terça-feira, 20 de dezembro de 2022

PARA DEBAIXO DO VULCÃO

Um limão seco como uma anciã de cócoras com o seu capuz debai-

             xo do frio.

Uma pirâmide branca de sal e as moscas

revolteando sobre a mesa laranja, e chove, chove, um peão que

                arranha

e um aparo que arranha, escrevendo oblíquas palavras.

Guerra. E os eléctricos de pescoço quebrado lá fora

e o súbito pensamento quebrado do rosto de uma rapariga em

                Hoboken

e uma tartaruga voltada para cima morrendo lentamente

 na varanda da marisqueira, sangue

que rodeia a sua boca e o chão branco –

pronta para amanhã.

Não haverá amanhã, o amanhã acabou.

Trevo e cheiro a abetos e a grandes ervas,

e peru com molho e a Inglaterra de repente,

a recordação da casa, mas então

os mariachis, dissonantes, pois a ave do maguey

levantou voo, e o empregado de mesa leva

um ondulante prato negro de emoção,

e o rosto do peão é uma mancha de corrupção.

Deixamos de lado o horror do clima

nesta terrível terra de homens meio enterrados

onde vivemos com Canuto, com o relógio de sol e o peixe vermelho,

o leproso, a trepadeira, juntos na torre verde,

e ao pôr do sol tocamos, com flauta e guitarra,

a canção, a canção da eterna espera de Canuto,

o equívoco da minha espera, a flauta do meu pranto,

noiva do nauseabundo vácuo e da raiz descarnada

e a chuva sobre o comboio que lá fora se arrasta, se arrasta,

todo esse vazio na minha alma que agora dorme

onde outrora caminharam altivos tigres limonada andrajosos lepro-

                sos verdes

álcoois peras pimentas pobres e Leopardis recheados;

e o ruído do comboio e a chuva no cérebro…

Tão longe do celeiro e do campo e da azinhaga –

esta pira de Bierce, este trampolim de Hart Crane!

 A morte tão longe da minha casa e da minha mulher

A morte que temo. E rezei pela minha vida enferma –

 

«Um cadáver deve enviar-se por expresso»,

disse o Cônsul misteriosamente, acordando de repente.

 

Malcolm Lowry

Tradução de José Agostinho Baptista em Rosa do Mundo

segunda-feira, 19 de dezembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


Não creio em Deus como um religioso, mas continuo fascinado por uma das melhores histórias que foram alguma vez escritas.

Alberto Manguel

Colaboração de Aida Santos

RONDA DA PAZ

As mães, recordando batalhas,
sentadas se encontram no umbral.
Os meninos foram ao campo
colher as frutas do ananás.

Ao pé de seu cerro alemão
com o eco se põem a brincar.
Meninos de França respondem
sem rosto no vento do mar.

Palavra e refrão não entendem
mas logo buscam se avistar.
E não haverá mais segredo
quando nos olhos se mirarem.

Agora no mundo o suspiro,
O sopro se pode escutar.
E a cada estribilho as cirandas
se aproximam um pouco mais.

As mães, subindo a vereda
de odores que leva ao pinhal,
chegando à ciranda, começam
colhidas pelo vento a voar.

Os homens procuram por elas
e, sentindo a terra girar
e o canto dos montes ouvindo,
a volta do mundo vão dar.

Gabriela Mistral

domingo, 18 de dezembro de 2022

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


 Todos os anos, de há muitos para cá, muitos mesmo, tem a ideia de escrever uma carta ao venerando sacripanta de barbas e casacão vermelho, com posto de correio em Rovaniemi, lá para o Circulo Polar Árctico, plena Lapónia onde, dizem, os dias são azuis, que lhe coloque, no cantinho esquerdo da chaminé, uma garrafa de verdadeira água tónica para que ele possa beber o perfeito “gin-tonic”.

Não pede a lua, apenas uma garrafinha dessa tónica.
Ele explica o que é isso da verdadeira água tónica: é a que tem quinino. A que se vende por aí tem hidrocloreto de quinino. Faz um certa diferença...
Foi o José Duarte que lhe disse que a tónica com quinino, empresta ao “gin” um sabor único, um sabor de paraíso. De fazer inveja aos deuses, acrescentou.
É com isso que ele se contentava neste Natal. Sabe que não vive em Sirius, mas ficava feliz. E o Khaled, o dono do mini-mercado-de-conveniência, aqui da rua, já lhe garantiu que arranjará limões com casca amarela.
No fundo vive de coisas simples, pequenas alegrias, pequenas esperanças. Sorri, quando lhe desejam Feliz Natal, mas sabe, também, que quando se estende uma mão, raras vezes se encontra outra.

sábado, 17 de dezembro de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO

Os amanheceres dos dias deixaram de ser radiosos.

Continuam as ameaças de chuvas constantes, ventos fortes, situação crítica que descanda em avisos amarelos, laranja, vermelho.

Enquanto isso,  o Presidente da República vai dando sinais de que deverá enviar o diploma da despenalização da morte medicamente assistida novamente para apreciação preventiva do Tribunal Constitucional  e as incertezas vêm à tona de água.

Ao que dizem, os novos juristas do Palácio Ratton têm agora uma  postura um tanto ou quanto retrógrada no que respeita à eutanásia, muito longe dos juristas que apreciaram o diploma em 2021. 

Se há leis que tiveram um atento cuidado de tempo de discussão visando, no fundo, as partes que ofendem a vertente católica de Marcelo, a lei da Eutanásia, é uma delas.

Acontece que, neste momento, o presidente é um homem que se sente solitário em Belém e que olha, apreensivo, uma queda de popularidade que o vai envolvendo.

São muitos os riscos que levam a que Portugal, uma vez mais, não consiga ter uma lei que permita a morte assistida e a despenalização dessa ajuda.

A Constituição diz que Portugal é um Estado laico, não confessional, onde vigora a liberdade de religião e de crença, mas a Igreja consegue impôr a sua vontade de que a Vida pertence a Deus.

E assim ficamos nós, pelo que os amanheceres dos dias deixaram de ser radiosos.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

O FLAGELO DA FDJ

Por motivos que se perguntassem nem saberia responder, não sou leitor de Miguel Esteves Cardoso.

Mas mão amigo fez o favor de me enviar esta crónica de Miguel Esteves Cardoso porque, conhecendo a minha falta de jeito para imensas e diversas coisas, haveria de gostar de ler.

Aqui fica a crónica:

«Desde miúdo que pertenço à FDJ. Foi quando fiz a minha primeira torrada que os meus pais me inscreveram. Desde aí, sempre que posso, tenho promovido os valores da FDJ.

Quando me perguntam pela sigla do crachá, ou das decalcomanias na minha mochila, digo que são da Federação Da Juventude. Mas os sócios que me estiverem a ler saberão que, na verdade, correspondem a Falta De Jeito.

Quando Chico Buarque canta O Meu Amor, as palavras entram-nos pela consciência adentro: “o meu amor tem um jeito manso que é só seu...” Mas a falta de jeito não lhe fica atrás: também é só minha.

Lembro-me do meu pai a tirar-me o quebra-nozes ou o berbequim ou o tira-linhas das mãos e, olhando para a cagada feita, exclamar: “Mas que falta de jeito! Chega a ser espantoso como é que um só ser humano consegue ter tanta falta de jeito!”

Começava a angústia genética: “Mas de onde é que tu herdaste essa falta de jeito? Dos teus pais, não foi. Dos teus avós, tão-pouco. Mas então de onde? Qual foi o borra-botas do antepassado que te inquinou com tanta falta de jeito, santo Deus?”

A minha mãe defendia-me, mas só superficialmente, sem convicção, alegando que eu não tinha FDJ - o que eu era, era canhoto.

Mas não é por ser-se canhoto que se tem FDJ. O que não faltam por aí são canhotos maneirinhos, cheios de habilidades, capazes de tocar a Scheherazade de Rimsky-Korsakov com um abre-latas e um fio de pesca.

O primeiro choque do portador de FDJ é descobrir que não tem cura. Pois a FDJ tem o espantoso condão de moldar-se a qualquer actividade humana. As palavras mais dolorosas que um portador de FDJ pode ouvir, ao tentar (debalde) executar uma tarefa, são: “Não se preocupe. É só uma questão de jeito...”

Pois é, lá isso é, amigo, está bem visto, sim senhor: é tudo uma questão de jeito.

É tudo uma questão de jeito até a pessoa amada se virar para nós e sibilar: “Sai daí! Tu afinal não tens jeito nenhum!” É que ninguém acredita quando dizemos que temos FDJ. Mas temos.»

Miguel Esteves Cardoso no Público de 15 de Novembro de 2022

quinta-feira, 15 de dezembro de 2022

CONSELHOS INÚTEIS... A NINGUÉM...

«Não casar com mulher nova.
Não procurar a companhia de gente nova, a menos que ela o queira.
Não ser impaciente, nem rabugento, nem desconfiado.
Não depreciar o presente, as suas concepções, modas, homens, guerras, etc.
Não ser doido por crianças, mas também não as repelir.
Não estar sempre a contar a mesma história às mesmas pessoas.
Não ser avarento.
Não negligenciar o decoro, ou o asseio, para não cair na sordidez.
Não ser demasiado severo para com a gente nova, mas ser tolerante para as suas loucuras e fraquezas.
Não ser influenciado, nem dar ouvidos a ditos e mexericos de criados, ou seja de quem for.
Não estar sempre a dar conselhos, a menos que mos peçam.
Pedir a alguns bons amigos que me apontem, entre estas resoluções, aquelas que eu não tiver cumprido ou tiver negligenciado, e em quê; e modificar-me de acordo com essas críticas.
Não falar demais, sobretudo de mim.
Não me gabar da minha beleza passada, da minha força, nem do meu valimento junto das damas, etc.
Não dar ouvidos à lisonja, nem pensar que posso ser amado por uma jovem.
Não ser categórico nas minhas afirmações, nem teimoso.
Não me dispor a cumprir todas estas regras, por receio de não observar nenhuma delas.»

Jonathan Swift, 1699.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

O NATAL COMO TEMPO DE SOLIDÃO


 

Em tempo  de Natal volto  à Biografia de Manuel António Pina escrita por Álvaro Magalhães: Para QuêTudo Isto?

 Manuel António Pina nasceu a 18 de Novembro de 1943.

Tempos difíceis. Como escreve Álvaro Maglhães:

«Estávamos então em plena Segunda Guerra Mundial e o governo acabar de instituir o racionamento de produtos essenciais e de lançar um despacho que obrigava à diminuição ds salários. As condições de vida dos mais pobres, que já eram deploráveis, degradaram-se bastante, o que geraria marchas de fome e greves de trabalhadores. As próprias filas do racionamento eram focos latentes de revolta.»

 Por isto ou por o que tenha sido, o Natal sempre entristeceu Manuel António Pina. Apenas a construção do presépio o animava. Mas com alguns problemas porque os pais não lhe compravam outros bonecos:  «O Menino jazia deitado num ninho de pintarroxo; a vaca e o burro eram desproporcionados em relação ao tamanho do menino e o Rei Mago preto tinha-se partido noutro Natal e, no seu lugar, estava agora um jogador do Sporting, com bola e tudo!»

Numa crónica datada de 2005 escreveu:

Como a infância o Natal é algo que só podemos ter quando o perdemos. Quando somos crianças, o Natal próximo de mais, e real de mais, para ser verdadeiro. Só a memória (e a memória construímo-la como construímos um presépio: com pedaços) o torna verdade. E só a memória nos permite saber, enfim, algo essencial, que o Menino na manjedoura éramos nós.»

 Mas numa crónica, publicada na Visão de 26 de Novembro de 2002, o Pina deixa escorrer a tal solidão natalícia que lhe acompanhou a vida. Intitula-se a crónica «Provavelmente Natal»:   

 «Há algo de cerimonioso no Natal que irrita e seduz: a iconografia kitsch, a simbologia (no entanto vasta: um deus nascendo, menino, entre os homens e, ao mesmo tempo, um homem nascendo humanamente entre os deuses, um vértice vertiginoso em que, por um momento, divindade e humanidade se tocam) reduzida à extrema literal idade por séculos de púlpito, o comércio dos presentes.

E o melancólico ritual das crónicas natalícias. Em mais de trinta anos de jornais, devo ter escrito, pelo menos, duas dúzias delas. E de todas as vezes me sentei diante da máquina de escrever (agora diante do insondável écran do computador) com a inquieta sensação de ter sido, também eu, apanhado (e como poderia não o ser?) numa amável armadilha.

Rubem Braga repetiu uma vez no Cruzeiro uma crónica que já publicara antes, justificando-se com a desconcertada circunstância de Van Gogh não ter pintado os Girassóis (cito de cor, os exemplos podem ter sido outros) para serem olhados apenas uma vez, nem Beethoven composto a Pastoral para uma única audição. Fosse eu Rubem Braga e, provavelmente, escreveria hoje, de novo, uma crónica já longínqua intitulada «Os dois natais». Assim resta-me a memória.

Porque tudo é memória. Alguém – talvez eu, mas quem? – lembrando-se de mim. A mãe, na cozinha, fazia os fritos e eu punha a mesa. Do candeeiro da sala pendiam fitas douradas e estrelas de papel de lustro e tínhamos colocado raminhos de azevinho nos espelhos do louceiro. No presépio, minuciosamente construído com musgo, serradura, algodão em rama, palhinhas, faltava o rei mago preto, que caíra e se quebrara no ano anterior, e, no seu lugar, avultava insolentemente, por birra do meu irmão mais novo, um jogador do Sporting, com bola e tudo!

Em que lugar o passado permanece imovelmente passado, passando para sempre? Quem, como num sonho, se lembra agora de tudo isto?

O Natal era então tempo de solidão. Uma brevíssima eternidade parava, sem eu saber, a meu lado, muito perto de mim, tão perto que quase podia tocá-la. E, contudo, ocultamente e culpadamente, como se pecasse, eu sentia-me infeliz sem motivo. Às vezes fechava-me no quarto a chorar em silêncio, até que a mãe vinha bater à porta chamando para o jantar. Depois, à meia-noite, abria um a um os coloridos embrulhos dos presentes, pressentindo confusamente que, ao recebê-los, os perdia para sempre. Da mesma forma inconcreta como o Natal e eu próprio nos perdíamos também.

Por alguma grande razão me recordo destas coisas. Ou se recordam elas de mim: a mãe, a sala, a toalha bordada sobre a mesa, o cão ladrando lá fora no quintal. Talvez, quem sabe?, seja preciso arrancar as raízes, «cortar a árvore, fazer uma cruz e levá-la às costas». Talvez seja preciso criar raízes na ausência de tudo. Mas para que?, para que?

Hoje sinto-me como um intruso nesse secreto Natal infantil passado. As minhas palavras perturbam o seu silêncio, o meu olhar cega-o, a minha memória afasta-o irremediavelmente de mim. Dele apenas imagens dispersas ficaram: fitas, estrelas, figurinhas de barro. O resto já não me pertence. Ou (como posso sabê-le?) pertence-me num sítio que já não me pertence. E onde não me é dado, nem às minhas palavras, alcançar.»

A PALAVRA IMPOSSÍVEL

 

Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim
A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.

Adolfo Casais Monteiro


terça-feira, 13 de dezembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Não somos nós que guardamos as lembranças, são as lembranças que nos guardam.

Mia Couto

NOTÍCIAS DO CIRCO

Numa altura em que os serviços de urgência de vários hospitais do Serviço Nacional de Saúde estão sob grande pressão, devido à falta de recursos humanos, e em que o diretor executivo do SNS assume que a criação da especialidade é um dos objetivos para as mudanças a introduzir, a Assembleia de Representantes da Ordem dos Médicos chumbou ontem, a criação da nova especialidade de Medicina de Urgência.

A criação da especialidade, que anda a ser discutida há mais de 20 anos, parecia ser consensual mas esbarrou na Assembleia de Representantes da Ordem dos Médicos, um órgão elitista, conservador, retrógrado, mais interessado na defesa férrea da medicina privada do que no Serviço Nacional de Saúde.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Volta e meia o meu avô dizia:

Domingo temos de ir mais cedo para pagar as quotas.

Todos os meses um cobrador ia a casa de cada sócio para receber as quotas do Benfica.

Todos os meses o meu avô deixava o dinheiro para as quotas.

Simplesmente, a vida da família era muito modesta e os dias amargos obrigavam a minha mãe a utilizar o dinheiro das quotas do Glorioso para a compra  de 2 decilitros de azeite, meio quilo de batatas, uma cebola, o que que fosse na mercearia.

E esse dinheiro das quotas muito raramente era reposto.

O ir mais cedo implicava ficar numa longa bicha à espera de vez. Porque nem sempre havia dinheiro quando os diversos cobradores batiam à porta dos sócios e estes para verem a bola tinham que se dirigir aos guichets do velho Estádio Da Luz ainda de apenas dois anéis.

Já o meu avô não estava connosco, podendo utilizar o débito directo para pagamento das quotas, não aderi ao sistema e, durante largos anos, ia pagá-las ao estádio, lembrando sempre a velha e costumeira frase do avô: Domingo temos de ir mais cedo para pagar as quotas.

O jornal Record revelava um destes dias que ainda existem clubes que com as facilidades de uma enorme gama de pagamentos on line se recusam a prescindir destes quase arcaicos cobradores de quotas.

Legenda: imagem do Record.

A UM NEGRILHO

Na terra onde nasci há um só poeta
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

Miguel Torga

segunda-feira, 12 de dezembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


Não acredito que os seres humanos tenham mudado muito. Acho que somos feitos da mesma coisa, mesmo que a embalagem pareça um pouco diferente.

Claire Keegan

CONVERSANDO


 Quando num alfarrabista das Escadinhas do Duque, deparei-me com A Balada do Café Triste, apenas conhecia Carson McClullers de nome, e não hesitei em trazer o livrinho para casa.

Na contracapa o editor não deixou de colocar a opinião de José Rodrigues Migueis, tradutor de  Coração Solitario Caçador, da mesma autora: «O caso mais impressionante da actual literatura norte-americana.»

«A Balada do Café Triste» narra o encontro, num pequeno povoado norte-americano, de Miss Amélia, um corcunda que se afirma vagamente seu primo e um condenado, Marvin Macy, que regressa da prisão para se vingar de um repúdio antigo. A particular sensibilidade de Carson McCullers transforma este encontro de paixões numa história bela, estranha e nostálgica que termina com um combate entre Miss Amelia e Macy no café que depois disso permanecerá para sempre triste.»

Os restantes livros Carson McCullers,  não tardaram em encontrar lugar por aqui.

Mas há dias, pequeno passeio pela Biblioteca da Família, deu para verificar que um qualquer pássaro terá levado Relógios Sem Ponteiros. Que se passou? Algo para desvendar após os dias natalícios.

Mas o passeio, nunca há passeios inúteis pela Biblioteca da Casa,  deu para pegar  em  Reflexos Nuns Olhos de Oiro

Um livro, que é um verdadeiro arraso, uma capa muito bonita, uma excelente tradução de Cabral do Nascimento e que deu um excelente filme de John Huston com Elizabert Taylot e Marlon Brando.

Minuto para recordar a malta dos meus tempos do Piolho em que ninguém se importava com o realizador, antes a pergunta sacramental: «com quem é a fita?

Agora, que chove desalmadamente em Lisboa, apetece-me copia a citação da página 59:

– És feliz? – perguntou-lhe inopinadamente a senhora.

O filipino não era desses que se perturbam com uma pergunta íntima e inesperada.

– Sou – respondeu logo, sem hesitar. – Quando a senhora também o é.

O sol e a luz do lume brilhavam no quarto. Oscilava na parede um raio luminoso, que Alison observava, enquanto ouvia distraída o monólogo do rapaz.

– O que me custa compreender é que se saiba – dizia ele. Muitas vezes principiava a conversa por uma alusão vaga, misteriosa, como esta. Era preciso esperar um pouco para apreender o sentido das suas palavras. – Só depois de estar muito tempo aqui- é que percebi que a senhora sabia. Agora creio que toda a gente… excepto o senhor Sergei Rachmaninov.

– De que é que estás a falar?

– Minha senhora, acredita mesmo que o senhor Sergei Rachmaninov saiba que uma cadeira é uma coisa sobre a qual nos sentamos ou que esse relógio marca as horas? E se eu tirar um sapato e lho meter à cara, dizendo: «Que é isto, senhor Rachmaninov?», o senhor pianista será capaz de responder, como qualquer pessoa, «É um sapato»? Custa-me tanto a crer!

NOTÍCIAS DO CIRCO

Já se foram os dias de Portunaldo?

O poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade, que gostava mesmo de futebol, dizia: «Bem-aventurados os que não entendem nem aspiram a entender de futebol, pois deles é o reino da tranquilidade.»

A MEIO DESTE INVERNO

A meio deste inverno começaram

a cair folhas demais. Um excessivo

tom amarelo nas imagens.

Quando falei em imagem

ia falar de solo. Evitei o

imediato, a palavra mais cromática.

O desfolhar habitual das memórias é

agora mais geral e também mais súbito.

Mas falaria de árvores, de plátanos,

com relativa evidência. Maior

ou menor distância, ou chamar-lhe-ei

rigor evocativo, em nada diminui

sequer no poema a emoção abrupta.

 

Fiama Hasse Pais Brandão

domingo, 11 de dezembro de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO

Marcelo Rebelo de Sousa, a banhos nas praias de Cabo Verde, de calções e toalha na mão, disse aos jornalistas logo que receba a lei sobre a Eutanásia, dará uma rapidinha resposta.

Não deverá estar longe da última que, sobre o assunto deu: o Tribunal Constitucional diga de sua e douta opinião.

sábado, 10 de dezembro de 2022

QUOTIDIANOS

«…contam-se pequenas anedotas, como sempre nos funerais. A lembrar que a morte é a ironia maior da vida.»

Ana Cristina Leonardo, crónica no Público de hoje.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2022

LA NAVE VA!...

A Assembleia da República aprovou hoje o diploma que regula a prática da eutanásia, apresentado pela Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e que tem por base as iniciativas legislativas apresentadas pelo BE, PS PAN e IL.

O diploma aprovado vai ser apreciado pelo presidente da República Portuguesa, que pode solicitar a fiscalização preventiva ao Tribunal Constitucional ou vetar.

A Ordem dos Médicos voltou esta segunda-feira a manifestar-se contra a despenalização da eutanásia, argumentando que esta prática viola a ética e a deontologia dos médicos, que "estão preparados para salvar vidas.

Que se pode esperar desta gente?

João Semedo que foi sempre um defensor da Euranásia:

 «Eu não quero impor a eutanásia seja a quem for, mas não aceito que me imponham opções que não são as minhas. Muito menos quando a consequência dessa imposição é sofrer mais ou reduzir-me a um estado vegetativo.»

O médico e escritor Fernando Namora morreu em Janeiro de 1989.

Até morrer, sofreu horrivelmente.

O Dr. José Luciano de Carvalho que, durante anos e anos, assistiu a nossa família, quando num dia longínquo lhe perguntei a sua opinião sobre a eutanásia, não se mostrou favorável e contou-me que, durante a doença, ao visitar o seu amigo e colega Fernando Namora, e este lhe pedira, encarecidamente, que o ajudasse a morrer.

- Fernando, sabes tão bem como eu, que não te posso ajudar: fizemos um juramento…

Falava do Juramento de Hipócrates.

E volto a uma história contada pelo José Cardoso Pires:

«Dois velhos a viverem há cinquenta anos numas águas furtadas da Avenida Marginal, frente ao Tejo: ele reformado da construção naval, sentado à cabeceira da mulher que esperava a morte que não vinha, e a olhar os navios que entravam e saíam da barra; a estudar os voos das gaivotas; a confirmar hora após hora os comboios que passavam entre ele o rio por essas praias além; a pensar mundos perdidos para lá dos nevoeiros. E vencido, impotente, porque a mulher há tantos anos, minada por metástases até aos ossos gritava, dormia e respirava dores, implorando a Deus que a levasse, depressa, Senhor, depressa para a sua santíssima presença.

Uma manhã, ao despertar, o velho viu-a por instantes bela e serena como nos seus tempos de amor. E chorou de mansinho e também ele desejou morrer.

Depois sentiu as dores a aproximarem-se de novo, e a escorrer lágrimas de desespero, de cansaço, de saudade, abraçou-se à mulher amada, envolveu-se nela e no seu sofrimento e cobriu-lhe o corpo de facadas.

Suicidou-se atropelado por um comboio, mesmo em frente da janela onde costumava ver passar os navios».

quinta-feira, 8 de dezembro de 2022

ACREDITA NO QUE QUISERES

«Mistura o que quiseres, se fores ao parque ou à rua que desce, no Príncipe Real. Põe lado a lado literatura da boa —porque alguém disse que o que é bom é azul — e política medíocre. Equilibra as marcas para não haver sobre-representação. Mistura títulos com exemplares, chancelas com selos de correio, leitores com clientes, facturação com escoamento de stock. Usa ingredientes biológicos, recicla ideias. Mistura-te com pessoas que gostam de coisas que suportas com dificuldade. Não deixes de falar com desconhecidos. Não espreites perfis. Mistura o que quiseres, podes ser duas pessoas ou mais: vender e ser vendido, escrever biografias e cortá-las até terem duas linhas — uma delas pode ser tua, os outros relatos também são falsos. Ouve e copia sotaques alheios, como se a tua família fosse outra. Mistura o que quiseres, não expliques, não te queixes, cita sem saber quem citas. Escreve sempre que precisares. Usa o imperativo na segunda pessoa quando pensas numa multidão de desconhecidos que não está  lá. Diz outra vez que preferes esse tempo e modo ao que era anterior. Trata o teu colega como gostarias que ele te tratasse a ti. Mistura casa com trabalho, caso com trabalho, costura com candura. Mistura o que cozinhas e o que temes. Vende os teus medos: faz com que não te pertençam, não vendas o que é teu. Acredita no que quiseres, esquece-te de que a tua intuição está provavelmente sempre certa. Diz que tudo é exercício: que sabes, sem anúncio, que o teu lugar já é de outra pessoa. Diz que tudo era cansaço e deseja felicidades a quem vier.»


Margarida Ferra em Sorte de Principiante

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Encontro em Tânger

Laurence Wilkinson

Tradução: Tomás Ribas

Capa: Cândido Costa Pinto

Colecção Vampiro nº 108

Livros do Brasil, Lisboa s/d

À uma hora da manhã fartei-me de observar a casa escura e silenciosa. Estava farto de me livrar dos polícias que queriam saber o motivo da minha espera, e farto de desperdiçar tempo, pedi a Dickie que me levasse de volta para o jornal.

terça-feira, 6 de dezembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


José Saramago não gostava do Natal. Tão pouco de festas de aniversário.

Talvez reflexo de uma infância e de uma adolescência muito difíceis o Natal, para Saramago, não foi um toque de mágica. 

Deixou escrito numa crónica; para incréus empedernidos como eu, o caso não tem assim tanta importância: é mais uma das trezentas mil datas assinaladas de que se servem inteligentemente as religiões para aferventar crenças que no passar do tempo se tornariam letra morta e água chilra

De uma maneira seca, quase definitiva, finalizou um poema: É dia de Natal. Nada acontece.

Podia ser Natal e não ser farsa, como escreveu António Manuel Ribeiro numa canção dos “UHF”.

Na obra lida de José Saramago, encontrei três abordagens ao Natal.

O poema Natal em Os Poemas Possíveis,  a crónica A Neve Preta em Deste Mundo e do Outro e outra crónica em A Bagagem do Viajante que, precisamente, intitulou Natalmente crónica.

Tenho conhecimento que na revista “Colóquio/Letras” nº 151/152, Fevereiro 2000, totalmente dedicada a José Saramago, está publicado um conto inédito: Natal.

Fica aqui o excerto de A Neve Preta que consta do livro de crónicas Deste Mundo e do Outro:

«Estes pequenos filhos dos homens têm andado pelas minhas crónicas. Mas de crianças tenho falado como quem as conhece bem, só porque também por lá passou. E agora pergunto: que são as crianças? Dez mil pedagogos se preparam para me responder. Afasto de antemão as respostas, umas que já conheço, outras que adivinho, e torno a perguntar: que são crianças?

Que seres estranhos são esses que viram para nós os seus rostos frescos, que nos perturbam às vezes com um olhar subitamente profundo e sábio, que são irónicos e gentis, débeis e implacáveis, e sempre tão alheios? Temos pressa de os ver crescer, de os admitir no clã dos adultos sem surpresas. Somos impacientes, nervosos, porque estamos diante de uma espécie desconhecida... Quando passam a ser nossos iguais, falamos-lhes da infância que tiveram (a que recordamos, como observadores do lado de fora) e sentimo-nos quase ofendidos porque eles não gostam de ouvir lembrar uma situação em que já não se reconhecem. São adultos, agora: outra espécie humana, portanto.
Nessa infância está, por exemplo, a história que vou contar e que devo a um desses tais encontros de acaso. E depois de eu a reproduzir aqui, dir-me-ão se não tenho razões para insistir: é preciso cuidado com as crianças... Não o cuidado comum, que tende a prevenir acidentes, aqueles que aparecem sob esta rubrica nas notícias dos jornais, mas um outro cuidado, mais melindroso e subtil. Eu explico.
Uma professora mandou um dia aos seus alunos que fizessem uma composição plástica sobre o Natal. Não falou assim, claro. Disse uma frase como esta: «Façam um desenho sobre o Natal. Usem lápis de cores, ou aguarelas, ou papel de lustro, o que quiserem. E tragam na segunda-feira.» Assim ou não assim, os alunos fizeram o trabalho. Apareceu tudo quanto é costume aparecer nestes casos: o presépio, os Reis Magos, os pastores, S. José, a Virgem e o Menino Jesus. Mal feitos, bem feitos, toscos ou apuradinhos, os desenhos caíram na segunda-feira em cima da secretária da professora. Ali mesmo ela os viu e apreciou. Ia marcando «bom», «mau», «suficiente», enfim, os transes por que todos nós passámos. De repente... Ah, mas é preciso muito cuidado com as crianças! A professora segura um desenho nas mãos, e esse desenho não é melhor nem pior que os outros. Mas ela tem os olhos fixos, está perturbada; o desenho mostra o inevitável presépio, a vaca e o burrinho, e toda a restante figuração. Sobre esta cena sem mistério cai a neve, e esta neve é preta. Porquê?
«Porquê?», pergunta a professora, em voz alta, à criança. O rapazinho não responde. Talvez mais nervosa do que quer mostrar, a professora insiste. Há na sala os cruéis risos e murmúrios de rigor nestas situações. A criança está de pé, muito séria, um pouco trémula. E, por fim, responde: «Fiz a neve preta porque foi nesse Natal que a minha mãe morreu...»
Daqui por um mês chegaremos à Lua. Mas quando e como chegaremos nós ao espírito de uma criança que pinta a neve preta porque a mãe lhe morreu?»

José Saramago em Deste Mundo e do Outro, página 189.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO

A esmagadora maioria dos deputados do PSD são gente de sacristias.

Luís Montenegro, que não é deputado, mas bebe e lê nas mesmas sacristias, faz um pequeno intervalo sobre as pauladas diárias no governo de António Costa, para dizer ao povo que vai avançar com um pedido de referendo à Eutanásia.

«É minha convicção que esta matéria continua a ser controversa.»

Na semana em que os projetos dos partidos, após vários e diversos adiamentos, iriam ser votados na Assembleia da República, o presidente do PSD descobriu que os portugueses «ainda não estão suficientemente esclarecidos» sobre a matéria. 

Já há dias, a ex-múmia-presidencial, considerava que a legalização da eutanásia «não respeita o espírito da Constituição» e defendia que a sua prática é «mais um sinal da deterioração da qualidade da nossa democracia».

Ainda Cavaco Silva:

«Num país como Portugal, com um dos piores riscos de pobreza e exclusão social da União Europeia e sem uma rede de cuidados paliativos a que os doentes de famílias mais desfavorecidas possam ter acesso, num Portugal em que se acentua o empobrecimento em relação aos outros países, a prioridade dos deputados é a legalização da prática da eutanásia, autorizar um médico a matar outra pessoa».

Como temos vindo a citar psd’s, termine-se com José Pacheco Pereira de um teor diverso dos seus pares:

«Admito que muitos médicos e enfermeiras tenham objecção de consciência que os impeçam de participar numa morte assistida e isso deve ser respeitado. Mas é uma das muitas hipocrisias em que vivemos, ignorar que muitas eutanásias consentidas se passam nos nossos hospitais pelas melhores razões: a recusa do sofrimento gratuito em quem o não quer ter e deseja ter este último acto de vontade e liberdade.

 Ninguém vive para si mesmo. Ninguém morre para si próprio”, dizia um cartaz numa manifestação contra a eutanásia em 2018. Com a primeira frase estaria de acordo, mesmo percebendo que o seu significado religioso não é o meu, mas aceito, não por Deus, mas pelos “outros”. Mas a segunda frase só pode ter sentido para quem é crente, e eu não sou. Ela obriga-me a ser, e por isso afecta a minha liberdade.

 Eu votaria a lei da eutanásia, mesmo mal formulada e imperfeita, porque, tanto quanto possível, quero ser dono da minha morte.»

OLHARES


 A exaustão do povo chinês, tornou folhas de papel em branco, numa sugestiva forma de protesto.