sábado, 11 de setembro de 2010

ONZES DE SETEMBRO



Quando do a 11 de Setembro de 2001 um criminoso ataque terrorista, destruiu as duas torres do “World Trade Center”, vitimando cerca de três mil cidadãos de diversas nacionalidades, que acabou por ser o ponto de partido para a invasão e destruição do e com os trágicos resultados que conhecemos, já a minha memória registava um outro 11 de Setembro, o do ano de 1973 no Chile, quando a CIA fomentou apoiou o derrube do governo, democraticamente eleito, do Presidente Salvador Allende, provocando milhares de assassinatos, de desaparecidos, o exílio de mais de duzentos mil chilenos e uma feroz ditadura que durou 17 anos.
Quando ocorreu o 1º aniversário do atentado de Nova Iorque, o produtor francês Alain Brigand, pediu a 11 realizadores, de vários países, para fazerem, sobre a tragédia de Nova Iorque, uma curta-metragem de 11 minutos, nove segundos e um frame.O britânico Ken Roach, aproveitou a sua curta-metragem para colocar Pablo, um exilado chileno, a escrever e a ler uma carta de solidariedade ao povo norte-americano. Este é o começo da carta:

“Queridos mães, pais e amados daqueles que morreram no dia 11 de Setembro em Nova Iorque:Sou chileno e vivo em Londres. Quero dizer-vos que talvez tenhamos algo em comum. Os vossos entes queridos foram assassinados como os meus e na mesma data: 11 de Setembro. Terça-feira.”

E este é o seu final:

“Chamaram-me terrorista e condenaram-me a prisão perpétua sem direito a julgamento ou defesa. Fui libertado cinco anos depois mas tive de deixar o país para não pôr em perigo os meus amigos. Não posso regressar ao Chile embora não pense noutra coisa. O Chile é a minha pátria mas o que seria dos meus filhos? Eles nasceram em Londres. Não os posso condenar ao exílio como eu. Não posso fazê-lo agora mas anseio por voltar.Santo Agostinho disse: “A esperança tem duas belas filhas – a Raiva e a Coragem. Raiva pelo estado das coisas. Coragem para as mudar.”Mães, pais, amados dos que morreram em Nova Iorque:Em breve será o 29º aniversário da nossa terça-feira, dia 11 de Setembro, e o 1º aniversário da vossa. Nós recordar-vos-emos. Espero que vocês se recordem de nós.”
O escritor Don Delillo, sobre o 11 de Setembro de 2001 escreveu um livro a que deu o título: “Um Homem em Queda”:

Deixara de ser uma simples rua, era agora um mundo, um tempo e espaço de cinza a tombar e quase noite. Ele caminhava para norte através do entulho e da lama e havia pessoas que o ultrapassavam a correr, com toalhas encostadas ao rosto ou casacos a cobrir a cabeça. Tapavam a boca com lenços de assoar. Traziam sapatos nas mãos, uma mulher com um sapato em cada mão surgiu a correr e deixou-o para trás. Corriam e estatelavam-se, algumas, confusas e desajeitadas, com destroços a tombarem à sua volta, e havia pessoas a abrigarem-se debaixo dos automóveis.O rugido permanecia no ar, o ronco distorcido da queda. Agora o mundo era assim. O fumo e a cinza rolavam pelas ruas fora e dobravam as esquinas, irrompiam brutalmente às esquinas, ondas sísmicas de fumo com folhas de papel timbrado a surgirem em lampejos, folhas de formato padronizado com bordos cortantes, a pairarem, arrastadas num sopro, coisas inimagináveis na cortina de fumo matinal..
Ele vestia fato e gravata e trazia uma pasta na mão. Tinha vidro no cabelo e no rosto, bolhas marmoreadas de sangue e luz. Deixou para trás um letreiro que dizia Menu Especial Pequeno-almoço e as pessoas passavam por ele a correr, polícias e seguranças a precipitarem-se pela rua fora, a apertarem o punho dos revólveres com a mão para manterem as armas encostadas ao corpo.Era distante e silencioso, o interior das torres, onde ele deveria estar àquela hora. À sua volta é que tudo fervilhava, um carro meio sepultado nos destroços, de vidros estilhaçados e com ruídos a emergir, vozes radiofónicas a arranhar os escombros. Ele via pessoas a gotejar água enquanto corriam, roupas e corpos encharcados dos aspersores de combate a incêndios. Havia sapatos abandonados em plena rua, malas de senhora e computadores portáteis, um homem sentado na berma do passeio a tossir sangue. Copos de plástico saltitavam estranhamente de um lado para o outro.
O mundo era também isto, figuras humanas em janelas trezentos metros acima do chão, a lançarem-se no vazio, e o cheiro nauseabundo do combustível a arder, e o ar rasgado pelas sereias insistentes. O ruído estava em toda a parte para onde as pessoas corriam, o som estratificado a acumular-se em volta delas, e ele afastava-se e ao mesmo tempo mergulhava no seu seio.De repente surgiu outra coisa, exterior a tudo aquilo, não pertencente àquela esfera, lá no alto. Viu-a descer. Uma camisa tombou da muralha altaneira de fumo, uma camisa que se elevou e pairou à luz escassa e depois tornou a cair, soçobrando em direcção ao rio.As pessoas correram e depois estacaram, algumas, ali paradas, a vacilar, tentando recuperar o fôlego no ar ardente, com gritos entrecortados de incredulidade, pragas e urros perdidos, e os papéis que enchiam o ar, contratos, curricula vitae arrastados num instante fugaz, fragmentos intactos de transacções, céleres no vento.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS



Num anúncio publicado na “Vida Mundial” de 14 de Julho de 1970, a “Sabena” sugeria aos portugueses para visitarem, tudo incluído por apenas 9.890$00, os Países de Leste.
Deste anúncio quase tudo desapareceu: os escudos, a “Sabena”, a “Vida Mundial” e aos “países de leste” vão-lhes chamando outras coisas…

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

PRAIA GRANDE

Os nossos dias mais belos não sei quais seriam mas para mim eram os longos dias de Praia Grande, mergulhos e fatos de banho molhados, secos, molhados, secos. A areia muito quente, as manhãs e tardes de neblina, a rebentação, furar ondas, nadar mais longe e mais rápido, comer batatas fritas, bolas de berlim sem creme, atirar areia aos irmãos, a todos os irmãos, embirrar, dormir, enrolar na toalha e as nossas toalhas eram de cores lisas. Azuis, encarnadas, e uma de riscas e outras duas com bolas. O António perdeu umas barbatanas, eu perdia tudo atrás de mim e a mãe besuntava-nos com um óleo que cheirava a praia, a Praia Grande e mais nada. O sol queimava a pele, a pele nunca caía, eu corria para o mar estivesse frio ou calor e agora que tenho frio quase sempre e nem sempre vou à praia, a Praia Grande era o sonho dos mais belos dias das nossas vidas. Quero dizer, da minha vida. Todos os anos confirmávamos a presença das caras familiares. Agora a praia é outra praia igualmente grande e quente e fria mas a Praia Grande, essa, a única praia da nossa infância, essa mesma, a dos mais belos longos dias de Verão é só uma e chama-se agora a da boa memória.

Texto de Autor Desconhecido

Legenda: Imagem da revista “Kapa” s/d

A HORA DAS NOVELAS


Duas canções da Banda Sonora Internacional de "A Guerra dos Sexos", 1981
"Hold Mr 'Till" - Paul Anka
e
"Straight From The Heart" - Bryan Adams

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

COSTA NOVA


Quando era miúdo adorava o Verão. Três meses de mergulhos na Costa Nova, três meses de futeboladas no areal molhado, três meses de namoricos com miúdas que chegavam à praia idas de sítios exóticos com Águeda, Bustos, Palhaça, New Bedford…
Três meses de banhos de mar de manhã, banhos de ria à tarde, de bolachinha americana, caranguejos pescados à linha com um pedaço de bacalhau ou apanhados à mão, três meses de sandes de Tulicreme de vala ou chocolate, de encontros debaixo da bola de Nivea e festinhas nos porões com música dos Genesis, Barclay James Harvest e por aí fora (Atenção: as casas de Ílhavo não têm caves – têm porões com cheiro a salmoura que rangem a noite inteira como um navio numa tempestade). Três meses com o mimo da minha avó, que nos ensinava orações católicas com letras de brincar para enganar os padres.
“Salve Rainha, salta para a vinha, aí vem o dono de uma vergastinha”…”
Terminava o Verão mais moreno e consolado do que um sultão das arábias. Foi na Costa que aprendi as coisas essenciais da vida: desapertar um soutien com a mão esquerda em menos de dez segundos, esmurrar um nariz com um golpe seco, enrolar um charro às escuras e contra o vento, marcar um penalti para a esquerda enquanto se olha para a direita, praguejar em alemão, estrelar um ovo, fintar a GNR, enfiar a isca num anzol sem furar um dedo. Essas coisas.
A minha Costa Nova é a da infância. Está na minha cabeça. Tem manhãs de nevoeiro, a ronca da Barra, chafarizes junto à água, água junto às casas, moliceiros e mercantéis na Ria, barracas de pano às tiras alinhadas até ao mar. Tem amonas e pirolitos, bailes no cinema velho, tendas de circo no largo do mercado, tem cheiro a urze e maraesia. Tem manhãs passadas no mar e tardes na “Biarritz” e amigos tão desinteressados que ainda hoje são meus amigos. A minha Costa Nova representa o doce delírio do primeiro amor.
A actual Costa Nova é só um lugar que tem o mesmo nome."

Rui Baptista, “Público”, s/d

OLHARES

Água e mulher só boa se quer.
Serra da Estrela, Outubro de 1998.

VERGONHOSO!



Simplesmente, vergonhoso.
Não pela derrota de hoje em Oslo, ou pelo empate sexta-feira em Guimarães, mas por tudo o resto.
Nau que não tem comando, arrisca-se a naufragar. O futebol português bateu no fundo.
Se navegar é, realmente, preciso, terão, agora, que construir uma nova nau.
Mas como?
Acima de tudo: com quem?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

A "GUILHAS"



A “Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul” faz hoje 125 anos.
Mas já não comemora o aniversário no edifício em que nasceu.
Os proprietários querem rentabilizar o edifício, ali ao fundo da Av. D. Carlos I , e a “Guilhas”, que tinha anos de rendas em atraso, sofreu uma ordem de despejo.
A Camara Municpal arranjou-lhes um espaço para os lados das Amoreiras, mais concretamente a “Escola Primária nº 13” em Campolide.
Na “Guilherme Cossoul” deram os primeiros passos actores como Raul Solnado, Varela Silva, José Viana, Jacinto Ramos, Henrique Viana, para apenas referir os nomes mais conhecidos. Por ali também andaram futuros encenadores de teatro e realizadores de cinema. No fundo: uma verdadeira escola de arte.
Fale-se também nos bailes da “Guilherme Cossoul”, nos convívios, aos sábados, em que o cabrito assado era feito no forno do padeiro que existia no mesmo edifício.
As reuniões do Sindicato, as Assembleias do MURPI, o Nobre a jogar na equipa de ping-pong, também.
Chamavam-lhe o “Conservatório da Rua da Esperança”.
De um tempo em que as sociedades nos bairros populares representavam um importantíssimo papel na instrução, na educação política dos habitantes do bairros, constituindo-se, num tempo sem televisão, em privilegiados locais de convívio.


AVISO À NAVEGAÇÃO

As imagens que ilustram os nossos textos, estão a ser reproduzidas com deficiências. Logo que o nosso assistente informático regresse de férias, Voltaremos à normalidade.
Os nossos pedidos de desculpa.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

De 9 de Setembro a 31 de Outubro, no Teatro D. Maria II, "Um Eléctrico Chamado Desejo" de Tennessee Williams", encenação de Diogo Infante, com Alexandra Lencastre, Albano Jérónimo, Lucia Moniz, Pedro Laginha.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


De três ou quatro blogues de opinião que, diariamente, frequento, o “Delito de Opinião” encontra-se nesse número.

Este anúncio, da reposição de “O Grande Carnaval” de Billy Wilder, no saudoso "Monumental", e publicado no “Diário Popular" de 27 de Agosto de 1968, aguardava vez de publicação no “É Permitido Afixar Anúncios”.

Sai agora por causa de um brilhante texto que o jornalista Pedro Correia publicou no “Delito de Opinião”.


A cobertura jornalística, principalmente a televisiva, que é feita a casos como o da Casa Pia, coloca-me, amiúde, no limiar do vómito. Não informa e, essencialmente, não dignifica quem a faz e também quem a lê, ou a ela assiste.


“Os programadores televisivos portugueses – e já não falo dos nossos exibidores cinematográficos, pois essa é uma guerra há muito perdida – só podem andar muito distraídos. Se não andassem, já teríamos certamente visto num dos canais de TV em sinal aberto a reposição dessa obra-prima do cinema que é O Grande Carnaval (The Big Carnival), de Billy Wilder. Vem mesmo a propósito dessa história fascinante, que o mundo por estes dias acompanha com atenção, dos 33 mineiros chilenos soterrados a 700 metros de profundidade, no deserto do Atacama.Algo nesta história me faz lembrar irresistivelmente o enredo do filme de Wilder, que tem Kirk Douglas como protagonista. Também no filme um homem fica soterrado no subsolo, vivendo dias de profunda ansiedade na expectativa de ser socorrido. E também esse acontecimento, algures num lugarejo perdido do Novo México, ganha repercussão nacional.O filme funciona como uma poderosa crítica à imprensa sensacionalista no seu afã de encontrar “histórias com interesse humano” que possam vender papel. Douglas é um jornalista sem escrúpulos, chamado Chuck Tatum, que converte o drama do indivíduo encurralado debaixo da terra num grande espectáculo para consumo de massas. Mobiliza todos os meios que imagina para puxar à lágrima fácil e fazer acelerar a pulsação dos leitores. Chegando ao extremo de subornar algumas autoridades para retardar o resgate, de modo a que o filão não se esgote demasiado depressa.A história acaba mal, como cedo pressentimos, neste filme que devia ser visto e debatido em todos os cursos de jornalismo. Porque aqui se traça uma fronteira nítida entre jornalismo como serviço público, que jamais pode existir sem parâmetros éticos, e a contrafacção noticiosa, que manipula factos ao sabor de estratégias de baixo comércio, vigarizando o público.É um filme que interpela a consciência dos jornalistas – e de todos os consumidores de informação. Infelizmente, tornou-se um filme “invisível”: quem nunca o viu numa das antigas “noites de cinema” da RTP ou numa ocasional exibição na Cinemateca passa ao lado desta corrosiva sátira de Wilder, um cineasta que tinha uma visão desencantada do jornalismo. É pena. Porque o Chuck Tatum d’ O Grande Carnaval não passou de moda: ele continua aí, a criar mau “espectáculo” que faz passar por notícias. Se dependessem dele, os mineiros do Atacama tardariam o mais possível a ser socorridos. Para fazer render a história. E apelar mais ao drama. E chafurdar ainda mais na lama.

Imagem: Kirk Douglas em O Grande Carnaval (1951)”

A FESTA DOS PATIÑO


A edição do “Diário Popular" de 7 de Setembro de 1968 refere, largamente, a festa que na véspera fora realizada na quinta do milionário Antenor Patiño.

Nuno Rocha voltou a ser o “Grande Repórter” e Vera Lagoa lá andou “Bisbilhutando” o que deu uma página de crónica ,que assim começava:

“Não posso dizer que começo a escrever às sete da manhã. Não posso dizer que o Sol está a nascer em frente da minha janela. Não. São apenas… seis e meia. E o Sol ainda não nasceu. Por enquanto há só uma faixa vermelha a debruar os telhados. Tenho, portanto uma meia hora de vantagem sobre a reportagem da festa dos Schlumberger”.

Feita a abertura, Vera Lagoa começa por falar da “festa das festas”, a reunião que se relaizara, no dia 5, em casa dos Vinhas.

"E mantenho o que disse. A festa portuguesa do Zambujal será a festa que ninguém esquecerá. Porque foi completamente diferente de todas as outras. Porque muita gente imaginou – e começou logo a especular – que os Vinhas iam fazer uma festa para competir com as dos milionários Schlumberger e Patiño. Conhecendo os Vinhas como conheço não pertenci a esse número.”

Mas como primeira impressão da festa dos Patiño, Vera Lagoa começa por falar do maravilhoso baile escrevendo que foi o “maior baile do ano, não só em Portugal, como no mundo inteiro.”Porque toda a gente que Vera Lagoa ouviu, lhe transmitiram essa opinião.

As cores escolhidas para a decoração do “fabuloso pavilhão” foram o verde e o vermelho. “Julgo que foi uma homenagem a Portugal.”

“A sorte acompanhou os Patiño. A noite esteve quente. Os Patiño mercerama sorte.”

Vera Lagoa regressa aos verdes e vermelhos, porque as toalhas eram inspiradas “nos antigos damascos portugueses. Candeeiros lacados de vermelho. Lagostas armadas em centros de mesa condiziam com os candeeiros. Sim porque não eram bem vermelhos, eram cor de coral. De vermelho, também, eram os vestidos das negras que peretnciam à orquestra de King Curtis.


Muitos mais vermelhos teria para descrever, mas fico-me no vestido da Patou de Vala Byfield. Afinal não pôs o de grés e, portanto não trazia jóias."





"Se no baile dos Schlumberger, havia mulheres lindas bem vestidas, neste ultrapassaram-se. Cada vez mais lindas. Cada vez mais bem vestidas. A primeira que vi, foi justamente a dona da casa Béatrice Patiño vestia de Dior Branco e ouro. Especialmente desenhado para ela.”

Mais mulheres belas, mais elegantes vestidas, "a nossa Amália também de vermelho, o smoking” janitíssimo, com o laço azul-pálido do meu amigo João Minnermann”, os sorrisos de uma noite de Verão do actor Curd Jurgens e a esposa e, se na festa dos Schlumberger a Gina Lollobrigida foi eleita, por Vera Lagoa o patinho feio e antipático, na dos Patinõ a escolha recaiu em Gunther Sachs. “Achei-o detestável. Com uma cara balofa, um ara convencidíssimo, etc.. Os pplay-boys cansam. Cansam-se a si e aos outros. Afondo de Hoenelche também não estva famoso. Quanto ao Principe Orsini… Talvez seja melhor não falar nele. Acheio-o uma decepção."

E, quase em final de crónica, Vera Lagoa confidencia-nos que dançou com o Zé Palha, o Henrique Salgado e como ficou feliz por saber que “as flores foram das “Flores da Romeira, da Avenida de Roma”, que Patiño comprou 1 200 garrafas de champanhe em Portugal, que deu trabalho a centenas de pessoas. Que houve dias em que trabalharam para as festas duzentos e cinquenta portugueses. De ver a alegria verdadeira, autêntica dos convidados. Mas do que maias gostei, foi de ter conseguido um rolo inteiro de fotografias".

E o remate final da crónica é este:


“A festa dos Patiño” foi um êxito. Os Patiños mereceram o êxito”Mas não me vou embora sem vos dizer que, através da crónica do Nuno Rocha, fiquei a saber que o tal Gunther Grass que Vera Lagoa achou detestável era, nem mais nem menos, que o último marido de Brigitte Bardot, que toda a noite dançou com uma loira de pouco mais de vinte anos e com aspectro nórdico.

Já agora: a acrtiz Zsa Zsa Gabor, que se dizia não ter sido convidada por nenhum dos milionários, apareceu em Lisboa convidadad por Antenor Patiño.

Se no inico deste disparate todo, não lembrava por que guardara toda a esta papelada, chegado aqui também não sei, por que perdi todos este tempo a desfilar banalidades de milionários por Agosto de 1968, tempo em que Portugal vivia uma feroz ditadura.

Qualquer coisa para meditar nas noites de inverno que se vão aproximando…

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

OLHAR AS CAPAS


A Casa e o Cheiro dos Livros

Maria do Rosário Pedreira
Capa: Rogério Petinga
Gótica, Lisboa, Maio de 2007

                                                             para João Guimarães

Os amantes aparecem no verão, quando os amigos partiram
para o sul à sua procura, deixando um lugar vago
à mesa, um bilhete entalado na porta, as plantas,
o canário, um beijo e um livro emprestado: a memória
das suas biografias incompletas. Os amigos
desaparecem em agosto. Consomem-nos as labaredas do sol
e os amantes que chegam ao fim da tarde
jantam e de manhã ajudam a regar as raízes das avencas
que os amigos confiaram até setembro, quando regressam
trazem saudades e um romance novo debaixo da língua.
Levam um beijo, os vasos, as gaiolas e os amantes
deixam um lugar vago na memória, cabelos na almofada,
uma carta, desculpas, e um livro de cabeceira que os
amigos lêem, pacientes, ocupando o seu lugar à mesa.

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...




Este é o "Transpraia" que, desde o Verão de 1960, faz o trajecto entre a Costa da Caparica e a Fonte da Telha, numa extensão de 9 kms.

Ao longo dos anos tem vindo a perder passageiros e no final de cada época balnear, a empresa que gere o negócio, debita o mesmo discurso: que para o ano o “Transpraia” corre o risco de deixar de circular.

Para o ano logo se verá!

Bom seria que fossem pensando na ideia simples - digo eu, que é simples! - de baixar o preço do bilhete. Talvez os comboios circulassem com mais passageiros!...

sábado, 4 de setembro de 2010

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Necessitei de consultar “É Proibido Apontar” de José Rodrigues Migueis”.

Fui dar com uma série de antigos bilhetes da CARRIS a fazer de marcadores.

Este é um desses bilhetes. Como eram iguais, tanto podia ser de autocarro, os verdes de um ou dois andares, como de carro eléctrico, simples ou com atrelado, os célebres amarelos da CARRIS, de que apenas existem três ou quatro carreiras. A mais conhecida é a do “28” que liga a Graça aos Prazeres.
Estes são alguns dos conselhos que se encontravam impressos nas costas dos bilhetes:

“Quando se apear deixe seguir o carro antes de atravessar a rua.”

“Ao aguardar transporte faça uso do seu direito de precedência. Respeite o dos outros.”


Lembro-me ainda do aviso colocado nas paredes do eléctrico: “Quem conversa com o guarda-freio torna-se moralmente responsável pelos desastres motivados por distracção.”.

Ou ainda: “Se a janela o incomoda peça ao guarda-freio que a feche.”

A FESTA DOS SCHLUMBERGER


A edição do “Diário Popular” de 5 de Setembro de 1968, traz larga reportagem sobre a festa dos Schlumberger.

Nuno Rocha foi o “grande repórter” e Vera Lagoa, “bisbilhutando”, assina uma página inteira, que tem este começo:

“São sete horas da manhã. Acabo de chegar a casa, vinda da quinta do Vinagre. Vinda da festa que os Schlumberger ofereceram. Da festa para a qual foram convidadas celebridades internacionais. Para a qual foram convidadas celebridades nacionais.
“Podia começar por dizer que o Sol começa a nascer mesmo em frente dos meus olhos, mesmo em frente da minha janela, mesmo em frente da minha máquina de escrever. Podia. Mas já toda a gente conhece o nascer do Sol. Ninguém está interessado em saber o que avisto da minha janela. A verdade é que se espera que conte a festa. Mas também ninguém tem prazer em se sentar à máquina às sete da manhã para descrever flores, vestidos, jóias, ceias, orquestras. Sinceramente, neste momento, com o tal Sol a surgir, apetecia-me muito mais falar dele do que da noite que acabou. Mas como não é oportuno falar do Sol que a todos aquece, falarei da noite que coube aos escolhidos.”
Mais à frente, Vera Lagoa cronica que um cabeleireiro trouxe para Portugal vinte quilos de postiços e atalha: “Ora eu peguei nos meus quarenta e sete gramas de postiço platinado e fui pentear-me à Odete, do Cabeleireiro ro Amaro, fui a correr comprar uns sapatos na Lúcia, maquilhei-me na Loretti e vesti-me na Carmen Modas. Tudo nacional. As peles? Essas eram também nacionais, mas emprestadas. Fiz um vistão.”


Há-de depois confessar que tem “um bloco cheio de apontamentos, mas nem sequer tenho coragem para os consultar. Vai de cor. Talvez resulte.”


Não resultou muito bem.




Quis lembrar-se da cor do sari da Begum Aga Khan, mas perdeu-se. “Talvez fosse cor de morango. Talvez fosse outro cor de rosa" e, lamentavelmente, acabou por não ver a Mary Espírito Santo, “que foi uma das primeiras a chegar. Mas disseram-me que estava de branco e muito elegante”.

Os nomes de um ror de gente invadem a prosa de Vera Lagoa e aproveita para lembrar que a dona da casa tinha dito que “não consentiria pijamas, mas muitas calças e bermudas com túnicas apareceram.”, mas como eram “Tão bonitos ninguém se opôs a que entrassem. Apenas uma senhora foi mandada para trás. Vinha de vestido curto e casaco de fazenda. Para um baile de gala, de facto, era demais."


Mais gente, muita gente,: “Audrey Hepburn foi eleita a mais simpática. Dançou com toda a gente, foi muitíssimo gentil, deixou a melhor das interpretações. Mas Gina Lolobrigida estava pirosíssima. Sempre a achei assim, mas desta vez exorbitou. Foi, por unanimidade, eleita a mais antipática, pois recusou-se a dançar com quem não conhecia. Num baile particular, devia dançar com toda a gente. Além disso, parecia, como de costume, um reclame a produtos para desenvolvimento de certas glândulas… Também era horroroso o homem de bigode que a acompanhava.”


Chegada aqui, Vera Lagoa, está cansada.


“E vou despedir-me. Devo dizer bom dia ou boa-noite? Não sei. Por isso, o mais certo, o mais correcto, é dizer: “Até amanhã.”

(Para continuar).

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

OLHARES



Frase na Rua Conde de Sabugosa, ali à Avenida de Roma, mesmo no edificio do "Restaurante Dom Feijão".

DA MINHA GALERIA

A minha homenagem ao grande José Torres.

O BOM GIGANTE


Já não vi jogar nem o Julinho, nem o Peyroteo que o meu pai considerava excelentes avançados-centro, como então se dizia. Mas vi José Águas, ícone da minha juventude, o elegante Zé Águas e José Torres, o desengonçado Zé Torres, que, hoje, aos 71 anos, morreu com Alzheimer.

Se, porventura, existisse um protótipo de jogador de futebol, José Torres não entraria nesse número. Mas era um jogador de uma utilidade espantosa, dedicado ,e de uma humildade que superavam largamente as suas desengonçadas passadas.


Dignificou toas as camisolas que envergou.

Ao serviço do Benfica marcou 226 golos e na época 1962/1963 foi “Bola de Prata” com 26 golos marcados, foi nove vezes campeão nacional pelo Benfica, seis Taças de Portugal conquistadas, esteve em três finais europeias, fez parte da selecção nacional que em 1966 disputou o Mundial em Inglaterra, como seleccionador apurou Portugal para o Mundial do México - “deixem-me sonhar”, disse ele, quando tudo parecia perdido até àquele louco pontapé do Carlos Manuel.

Recordo os seus saltos, de braços no ar, cada vez que metia um golo, uma autêntica alegria de menino.

Em 1980, envergando a camisola do Estoril, pôs um ponto final na sua carreira de futebolista. Tinha 42 anos.

José Torres deu tudo o que tinha ao futebol, mas este não lhe pagou com a mesma moeda.

Os últimos anos passou-os em casa, anos muito difíceis, não só pela doença, que começou a revelar-se em 2000, mas também por problemas financeiros. José Torres, só quando chegou à idade da reforma, se apercebeu de que os únicos descontos em seu nome, eram do tempo em que foi aprendiz de serralheiro, antes de ser futebolista. Agora, na hora da sua morte, são numerosos e fáceis os elogios, mas quando José Torres necessitou de apoio nem a Federação nem o Benfica lhe prestaram a necessária ajuda.

“Neste momento de profunda tristeza para os adeptos de futebol, em particular para os benfiquistas, o Sport Lisboa e Benfica endereça as mais sentidas condolências à família e amigos de José Torres”, pode ler-se na nota publicada no site oficial do clube.

Words, words, words.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

AS FESTAS DOS MILIONÁRIOS



Dou um salto nas edições do “Diário Popular”, para me deter na do dia 18 e ficarmos a saber que “dos quarenta vestidos, adquiridos, com vista às festas, por “Carmen Modas”, no estrangeiro e assinados pelos nomes mais famosos da alta-costura francesa, restam apenas quatro". E também, como publicidade encapotada notícia, sabia-se que “durante cada um dos banquetes – nas quintas do Vinagre e de Alcoitão – serão servidas 1500 garrafas de Champanhe “Perriet-Jouet”, uma marca pouco comercial mas muito requisitadas pelas grandes famílias europeias. E 600 garrafas de “White Horse” e “Ballantines”, fornecidas pela casa J.A. da Costa Pina".

Ah!, e parece que os duques de Windsor sempre vêm às festas.


Anunciada desde o primeiro dia, ficava-se a saber que “talvez” a actriz Zsa Zsa Gabor não se encontra convidada para qualquer das festas. O jornalista completa a informação:

“Segundo um “expert” em assuntos mundanos internacionais, Zsa Zsa Gabor não costuma esperar os convites: ela própria faz-se convidada das grandes recepções. Irradiante de beleza, Zsa Zsa Gabor entende que ela própria faz a festa.”

Mais um salto e estamos com a edição do “Diário Popular” de 26 de Agosto, para saber que a Orquestra de Guitarras de Raul Nery foi contratada para, juntamente com orquestras vindas das três Américas, abrilhantar a festa dos Schlumberger, que Paul Getty, o homem mais rico do mundo, conhecido pelo rei do petróleo, também vem a Portugal e ainda: “Foi o circunspecto “Times” de Londres, que deu a notícia: a duquesa de Windsor que vem a Lisboa, com seu marido assistir às recepções de Colares e Alcoitão, já recusou três vestidos para aquelas festas… A duquesa que é muito exigente em matéria de “toilettes”, não gostou de nenhum dos modelos que famosos costureiros lhe apresentaram até agora,”


Isto a 26, mas a 28 de Agosto o “Diário Popular” colocava a seguinte notícia:


“O duque e a duquesa de Windor já não vêm a Portugal assistir às festas de Colares e Alcoitão. Em telegrama ontem recebido em Lisboa, os duques anunciaram a impossibilidade da sua presença, uma vez que se encontram de luto devido à morte de sua cunhada, a duquesa de Kente”.

Estamos chegados a 2 de Setembro.


Os Schlumberger dão uma conferência de imprensa. Segundo o “Diário Popular", Maria Leonor fez estas perguntas:
“- Quem fez o seu vestido?
-Gyvenchi. É o meu costureiro habitual.
- De que cor é?
- Não posso dizer… é um segredo que todas as mulheres gostam de guardar, mas posso revelar-lhe que é simples e de cor clara.
- Quem a vai pentear?
- Alexandre.
.- Há exigências quanto aos trajos para a recepção?
- Sim, todas as senhoras deverão trazer vestido comprido e não consentirei a entrada a pessoas com “pijama-party”, como vem sucedendo ultimamente. Os homens envergarão “smoking”.


(Para continuar)

DO BAÚ DOS POSTAIS

"Os esplendorosos lagos da Croacia".

OS CLÁSSICOS DO MEU PAI


Quando iniciei “Os Clássicos do Meu Pai”, fui dizendo que, para além da Música Clássica, as canções napolitanas, música francesa, música da América Latina, estavam dentro das suas músicas favoritos.

Gostava imenso de Edith Piaf.

Lembro-me que o primeiro disco que comprou da Diva, era um EP que tinha “Padam, Padam”. O disco perdeu-se num qualquer lapso de tempo.

Era três anos mais novo que o “pardal” e admirava-lhe, para além das canções, a boémia, o gosto e a luta pelos simples, os falhados, os humildes, a resistência, no fundo, os conceitos, as ideias da Revolução Francesa.

Neste disco estão as canções da Edith PIaf de que mais gostava. Faltam “Padam, Padam" e “Non, Je Ne Regrette Rien”, para existir a cereja no topo do bolo.

Ambos tiveram uma infância difícil e seguiu-lhe os passos, as canções, os amores e desamores. Nunca perdoou o que Yves Montand fez à Piaf, ele que também gostava de Montand.

Lembro-me o quanto a morte de Edith Piaf o entristeceu. 

Considerava-a uma lutadora, e por si terá pensado que gente desta nunca morre – “La mort, ça n’existe pas”.

Nessa noite a garrafa de “Johnny Walker”, rótulo vermelho, ficou vazia, ele que nunca terminava as garrafas.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

FESTINS NUM PAÍS SITIADO


Algum, possivelmente existia, mas, a esta distância, a memória que, há muito deixou de ser de elefante, não consegue vislumbrar qual.

Já que a papelada existe e, antes de seguir para a reciclagem, talvez não fosse despropósito dar conta, a título de mera curiosidade,do que para o “Diário Popular” - e não só! - foram motivo para páginas e páginas e desses “excitantes” dias.


Na sua edição de 10 de Agosto de 1968 o “Diário Popular” revelava, a toda a largura da sua 1ª página, que “importantes figuras do Gotha mundial (personalidades de “sangue azul”), os nomes mais sonantes da política, das finanças e da vida mundana, vêm a Portugal nos princípios de Setembro assistir a duas grandes festas: a primeira, no dia 4, na Quinta do Vinagre, em Colares,,onde reside o milionário Pierre Schlemberger; a segunda no dia 6, em Alcoitão, na quinta do milionário boliviano Antenor Patiño. As atenções da vida mundana internacional vão estar presas nessa altura do que se passar em Portugal.”


No Portugal de 1968 vivia-se em ditadura, jovens combatiam numa monstruosa guerra em África, existia a censura, uma feroz repressão, uma elevada taxa de analfabetismo, baixos salários , miséria e fome.


Um país amordaçado, sitiado, vigiado pelo medo.

A um povo triste e amorfo, falavam-lhe de festas de milionários que, segundo o "Diário Popular", eram "grandes amigos de Popular".

Esta é a 7ª página da edição do "Diário Popular" de 13 de Agosto de 1968:

Repare-se no pormenor de, ao lado das notícias sobre as festas milionárias, se ler um “Comunicado das Forças Armadas” dando conta da morte, em combate, de militares em Angola e Guiné.

Distracção? Habilidade da redacção, as tais entrelinhas para fugir à censura, colocando notícias em contraste?

Na edição de 14 de Agosto Vera Lagoa revelava quem era Madame Schlumberger”e deste modo terminava a “Bisbilhotice”:

“Não a vejo há muito tempo. Mas creio que ela continua a ser a mulher inteligente e bonita que eu conheci. De qualquer forma, ela é um título de orgulho para as mulheres portuguesas, agora que nos meios mundanos de todo o mundo, se fala na sua festa de 4 de Setembro.”Também ficávamos a saber que o fardamento escolhido pela Madame Schlumberger para o pessoal , era azul com botões de prata. Mais:que os Duques de Windsor já não vinham, desconhecendo-se os motivos da desistência . “A notícia causou compreensível decepção nos meios ligados às duas festas pois os Duques de Windsor eram os convidados de maior projecção que se deslocavam a Portugal.”Com um sugestivo título “Não Há Duas Sem Três”, o “Diário Popular”de 16 de Agosto dava a conhecer que “haverá uma terceira grande festa nos princípios de Setembro: realiza-se na quinta do industrial português dr. Manuel Vinhas, no próximo dia 5, no Zambujal. Após uma “tenta”, às 17,30 horas, seguir-se- á um jantar.” Estão convidados “as mais representativas individualidades portuguesas”, bem como os restos de convidados estrangeiros que sobrarem da festa dos Schlumberver e Patiño.

Dava-se nota de que “Madame Schlumberger tem-se mostrado “muito desagrada pelo interesse que a imprensa está a a dedicar à sua festa.” Mas que já dera convites para os repórteres e fotógrafos da revista “Vogue”.

Todos os outros ficam à porta a ver os convidados a passar.

(Para continuar)

O CONTADOR DE GAIVOTAS



"Ofício difícil, este de vaguear pela praia.
Aceitei uma vaga azul,
a sul
do pararelo do Mú.
Faço-o com empenho,
mas não é fácil.
Sem horários,
o tempo é tecido nas marés,
pela dança do sol com a lua.
O recenseamento das gaivotas
é registado com rigor no quadro de areia da praia.
Mas isso tem os seus preceitos e não pode ser em qualquer sítio.
Tem que ser naquela zona onde o mar vem ler.
Desconheço o que acontece depois,
mas seguramente o mar guardará tudo na memória
em água e sal
para eterna conservação.
Tenho ainda outra missão
e dela só posso falar muito genericamente
por causa do segredo profissional.
Guardo pares de pegadas
Deixadas muito paralelamente
na areia molhada de quando a maré se agacha.
A seguir o mar, na sua regularidade,
Recolhe-as e, depois de tratada a informação,
Permite a leitura aos interessados.
É por isso que os amantes procuram a beira-mar,
sobretudo naquela hora mágica que antecede o crepúsculo.
E quando dizem “amo-te” é porque se asseguraram
que isso está escrito lá no fundo,
na horizontal do mar,
só para quem sabe ler na água."


Gregório Salvaterra, contador de gaivotas e poeta público, pode ser encontrado aqui.

Legenda: Imagem encontrada aqui.