quinta-feira, 18 de julho de 2024
O OUTRO LADO DAS CAPAS
As primeiras aparições do nome de Júlio Dinis, surgem-me
nas selectas literárias do ensino liceal nos anos 50/60.
Não havia um único livro de Júlio Dinis na Biblioteca da Casa.
O meu pai tinha uma certa simpatia pelo escritor e um dia comprou, por um preço bem acessível, - ainda a vantagem de suaves prestações mensais - toda a obra de Júlio Dinis, publicada pela Livraria Civilização do Porto, todos os livros encadernados em capa dura num azul forte, tal como se poderá ver acima.
As Pupilas do Senhor Reitor
Os Fidalgos da Casa Mourisca
A Morgadinha dos Canaviais
Uma Família Inglesa
Serões da Província – 2 volumes
Cartas e Esboços Literários
Poesias
Teatro Inédito – 3 volumes
Volumes apresentados pelo Prof. Dr. Egas Moniz
Deliciei-me com a leitura dos romances de Júlio Dinis, principalmente com Uma Família Inglesa.
Quem é que hoje lê Júlio Dinis?
Quantos saberão quem foi Júlio Dinis?
OLHAR AS CAPAS
Uma Família Inglesa
Júlio Dinis
Livraria Civilização
Editora, Porto, 1959
Acenderam-se charutos, cobriu-se de fumo a atmosfera da sala,
encheram-se e despejaram-se copos sobre copos.
Os criados retiraram-se discretamente
- Uma canção, Mr. Brains – disse Mr. Richard Whitestone
- Mr. Morlays que cante – respondeu aquele.
- Ho! Mr. Morlays! Seria capaz de nos cantar um dies illa – notou Mr.
Richard rindo.
Mr. Fez uma careta, com pretensões a sorriso.
- As digestões costumam reconciliar Mr. Morlays com a humanidade –dizia
Mr. Brains.
- As feras saciadas são menos terríveis – acrescentou Mr. Richard jovialmente e batendo com familiaridade no ombro do seu amigo Morlays.
OLHARES
São importantes as existentes Casas de Escritores, e de outros intelectuais, que vamos tendo espalhadas pelo país.
Deveria ser um trabalho dos governos, das autarquias,
de mecenas, fomentar a criação dessas casas, conservá-las, enriquecê-las.
Nem sempre acontece e algumas encontram-se quase ao
abandono.
Uma breve viagem pela região de Aveiro deu para
deslocar as pernas para Ovar e visitar a Casa de Júlio Dinis.
Joaquim Guilherme Gomes Coelho, conhecido pelo pseudónimo
literário de Júlio Dinis, nasceu no Porto, a 14 de Novembro de 1839.
Tendo-lhe sido diagnosticado tuberculose, foi
aconselhado que fosse tomar ares e descanso, na Casa dos Campos, em Ovar,
propriedade de uma sua tia paterna.
Júlio Dinis, com 31 anos, morreu em 12 de Setembro de
1871, na cidade do Porto.
Lápide, na parede exterior
da casa assinalando, a passagem do escritor por Ovar.
No exterior, frente à casa, o busto de Júlio Dinis.
Característica cozinha de aldeia. A lareira com destaque para o forno onde se cozia o pão para os dias da semana.
Ainda na cozinha, um móvel com a mesa posta, um jarro. Na parede pratos de barro da região.
O pequeno quarto da
casa.
Falando do quarto, o folheto distribuído aos visistantes, cita uma passagem de «As Pupilas do Senhor Reitor»:
«Deitou-se de costas e pôs-se então a contar as tábuas do tecto. Contou dezassete. Dezassete, noves fora, oito disse insensivelmente Daniel!»
Sala e a mesa onde Júlio Dinis escreveu, para além de outras páginas, «As Pupilas do Senhor Reitor».
A mesa onde escreveu.
António José Saraiva em História da Literatura Portuguesa:
«Há muitas afinidades entre a ideologia de Júlio Dinis e a de Herculano, mentor nesta época da pequena burguesia portuguesa.
Júlio Dinis é um romancista excepcionalmente dotado. Conjuga com extrema felicidade a descrição dos ambientes, os retratos das personagens, os conflitos dramáticos numa construção equilibrada. Acrescenta a isto um excepcional peneração psicológica, que por vezes o leva a notações originais, estudando quando a ocasião se lhe oferece o mecanismo da associação das ideais com grande minúcia. O estilo, ao contrário do que sucede com Camilo, não se interpõe entre o leitor e os objectos descritos que apenas reveste uma levíssima gaze de humorismo discreto.»
MINHA ALDEIA
Minha aldeia é todo o mundo.
Todo o mundo me pertence.
Aqui me encontro e confundo
com gente de todo o mundo
que a todo o mundo pertence.
Bate o sol na minha aldeia
com várias inclinações.
Ângulo novo, nova ideia;
outros graus, outras razões.
Que os homens da minha aldeia
são centenas de milhões.
Os homens da minha aldeia
divergem por natureza.
O mesmo sonho os separa,
a mesma fria certeza
os afasta e desampara,
rumorejante seara
onde se odeia em beleza.
Os homens da minha aldeia
formigam raivosamente
com os pés colados ao chão.
Nessa prisão permanente
cada qual é seu irmão.
Valências de fora e dentro
ligam tudo ao mesmo centro
numa inquebrável cadeia.
Longas raízes que emergem,
todos os homens convergem
no centro da minha aldeia.
António Gedeão de Teatro do Mundo em Poesias Completas
quarta-feira, 17 de julho de 2024
OLHAR AS CAPAS
A Funda
3º Volume
Artur Portela Filho
Capa: António Alfredo e Helder José
Editora Arcádia, Lisboa, Maio de 1973
«O Pátio das Cantigas» tem dois milhões de espectadores –
só lhe falta qualidade.
«A Abelha da Chuva tem qualidade – só lhe faltam dois
milhões de espectadores.
(Outubro 1972)
SÚBITOS MERGULHADORES...
Súbitos mergulhadores descendo nas águas inimigas
Com os olhos fitos e os peitos esmagados,
Descendo devagar, ao som lento de segundos vertiginosos como séculos
Todos nós vos acompanhamos e juntamos todas as nossas forças na mesma
meditação.
Aqui, da terra firme,
Entre nuvens e terra,
Entre o suor e o orvalho,
Esperamos o termo com todas as nossas forças.
E sabereis a nossa mensagem:
Só há saída pelo fundo.
Cristovam Pavia
terça-feira, 16 de julho de 2024
CRONICANDO POR AÍ
«Pode comparar-se um tractorista português a Sir Winston Churchill, que
foi primeiro-ministro de Inglaterra, e tinha a extravagância de charutos,
bebidas e outros prazeres hoje chibatados na praça pública? Eu diria que sim,
se o tractorista português emergir da longa noite que estava mesmo a acabar na
madrugada do dia 25 de Abril de 1974.
Mas antes de darmos essa voltinha de tractor, deixemos entre parêntesis
Churchill, bora lá à América e sentemo-nos com o escritor Truman Capote, de
quem Marilyn Monroe adorava ser confidente. Deliciadamente gay, Capote atraía
as mulheres e lá está uma, em Key West, derretida, a pedir-lhe um autógrafo. O
já bem bebido marido da dama, afrontado pela “frociagginice” de Capote – essa
qualidade que agora o Papa Francisco tornou famosa –, o marido, dizia, veio à
mesa do escritor, tirou para fora aquela ferramenta que, nas calças, um homem
não sabe se há de pôr para a direita ou para a esquerda, e disse: “Já que autografas coisas, autografa-me isto!”
Ora, “espontâneo” era o nome do meio de Capote, que logo disparou: “Oh, autografar não consigo, mas pôr as
minhas iniciais acho que dá!”
Seria Churchill tão espontâneo como Capote? Consta que não, que
agonizava para encontrar a frase certa, até nos discursos, mas quando a
irritação o instigava, a maldade tomava conta dele e feria como um escorpião. À
dama que em público insinuou que era uma vergonha a bebedeira com que ele
estava, logo Churchill esclareceu: “Estarei
desagradavelmente bêbado, milady, tal como a senhora é desagradavelmente feia,
mas amanhã eu estarei sóbrio, enquanto a senhora continuará feia.”
E agora, música para os nossos ouvidos, prestemos atenção a uma lenda
da música clássica do século XX, o maestro inglês Thomas Beecham, a quem
devemos um precioso conselho: “Experimentem
tudo uma vez, menos o incesto e dançar folclore.” Beecham está ali, no
palco, a ensaiar com a orquestra. Mas tem em uma nova violoncelista. O maestro
enerva-se com a interpretação dela e grita-lhe, em registo mozartiano: “Minha senhora, tem entre as suas pernas um
instrumento que é capaz de dar prazer a mil pessoas e tudo o que é capaz de
fazer é arranhá-lo?!”
É altura de subirmos para o tractor: venham dar uma volta com o
seu anónimo condutor. Estamos na madrugada do dia 25 de Abril de 1974 e
andaremos pelas 4:30 da manhã. Já passou um mês do falhado golpe militar das
Caldas e Portugal está uma pasmaceira expectante. Um homem vai no seu tractor e,
de Santarém, começa a ver camiões da tropa, tanques de guerra, uma coluna que
lhe parece infindável. Passam por ele, ronronantes, e vão em direcção a Lisboa.
É, embora ele não o saiba, a coluna militar comandada por Salgueiro Maia, que
irá derrubar Marcello Caetano, e com ele a mais velha ditadura da Europa. O
tractorista não sabe nada disso. Pára o tractor, contempla esses veículos
gigantes que rodam determinados para Lisboa, levanta-se e grita: “Seja lá o que isto for, viva!” Eis o
primeiro slogan do 25 de Abril, uma história que talvez seja só lenda, mas se a
lenda é bonita e merece passar a facto, imprima-se e deixe-se entrar na
história.
O nosso tractorista vale um Churchill e é bem mais prospectivo do que o
grande maestro Beecham. Ou mesmo do que Mark Twain. Enquanto o tractorista de
Santarém ou lá próximo está aberto ao futuro, Twain corria a esconder o seu
humor no passado. Quando lhe perguntaram o que faria se acontecesse o fim do
mundo, disse: “Se o mundo estivesse a
acabar ia para Cincinatti: é que lá tudo acontece 20 anos mais tarde!”»-
Manuel S. Fonseca na sua Página Negra
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Os Três Mosqueteiros de
Alexandre Dumas, 3 volumes de uma edição muito popular, - «Os melhores autores
aos melhores preços cada volume 7$50» - tão velhos e manuseados que têm de
estar amarrados com cordel, faz parte dos primeiros livros que, em miúdo, li e
a que terei de juntar os romances de Emílio Salgari e Walter Scott, editados e
distribuídos pela Romano Torres e que se vendiam nas tabacarias dos bairros
populares de Lisboa.
No meu caso, comprava-os na Tabacaria Arlete na Avenida General Roçadas.
OLHAR AS CAPAS
Os
Três Mosqueteiros
Alexandre Dumas
1º Volume
Tradução: C. Pereira
Colecção Popular nº 32
Editorial Crisos, Porto s/d
- É de mais, senhor
Planchet, se tendes medo, irei sozinho – replicou d’Artagnan – antes quero
viajar assim, do que na companhia de um poltrão.
-Senhor, não me
injurieis – disse Planchet – parec-me contudo que já dei provas de não ser
poltrão.
SIMPLEMENTE, ASSUSTADO!...
«A liberdade está sempre ameaçada, mas existe. Estamos numa altura ingrata em relação às forças de esquerda – que eu defendo -, porque há uma ascensão preocupante da extrema-direita. Não só aqui, mas no resto da Europa. Pensar que o Trump, por exemplo, possa ser o próximo Presidente dois Estados Unidos é assustador.»
Sérgio
Godinho, entrevista no Público de 20 de Março de 2024.
MÚSICA
Transforma-se o ouvinte na música amada,
nas suas doces entoações, no campo de vogais
que pisa quando avança por entre os ramos
de consoantes que o vento toca como teclas.
E sente o som do nome converter-se em matéria,
só de o dizer para si próprio, vendo surgirem
as formas do corpo, as cores do rosto, o subtil
acordo das mãos num sonhado acorde de dedos.
Assim, do que é um fragmento de ouvido,
um vestígio de memória no ritmo do coração,
uma presença diluida no pensamento
que a derramou em puro amor, nasce
a música que a tua voz me trouxe quando,
verso após verso, imagem e desejo se juntaram.
Nuno Júdice
segunda-feira, 15 de julho de 2024
O OUTRO LADO DAS CAPAS
Gosto tanto de Gabriel García Marquez!
Aquele
começo de Cem Anos de Solidão!...
Gosto da capa deste livro de Gabriel García Marquez e eu que tanto gosto de capas,
fico impossibilitado de saber o autor. Esse monstro chamado Leya onde as
Publicações Dom Quixote e outras estimadas editoras, estão alojadas, entende
que isso não é importante.
Importante
é o dinheirinho!
Uma mulher, Ana Magdalena Bach, de seu nome, casada, filhos, por Agosto, solitariamente, aporta a uma ilha do Caribe em que está sepultada sua mãe.
Visita a campa onde sempre deixa um ramo de gladíolos.
Nas
noites quentes da ilha senta-se no bar do hotel onde se hospedou, até que um
qualquer alguém aparece, convida-a para uma bebida, ela bebe sempre um gin,
trava conversa, os variados enigmas da solidão no crepúsculo da vida, enquanto uma mulata canta a audácia serena de um bolero e Ana
sente no peito o esvoaçar de borboletas.
Em
cada regresso a casa acaba por desvendar o motivo de a mãe ter escolhido aquela
ilha e ali ser enterrada.
Gabo nunca completou a revisão final e nas margens dos rascunhos, deixou a nota: «Este livro não presta. É preciso destruí-lo».
Saramago nunca completou «Alabardas», provavelmente não deixou nenhuma nota sobre a publicação das páginas já escritas. Pilar del Rio entendeu que, apesar de tudo, deveriam ser publicadas.
Há
quem defenda que originais não concluídos e devidamente afinados pelos seus
autores, não deveriam ser publicados.
Não estou muito de acordo e acrescento que, no tocante a alguns autores, como por exemplo, Gabriel García Márquez e José Saramago, não serão prosas em estado puro mas saberemos que, muito dificilmente, encontraremos fruta tocada por falta de jardineiro.
OLHAR AS CAPAS
Vemo-nos em Agosto
Gabriel García Márquez
Tradução: J. Teixeira de Aguilar
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Março de 2024
Duas horas depois, Ana Magdalena lançou um último olhar de compaixão ao
seu próprio passado e disse adeus para sempre aos seus desconhecidos de uma
noite e às tantas e tantas horas de incertezas que ficavam dela própria
dispersas na ilha. O mar era um remanso de ouro sob o sol da tarde. Às seis,
quando o marido a vou entrar em casa arrastando sem mistérios o saco de ossos ,
não pôde resistir à surpresa.
- É o que resta da minha mãe – disse-lhe ela, e antecipou-se aos seu espanto. – Não te assustes – disse. – Ela entende. Mais ainda, acho que é a única que já o tonha entendido quando decidiu que a enterrassem na ilha.
A IMENSA GRAVIDADE QUE O MUNDO VIVE...
Há dias, enquanto Donald Trump discursava num comício, ouviram-se tiros: o candidato a presidente foi ferido, um apoiante morreu, dois apoiantes ficaram feridos.
As seitas religiosas que, histericamente apoiam Trump,
apressaram-se a afirmar:
«Deus evitou males maiores!»
Em Fevereiro, também em comício, Trump, mais uma vez declarou-se: «o maior amigo que os donos de armas alguma
vez tiveram na Casa Branca», mais adiantou que a primeira coisa que fará quando
voltar a ser presidente seria reverter
as restrições que afectaram proprietários e fabricantes de armas durante o
mandato de Joe Biden.
IMITADO DE ARAGON
Que me quereis
perpétuas miragens,
Com que sonhos me abismais?
O tempo é um rio que não pára mais
Nem se repetem visões das margens.
Como se diz adeus a quem
morreu,
Dizem adeus os anos já passados
A desejos iguais, desigualados
Se a vontade mudando os esqueceu.
Aquilo que queria mudou
tanto
Que é outro amor; e meu prazer um dia
Maldiz o de hoje, ao novo desencanto.
Cada enganosa esperança
um meu desejo
Passa por ela o tempo e queda, fria.
Como Almourol a ver passar o Tejo.
Carlos de Oliveira de Terra da Harmonia em Poesias
domingo, 14 de julho de 2024
POSTAIS SEM SELO
Mantenha os seus amigos por perto e os seus inimigos mais perto ainda.
Lao-Tsé
Legenda:
cena de O Padrinho de Francis Ford Coppola
COMEÇOS DE LIVROS
Os Nus e os Mortos de Norman Mailer.
Um grande livro.
Um bom começo:
«Ninguém podia dormir. Mal rompesse a manhã as lanchas de assalto seriam lançadas ao mar e a primeira vaga de tropas cavalgaria a rebentação e atacaria as praias de Anopopei. Em todo o comboio, em cada um dos barcos, os homens sabiam que dentro de poucas horas muitos deles estariam mortos.»
É verdade que
são 703 páginas na edição do Círculo de Leitores mas terá que ser lido.
Deste livro Raoul Walsh fez um filme em mas o livro é que vale a pena.
Tudo se
desenrola em torno de uma operação militar no Pacífico, durante a 2ª Guerra
Mundial, onde um pelotão é alternadamente comandado por dois homens
absolutamente distintos e inconciliáveis: um jovem tenente, culto, idealista e
liberal e um sargento duro, intransigente, sádico e frustrado. Um violento
choque de concepções antagónicas de comandar homens num teatro de guerra que
demonstra a impossibilidade da coexistência do humanismo com a sobrevivência.
António Neves Pedro, o tradutor, numa pequena nota, avisa-nos para a linguagem descarnada sem artifícios literários, no fundo, uma tradução dificílima
Para que conste:
«Todas as personagens e incidentes descritos neste romance são pura ficção, e qualquer semelhança com alguma pessoa, viva ou morta, é simples coincidência.»
DITOS & REDITOS
É o que se leva desta
vida.
Não digas que vais
daqui.
Nunca misturar vodka
com feitiçarias.
Discutir com ignorantes
acaba sempre mal.
Tanto faz não é
resposta.
Há sempre mais para
conhecer.
Como Almourol a ver
passar o Tejo.
Está tudo bem… tirando o que está mall.
sábado, 13 de julho de 2024
O OUTRO LADO DAS ESTANTES
Marvão: Palavras e Olhares
Domingos Bucho e
Raul Ladeira
Câmara Municipal
de Marvão, Marvão.
É sede do município de Marvão com
154,9 km² de área e 3 021 habitantes subdividido em 4 freguesias:
Beirã, que teve uma estação de comboios que servia a sede do concelho, Santa
Maria de Marvão, Santo António das Areias, São Salvador da Aramenha.
O município é limitado a norte e leste
pela Espanha, a sul e oeste pelo município de Portalegre e a
noroeste por Castelo de Vide.
Tomada e fortificada pelos árabes, seria
posteriormente conquistada por D. Afonso Henriques e coube a D. Dinis mandar
reforçar as muralhas. Dominando o acesso à fronteira e permitindo detectar
movimentações inimigas, teve uma importância estratégica na defesa do reino.
O título de Mui Nobre e Sempre Leal foi
concedido à Vila de Marvão pela rainha D. Maria II.»
Este livro, que
faz parte da Biblioteca da Casa, foi parte do trabalho encetado em 2008 para candidatar,
ano de 2002, a vila a Património Mundial da UNESCO.
Marvão é um dos
muitos lugares de encanto deste país.
Ouvir os sinos
durante a noite nas igrejas de Marvão.
O silêncio.
Marvão, de onde
se veem os pássaros pelas costas.
Os romanos
diziam que em Marvão se estava acima do voo dos milhafres.
O pintor que foi
a Marvão para pintar.
Tudo é tão belo
que compra casa com vista, arruma os pincéis e não mais lhes toca.
Começo a gostar
de terra quando interiorizo que aí seria bonito passar o Natal.
Assim classifico
as terras por onde passo.
O escurecer
cedo, a lareira acesa, o bacalhau da tradição, um tinto do Douro, músicas de
natal, um charuto, a chover, ou a nevar, lá fora, o vento assobiando.
Perder a noção
do tempo.
José Saramago na sua Viagem a Portugal:
«Marvão vê-se de Cabeço de Vide, mas de Marvão vê-se
tudo. O viajante exagera, mas essa é justamente a impressão que sente quando
ainda lá não chegou, quando vai na planície e lhe surge, de repente, agora mais
perto, o morro altíssimo que parece erguer-se na vertical.
É verdade. De Marvão vê-se a terra quase toda: para os lados de Espanha avista-se Valência de Alcantara, S. Vicente e Albuquerque, além de uma chusma de pequenas povoações; para sul, pelo desfiladeiro que separa a serra de S. Mamede e a outra, apenas seu contraforte, serra da Ladeira da gata, podem-se identificar Cabeço de Vide, Sousel, Estremoz, Alter Pedroso, Crato, Benavila, Avis; onde o viajante ainda há pouco estava, Nisa, Póvoas e Meadas, Gáfete e Arez, enfim a norte, estando límpida a atmosfera, a última sombra de azul é a serra da Estrela: não espanta que distintamente se vejam Castelo Branco, Alpedrinha, Monsanto. Compreende-se que neste lugar, do alto da torre de menagem do Castelo de Marvão, o viajante murmure respeitosamente: «Que grande é o mundo.»
Durante alguns
anos, fomos a Marvão pela Festa da Castanha.
Em alojamento
rural, ficávamos de sexta-feira a domingo.
O almoço sempre
foi em Castelo de Vide, no «Chalana»: «molhinhos» borrego em tomatada e
costeletas de cabrito panadas.
Antes, no
caminho, tínhamos comprado pão alentejano, queijos em Nisa e na Chança bifinhos
do lombo de porco, devidamente temperados com alho e pimentão, que em Marvão,
depois do fecho do assar das castanhas, ficavam os bidons com restos de carvão e
aí grelhávamos os bifinhos: manjares do mundo.
Depois, num só de
repente, a festa começou a ser invadida por turistas, a perder aquela graça que
encontráramos pela vez primeira.
CONVERSANDO
Este
é um recorte de uma das crónicas que Manuel Alberto Valente publicou no Expresso.
Há
a oportunidade para lembrarmos o poeta, romancista e crítico Alexandre Pinheiro
que praticamente caiu no esquecimento.
Uma
excelente frase de Alexandre Pinheiro Torres citada no recorte:
«O privilégio da
crítica é ser injusta.»
Depois o confirmarmos que as gentes das letras, volta e meia, se tratavam com termos tirados da última gaveta.
OS DIAS DO CAFÉ DO MONTE
«Se Cavaco Silva pode prefaciar Aquilino Ribeiro – segundo informação que me chega, o ex-Presidente da República preambula a nova edição de Geografia Sentimental, retrato aquiliano pessoalíssimo das terras da Beira Alta publicado originalmente em 1951 – porque não poderei eu, nunca tendo sido sequer presidente de junta, mas sabendo que “cidadões” é plural inexistente e que o número de cantos de Os Lusíadas são dez, aventurar-me por solos camilianos, trepando aos ombros de outro dos nossos gigantes, quando me falta assunto?»
Ana Cristina Leonardo, de uma crónica no Público de 10 de Maio de 2024sexta-feira, 12 de julho de 2024
OLHAR AS CAPAS
Fernão Lopes
António José Saraiva
Colecção Saber nº 21
Publicações Europa-América, Lisboa s/d
Fernão Lopes foi afastado do seu do seu cargo de cronista do Reino após
o triunfo da nobreza em Alfarrobeira, certamente porque a sua personalidade e a
sua maneira de fazer a história não se adequavam à nova Orientação da Corte
Portuguesa.
O SINO DA MINHA ALDEIA
Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha
alma.
E é tão lento o teu
soar,
Tão como triste da
vida,
Que já a primeira
pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas
perto
Quando passo, sempre
errante,
És para mim como um
sonho.
Soas-me na alma
distante.
A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o
passado,
Sinto a saudade mais perto.
Fernando
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