terça-feira, 9 de setembro de 2025

O TEMPO SUJO

Há dias que eu odeio

Como insultos a que não posso responder
Sem o perigo duma cruel intimidade
Com a mão que lança o pus
Que trabalha ao serviço da infecção

 

São dias que nunca deviam ter saído
Do mau tempo fixo
Que nos desafia da parede
Dias que nos insultam que nos lançam
As pedras do medo os vidros da mentira
As pequenas moedas da humilhação

 

Dias ou janelas sobre o charco
Que se espelha no céu
Dias do dia-a-dia
Comboios que trazem o sono a resmungar para o trabalho
O sono centenário

 

Mal vestido mal alimentado
Para o trabalho
A martelada na cabeça
A pequena morte maliciosa
Que na espiral das sirenes

Se esconde e assobia

 

Dias que passei no esgoto dos sonhos

Onde o sórdido dá as mãos ao sublime

Onde vi o necessário onde aprendi

Que só entre os homens e por eles

vale a pena sonhar.

 

Alexandre O’ Neill em No Reino da Dinamarca

segunda-feira, 8 de setembro de 2025

AMEI DEMAIS

Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais
todas as coisas que na vida eu emprenhei.
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais,
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais.
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei
do imenso mar de sol, sem praia ou cais,
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei
está espalhado pelos sítios onde vais
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais.
E os milhares de versos que rasguei
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.


Joaquim Pessoa

domingo, 7 de setembro de 2025

CARLOS MOEDAS: PIOR É IMPOSSÌVEL!

Carlos Moedas, nas últimas eleições autárquicas, obteve a presidência da Câmara Municipal de Lisboa, sem saber ler nem escrever.

Acima de tudo porque Fernando Medina, outro político medíocre, se deixou relaxar, ao ponto de admitir que a vitória estava no papo e que vestir a camisola, seria suficiente para vencer o jogo.

Enganou-se redondamente!

Numas outras eleições, João Soares cometeu o mesmo erro.

Carlos Moedas e os seus apaniguados do PSD, na tragédia do Elevador da Glória, têm responsabilidades políticas. As outras responsabilidades, os inquéritos e averiguações, a seu tempo, darão as possíveis conclusões.

A entrevista que, há poucos minutos, Carlos Moedas deu na SIC, é um perfeito desastre. 

Não contente com a falta de conteúdo, técnico e político, lamentavelmente, rematou a entrevista com ofensas graves e falsas sobre Alexandra Leitão, sua adversária na luta pela chefia da Câmara de Lisboa, trazendo para a praça pública uma palavra que a maioria dos portugueses desconhecia, chamando SICÁRIOS a adversários políticos.

No topo deste texto apresentamos a definição que pode ser lida no Dicionário de Morais e incluímos uma frase do escritor Henry David Thoreau, que podia ser lida no Público de 21 de Agosto, e que se pode aplicar a todos os Moedas destes tristes e cinzentos  tempos.

TRUMPALHADAS


 Recorte do Público de 23 de Agosto de 2025.

O SENHOR NÃO É BEM-VINDO!


 Ainda os incêndios, ainda Luís Montenegro.

Recorte do Público de 20 de Agosto de 2025.

sábado, 6 de setembro de 2025

BLOGUEANDO POR AÍ


 Encontrado no blogue As Palavras são Armas de Cid Simões.

OLHARES


Todos os anos, pelos Santos Populares, compro um manjerico.

Uns não passam de Junho, outros vão mais além.

Ester comprei-o no Pingo Doce.

Chegados aqui, ainda é manjerico.


Colaboração de Aida Santos 

sexta-feira, 5 de setembro de 2025

À LUPA


A tragédia abateu-se sobre a cidade de Lisboa.

Um dos dois veículos, que constituem o Elevador da Glória, por motivos ainda desconhecidos, desceu desgovernado, embateu num prédio da rua, matando 16 passageiros e originando dezenas de feridos, alguns, permanecem nos hospitais, em estado grave.

Aparentemente um cabo que se partiu, estará na origem do acidente, mas é muito cedo pa ra qualquer conclusão, ainda por cima, o cabo, «olhado» na manhã do acidente, não mostrava qualquer anomalia.

Contudo, a empresa privada que faz a manutenção dos elevadores, a mando não se sabe de quem, reduziu vistorias de 24 horas diárias para inspecções de 30 minutos.

A Lupa, percorrendo um artigo publicado, no Público, da autoria de Carlos Cipriano e Ruben Martins, verificou que, provavelmente, uma equipa de trabalhadores técnicos da Carris com experiência na manutenção permanente, teria detectado, apara além do cabo,  outras anomalias.

Alguém aleatório, que só vê a maquinaria do elevador meia hora por dia, não dá por eventuais diferenças.

«Várias fontes consultadas pelo Público alertam para a perda de conhecimento técnico, não só na Carris como noutras empresas públicas, à medida que os trabalhadores mais velhos se reformam sem serem substituídos por novos quadros porque se optou pelo outsourcing. Esse conhecimento técnico, partilhado por engenheiros e operários, era obtido e consolidado através de sucessivas gerações de pessoal que pertencia ao quadro e tinham carreiras estáveis nas empresas. Além do know how propriamente dito, havia o conhecimento empírico, traduzido, por exemplo, em expressões como “manhas da máquina” ou “cantar diferente” quando se referiam ao funcionamento dos equipamentos. Algo que se perde quando a actividade passa a ser feita por empresas que prestam serviços em contratos de três ou quatro anos.».

Mas há que evitar, por agora, especulações. 

Mas, não podemos deixar cair no olvido, que, sobre esta tragédia, são necessárias explicações técnicas.

EIS O QUE ME DISSERAM

Os campos dão pedras, as vinhas estiolam,
as aldeias dão párias emigrando em porões.

Não deixes para amanhã o que podes fazer hoje;
não deixes para amanhã o quebrar do silêncio,
meter a foice no trigo sazonado,
carregar no botão, soltar a tempestade.

Quebra a solidão com o sol matinal
que aponta a claridade sobre as frondes.

As cidades dão fumo, queimam a amizade,
esmagam a consciência, distribuem o crepúsculo.

Um pequeno descuido, nova fuga de tempo,
o espelho transforma-te em velhice - perderás a vida,
pálido, encolhido, no fundo das caves.

É mais tarde do que pensas!

É difícil agora deste fruto ácido
conseguir raízes, flores e perfume.

Não deixes para amanhã o grito necessário,

o enforcamento sumário do agente opressor,
o tributo para a máquina de alargar horizontes...

Eis o que me disseram!

 

Egito Gonçalves em Os Arquivos do Silêncio

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

NESTE DIA


Nos dias recentes em que saí daqui por uns dias, estive sem computador, fiz pequenos exercícios escritos à mão. Percebi rapidamente que já «não» sei escrever à mão, e veio-me à lembrança que já ouvi, ou já li, que escrever é algo que está prestes a desaparecer.

Pelo Natal é comum saber-se que pelo mundo se trocam milhões de SMS com votos de Boas-Festas, mas jamai um postal, uma carta.

Tenho um velho recorte de uma crónica do José Tolentino de Mendonça:

«Uma das coisas que aprendi foi que uma carta começa pelo envelope, pelo selo, pelo papel e que essa materialidade (escolhida, retrabalhada)) participa desse encontro sem palavras que uma carta pode significar.»

O neto foi despedir-se dos avós, agora que ia de férias com os pais.

- Manda-nos um postal, disse a avó.

- O que é um postal, vó?..

Disseram-nos que Saramago escrevia pela manhã, ao som de Mozart, Bach Ou Beethoven, guardando as tardes para  responder às cartas, cerca de 100 que lhe chegavam por mês.

Várias vezes deixou expresso que deveria ser publicada a correspondência que manteve com os seus pares e com o seus leitores. Por motivos nunca declarados, a Fundação  Saramago ainda iniciou esse imprescindível trabalho.

Por cartas, pegamos no 1º Volume dos Cadernos de Lanzarote, e publicanos a entrada que escreveu no último dia do ano de 1993:

COLAGEM

Em cima da mesa, uma pilha

de livros que vou lendo por ordem

para não introduzir a desordem. Uns

têm quase oitocentas páginas,

outros são mais pequenos, mas, sendo

mais complicados, demoram o dobro

do tempo a ler. São assim as coisas,

relativas e pouco fiáveis. O que importa

é ter tudo esclarecido ao longo

da leitura: não tomar notas, não

deixar sinais que eu passei por ali e, um dia,

quando alguém olhar para os meus

livros, perguntará se sei tudo o que tenho

pela frente. E darei uma resposta

metafísica: «Há livros que se pegam

 à pele e já não saem de lá. Outros caem

das mãos, e deixam o chão cheio

de letras. Depois, é só apanhá-las, uma

a uma, e voltar a colá-las.»

Nuno Júdice 

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

NESTE DIA


Pegamos no 3º volume dos Dias Comuns de José Gomes Ferreira, titulado como Ponte Inquieta e ficamos a saber que, no dia 25 de Agosto de 1967, o Zé Gomes quase se enfurece com a ideia de, provavelmente, poderem entregar o Prémio Nobel da Literatura a Jorge Amado: «E assim vão os dias, cada vez mais tristes, graças a estes pequeninos toques magoados.

José Gomes Ferreira deixou-nos no dia 8 de Fevereiro de 1985.

Se tivesse chegado ao ano de 1998, ficaria a saber que a Academia Sueca, atribuiria o Nobel da Literatura a José Saramago, ou seja: um português antes de um brasileiro, tal como prtendia.

REOLHARES

NOS MARES DO FIM DO MUNDO

Guardo da infância-quase-adolescência a imagem do estuário do Tejo, frente  à Praça do Império, pejado de lugres bacalhoeiros, embandeirados em arco, aguardando a partida para a Terra Nova e Gronelândia.

Porque foi de Belém que partiram as armadas em demanda de novas terras e o regime pretendia que a faina bacalhoeira fosse a epopeia desses dias.

Acontecia por princípios de Abril e coincidia quase sempre com o tempo de Páscoa.

As muralhas pejavam-se de gente, na sua maioria famílias dos pescadores.

Os pescadores nos seus dóris vinham dos barcos até à margem para assistirem, aos actos religiosos que se realizavam no Mosteiro dos Jerónimos.

Após a cerimónia, dois pescadores deslocavam-se a casa do Senhor Presidente do Conselho, em nome de todos os outros trabalhadores do mar, apresentar cumprimentos de despedida.

Os jornais testemunhavam, então, que Salazar recebia-os com muita simpatia, demorava-se alguns minutos a conversar com os pescadores e desejava-lhes boa viagem e boa pesca.

Brindava-se com Vinho do Porto, comiam-se amêndoas.

Em 12 de Abrl de 1952 o Notícias de Portugal referia as palavras do Senhor Arcebispo de Mitilene.:

Amigos, boa viagem e até à volta! Que o Senhor vos leve e que o Senhor vos traga!

O regresso acontecia por alturas de Setembro-Outubro, a tempo dos portugueses terem o bacalhau à mesa da consoada.

Em 1955, foi construído, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, a mando do Grémio de Armadores de Navios de Pesca do Bacalhau, comandado pelo tenebroso e corrupto Almirante Henrique Tenreiro, O Gil Eannes, navio-hospital que esteve ao serviço da frota bacalhoeira até 1973.

Nesse ano de 1955, Portugal tinha uma frota pesqueira de 70 barcos e cerca de cinco mil homens.

Em Dezembro de 2002 a frota rondava os 15 barcos e apenas dois/três por cento do bacalhau que consumíamos, era pescado por portugueses.

Foi com os pescadores portugueses que os noruegueses aprenderam a preparar o bacalhau, e em 2007, Portugal absorvia 40% das exportações de bacalhau da Noruega.

Tem largos e largos anos o contacto dos portugueses com o bacalhau.

Em Lisboa, na Praça da Figueira, a Antiga Casa do Bacalhau vende bacalhau há cerca de 150 anos.

O escritor Bernardo Santareno, médico de profissão, na campanha de 1957 prestou assistência a bordo do arrastão David Melgueiro, e na campanha de 1958, a bordo do Senhora do Mar e do navio-hospital Gil Eannes.

Dessa experiência de Santareno, resultou a peça de teatro O Lugre, publicada em 1959.

Fala do Capitão: Tenho muita pena do António Nazareno. Era um bom rapaz e um bom pescador.  Tenho muita pena… Resta-nos a consolação de termos feito tudo para o salvar. Tudo. Gostaria mais de o sepultar em terra mas 4stamos longe e a lei não permite a arribada. Por isso o corpo do Nazareno será dado ao mar. Eu bem sei que numa cova funda, coberta com boa terra firme, um homem descansa mais em paz, que a mulher ou os filhos ou os pais o terão lá, anos e anos, quieto… Depois, na terra duma campa nascem flores e ervas de cheiro: giestas e malmequeres, rosmaninho e alecrim… Gostava, só Deus sabe como eu gostava!, de sepultar o António Nazareno em terra. Mas não posso. Era um grande prejuízo. Sei bem que todos vocês têm pena… Mas lembrem-se de que aqui, num destes portos da Terra Nova, ele não teria nem giestas, nem rosmaninho… nada disso! Seriam outras flores que a gente não conhece, que ele Nazareno, nunca viu em vida! Até a terra, até a terra que o cobriria, seria diferente da nossa: com outra cor, com outro cheiro. Isto é assim: e por assim ser, não devemos ter pena de deitar ao mar o corpo do Nazareno. Aqui nestes bancos da Terra Nova, ele fica menos só. Fica, fica mais acompanhado nestes mares. Se todas as vezes e em todos os sítios que este oceano matou um pescador português, houvesse, como é de uso na nossa terra, uma alminha iluminada… ai, então estes mares estariam cheiinhos de luzes, cheios a perder de vista! Vocês sabem que é verdade isto que eu lhes digo: alguns têm cá o pai, ou um irmão, ou um filho… É ou não assim, João das Almas. Estou a mentir, Zé Sol? O nosso companheiro António Nazareno ficará portanto neste mar. Que descanse em paz. (1).


Ainda sobre as vidas e trabalhos dos pescadores de bacalhau, Bernardo Santareno publicou, em 1959, o livro de narrativas Nos Mares do Fim do Mundo, de onde ressalta as condições em que um único homem, num dóri, pescava à linha, até encher o pequeno barco, regressar ao navio-mãe e começar a descabeçar os peixes, escalar e colocá-los para salga no porão.

Entre as frotas bacalhoeiras de outros países, eram os portugueses os que trabalhavam nas piores condições.

Uma vida miserável, que o regime queria que fosse epopeia.

Este é o começo de Nos Mares do Fim do Mundo:

Enquanto o “David  Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa, eu surpreendo-me com as mãos  abertas ao vento, para nele colher um certo olhar negro e patético, ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima, ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado, ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura, ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim... Com as minhas longas mãos abertas ao vento...(2).


(1)   Bernardo Santareno, O Lugre, em Obras Completas, Editorial          Caminho, Lisboa 1984.


(2)   Bernardo Santareno, Nos Mares do Fim do Mundo, Edições Ática, Lisboa Junho 1999.

(Texto publicado no dia 8 de Abril de 2012)

TEU PAI UM POTRO DE SANGUE

Teu pai um potro de sangue

emprenhou uma gazela

tu nasceste mas exangue

a vencida foi sempre ela.

 

A pouco e pouco cresceste

nos túneis da liberdade

nos túneis porque nas ruas

era bem outra a verdade.

 

Um povo inteiro pagava

o tributo de existir

e servia a quem mandava

agonizar a sorrir.

 

Depois menino batido

por tantas feras à solta

foste aprendendo o sentido

da vingança e da revolta.

 

Em ti deitaste raiz

tronco fino mas não frágil

e inventaste um país

maior mais livre e mais ágil.

 

De tudo te disfarçaste

cigano vadio actor

mas nunca te amordaçaste

nem português nem escritor.

 

Escrevendo com sangue e letras

entraste na grande guerra

e dos operários poetas

que escreveram esta terra.

 

Hoje a luta recomeça

mas já de igual para igual

muito obrigado Bernardo

Santarém de Portugal.

 

José Carlos Ary dos Santos

 

NOTA DO EDITOR:

Este poema/canção faz parte da peça Português, Escritor, Quarenta e Cinco Anos de Idade de Bernardo Santareno, representada pela primeira vez em 5 de Julho de 1974 no Teatro Maria Matos, numa encenação de Rogério Paulo. A música é de Fernando Tordo.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Uma coisa bela é uma alegria para sempre.

John  Keats

NESTE DIA


No ficheiro ideográfico da Biblioteca da Casa, Nos Mares do Fim do Mundo de Bernardo estava classificado nos Diários.

O volume que então existia, era a 1ª edição das Edições Ática, datada de 1959.

O meu pai, durante a ditadura salazarista/marcelista, emprestava livros aos companheiros que estavam nas cadeias da PIDE. Nunca vi o meu pai registar a quem emprestava os livros. Uns regressaram às estantes, outros não. Uma tarefa política como esta, não pode, não tem que ter registo, dizia-me e o meu avô, silenciosamente, concordava

Só por volta do ano de 2001 consegui encontrar uma edição do livro, mais uma vez editada pela Ática, mas sem as fotografias da 1ª edição.

Recentemente, por iniciativa da E-Imprimatur, Fevereiro de 2016, saiu uma nova edição, com fotografias de Nos Mares do Fim do Mundo.

Da publicidade da editora:

«Na história da literatura portuguesa do século XX, este livro é um objecto estranho e raro, onde a poesia e a realidade dão as mãos num cenário de natureza inóspita que realça o elemento humano.

«Nos Mares do Fim do Mundo foi, em grande parte, escrito a bordo do arrastão "David Melgueiro", na primeira campanha de 1957, a primeira também em que eu servi na frota bacalhoeira portuguesa, como médico. Mas depois desta, tomei parte numa segunda, em 1958, agora a bordo do "Senhora do Mar" e do navio-hospital "Gil Eannes", em que assisti sobretudo aos barcos de pesca à linha: assim pude de facto conhecer, por vezes intimamente, todos os aspectos da vida dos pescadores bacalhoeiros portugueses, em mares da Terra Nova e da Gronelândia, e completar este livro.»


A PARTIDA


«Enquanto o “David Melgueiro” se afasta, mais e mais de Lisboa,
eu surpreendo-me com as mãos abertas ao vento,
para nele colher um certo olhar negro e patético,
ou um riso estridente e nervoso que queria ser lágrima,
ou aquele dorido inclinar de cabeça silencioso e resignado,
ou aquele beijo enviado por alguém que me pede uma estrela como testemunho da aventura,
ou a serenidade hirta e requintada de quem, enquanto o navio se distancia, se acusa por não sentir nada (nem mágoa, nem saudade) por mim…
Com as minhas longas mãos abertas ao vento…»

 

Bernardo Santareno é o pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (1920 - 1980), considerado o maior dramaturgo português do século XX.
Licenciou-se em medicina em 1950 e entre 1957 e 1959 exerceu actividade médica junto da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova. Esta experiência deu origem, no imediato, a uma colecção de textos escritos em pequenos blocos de notas e que mais tarde resultariam no presente título. Mas também nalgumas das suas mais famosas peças O lugre ou A promessa.
Bernardo Santareno iniciou-se na escrita como poeta sendo os seus três primeiros livros coleções de poesia. A partir de 1957, o teatro foi registo de eleição, tendo escrito 15 peças. Bernardo Santareno é o pseudónimo literário de António Martinho do Rosário (1920 - 1980), considerado o maior dramaturgo português do século XX.
Licenciou-se em medicina em 1950 e entre 1957 e 1959 exerceu actividade médica junto da frota bacalhoeira portuguesa na Terra Nova. Esta experiência deu origem, no imediato, a uma colecção de textos escritos em pequenos blocos de notas e que mais tarde resultariam no presente título. Mas também nalgumas das suas mais famosas peças O lugre ou A promessa.
Bernardo Santareno iniciou-se na escrita como poeta sendo os seus três primeiros livros coleções de poesia. A partir de 1957, o teatro foi registo de eleição, tendo escrito 15 peças.

Bernardo Santareno muitas vezes, durante a dura luta junto da frota bacalhoeira, se interrogou se seria capaz de cumprir a tarefa:

 

«Serei capaz? São mil e tantos homens entregues aos meus cuidados, confiantes na minha proficiência médica… Estarei eu preparado para tal? Terei ue me habituar a decidir, rápida e eficazmente, nos casos de urgência: serei capaz? Sou tão doentiamente indeciso! Sinto a vontade anestesiada pela penumbra tépida dos cinemas, envenenada pelo aromas das rosas nocturnas de sombra, desgrenhada pelo desespero agudo de tantas horas amarelas e inúteis… 

 Tenho que me endurecer: habituar-me a morder os «talvez» e os «depois se verá»; mudar saliências redondas em ângulos acerados; fazer de curvas insinuadas e subtis, rectas simples e firmes, tensas de energia!..

Serei capaz? E se eu desistisse, se voltasse para Lisboa? Pretexto? Uma neurose, por exemplo… Isso seria aumentar a cobardia, a irresponsabilidade. Não quero. Lutarei e hei-de vencer!

A sombra contínua que, dentro de mim, nunca deixa que a madrugada seja simplesmente madrugada e que persiste mesmo no risos solar do meio-dia, essa sombra (ou cicatriz dum estigma sagrado, ou nostalgia de não sei que pomar maldito…) há-de fugir de mim para sempre: e eu ficarei livre e transparente, despovoado e jovem.

As sonâmbulas presenças ambíguas, os gestos babados, os veludos asfixiantes, os metais de «jazz» que pesam nas rugas do meu rosto… o mar, o vento e a neve os hão-de lavar: e de novo a minha face ficará pura e lisa, pronta a receber o verbo, aquela palavra única entre mil escolhida…

- Senhor doutor, um doente chama-o!

Como Jesus lavando os pés aos apóstolos, assim eu queria servir esta gente.»

OLHAR AS CAPAS


São Jorge dos Ilhéus

Jorge Amado

Capa: Clóvis Graciano

Livraria Martins Editora, São Paulo, 1968

No dia 2 de janeiro o “Jornal da Tarde” estampava um telegrama, datado de Nova Iorque, que anunciava uma grande queda nos preços do cacau. Dos quarenta e sete mil-réis, alturas em que pairava no dia 31 de dezembro, descera a trinta. Não chegou a haver, naquele dia, maior agitação entre os coronéis e os pequenos lavradores. Estavam ainda entregues à animação das festas de começo de anoa, a maioria curtindo a ressaca da noite de primeiro. No outro dia a tabela marcava vinte e nove mil-réis. Já aí os fazendeiros começaram a assustar-se. Há muito que o cacau não baixava dos quarente e dois mil-réis. 

À LUPA

A maioria dos migrantes, chegados, há semanas, a Vila do Bispo, atualmente retidos em Centros de Instalação Temporária do Porto e de Faro, apresentaram pedidos de proteção humanitária a Portugal, que suspendem o processo de retorno a Marrocos. A decisão cabe à AIMA. O único menor desacompanhado vai ser reinstalado nos termos da lei de proteção de crianças e jovens.

As notícias têm sido escassas. Os imigrantes causam pele-de-galinha a muita gente. Não só em Portugal, mas é aqui que vivemos e não queremos desprezo e silêncio sobre o assunto. 

E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se evolam tantos anos

David Mourão Ferreira

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

CONVERSANDO

«Setembro. E isso é belo como um poema que não sei inventar», como dizia o Vergílio Ferreira.

Por Setembro, lembrando sempre o meu pai quando, em plenos calores estivais, dizia: «em Setembro voltamos a ser gente.»

Eugénio de Andrade conhecia Setembro pelo cheiro.

O ar ainda é quente, mas mais lá para a frente, começará a cheirar a Outono, e tardará  pouco para ir ao armário buscar uma lãzinha, talvez se encontrem uns trocos num qualquer bolso, também o entusiasmado fumo dos vendedores de castanhas a espalhar-se pela cidade.

Em Setembro, planta, colhe e cava, que é mês para tudo.

Hão-de apanhar-se as uvas e tudo ficará a cheirar a mosto.

Ramo curto, vindima longa.

Cheiros e mais cheiros.

Bom dia, Setembro.

NESTE DIA


A nova maneira para abordar os Diários que existem na Biblioteca da casa, permitem voos diversos.

Estamos, hoje, com o Diário de Miguel Torga.

Miguel Torga não é um escritor que me entusiasme. Provavelmente nunca o soube ler. Mas do que escreveu, os Diários são o que me despertaram uma atenção diferente das restantes obras.

Lamento de José Saramago no momento da morte de Miguel Torga:

«Não conheci Miguel Torga. Nunca o procurei, nunca lhe escrevi. Limitei-me a lê-lo, a admirá-lo muitas vezes, outras não tanto. Foi só de leitor a minha relação com ele.

(…)

Achava que havia em Torga algo que eu gostaria de ter, e não tinha: o direito ganho por uma obra com uma dimensão em todos os sentidos fora do comum, a música profunda de uma sabedoria que nascera da vida e que à vida voltava, para não se tornarem, ambas, mais ricas e generosas. Que Torga não era generoso, dizem-no. Mas eu falo de outra generosidade, a que se entranha nesse movimento de vaivém que em raríssimos casos une o homem à sua terra e a terra toda ao homem.

Demasiado cedo morreu Miguel Torga. Compreendo agora quanto gostaria de tê-lo conhecido. Demasiado tarde».

 José Saramago em Cadernosde Lanzarote, 3º volume

Agustina Bessa-Luís não gostava de Torga?

Provavelmente não.

Agustina Bessa-Luís em em O Livro de Agustina:

«Escrevi o Mundo Fechado enquanto minha filha dormia; a cozinha era de telha-vã e havia um ratinho esperto ao qual eu punha comida na dispensa todas as noites. E lá vinha o aroma das tílias anunciando os exames e o seu terror laureado de esperanças. O livro foi recebido com agrado, só o Torga me deu uma resposta convencional que não me caiu bem. Fiquei fula e qualifiquei-o entre os sete fariseus-hipócritas que estão registados no Talmude e dos quais faz a sátira.»

Luiz Pacheco sobre Torga:

«O Torga não era um escritor avençado! Era até um escritor único em Portugal, e no mundo, porque se editava a si próprio. Mas é um chato do caneco. Por exemploi, faz um poema para cada Natal: é como quem mata uma galinha ou um perú.»

Entrevista a Mário Santos no Público, Março de 1995 em O Crocodilo Que Voa

Miguel Torga, no dia 14 de Abril de 1974, está em S. Martinho de Anta. Neste dia, escreve um poema que intitula ABRIL, contrariando o Luiz Pacheco, não é um poema sobre o Natal:


Dia feliz, passeado.

Sol a jorros, sem calor;

Os santos de sentinela

Nos miradoiros lavados

Onde flameja a brancura

Da graça do seu renome;

Centeio a jurar à fome

O advento da fartura;

Ninhos, namoros, ternura,

E caminhos de amargura

Atapetados de flores

De uma insolência sincera:

Vulvas de todas as cores

No impudor da primavera.

 

A curiosidade possível deste simples poema é que 11 dias depois acontecerá o 25 de Abril e Torga escreve:

«Coimbra, 25 de Abril de 1974 — Golpe militar. Assim eu acreditasse nos militares. Foram eles que, durante os últimos macerados cinquenta anos pátrios, nos prenderam, nos censuraram, nos apreenderam e asseguraram com as baionetas o poder à tirania. Quem poderá esquecê-lo? Mas pronto: de qualquer maneira, é um passo. Oxalá não seja duradoiramente de parada...»

Miguel Torga, Diário  no 12º volume

OLHAR AS CAPAS


Bater Sempre Também Cansa… Mas às Vezes até é Pouco: Como Um Jornal de Economia Salvou Luiz Pacheco

Luiz Pacheco e Nicolau Santos

Capa: Ilídio J.B.Vasco

Guerra E Paz Editores, Lisboa, Agosto de 2025

Setúbal, 24 de Julho de 1995

Meu Caro Nicolau Santos,

Vai mais uma artigalhada. O calor não apoquenta só o Mário Viegas, que foi às gavetas buscar retalhos do Mário-Henrique Leiria para compor (?) a crónica dele. Também me lixa a mim; estou a escrever às sete da matina. Daqui para mais tarde a minha capoeira transforma-se num micro-ondas e eu, sem ar condicionado e as duas ventoinhas, era um Pacheco de Churrasco.

Atenção, isto não é uma reclamação. Apenas um esclarecimento.

Um forte abraço

Luiz Pacheco

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


 Continua a não haver uma Festa como esta!

À LUPA

Aquele cínico sorriso de Luís Montenegro.

Não sei a propósito de quê, no discurso de fecho da universidade do PSD, em Castelo de Vide, ao seu sorriso se referiu.

Mas é um sorriso de alguém que não oferece confiança, tal como, ontem, no Público, Ana Sá Lopes registava:

«Montenegro mentiu à hora do almoço e depois veio desmentir-se a si próprio, através de um comunicado oficial, ao fim da tarde. Devemos aceitar que umprimeiro-ministro pode mentir? Não.»

DEIXEI DE OUVIR-TE

Deixei de ouvir-te. E sei que sou

mais triste com o teu silêncio.

Preferia pensar que só adormeceste; mas
se encostar ao teu pulso o meu ouvido
não escutarei senão a minha dor.

Deus precisou de ti, bem sei. E
não vejo como censurá-lo

ou perdoar-lhe.

 

Maria do Rosário Pedreira em Poesia Reunida