quarta-feira, 24 de setembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


Testemunhos dos Jovens de Hiroxima

Prefácio de Bertrand Russell

Tradução: H. Silva Letra

Capa: João da Câmara Leme

Colecção Documentos Humanos nº 13

Portugália Editora, Lisboa, Maio de 1965

O meu irmão, que tinha então cinco anos, dizia sem cessar que iria ser almirante da marinha, mas detesto a guerra porque, vença-se ou seja vencido, muitas e muitas pessoas morrem e muitas casas e dinheiro são queimados e se perdem buscamente.

Masako Ohta

REOLHARES


 

NINGUÉM PODE RESISTIR À TUA BELEZA


Claudia Cardinale, quando fez 70 anos,  hoje está com uns radiosos 76 anos, apagadas as velas, nas palavras de agradecimento, disse: nada de plásticas porque cada idade tem a sua beleza.

CC, tal como a conhecíamos em contra ponto a BB, francesa que também foi espanto dos olhos de muitos adolescentes, menor actriz que Cardinale, para além de outros inconvenientes, como se ter dedicado à protecção de animais quando, dizem, nunca cuidou do próprio filho e ainda por cima vota em Jean-Marie le Pen.

Deixe-se em paz a BB e voltemo-nos para CC.                                   

Burt Lancaster, no papel do Príncipe Salina,  em O Leopardo de Visconti:

«Deves tudo a ti mesmo. Ninguém pode resistir à tua beleza.»

Jorge Silva Melo, num inquérito do suplemento Gente do Diário de Notícias, quando lhe pediram o nome de uma mulher bonita, nem pestanejou:

 - Claudia Cardinale.

E, para que não restassem quaisquer dúvidas, acrescentou:

«Luminosa. A luminosidade interior dela como os modelos de Raffaello. Não são os projectores que a iluminam. A luz emana dela. Talento tem com certeza, mas o sorriso nunca é objecto de talento. Vem de dentro. E aquele sorriso é único.»

Claudia Cardinale foi uma aparição tardia para João Bénard da Costa e tem direito a quatro páginas no seu Muito Lá de Casa e dá para, a propósito, ou o seu contrário, citar Jorge de Sena:

«não é senão o libertar do encanto que foste ao longe,à luz do mar aceso.»

E conclui:

«É essa luz, que tantos ficaram presos os anos 60 e 70.»

Tão simples como isto.

 

(Texto publicado em 8 de Novembro de 2014).

CLAUDIA CARDINALE (1938-2025)

Morreu Claudia Cardinale.

Tinha 87 anos.

«Todos tivemos uma paixão por Cláudia Cardinale. Efectivamente, resulta impossível ficar indiferente a esta actriz. Com a sua entrada em cena, esquecemos tudo o resto e o nosso ritmo cardíaco sobe.»

John Carpenter

PEQUENA ELEGIA CHAMADA DOMINGO

O domingo era uma coisa pequena.
Uma coisa tão pequena
que cabia inteirinha nos teus olhos.
Nas tuas mãos
estavam os montes e os rios
e as nuvens.
Mas as rosas,
as rosas estavam na tua boca.

Hoje os montes e os rios
e as nuvens
não vêm nas tuas mãos.
(Se ao menos elas viessem
sem montes e sem nuvens
e sem rios…)
O domingo está apenas nos meus olhos
e é grande.
Os montes estão distantes e ocultam
os rios e as nuvens
e as rosas.

Eugénio de Andrade de As Mãos e os Frutos em Poemas

terça-feira, 23 de setembro de 2025

OLHAR AS CAPAS


A Sociedade Humana na Ética e na Política

Bertrand Russell

Tradução: Oswaldo de Araújo Souza

Companhia Editora Nacional, São Pulo, 1956

O homem, como diziam os órficos, é filho da terra e do céu estrelado ou, em linguagem mais atual, uma combinação de deus e fera. Há os que cerram seus olhos à fera e os que fecham para o deus. É muito fácil fazer um retrato do homem apenas como fera.

QUOTIDIANOS


Ninguém Escreveao Coronel… mas a caixa do correio vai-se enchendo de facturas para pagar – velho que sou nunca aderi a Débitos Directos… - publicidades várias… e estarão para chegar os apelos a votos nas eleições autárquicas… e hoje, algo para resolver o problema da habitação… dado que o governo declarou que o Luís não tempo para tudo… 

NESTE DIA


Neste Dia, ou num outro qualquer, que no caso, é 2 de Dezembro de 1994, José Saramago, no 2º volume dos seus Cadernos de Lanzarote, está à volta com a Europa, ele que sempre disse: «Sou um europeu céptico que aprendeu todo o seu cepticismo com uma professora chamada Europa», ou «Um futuro que não passa, com certeza, pela CRR. Nada temos a ver com a Europa.».

TRUMPALHADAS

A pergunta que o jornalista Amílcar Correia faz hoje no Público:

«Posso ser despedido por este texto?»
«Há duas coisas das quais Donald Trump seguramente não gosta: que o critiquem e que façam piadas à sua custa. No primeiro mandato, já tínhamos assistido a todo o tipo de ataques ao jornalismo, e à sua função de escrutínio, na tentativa de o descredibilizar. A qualidade do jornalismo depende da qualidade da democracia, mas o Presidente dos EUA está mais empenhado em destruir ambas do que em as fortalecer. E não vai parar.»

À LUPA

«Portugal tem segunda banca mais rentável da zona euro.

O primeiro semestre do ano continuou a ser de lucros recorde para alguns dos principais bancos portugueses e isso reflectiu-se na posição relativa que o sector bancário nacional apresenta no total da zona euro: é o segundo mais rentável da região. Um ano antes era o quinto.»

No Público de hoje.

MEMÓRIA DE MEU BEM

Memória de meu bem, cortado em flores
por ordem de meus tristes e maus Fados,
deixai-me descansar com meus cuidados
nesta inquietação de meus amores.

Basta-me o mal presente e os temores
dos sucessos, que espero, infortunados;
sem que venham, de novo, bens passados
afrontar meu repouso com suas dores.

Perdi nüa hora quanto em termos
tão vagarosos e largos alcancei;
leixai-me, pois, lembranças desta glória.

Cumpre acabe a vida nestes ermos,
que neles com meu mal acabarei
mil vidas, não ua só, dura memória!

 

Luís de Camões em Sonetos

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


Um silêncio ainda claro, de imenso repouso, tão doce como se descesse do Céu, cobria a largueza povoada dos campos, onde não se movia uma folha, na macia transparência do ar de Setembro. Os fumos das lareiras acesas já se escapavam, lentos e leves, de entre a telha rala.

Eça de Queiroz em A Ilustre Casa de Ramires

OLHAR AS CAPAS


 Suor

Jorge Amado

Capa: Luís Duran

Livros Unibolso nº 100

Editores Associados, Lisboa s/d

Largou o violino em cima da cama. O caderno de sambas caiu no chão, dobrando as folhas. Ele não se moveu. Que lhe importava? Chegou ao buraco do quarto e ficou olhando os telhados negros da cidade anciã. As ladeiras eram os braços da cidade esticados para o céu.

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO

 O reconhecimento do estado da Palestina peca por tardio.

Copiamos três recortes do artigo de Ana Sá Lopes onde aborda que a decisão do reconhecimento da Palestina não quis ser protagonizada por Luís Montenegro

Palestina: a decisão histórica que Luís Montenegro não quis protagonizar:

1.


«Nos oito anos de Governo PS, recorde-se que o silêncio foi a nota: nem sequer o embargo da venda de armas a Israel, como já repetiu Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, várias vezes, foi travado.»
2.


«Agora, é absolutamente estranho que não seja, como aconteceu com os outros governos envolvidos, o chefe do executivo a fazer a declaração de reconhecimento, mas sim o ministro dos Negócios Estrangeiros. Que aconteceu a Luís Montenegro? Estava “a trabalhar”? Se é verdade que foi sempre Paulo Rangel a gerir este dossier – o que é natural, tendo em conta o seu cargo –, é um bocado difícil de perceber que Montenegro tenha preferido sair da fotografia.»


3.

«É triste dizer isto, mas, infelizmente, é verdade: uma grande parte do eleitorado de direita em Portugal defende a chacina dos palestinianos tal como ela tem sido levada a cabo por Benjamin Netanyahu. Confunde críticos do governo de Israel com apoiantes do Hamas. Desumaniza a população da Palestina, metendo-a num saco onde escreveu “terroristas” (e esses “terroristas”, incluindo as crianças “terroristas”, podem ser mortos à vontade).»

Ana Sá Lopes no Público de hoje

MÚSICA PELA MANHÃ


 Logo pelas 18,20 horas O Outono baterá levemente à porta.

Os dias começarão a ser mais curtos.

O mítico equinócio do Outono, como dizia São Roger Vailland.


OUTONO

Eu vi o Outono desprender suas folhas,
cair no regaço de mulheres muito loucas.
Cem duzentas pessoas num café cheio de fumo
na cidade de Heidelberg pronta para a neve
saboreavam tepidamente a sua ignorância.

Eu vi as amantes ensandecerem
com esse peso de Outono. Perderem as forças
com o Outono masculino e sangrento.
Os gritos a meio da noite
das amantes a meio da loucura voavam
como facas para o meu peito.

Alguns poetas li-os melhor no Outono,
certos amores só poderia tê-los,
como tive, nos dias doces da vindima.

 

Fernando Assis Pacheco de Cuidar dos Vivos em A Musa Irregular


domingo, 21 de setembro de 2025

OLHARES

Apontara no caderninho que o pôr-do-sol ocorreria às 18,36 horas, o último deste Verão que agora se despede.

Mas atrasou-se, e quando deu por isso, já o rapaz ia em outras paragens.

Apenas apanhou os brilhos que deixou, o relógio marcava 18,41 horas.

A falta que o vizinho do 4º andar lhe faz!...

Ele não teria falhado…


O OUTRO LADO DOS LIVROS



 

O livro tem um subtítulo: 12 Passos para a Recuperação.

É dedicado «Aos que ainda não encontraram a porta».

Tem duas epígrafes:

«O desespero do homem é a oportunidade de Deus».

William James

«É preciso uma tribo para educar um ser humano».

Yuval Noah Harari.

Palavras finais do livro tiradas de uma carta de  Bill Wilson:

«Certamente compreenderão que nunca me arvorei em ou super-homem. E disse, repetidamente e com verdade, que os AA estão cheios de pessoas que fizerem maiores progressos espirituais que eu alguma vez serei capaz. Que, em alguma áreas da vida, progredi consideravelmente, mas que noutras fiquei parado. E ainda noutros posso ter andado para trás. Lamento que estejam desiludidos comigo, mas sinto-me feliz de até eu ter encontrado uma vida aqui.»

OLHAR AS CAPAS

Que Nós Estamos Aqui

João Tordo

Capa: Inês Sena

Fundação Francisco Manuel dos Santos, Lisboa, Fevereiro2020

Envergonhado, o recém-chegado aceita, reticente, números de telefone. Dentro dele, a sensação de que alguma coisa está prestes a mudar; de que a sua vida acaba de sofrer um abalo sísmico irrecuperável. Sabe que os próximos tempos vão ser difíceis, mas finalmente descobre – como viajante sedento descobre o oásis no meio do deserto – que não está sozinho.

Que, doravante, nunca mais está sozinho.

Que haverá sempre alguém à porta para o receber – alguém que espera por ele – e que, um dia, ele também estará junto à porta, à espera de receber outros.

À LUPA

 «Antes de os portugueses saberem que eu ia ser candidato presidencial, só Deus é que soube que eu ia ser candidato presidencial.»

O presidente, e o único falador, «daquela coisa», em entrevista televisisva.

sábado, 20 de setembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ

No dia 19 de Setembro de 1981, o Central Park em Nova Iorque foi palco de um enorme concerto protagonizado por Art Gargunkel e Paul Simon.

Estima-se que meio milhão de pessoas assistiram ao concerto. Para os restantes ficaram o disco de vinil, o CD, o DVD, as memórias.

Os lucros foram destinados à remodelação e manutenção do Central Park, que se encontrava deteriorado devido à falta de financiamento municipal. O concerto e o álbum marcaram o início de uma reunião de três anos entre Paul Simon e Art Garfunkel. 

A Música pela Manhã recupera três canções do concerto.

Legenda: fotografia de Mal Bray.



À LUPA

O Luís, para além do trabalho que desenvolve como primeiro-ministro da nação, lança umas palavras que merecem que a Lupa as registe:

«O país caminha para uma legislação laboral “mais amiga” do trabalho».

EM BUSCA DE FLORES AZUIS NO DESERTO

 «E, depois, temos a nossa história com H grande, que os “traidores” que “gostam” da imigração querem apagar. Ai é? Santa ignorância. E os “nossos indostânicos”? Lembram-se do Estado Português da Índia, Goa, Damão e Diu? Era habitado por quem? E também trouxemos de lá “indostânicos”, verdade seja que da elite e das castas superiores brâmanes. E a outra colónia, Moçambique, onde havia uma população muçulmana que as autoridades coloniais queriam do seu lado contra os “turras”? O governador Baltazar Rebelo de Sousa escreveu uma carta com todo o jargão islâmico aos “portugueses” muçulmanos de Moçambique. Lembram-se, no CDS, de Narana Coissoró e, no PSD, de Correia Afonso e, nos partidos da esquerda, de Xencora Camotim? Não lembram, como na Alemanha nazi se varreram muitos judeus com contribuições fundamentais para a cultura alemã.

Não lembram porque a sua visão saudosista do império feito mito, que exclui, não os ajuda sequer a perceber que nos empobrecem, nos tornam menores, mesquinhos e violentos. Como nos anos trinta do século passado.»

José Pacheco Pereira no Público de hoje.

sexta-feira, 19 de setembro de 2025

A ÁGUA NAS TORNEIRAS

A água nas torneiras, nos diamantes, nos copos.
E entre inocência e inteligência estudava-se a arte.
Exemplo: a arte do ar queimado que passa pela boca
se a mão de alguém entra por mim dentro
e revolve
canos grossos, artérias, intestinos,
o sangue.
Deus, mão entrada.
A voz encurva-me todo.
Nos fulcros, à mesa, pelo fogo, onde as linhas se encontram nos grandes
objectos do mundo, sento-me,
e alimento-me, e a fruta adoça-se até ao oculto,
e eu sei tudo, e esqueço.
Quis Deus que eu entenebrecesse.
Que se fizesse em mim a abertura por onde saem
madeiras frias, ferros
para os talheres,
carne,
e jarras que trepidam com a força das corolas,
diamantes por onde se bebe.
Deus disse: um idioma que brilhe.
E eu trabalho para este espeço em que ponho a mão a peso
de sangue, o dom
de exercer os instrumentos terrestres.
Se vibram os arcos da respiração,
Se a baforada encrespa o ar quente das linhas.

Herberto Helder

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

POSTAIS SEM SELO


 Escreve-se imaginando um leitor que saiba ler.

Paulo da Costa Domingos

O SOL ABRIU EM ASAS

O sol abriu em asas
um charco de água podre
e uma nuvem surgiu
no silêncio da tarde.

Mas quem se atreve a ver no céu
um pântano a voar?
Quem procura no coração dos anjos
o sangue do lodo?
Quem tem a coragem de gritar aos deuses:
«Vi-os subir dia terra!»?

Ninguém, ninguém...

Todos te contemplam
como se caísses doutro céu mais longe
para chover nas bocas sequiosas
a esperança do pântano esquecido.
E bradar nos vales das montanhas
a cólera do pântano revoltado.
E molhar até aos ossos
a febre dos mendigos
que desprezam os charcos
mas imploram de joelhos,
num latim de lágrimas,
a tua água atravessada de céu.

Ó homens que chorais
perdidos nos desertos
a abrir sulcos de cobra e vento nas areias
com lágrimas de sede.

Prendei, prendei nos astros
os gritos dos relâmpagos
que não cabem nas bocas
dos homens de joelhos.

Olhai, olhai nas nuvens
as águias orgulhosas
a agonizar silêncio
em olhos de humildade.

Tremei, tremei de medo,
a rezar de mãos-postas
às vossas próprias lágrimas de angústia
com asas de tempestade.

Tapai, cegai o sol
Com mãos de névoa e súplica
para que o mistério do sonho
seja maior do que o homem.

E nas noites misteriosas
com esqueletos de frio
enforcados no luar,
lançai às estrelas
as almas transidas
para aquecê-las
em nuvens de cinzas...
… de rojo no chão sem reparar
que, na terra onde caís
a magoar os joelhos numa prece,
crepita uma chama
funda e sombria...
A sarça ardente das coisas vis
que tudo cria…
A pobre fogueira a arder na lama
que nos aquece...
Enquanto de joelhos,
com os olhos a voarem do corpo,
todos procuram no fumo
a explicação do fogo.

Todos, menos eu!

Eu que nas tardes viris do mundo
só olho para o céu
quando o azul é mais profundo
sem ilusões de nuvens.

E se tenho sede
debruço-me no lodo
para beber com orgulho
a água imunda dos lameiros
que andou pelas estrelas
mas voltou à terra
com o sabor a sangue
de todos os astros.

José Gomes Ferreira