«Não há nada como morrer para passar de
besta a sábio, e este é um velho hábito português típico de um país que, não
respeitando nada, está sempre pronto para o salamaleque fúnebre.»
José Pacheco Pereira em Personalia
«Não há nada como morrer para passar de
besta a sábio, e este é um velho hábito português típico de um país que, não
respeitando nada, está sempre pronto para o salamaleque fúnebre.»
José Pacheco Pereira em Personalia
Um Agosto quentérrimo.
Pouquíssimos os clientes na esplanada do Café do Bairro,
mas o Dudu nunca falha e atirou para quem o quis ouvir:
No
creo en brujas, pero que las hay, las hay.
Deixem o Luís continuar a trabalhar, a trabalhar,
deixem, deixem, deixem…deixem… e vão ver o descaminho que isto vai levar…o país em
chamas e as excelências da presidência e do governo a jantarem em Cacela Velha…
gente fina é outra loiça… pois então…
Neste Dia, no ano de 1983, um domingo, Vergílio não o
diz, mas passa férias na sua casa de Fontanelas.
Não resisto a transcrever as palavras finais que
Vergílio Ferreira escreveu no dia de ontem:
- Não leio. É um livro mau.
- Mas toda a gente diz que é bom.
- Exactamente por isso.
Mas voltemos a 14 de Agosto de 1983 e começa por
escrever:
«Deus sive natura. Hoje
apetece-me pensá-lo. Hoje apetece-me admitir esse velho monismo espi
Hollywood: Glória e Decadência
Diversos autores
Cadernos de Cinema nº
9
Publicações Dom
Quixote, Lisboa Outubro de 1970
Hollywood agoniza,
Hollywood está morta!
Todavia, tal como a fénix e verdadeira encarnação que é deste
capitalismo que, não obstante as previsões, se recusa a perecer, Hollywood, uma
vez superada cada uma das crises, ressurge diferente e semelhante a si mesma.
Perdem as casas suas várias cores
e as barcas novas aguardam melhor maré,
à falta de vento.
Deixámo-nos ficar?
Há uma nau que nunca regressou.
Essa será a nossa.
Luís Filipe Castro Mendes em Poemas Reunidos
O norte do país está, há
dias, a arder.
O Presidente da República,
Marcelo Rebelo de Sousa, e o primeiro-ministro, Luís Montenegro, reúnem-se esta
tarde, na Câmara Municipal de Faro,tendo em cima da mesa uma agenda com dois
pontos: a declaração de inconstitucionalidade, por parte do Tribunal
Constitucional, de cinco normas do projeto-lei relativo à imigração e os
incêndios que assolam o país, e nada mais.
Também não estão previstas declarações no final da reunião.
A jornalista Ana França, também autora de livros sobre
a Ucrânia e Lampedusa diz hoje no Público
que gostaria muito de ser vegetariana ou vegan, mas não consegue.
Bem-vinda ao clube.
Nas duas vezes por ano que vou ao Médico de Família,
diz-me sempre, quando é com a idade que tem, começa a ter um bocadinho de juízo.
Sorrio, apenas e faço vãs promessas.
Ler é uma necessidade.
Nunca aceitei a ideia de que só devia ler bons livro,
ou ver bons filmes, ou só ouvir boa música.
Se percorrermos os diversos volumes do Diário de Miguel Torga,
nascido a 12 de Agosto de 1907 como Adolfo Correia da Rocha, verificamos que,
regularmente, regista o seu dia de aniversário, mais melancolicamente do que
festivamente.
No ano de 1965 apenas deixou um poema, intitulado Desgarrada:
Na sina que me foi lida,
Este dia é sempre assim:
Sol na paisagem da vida,
E sombra dentro de mim.
Mas nesse mesmo ano, Neste Dia, encontra-se no Gerês a
passar férias e escreve:
«A prévia garantia do meu silêncio deve
excitá-los. Paciência.
Prefiro mil vezes voltar a outra face
Interessa-me o inconcreto branquejar
da roupa no estendal (o branco, não)
mais do que o peso da água, ver
que o nada não se vê na água a evaporar
na luz do tecido em contraluz interessa-me
o vazio suspenso do vazio
quando a roupa enforma ao vento e sobe
no arame, interessa o risco que sustém a
louca nave,
os voos desabitados a a pequena hora de
ninguém.
Maria Rosa Martelo em Resumo: a poesia em 2013
Está um calor de ananases,
como diria o Eça.
Adiantamos o extracto de uma crónica do poeta Luís Filipe
Castro Mendes, com alguns meses já, mas com actualidade.
«É um cruel
paradoxo da História que o cinquentenário do 25 de Abril tenha coincidido com o
crescimento exponencial de um movimento contra a Democracia, que vem negar tudo
aquilo em que se baseia a nossa ordem política constitucional. Este cansaço da
democracia vem dos que não viveram outro sistema (daí predominarem os mais velhos
na oposição a esta corrente) e que se sentem, alguns justamente, outros menos,
espoliados e rejeitados pelo sistema.
Um país que
oferece aos mais novos perspetivas de vida mais sombrias do que aquelas que
tiveram os seus pais é um país doente. Mas o remédio para as dores não são os
gritos, são medicamentos que há que ministrar com urgência. Na falta desses
medicamentos, é natural que ganhem terreno aqueles que ecoam o nosso grito e
transformam a nossa dor em ódio, contra aqueles que poderiam dar-nos os medicamentos,
que os conhecem, que os prometem, mas que depois não têm margem ou condições
para os conseguir.»
1.
O primeiro-ministro, Luís Montenegro, saudou hoje “os
esforços do Presidente Trump para pôr fim à guerra" na Ucrânia.
O primeiro-ministro será umas das primeiras assinaturas
para o Nobel da Paz ardentemente ansiado por Donald Trump.
2.
Receitas da
Sonae e Jerónimo Martins, donas do Continente e do Pingo Doce, bateram máximos
históricos no primeiro semestre do ano: 124 milhões de euros por dia, 5 milhões
por hora.
3.
O consumo de champanhe ou vinho branco, uma atitude positiva perante a vida, o consumo de fruta e um peso adequado fazem parte da lista de mais de 50 fatores não clínicos apontados numa investigação que foi publicada no científico "Jornal de Cardiologia do Canadá" como determinantes para prevenir o risco de sofrer um ataque cardíaco.
4.
Cristiano Ronaldo vai casar.
O anel que vai oferecer a Geogina, está avaliado em 1
milhão e 40 mil euros!
5.
Uma mulher de 28 anos entrou em trabalho de parto, esta segunda-feira, na Avenida da Associação Desportiva, no Carregado, concelho de Alenquer, e acabou por ter a bebé no meio da rua.
Foram os pais que ajudaram a neta a nascer, depois de
terem rebentado as águas. Mãe e filha estão bem de saúde.
A neta mais velha assistiu a tudo.
A ministra da Saúde ainda não se dedemitiu mas já
solicitou à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde a abertura de um processo de
inquérito ao caso de uma jovem grávida que teve o parto numa rua do Carregado,
no concelho de Alenquer.
6.
A Segurança Social encerrou 43 creches e 307 lares por
falta de condições na sequência de perto de dois mil processos de fiscalização
realizados desde 2023, em que foram detetados 766 estabelecimentos ilegais.
7.
Jacinto Lucas Pires: «Estamos a perder palavras. Como pensamos por palavras, estamos a perder capacidades».
Diário de Uma Avó e de Um Neto Confinados em Casa
Alice Vieira &
Nélson Mateus
Capa: Maria Manuel
Lacerda
Casa das Letras, Lisboa, Novembro de 2021
Querido neto,
A Linda de Suza! De quem te foste lembrar! Claro que me recordo dela. mas
eu já não estava em Paris quando ela chegou, mais a sua mala de cartão… Se
estiveres com a D. Lurdes, diz-lhe que ela vive cá – mas não sei onde – e está
praticamente na miséria. Foi enganada por uma data de pessoas e hoje penso que
tem uma reforma de 400 euros… Para quem encheu Olympias e Lidos e tudo o mais…
Pois olha, eu quando fui para Paris, nem mala de cartão levava. Ia a
fugir da pátria, da família, do namorado, de tudo. Enfiei só umas peças de
roupa e o mínimo de que precisava para dentro de um saco, e o último livro do
Herberto Helder.
Cheguei a Orly e lembro-me de me sentar num banco, sem saber o que
fazer da minha vida. O jeito que me teria dado um telemóvel, naquela altura…
Apanhei o metro, que me deixou no Quartier Latin. E agora? Onde é que eu ia
ficar? Lembrei-me então de uma prima que vivia lá exilada (a Maria lamas, já te
tenho falado nela), sabia a morada dela e bati-lhe à porta.
Colaboração de Aida Santos
Mário Sacramento, uma vida,
perseguida pela ditadura, levada da breca, teve algumas dificuldades, perigos?,
em manter um jornal íntimo.
Começou-o em 10 de Junho de
1967 lembrando que faria trinta exactos anos que pela primeira vez tinha sido
preso pela polícia política, então a P.V.D.E., depois Pide, por fim DGS.
Terminou esse não diário, mais de reflexões e apontamentoss e não de factos, em
20 de Fevereiro de 1969.
Mas, Neste Dia, Verão de
1967, escreveu:
Caminho pela cidade e sinto na pulseira
o indelével trilho seccionado no ouro
pelo agreste grão da parede do quarto
enquanto implacável
maceravas a pele do meu corpo
recuando o avanço impunemente.
Nos dedos os anéis,
o cobre não se mistura ao ferro,
mas antes faz engaste
na espessura do dito,
os anéis, dizia,
formam em cada membro um halo protector.
Há povos que conservam
poder sobre os metais
e fecham cada dedo
à invasão do individualismo.
Há um amigo que está em Nova Iorque
e não manda recados.
Gente se junta e passa ao lado,
acre corrente segura pela âncora
algema na areia.
Alguém cujo riso era aberto demais
Cravou no coração, tranquilo, uma
verruma
O líquido injectado agiu incontinente.
A tua sede agarra-me no braço
e torce-me por dentro.
Igual a um toco de figueira
estiolo na berma do asfalto,
um prego me sustenta
naqueles brinquedos circulares
que crianças agitam
e nunca se descolam da parede
o rubro do metal
a zona vulnerável
um acaso te fez a descoberta.
Tenho em cada meninge um olho de
serpente
que te segue as pegadas no encalce da
morte.
Vacilante rodeias precipícios
que não se vão fechar
por eu desaparecer.
Fátima Maldonado em Os Cem Melhores Poemas Portugueses dos Últimos Cem Anos
Quando pronuncio a palavra Futuro, a primeira sílaba
já pertence ao passado».
Wislawa Szymborska
Legenda:design de Maria
João Lima, tirado daqui.
Afonso Cruz
Capa: Maria João Lima
Companhia das Letras Lisboa, Dezembro 2024
Começa aqui uma viagem sobre o fim, nas múltiplas formas de que ele se reveste e como se impõe. Tudo acaba a todo o instante, ou, como escreveu Wislawa Szymborska, «quando pronuncio a palavra Futuro, / a primeira sílaba já pertence ao passado»; do mesmo modo que existe uma natalidade presente em todas as coisas, um recomeço constante, assim o surgimento de algo novo implica perda, deixar de ser o que era. E, no meio dessa perda, da transformação em nada face ao tudo, para usar a formulação de Pascal, há sempre um nascimento. Essa simultaneidade é inerente a todos os fenómenos. O tempo é luto, pois empurra constantemente com uma mão — para um passado inacessível — tudo o que foi criado, mas é também celebração, na medida em que cria com a outra. Trata-se de dois movimentos, mas apenas na aparência: analisados atentamente, reduzem-se a um fenómeno. Por isso, encontramos sempre uma forma de contradição quando pensamos nesta coreografia de dois rostos: por vezes, a perda imensurável, outras, a surpresa da criação e metamorfose; por vezes, estamos perante o abismo da extinção, outras, a contemplar um campo de girassóis ou a ouvir a voz de Chavela Vargas cantar os dois beijos que leva na alma: «el último de mi madre y el primero que te di». Morte e vida, o último e o primeiro. Se neste livro pretendo falar do fim, dele será sempre indissociável o início. Há ainda uma terceira face, que tantas vezes passa despercebida, porque emerge em diferentes manifestações: a transformação do mundo em narrativa, em representação, em memória, em arte, em algo que, não sendo a própria coisa, é a sua dimensão depurada ou destilada.Lido no editorial do Público de hoje:
«A conferência de imprensa do
primeiro-ministro israelita, neste domingo ao início da tarde, é a declaração
mais clara que Benjamin Netanyahu fez nos últimos tempos sobre as suas
intenções e a prova de que estamos hoje muito longe dos Acordos de Oslo, entre Yasser
Arafat e Yitzhak Rabin.
Há mais de 30 anos, na Noruega e sob a mediação dos Estados Unidos, chegou-se a
uma solução que apontava para um processo de paz com vista, entre outras
coisas, à criação de um Estado palestiniano. Na realidade, o acordo que tanto
custou àqueles dois homens (a Rabin custou-lhe a vida), acabou por ser
sucessivamente desrespeitado por líderes de uma e de outra parte.»
Às voltas com os diversos Diários da Biblioteca da
Casa, para preencher o «Neste Dia», percorro Diário de Mário Sacramento. Em
conversa com um amigo, a propósito da Guerra do Vietnam, escreve em 1968:
Roger Vailland deixou mais de duas mil páginas
inéditas: esboços de romances, de novelas, ou de peças de teatro, notas para
ensaios, e também correspondência e diário íntimo. Estas páginas estão reunidas
em dois volumes, edição das Publicações Europa-América - «Eis Vailland visto de dentro nos seus diversos tempos…», coloca a
editora na capa do 1º volume de Escritos Íntimos:
Neste dia, do ano de 1943, troam pela Europa os
canhões e Vailland escreve:
Com as quatro folhas
dos trevos de verão
farei uma casa
sem portas sem janelas
para te esconder.
Farei um rio
de sombra onde dormir
contigo nos olhos.
Para não morrer.
Eugénio de Andrade em Poesia
O maior número das casas em que viveu com os pais,
quartos alugados, diga-se, talvez uma dezenas situavam-se na Rua Morais Soares,
Rua Carrilho Videira, Rua Sabino de Sousa, Rua Heróis de Quionga, Rua Padre
Sena de Freitas, (« quando principiou a
guerra civil espanhola era aí que residíamos»),Rua Carlos Ribeiro («tinha eu 22 anos quando saí para casar com
a Ilda Reis»)
«Lembro-me de dormir no chão, no quarto
dos meus pais»
A primeira escola que frequentou foi na Rua Martens
Ferrão.
É aqui que se descobre, face à certidão de nascimento,
que o rapazito não se chama José de Sousa mas sim José de Sousa Saramago.
Tal como se pode ler em As Pequena Memórias:
«Que esse Saramago não era um apelido do
lado paterno, mas sim a alcunha por que a família era conhecida na aldeia. Que
indo o meu pai a declarar no Registo Civil da Golegã o nascimento do seu
segundo filho, sucedeu que o funcionário (chamado ele Silvino) estava bêbado (por
despeito disso o acusaria sempre o meu pai) e que, sob os efeitos do álcool e
sem que ninguém se tivesse apercebido da
onomástica fraude, decidiu por conta e risco acrescentar Saramago ao lacónico
José de Sousa que o meu pai pretendia que eu fosse.»
E chegamos à Escola Primária do Largo do Leão, para
onde José Saramago foi transferido depois de passar a primeira classe na escola
da Rua Martens Ferrão. Curiosamente, também na Escola do largo do Leão, andou
José Cardoso Pires.
Mas voltemos aos testemunhos das Pequenas Memórias.
José Saramago não consegue recordar o nome próprio do director da escola, apenas o raro apelido de Vairinho (hoje
Por aqui temos um Ventura como o protagonista-mor «daquela coisa», as velhas dizem que é um bonitão. Em alguma Europa as novas ‘influencers’ da ultradireita são rostos femininos que promovem a extrema-direita, branquelas, olhos azuis e explicam, online, o papel que a mulher deve ocupar para “salvar o ocidente”. As mensagens anti-imigração, religiosas e supremacistas estão sempre presentes.
Do editorial do Público de hoje, assinado por David Pontes
«A tentação dos partidos sociais-democratas de seguirem as narrativas mais extremas em questões como a imigração ou segurança é uma constante, mesmo que a estratégia se tenha mostrado, persistentemente, ineficaz na tentativa de suster o crescimento dos populistas radicais. Basta olhar para os resultados de um ano de governação de Keir Starmer, no Reino Unido. É a direita que cresce e os trabalhistas que se dividem.«Cerca de vinte países árabes e muçulmanos condenaram este sábado, 9 de agosto, o plano israelita de tomar o controlo da cidade de Gaza, considerando-o uma "escalada perigosa".
Numa declaração conjunta, esses países,
entre os quais o Egito, a Arábia Saudita e a Turquia, acusam o plano israelita,
aprovado na noite de quinta para sexta-feira pelo governo de Israel, de
constituir "uma violação flagrante do direito internacional e uma
tentativa de consolidar a ocupação ilegal e impor um facto consumado".
A Autoridade Palestiniana pediu na
sexta-feira uma reunião extraordinária e urgente da Liga dos Estados Árabes, na
sequência da decisão de Israel de expandir a ofensiva e assumir o controlo da
cidade de Gaza.
A reunião de urgência do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, no seguimento dos planos israelitas de ocupação da principal cidade da Faixa de Gaza, foi reagendada para este domingo.»
Fonte: Diário de Notícias
Aprende-se a escrever, lendo e escrevendo.
Voltar aonde nunca se esteve.
A mulher e a sardinha querem-se da mais pequenina.
A elegância do adeus.
Feliz o homem que tudo quanto faz em bem se torna.
Antes de ver na morte adormecidos os meus olhos.
A beleza não elimina a tragédia, torna-a suportável.
Não mexas no passado.
O intelectual é quem em nome da
inteligência e da cultura resiste. Mas não esqueçamos que muitos outros
resistem sem serem intelectuais.
Jorge de Sena.
Legenda: Salvador Allende