Edição, concepção e
arranjo gráfico: Fernando Ribeiro de Mello
Nota Prévia: Fernando
Madureira
Edições Afrodite,
Lisboa, Maio de 1974
O documento que agora se publica é o sumário de todos os delitos
caçados por todas as organizações policiais durante o período de 6 a 13 de
Abril. Deu entrada na PIDE/DGS a 24 de Abril e, portanto, deve ter sido o
último.
Por este simples documento, fica-se a saber o que era o tenebrosos
arquivo da PIDE/DGS. Há ainda os serviços de escuta, a intercepção da
correspondência e de livros, e a ficha de vigilância individual.
O processo está aberto, mas a PIDE/DGS ainda não acabou: Para que acabe
é necessário sabermos o que vai ser feito desses arquivos. Doutra forma, ainda
não podemos dormir tranquilos.
É com essa finalidade que se publica este documento.
Porque se bebe? Porque na bebida tudo toma uma importância,
tudo se dispõe segundo uma linha máxima. Conclusão: bebe-se por impotência e
por condenação.
Chamei o Ludovico para o ouvir ler. Chamei à
moderna ou à minha moda, claro está. Até seria bom banir a palavra, que tem
ainda, para muita gente, o sentido de «tortura». Quando cheguei a Setúbal, quis
acabar com o que fica bem chamado o «terror da chamada»; é esse terror que leva
a criança a faltar à aula, a inventar uma desculpa, a tremer perante o
professor. Ora em Setúbal, como aqui, deu-se o contrário: há a ânsia, a
exigência e a alegria da chamada. Reclamam, querem vir junto de mim todos os
dias, impacientam-se. Em Setúbal, de princípio, perguntavam: «É para nota? (E
havia medo na voz). «Não. É para aprender». Pois sim, senhor, para aprender é
que é: para eu aprender, para o aluno aprender; para estramos mais perto um do
outro; para partirmos a aula ao meio: pataca a mim, pataca a ti.
Oh, Fen, dizia ela de si para si, oh, Fen! Assim caminha um homem para
o abismo, de olhos abertos, por falta de vontade própria, por fraqueza. E assim
tinha ela de assistir a distância, impotente para o deter.
Sylvia! Por que lhe tinha ele tanto amor, tão trágico e funesto, porquê?
Mas nunca é possível dizer por que um homem ama uma mulher, como a ama,
ou o que essa mulher representa para ele.
Da minha infância
guardo os fins-de-semana, alguns dias das férias do Carnaval, da Páscoa, do
Natal que passava em casa da minha avó paterna, umas águas- furtadas no nº 16 da
Rua Senhora do Monte, o casario da Graça, uma vista esplendorosa para o Tejo,
cheio de fragatas, de navios a descarregarem cereais a granel, a outra margem
com as altas chaminés do Barreiro, desprendendo fumos.
A minha avó, nos dias
de sol, punha um pano branco para fazer sombra, uma mesinha na varanda das águas-furtadas,
frente a um rio que é um mar.
Ficava ali horas.
Ali, sentia que o
mundo era maravilhoso e assim seria para todo o sempre.
Ali, era o meu lugar
de eleição, uma magia única, um paraíso que não mais voltei a encontrar, qualquer
coisa que toca, enfeitiça.
Algures, Walter
Benjamim diz que para conhecer toda a melancolia de uma cidade, é preciso ter sido
lá criança.
Como António Gedeão,
sempre quis voltar a subir aquelas escadas, bater à porta, dizer a quem a
abrisse, que um miúdo de 8 anos em tempos distantes olhava o Tejo daquela
varanda e se poderia rever essa sensação.
Quando subo aquela
rua, paro à porta, olho o marco do correio que ainda se encontra junto à porta
e, ao contrário de Gedeão, nem as escadas subo.
Dados os tempos de
insegurança, de gatunagem diversa que se vivem, talvez a ideia não fosse assim
tão fácil de concretizar.
Nasci na Freguesia da Sé, num prédio alto, que tem o número 7, na rua que
no seu tempo se chamava do “Arco do Limoeiro” e hoje se chama “Augusto Rosa”,
do nome do actor distinto que morava mais abaixo, do lado direito quando se
desce a rua. Vi-o por diversas vezes a sair de casa ou a entrar nela. Bela
figura.
Nasci no quarto andar direito. Meus pais habitavam aí há pouco tempo,
vindos do andar debaixo, do terceiro esquerdo, onde por sinal, nasceu a
Graciete, a minha irmã mais nova. Como entretanto vagou o andar de cima,
alçaram-se os tarecos até lá para se gozar do usufruto da vista do Tejo pelas
traseiras que dali era mais desafogada: Que saudades! “Havia no meu tempo um
rio chamado Tejo”, diz o poeta com os olhos embaciados.
Numa cidade, como Lisboa, onde todas as habitações do passado vão sendo
sistematicamente destruídas, ou desfiguradas, é consolador olhar para o prédio
onde nasci, intacto e bem conservado. É um prédio robusto, que sempre conheci
de tom avermelhado.
Há cerca de um ano, já com setenta e muitos, parei junto do prédio e
não me contive. Empurrei a porta da rua, entrei no vestíbulo e subi a escada
até ao 4º andar, pausadamente, bebendo os ares. E se alguém, lá em cima, fosse
a sair de casa, e eu ficasse ali especado, sem destino, sem justificação?
Desculpar-me-ia com a idade, enganei-me na porta, ou melhor, enganei-me no
prédio, ou melhor ainda, enganei-me na rua porque não há ali nenhum prédio
semelhante àquele. Mas não. Estava tudo em silêncio e eu fui subindo, subindo
sempre. Há setenta anos um rapazito inocente subia aquela escada a correr e
chegava lá a cima com a língua de fora, feliz da proeza. Fui mesmo junto da
porta do lado direito do quarto andar e apeteceu-me parvamente tocar à campainha.
E diria, sabe minha senhora, é que eu nasci aqui (e parava para sorrir) gostava
de rever este lugar. Fiquei pelo desejo, voltei as costas, desci a escada e
regressei à rau. Vinha a passar o eléctrico. Muito tempo gastei na varanda a
ver os eléctricos a subirem e a descrem a rua, a adivinhar se paravam ma
paragem para descer alguém e quantas pessoas desceriam.
Os filmes de Wim
Webders foram, há semanas, revisitados no Nimas, em Lisboa, sim ainda é uma
sala de cinema.
E, necessariamente,
teria de ser exibido Paris,Texas esse belíssimo filme de Wim Wenders, pensado,
escrito, filmado em total estado de graça, tudo envolvido na magnífica banda
sonora criada por Ry Cooder, que teve o feeling de ir buscar uma velha canção
mexicana, uma canção que tem tanto de bonita como de arrepiante: Qué lejos estoy del suelo donde he
nacido inmensa nostalgia invade mi pensamiento y al verme tan solo y triste
cual hoja al viento quisiera llorar, quisiera morir de sentimiento.
De notar as
extraordinárias interpretações e de Harry Dean Stanton no papel do solitário
Travis e de e Nastassja Kinski, no papel de Jane. O filme foi escrito por
Sam Shepard e tem um dos
mais extraordinários diálogos, arrepiante diálogo, do cinema: «I Knew These
People.»
Há uma boa dezena de
anos, copiei, do blogue «Paixões e
Desejos», feito por Paula e Rui Lima, o longo diálogo entre Travis e Jane.
Nunca mais consegui
aceder a este blogue.
Desconheço os motivos. O que quer que se tenha passado, lamento.
Distinguido com o
Grande Prémio do Festival de Cannes de 1984, Paris, Texas conta a história de
um homem que sofre de amnésia e da sua luta para reconstruir uma vida feita em
pedaços. Travis regressa a Paris, no estado do Texas, ao fim de quatro anos,
porque uma das poucas coisas de que ainda se lembra é de a sua mãe lhe ter dito
onde ela e o seu pai fizeram amor pela primeira vez.
Paris, Texas é um
filme de solidões e de solitários. Travis, boné vermelho na cabeça, pelo
Deserto Mojave à procura dos passados que cada um de nós transporta, amarguras
profundas, nostalgias, melancolias, o outro lado do arco-íris.
Há quem diga que só
andamos por aqui a administrar a nossa solidão.
Nascer é inaugurar a
solidão, escreveu o Álvaro Guerra.
Nunca aprendemos a
dizer adeus, ou se aprendemos, aprendemos mal.
Alguém terá que andar
só para os outros andarem acompanhados, deixou escrito Virgílio Ferreira.
O que fica?
Talvez um perfume
ligeiro, uma qualquer ventania a varrer o Deserto Mojave, ou qualquer outro
deserto, que abre o coração ao meio e que talvez permita alguém falar, com alguma
peculiaridade, de um bem-estar na solidão.
Perguntaram isso ao
Alexandre O’ Neill.
Ele respondeu: a
solidão procurada é boa a não procurada, às vezes, é chata.
Quem viu o filme,
lembra que o diálogo entre Travis e Jane ocorre numa pequena sala de "peep-show",
separados por um vidro que lhe permite a ele vê-la a ela, mas não o
contrário:
Travis – Posso dizer-lhe uma coisa?
Jane – Tudo o que quiseres!
- Vai levar tempo.
- Tenho o tempo todo.
- Eu conhecia-os.
- Quem eram?
- Duas pessoas... Amavam-se uma à outra... A rapariga era muito nova, 17 ou 18
anos. E o homem era bastante mais velho. Era rude e selvagem. E ela era muito
bela.
- Sim.
- Ambos faziam de tudo uma aventura. E ela gostava disso. Uma simples ida à
mercearia já era uma aventura. Riam de coisas estúpidas. Ele gostava de a fazer
rir. Pouco se importavam com o resto, pois só queriam uma coisa... estarem um
com o outro. Estavam sempre juntos.
- Deviam ser muito felizes...
- E eram. Verdadeiramente felizes. Ele amava mais... do que julgava ser
possível. Não suportava estar longe dela quando trabalhava. Então largava o
trabalho. Só para estar com ela em casa... Quando faltava o dinheiro arranjava
outro trabalho. E deixava-o também. Mas não tardou que ela se inquietasse.
- Porquê?
- Pelo dinheiro, suponho. Por não ter bastante.
- Uhm...
- Por não saber quando chegava o cheque
- Sei o que isso é.
- Ele então começou a atormentar-se.
- Como assim?
- Por ter de trabalhar para a sustentar, mas não suportou estar longe dela.
- Ah!
- Quanto mais longe dela estava mais enlouquecia. Até que enlouqueceu mesmo.
Pôs-se a imaginar coisas.
- Que coisas?
- Que ela encontrava outros homens na sua ausência... Ao voltar do trabalho
acusava-a de ter estado com outro. Berrava, partia coisas na caravana.
- Na caravana?
- Sim, eles viviam numa caravana.
- O senhor não veio ver-me no outro dia? Sem ser indiscreta...
- Não.
- Oh! Julguei reconhecer a sua voz.
- Não! Não era eu.
- Continue.
- Ele então começou a beber muito. Voltava tarde, para a pôr à prova.
- Pô-la à prova como?
- Para ver se ela tinha ciúmes.
- Ah!
- Queria que ela tivesse ciúmes, mas ela não os tinha. Só se inquietava por
ele, o que o enfurecia ainda mais.
- Porquê?
- Por pensar que ela não queria saber dele. Os ciúmes seriam sinal de que o
amava. Então uma noite... ela disse-lhe que estava grávida. De três ou quatro
meses, e ele não sabia. Então tudo mudou. Ele deixou de beber e arranjou um
trabalho fixo. Convenceu-se de que ela o amava, pois trazia um filho dele. Ia
consagrar-se inteiramente a dar-lhe um lar. Mas aconteceu uma coisa estranha.
- O quê?
- De começo ele nem reparou que ela tinha mudado. Desde que nascera o menino,
tudo a irritava. Tudo a enfurecia. Mesmo o menino lhe parecia uma injustiça.
Ele esforçava-se por lhe agradar. Dava-lhe presentes. Levava-a a jantar fora,
todas as semanas. Mas nada a satisfazia. Durante dois anos, ele fez tudo para
voltarem a ser como eram no começo. Mas acabou por compreender que era
impossível. Então voltou a beber, mas as coisas azedaram. Quando voltava tarde
ela não estava inquieta, nem ciumenta. Estava enraivecida. Acusava-o de a ter
sequestrado fazendo-lhe um filho. Dizia-lhe que sonhava fugir. Não sonhava com
outra coisa: fugir. Via-se a correr de noite... toda nua, através dos campos,
sempre a correr. E sempre que ela estava prestes a invadir-se, ele aparecia a
detê-la. Aparecia e detinha-a. Quando ela lhe contava esses sonhos, ele
acreditava. Sabia que se a não detivesse ela fugiria. Prendeu-lhe uma campainha
ao tornozelo, para a ouvir, se ela tentasse levantar-se de noite. Ela aprendeu
a abafar a campainha com uma peúga, e a esgueirar-se da cama. Mas a peúga caiu
quando ela já ía na estrada. Ele agarrou-a e amarrou-a ao fogão com o cinto.
Deixou-a ali e tornou-se a deitar. Ouviu-a gritar, sem se mover. Depois ouviu o
filho aos gritos... e admirou-se de não querer saber de nada. Tudo o que queria
era dormir. E, pela primeira vez desejou estar longe dali. Perdido num vasto
país onde ninguém o conhecesse. Num lugar sem linguagem e sem ruas. Sonhou com esse
lugar sem lhe saber o nome. E quando despertou.... estava a arder. Chamas azuis
queimavam os lençóis da cama. Correu para os dois únicos entes que amava... Mas
tinham partido. Tinha os braços em brasa. Saiu para fora da casa e rolou-se no
chão molhado... E depois correu. Nunca se voltou para ver o fogo. Só correu.
Correu até ao nascer do sol. Até não poder mais. E quando o sol se pôs tornou a
correr. Correu assim durante cinco dias. Até que sem deixar sinais...
desapareceu.
- Travis...
- Se apagares a luz aí dentro, poderás ver-me?
- Não sei... nunca experimentei.
- Podes ver-me?
- Sim.
- Reconheces-me?
- Oh! Travis...
- Trouxe o Hunter comigo. Não queres vê-lo?
- Sim. Queria tanto vê-lo, que não ousava imaginá-lo. A Anne mandava-me
fotografias dele. Pedi-lhe que deixasse de as mandar. Não suportava a dor de o
ver crescer longe de mim.
- Porque não ficaste com ele?
- Não podia. Não tinha aquilo de que ele necessitava. Não queria utilizá-lo
para encher o vazio da minha vida.
- Ele agora precisa de ti Jane. E quer ver-te.
- Ele quer?
- Está à tua espera.
- Onde?
- Na cidade. Num hotel. Le Meridien... quarto 1520.
- Tu não te vais embora, pois não?
- Eu não posso ver-te Jane.
- Não vás ainda... Não vás ainda... Fazia-te grandes discursos depois de
partires. falava-te a toda a hora, mesmo só. Enquanto caminhava, meses a fio.
Agora... não sei o que dizer. Era mais fácil quando te imaginava que me
respondias, tínhamos longas conversas os dois. Era como se lá estivesses.
Via-te, sentia o teu odor. Ouvia a tua voz. Ás vezes a tua voz despertava-me, a
meio da noite, como se estivesses ali. Depois... tudo se dissipou lentamente.
Já não podia imaginar-te. Tentei falar-te, mas em vão. Já não te ouvia.
Então... renunciei. Tudo parou. Tu... desapareceste, simplesmente. Agora,
trabalho aqui. Oiço a tua voz a toda a hora. Cada homem tem a tua voz.
- Vou dizer ao Hunter... que vais chegar...
- Travis...
- Sim.
- Lá estarei.
- Óptimo.
- Hotel Meridien...
- Sim. Quarto 1520.
Na banda sonora, Cancion Mixteca é cantada por Harry Dean Stanton.
E era verdade. Sempre amei o deserto. Senta-se a gente
numa duna de areia. Não se vê nada. Não se ouve nada. E, todavia, qualquer
coisa brilha em silêncio.
O que dá beleza
ao deserto, disse o principezinho, é a existência de um poço escondido em
qualquer parte...
Carta de José Rodrigues
Miguéis, datada de 7 de Junho de 1964, para José Saramago:
Fiquei consternado com a notícia da morte de seu pai, e abraço-o com a mais
sincera condolência. As circunstâncias em que ela se deu, pelo inesperado,
devem ter tornado mais fundo o seu abalo. Como já passei por isso, embora há
longos anos e sendo eu mais novo que o meu amigo é hoje, posso bem imaginar a
crise que atravessou, Há casos destes que nos impregnam a vida, para sempre, de
um sentimento de fatalidade, de injustiça irremediável. Todas as palavras de
consolação se tornam inúteis, porque este é fel que todos temos que tragar; mas
é então que sentimos melhor o calor e o mérito da presença humana – como ovelhas,
que somos, assustados com a proximidade do Lobo que não perdoa às suas vítimas…
Mas todas as dores se atenuam com o tempo (de outro modo a vida seria
intolerável) e, não havendo espinhos de remorso ou culpa, as memórias dos mortos
acabam por ser-nos doces.
Estávamos em Maio, o mês das flores. Mas em Nova
Iorque não há fragrância de flores, há o cheiro dos homens que correm atrás da
vida e há o cheiro do cimento que lhes absorve as horas e as ideias, por causa
do dinheiro. Naquele momento, eu era um dos poucos novaiorquinos que não corria
atrás de coisa alguma: dinheiro, poder, mulheres ou a juventude perdida. E se
não fosse a circunstância de ter contra mim o Sindicato do Crime e a Mafia,
podia considerar-me do lado de fora da maior competição fratricida do mundo,
uma espécie de Jogos Olímpicos do Dólar. Ou uma peça chamada Estados Unidos da
América, com milhões de figurantes seguindo a bandeira do Dólar, com dólares
desenhados nos olhos, com dólares escondidos no coração, com dólares
atravessados na garganta, dias muito dinâmicos e noites muito cansadas,
publicidade, bairros de lata e arranha-céus, publicidade, combates de boxe e
avenidas a «néon», publicidade, o eterno problema dos negros e «compre hoje
mesmo o seu frigorífico», publicidade, mais material de guerra e «sorria como
William Holden», publicidade, comprimidos para lembrar e comprimidos para
esquecer, publicidade, e a manhã que nasce e tudo recomeça.
O meu último contrato rendera-me bom dinheiro. Partira
para Roma seis meses antes. Parto sempre para Roma quando não me sinto seguro.
Revejo a Capela Sistina, as garotas da Praça de Espanha, vejo o último Fellini
ou o último Rosselini, compro livros que dificilmente encontro nos Estados
Unidos, e espero que Johnny Arteleso, meu companheiro de infância e meu único
verdadeiro amigo, me diga de Nova Iorque que o tempo está sereno. Então
regresso.
O culto da morte é bastante acarinhado no mundo do rock, com direito a narrações na
literatura e na música, mas na prática não resulta em grande coisa para o
cantor e a sua canção, exceto uma boa vida que fica por viver, pessoas amadas e
filhos que ficam para trás, e uma cova funda no cemitério. O findar no auge da
glória não passa de uma grande treta.
É verdade que cinco minutos de alguns tipos valem 50
anos de outros tipos e que a sua explosão numa nova e brilhante estrela atira
as vendas de discos para a estratosfera, fazendo com que vivam depressa e
morram cedo, deixando como legado um cadáver bonito. Mas eu acho que precisamos
de exaltar o próprio ato de viver. Pessoalmente, prefiro que os meus deuses
fiquem velhos, grisalhos e cá.
Prefiro ter o Bob Dylan, o festim de piratas saqueadores dos Stones, a pujança
espero-ficar-muito-velho-antes-de-morrer dos atuais Who, um Brando gordo mas
hipnótico até à data da morte. do que a alternativa de não os ter cá. Gostaria
de ter visto o Michael Jackson a dar o seu último espetáculo, um Elvis de 70
anos a reinventar e saborear os seus talentos, as fronteiras a que o Jimi
Hendrix teria levado a guitarra elétrica e gostaria de ter visto o Keith Moon,
a Janis Joplin, o Kurt Kobain e todos os outros cujos talentos se perderam
devido a mortes precoces, mortes que roubaram tanto à minha adorada música, a
desfrutarem da bênção dos seus dons e da admiração do público. Envelhecer é
aterrador mas também fascinante e os grandes talentos transmutam-se de formas
estranhas e muitas vezes iluminadas. Além disso, só podemos desejar longa vida,
felicidade e paz a todos aqueles que nos deram tanta alegria, sabedoria e
inspiração. Há poucas pessoas assim.
A juventude e a morte sempre foram uma combinação
inebriante para os criadores de mitos que pululam pelo mundo dos vivos. E a
falta de amor-próprio, perigosa e inclusive violenta, foi desde sempre um dos
ingredientes essenciais nas fogueiras da transformação. Quando o «novo eu»
renasce das cinzas, o autocontrolo e a imprudência estão ligados de forma
imutável. Eis o que torna a vida interessante. Muitas vezes, a alta tensão
entre estas duas forças faz com que seja fascinante e divertido ver um artista,
mas também coloca uma cruz branca à beira da autoestrada, Muitos dos que
percorreram este caminho acabam por morrer ou ficar com uma exaustão grave. O
culto da morte é bastante acarinhado no mundo do rock, com direito a narrações na literatura e na música, mas na
prática não resulta em grande coisa para o cantor e a sua canção, exceto uma
boa vida que fica por viver, pessoas amadas e filhos que ficam para trás, e uma
cova funda no cemitério. O findar no auge da glória não passa de uma grande
treta.
Donald Trump
cumpriu 100 dias como presidente dos Estados Unidos e saiu-se com mais umas
trumpalhadas:
Isto é muito mais trabalhoso do que eu fazia antes.
Julgava que ser presidente era mais fácil. Adorava a minha vida anterior. Estavam
a acontecer tantas coisas.
Há a possibilidade de acabarmos por ter um enorme,
enorme conflito com a Coreia do Norte. Sem dúvida que sim.
No meu tempo de
miúdo isto era um arranha-céus: o arranha-céus do Areeiro e não tem mais de
nove andares.
Existe um outro
na Praça de Londres.
Também com os
seus nove andares, mas com uma pequena diferença: albergava um dos mais conhecidos
cafés da zona chique das Avenidas Novas, o Café Londres, traço do arquitecto
Cassiano Branco, a sua ampla sala e o salão de jogos com mesas de bilhar.
Hoje, é um
balcão do Novo Banco e começou por ser balcão do Banco Espírito Santo e Comercial
de Lisboa, que nas noites de sexta-feira se transformava em posto de recepção da Santa Casa da Misericórdia para apostas fora de horas do Totobola e Toloto.
Do outro lado, na
Avenida de Roma, havia a Pastelaria Capri e o Café Roma, onde
hoje existe uma loja McDonalds e já na Praça de Londres, onde começa a Avenida
Guerra Junqueiro, a Pastelaria Mexicana.
Anos mais tarde juntou-se-lhe
o edifício que, no tempo da ditadura, albergou o Ministério das Corporações,
inaugurado em Outubro de 1966 e que, após o 25 de Abril, passou a ser o
Ministério do Trabalho.
A Lisboa das
Avenidas Novas.
Era esta a
Lisboa que Salazar queria mostrar.
Sim, porque
havia outras Lisboas que Salazar queria que não fossem vistas.
Quando Paulo VI
visitou Fátima, por ocasião do 50º aniversário, calhou a um sábado, a ditadura
decretou feriado obrigatório para todas as actividades públicas e privadas.
- Os procuradores distritais têm o hábito de desejar
obter condenações. É natural. A polícia reúne as provas e depõe-as no regaço do
procurador do distrito. A ele compete obter a condenação. Na realidade, a fama dum
procurador do distrito baseia-se na percentagem de condenações sobre o número
de processos julgados.
- Continue – disse Mason.
-Quando assumi este cargo – disse Burger – quis ser
consciencioso. Tenho horror a acusar uma pessoa inocente. A sua actuação
impressionou-me. Você, provavelmente, não concordará com a conclusão a que
cheguei a esse respeito.
- Qual é a conclusão – interrogou mason.
- Que você é melhor detective do que advogado, e isso
não importa desdouro à sua capacidade jurídica. A sua técnica forense é hábil,
mas inteiramente baseada numa solução correcta do caso, previamente alcançada.
Quando você recorre a estratagemas pouco ortodoxos, como parte da sua tática
forense, reprovo-os; mas quando os emprega para obter uma solução correcta para
o mistério, aplaudo-os. Eu tenho as mãos atadas. Não posso recorrer a táticas
arbitrárias, espectaculares. Às vezes desejaria fazê-lo, especialmente quando acho
que uma testemunha está a mentir acerca da identidade de um criminoso.
Mason disse lentamente:
- Uma vez que você está a ser franco para comigo,
coisa que nenhum outro procurador do distrito jamais fez, vou ser franco para
consigo, coisa que, diga-se de passagem, eu nunca me dei ao trabalho de fazer
com qualquer outro procurador do distrito. Não pergunto a um homem se ele é
culpado ou inocente. Quando consinto em representá-lo, recebo-lhe o dinheiro e
trato do seu caso. Culpado ou inocente, ele tem o direito de ser defendido; mas
seu chegasse à conclusão de que um dos meus clientes era realmente culpado de
homicídio e não estava moral ou legalmente justificado, faria esse cliente
confessar o crime e confiar-se à clemência do tribunal.
Quando penso naquele velho senil que continua a
segregar a sua gangrena, dá-me raiva, vontade de chorara até… Como hoje, quando
o moço entrou, tive de ir à casa de banho para ninguém ver e disse alto sozinho
As canções temáticas não eram canções de protesto. O
termo «cantor de protesto» já não existe, tal como o termo «cantor-compositor».
Era-se ou não se era um intérprete, era disto que se tratava – era-se ou não se
era um cantor folk. «Canções de
discórdia» foi um termo usado mas, mesmo esse, era raro. Tentei explicar mais
tarde que não me via como um cantor de protesto, que tinha havido um grande
engano. Achava tanto que estivesse a protestar contra o que quer que fosse
quanto achava que as canções do Woody Guthrie protestavam contra alguma coisa.
Não via Woodie como um cantor de protesto. Se ele é, então Sleepy John Estes e
Jerry Roll Morton também são. Andava a ouvir com muita regularidade as canções
de revolta e essas sim, realmente mexiam comigo. Cantava a toda a hora as
canções dos The Clancy Brothers – Tom, Paddy e Liam – e do companheiro deles,
Tommy Makem.