos uma cambada de ladrões, ou dizer mal dos ciganos.

2.

Rui Montenegro perfila-se para discutir a presidência do PSD a Rui Rio.

O partido necessita de uma lufada de ar fresco, disse, ou alguém por ele.

Nada tenho nada, mesmo nada a ver com o PSD, mas garanto que prefiro que a conduzir os destinos do partido esteja Rui Rio, do que o antigo parlamentar,  um sorriso cínico, um encadeador de palavras que nada dizem, que lembra as políticas pedropassoscoelhos, mais o Relvas, a Maria Albuquerque .

O rapaz diz, agora, que o Partido Socialista era batível se tivesse existido uma oposição firme.


Pois… ou os prognósticos só no fim do jogo, como diria o outro…

3.



Recortes do Público.

4.

Não digo que não existam razões, mas tudo o resto é uma mentira e uma imbecilidade.

Ninguém deixa de ser culpado neste circo de vaidades, desprezos e vinganças.

Um dos últimos nomes que entrou na roda é o de Plácido Domingo.

Jorge Calado, numa crónica publicada no Expresso, deixa  a ideia que Domingo se terá portado um tanto ou quanto mal.


Este é o final da crónica:


5.

No dia 8 morreu o jornalista Rogério Rodrigues.

Ainda sou do tempo em que havia jornais e jornalistas e, com a sua morte, já não resta quase ninguém como eçe.
.já poucos restam
Rogério Rodrigues foi fundador do semanário O Jornal, foi um dos últimos chefes de redação do jornal A Capital, foi jornalista no Público e Jornal de Notícias trabalhou na RTP e no Rádio Clube português.

Quando Fernando Assis Pacheco morreu, Rogério Rodrigues escreveu uma emocionada prosa:

«Morreu o Assis como é do conhecimento público, como já tinha morrido o Esteves da leitaria, o O’Neill da seda chinesa em feira de cigano. Morreu o Assis, o doido que me foi buscar a um modesto liceu de Trás-os-Montes, em má hora me trouxe para os jornais, durante meses me aklimentou, foi meu mestre, foi meu amigo e foi meu compadre. Aquele barbas, aquele doido. Porque o Assis era doido – de ternura, de generosidade, de talento.»

Rogério Rodrigues foi também jornalista do Diário de Lisboa, no qual, em Maio de 1975, publicou uma crónica sobre uma mulher, de seu nome Teresa Olga, que, num intervalo do tratamento psiquiátrico, dançava nua no cruzamento da Avenida Miguel Bombarda com a Avenida 5 de Outubro, acontecimento de que José Afonso faria poema e música e que faz parte do álbum Com as Minhas Tamanquinhas.

DITOS & REDITOS


O calculismo põe as pessoas velhas.

O inferno são os outros.

A nostalgia é a bondade do irrecuperável.

Escrever cansa mas consola.

Nunca há uma segunda oportunidade para causar uma boa primeira impressão. 

Os dias das pequenas coisas.

O pior na vida não são os maus, são os estúpidos.

A vida passa num fósforo.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


sábado, 12 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


É que eu nasci para eremita. Gosto do barulho dos meus passos, de vento a bater na cara. Gosto de silêncio e solidão. E sobretudo gosto de estar longe.

Ana Bárbara Pedrosa na revista Ler.

Legenda: mar da Islândia

OLHAR AS CAPAS


Autópsia de um Mar de Ruínas

João de Melo
Capa: Manuel Rosa
Assírio &Alvim, Lisboa, Abril de 1984

Amor, eu não sei se dói. Caíu-me a arma das mãos e ninguém a virá recuperar para as mãos que tomaram o meu lugar na guerra. O meu último pulmão enche-se de uma agonia de corais, como quando os navios encalham nas rochas. Sei que o gelo é um sinal. Mas nada me dói mais do que sentir que as algas me enrolam. Revolvem-me no meio do lodo, com o tal derradeiro pulmão e chafurdar no pântano das águas silenciosas. Sei que virão os médicos, os helicópteros, o rosto tenso das aves com olheiras: alguém chamará pelo meu nome, abre os olhos, respira fundo, respira fundo. Só não sabem que o pulmão recebeu já a maré grossa das tripas e marulha numa cidade subterrânea. Abre pois os olhos, a folha espessa encontrará o sol; respira fundo, pois, respira fundo, para que não se atrevam as aves a pensar que estás pronto. Tens ainda um amor à espera, Tens uma memória para acusar. Tens um grito para deixar escrito ao cimo do mármore onde te vão gravar o nome: QUIS APENAS SEGUIR O CURSO DOS RIOS, PASSAR A PÉ AS MONTANHAS DO MEU PAÍS. AGORA VAI MORRER UM HOMEM. VAI MORRER UM PAÍS QUE MATOU UM MILHÃO E QUINHENTOS MIL HOMENS NA GUERRA. COMO SERÁ A SUA MORTE?

NOTÍCIAS DO CIRCO


A entrada do deputado apoiado pela CMTV no Parlamento é uma péssima notícia.

Trágica, mesmo.

A comunicação social de sargeta já esfrega as mãos porque tem ali um filão.

No tempo de intervenção que terá no Parlamento, montará um festival de javardice.

No café do bairro, ouvi dizer que os que votaram naquilo fizeram-no porque o dito personagem é do Benfica e não gosta de ciganos.

Um grupo de benfiquistas fez chegar uma carta aberta à Direcção do clube em que lembram que o personagem, para além de outras coisas, é uma figura xenófoba e que a Direcção do clube não pode continuar a pactuar com a sua evidência mediática.

A parte clubística do personagem é um pormenor complicado e o clube, um tanto ou quanto de mãos atadas, recusou, segundo a Lusa, comentar a carta aberta e remeteu para os estatutos do clube, nos quais é indicado que o clube não diferencia os sócios "em razão da raça, género, sexo, ascendência, língua, nacionalidade ou território de origem, condição económica e social e convicções políticas, ideológicas e religiosas".

APESAR DE VOCÊ


O presidente Bolsonaro não assinará o diploma do Prémio Camões concedido a Chico Buarque de Holanda.

Chico reagiu de imediato:

«A não assinatura do Bolsonaro no diploma é para mim um segundo Prémio Camões».

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

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Este jogo em que o Benfica espetou cinco ao Real Madrid, tem agarrado uma história curiosa: o guarda-redes suplente do Real Madrid era, nem mais nem menos, Júlio Iglésias, o cantor-delicodoce-romântico que desfaz corações a meninas gritantes e balzaquianas desesperadas.

Dessa condição de guarda-redes suplente, o jornalista José Neves de Sousa escreveu uma maravilhosa crónica no semanário «Sete» que intitulou: «Julito: como vão esses ossos.»

Ei-la:

Ilustre multimilionário: aplausos para uma voz. Talvez não se recorde de mim: recuando no tempo (viajando até 1963) eu estava naquela fila de jornalistas que, na Embaixada de Espanha, em Lisboa, participou na Conferência de Imprensa em que o Real Madrid adiantava que não tinha medo nenhum do Benfica.

Este seu distante amigo botou umas perguntas: responderam os Puskas e os Gentos, a gente importante dos “merengues”, você (simples guarda-redes suplente, mas já a abarrotar de dinheiro por via do papá cirurgião-mor) nem abriu o bico.

Hoje, pagam-lhe fortunas só para cantarolar umas tretas que reviram os olhos das meninas.

Naquele tempo, daí a horas, o Real apanhava cinco na Luz, o Eusébio foi um portento, o Julito nem saiu da lateral: mudar de “portero” não adiantava nem atrasava, elas entravam como bólides, o pagode só queria o Eusébio e até estou em crer que você, ilustre personagem hoje mundial, nem sequer deu um autógrafo. Era bonitão, mas não funcionava como “craque” dos relvados. Entrava mudo e saía calado.

Agora entra a desfazer-se em melaço e sai em ombros. É isso que me leva a ficar cismando como o mundo vira. Sei lá se continuaria “pobretanas” caso tivesse também feito uma agulha a 180 graus e me tornasse (por exemplo) piloto de helicóptero, caçador em safaris, político profissional ou pianista para baile.

Você, Julito, nasceu confortavelmente, em berço de ouro: teve tempo para fazer experiências e até antes de ser marido da esbelta senhora que lhe deu dois filhos, já tinha tido nos braços meio mundo de misses espampanantes.

Eu tive de me governar com a prata da casa. Desculpe se não me vir no Estoril: ir ao Casino para o rever (um quarto de século depois do anonimato da futura vedeta) dava cabo do orçamento lá de casa e os “indios” tinham de travar os serrotes dentais.

Mas, em espírito, estou ao pé de si: é impossível deixar de admirar-se quem é esperto e sabe bem governar a vidinha. E vá aparecendo, a malta gostará de o ver um dia que se faça uma festa para a terceira idade, a rapaziada do nosso tempo tiver uma lagrimazita ao canto do olho e você der uma borla. Talvez a única de uma vida onde só o cifrão tem sido comandante.

Aquele (longínquo) abraço do admirador Neves de Sousa.»

VELHOS RECORTES


O Tribunal Supremo de Espanha já autorizou o Governo a transferir o corpo de Francisco Franco do Vale dos Caídos para o cemitério de Mingorrupio, na povoação de El Pardo, arredores de Madrid.

O ditador Franco e o vale dos Caídos trouze-me à memória algo que aconteceu em Fevereiro de 1965.

Num jogo, para a Taça dos Clubes Campeões Europeus, o Benfica de Eusébio & Cª, no Estádio da Luz, derrotou o Real Madrid por cinco bolas a uma.

Face a essa vitória, o tri-semanário Mundo Desportivo, titulou, à largura da sua 1ª página:

«O “Vale dos Caídos” mudou-se para Lisboa.»

Na crónica, assinada por José Valente, a abrir a prosa, podia ler-se:

«Não foi realmente a batalha de Aljubarrota. Nem tão pouco a de Valverde, ou qualquer outra em que os espanhóis e os portugueses tivessem escrito páginas gloriosas da sua história. Mas foi bonito assistir-se à vitória do futebol sobre o do Real Madrid.»

Franco terá amarinhado pelas paredes acima, Salazar fez suas as dores do colega ditador, e terá mandado recado à direcção do jornal.

Em resultado do recado o jornalista foi despedido e a censura determinou a proibição, durante oito dias, da publicação do jornal.


No dia 5 de Março, quando o jornal voltou a ser publicado, lia-se na 1ª página:

«A Empresa Nacional de Publicidade e o director do “Mundo Desportivo” lamentam e repudiam as expressões contidas numa crónica inserida neste jornal e que muito feriram a sensibilidade dos seus leitores. Ao autor da referida crónica, chefe de redacção do “Mundo Desportivo”, único e total responsável pelo escrito que veio a público, foram aplicadas as sanções que o caso requeria.»

Já agora, recorde-se que, nesse jogo, o Benfica alinhou:

Costa Pereira, Cavém, Germano, Raul, Cruz, Pérides, Coluna, José Augusto, Torres, Eusébio e Simões.

Os golos foram marcados por José Augusto, Eusébio (29), Coluna e Simões.

O Benfica chegou à final da Taça mas acabou por a perder. Num jogo, realizado em Milão, 27 de Maio de 1965, com o Inter, Costa Pereira deu um enorme frango, e, ressentindo-se de um toque com Mazzola, abandonou o relvado. Naquele tempo, não havia substituições e Germano foi para a baliza, ficando o Benfica reduzido a dez unidades.

Quando a comitiva do Benfica chegou ao Aeroporto da Portela, Costa Pereira fazia-se transportar numa cadeira de rodas.

Da tal «lesão» acabou por curar-se mas, da vergonha daquele enorme frango, jamais.

quinta-feira, 10 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


E nem tudo será vinho e rosas de agora até ao fim mas nunca, nunca mais voltará a ser tão escuro.

Leonard Cohen em A Chama

MARCADORES DE LIVROS


AO CUIDADO DE QUEM ELEGEU ANDRÉ VENTURA


Sim, eu sei que escrever sobre o Chega e o seu líder tem sempre o risco de lhe dar ainda mais protagonismo. Sim, eu sei que, neste momento, decorrem negociações para a formação de um novo governo e que o centro-direita atravessa uma crise sem precedentes. Sim, eu sei que, politicamente, o país tem problemas gravíssimos que mereciam ser denunciados nestas linhas de texto. Mas não posso - não consigo - deixar de alertar para os riscos que a nossa democracia enfrenta com a eleição de André Ventura para a Assembleia da República. E, ao contrário do que muitos pensam, não é ignorando e muito menos normalizando os "venturas" que se faz este combate.

Confesso que fui daqueles que, até os dados serem oficiais, não acreditaram que fosse possível. Não porque seja ingénuo ao ponto de achar que os extremistas, os populistas e os oportunistas não conseguem penetrar e ascender nas democracias mais desenvolvidas - o mundo está cheio de exemplos desses -, mas porque achei sempre que o que se está a passar no Estados Unidos, no Brasil ou no Reino Unido, só para citar alguns casos, era suficientemente elucidativo para o eleitorado português.

Não foi. Por ignorância ou porque, afinal, há mais "venturas" no país do que eu imaginava, a verdade é que estas eleições mostram bem como uma parte do eleitorado da abstenção e dos votos nulos encontrou um "salvador" em quem se revê. Não tendo eu - e, felizmente, a esmagadora maioria dos eleitores - contribuído para a eleição do deputado do Chega, é bom que quem o fez tenha consciência daquilo em que nos meteu a todos. E do que ainda pode vir aí.

Chamar extremista e populista a André Ventura é quase um elogio que se lhe faz. Na verdade, o deputado do Chega é apenas um oportunista político que se ama a si próprio acima de todas as coisas e que não tem outro propósito que não seja a autopromoção. Um extremista - de esquerda ou de direita - tem um programa e uma ideologia política, com a qual podemos concordar ou discordar, mas tem. A agenda de André Ventura é a capa do tabloide em cima da mesa de café e a conversa que ela provoca durante horas entre um copo de três. É apanhar meia dúzia de conversas de pé de orelha e reproduzi-las com ênfase, para parecer convicto e determinado no que se está a dizer, mas sem qualquer substância.

Em André Ventura, a tática é falar primeiro e nunca pensar depois. Não há um pingo de política, o mínimo de visão estratégica. Ali mora um cata-vento que vai girando para noroeste e para sudoeste, num movimento rotatório constante que lhe permite dizer tudo e o seu contrário, mas deixando sempre um soundbyte no ouvido de quem o estiver a ouvir.

Em André Ventura há, pelo menos, uma incoerência insanável - que o Ricardo Araújo Pereira retratou de forma brilhante esta semana: a do político que se diz antissistema e que, ainda há dois anos, não só fazia parte dele como o elogiava.

Em André Ventura não há uma ideia sobre economia, saúde, educação, justiça ou mesmo sobre segurança interna, de que gosta tanto de falar. Há, isso sim, um aproveitamento vergonhoso do sofrimento dos outros, que é depois capitalizado eleitoralmente em proveito próprio, sem que quem vota nele se aperceba de que está a ser usado.

É por tudo isto - e por mais algumas coisas - que a eleição de André Ventura para deputado é uma ameaça à democracia. Porque, mesmo sozinho no Parlamento, pode fazer muitos estragos. Não pelas propostas que possa apresentar, que dificilmente - espero - terão acolhimento dos restantes partidos. Mas porque o novo deputado do Chega vai querer transformar o plenário da Assembleia da República num estúdio de televisão e fazer aquilo que sabe fazer melhor: montar um circo onde ele possa ser o protagonista principal.

André Ventura simboliza um enorme retrocesso para a nossa democracia. E desenganem-se os que acham que esta eleição é um epifenómeno que não vai crescer. Quem votou nele deu-lhe o palco de que ele precisava para poder crescer e "acordar" outros espíritos que andam para aí ocultos, escondidos cobardemente nas redes sociais. Só temos de estar "agradecidos": a Pedro Passos Coelho, por lhe ter dado o seu primeiro grande palco político; aos chamados partidos do sistema, que nas últimas décadas falharam com as pessoas e escancararam as portas da casa da democracia aos "venturas" desta vida; e a quem o elegeu, por nos proporcionar a todos este odor insuportável a mofo. Espero que durmam todos de consciência tranquila.

Anselmo Crespo no Diário de Notícias

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS


Este Homem É Perigoso

Peter Cheyney
Tradução L. de Almeida Campos
Capa: Cândido Costa Pinto
Colecção Vampiro nº  110
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Nem mesmo Miranda Van Zelden podia afastar de mim o sonho que se me desenrolava na cabeça à esquina de Picadilly com Haymarket.
Era uma daquelas noites. Sabem o que quero dizer. Tudo corria bem e uma pessoa sente-se capaz de bater todos os adversários no jogo de aventura em que está metido. Sentia-me no tecto do mundo e não é muitas vezes que isso sucede.
Olhem para mim. O meu nome real é Lemmy Caution, mas tenho tido tantos outros que às vezes já nem sei se me chamo João Ninguém ou se sou Quinta-Feira. Em Chicago – aquele ligar que os rapazinhos sabidos chamam Chi, apenas para mostrarem que já leram um livro policial escrito por um fedorento qualquer que declara ter sido quase morto por um dos pistoleiros de Capone, mas que nem sequer sai de casa à noite com medo da sombra – costumavam chamar-me o «’Duas vezes» porque diziam que era sempre preciso acertarem-me duas vezes para me fazerem parar e noutros sítios onde os chuis mudam de cor quando pensam em mim chamam-me Toledo.

É AQUI: TALVEZ UMA CIDADE


É aqui: talvez uma cidade.
Mas sem ninguém.
É aqui que não estou, corro, caminho, espero,
paro de súbito. Escuto. Palpo
um tronco largo, uma respiração?
Aqui, sem corpo.

Mas insisto: é uma cidade.
Ou é, ela a cidade, ou a respiração,
ou é o tronco largo no meio dela?
É o corpo que não existe ainda.
E insisto: uma golfada de ar.
Acorda, move-te, corpo, cidade, tronco,
uma só respiração possível?

Eu não sei: é talvez uma cidade.
Alguém só que respira e não tem corpo.
E o tronco calmo onde pousar a mão
e lentamente abrir o espaço.
Mas quem respira? Quem move o braço
de um corpo que ainda não existe?

E se a cidade existe, o tronco existe,
em vão designo o que em vão existe.
Mas é no vão do corpo que respiro
o corpo que procuro nesta cidade.
E o silêncio que se cava junto ao tronco
abre-me o espaço desse corpo vão.
Aqui é que eu tento e corro, espero, caminho.
É aqui: talvez uma cidade.

António Ramos Rosa em Respirar a Sombra Viva

terça-feira, 8 de outubro de 2019

OLHAR AS CAPAS


O Filme e o Realismo

Baptista-Bastos
Capa: Óscar Carneiro
Colecção Nova Crítica nº 14
Editora Nova Crítica, Porto, Dezembro de 1979

«Uma obra de arte entendida dinamicamente consiste, precisamente, no processo de disposição das imagens na mente e nas sensações do espectador, princípio dinâmico que está na base de todas as imagens verdadeiramente vivas.» Estas palavras de Eisenstein assumem, à distância dos anos, uma ressonância de apelo, sobretudo agora, em que a posição de um grupo de intelectuais e escritores portugueses, cujas obras reflectem uma séria tentativa para redescoberta do homem nacional, se opõem teses abstractas e um formulário que, nascido de erros gnoseológicos, coloca o homem no plano de uma impenetrável natureza morta. Com o estatismo contemplativo, alçapão por onde têm tombado alguns bons escritores portugueses, se antagonizam os intelectuais, que, através de uma pesquisa mais humana do que laboratorial, procuram localizar os problemas modernos. A polémica que se avizinha afigura-se-nos, talvez, mais importante e concludente do que a estabelecida na década 30-40. A chave, nessa altura, foi o neo-realismo. O neo-realismo de ontem está ultrapassado? Viva o realismo de amanhã!

ANTES DE UM LUGAR HÁ O SEU NOME


Antes de um lugar há o seu nome. E ainda
a viagem até ele, que é um outro lugar
mais descontínuo e inominável.

Lembro-me

do quadriculado verde das colinas
do sol entretido pelos telhados ao longe,
dos rebanhos empurrados nos carreiros,
de um cão pequeno que se atreveu à estrada.

Íamos ou vínhamos?

Maria do Rosário Pedreira em A Casa e o Cheiro dos Livros

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

POSTAIS SEM SELO


O que nos fica, finda a leitura deste livro, não é a imagem de um homem fazendo gestos para que o vejam: é a imagem de uma alma segredando aos outros qualquer coisa impossível de calar.

João Gaspar Simões, crítica ao livro As Solicitações e Emboscadas de Mário Dionísio

Legenda: citação tirada da Frenesi Loja

NOTÍCIAS DO CIRCO


Portugal era, até ontem, um dos quatro países europeus que não tinha qualquer partido da extrema-direita no Parlamento.
Agora, restam Malta, Irlanda e Luxemburgo  sem extrema-direita nos respectivos parlamentos.

domingo, 6 de outubro de 2019

ELEIÇÕES LEGISLATIVAS


O dia está a findar, uma temperatura amena, de quase Verão, vagueia por Lisboa.

As eleições trouxeram os resultados que, mais ou menos, se esperavam.

O número de abstencionistas cifrou-se em 45%.

É triste que quase metade dos eleitores se estejam borrifando para quem, durante quatro anos, nos vai governar.

Não se consegue vislumbrar quem queira dar a volta a este problema.

Mas estas eleições trouxeram um dado tremendamente negativo de consequências futuras preocupantes: como partido, a extrema-direita acaba de entrar no Parlamento português.

Em cada dia vamos perdendo a capacidade de nos indignarmos.

Mas não nos podemos resignar a este temor.

Aquele advogado, que é tromba do partido de extrema-direita, não merece apenas o nosso desprezo, a nossa tristeza, merece, acima de tudo, o nosso combate.

Face a esta canalha, é perigosíssimo baixarmos de vez os braços.

AH! AS PALAVRAS


O que importa é que as palavras em contexto ficcional, nunca são neutras. São ultravibráteis. Ao menor movimento, ressoam. São caprichosas, sensíveis a cada minuto que passa, a cada relance de luz. Não é indiferente lê-las numa página amarelada, numa página de brancura rasa, ao alto da folha, em baixo. A própria grafia implica uma ligeira alteração de tom.
As palavras são volúveis. Vêm de contrabando, estabelecem-se, envelhecem, desaparecem. Às vezes morrem, outras vezes ficam adormecidas e são despertadas pelo beijo mágico de algum príncipe das letras, que pode ser um humilde jornalista. Pulsam, ecoam, modulam a sua própria ressonância. Reverberam, espalham reflexos para todo o lado. São rebeldes, desapertam as cordas, esgueiram-se das clausuras. São leves e aéreas. São pesadas como tanques. Abismam-se, ampliam-se, encolhem-se. Redimensionam-se. São como o deus grego Proteu, sempre a mudar de forma e mesmo de género ("mha senhor", dizia-se antes de "senhora" assumir o feminino).»

sábado, 5 de outubro de 2019

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Prestava serviço militar obrigatório no Regimento de Infantaria nº 5 nas Caldas da Raínha e, por esse motivo, uma qualquer entidade recensearam-me nessa cidade.

Se fossemos votar, tinham-nos avisado de que os nossos votos seriam rigorosamente vigiados.

Decidimos na mesma ir votar em força na Oposição Democrática.

Sabíamos da inutilidade dos nossos votos, mas isso era uma outra história.

Se nas sessões de instrução nocturna fazíamos, em lugar das balelas militares, a leitura de poemas de A Praça da Canção de Manuel Alegre, aquele domingo não era tempo de assobiar para o lado.

Ainda na noite das eleições, o comandante da unidade foi informado da expressão do voto dos milicianos na CDE. O número (cerca de 80) permitiu que não houvesse graves consequências. Quem daria instrução no dia seguinte?

Mas, obviamente, a PIDE ficou a saber das nossas opções políticas.

Copio da Wikipédia:

«As eleições legislativas portuguesas de 1969 foram as primeiras realizadas após a saída de António de Oliveira Salazar da Presidência do Conselho. Decorreram num clima de aparente abertura política, designado por Primavera Marcelista. Realizaram-se no dia 26 de Outubro, tendo concorrido quatro listas: União Nacional ("Lista A"), Comissão Eleitoral de Unidade Democrática ("Lista B"), Comissão Democrática Eleitoral("Lista D") e Comissão Eleitoral Monárquica ("Lista C"). A União Nacional elegeu a totalidade dos 130 deputados, obtendo 980 mil votos. As listas oposicionistas obtiveram somente 133 mil, não conseguindo , no quadro do sistema eleitoral maioritário e plurinominal, eleger qualquer deputado para a Assembleia Nacional.»

Para que a farsa dessas eleições fosse completa, Salazar, em estado vegetal. foi votar. 

Na fotografia que encima o texto, Salazar encontra-se ladeado por uma enfermeira e pela governanta Maria.

As eleições realizaram-se no dia 26 de Outubro de 1969 e no dia 24 Marcelo Caetano dirigira-se à Nação.

São estas as palavras finais da comunicação:


Ficam os títulos dos jornais no dia seguinte às eleições:

Diário de Notícias:

«O Primeiro Grande Resultado da Eleição de Ontem: Vitória do Civismo.

Afluência record e ordem completa.

A Oposição Não Conseguiu Vencer em Nenhum dos Círculos em que se Apresentou e a Assembleia Nacional Será Constituída pelos Deputados que Eram da União Nacional.»

O Século:

»A Expressiva Vontade da Nação: «Sim» ao Prof. Marcelo Caetano.»

Diário da Manhã:

Esmagadora Vitória da Nação Sobre as oposições Ditas Democráticas.

Em números toscos refere-se que, da população maior, em cada 1000, 700 não estavam recenseados; dos 300 recenseados, 115 abstiveram-se, 162 votaram pela União Nacional e 22 pela Oposição Democrática.

Recorde-se, que Mário Soares realizou o seu primeiro acto público de divisionismo constituindo a CEUD contra a CDE.

A ditadura apreciou o sinal. 

Não que os votos da CEUD, juntamente com os da CDE, servissem para eleger um deputado, os dados estavam antecipadamente viciados, mas, como diria o outro, «não havia necessidade!»

Outras histórias!

OLHAR AS CAPAS


Dossier Candidatura/Leiria 1969

Sèrgio Ribeiro
Capa: Manuel Augusto
Colecção Biblioteca Popular nº 1
Prelo Editora, Lisboa, Abril de 1970

A substituição de Salazar no lugar de Presidente do Conselho, não poderia deixar de ter fundas repercussões no viver político português. Acrescente-se, para ficar como dado importante, que essa substituição não se deu cabalmente, uma vez que a morte cívica de Salazar não foi morte física, nem mesmo morte política. O facto de se manter vivo, e em S. Bento, o homem que para tantos servidores fiéis foi ( e talvez seja ainda para muitos) um mito, «salvador e encarnação da Pátria», também contribui para o complexo de condições em que se faz a política portuguesa.
Nesse complexo de condições, há que ter em conta o peso que a mudança faz pender para o lado das condições subjectivas. Quer isto dizer que se «sentiu» que qualquer coisa de novo acontecia. De certo modo, para tantos de nós foi a surpresa de ver realidade o que seria previsível e inevitável.
Nessas novas condições subjectivas, as forças políticas repensaram como actuar dentro das condições objectivas da sociedade portuguesa. 

QUOTIDIANOS


Cá estamos nós na tal pausa reflexiva antes das eleições do próximo domingo.

A discussão política esteve completamente em parte incerta durante a campanha eleitoral.

Houve insultos, palavreado oco e… o caso de Tancos.

O que se passou e não passou no episódio do roubo do armamento, na encenação do retornar das armas, um ministro da defesa saído de uma banda desenhada de última gaveta, generais e mais generais em contradições infantis, um tal de José Paulino, líder do bando assaltante que disse ao Expresso que iria contar tudo na justiça, o «Fechaduras» que vendo o caso mal parado, deu de frosque e a invocação de um papagaio-mor do reino que ninguém sabe quem é mas pode-se desconfiar…apenas desconfiar…

Cenas patéticas que arrasam governantes, justiça, militares e acabam numa lamentável ópera bufa.

Sabe-se agora que as campanhas eleitorais já não são o que eram.

Alguma vez foram necessárias?

Numa das primeiras eleições, o recorte não tem data, Margarida, 60 anos,  militante do Partido Comunista, trabalhadora rural numa aldeia perto de Aviz, disse ao jornalista que não sabia discutir política. «Só sei discutir o que a gente dantes não tinha e hoje tem, aquilo que passei e hoje já não passo.»