segunda-feira, 13 de maio de 2019

OLHAR AS CAPAS


Quatrocentos Mil Sestércios Seguido de O Conde de Juno

Mário de Carvalho
Editorial Caminho, Lisboa, Abril de 1991

Poderia ter passado aqueles dias em perfeito sossego sem dar azo a Fortuna a que se intrometesse comigo. Qualquer coisa, qualquer vento inopinado, qualquer espírito rebarbativo, fez com que desabassem sobre mim – quieto e sossegado que gostaria de ser – trabalhos semelhantes aos de Hércules, se tomarmos em conta a desproporção das forças.
Foi à última hora que meu pai me comunicou que ia partir, por uns dias, para Olisipo por causa de uma demanda sobre uma remessa de trigo avariado. Nunca percebi se, na pendência, ele fazia de Autor ou de Réu e fui, certa­mente, o último da casa a saber a notícia. Mesmo depois dos escravos, mesmo depois da infame Lícia…
Eu reparei nos preparativos: vi o Jálio a olear a lança, vi o Clíton a amontoar bagagens, tropecei num molho de gládios a um canto… Mas, francamente, nunca chegava a penates suficientemente cedo ou suficientemente sóbrio, para ter oportunidade de ouvir explicações. Também estava acostumado a dar pouca importância ao que ia lá por casa...
Na véspera da partida, meu pai acordou-me brutalmente ao nascer do Sol. Abriu as portadas de par em par, com estrondo, e proclamou: «Começou o dia,» «O meu dia é particular, começa mais tarde», respondi eu, tapando-me o mais possível. O meu pai sentou-se no leito e pigarreou. Percebi que não tinha outro remédio senão ouvi-lo e encarei-o, toscanejando e mal-humorado.
- Estás a preparar-te para envelhecer cedo, não é, filho? – suspirou, passou a mão pela cara, já escanhoada, numa preocupação dorida, enquanto eu pensava. «O que é que teria feiro, o que é que teria feito desta vez?»
Podia estar tranquilo. O pai não desconfiava de nada sobre o roubo da coroa de louros da estátua do imperador. Nem da assuada à porta do…
- Escuta, meu imbecil – disse-me ele, fazendo ostensivamente um grande esforço para falar com clareza e ignorando o meu ara amuado, de braços cruzados. – Tenho de ir a Olissipo. Uma demanda sobre… enfim… assuntos demasiado complicados para a tua pobre cabeça. Apesar de seres o pateta que és, corrécio e bêbado, julgo meu dever avisar-te, prevenindo os percalços de uma viagem destas sempre implica, de que Lentúlio me deve quatrocentos mil sestércios, já contados os juros e os juros de juros.
- O magarefe?
- O magarefe! A dívida vence-se depois de amanhã. Eu não posso ficar mais tempo, porque tenho de me apresentar no pretório de Olisipo nos próximos cinco dias, nem tenciono nomear procuradores, porque me levam os olhos da cara e não há necessidade disso, estando cá tu…
- Por que é que não mandas um escravo?
- Um escravo? Cobrar quatrocentos mil sestércios? Mas que ofensas teria eu cometido aos deuses pata ter um filho tão parvo?

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