quinta-feira, 12 de março de 2026

MÁRIO ZAMBUJAL (1936-2026)


Com 90 anos, feitos no dia de 5 de Março, morreu o jornalista e escritor Mário Zambujal.

Neste dia, o jornalista e escritor Ferreira Fernandes deixou no Mensagem de Lisboa, a evocação dos 90 anos do Zambujal:

«Um dia, Bernard Pivot foi a um restaurante de província, em França, onde lhe serviram uma soberba brandade provençal de bacalhau. Durante o último quarto do século passado, Pivot foi o mais eficaz divulgador da literatura francesa. Os seus programas televisivos Apostrophes e Bouillon de Culture são uma saudade (em francês culto, diz-se “saudade”).

Apesar de também ter gostos culinários (em português, “bouillon” diz-se caldo), não foi ao prato que ele agradeceu. À saída do restaurante La Lavande, em Lardiers, Bernard Pivot deu um abraço apertado aos dois tomos do dicionário Le Petit Robert, à disposição dos clientes e expostos na sala de jantar.

Em Les Mots de Ma Vie, As Palavras da Minha Vida, Pivot escreveu esta frase: “Amei primeiro as palavras antes de amar os livros”. No começo da Segunda Guerra Mundial, em casa, numa aldeia perto de Lyon, teve mais acesso ao Petit Larousse, outro dicionário, e às Fábulas de La Fontaine, do que eu aproveitei no consumo dos meus tantos livros infantis.

Ele dedicou-se a descobrir, compreender e comparar o que queria dizer aquela condição de “atraída” (a Raposa, pelo cheiro do queijo que o Corvo tinha no bico), ou aquela coisa, a “larva” (que a esfomeada Cigarra cantadeira arrependida implorava à Formiga trabalhadeira).

Tudo a ver com a cerimónia que passo a celebrar. Um absoluto colega do francês, também jornalista, sábio e generoso, o Mário Zambujal – e quase contemporâneo de Pivot – tornou-se hoje centenário!

Sobre a identidade profissional e cívica de ambos, lá irei, sobre as datas explico-as já: Zambujal nasceu a 5 de março de 1936 e Bernard Pivot nasceu, no mesmo dia, dois meses depois e um ano antes do português. Centenários, ambos! Não venham cá com as vossas pequenas aritméticas, “eh pá, estamos em 2026, ainda falta uma década…” Minudências (ide ver ao José Pedro Machado ou ao Morais).

É interessante que Mário Zambujal, miúdo, também tenha vivido uma guerra e até antes do camarada francês, que só aos quatro anos viu camiões militares de cá, para lá, na França ocupada. Já o português, logo meses depois de nascer, teve a sua alentejana e fronteiriça Amareleja com refugiados espanhóis fugidos à guerra civil. Havia-os acantonados no corredor comprido da sua casa. Se calhar há quem passe todo o período da amamentação indiferente aos vizinhos do corredor, mas há-os, outros. Como o Mário Zambujal.

Quando foi viver para Algarve, aos 5 anos, levou com ele o Alentejo e guardou-o, a mãe fazia migas e ensopado de borrego. Depois, foi o Bairro Alto e os jornais, onde ele chegou para distribuir com critério e beleza o que começara e continuaria a vida toda a colecionar – palavras.

Como disse o tal francês, as palavras da minha vida é a minha vida com as palavras.

Quase nenhum quiosque lisboeta pendura hoje tanto jornal quanto os títulos por onde o Zambujal passou: A Bola, Diário de Notícias, O Século, Diário de Lisboa, O Jornal, Tal & Qual, Se7e, Record… Estendam o rol, onde ele assentou prosa sua, em programas de sucesso na tevê e rádio, dita por outros, como Carlos Cruz (“Pão Com Manteiga”, na Rádio Comercial) ou Raul Solnado (“Lá em Casa Tudo Bem”, RTP)…

É muita palavra. Mais isto: cada uma feita com pesquisa de sinónimos e escolha da nuance certa. Juntem um breve deitar de olho a dicionários de etimologia, saber dar pelo flash de um calão antigo, ter dúvidas da conjugação. E o que já vos disse, a circunstância divina de ter estado acordado, ao outro, desde miúdo. Não é acaso, é convicção profunda de que se é ignorante esclarecido, quer dizer, pronto para aprender.

Apesar de só nos termos encontrado meia-dúzia de vezes (foram sete, Mário), eu conheço Zambujal ao pormenor. Fui, sou, dele, leitor contumaz e já depois com os outros Presidentes todos. Faltaram-me o Carmona e o Craveiro Lopes, pois Zambujal foi publicado pela primeira vez, aos 15 anos. Isso bate em 1951, no ano em que aqueles dois dividiram Belém, um saiu e o outro entrou. O importante foi a primeiro texto ter sido na revista Os Ridículos. Também bate certo, só goza com estas coisas quem leva a carreira a sério.

A editora Clube do Autor lança hoje uma Edição Comemorativa – 90 anos – republicando três livros de Mário Zambujal, Cafuné, Dama de Espadas e a memória coletiva e a procura em vão em alfarrabistas ainda mais coletiva: Crónica dos Bons Malandro.

A edição comemorativa, já vimos, tem aquela pequena dedução formal: Mário Zambujal nasceu em 1936, faz anos hoje, portanto, Edição Comemorativa – 90 anos…

Não, antes de contagens especiosas, o que conta é a essência do personagem. O que é hoje 05-03-2026? Uma folha que amanhã já substituo por outro no calendário da cozinha.

Ora, o sujeito do assunto é o Mário Zambujal, logo, centenário. O nosso escritor, no ano passado, se escrevesse a crónica de uma comemoração ao Senhor Coluna faria a mesma coisa que eu faria. No ano passado, o seu xará e correligionário Mário Coluna – o capitão glorioso do Benfica – fez 90 anos, pois nasceu em 2035. Mas uma crónica do Mário Zambujal sobre o assunto haveria de se chamar O Centenário do Velho Capitão.

Há gente como os dois Mários acima mencionados para quem as datas nunca são assim-assim, como as calendas gregas. Porque lhes acontece com eles são logo efeméride, número redondo! Há personagens que não cabem em livros de contabilidade, onde não se erra ao cêntimo, mas se peca no estilo. Essas pessoas são para as palavras que tomaram o poder da imaginação. Mário Zambujal, centenário, e não se fala mais disso.

Ou, se calhar, e isso aplaudo, foi daqueles bons erros malandros dos Correios e até Bancos Centrais que lançam selos e notas com um pequeno erro de edição. Recolhem a coisa e é um ver se te avias no mercado paralelo. Os meus três livrinhos já os fechei no cofre para a herança dos netos.»

1 comentário:

Seve disse...

Um grande português, e com uma graça imensa!