domingo, 25 de abril de 2021
E O 25 DE ABRIL TAMBÉM
O 25
de Abril foi antes de eu nascer. Foi uma revolução muito bonita, sem mortos.
Deitaram fora o governo velho e fizeram um novo. O meu pai diz que o 25 de
Abril é como eu: quando nasci dei muita alegria aos meus pais, mas agora eu
faço aborrecê-los. Quando for mais velho vou ter juízo. E o 25 de Abril também.
Texto de um aluno da Escola Secundária de Paços de Ferreira, no 10º aniversário
do 25 de Abril.
NOTÍCIAS DO CIRCO
Esta gente das direitas adora
meter a colherada em tudo o que eles sentem estarem em causa as
liberdades, a democracia, não sabendo sequer o que estas coisas sejam.
Por causa da pandemia, no ano
passado não houve desfile do 25 de Abril, mas agora, a Associação 25 de Abril entendeu
que havia, com algumas restrições, condições para que isso acontecesse.
Por picuinhices que não consegui
entender, a rapaziada da Iniciativa Liberal quis participar no desfile mas,
segundo Vasco Lourenço, as inscrições já tinham fechado.
Não, o 25 de Abril não tem donos,
tem apenas gente que gosta de se olhar, mandar duas ou três punhadas e gritar
que a data será para sempre.
Escapam-me, completamente, as razões que a rapaziada direitista encontrou para querer desfilar, hoje, na Avenida.
Coisas de liberais.
Porque eles são do 25 de
Novembro.
E mistérios dos mistérios, os
direitistas nunca organizaram manifestação comemorativa desse dia e,
evidentemente, não pelas razões determinadas, em tempo exacto, por Maria Velho
da Costa: ESTE DIA NÃO!
Legenda: imagem tirada de OTempo das Cerejas.
EI-LA A CIDADE
Ei-la a cidade envolta em dor e bruma
Ei-la na escuridão serena resistindo
Hierática Estranha Sem medida
Maior do que a tortura ou o assassínio
Ei-la virando-se na cama
Ei-la em trajes menores Ei-la furtiva
seminua sensual e no entanto pura
Noiva e mãe de três filhos Namorada
e prostituta Virgem desamparada
e mundana infiel Corpo solar desejo
amor logro bordel soluço de suicida
Ei-la capaz de tudo Ei-la ela mesma
em praças ruas becos boîtes e monumentos
Ei-la ocupada inerte desventrada
com música de tiros e chicote
Ei-la Santa-Maria-Ateia maculada
ignóbil e miraculosamente erecta
branca quase feliz quase feliz
Ei-la resplendente de amor teoria
e prática nocturna mistério acontecido
doce habitável ah sobretudo habitável
vestido acolhedor café à noite
a voz distante e amada ao telefone
Ei-la a que fica e sobrevive
e reflecte neons nos lagos do jardim
mesmo quando partimos e as lágrimas inúteis
roçam de espanto a solidão crescendo
Ei-la a cidade prometida
esperamos por ela tanto tempo
que tememos olhar o seu perfil exacto
flor da raiz que somos
meu amor
Daniel Filipe em A Invenção do Amor e Outros Poemas
Legenda: fotografia de Filipe
Jorge em Lisboa Vista do Céu
sábado, 24 de abril de 2021
NO IMPONDERÁVEL AZUL CELESTE
É, andei por aí. Com gente,
procurando gente, pontes e vales, tem siso assim esta vida. E houve aquele dia,
25 de Abril de 1974.
Dizem que por um Abril houve uma
revolução, outros dizem que houve um golpe de estado, outros ainda que houve
uma abrilada, sucederam coisas gritadas nas ruas, outras soavam nas sombras
clandestinas.
Na escola disseram aos miúdos
que tinham que ir para casa, estava a acontecer qualquer coisa em Lisboa.
Que comemoramos no domingo? Que
resta daquele dia?
O chefe de redacção telefonou ao
repórter, gritou-lhe: Salta da cama. A Revolução está na rua e é precisos
escrevê-la!
Isso é passado, é tão passado
que eu já não comemoro o 25 de Abril. Sentir-me-ia um irresponsável celebrando
qualquer coisa de que eu não posso ver nenhum sinal, porque tudo o que o 25 de
Abril me trouxe.
Podemos saudar o desespero que
nos invadiu perante algo que falhou?
Estragaram a tua festa pá!,
cantaram no outro lado do Atlântico.
Houve quem dissesse que as
revoluções são sonhadas por idealistas e realizadas por fanáticos, e quem delas
se aproveita são os oportunistas de todas as espécies.
O 25 de Abril é um dia e são
dias. É daquelas datas que se constelam que estão antes de hoje, que hoje ecoam
ainda, e que tremeluzirão no depois de hoje.
Quase sem darmos por isso,
milhares de pessoas invadiram as ruas, ofereceram pão e cravos aos soldados, deram
as mãos, sorriram, dos olhos saltavam sonhos e esperanças.
Alguém perguntou como era possível
tanta e tanta gente quando meses antes, semanas antes, dias antes, eram tão
poucos aqueles que apareciam para escrever palavras de ordem nas paredes da
cidade, colar cartazes, distribuir uns panfletos impressos a stencil…
Será a memória curta? Apaga-se
com facilidade?
O apagamento de memória é
chocante
Deste dia até ao 1º de Maio, é
provável que muitos devem ter dormido, mas não se lembram bem. Uma semana de
loucura já ninguém me tira, posso não ser feliz mas poucos chegaram tão perto
disso a que chamam felicidade.
É preciso ter vivido os anos
terríveis, o tempo do desprezo, um tempo de ratazanas, para que aquele dia
tivesse sido o que foi, um navio de sonho, uma nave de loucos, protagonistas
duma enorme esperança, depois figurantes de um grande desencanto.
Terá sido assim há tanto tempo?
A ditadura acabou por ser
derrubada por militares que antes desprezávamos.
Dezassete horas e 45 minutos bastaram para abater um regime que oprimiu o povo
português durante 47 anos, 10 meses, 34 dias e algumas horas.
Teremos feito tudo para que as
novas gerações fossem mais felizes?
Vale a pena assinalar a data quando
nos esquecemos de ensinar a importância que aquele dia nos trouxe? Olham-se as
pessoas de hoje, os jovens de hoje, formam um grupo largo e variado mas,
olhando bem, estamos todos muito mal no retrato de conjunto…
Algures, numa dobra da história,
alguma coisa falhou. O cantor, de viola às costas, acabou por dizer que houve
alguém que se enganou.
A culpa é de todos, a culpa não
é de ninguém.
Naqueles dias, quase poderíamos
dizer que a paisagem mudara para sempre.
As paisagens até podem mudar, o
resto… o resto… o resto… é uma chatice… um busílis de questão…
O escritor perguntava e
respondia: para que serve a utopia? Serve para que eu não deixe de caminhar.
Um dia voltaremos a encontrar-nos todos no imponderável azul celeste.
E recomeçamos a busca dum país
liberto, duma vida limpa e dum tempo justo.
Mas será que ainda verei alguém
desenhar os nomes daqueles que, na sombra, nos lixaram a festa?
Montagem sobre textos de:
Jorge Silva Melo, Virgílio Martinho, Baptista-Bastos,
José Saramago, Rui Cardoso Martins, Chico Buarque, Manuel António Pina, Manuel
Gusmão, Rodrigues da Silva, João Gobern, José Mário Branco, Eduardo Galeano, Mário
Dionísio, Cristina Carvalho, Sophia de Mello Breyner Andresen.
Legenda: pintura de Vieira da Silva
ALGUNS DIAS ANTES DE ABRIL
Quando o país bocejante se deitou, só alguns dos seus habitantes, muito poucos, sabiam que esta não seria uma noite igual a tantas outras, seria mesmo uma noite invulgar.
1.
Os espectadores que assistiram, no Coliseu, à representação da Traviata, ao saírem, já João Paulo Dinis, na emissão do Rádio Peninsular dos Emissores Associados de Lisboa, tinha enviado o primeiro sinal para os militares saírem dos quarteis: Faltam cinco minutos para as 23,00 horas. Convosco, Paulo de Carvalho com o Eurofestival 74 – E Depois do Adeus.
No Diário de Notícias pode ler-se que um Coliseu repleto de público,
assistiu a uma récita da Traviata com Alfred Kraus, que consagrou Joan
Sutherland, que a récita terminou em delírio colectivo, com ovações
intermináveis e inúmeros cravos atirados das frisas.
2.
O Diário de Notícias publica na 1ª página um editorial com o título: Balas de Papel. Terminava assim:
Só nós, Portugueses, somos senhores do nosso destino. E estamos tão
estoicamente empenhados na defesa dos lusos territórios ultramarinos, como
preparados para enfrentar as batalhas de opinião, desencadeadas – sabe-se lá –
por que interesses feridos ou conveniências não acauteladas…
Parece-nos, entretanto, oportuno prevenir os franco-atiradores dispersos pelos
países amigos, de que não receamos as balas de papel – como não tememos as
outras. Elas não conseguirão desalojar-nos das atitudes assumidas e das posições
tomadas.
3.
Pela manhã, Otelo Saraiva de Carvalho desloca-se à estação dos CTT da
Estefânia, em frente à Academia Militar, de onde envia para os Açores o
telegrama codificado que combinara com Melo Antunes, com a data e a hora do
golpe: Tia Aurora parte Estados Unidos 250300. Primo António.
4.
Numa conversa telefónica com um dos seus ministros, que lhe dá conta dá conta de movimentações militares, Marcelo Caetano terá dito: Isso é mais um boato desgastante.
Marcelo Caetano no seu Depoimento, publicado no exílio no Brasil,
escreve que a
Revolução veio efectivamente de surpresa.
5.
Para o dia 25, os serviços de meteorologia previam: Céu pouco nublado, por
vezes muito nublado; vento fraco de norte; possibilidade de trovoada e
aguaceiros.
6.
Nos primeiros vinte minutos do novo dia, no programa Limite, transmitido
pelos emissores da Rádio Renascença, em fundo começam a ouvir-se, no empedrado
da estrada, aqueles passos cadenciados e o locutor Leite Vasconcelos lê a
quadra de José Afonso que declara que o povo é quem mais ordena, dentro de ti ó cidade.
7.
O navio de sonhos largava do
cais de silêncio rumo à estrela polar.
Saberemos, depois, que vamos poder sorrir sem amargura.
8.
Chegara o Dia das Surpresas!
POR DETERMINAÇÃO DE SUA EXCELÊNCIA O MINISTRO
Possivelmente o último relatório
da PSP, enviado para a PIDE, em que são relatados ocorrências subversivas, desacatos
políticos e o que a estupidez policial entendia denunciar, tivesse, ou não,
interesse para a perseguição política a cidadãos.
«Nas passagens subterrâneas da
estação do Metropolitano em Entrecampos foram espalhados milhares de exemplares
de pequenos panfletos da autoria da CDE com os seguintes dizeres:
“POR CULPA DESTE GOVERNO TEMOS
SALÁRIOS DE FOME E PREÇOS DE RICO! SÓ A FORÇA DO POVO PODE IMPEDIR O AGRAVAMENTO
DO CUSTO DE VIDA!”
É A MEDO
É a
medo que escrevo. A medo penso,
a medo sofro e empreendo e calo.
A medo peso os termos quando falo
A medo me renego, me convenço
A medo amo. A medo me pertenço.
A medo repouso no intervalo
de outros medos. A medo é que resvalo
o corpo escrutador, inquieto, tenso.
A medo durmo. A medo acordo. A medo
invento. A medo passo, a medo fico.
A medo meço o pobre, meço o rico.
A medo guardo confissão, segredo.
Dúvida, fé. A medo. A medo tudo.
Que já me querem cego, surdo, mudo.
José Cutileiro
sexta-feira, 23 de abril de 2021
PUNHAIS DE VINGANÇA MIÚDA
28 de Junho de
1966
Apreensão do último livro de versos da
Natália Correia: A Lira e o Vinho.
-Porquê – perguntámos, pasmados.
E o Nikias, no Martinho, explicou:
- Não passa de um reflexo do escândalo
da publicação da Antologia da Poesia Erótica e Satírica (colectânea organizada
e prefaciada pela Natália – o que lhe valeu um processo de ódio na Boa Hora).
Isto é: a Censura já não serve apenas
para os imbecis nos contagiarem de estupidez baixa.
Também serve de punhal de vingança
miúda.
José Gomes Ferreira em Dias Comuns Vol. I
ALGUNS DIAS ANTES DE ABRIL
23 de Abril de 1974
Sob a presidência do Prof. Doutor Marcelo Caetano, reuniu, hoje, em São Bento,
o Conselho de Ministros.
O Conselho ocupou-se largamente da conjuntura económica do País e da
necessidade de acompanhar a marcha da inflação, nos aspectos que não possam ser
totalmente travados, de modo a combater a especulação e a moderar quanto
possível a alta dos preços.
Iniciou também o estudo de providências sobre a situação do funcionalismo.
Os trabalhos prosseguirão sobre estas matérias em reuniões do Conselho de
Ministros para Assuntos Económicos, até estarem prontos os diplomas a aprovar.
1.
Foi tornado público um aviso dirigido a todos os mancebos que se apresentem às
Juntas de Recrutamento Militar, no ano em curso de que devem fazê-lo
acompanhados dos documentos necessários e obrigatórios para a sua identificação
e regular funcionamento das Juntas, nomeadamente o bilhete de identidade, a
cédula de recenseamento, certificados de habilitações literárias e carteiras
profissionais ou sindicais.
2.
O serviço de Informação Pública das Forças Armadas anuncia a morte de dez
militares: quatro na Guiné e três em Moçambique, em combates, e três por
doença em Angola.
3.
Foi adiado para 15 de Maio, por falta de testemunhas, o julgamento de Maria
Helena Vidal, acusada de ter feito parte do comando que, em 10 de Novembro de
1961 assaltou um avião da TAP, que fazia a carreira Casablanca/Lisboa, espalhando
panfletos contra o regime, sob Faro, Beja, Barreiro e Lisboa. Outros implicados
no assalto foram Palma Inácio e Camilo Mortágua.
4.
Em Espanha começa a Vuelta com a presença de ciclistas portugueses,
entre os quais Joaquim Agostinho.
5.
Diniz de Almeida, no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães,
confirma o início das operações:
1 – A confirmação do início das
operações é determinada por qualquer dos seguintes sinais indicados nos
parágrafos 2 e 3.
2 – Às vinte e duas horas e
cinquenta e cinco minutos (22,55 horas) do dia 24 de Abril de 1974 será
transmitida pelos «Emissores Associados de Lisboa» uma frase indicando que
faltam cinco minutos para as vinte e três (23 horas) e anunciando o disco de
Paulo de carvalho, «E Depois do Adeus».
3 – Entre as zero horas e a uma hora (1 hora) do dia 25 de Abril de
1974, através do programa da Rádio Renascença será transmitida a seguinte
sequência:
a) Leitura da estrofe do poema «Grândola, Vila
Morena».
Grândola Vila Morena
Terra da Fraternidade
O povo é quem mais ordena
Dentro de ti, ó cidade.
b) Transmissão da canção do mesmo nome,
interpretada por José Afonso.
6.
Este EP de Samuel também deu
muitas voltas e voltas.
No país cinzento da guerra colonial, da PIDE, da Censura, só tinha licença de cantigueiro quem fosse o bobo do rei.
Muitos recusaram esse papel e ajudaram-nos a acreditar que a Liberdade era
possível, que não era apenas uma ideia cravada no calendário, não declarado,
dos nossos sonhos.
Tudo era proibido, menos sonhar.
Os cantigueiros ajudaram-nos a palmilhar caminhos, muitos desses caminhos eram
picadas.
E também se podia morrer pelo sonho que sonhávamos.
O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?
Diálogo do
filme Erin Brockovich de Steven Soderbergh.
Julia Roberts
para Albert Finney:
«Vocês,
advogados, só complicam situações que não são complicadas. Sabe porque é que as
pessoas acham os advogados uns sacanas? Porque o são mesmo!»
QUANDO CHEGOU O CANSAÇO...
No poema que hoje se publica, José Carlos Vasconcelos lembra os juízes dos tribunais plenários,
e pergunta: que direis no dia do vosso julgamento?
Nada disseram
porque deles não se fez qualquer julgamento.
Deles, dos
pides, de todas as ratazanas que, durante, perto de meio século, nos infernizaram
a vida.
Provavelmente,
muitos deles continuaram, não naquelas funções, mas noutras, as suas vidinhas
na justiça. Hoje, por ventura, ainda gozam chorudas reformas, bons carros,
casas na praia, nada lhes perturba o sono pela simples razão de não serem gente…
apenas isso…
Como puderam
estes abutres julgar homens?
Homens que
apenas lutavam por um país limpo.
Que foi feito
dos abutres?
Sim, somos homens
de justiça e não de vingança, mas foi um crime deixá-los impunes!
As sombras que
envolvem, hoje, a nossa justiça, tiveram gente desta como eventuais mentores,
disciplinadores.
A perpetuação
da ditadura verificou-se, durante tanto tempo, porque muitas foram as instituições
que a protegeram: forças armadas, pide, censura, tribunais plenários.
E o medo, sim o
medo.
Era terrível a
nossa vida, mas grande parte da população, com a sua inércia, com o seu medo,
permitiu que aqueles monstros sobrevivessem, se multiplicassem.
O Helder Pinho,
chateado por terem sido os miliares a fazerem aquele 25 de Abril, tinha razões,
muito suas, por dentro – as forças armadas cansaram-se da guerra.
No dia em que esse cansaço ganhou espaço, meio caminho ficou feito.
JUIZES
E vós juízes nossos
que sem pestanejar obedeceis
a leis iniquas
deste injusto e sujo tempo
e por vezes as ultrapassais
que direis
no dia do vosso julgamento
Plenário, Abril 73
José Carlos Vasconcelos
quinta-feira, 22 de abril de 2021
POSTAIS SEM SELO
Ó país de cristal, que longe eu estou, dava um ano de ordenado por um
momento da minha inocência perdida.
Dinis Machado, em Molero a páginas zero.
SARAMAGUEANDO
4 de Junho de
1993
Na Feira aparece uma pessoa a comprar todos os
meus livros. Põe-nos todos diante de mim para que os autografe, os grossos e os
finos, os caros e os baratos, trinta e tal contos de papel, conforme vim a
saber depois, e o que me desconcerta é que o homem não é um convertido recente
ao saramaguismo, um adepto de fresca data, um neófito disposto às mais loucas
ousadias, pelo contrário, falo do que de mim leu com à-vontade e discernimento.
Resolvo-me a perguntar-lhe a razão da ruinosa compra, e ele responde simplesmente,
com um sorriso onde aflorou uma rápida amargura: «Tinha-os todos, mas ficaram
na outra casa.» Compreendi. E depois de ele se ir embora, ajoujado sob a carga,
pus-me a pensar na importância dos divórcios na multiplicação das bibliotecas…
José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Volume I
ALGUNS DIAS ANTES DE 25
22 de Abril de 1974
Neste dia ainda falamos do almoço íntimo que o chefe de estado ofereceu em Belém a
Marcelo Caetano, a alguns ministros, a algumas altas figuras do regime e pelo grande
destaque, na sua 1ª página que o jornal Época dá ao repasto.
Para quem não se lembre, ou não
saiba, a Época é o resultado de uma fusão entre os jornais A Voz
e Diário da Manhã, ambos apregoadores-mor das virtudes da ditadura, ocorrida a 1 de Fevereiro de 1971, tendo como director Barradas de Oliveira e custava 2$50.
A exemplo de O Século e Diário de Notícias, a Época também não informa o que as excelências
comeram e beberam, mas adianta que tudo se passou num ambiente de grande
cordialidade…alguns odiavam-se mesmo! A notícia não termina sem que o repórter
diga que o Presidente da República e o professor Marcelo Caetano mantiveram
troca de impressões.
Que impressões?
1.
O chefe de estado aceita o
convite para inaugurara a Feira Nacional de Agricultura e recebeu o arquiduque
Otão de Hasburgo que, na véspera, no Grémio Literário proferira uma conferência
sobre Política Internacional, presentes, entre outras individualidades,
Adriano Moreira, prof. Soares Martinez, Ramiro Valadão, presidente da RTP.
2.
No jornal República, o
jornalista e escritor Álvaro Guerra, que era um elo de ligação entre os
militares e a imprensa, sabendo do que daí a dias iria acontecer, escreve no
seu habitual Ponto Crítico:
A Primavera continua chuvosa, um resto de invernia que se arrasta,
retardando o sol aquém, de tantos sóis adiados, se vai fartando e chegando ao
Inverno da vida com um levíssimo e já frio raio de luz teimando penetrar na
floresta desencantada da memória.
Naturalistas, alegóricos, nostálgicos, vamos seguindo os caprichos do clima,
mitigando a ausência das palavras primaveris com a decifração de eternos
boletins meteorológicos.
3.
Neste pequeno apanhado de
algumas das canções de antes de 25 de Abril, não poderia deixar de aparecer
Pedra Filosofal, poema de António Gedeão, musicado e cantado por Manuel Freire.
Nas suas Memórias, António Gedeão/Rómulo de Carvalho, reconhece: Devo-lhe muito. Suponho que foi pela sua actuação que a minha poesia conseguiu tão grande êxito generalizado.
O que mais se notabilizou nestas andanças foi o Manuel Freire, um
rapaz com voz agradável e talento musical. Quando depois o conheci, e conversei
com ele, disse-me que ficara muito impressionado quando leu os meus poemas
publicados, pelo seu sentido musical. Particularmente leu a “Pedra Filosofal”
e, espantosamente, impelido pelo ritmo do texto, começara a lê-la e a
trauteá-la. Daí lhe nasceu, de imediato a música que tão popular se tornou.
Houve quem dissesse no jornal que a Pedra Filosofal marcara toda uma geração.
Em Setembro de 1969 Manuel Freire cantou, pela primeira vez, na
televisão, aquele meu poema num programa intitulado Zip-Zip.
OS OLHOS DO POETA
O poeta tem olhos de água para reflectirem todas as cores do mundo,
e as formas e as proporções exactas, mesmo das coisas que os sábios
desconhecem.
Em seu olhar estão as distâncias sem mistério que há entre as estrelas,
e estão as estrelas luzindo na penumbra dos bairros da miséria,
com as silhuetas escuras dos meninos vadios esguedelhados ao vento.
Em seu olhar estão as neves eternas dos Himalaias vencidos
e as rugas maceradas das mães que perderam os filhos na luta entre as pátrias
e o movimento ululante das cidades marítimas onde se falam todas as línguas da
terra
e o gesto desolado dos homens que voltam ao lar com as mãos vazias e calejadas
e a luz do deserto incandescente e trémula, e os gestos dos pólos, brancos,
brancos,
e a sombra das pálpebras sobre o rosto das noivas que não noivaram
e os tesouros dos oceanos desvendados maravilhando com contos-de-fada à hora da
infância
e os trapos negros das mulheres dos pescadores esvoaçando como bandeiras
aflitas
e correndo pela costa de mãos jogadas pró mar amaldiçoando a tempestade:
- todas as cores, todas as formas do mundo se agitam e gritam nos olhos do
poeta.
Do seu olhar, que é um farol erguido no alto de um promontório,
sai uma estrela voando nas trevas
tocando de esperança o coração dos homens de todas as latitudes.
E os dias claros, inundados de vida, perdem o brilho nos olhos do poeta
que escreve poemas de revolta com tinta de sol na noite de angústia que pesa no
mundo.
Manuel da Fonseca em Poemas
Completos
Legenda: fotografia de Yves Bottineau
quarta-feira, 21 de abril de 2021
OLHAR AS CAPAS
Poirot e os Erros da Dactilógrafa
Agatha Christie
Tradução: Fernanda Pinto
Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 273
Livros do Brasil s/d
Hercule Poirot franziu a testa e chamou:
-Miss Lemon!
- Diga M. Poirot
- Há três erros nesta carta!
A voz de Poirot exprimia uma grande incredulidade, pois aquela horrenda e eficiente mulher jamais cometia erros. Nunca adoecia, nunca se fatigava, nunca se mostrava transtornada nem descuidada no seu trabalho.
ALGUNS DIAS ANTES DE 25
21 de Abril de 1974
Calhou a um domingo.
Pela última vez estiveram todos juntos à mesa.
O Diário de Notícias dava
conta que, no Palácio de Belém, o chefe de estado ofereceu um almoço íntimo em
que estiveram presentes, para além da veneranda figura, Marcelo Caetano, os presidentes
da Assembleia Nacional, da Câmara Corporativa e do Supremo Tribunal de Justiça,
os ministros da Defesa Nacional, da Justiça,, das Finamças, o procurador geral
da República, os conselheiros de estado dr. Albino Reis, prof. Costa Leite
(Lumbrales), dr. Luís Supico Pinto, o governador civil de Lisboa, o deputado
contra almirante Henrique Tenreiro.
Não se sabem razões para a realização do festim.
O jornal O Século dá conta do vincado cunho de cordialidade, mas ficámos sem saber do menú do almoço das importantes figuras do regime.
1.
Dinis de Almeida no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, regista que a redacção do programa do Movimento havia-se entretanto processado a partir de um documento inicialmente discutido entre Almada Contreiras, Martins Guerreiro e Melo Antunes.
Nessa redacção intervêm:
Pela Armada: Crespo, Contreiras, Lauret, Simões Teles, Vidal Pinho.
Pelo Exército: Melo Antunes, Costa Brás, Charais, Vítor Alves, José Maria Azevedo.
Pela Força Aérea, praticamente fora do assunto, só se faz sentir a sua opinião já no final, em 24 de Abril de 1974.
A versão definitiva do programa, passada à máquina directamente pelo próprio
Hugo dos Santos, focou estabelecida em casa de Vítor Crespo, no dia 21 de Abril
de 1974, domingo (epílogo das muitas reuniões efectuadas sobre o programa).
2.
Na praia da Aguda, em Gaia, e por
iniciativa do jornal Opinião, realizou-se um jantar de homenagem a Óscar Lopes.. A censura interveio com uma
série de cortes pelo que as notícias publicadas, pouco ou nada referem. As fotografias
e as legendas da homenagem teriam que ser enviadas ao Dr. Ornelas.
3.
Em Abril de 1974 Portugal era um país onde coexistiam a maior miséria e a riqueza mais faustosa. Com oito milhões de habitantes, em cada mil crianças nascidas 56 morriam antes de completarem um ano de idade e em cada mil habitantes 15 morriam de tuberculose pulmonar. Apenas 40 por cento da população tinha água em casa e 75 por cento não dispunha de esgotos. Em cada 100 portugueses 37 eram analfabetos e em cada 100 alunos que frequentavam o ensino primário 30 não o completavam e apenas 2 por cento vinham a obter uma graduação universitária.
E havia uma guerra em África.
Milhares e milhares de mortos, feridos,
estropiados.
A Pátria não se discute, defende-se!
Poema Uma Vez Eu,… de Jorge de Sena publicado em 40 Anos de Servidão:
Uma vez eu, chegando a Portugal
após muitos anos de ausência minha e alguns
de guerras africanas, encontrei uma vizinha
muito estimável que era casada com
um operário categorizado e antigo republicano.
O filho dela estava nas Africas, arriscando
a vida dele e a dos outros em defesa
do património da pátria de alguns (muito mais
que das gerações brancas que vivem nas Áfricas).
Eu condoí-me, todo embebido de noções políticas.
E ela, com um sorriso resignado, respondeu-me:
- Pois é, mas ele está a ganhar tão bem!
4
Hoje, olhamos a capa deste EP e
sorrimos quando no topo lemos: Dr. José Afonso, e que as letras e as música
também têm a autoria designada como «Dr.» .
Este velho disco rodou milhares
de voltas por causa dos Vampiros: senhores à força mandadores sem lei, eles
comem tudo e não deixam nada.
Mas diga-se que as outras canções do
EP são muito bonitas, principalmente Menino do Bairro Negro.
Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção
Inevitavelmente, José Afonso era
acompanhado à viola por Rui Pato.
Legenda: primeira página do Programa do MFA, tirada de Origens e Evolução do Movimento de Capitães de Dinis de Almeida.
PENSAMENTO
Meu pensamento
Partiu no vento
Podem prendê-lo
Matá-lo não.
Meu pensamento
Quebrou amarras
Partiu no vento
Deixa guitarras.
Meu pensamento
Por onde passa
Estátua de vento
Em cada praça.
Foi à conquista
Do novo mundo
Foi vagabundo
Contrabandista.
Foi marinheiro
Maltês ganhão
Foi prisioneiro
Mas servo não.
E os reis mandaram
Fazer muralhas
Tecer as malhas
De negras leis.
Homens morreram
Chamas ao vento
Por ti morreram
Meu pensamento.
Manuel Alegre
terça-feira, 20 de abril de 2021
OLHAR AS CAPAS
Gretta
Erskine Caldwell
Tradução: João Belchior Viegas
Capa: José Antunes
Livros Unibolso nº79
Editores Associados, Lisboa s/d
A primeira neve, arauto alado do inverno, redemoinhava ao sopro
agreste da nortada quando Gretta saiu do escritório e se encaminhou para casa,
no negrume do fim da tarde.
O céi começara a escurecer pouco depois das quatro horas de um dia
pardacento e, logo após as cinco e meia, parecia que todos os empregados dos
escritórios e lojas se precipitavam através das ruas cobertas de neve para a
promessa de calor e o conchego do lar. No meio de toda aquela gente viam-se
mulheres que sobraçavam embrulhos e pacotes, depois de uma tarde de compras, e
abriam caminho com fúria através das ruas apinhadas – como se a mudança súbita
de estação não fosse desculpa suficiente para chegarem atrasadas aos maridos e
filhos que as esperavam.
Como sempre fizera no ano anterior, Gretta costumava, àquela hora do
dia, correr para a esquina, comprar um jornal da tarde ao ardina e tomar o
autocarro repleto que descia a Chestnut Street e que, vinte minutos depois a
deixaria a meio quarteirão da casa onde morava. Mas desta vez, como se fosse
qualquer coisa que tivesse planeado conscientemente durante todo o dia e não
uma impulsiva mudança de hábito, passou sem hesitar pelo autocarro estacionado
à esquina e continuou a subir a Chestnut Street, fustigada pela neve.
MARGEM SUL
Ó Alentejo dos pobres,
reino da desolação,
não sirvas quem te despreza,
é tua a tua nação.
Não vás a terras alheias
lançar sementes de morte.
É na terra do teu pão
que se joga a tua sorte.
Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.
Ó margem esquerda do Verão
mais quente de Portugal,
margem esquerda deste amor
feito de fome e de sal.
A foice dos teus ceifeiros
trago no peito gravada,
ó minha terra morena
como bandeira sonhada.
Terra sangrenta de Serpa,
terra morena de Moura,
vilas de angústia em botão,
doce raiva em Baleizão.
Urbano Tavares Rodrigues
ALGUNS DIAS ANTES DE 25
20 de Abril de 1974
Agarrado a um recorte de jornal, um guardanapo de papel com versos de José
Gomes Ferreira: «Esperança: o teu nome verdadeiro é teimosia de querer ouvir
as pedras a cantar.»
Nas paredes da cidade começam a aparecer inscrições: “O 1º DE MAIO É
VERMELHO!”
Na nota da DGS, publicada nos jornais, cuja reprodução, muito má, acima se
publica, pode ler-se:
«A Direcção-Geral de Segurança fez divulgar, através da Secretaria de Estado de
Informação e Turismo”, a seguinte nota:
“Desde o início do corrente mês, mas com maior intensidade nos últimos dias,
tem-se verificado por parte de várias organizações comunistas, uma grande
actividade na difusão de panfletos e outras actuações de propaganda através das
quais se incita a acções revolucionárias no 1º de Maio.
Com base nas averiguações feitas, foram detidos em Lisboa 15 indivíduos e 15 no
Porto, especialmente aos sectores de “informação e divulgação” daquelas
organizações, alguns dos quais estão de há muito referenciados como seus
orientadores activos.
As averiguações conduziram a
apurar que era nas oficinas do semanário «Notícias da Amadora que se imprimia
muito do material subversivo, tendo nelas sido apreendidos largos milhares de
exemplares de panfletos revolucionários.»
1.
Na 1ª página do Diário de Notícias, com a respectiva fotografia, lia-se que
o «venerável chefe de estado Almirante Américo Thomaz» visitara uma
feira de antiguidades na FIL.
2.
Numa breve notícia O Século informava que três jovens, dois canadianos e
um argentino, foram detidos sob a acusação de prática de imoralidade.
Foram presos por, segundo o agente da PSP, estarem descalços e de tronco nu
deitados na relva. No relatório enviado ao Comando da corporação, o agente informa
que aqueles cidadãos estrangeiros estavam a ofender a moral pública.
3.
Termina, no plenário do Porto, o julgamento de Joaquim Carreira. O réu vem acusado de ter incitado os pr, Antes de Ti, no sentes numa reunião plenária da CDE 2ª uma acção violenta, depois de ter proferido expressões depreciativas da actividade do Governo”. Foi condenado a 135 dias de prisão, 135 dias de multa a 20 escudos e na suspensão dos direitos políticos por três anos, além das custas e do imposto de justiça
4.
Neste dia, conta Otelo Saraiva de Carvalho no seu livro Alvorada em
Abril, que Vítor Alves lhe perguntou qual era a percentagem de
probabilidades de êxito que ele atribuía ao movimento.
Otelo respondeu:
«Não entrando em linha de conta com os imponderáveis, garanto uma
probabilidade de êxito de oitenta por cento para uma vitória concretizada em
doze horas a partir da Hora H.
Vítor Alves olhou-o “estupefacto” e comentou:
Booolas! Se me tivesses respondido com vinte por cento de probabilidades de
êxito, eu tinha achado sensacional! Invertendo os valores e garantindo oitenta,
não estarás, como de costume, a ser demasiado optimista?»
5.
Este EP de António Macedo foi
outro dos muitos discos que nos acompanharam nos dias e nas noites para que a esperança não
caísse ao chão.
No Lado 1 ouvem-se Retalhos
de Uma Noite, Antes de Ti, no Lado2 Erguer a Voz e Cantar, Sei
de Uma Menina.
Todos os poemas e todas as
músicas, com excepção Retalhos de Uma Noite cuja música é da autoria de
Maurício Cunha
Erguer a Voz e Cantar transformou-se em hino antes e depois de Abril:
Canta canta amigo canta
vem cantar a nossa canção
tu sozinho não és nada
juntos temos o mundo na mão
Dizíamo-nos filhos da madrugada
e sabíamos que não podíamos amar serenamente porque muitos dos nossos amigos
estavam na prisão, tentávamos o possível e esse possível era sempre tão escasso
que, por vezes, o desânimo invadia os dias e as noites. Depois alguém
começava: canta amigo canta, vem cantar a nossa canção, tu sozinho não
és nada, juntos temos o mundo na mão, um outro, com um entusiasmo
sereno, lembrava que há coisas que não têm fim, a esperança num melhor, por
exemplo, e a luta por conseguir esse mundo.
Acreditar que num qualquer tempo, um microfone falaria às 4 e tal…
Não falou às 4 e tal, falou antes, mas era o sinal para a madrugada por que tantos esperaram.

























