terça-feira, 10 de janeiro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Partirei para as terras do fogo sem colocar, neste Cais, metade que seja dos livros da Biblioteca da Casa.

A morte de António Cartaxo deu para, tristemente, constatar que nunca coloquei no Olhar as Capas, o livro Quase Verdade Como São Memórias, se bem que andam a apssear por aí alguns excertos. Apenas Ao Sabor da Música chegou ao Olhar. E terei que voltar aos alfarrabistas para tentar encontrar os restantes livros: BBC Versus Portugal. História de um Despedimento Político, Palavras em Jogo, O Meu Primeiro Mozart. Efemérides Românticas.

Porque António Cartaxo escrevia muito bem, para além de ser um extraordinário divulgador de músicas e suas histórias. Tinha uma bela voz e é responsável pela formação de uma vasta legião de amantes da música clássica. Eu, que  já trazia o vício cedido pelo meu pai, ampliei esse gosto com o contributo do António Cartaxo.

Uma vida cheia, uma alegria transbordante que proporcionou a uma série de gente, gente interssada. Como ele um dia disse, citando um filósofo: «Dizem mais os que dizem menos.»

Se forem ao site da Antena 2 poderã encontrar alguns dos programas que Cartaxo, exemplarmente, deixou por ali e pena foi que não o tivessem aproveitado muito mais.

A morte de quem gostamos marca-nos sempre. Ainda hoje aqui não consegui colocar uma palavra que seja sobre a morte de Chalana, o pequeno genial.

Apesar de ter sido professor na Faculade de Letras, António Cartaxo dizia que não se imaginava viver sem rádio.

Gostava de música, gostava de a divulgar, gostava de viver, gostava dos outros, gostava do Benfica: «O meu irmão fez-se sócio do Benfica e o cartão passou a dar para os dois. Como? Do topo norte da bamvada de sócios do Bemfica, ele lançava-me um projéctil com o cartão atado para o campo de treinos do Sporting, de acesso livre , contíguo ao campo do Benfica, onde eu aguardava a queda do embrulho. Com o mesmo cartão de sócio entrava eu a seguir. Vi assim num campeonato todos os jogos que o Benfica disputou em casa.»

O meu avô Mário, republicano histórico, anti-clerical e benfiquista, a dizer-me num tempo qualquer: «Seríamos pessoas diferentes, outras mesmo, se não fôssemos do Benfica.»

Em memória de António Cartaxo, enquanto escrevo este texto, uma peça de que Cartaxo muito gostava, A Porta de Kiev, último quadro de Quadros de Uma Exposição de Mussorgsky:

«Fiel a um primeiro amor, conto-me hoje entre os mais devotos colecionadores de Quadros de Uma Exposição».


OLHAR AS CAPAS


Quase Verdades Como São Memórias

António Cartaxo

Capa: Sérgio Rebelo

Edições Colibri, Lisboa, Dezembro de 2009

Havia zonas de Lisboa com figuras que, se não animavam, alegravam os locais com o riso que provocavam nuns, o que era cruel, ou a pena e comiseração que suscitavam noutros. Eram os loucos de Lisboa a quem a vida levava o juízo. Havia os loucos amorosos, como a viúva do piloto Plácido de Abreu. Vestia de cores extravagantes, cobria o rosto de rouge, os cabelos pintados enfeitados com lacinhos azuis, verdes e amarelos. O seu poiso era o Jardim do Campo Pequeno.

Havia um homem possuído pela loucura amorosa de Afrodite, o Noivo. Pelo passeio da Avenida da Liberdade, andava para trás e para diante, incansável, em passo acelerado, vestido a rigor, de rosa branca na lapela. Falava só, numa lenga-lenga imperceptível. Enlouquecera, dizia-se, quando a noiva não aparecera no dia do casamento.

Na Alameda D. Afonso Henriques, à noite parava o louco poético que, a pedido, entoava belas e portentosas árias do repertório verdiano. Na nova artéria da Praça de Londres, aos domingos à tarde, era o relator desportivo manque. Moldava um jornal na forma de microfone e relatava o jogo principal da jornada futebolística. Hora e meia para cima e para baixo a inventar jogadas, golos, penalidades e foras de jogo (como hoje fazem alguns árbitros no seu perfeito juízo. Por fim, o louco ritual, o Catinha, frequentadores das ruas do Estoril que às vezes vinha a Lisboa. Vestia casaca preta. Postava-se nos passeios e, se via uma criança prestes a travessar a rua parava o trânsito com um silvo do apito e ajudava-a a passar para o outro lado da rua. Dizia-se que perdera uma filha por atropelamento.

À vista desarmada, Lisboa não era uma cidade feliz, Muito menos o era na sombra.

PADRES QUE DEIXAM DE PREGAR O EVANGELHO...


Do que se passou na Capela do Rato nos últimos dias do ano de 1972, Marcelo Caetano determinou que nada seria referido nos jornais, rádios e televisão, nada seria publicado.

Apenas um comunicado do governo  a dizer que os funcionários públicos, demitidos das suas funções pelo governo, tinham recorrido da decisão para o conselho de ministros, também, após largas discussões do Cardeal Patriarca com o ministro do interior, uma confusa nota do Patriarcado do que então se tinha passado na Capela do Rato.

O Notícias de Portugal era um boletim semanal, da responsabilidade do SNI, enviado para os emigrantes portugueses espalhados pelo mundo. Do que passou na Capela não tiveram qualquer informação. Apenas no discurso de encerramento da reunião anual da Acção Nacional Popular, Marcelo Caetano faz uma curta e destemperada observação:

«A sociedade portuguesa, habituada durante muitos anos à protecção paternalista, não estava preparada para um ambiente de discussão e de luta. Ao ímpeto dos contestatários não se tem oposto mais que hesitante comodismo ou frouxa resistência. Muita gente julga até que tudo – turbulência, desmoralização, demolição – tudo é abertura, tudo está no jogo, tudo faz parte do novo estilo de governo…

Ingènuamente as pessoas querem então estar à moda. Não desejam que as considerem «ultrapassadas». É preciso andar com os novos tempos… e deixam correr ou apressam-se a dizer - «ámen».

Por isso há padres que deixam de pregar o Evangelho para fazer no púlpito a apologia da revolução social, demitem-se os pais da autoridade familiar, as audácias dos costumes chocam cada vez menos os moralistas, professores resignam-se à indisciplina, entram chefes em dúvida acerca da legitimidade do exercício da sua autoridade, olha-se com timidez a acção dos que procedem contra a ordem e contra alei e quase se tem pudor de aplicar sanções ou de usar os meios normais de reprimir ou contrariar as manobras de perturbação ou de obstrução da vida das instituições.»

segunda-feira, 9 de janeiro de 2023

ANTÓNIO CARTAXO (1934-2023)


A morte de António Cartaxo no passado dia 5 de Janeiro traz-me a recordação de que foi António Cartaxo que marcou os meus últimos dias em que ouvir a Antena 2 me dava um enorme prazer.

 A rádio está associada à minha vida.

Um tanto como Sam Shepard em Crónicas Americanas:

«Conheci um guitarrista que dizia «a minha amiga rádio». Sentia um parentesco menos com a música do que com a voz da rádio. A sua qualidade sintética. A sua voz única, distinta das vozes que a atravessam. A sua capacidade de transmitir a ilusão de gente a grande distância. Dormia com a rádio. Falava para a rádio. Discordava da rádio. Acreditava numa Terra Longínqua da rádio da Rádio. Como achava que nunca encontraria esta terra, reconciliou-se consigo mesmo a ouvir a rádio. Acreditava que tinha sido banido da Terra da Rádio e condenado a errar eternamente pelas ondas sonoras, ansiando por um posto mágico que o devolvesse à sua herança há muito perdida.»

Ou ainda João Bénard da Costa em Crónicas: Imagens Proféticas e Outras”,  2º volume.

«Meus dias de rapaz e de adolescente podem não ter aberto a boca a bocejar, sombrios, mas abriram os ouvidos a escutar raios e coriscos provindos de um aparelho que foi talvez a maior maravilha tecnológica da minha tenríssima infância,

Sem a rádio eu não teria descoberto Mozart e Beethoven, Schubert e Schumann, Wagner e Verdi, Mahler e Bruckner.

Vozes de outro mundo ou outro mundo em vozes, como os filmes americanos dos anos 40 os encenaram, com a mau sublime expressão no Clifron Webb de “Laura”: “Madder music and sronger wine.»

Ou o Luiz Pacheco:

«Já não estou muito capaz de trabalhar, porque a memória, a vista, tudo isso inibe um tipo. Já não leio os jornais, não consigo. A minha ligação com o mundo é a rádio.»

Saber da morte de António Cartaxo deixa-me uma enorme tristeza.

Um homem, culto de uma simplicidade assombrosa, assim como a incrível humildade de Carlos Paredes.

Por os dias da rádio da minha vida, e por António Cartaxo, irei ouvir o Adagietto da 5ª Sinfonia de Gustav Mahler.

Porque a música é um romance sem fim.


LEMBRETE

Daqui a pouco, pelas 22,30 horas na RTP1 , não deixem de ver Um Gesto de Liberdade, documentário sobre os acontecimentos na Capela do Rato, no findar do ano de 1972.

TANTA COISA PARA DIZER...


O Brasil está longe.

Grande país, gente boa, gente má, gente assim-assim.

Tiveram uma eleição presidencial para a tentativa de resolver a escolha de um escroque que colocaram há quatro anos para presidente.

Nas recentes eleições presidenciais o escroque apresentou-se para a reeleição.

Do outro lado Lula da Silva carregado de histórias não muito claras, mas mais vale um pé do Lula da Silva do que o todo do escroque.

Uma nação tão sábia não tinha um outro alguém para despejar o escroque?

O risco, enorme risco, foi o escroque quase ter ganho a eleição.

Fugiu para  Miami onde se encontra toda merdalanja de escroques universais.

O que ontem se viu através das televisões é inacreditável.

Há uma canção do Chico, com poema de Vinicius, que deixo por aqui. Poderiam ser tantas ...

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar

São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

domingo, 8 de janeiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 

A RTP 1 transmite amanhã, pelas 22,30 horas, um documentário da autoria de Jacinto Godinho e Carlos Oliveira, Os Caminhos da Liberdade, em que são abordados os acontecimentos ocorridos no dia 30 de dezembro de 1972, em que um grupo de cristãos ocupou o interior da capela do Rato, em Lisboa, como forma de protesto e apelo contra o fim da guerra colonial.

O documentário está inserido nas comemorações dos 50 anos do 25 de Abril.


No dia 30 de dezembro de 1972, um grupo de católicos, a que se associariam não católicos, organiza uma vigília de 48 horas, na Capela do Rato, em Lisboa, para meditar sobre a paz e sobre a situação vivida nas guerras coloniais.

No dia seguinte, os participantes aprovam uma moção repudiando a política do Governo de “prosseguir uma guerra criminosa com a qual tenta aniquilar movimentos de libertação das colónias” e denunciando a “cumplicidade da hierarquia da Igreja Católica face a esta guerra”.

Ao final do dia, a vigília é interrompida pelas forças policiais e os participantes são conduzidos à esquadra local, sendo que 14 permaneceriam detidos durante duas semanas na prisão de Caxias. Os funcionários públicos presentes seriam alvo de processos de demissão, conforme decidido em Conselho de Ministros.

Os acontecimentos da Capela do Rato marcam um dos mais significativos episódios da luta contra a ditadura. O regime via-se confrontado com mais uma frente de protesto e luta, vinda donde menos esperaria: do seio da Igreja Católica, um pecado organizado, tal como diz Sophia.

Nunca a voz da Igreja se fizera ouvir para condenar a guerra colónia, as perseguições da PIDE, a tortura e a morte. Os acontecimentos da Capela do Rato determinaram que nada seria como antes: estes católicos e não católicos, acusados pelo governo, como traidores à Pátria, diziam ao país que viam ouviam e liam e não mais poderiam continuar a ignorar.

Entre as cerca de setenta de pessoas detidas pela PIDE na Capela do Rato, encontravam-se doze funcionários públicos que, por decisão do Conselho de Ministros, publicada no Diário do Governo de 13 de Janeiro, foram demitidos das suas funções.

Em 20 de Janeiro os funcionários demitidos recorreram da decisão governamental.

Em 23 de Fevereiro de 1973, por resolução do Conselho de Ministros, negou provimento ao recurso apresentado pelos funcionários públicos.

No dia 11 de Janeiro de 1973, o Diário de Lisboa, publica uma Nota do Patriarcado acerca dos protestos de católicos, e não católicos:

Uma carta do Padre Sampaio para o Padre Bertulli:

«Sinto-me reduzido a uma igreja de silêncio, em que a verdade é escondida e o Evangelho traído descaradamente».

Algures no tempo, Manuel António Pina escreveu:

 «Porque houve um tempo em que tivemos esperança. E, provavelmente, fé. Um tempo em que acreditámos em coisas maiores, em palavras e ideias por que valia a pena morrer. Também, no entanto, as nossas palavras, mesmo as mais desmesuradas, sucumbiram à trivialidade e à pequenez. E hoje olhamos em volta e vemos muitos dos que connosco partilharam a confiança e a esperança entre as piores dos porcos, dos feios e dos maus.»

No LP Canções da Cidade Nova de Francisco Fanhais encontra-se Cantata da Paz, poema de Sophia Mello Breyner Andresen e música de Rui Paz, cantada na vigília da Capela do Rato.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO

A nova secretária de Estado da Agricultura, Carla Alves Pereira, ontem empossada pelo presidente da República, tem diversas contas arrestadas, na sequência de uma investigação que visa o marido, Américo Pereira, ex-presidente da Câmara de Vinhais.

Américo Pereira, ex-presidente da Câmara de Vinhais e marido da nova secretário de Estado da Agricultura, dá, esta quinta-feira, esclarecimentos sobre uma investigação na qual é visado. Garante que a mulher "não tem nada a ver" com o processo judicial de que é alvo, na sequência da qual terão sido arrestadas contas bancárias do casal.

Adianta explicações mas não vale a pena, por aqui, esticar o lençol.

Que mais poderá acontecer a António Costa, primeiro-ministro do governo de Portugal?

Possivelmente gostaria de seguir o conselho do poeta Manuel Bandeira:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

CHAVE, KLEE

És, como no Klee
a máquina de chilrear
a liquidez perfeita dos passos,
a música dos surdos.

Que húmido pilar
sustenta, amor, o paço
em que me acoito e durmo
que não seja teu canto

ao canto do meu dia?
És, como no Klee,
a virgem matemática
que tudo me desvenda

e sem que eu faça contas
calculas somas, sumos,
entre o covo das ondas
e azul astronomia.

És, como no mundo,
a pintura delida
de que sobrou apenas
um osso branco e flauta.

Pedro Tamen

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Foi à base de estimulantes (café, tabaco) que escrevi todos os meus livros. Desde que me é impossível tomá-los, a minha «produção» caiu para zero. Do que depende a actividade do espírito!

Emil Cioran

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Sophia Mello Breyner Andresen sempre se admirou por as pessoas celebrarem a passagem do ano, dizia ela que o ano está sempre a passar. Há quem nunca deseje bom ano a ninguém, dizem que dá azar. E há a velha sabedoria que nos diz que os anos só são novos enquanto os novos somos nós.

Se viram um amável filme da norte-americana Rob Reiner, com Meg Ryan e Billy Cristal, When Harry Meet Sally, quase no final, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los, mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: seja o que for é uma canção sobre velhas amizades.
Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco, e os que ainda fazem do Natal a festa dos amigos, celebrar a amizade, e o desejo que a viagem, pelos dias do novo ano, seja uma viagem tranquila.

1.

De trás para a frente, da frente para atrás para que, após lamentável atraso, aconteça a lei que o catolicismo do presidente tem criado dificuldades várias. Marcelo Rebelo de Sousa decidiu enviar para o Tribunal Constitucional o diploma relativo à Eutanásia para confirmar se as exigências formuladas em 2021 estão devidamente rectificadas no novo diploma.

De trás para a frente, da frente para até que, após lamentável atraso, aconteça a lei que o catolicismo do presidente tem criado obstáculos.

Um antiga afirmação de Teresa Beleza, que não tem nada a ver com esta lei, com o que quer que seja:

«Mas a formação dos magistrados é absolutamente essencial, porque já se tornou por demais evidente que ainda hoje há decisões judiciais absolutamente indignas de um país que se diz ser um Estado de direito democrático e tem uma Constituição da República correspondente, que aliás recebe expressamente no seu texto a Declaração Universal como ponto de referência interpretativo privilegiado em matéria de direitos liberdades e garantias.»

 2.

Anemoia: nostalgia de um tempo no qual tu nunca viveste.

3.

Dizem que a televisão fez diminuir a convivência. Não será a dificuldade na convivência que introduz o poder da televisão.

4.

Ando sempre em demanda de livros que gostava de ter, que gostava de recuperar e percorro alfarrabistas, pergunto a amigos, frequento a Loja Frenesi. Há dias estava por lá O Nosso Amargo Cancioneiro, organização e prefácio de José Viale Moutuinho, Edições Latitude, exemplar estimado, capa suja, miolo limpo, 1ª edição, 50,00 euros e IVA e portes incluídos.

Paulo da Costa Domingos, dono da loja, cita o prefácio:

«Acertadamente refere Viale Moutinho, no seu prefácio, «um caminho – o da amargura», ao caracterizar o «momento fecundo da primeira metade de 1972» na intervenção continuada dos cantores sociais, em que um Zeca Afonso, ou um Adriano Correia de Oliveira, ou um Luís Cília, ou um José Mário Branco, ou um Sérgio Godinho foram pontos de referência à navegação de assalto às mentiras do Estado Novo. Num substancial resumo da enorme diversidade de poemas cantados nessa época, vamos encontrar a escrita directa de poetas como Afonso Duarte, Alexandre O’Neill, António Borges Coelho, António Cabral, António Gedeão, António Rebordão Navarro, Carlos de Oliveira, Daniel Filipe, Eduardo Valente da Fonseca, Fernando Assis Pacheco, Fiama Hasse Pais Brandão, João Apolinário, Ary dos Santos, José Gomes Ferreira, Saramago, Manuel Alegre, Maria Teresa Horta, Natália Correia, Orlando da Costa, Raul de Carvalho, Reinaldo Ferreira, Sophia de Mello Breyner, Urbano Tavares Rodrigues, etc.

Outros tempos, estes em que cantores cantavam poetas de referência, em vez de gargarejarem umas coisas que lhes ocorrem no banheiro.»


QUOTIDIANOS


 Regressou à cidade e ia magicando que, quando andamos pelo campo, não nos apercebemos dos pequenos-grandes dramas horticolas… Amaldiçoamos a chuva e ela é um bem para o agricultor, amaldiçoamos o tempo quente e ele também é importante… O tempo, na cidade, não tem o mesmo valor que o homem do campo lhe dá.

NOTÍCIAS DO CIRCO

A leitura que faço da Constituição diz-me que Portugal não tem religião oficial, é um estado laico, não confessional, onde vigora a liberdade de religião e de crença.

Contudo, leio nos jornais que o presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, assinou esta quarta-feira o decreto de luto nacional pela morte do Papa emérito Bento XVI, que se vai cumprir na quinta-feira, dia das cerimónias fúnebres.

RECADO

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço

Al Berto

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Há memórias que só interessam pelo que inventamos delas.

Jorge Reis-Sá em Campo de Bargos

O OUTRO LADO DAS CAPAS

Só em caso de extrema necessidade recorro ao Pingo Doce das Olaias.

Antigo que sou, prefiro o comércio tradicional e pelo bairro ainda vou tendo uma drogaria, um café dos antigos, com uma esplanada extraordinária onde, no tempo da bica e do bagacinho, se discute tudo, desde plítica ao futebol e muito má língua,  e o Chiva simpático comerciante napalês, para frutas, legumes e o que quer que esteja a faltar para completar o almoço.

O Pingo Doce, até Junho do passado ano, viu  os lucros cresceram para 261 milhões de euros e pagam os impostos em paraísos fiscais. O país que se lixe! Os lucros da Galp, mais ou menos no mesmo período saltaram para 608 milhões de euros e à volta disto o governo de António Costa continua a ter imensas dificuldades em construir uma lei que taxe os lucros excessivos das grandes empresas.

Mas no tal Pingo Doce das Olaiais nem todas as caixas estão abertas, procura-se um assistente para se saber onde posso encontrar algo que os olhos não encontram no imediato e não se vê  nenhum, para além de  pagarem miseravelmente aos trabalhadores e imporem horários de autêntica escravatura.

Num tempo em que estava no Pingo Doce, frente à peixaria, a aguardar vez para que me cortassem  bacalhau, ao lado uma estantezeca de livros, fui olhando os títulos e chamou-me a atenção CampoDe Bargos, o futebol ou a recuperaçãoda infância.

O autor, nascido junto ao campo de futebol, conta a história dos seus domingos no Campo dos Bargos. Memórias futeboleiras da infância, as minhas começaram no Campo Grande, a velha estância de madeira onde ia com o meu avô ver os jogos do Benfica, tudo muito longe do que o futebol, infelizmente, hoje é.

Um livro muito curioso, interessante mesmo. Não deixem de o ler.

Deixo-vos estas passagens:

«O professor Reis-Sá morreu nos meus 17 anos. Por isso, as melhores memórias que tenho do meu pai são as que ficaram por acontecer. Ainda há muitas antes, serei justo. Mas todas elas perspectivavam mais. E o tempo não deixou que acontecessem. A ficção é a melhor memória que existe.»

 «Tenho muito a agradecer ao futebol. Ter sabido de mim no banco de suplentes do campo dos Bargos ou, como tantos mais, ter vivido momentos de enorme felicidade e ter percebido que a tristeza não nos mata – entristece-nos.»

 «Enquanto escrevia este livro, o meu avô perdeu-se na velhice. Enquanto escrevo estas linhas, o hospital chamou-o para estabilizar uma mente levada pelos 84 anos. De Gaulle definiu bem essa terceira idade: «a velhice é um naufrágio». O meu avô naufragou e nós não o podemos salvar.»

 «Há memórias que só interessam pelo que inventamos delas.»

OLHAR AS CAPAS


 Campo dos Bargos

Jorge Reis-Sá

Capa: Inês Sena

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, Fevereiro de 2022

Viver é um desastre à espera de acontecer. Ou a felicidade, o que é o mesmo.

Nasci na Castela, a 300 metros do Campo dos Bargos. Aquele onde o Futebol Clube de Famalicão passeava o azul e branco aos domingos, era o ano da graça de Nosso Senhor de 1977. E no ano em que, pela segunda vez na sua história, iria subir de divisão e, na época seguinte, receber os grandes do futebol nacional. Dessa segunda estada na Primeira Divisão não tenho como seria expectável, qualquer memória. Mas da terceira, entre 1990 e 1994, temos todos. Nasci ao lado do Campo dos Bargos, aquele onde, ainda hoje, o Vila Nova passeia o azul e branco aos domingos.

PÔE UMA PEDRA

Põe uma pedra
uma pedra sobre a infância
Para que de vez se cale essa respiração
contida suspensa no escuro
Põe, digo-te, uma pedra de silêncio sobre
essa infância essa fala ininterrupta essa
falagem que falha e promete e inventa
os sonhos e as promessas e o riso sem porquê
Para que de vez se interrompa a esperança esse
mal que não desiste. Escreve, faz o que o ditado dita:
Enterra no silêncio da pedra essa intolerável coisa
que é a infância, as vozes da noite no poço.
Apaga a infância isso que falta sempre à chamada
e para sempre trocou já os desejos e os medos.


Manuel Gusmão

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Há quem nos conte ter ainda uma planta que era da avó ou que a mãe lhe deu para a casa nova. As plantas têm sessa capacidade de serem também associadas a memórias.

Margarida Silva, trabalhadora numa loja de plantas.

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Escreveu Fernando Pessoa: «Grande é a poesia, a bondade e as danças… 

Mas o melhor do mundo são as crianças». 

Segundo o Diário de Notícias de hoje, o bloco de partos do Hospital de Portimão retomou esta segunda-feira de manhã o seu funcionamento normal, depois de ter estado encerrado desde as 21,00 horas da passada terça-feira, informou esta unidade de saúde do distrito de Faro.

Tirado de uma caixa de comentários do jornal Publico:

«Aiiii…Maneli! Já se me arrebentaram as águas – grita a Maria – que mora no Alto da Abaneja a 130km de Beja. Oh! Mulher guarda la isso para segunda-feira ca maternidade está fechada e nã temos carrera! “Assim são os campos da cor do limão” com eles faz limonadas e vai buscando remédio por tua mão. Agora que o pessoal, à falta de ovos, se apercebeu que estes não saem de fábricas, mas sim do cu das galinhas, (que foram dizimadas na EU,) dão o dito por não dito e já não se importam com a cacarejar matinal. Afinal, sempre é melhor que os sinos da paróquia. Não é?»

1.

 O presidente da República deixou, este domingo, um sério aviso ao Governo: se o país não voltar a ter "estabilidade política" já em 2023, poderá comprometer "irreversivelmente" os objetivos para a década. Na sua mensagem de Ano Novo, Marcelo Rebelo de Sousa descreveu o ano de 2023 como "decisivo": caso seja desperdiçado, "de nada servirá a consolação de nos convencermos de que ainda temos 2024, 2025 e 2026", atirou, numa alusão aos restantes anos da maioria absoluta do PS.

A oposição considera que Marcelo não foi suficientemente duro com o governo de António Costa.

2.

Gastos com alimentação deverão subir 22% durante este ano.

Salários reais em 2023 valem menos que os 2014.

3.

A directora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva​, antecipa um cenário mais pessimista para grande parte da economia global, em 2023, pelo facto de os principais motores do crescimento global – Estados Unidos, Europa e China – estarem a desacelerar, em simultâneo.

4.

«Um dia perguntaram-me na América: “Já tem muitos Marc Chagallna sua colecção?”. Coisas de ricos. E, na mesma viagem, o porteiro de um casino sorriu-me, enquanto eu transcrevia para um caderno o horário das frozen margaritas gratuitas: “Are you writing a poem?”, disse ele e eu naquele momento acreditei ter compreendido tudo: a América só podia ser terra de grandes romancistas.

O tempo tudo muda. Antes de a União Soviética se ter tornado no paraíso dos pobres e oprimidos, o sonho que se acalentava era a América. Fartura de horizontes e de trabalho (que escasseava por cá), cidades e estradas largas e o cinema (ah! o cinema!), cadillacs e arranha-céus desvairados, o progresso a todo o vapor ou, melhor dito, a gasolina, pois que a cada cámone – muito antes dos camónes de Molero, invenção maior de Dinis Machado, esse cometa solitário das letras portuguesas que bem podia ter nascido americano – se atrelava um carro, pelo menos. Dizia-se. E um futuro revolucionário que só mais tarde haveria de ler Babbitt de Sinclair Lewis, desconfiado ainda assim de tanta e tamanha largueza, propunha com pragmatismo que mais sensato seria adiar os cadillacs e reivindicar uma bicicleta a pedais para cada português, era Eisenhower presidente dos states e Américo Tomás ainda ministro da Marinha.»

Ana Cristina Leonardo, de uma crónica do Público

5.

Mais de metade dos portugueses não lê livros, uma realidade que está fortemente associada à educação, já que muitos não têm memória de verem os os pais  a lereem um livro, ou alguma vez os terem levado a uma livraria ou lhes terem oferecido um livro.

 Nove em cada dez portugueses têm "baixo consumo cultural"

6.

O velório do Papa emérito Bento XVI foi aberto ao público hoje às 09:00 locais quando centenas de pessoas já aguardavam na fila para entrar na Basílica de São Pedro, no Vaticano.

Carmo Afonso no Público:

«Bento XVI era um ultraconservador e o seu pontificado ficou marcado pela luta contra o aborto, a eutanásia e contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Basicamente, atentou contra alguns valores e princípios fundamentais das democracias ocidentais, as quais incluem uma grande parte dos 1,2 mil milhões de fiéis que integram a igreja católica. Isto explica a sua renúncia. Não era possível a sobrevivência da instituição se ela não mostrasse permeabilidade aos ventos de mudança que sopram firmes e Ratzinger não teria sido capaz de o fazer.»

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos

A HIPÓTESE DO CINZENTO

Num país a preto e branco
recomendaram-me o cinzento. Um recurso
extraordinário. Com a hipótese do cinzento poderia
ensaiar
soluções inusitadas
experimentar o morno (que não é frio nem
quente)
explorar o lusco-fusco (que
não é noite nem dia) praticar a omissão
(que não é mentira
nem verdade). Preto e branco misturados permitiam
finalmente
viver em conformidade
desocupar os extremos (tão alheios à virtude)
liquefazer-me na turba
no centro na
média
dourada. Com a paleta dos cinzentos poderia
aprimorar a arte da sobrevivência que
(como os mansos bem sabem) é
não estar vivo
nem morto.

João Luís Barreto Guimarães

domingo, 1 de janeiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


Sim. Seremos esquecidos. É a vida, nada a fazer.

Anton Tchekhov 

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 

. Certas mortes deixam-me completamente desamparado.

Quando em Agosto morreu Chalana, o pequeno genial, dos mais extraordinários artistas do pontapé na bola que vi jogar, não aconteceu uma única linha, tão pouco a sua morte foi aqui registada.

Agora com Pelé, numa morte anunciada, que ao tombar do ano nos deixou.

Também não me saíu o que queria dizer sobre a genialidade de Pelé. Apenas umas palavras na janela de comentários a propósito do que aqui ficou dito sobre a não referência à sua morte.

Acontece que hoje, na habitual viagem pelos pouquíssimos blogues a que presto atenção, Manuel S. Fonseca aparecia a falar de Pelé. E quando outros dizem as coisas melhor do que eu possa dizer, não hesito. Aqui está o texto do Manuel Fonseca e com fotografia que também publicou:

«Na morte de Pelé nem uma lágrima. Um sorriso, um tremor apenas. Rola-me pela face um grão de nostalgia, julgo que a nostalgia de 1965, se é que lhe consigo dar uma data. Havia um cineminha num pequeno clube de Luanda, o Vila Clotilde, o Vilinha. Ou seja, havia uma tela e projectavam-se lá filmes. E, antes dos filmes, nessa Angola colonial, que nunca soube o que era televisão, exibiam-se imagens de actualidades. Eis o que vi, um URSS-Brasil. E não juro que tenha sido o que, nesse ano, se jogou na pátria dos sovietes, se o que se jogou no Maracanã.

Sei que era o “futebol científico” contra a imparável rebeldia do samba e bossa nova. E olhem, Pelé está à entrada do meio campo da URSS e metem-lhe a bola. Cai-lhe pela direita um russo e Pelé passa-lhe a bola em arco sobre a cabeça. Mas logo, pela esquerda, lhe tomba outro russo em cima. Sem deixar cair a bola que vem do primeiro arco, Pelé faz novo arco, em sentido contrário – ualálá – e o russo passa, perdido, como um comboio descarrilado, sem saber onde vai parar.

Esses dois movimentos estão gravados na minha cabeça nostálgica como dois arcos de uma capela perfeita. Já me esqueci de certos romances de Faulkner, de alguns contos de Borges, de um ou outro filme de Hawks. Do que fez o pé divino de Pelé, nessa jogada inútil, desinteressada, de pura ars gratia artis, há em mim um menino exaltado, eufórico, guloso, que nunca se esquecerá.

Nunca vi Pelé num estádio – ao contrário desse príncipe chamado Eusébio – mas soube, nessa matinée cheia de miúdos e miúdas de 12, 13 e 14 anos, que estava, num cinema de Luanda, a ver um rei.

Nem uma lágrima hoje, rei Pelé. Um grão de nostalgia, sim. A mais bela nostalgia, a nostalgia de 1965.

Sua Majestade, até já.»

2.

Na sequência da demissão do ministro Pedro Nuno Santos e da secretária de estado do Tesouro, Marcelo resolveu acabar de uma penada com os apelos à dissolução do Parlamento e à convocação de eleições e para que não surjam equívocos disso que não vê no PSD de Montenegro face à maioria do governo de António Costa, no fundo o busílis da questão.

Dito o que disse, Marcelo viajou para Brasília para a posse da presidência de  Lula da Silva, acabou por tomar banho de mar – um clássico! – e já disse que estará em Roma para o funeral do papa Bento XVI.

3.

«Os meus pais foram trabalhadores da TAP durante décadas, mas permaneceram nos seus cargos até à reforma, armados em parvos, nunca lhes ocorrendo abraçar novos desafios a troco de 500 mil euros. Os trabalhadores que lá continuam fazem periodicamente umas reivindicações laborais que indicam a intenção suspeita de não renunciar aos cargos que ocupam. É o que se chama estar agarrado ao lugar, e é provavelmente por isso que não são premiados como quem tem o desprendimento de renunciar e abraçar novos desafios. Querem ser remunerados a troco de trabalho, que é uma coisa tão prosaica e mesquinha. Abracem novos desafios, medricas.»

Ricardo Araújo Pereira, crónica no Expresso

4.

Centenas de banhistas juntaram-se hoje, para o primeiro banho do ano, na praia de Carcavelos, concelho de Cascais, vigiados pelas autoridades, em terra e no mar, devido às previsões de agitação marítima que não se verificaram.

O mundo gira.

CONVERSANDO


 Aqui estamos nós, este salto sem rede, a habitual raiva que é um desejo de transformar tudo o que está mal. Poderá ser aquilo a que se chama futuro  de que o poeta José Gomes Ferreira dizia que deveria ser a única coisa de que se deve ter saudades.

A terrível guerra que assola a Ucrânia, e se não bastasse esta trgédia, assistimos, de longe, sempre de longe, a vontade que outras gentes têm de fomentar velhas quezílias nas fronteiras da Sérvia e do Kosoovo.

Que desejar para o novo ano, a dar os seus primeiros passos?

 À memória vem a velha tia que, até morrer perto dos 100 anos, sempre dizia, não se pede grande coisa: trabalho e saúde.

Cinzas, o  meu cachimbo está apagado, o meu copo vazio.

Ou aquele poema de Jorge Sena ontem, no Cais, publicado:


«Já tudo escureceu;
contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.»

Jorge Luís Borges disse um dia que, ao fim de tantos anos, ao fim de demasiados anos, chegara à conclusão que só devemos escrever sobre aquilo de que gostamos.

«- Não posso brincar contigo, disse a raposa. Ainda ninguém me cativou.
- Ah perdão, disse o principezinho.
Mas depois de ter reflectido, acrescentou:
- Que significa “cativar”?
- Tu não deves ser daqui, observou a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens. Que significa “cativar”?
- Os homens têm espingardas e caçam. É uma maçada! Também criam galinhas. É o único interesse que lhes acho. Andas à procura de galinhas?
- Não, disse o principezinho. Ando à procura de amigos. Que significa “cativar”?
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. Significa “criar laços”.»

Ana Hatherly: «Quando eu era criança do que eu mais gostava era de cerejas».

O cheiro das tangerinas que comia, na casa do pai no jantar do dia de Natal ou no de Ano Novo. Tudo comprado com um enorme sacríficio, mas também um enorme gosto.

As tangerinas agora compradas, chamam-lhe clementinas,  já não têm o cheiro, nem a doçura das tangerinas da infância. Também já não sou o mesmo.

De uma reportagem num velho Diário Popular, ali nos Restauradores, um Pai Natal a perguntar ao puto que ia tirar a fotografia com ele:

«- Então o menino porta-se bem lá em casa?
- Eu porto. Quem não se porta bem é o meu avô que chega todos os dias bêbado.»

Para fechar a desconversa o poema «Pólo Oposto» do checo Konstantin Biebl, encontrado na Rosa do Mundo – 2001 Poemas para o Futuro.


«Surda languidez ao pé das palmeiras

Hoje seria Natal exactamente Natal
A ramagem e o fruto graxo sobre o galho
verdejam -

exércitos de insectos zunem em círculos eternos

Surda languidez ao pé das palmeiras
o leque de sombras da floresta
assusta a ave-do-paraíso

Penso na pátria e pensativo fito o chão
se a terra fosse transparente
daqui poderia enxergar debaixo de todas as saias da Europa

Pés brilham e deslizam entre babados
como as dançarinas
de Paris em passos rápidos sobre folhas de espelho

Penso em seus ombros nos ombros apenas
nos olhos nos lábios nos cabelos
e nos seios principalmente nos seios

Quantas amei quantas belas e brancas
chuva de rosas dos meus pés à cabeça
Uma única mulher negra me pertenceu

Surda languidez ao pé das palmeiras
Caminho aqui de cabeça para baixo
como se andasse sobre o tecto

Abaixo de mim profundeza brilha a voragem celeste
caminho feito Cristo vergado debaixo do Cruzeiro do Sul

Do outro lado do mundo os homens
correm correm ao avesso
Só fico pensando em seus sapatos de sola furada

Seus pequenos passos de criança
em jardins furta-cor
lançam folhagem sangrenta para baixo

A terra dos checos estende-se na outra parte do mundo
terra exótica e estranha
com rios profundos e fabulosos
pode-se atravessá-los de pés secos no dia onomástico de Jesus
temos outono inverno verão e primavera

As pessoas usam sobretudo gravatas
e bengalas
talvez esteja nevando agora
talvez a cerejeira esteja em flor

Amoras abundantes estão crescendo
E há 
água potável fresca»

Legenda; imagem Shorpy