sábado, 8 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Quinze Dias no Japão

João Bénard da Costa
O Independente, 2001

Previno mesmo que a presença desses adereços vais ser sentida e, porventura, pesada. Espero é não lhes ter pedido mais dos que aos olhos que tenho e dos quais fio a confiança na subjectividade do que escolhi. Dito doutro modo: cada um vê como pode e para não ver tenho outros olhos além dos meus. De uma coisa estou certo: seria muito pior se os pretendesse orientalmente obliquar, isto é, se pretendesse aparecer aqui com ar de quem, tendo vivido quinze dias nipónicos, se julga autorizado a mudar de visão.

QUOTIDIANOS


O problema de envelhecer é que nos tornamos novos mas novos que os novos rejeitam, As adolescentes de ainda agora não por nós, interessadíssimas em rapazes muito menos bonitos do que fomos
           do que continuamos a ser
          surgiram do nada criaturas mais idosas do que nós julgamos que teimam em considerar-se nossas filhas, o que é feito dos meus cromos de actrizes de cinema e de jogadores de futebol, quem me tirou o Sandokan Soberano da Malásia da mesinha de cabeceira, onde param os meus bichos da seda, as minhas pratas de chocolate, o anel com o emblema do Benfica que a minha avó me comprou na feira de Nelas pesar da indignação dos meus tios

António Lobo Antunes em Segundo Livro de Crónicas

NÃO DESAMAR AS PALAVRAS


O que interessa mais que tudo é ensinar a ler. Ler sem que passe despercebido o mais importante – e às vezes é pormenor que parece uma coisinha de nada. Ler, despindo cada palavra, cada frase, auscultando cada entoação de voz para perceber até ao fundo a beleza ou o tamanho do que lá se lê. É também de interesse primário levar os rapazes a amar as palavras – mostrar como são engraçadas, outras como são doces. Ora para amar as palavras e para, a seguir, amar a leitura, é aconselhável, como diria La Palice, não fazer desamar as palavras, nem fazer desanimar a leitura. Que amor terá uma criança por uma palavra que a fez suar, levar descomposturas, levar reguadas?

Sebastião da Gama em Diário

sexta-feira, 7 de julho de 2017

ERAM COMUNISTAS AS NOSSAS TENDÊNCIAS


Rómulo de Carvalho, a determinado passo das suas Memórias, fala de alguns dos seus amigos. Carlos e Sérgio são lembrados.

Este admirável rapaz (Sérgio) foi meu companheiro de estudo no liceu. Era uma inteligência comum mas de qualidades humanas excepcionais. Terminou o liceu e não continuou os estudos, em parte por dificuldades económicas e em parte por não se sentir com vocação para isso. Empregou-se e foi funcionário dos Correios. Com ele pensei e aprofundei a política; em comum debatemos, dia-a-dia, o futuro dos homens. Gizámos e desencadeámos devastadoras revoluções sociais naquele pequeno quarto, à sombra da bandeira vermelha da foice e do martelo. Eram comunistas as nossas tendências e por isso nos entendíamos bem, arrasando o capitalismo, lendo e comentando o jornal operário de então, A Batalha. Falávamos em voz baixa por causa dos vizinhos e não conservávamos em nossas casas nenhuma das publicações clandestinas que nos chegavam às mãos. Rasgávamos tudo depois de rangermos os dentes com aqueles excitantes. Apesar da sua timidez colaborou muito no Liberdade, quase em todos os números, e era homem para se sacrificar pelos seus ideais de justiça social.
(…)
É curioso o modo como convivíamos, eu e os meus saudosos amigos. Havia entre nós a máxima intimidade, a máxima confiança e, contudo, dir-se-ia que éramos cerimoniosos uns com os outros. Tínhamos atenções mútuas, delicadezas de trato, e até rodeávamos de palavras cautelosas certas conversas próprias de rapazes acicatados pelos impulsos eróticos. A culpa era toda minha porque os escolhi à minha imagem e semelhança e neles procurei os meus virtuosos defeitos. Contudo tenho a impressão de que as relações entre todos, amigos e não amigos, seguiam código semelhante.
Hoje, nesse aspecto, tudo se aviltou, querendo com isto dizer que as relações entre as pessoas, jovens ou não, se degradaram, isto ´+e, baixaram de grau, seguindo determinada escala de valores em que cada valor tem o seu grau, estou a querer fugir à inutilidade de afirmar que o passado era melhor. Era diferente, e reporto-me à escala de valores desse passado quando o comparo com o presente.

Rómulo de Carvalho em Memórias

OLHAR AS CAPAS



Dois Corpos Tombando na Água

Alice Vieira
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Maio de 2007

naquele tempo toda a cidade ardia e nós
ardíamos com ela mas sabíamos
que havia de chegar uma noite
em que as amarras (ou a pátria     tanto faz)
seriam mais fortes e entraríamos
em silêncio no quarto
inventando palavras tão transparentes para a nossa vida
que hoje tenho dificuldade em encontra-las
para as colocar em seus devidos lugares

tínhamos então a idade
de tudo o que nos acontecia pela primeira vez
protegidos pela sombra dos castanheiros de maio
e   ainda que por breve tempo     chegámos a acreditar
que um dia nos iríamos de novo amar ali
exactamente ali
entre o rio    as pontes    as estátuas
a praia que roubávamos ao asfalto
onde os dias pareciam sem desvio


e a dona do hotel a prometer-nos
domingos de sol   

quinta-feira, 6 de julho de 2017

POSTAIS SEM SELO


A vida em sociedade torna-se estranha quando nos aproximamos dos 60 anos; eu falo de livros que os outros não leram e os outros falam de livros que eu não tenho nenhuma vontade de ler.

Luís  Sepúlveda

Legenda: «Homem a Ler», de Georges Seurat

OS CROMOS DO BOTECO


Um interessante single encontrado no Boteco.
Gosto da voz de Gordon Lightfoot e da canção «Me and Bobby McGee».
A outra canção do single é «If You Could Read My Mind».

ESOTERIA


Tenho mais que fazer que reler-me.
Reler-me custa. É pensar prisioneiro.
Nenhuma, cadeia nenhuma serve ao pensamento livre
E a cadeia que em nós pomos na cabeça
é a pior,
é a pior de todas.
Já alguém alguma vez viu no ar um pássaro voando com as suas próprias asas?
                                     não, isso é engano.
O pássaro que voa, voa ajudado pelo vento.
E faz de conta
que asas não tem.
O ar o ajuda? Talvez… O ar o ajuda…
Se o pássaro, porém, quiser voar
duas vezes:
não voa, não voa!, com as dele mesmo
asas.
Dele é e não é o voo que lhe pertence.
E irrepetível é o ar que o move.
Dentro de si circula.

Raul  de Carvalho em Um e o Mesmo Livro

SARAMAGUEANDO


Numa carta para José Rodrigues Miguéis, José Saramago diz-lhe:

E peço-lhe que não faça caso da aridez desta carta: ontem deu-me para recordar o meu avô camponês – e fiquei assim: amargo. Felizmente para a literatura portuguesa deu crónica… Manha de literato, defeito de escriba: tudo acaba por se transformar em literatura…

A crónica que Saramago refere, aparece em Deste Mundo e do Outro. Chamou-lhe «O Meu Avô, Também»:

Talvez o dia chuvoso seja o responsável desta melancolia. Somos uma máquina complicada, em que os fios do presente activo se enredam na teia do passado morto, e tudo isto se cruza e entrecruza de tal maneira, em laçadas e apertos, que há momentos em que a vida cai toda sobre nós e nos deixa perplexos, confusos, e subitamente amputados do futuro. Cai a chuva, o vento desmancha a compostura árida das árvores desfolhadas – e dos tempos passados vem uma imagem perdida, um homem alto e magro, velho, agora que se aproxima, por um carreiro alagado. Traz um cajado na mão, um capote enlameado e antigo, e por ele escorrem todas as águas do céu. À frente, caminham animais fatigados, de cabeça baixa, rasando o chão com o focinho. Homem e bichos avançam sob a chuva. É uma imagem comum, sem beleza, terrivelmente anónima.
Mas o homem que assim se aproxima, vago, entre cordas de chuva que parecem diluir o que na memória não se perdeu, é meu avô. Vem cansado, o velho. Arrasta consigo setenta anos de vida difícil, de desconforto, de ignorância. E, contudo, é um homem sábio, calado e metido consigo, que só abre a boca para dizer as palavras importantes, aquelas que importam. Fala tão pouco (são poucas as palavras realmente importantes) que todos nos calamos para o ouvir quando no rosto se lhe acende qualquer coisa como uma luz de aviso. Fora isso, tem um modo de estar sentado, olhando para longe, mesmo que esse longe seja apenas a parede mais próxima, que chega a ser intimidade. Não sei que diálogo mudo o mantém alheado de nós. O seu rosto é talhado a enxó, fixo mas expressivo, e os olhos, pequenos e agudos, têm de vez em quando um brilho claro como se nesse momento alguma coisa tivesse sido definitivamente compreendida. Parece uma esfinge, direi eu mais tarde, quando as leituras eruditas me ajudarem nessas comparações tão abonatórias de uma fácil cultura. Hoje digo que parecia um homem.
E era um homem. Um homem igual a muitos desta terra, deste mundo, um homem sem oportunidades, talvez um Einstein perdido sob uma camada espessa de impossíveis, um filósofo (quem sabe?), um grande escritor analfabeto. Alguma coisa seria, que não pôde ser nunca. Recordo agora aquela noite morna de verão, que dormimos, nós dois, debaixo da figueira – ouço-o ainda falar da vida que tivera, da Estrada de Santiago que sobre as nossas cabeças resplandecia (as coisas que ele sabia do céu e das estrelas), do gado que o conhecia, das histórias e lendas que eram o seu cabedal da infância remota. Adormecemos tarde, enrolados na manta lobeira, que a madrugada refrescaria com certeza e o orvalho não caía só sobre as plantas.
Mas a imagem que me não larga é a do velho que caminha sob a chuva, obstinado e silencioso, como quem cumpre um destino que nada pode modificar. A não ser a morte. Mas, nessa altura, este velho, que é meu avô, ainda não sabe como vai morrer. Ainda não sabe que poucos dias antes do seu último dia vai ter a premonição (perdoa a palavra, Jerónimo) de que o fim chegou, e irá, de árvore em árvore do seu quintal, abraçar os troncos, despedir-se deles, dos frutos que não voltará a comer, das sombras amigas. Porque terá chegado a grande sombra, enquanto a memória o não fizer ressurgir no caminho alagado ou sob o côncavo do céu e a interrogação das estrelas. Só isto – e também o gesto que de repente me põe de pé e a urgência da ordem que enche o quarto aquecido onde escrevo.

Antes,  já evocara a sua Avó Josefa, também fazendo parte do mesmo livro e que pode ser lida por aqui em Olhar as Capas.

DA PRIMAVERA MARCELISTA


Carta de José Saramago, datada de 16 de Dezembro de 1968, para José Rodrigues Miguéis:

Notícias daqui, não há muitas para dar. No fim de contas, os jornais dizem tudo… Após a ilusão de alguns, veio a desilusão de todos. Por mim, que tenho diploma de céptico, isto não tira nem põe. (…)
De mim, propriamente dito, também não há muito que dizer: é o jornal, é a editora, e entre estes dois pólos vai vivendo o meu descontentamento. Bem gostaria de tirar o corpo da engrenagm, mas já não é possível: vou defendendo a alma conforme posso, mas essa mesma já se vai descobrindo comprometida. A chamada vida prática tem muitas exigências.
Espero as suas notícias. E peço-lhe que não faça caso da aridez desta carta: ontem deu-me para recordar o meu avô camponês – e fiquei assim: amargo. Felizmente para a literatura portuguesa deu crónica… Manha de literato, defeito de escriba: tudo acaba por se transformar em literatura…

quarta-feira, 5 de julho de 2017

OLHAR AS CAPAS


A Quadrilha de Rubber

Rex Stout
Tradução: Maria do Carmo Pizarro
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 330
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Wolfe continuava sem me ligar. A verdade é que eu não esperava que o fizesse, pois estava ocupado a fazer exercício. Ultimamente, andava com a impressão de pesar de mais – o que era quase o mesmo que o Oceano atlântico andar com a opinião de estar molhado de mais – e, por conseguinte, acrescentara um novo ponto ao seu programa diário. Uma vez que só saía de casa por coisas tais como tremores de terra e holocaustos, raramente se lhe imputava movimento, excepto quando estava lá em cima, no telhado, com Horstmann e as orquídeas, desde as nove às onze da manhã e desde as quatro às seis da tarde, mas ali não havia possibilidade de praticar o salto à vara. Eis, pois, a razão do novo aparelho para o seu exercício diário e que era uma maravilha. Utilizava-o das 3,45 às 4 da tarde. Constava de um quadrado de madeira com cerca de sessenta centímetros de lado, revestido de cortiça e com um largo círculo ao centro; dentro deste, um círculo mais pequeno e vinte e seis raios, delineados com arame fino, dividiam a área do círculo maior em cinquenta e duas secções. Cada uma destas tinha um símbolo próprio, pintado, e o seu conjunto constituía um baralho de cartas; o centro do alvo, um pequeno disco, era o bestão. Havia também uma porção de setas, umas coisinhas atraentes com cerca de dez centímetros de comprimento e sessenta gramas de peso, feitas de madeira e penas, com uma pontinha metálica. Depois de suspender a tábua na parede, o jogador devia colocar-se à distância de três a quatro metros e meio dela, arremessar-lhe cinco setas e fazer uma «mão de póquer», utilizando o betão como recurso. Depois ia lá buscar as setas e tornava a arremesá-las; depois ia lá busca-las…
Obviamente, aquilo era muitíssimo excitante. O que eu pretendo exprimir é o seguinte: seria um jogo estupendo para uma classe infantil de miuditas, mas nenhum rapaz decente com mais de seis meses de idade, perderia muito tempo com aquilo.

terça-feira, 4 de julho de 2017

ENQUANTO O RESTO DO MUNDO DORMIA


Eram os «porquê» e «para quê» fundamentais que me levavam a pegar na guitarra. Sim as raparigas. Sim, o sucesso. Mas as respostas, ou melhor, aquelas pistas, era isso que continuava a acordar-me a meio da noite, para rolar para o lado contrário e desaparecer na caixa de som da minha cifra de seis cordas (que ficava sempre ao lado da minha cama) enquanto o resto do mundo dormia. Sinto-me contente por ter sido principescamente pago pelo meu esforço, mas a verdade é que o teria feito mesmo sem receber nada. Porque tinha de o fazer. Era a única maneira de eu encontrar um alívio momentâneo e o propósito de que andava à procura. Portanto, para mim, não haveria qualquer atalho. É pedir muito a um pedaço de madeira com seis cordas de aço e um par de microfones baratuchos acoplados., mas essa era a «espada» da minha libertação.

Bruce Springsteen em Born to Run

A ANGÚSTIA DO TEMPO CORRENDO


15-6-1967
5ª feira: - cabe-nos lavar a roupa, tenho as mãos cheias de sabão, o calção é renitente e a habilidade pouca e de repente chamaram-me vou com as mãos cheias de sabão, limpo-as aos blujines antes que me caia nas mãos a carta. Leio: fotos e não ouso abri-la. Tenho medo. Primeiro comerei o pão c/ doce de tomate que eu mesmo fiz, beberei o café com leite. Depois arrumo tudo, ponho a carta à frente de mim e começo a tremer com as mãos. Estou velho? Abro-a com uma ansiedade de colegial apaixonado – há palavras, vida e seres que me chegam. Quero chorar e só o coração está pesado e dolorido. Sobre a alegria logo a angústia do tempo correndo sobre tudo quanto recebo e dou. Ah, mas vale a pena estar preso para sentir esta felicidade que me vem de vós! (A roupa anda ali no tanque, esqueci-me por completo dela: agora só no domingo.)

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

segunda-feira, 3 de julho de 2017

PEQUENOS CADERNOS


Tenho esta frase guardada nos caderninhos. 

Desconheço o autor.

 «Nunca ponhas um ponto final onde Deus pôs uma vírgula».

Gosto desta frase.

Suponho que cada um a interpreta à sua maneira, aquilo que ela encerra.

A minha maneira de a entender agrada-me mesmo que esse entendimento não seja exacto ou aquilo que ela quer mesmo dizer.

TRUMPALHADAS


Que leva o presidente Emmanuel Macron a convidar Donald Trump para visitar Paris durante as comemorações do 14 de Julho, dia nacional de França?

Se eu fosse francês sentia-me ofendido.

Saberá Trump o que foi a Tomada da Bastilha?

Entretanto, Donald Trump voltou a atacar a televisão CNN, com uma mensagem no Twitter em que aparece a bater na cadeia televisiva.

O vídeo é antigo e mostra a participação especial de Trump num combate da Wrestlemania 23, há quase dez anos. Nas imagens Trump parece agredir patrão da WWE, Vince McMahon, no estilo encenado que marca estes eventos. Nesta montagem, a cabeça de McMahon está tapada pelo símbolo da CNN.

Ferreira Fernandes, na sua crónica de hoje no Diário de Notícias lembr que a mulher de McMahon, «adversário» de Trump no vídeo, deu seis milhões para a campanha presidencial e Trump nomeou-a para um cargo público. 

A CNN já reagiu dizendo que é triste quando o Presidente dos Estados Unidos encoraja violência contra repórteres.

A estação tem sido um dos alvos preferenciais de Trump, bem como os órgãos que o presidente apela de liberais, como o The New York Times. Em comunicado, a CNN diz que Trump deveria estar a preparar a sua deslocação ao estrangeiro, o seu primeiro encontro com Vladimir Putin, lidar com a Coreia do Norte e trabalhar na sua lei de saúde e não a ter comportamentos imaturos muito abaixo do que a dignidade do seu cargo exige. Continuaremos a fazer o nosso trabalho. Ele deveria começar a fazer o dele.

OLHAR AS CAPAS


Tempo Escandinavo

José Gomes Ferreira
Capa: João da Câmara Leme
Portugália Editora, Lisboa, Novembro de 1969

Mas ouvir da boca de uma Astrid qualquer de olhos de vidro azul que Portugal vivia em ditadura porque os portugueses não sabiam comer com decência feria-me até aos ossos, porque ninguém mais do que eu odiava a ditadura da minha terra – por injusta e imerecida. Para Astrid, porém vivíamos o destino perfeito de um povo vilmente escravo por vocação.

APENAS UM MÚSICO


Joan Baez gravou uma canção de protesto sobre mim que estava a fazer grande sucesso, desafiando-me para eu me envolver – para sairr, liderar as massas – ser um defensor, liderar a cruzada. A música chamava por mim através da rádio, como se fosse um apelo de serviço público. A imprensa nunca me largou. De quando em vez, lá tinha que me oferecer para uma entrevista para não me deitarem a porta abaixo. Normalmente as perguntas começavam por qualquer coisa do género «Podemos falar das coisas que andam a acontecer?», «Claro, como por exemplo?» perguntava-lhes. Os repórteres disparavam perguntas, e eu respondia-lhes que não era um porta-voz de nada, nem de ninguém, que era apenas um músico. Olhavam para os meus olhos como que na expectativa de encontrar algum indício de bourbon e carradas de anfetaminas. Eu não fazia ideia do que lhes passava pela cabeça. Mais tarde acabaria por ser publicado um artigo com o título «Porta-voz nega que é um porta-voz». Sentia-me como um pedaço de carne que alguém tinha atirado aos cães. O New York Times publicou interpretações charlatonas das minhas canções. E a revista Esquire pôs um monstro de quatro caras na capa: a minha cara juntamente com a de Malcom X, a de Kennedy, a de Castro. Que diabo quereria aquilo dizer? Era como se eu estivesse à beirinha de um precipício. Se alguém tinha alguma ideia ou conselho válido para oferecer, não parecia. Quando se casou comigo, a minha mulher não fazia ideia daquilo em que se estava meter. Nem eu, na verdade, e agora estávamos em maus lencóis.

Bob Dylan em Crónicas

domingo, 2 de julho de 2017

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


O sacana continua a vir a Portugal a preços proibitivos.

Toca há mais de 20 anos com a New Orleans Jazz Band e volta a Portugal para mais um concerto com bilhetes que vão dos 25 euros, galeria de pé, aos 120 euros, cadeira de orquestra.

 A minha ingenuidade leva-me a pensar que estas performances acontecem por divertimento, puro gozo.

Tenho com Woody Allen uma velha cumplicidade nascida quando, no outro século, vi  no Apolo 70 o Grande Conquistador, tempos-de-ditadura-joe-dimaggio traduzido-como-Eusébio para que se pudesse entender  o que o realizador pretendia.

Não chego ao ponto de dizer que gosto de todo os seus filmes, mas há sempre qualquer coisa que permite não dar o tempo por mal empregue.

Nem que seja pelas bandas sonoras, pérolas do American Song Book e, nos créditos, aquelas letras brancas sobre fundo negro e muita música.

Woody Allen é sempre divertido e elegante, mas também, necessariamente, repetitivo e desigual.

Mas não consigo passar sem os seus filmes.

Ele sempre disse: quero apenas fazer um bom filme. Quero que o público saia da sala a dizer: não gostei do filme mas, pelo menos, não insultou a minha inteligência.

Sean Penn a fazer de Emmet Ray – um papelaço! - em Sweet and Lowndown:

Melhor que eu só o cigano Django Reinhart.

SARAMAGUEANDO


Há uma frase de Jorge Listopad:

As minhas bibliotecas foram-se fazendo e desfazendo com casamentos, divórcios, separações…

José Saramago fala de livros e divórcios no 1º Volume dos Cadernos de Lanzarote:

Na Feira aparece uma pessoa a comprar todos os meus livros. Põe-nos todos diante de mim para que os autografe, os grossos e os finos, os caros e os baratos, trinta e tal contos de papel, conforme vim a saber depois, e o que me desconcerta é que o homem não é um convertido recente ao “saramaguismo, um adepto de fresca data, um neófito disposto às mais loucas ousadias, pelo contrário, fala do que de mim leu com à vontade e discernimento. Resolvo-me a perguntar-lhe a razão da ruinosa compra, e ele responde simplesmente, com um sorriso onde aflorou uma rápida amargura: “Tinha-os todos, mas ficaram na outra casa.” Compreendi. E depois de ele se ir embora, ajoujado sob a carga, pus-me a pensar na importância dos divórcios na multiplicação das bibliotecas…

No 1º volume de O Caderno retoma o tema:

Por duas vezes, ou talvez tivessem sido três, apareceram-me na Feira do Livro de Lisboa, em anos passados, outros tantos leitores, os dois ou os três, ajoujados ao peso de dezenas de volumes novos, comprados de fresco, e em geral ainda acondicionados nos sacos de plástico de origem. Ao primeiro que assim se me apresentou fiz-lhe a pergunta que me pareceu mais lógica, isto é, se o seu encontro com o meu trabalho de escritor havia sido para ele coisa recente e, pelos vistos, fulminante. Respondeu-me que não, que me lia desde há muito tempo, mas que se tinha divorciado, e que a ex-esposa, também leitora entusiasta, havia levado para a sua nova vida a biblioteca da família agora desfeita. Ocorreu-me então, e sobre isso escrevi umas linhas nos velhos Cadernos de Lanzarote, que seria interessante estudar o assunto do ponto de vista do que nessa altura designei como a importância dos divórcios na multiplicação das bibliotecas. Reconheço que a ideia era algo provocadora, por isso deixei-a em paz, ao menos para não vir a ser acusado de colocar os meus interesses materiais acima da harmonia dos casais. Não sei, nem o imagino, quantas separações conjugais terão dado origem à formação de novas bibliotecas sem prejuízo das antigas. Dois ou três casos, que tantos são os que conheci, não foram suficientes para fazer nascer uma primavera, ou, por palavras mais explícitas, por aí não melhoraram nem os lucros do editor, nem a minha cobrança direitos de autor.

Legenda: pintura de Félix Vallotton

EM QUE CORDA SENSÍVEL LHE TOCASTE?


Na última carta, Jorge de Sena fazia referência a umas trapalhadas de que fôra vítima por parte de Mário Cesariny de Vasconcelos.
Em carta datada de 25 de Novembro de 1969, Eugénio de Andrade diz-lhe:

Vi os surrealistas de armas contra ti – não te enviei os recortes para que te não incomodassem. Não conheço o prefácio dos Manifestos. Em que corda sensível lhe tocaste? Acho que fizeste bem em não ligares ao assunto qualquer importância. Conheces bem o Mário Cesariny – ele precisa de um pequeno escândalo de vez em quando, para que não o esqueçam.


Legenda: Mário Cesariny por André Carrilho

OLHARES


sábado, 1 de julho de 2017

À LUZ DE CANDEEIROS


Candeeiro na Vila Berta em tempo de Santos Populares.

A ATENAS DA AMÉRICA


- Não quer que encoste a minha cabeça ao seu ombro?
- Com este trânsito é impossível. Anos atrás, esta cidade agradava-me. Havia árvores ao longo do Wilshire Boulevard. Beverly Hills era uma cidade interior. Hollywood era constituída apenas por um agrupamento de casas sobre a linha interurbana. Los Angeles era apenas uma enorme terra soalheira e seca, cheia de casas feias, sem estilo, mas de boa gente e onde reinava a tranquilidade. As pessoas dormiam nos pórticos das casas. Pequenos grupos que se intitulavam intelectuais, chamavam-lhe a Atenas da América. Não o era, mas também não era um bas-fond iluminado a néon.

Raymond Chandler em Ingénua Perigosa

QUE LINDAS FÉRIAS VOU EU TER!...


17 de Agosto de 1969

Graças ao auxílio fiel da Rosalia terminei (provisoriamente) o Tempo Escandinavo que tenciono entregar ao Editor dentro de breves dias. E agora vou atirar-me de chapuz na organização de Poesia IV.
- Que lindas férias vou eu ter!... – geme a Rosalia que jura por Apolo que sou absolutamente insuportável quando mexo e remexo em versos.
Tem talvez razão. A Poesia para mim assemelha-se a um arrancar de pele, para mostrar o sangue desenhado nas palavras.

José Gomes Ferreira em Livro das Insónias Sem Mestre VIII volume dos Dias Comuns.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS