quinta-feira, 18 de julho de 2024

MARCADORES DE LIVROS


 Colaboração de Aida Santos.

O OUTRO LADO DAS CAPAS

As primeiras aparições do nome de Júlio Dinis, surgem-me nas selectas literárias do ensino liceal nos anos 50/60.

Não havia um único livro de Júlio Dinis na Biblioteca da Casa.

O meu pai tinha uma certa simpatia pelo escritor e um dia comprou, por um preço bem acessível,  - ainda a vantagem de suaves prestações mensais -  toda a obra de Júlio Dinis, publicada pela Livraria Civilização do Porto, todos os livros encadernados em capa dura num azul forte, tal como se poderá ver acima.

As Pupilas do Senhor Reitor

Os Fidalgos da Casa Mourisca

A Morgadinha dos Canaviais

Uma Família Inglesa

Serões da Província – 2 volumes

Cartas e Esboços Literários

Poesias

Teatro Inédito – 3 volumes

Volumes apresentados pelo Prof. Dr. Egas Moniz

Deliciei-me com a leitura dos romances de Júlio Dinis, principalmente com Uma Família Inglesa.

Quem é que hoje lê Júlio Dinis?

Quantos saberão quem foi Júlio Dinis? 

OLHAR AS CAPAS

Uma Família Inglesa

Júlio Dinis

Livraria Civilização Editora, Porto, 1959

Acenderam-se charutos, cobriu-se de fumo a atmosfera da sala, encheram-se e despejaram-se copos sobre copos.

Os criados retiraram-se discretamente

- Uma canção, Mr. Brains – disse Mr. Richard Whitestone

- Mr. Morlays que cante – respondeu aquele.

- Ho! Mr. Morlays! Seria capaz de nos cantar um dies illa – notou Mr. Richard rindo.

Mr. Fez uma careta, com pretensões a sorriso.

- As digestões costumam reconciliar Mr. Morlays com a humanidade –dizia Mr. Brains.

- As feras saciadas são menos terríveis – acrescentou Mr. Richard jovialmente e batendo com familiaridade no ombro do seu amigo Morlays. 

OLHARES


São importantes as existentes  Casas de Escritores, e de outros intelectuais, que vamos tendo espalhadas pelo país.

Deveria ser um trabalho dos governos, das autarquias, de mecenas, fomentar a criação dessas casas, conservá-las, enriquecê-las.

Nem sempre acontece e algumas encontram-se quase ao abandono.

Uma breve viagem pela região de Aveiro deu para deslocar as pernas para Ovar e visitar a Casa de Júlio Dinis.

Joaquim Guilherme Gomes Coelho, conhecido pelo pseudónimo literário de Júlio Dinis, nasceu no Porto, a 14 de Novembro de 1839.

Tendo-lhe sido diagnosticado tuberculose, foi aconselhado que fosse tomar ares e descanso, na Casa dos Campos, em Ovar, propriedade de uma sua tia paterna.

Júlio Dinis, com 31 anos, morreu em 12 de Setembro de 1871, na cidade do Porto.

Lápide, na parede exterior da casa assinalando, a passagem do escritor por Ovar.

No exterior, frente à casa, o busto de Júlio Dinis.

Característica cozinha de aldeia. A lareira com destaque para  o forno onde se cozia o pão para os dias da semana.


Ainda na cozinha, um móvel com a mesa posta, um jarro. Na parede pratos de barro da região.

O pequeno quarto da casa.

Falando do quarto, o folheto distribuído aos visistantes, cita uma passagem de «As Pupilas do Senhor Reitor»:

«Deitou-se de costas e pôs-se então a contar as tábuas do tecto. Contou dezassete. Dezassete, noves fora, oito disse insensivelmente Daniel!»

Sala e a mesa onde Júlio Dinis escreveu, para além de outras páginas, «As Pupilas do Senhor Reitor».

A mesa onde escreveu.


António José Saraiva em História da Literatura Portuguesa:

«Há muitas afinidades entre a ideologia de Júlio Dinis e a de Herculano, mentor nesta época da pequena burguesia portuguesa.

Júlio Dinis é um romancista excepcionalmente dotado. Conjuga com extrema felicidade a descrição dos ambientes, os retratos das personagens, os conflitos dramáticos numa construção equilibrada. Acrescenta a isto um excepcional peneração  psicológica, que por vezes o leva a notações originais, estudando quando a ocasião se lhe oferece o mecanismo da associação das ideais com grande minúcia. O estilo, ao contrário do que sucede com Camilo, não se interpõe entre o leitor e os objectos descritos que apenas reveste uma levíssima gaze de humorismo discreto.»

MINHA ALDEIA

Minha aldeia é todo o mundo.

Todo o mundo me pertence.

Aqui me encontro e confundo

com gente de todo o mundo

que a todo o mundo pertence.

 

Bate o sol na minha aldeia

com várias inclinações.

Ângulo novo, nova ideia;

outros graus, outras razões.

Que os homens da minha aldeia

são centenas de milhões.

 

Os homens da minha aldeia

divergem por natureza.

O mesmo sonho os separa,

a mesma fria certeza

os afasta e desampara,

rumorejante seara

onde se odeia em beleza.

 

Os homens da minha aldeia

formigam raivosamente

com os pés colados ao chão.

Nessa prisão permanente

cada qual é seu irmão.

Valências de fora e dentro

ligam tudo ao mesmo centro

numa inquebrável cadeia.

Longas raízes que emergem,

todos os homens convergem

no centro da minha aldeia.

 

António Gedeão de Teatro do Mundo em Poesias Completas

quarta-feira, 17 de julho de 2024

POSTAIS SEM SELO

Sem música a vida não faria sentido.

Nietzsche


OLHAR AS CAPAS


A Funda

3º Volume

Artur Portela Filho

Capa: António Alfredo e Helder José

Editora Arcádia, Lisboa, Maio de 1973

«O Pátio das Cantigas» tem dois milhões de espectadores – só lhe falta qualidade.

«A Abelha da Chuva tem qualidade – só lhe faltam dois milhões de espectadores.

(Outubro 1972)

SÚBITOS MERGULHADORES...

Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas
Com os olhos fitos e os peitos esmagados,
Descendo devagar, ao som lento de segundos vertiginosos como séculos
Todos nós vos acompanhamos e juntamos todas as nossas forças na mesma meditação.
Aqui, da terra firme,
Entre nuvens e terra,
Entre o suor e o orvalho,
Esperamos o termo com todas as nossas forças.
E sabereis a nossa mensagem:
Só há saída pelo fundo.

Cristovam Pavia

terça-feira, 16 de julho de 2024

CRONICANDO POR AÍ


«Pode comparar-se um tractorista português a Sir Winston Churchill, que foi primeiro-ministro de Inglaterra, e tinha a extravagância de charutos, bebidas e outros prazeres hoje chibatados na praça pública? Eu diria que sim, se o tractorista português emergir da longa noite que estava mesmo a acabar na madrugada do dia 25 de Abril de 1974.

Mas antes de darmos essa voltinha de tractor, deixemos entre parêntesis Churchill, bora lá à América e sentemo-nos com o escritor Truman Capote, de quem Marilyn Monroe adorava ser confidente. Deliciadamente gay, Capote atraía as mulheres e lá está uma, em Key West, derretida, a pedir-lhe um autógrafo. O já bem bebido marido da dama, afrontado pela “frociagginice” de Capote – essa qualidade que agora o Papa Francisco tornou famosa –, o marido, dizia, veio à mesa do escritor, tirou para fora aquela ferramenta que, nas calças, um homem não sabe se há de pôr para a direita ou para a esquerda, e disse: “Já que autografas coisas, autografa-me isto!”  Ora, “espontâneo” era o nome do meio de Capote, que logo disparou: “Oh, autografar não consigo, mas pôr as minhas iniciais acho que dá!”

Seria Churchill tão espontâneo como Capote? Consta que não, que agonizava para encontrar a frase certa, até nos discursos, mas quando a irritação o instigava, a maldade tomava conta dele e feria como um escorpião. À dama que em público insinuou que era uma vergonha a bebedeira com que ele estava, logo Churchill esclareceu: “Estarei desagradavelmente bêbado, milady, tal como a senhora é desagradavelmente feia, mas amanhã eu estarei sóbrio, enquanto a senhora continuará feia.”

E agora, música para os nossos ouvidos, prestemos atenção a uma lenda da música clássica do século XX, o maestro inglês Thomas Beecham, a quem devemos um precioso conselho: “Experimentem tudo uma vez, menos o incesto e dançar folclore.” Beecham está ali, no palco, a ensaiar com a orquestra. Mas tem em uma nova violoncelista. O maestro enerva-se com a interpretação dela e grita-lhe, em registo mozartiano: “Minha senhora, tem entre as suas pernas um instrumento que é capaz de dar prazer a mil pessoas e tudo o que é capaz de fazer é arranhá-lo?!”

 É altura de subirmos para o tractor: venham dar uma volta com o seu anónimo condutor. Estamos na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 e andaremos pelas 4:30 da manhã. Já passou um mês do falhado golpe militar das Caldas e Portugal está uma pasmaceira expectante. Um homem vai no seu tractor e, de Santarém, começa a ver camiões da tropa, tanques de guerra, uma coluna que lhe parece infindável. Passam por ele, ronronantes, e vão em direcção a Lisboa. É, embora ele não o saiba, a coluna militar comandada por Salgueiro Maia, que irá derrubar Marcello Caetano, e com ele a mais velha ditadura da Europa. O tractorista não sabe nada disso. Pára o tractor, contempla esses veículos gigantes que rodam determinados para Lisboa, levanta-se e grita: “Seja lá o que isto for, viva!” Eis o primeiro slogan do 25 de Abril, uma história que talvez seja só lenda, mas se a lenda é bonita e merece passar a facto, imprima-se e deixe-se entrar na história.

O nosso tractorista vale um Churchill e é bem mais prospectivo do que o grande maestro Beecham. Ou mesmo do que Mark Twain. Enquanto o tractorista de Santarém ou lá próximo está aberto ao futuro, Twain corria a esconder o seu humor no passado. Quando lhe perguntaram o que faria se acontecesse o fim do mundo, disse: “Se o mundo estivesse a acabar ia para Cincinatti: é que lá tudo acontece 20 anos mais tarde!”»-

 

Manuel S. Fonseca na sua Página Negra

O OUTRO LADO DAS CAPAS


Os Três Mosqueteiros
 de Alexandre Dumas, 3 volumes de uma edição muito popular, - «Os melhores autores aos melhores preços cada volume 7$50» - tão velhos e manuseados que têm de estar amarrados com cordel, faz parte dos primeiros livros que, em miúdo, li e a que terei de juntar os romances de Emílio Salgari e Walter Scott, editados e distribuídos pela Romano Torres e que se vendiam nas tabacarias dos bairros populares de Lisboa.

No meu caso, comprava-os na Tabacaria Arlete na Avenida General Roçadas.

OLHAR AS CAPAS


Os Três Mosqueteiros

Alexandre Dumas

1º Volume

Tradução: C. Pereira

Colecção Popular nº 32

Editorial Crisos, Porto s/d

- É de mais, senhor Planchet, se tendes medo, irei sozinho – replicou d’Artagnan – antes quero viajar assim, do que na companhia de um poltrão.

-Senhor, não me injurieis – disse Planchet – parec-me contudo que já dei provas de não ser poltrão.

- É verdade, mas julguei que tinhas esgotado toda a tua coragem de uma só vez

SIMPLEMENTE, ASSUSTADO!...

«A liberdade está sempre ameaçada, mas existe. Estamos numa altura ingrata em relação às forças de esquerda – que eu defendo -, porque há uma ascensão preocupante da extrema-direita. Não só aqui, mas no resto da Europa. Pensar que o Trump, por exemplo, possa ser o próximo Presidente dois Estados Unidos é assustador.»

Sérgio Godinho, entrevista no Público de 20 de Março de 2024.

MÚSICA

 

Transforma-se o ouvinte na música amada,
nas suas doces entoações, no campo de vogais
que pisa quando avança por entre os ramos
de consoantes que o vento toca como teclas.

E sente o som do nome converter-se em matéria,
só de o dizer para si próprio, vendo surgirem
as formas do corpo, as cores do rosto, o subtil
acordo das mãos num sonhado acorde de dedos.

Assim, do que é um fragmento de ouvido,
um vestígio de memória no ritmo do coração,
uma presença diluida no pensamento

que a derramou em puro amor, nasce
a música que a tua voz me trouxe quando,
verso após verso, imagem e desejo se juntaram.

Nuno Júdice

segunda-feira, 15 de julho de 2024

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Gosto tanto de Gabriel García Marquez!

Aquele começo de Cem Anos de Solidão!...

Gosto da capa deste livro de Gabriel García Marquez e eu que tanto gosto de capas, fico impossibilitado de saber o autor. Esse monstro chamado Leya onde as Publicações Dom Quixote e outras estimadas editoras, estão alojadas, entende que isso não é importante.

Importante é o dinheirinho!

Uma mulher, Ana Magdalena Bach, de seu nome, casada, filhos, por Agosto, solitariamente, aporta a uma ilha do Caribe em que está sepultada sua mãe. 

Visita a campa onde sempre deixa um ramo de gladíolos.

Nas noites quentes da ilha senta-se no bar do hotel onde se hospedou, até que um qualquer alguém aparece, convida-a para uma bebida, ela bebe sempre um gin, trava conversa, os variados enigmas da solidão no crepúsculo da vida, enquanto uma mulata canta a audácia serena de um bolero e Ana sente no peito o esvoaçar de borboletas.

Em cada regresso a casa acaba por desvendar o motivo de a mãe ter escolhido aquela ilha e ali ser enterrada.

 Gabo nunca completou a revisão final e nas margens dos rascunhos, deixou a nota: «Este livro não presta. É preciso destruí-lo».

 Os filhos não o destruíram e acabaram por publicá-lo.

 A leitura das 88 páginas da novela permite-nos encontrar o estilo de Gabo mas falta-lhe aquele perfume que foi deixando nas suas obras.

Saramago nunca completou «Alabardas», provavelmente não deixou nenhuma nota sobre a publicação das páginas já escritas. Pilar del Rio entendeu que, apesar de tudo, deveriam ser publicadas.

Há quem defenda que originais não concluídos e devidamente afinados pelos seus autores, não deveriam ser publicados.

Não estou muito de acordo e acrescento que, no tocante a alguns autores, como por exemplo, Gabriel García Márquez e José Saramago, não serão prosas em estado puro mas saberemos que, muito dificilmente, encontraremos fruta tocada por falta de jardineiro.

OLHAR AS CAPAS


Vemo-nos em Agosto

Gabriel García Márquez

Tradução: J. Teixeira de Aguilar

Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2024

Duas horas depois, Ana Magdalena lançou um último olhar de compaixão ao seu próprio passado e disse adeus para sempre aos seus desconhecidos de uma noite e às tantas e tantas horas de incertezas que ficavam dela própria dispersas na ilha. O mar era um remanso de ouro sob o sol da tarde. Às seis, quando o marido a vou entrar em casa arrastando sem mistérios o saco de ossos , não pôde resistir à surpresa.

- É o que resta da minha mãe – disse-lhe ela, e antecipou-se aos seu espanto. – Não te assustes – disse. – Ela entende. Mais ainda, acho que é a única que já o tonha entendido quando decidiu que a enterrassem na ilha.

A IMENSA GRAVIDADE QUE O MUNDO VIVE...


Há dias, enquanto Donald Trump discursava num comício, ouviram-se tiros: o candidato a presidente foi ferido, um apoiante morreu, dois apoiantes ficaram feridos.

As seitas religiosas que, histericamente apoiam Trump, apressaram-se a afirmar:

«Deus evitou males maiores!»

Em Fevereiro, também em comício, Trump, mais uma vez  declarou-se: «o maior amigo que os donos de armas alguma vez tiveram na Casa Branca», mais adiantou que a primeira coisa que fará quando voltar a ser presidente seria  reverter as restrições que afectaram proprietários e fabricantes de armas durante o mandato de Joe Biden.

IMITADO DE ARAGON

Que me quereis perpétuas miragens,
Com que sonhos me abismais?
O tempo é um rio que não pára mais
Nem se repetem visões das margens.

Como se diz adeus a quem morreu,
Dizem adeus os anos já passados
A desejos iguais, desigualados
Se a vontade mudando os esqueceu.

Aquilo que queria mudou tanto
Que é outro amor; e meu prazer um dia
Maldiz o de hoje, ao novo desencanto.

Cada enganosa esperança um meu desejo
Passa por ela o tempo e queda, fria.
Como Almourol a ver passar o Tejo.

Carlos de Oliveira de Terra da Harmonia em Poesias

domingo, 14 de julho de 2024

POSTAIS SEM SELO


Mantenha os seus amigos por perto e os seus inimigos mais perto ainda.

Lao-Tsé

Legenda: cena de O Padrinho de Francis Ford Coppola

COMEÇOS DE LIVROS


Os Nus e os Mortos de Norman Mailer.

Um grande livro.

Um bom começo:

«Ninguém podia dormir. Mal rompesse a manhã as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de tropas cavalgaria a rebentação e atacaria as praias de Anopopei. Em todo o comboio, em cada um dos barcos, os homens sabiam que dentro de poucas horas muitos deles estariam mortos.»

É verdade que são 703 páginas na edição do Círculo de Leitores mas terá que ser lido.

Deste livro Raoul Walsh fez um filme em mas o livro é que vale a pena.

Tudo se desenrola em torno de uma operação militar no Pacífico, durante a 2ª Guerra Mundial, onde um pelotão é alternadamente comandado por dois homens absolutamente distintos e inconciliáveis: um jovem tenente, culto, idealista e liberal e um sargento duro, intransigente, sádico e frustrado. Um violento choque de concepções antagónicas de comandar homens num teatro de guerra que demonstra a impossibilidade da coexistência do humanismo com a sobrevivência.

António Neves Pedro, o tradutor, numa pequena nota, avisa-nos para a linguagem descarnada sem artifícios literários, no fundo, uma tradução dificílima

Para que conste:

«Todas as personagens e incidentes descritos neste romance são pura ficção, e qualquer semelhança com alguma pessoa, viva ou morta, é simples coincidência.» 

DITOS & REDITOS


É o que se leva desta vida.

Não digas que vais daqui.

Nunca misturar vodka com feitiçarias.

Discutir com ignorantes acaba sempre mal.

Tanto faz não é resposta.

Há sempre mais para conhecer.

Como Almourol a ver passar o Tejo.

Está tudo bem… tirando o que está mall.

sábado, 13 de julho de 2024

O OUTRO LADO DAS ESTANTES


 Marvão: Palavras e Olhares

Domingos Bucho e Raul Ladeira

Câmara Municipal de Marvão, Marvão.

 Começamos por wikipediar:

 «Marvão é uma vila raiana portuguesa localizada no distrito de Portalegre, região Alentejo e sub-região do Alto Alentejo, com 398 habitantes, situada no topo da Serra do Sapoio, a uma altitude de 862 metros entre uma vaga de cristas rochosas.

É sede do município de Marvão com 154,9 km² de área e 3 021 habitantes subdividido em 4 freguesias: Beirã, que teve uma estação de comboios que servia a sede do concelho, Santa Maria de Marvão, Santo António das Areias, São Salvador da Aramenha.

 O município é limitado a norte e leste pela Espanha, a sul e oeste pelo município de Portalegre e a noroeste por Castelo de Vide.

Tomada e fortificada pelos árabes, seria posteriormente conquistada por D. Afonso Henriques e coube a D. Dinis mandar reforçar as muralhas. Dominando o acesso à fronteira e permitindo detectar movimentações inimigas, teve uma importância estratégica na defesa do reino.

O título de Mui Nobre e Sempre Leal foi concedido à Vila de Marvão pela rainha D. Maria II.»

 

Este livro, que faz parte da Biblioteca da Casa, foi parte do trabalho encetado em 2008 para candidatar, ano de 2002, a vila a Património Mundial da UNESCO.

Marvão é um dos muitos lugares de encanto deste país.

Ouvir os sinos durante a noite nas igrejas de Marvão.

O silêncio.

Marvão, de onde se veem os pássaros pelas costas.

Os romanos diziam que em Marvão se estava acima do voo dos milhafres.

O pintor que foi a Marvão para pintar.

Tudo é tão belo que compra casa com vista, arruma os pincéis e não mais lhes toca.

Começo a gostar de terra quando interiorizo que aí seria bonito passar o Natal.

Assim classifico as terras por onde passo.

O escurecer cedo, a lareira acesa, o bacalhau da tradição, um tinto do Douro, músicas de natal, um charuto, a chover, ou a nevar, lá fora, o vento assobiando.

Perder a noção do tempo.

José Saramago na sua Viagem a Portugal:

«Marvão vê-se de Cabeço de Vide, mas de Marvão vê-se tudo. O viajante exagera, mas essa é justamente a impressão que sente quando ainda lá não chegou, quando vai na planície e lhe surge, de repente, agora mais perto, o morro altíssimo que parece erguer-se na vertical.

É verdade. De Marvão vê-se a terra quase toda: para os lados de Espanha avista-se Valência de Alcantara, S. Vicente e Albuquerque, além de uma chusma de pequenas povoações; para sul, pelo desfiladeiro que separa a serra de S. Mamede e a outra, apenas seu contraforte, serra da Ladeira da gata, podem-se identificar Cabeço de Vide, Sousel, Estremoz, Alter Pedroso, Crato, Benavila, Avis; onde o viajante ainda há pouco estava, Nisa, Póvoas e Meadas, Gáfete e Arez, enfim a norte, estando límpida a atmosfera, a última sombra de azul é a serra da Estrela: não espanta que distintamente se vejam Castelo Branco, Alpedrinha, Monsanto. Compreende-se que neste lugar, do alto da torre de menagem do Castelo de Marvão, o viajante murmure respeitosamente: «Que grande é o mundo.»

Durante alguns anos, fomos a Marvão pela Festa da Castanha.

Em alojamento rural, ficávamos de sexta-feira a domingo.

O almoço sempre foi em Castelo de Vide, no «Chalana»: «molhinhos» borrego em tomatada e costeletas de cabrito panadas.

Antes, no caminho, tínhamos comprado pão alentejano, queijos em Nisa e na Chança bifinhos do lombo de porco, devidamente temperados com alho e pimentão, que em Marvão, depois do fecho do assar das castanhas, ficavam os bidons com restos de carvão e aí grelhávamos os bifinhos: manjares do mundo.

Depois, num só de repente, a festa começou a ser invadida por turistas, a perder aquela graça que encontráramos pela vez primeira.

CONVERSANDO


Este é um recorte de uma das crónicas que Manuel Alberto Valente publicou no Expresso.

Há a oportunidade para lembrarmos o poeta, romancista e crítico Alexandre Pinheiro que praticamente caiu no esquecimento.

Uma excelente frase de Alexandre Pinheiro Torres citada no recorte:

«O privilégio da crítica é ser injusta.»

Depois o confirmarmos que as gentes das letras, volta e meia, se tratavam com termos tirados da última gaveta.

OS DIAS DO CAFÉ DO MONTE

«Se Cavaco Silva pode prefaciar Aquilino Ribeiro – segundo informação que me chega, o ex-Presidente da República preambula a nova edição de Geografia Sentimental, retrato aquiliano pessoalíssimo das terras da Beira Alta publicado originalmente em 1951 – porque não poderei eu, nunca tendo sido sequer presidente de junta, mas sabendo que “cidadões” é plural inexistente e que o número de cantos de Os Lusíadas são dez, aventurar-me por solos camilianos, trepando aos ombros de outro dos nossos gigantes, quando me falta assunto?»

Ana Cristina Leonardo, de uma crónica no Público de 10 de Maio de 2024

sexta-feira, 12 de julho de 2024

OLHAR AS CAPAS

Fernão Lopes

António José Saraiva

Colecção Saber nº 21

Publicações Europa-América, Lisboa s/d

Fernão Lopes foi afastado do seu do seu cargo de cronista do Reino após o triunfo da nobreza em Alfarrobeira, certamente porque a sua personalidade e a sua maneira de fazer a história não se adequavam à nova Orientação da Corte Portuguesa.

O SINO DA MINHA ALDEIA

Ó sino da minha aldeia,

Dolente na tarde calma,

Cada tua badalada

Soa dentro da minha alma.

 

E é tão lento o teu soar,

Tão como triste da vida,

Que já a primeira pancada

Tem o som de repetida.

 

Por mais que me tanjas perto

Quando passo, sempre errante,

És para mim como um sonho.

Soas-me na alma distante.

 

A cada pancada tua

Vibrante no céu aberto,

Sinto mais longe o passado,

Sinto a saudade mais perto.

 

Fernando Pessoa