domingo, 27 de setembro de 2015
O QUE VIEMOS AQUI FAZER?
Estacionas o carro em frente à praia:
- O que viemos aqui fazer?
- Visitar um morto.
Walter Benjamim chegou a Portbou no dia 26 de Setembro
de 1940, depois de atravessar os Pirinéus a pé, fugindo aos nazis. Queria
alcançar a América, onde ia trabalhar como investigador, mas a polícia
espanhola não o deixou passar, deu-lhe apenas uma noite de o recambiar como
judeu. Benjamim estava doente, sozinho e perdera tudo. Alojou-se numa pensão
que já não existe. Tomou uma sobredose de morfina. Na manhã seguinte foi
encontrado morto.
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Walter Benjamin
PORQUE HOJE É DOMINGO
O Verão já lá vai.
Colocar aqui uma boa parte dos discos que estavam na Juke Box da Esplanada do Marques na Trafaria é algo que levaria muitos domingos.
Este é o último domingo de Setembro e Cachito do Nat King Cole é a canção que vos trago.
No próximo Verão, voltaremos às grandes canções da Esplanada do Marques.
Bom domingo!
sábado, 26 de setembro de 2015
POSTAIS SEM SELOS
Que bom não ter de dar pelo nome de crítico – mas possuir só, para esgotar, um momento crítico, uma vida extremamente crítica.
Herberto Helder
em Retrato
em Movimento
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Postais Sem Selo
OS IDOS DE SETEMBRIO DE 1985
GRANDE
MANIFESTAÇÂO DOS SUV em Lisboa. Mais de 100 mil pessoas, segundo os jornais.
O ponto mais alto da
manifestação verificou-se de madrugada quando, face àpressão dos populares, Otelo, deu ordem para que fossem libertados o cabo Pinto e o Furriel Figueiredo.
OPINIÃO, não
assinada, sobre os objectivos dos SUV, publicada na Vida Mundial:
NAS VÉSPERAS DE
regressar à liderança do PPD, de que se afastou por doença durante largo tempo,
Francisco Sá Cerneiro, realizou uma conferência de imprensa e em que contesta,
fortemente, as posições do Almirante Pinheiro de Azevedo no que à
social-democracia diz respeito:
Em Portugal não pode ser-se assumidamente
anticomunista mas parece dever ser-se anti-social democrata.
O DITADOR FRANCO
apresentou um protesto formal às autoridades portuguesas e mostra-se indignado
com o noticiário dos jornais e da Emissora Nacional. Está iminente o anúncio da
confirmação da sentença de morte contra os presos da ETA condenados pelos
tribunais ao garrote.
Fontes:
- Acervo
pessoal;
- Os Dias
Loucos do PREC de Adelino
Gomes e José Pedro Castanheira.
V.S.T. & ETC
A Colecção &etc não está numerada.
Mas Coisas, um volume colectivo,
é o primeiro livro editado.
Vi o anúncio da
sua publicação na folheca nº 18, Dezembro de 1973.
Fiquei atento.
Mas à cautela pedi ao Carlos Porto, um dos autores antologiados, por esse tempo
colaborador do República e um dos donos da Livraria Opinião, que
me reservasse, logo que desse à luz, um exemplar.
Foi assim que o
livro chegou às minhas mãos.
Tanto quanto me
lembro, o livro não teve distribuição pelas livrarias.
Ainda existia a
censura e a PIDE e era necessário tomar cautelas e caldos de galinha.
Os textos são da
autoria de Adelino Tavares da Silva, António Manaças
Baptista-Bastos,
Carlos Porto, José Martins, Nelson de Matos, Paulo da Costa Domingos, Pedro
Oom, Virgílio Martinho e de Vitor Silva António Manaças.
Cada texto é antecedido de um desenho.
Os desenhos são
da autoria de Ferreiro, Eurico, Lud, com dois desenhos, Figueiredo Sobral, João Rodrigues,
Ana Machado, Gonçalo, Aurélia e Aldina.
Ao tempo da
publicação de Coisas a &etc situava-se na Rua da Mãe d’Água nº 13-2º.Dtº.
A dedicatória do Vitor Sila Tavares, é colocada no livro, mais mês menos mês, quarenta anos depois da sua publicação.
O texto do Vitor Silva Tavares, publicado em Coisas, termina assim:
Que tal um lar saudável com espaços verdes à volta (na
famosa costa do sol)? Nos subúrbios, tanto ranho nas ventas da criançada!
Maria, vaza o penico. Morre-se confortado pela Santa Madre Igreja. Os mortos
têm todo o tempo a seu favor. Que excitação para os pequeninos espectadores!
BIB BIC BIC, a minha terceira escrita. Sofro de cancro na bic. E na tola. E
enfim. E mais um automóvel: o
Marine é de facto um carro a sério, um fora de série, e por isso dizemos que é
tudo quanto se pode desejar num automóvel. Pois pois. Quem sabe comprar,
sabe pagar! Segue-se um programa de variedades. Poetas doidos rebentam de sonho
e fel nas noitadas a bagaço e cervejame. Como é triste Veneza ll n’y a plus
rien. Para o mês que vem veremos. Cá vamos chorando e rindo. Tanta conversa
fiada dá-me cabo da molécula. Assim como assim. Tive uma ideia maluca para pôr
aqui. Esqueci. Bebi. Cichi. (…)
«Imoderato chorabile» é um excerto (ex
certo) do texto
«Falar desta castração», escrito no
Verão de 1972 e con-
servado
(ainda bem!) inédito.
CONVERSA A SÓS
Olha, Mila, a
montra está cheia
de chocolates pequenos.
Talvez o Pessoa tenha escrito aqui
a Tabacaria.
Talvez vão dizer que está tudo dito
e o mais que eu mostro é habilidade.
Talvez que um dia, como tu dizes,
as escolas me recebam de novo
e eu aprenda verdadeiramente
como se diz amor em inglês.
Olha, Mila, para falar a verdade
eu estou muito esquecido dessas coisas
e todos os livros que li sobre a memória
não me deram memória nenhuma.
Para imitar o Pessoa, digo:
Precisamente neste momento
entrou aqui um jovem e pediu: - Licor!
Isso prova
que o amor é diferente para toda a gente.
Isso prova que o sangue do jovem não chega
para que ele se sinta cheio e à vontade.
Isso prova que os chocolates, os bolos e o resto
são medíocres formas de entendimento mútuo.
Olha, Mila, entre os medos que me assaltam e eu cultivo,
o principal é que a minha mãe já não goste de mim.
Sabes, nunca li com vagar o Álvaro de Campos
porque aquilo era demasiado meu para ser dele.
Porque as multiplicações dele
são as minhas multiplicações.
Porque nunca pus o ouvido à escuta
que não sentisse tudo calado à minha volta.
Porque não é fácil escrever poemas
quando os poemas são difíceis de roer.
E é mais fácil esconder a vergonha
do que a loucura.
Olha, Mila, se a poesia não está nos versos
também não está aqui.
O mais que a gente pode
é pedir que ela venha
e, quando chega,
pôr mais um prato e um talher na mesa.
Entretanto todos os sonhos são bons,
porque são inúteis.
Entretanto, o palhaço de corda recorda
o infeliz voo do Álvaro e dos outros.
Amanhã, que é domingo,
diremos: passou mais uma semana.
A máxima felicidade nossa
será ficar todo o dia na cama
sabendo que o sol, lá fora, é violento
e nos odeia.
Olha, Mila, todas as coisas continuam certas
quando a certeza nos abandonou.
Há quem tenha a voz muito alta
e tanto que basta-lhes falar
para que todas as distâncias os ouçam.
Nós, não.
Nós não sabemos escrever à máquina,
não escrevemos nem lemos as cartas
dos outros, que cruzam o Mundo.
Por isso é que os patrões nos pagam por esmola,
a angústia não é fingida, e amamos todos por obrigação.
Por isso é que a gente nunca sabe
quando fala verdade,
porque, para ser nossa, a verdade é mentira.
Olha, Mila, eu não me importo nada
que digam que o Pessoa
esteve comigo, hoje, nesta pastelaria;
que tenhamos nascido os dois no mesmo sítio,
um sítio onde se nasce por imoralidade.
E que tudo o que ele não viu
- praias, pontes, cidades e navios -
tenha querido agora
inundar o poema.
Não julgues, Mila,
que senti alegria
em calar-me!
Raul de Carvalho
Talvez o Pessoa tenha escrito aqui
a Tabacaria.
Talvez vão dizer que está tudo dito
e o mais que eu mostro é habilidade.
Talvez que um dia, como tu dizes,
as escolas me recebam de novo
e eu aprenda verdadeiramente
como se diz amor em inglês.
Olha, Mila, para falar a verdade
eu estou muito esquecido dessas coisas
e todos os livros que li sobre a memória
não me deram memória nenhuma.
Para imitar o Pessoa, digo:
Precisamente neste momento
entrou aqui um jovem e pediu: - Licor!
Isso prova
que o amor é diferente para toda a gente.
Isso prova que o sangue do jovem não chega
para que ele se sinta cheio e à vontade.
Isso prova que os chocolates, os bolos e o resto
são medíocres formas de entendimento mútuo.
Olha, Mila, entre os medos que me assaltam e eu cultivo,
o principal é que a minha mãe já não goste de mim.
Sabes, nunca li com vagar o Álvaro de Campos
porque aquilo era demasiado meu para ser dele.
Porque as multiplicações dele
são as minhas multiplicações.
Porque nunca pus o ouvido à escuta
que não sentisse tudo calado à minha volta.
Porque não é fácil escrever poemas
quando os poemas são difíceis de roer.
E é mais fácil esconder a vergonha
do que a loucura.
Olha, Mila, se a poesia não está nos versos
também não está aqui.
O mais que a gente pode
é pedir que ela venha
e, quando chega,
pôr mais um prato e um talher na mesa.
Entretanto todos os sonhos são bons,
porque são inúteis.
Entretanto, o palhaço de corda recorda
o infeliz voo do Álvaro e dos outros.
Amanhã, que é domingo,
diremos: passou mais uma semana.
A máxima felicidade nossa
será ficar todo o dia na cama
sabendo que o sol, lá fora, é violento
e nos odeia.
Olha, Mila, todas as coisas continuam certas
quando a certeza nos abandonou.
Há quem tenha a voz muito alta
e tanto que basta-lhes falar
para que todas as distâncias os ouçam.
Nós, não.
Nós não sabemos escrever à máquina,
não escrevemos nem lemos as cartas
dos outros, que cruzam o Mundo.
Por isso é que os patrões nos pagam por esmola,
a angústia não é fingida, e amamos todos por obrigação.
Por isso é que a gente nunca sabe
quando fala verdade,
porque, para ser nossa, a verdade é mentira.
Olha, Mila, eu não me importo nada
que digam que o Pessoa
esteve comigo, hoje, nesta pastelaria;
que tenhamos nascido os dois no mesmo sítio,
um sítio onde se nasce por imoralidade.
E que tudo o que ele não viu
- praias, pontes, cidades e navios -
tenha querido agora
inundar o poema.
Não julgues, Mila,
que senti alegria
em calar-me!
Raul de Carvalho
sexta-feira, 25 de setembro de 2015
POSTAIS SEM SELO
Os conservadores não são forçosamente estúpidos, mas a
mioria das pessoas estúpidas é conservadora.
ARTISTAS UNIDOS
Os Artistas Unidos, uma criação de Jorge Silva Melo, a 18 de Setembro de 1975, estrearam
António Um Rapaz de Lisboa no Grande Auditório da Fundação Gulbenkian.
Fez agora 20
anos.
Ana Sousa Dias,
que foi entrevistar Jorge Silva Melo para o Diário de Notícias, dele
disse:
É um solitário que
adora estar acompanhado por muita gente.
Tem entre mãos a
tarefa demorada de fazer um filme sobre ele próprio, coisa maçadora porque já
sabe tudo, não tem surpresas.
Os Artistas
Unidos estrearam, agora, no Teatro da Politécnica, Jogadores de Pau Miró:
PROFESSOR É fácil prever o futuro. Basta olhar
para o céu. Ou para o espelho. Se te vires ao espelho, podes saber o futuro.
OLHAR AS CAPAS
Coisas
Adelino Tavares
da Silva – António Manaças – Baptista-Bastos – Carlos Porto – José Martins –
Nelson de Matos – Paulo da Costa Domingos – Pedro Oom – Virgílio Martinho –
Vitor Silva Tavares
Capa: João
Vieira
&etc,
Lisboa, Março de 1974
Num pequeno país atrasado e pobre o Primeiro-Ministro
preocupava-se muito com a ignorância do seu povo.
A percentagem de iletrados era tal que não se
descortinava maneira de arrancar do estado de subdesenvolvimento para a fase
industrial a que o país necessitava chegar.
O Primeiro-Ministro reuniu os melhores pedagogos do
país que elaboraram um pequeno livro de bolso, a que chamaram a “Cartilha
Paternal”, onde se resumia em frases simples toda a Ciência existente.
A “Cartilha Paternal” foi distribuída gratuitamente a
todo o Povo, o qual lhe deu a serventia que estava habituado a dar a tudo o que
fosse papel, liso ou impresso.
Moral: a instrução não custa um tostão…
(Pedro Oom)
quinta-feira, 24 de setembro de 2015
POSTAIS SEM SELO
A convicção com que eu às vezes engano os doentes! Mas
se médico é também isso: ter capacidade de mentir persuasivamente quando a
verdade é o oposto da esperança.
Miguel Torga, Diário,
19 de Fevereiro de 1988, Vol. XV
Legenda: retrato
de Miguel Torga por Guilherme Filipe.
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Miguel Torga,
Postais Sem Selo
OS IDOS DE SETEMBRO DE 1975
24 de Setembro
de 1975
HÁ DOIS DIAS, a
Associação de Deficientes das Forças Amadas ocupou a portagem da Ponte 25 de
Abril, dando origem à passagem. sem pagamentos de portagens, a todas as
viaturas.
Nem o Presidente
da Republica, nem o governo quiseram ter qualquer conversação com a Associação.
Um elemento da
Direcção disse aos jornalistas: Se há 12 milhões de contos para os
retornados de Angola, porque é que não há-de haver dois milhões de contos para
os deficientes.
A revista Vida
Mundial pergunta: Deficientes das F.A. Quem se lembra deles?:
NO DIÁRIO DE LISBOA, deste dia, pode ler-se:
ASCENDE a 50 mil
o número de refugiados de Timor na metade indonésia da ilha. Dada a pobreza que
ali impera a presença desta multidão de deslocados não deverá tardar a criar
situações trágicas, escreve a France-Press em telegrama de Jacarta.
Fontes:
- Acervo
pessoal;
- Os Dias
Loucos do PREC de Adelino
Gomes e José Pedro Castanheira.
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Guerra Colonial,
Timor,
Verão Quente 1975
POEMA
POESIA NÃO É UMA MEDALHA PARA POR NO PEITO DOS TIRANOS MAS UMA IMENSA SOLIDÃO FEITA DE PEDRAS, ONDE O DESPOTISMO PODE ENCOMENDAR O ATAÚDE.CADA UM DE NÓS ODEIA O QUE AMA. POR ISSO O POETA NÃO AMA A POESIA QUE É SÓ DESESPERO E SOLIDÃO MAS ACALENTA AO PEITO AS FORMIGAS DA REVOLTA E DA REBELDIA, QUE TODOS OS DÉSPOTAS QUEREM SUBMISSAS E PROCRIADORAS. SÓ OS VOLUNTÁRIOS DA MISÉRIA E DA SUBMISSÃO PATRIARCAL QUEREM A POESIA NA ARCA DA ALIANÇA COM A TRADIÇÃO PACÓVIA E REGIONALISTA DOS PRETÉRITOS DIAS, GLÓRIAS PATRIOTEIRAS, HEROICIDADES FRUSTRES, PIRATARIA IGNARA. TODO O VERDADEIRO POETA DESPREZA O PEQUENO MONTE DE ESTERCO ONDE O DEJECTARAM NO PLANETA E A QUE OS OUTROS CHAMAM PÁTRIA, E SÓ AMA OS GRANDES CONTINENTES MARES E OCEANOS DA LIBERDADE E DO AMOR. SÓ NOS VASTOS ESPAÇOS INCRIADOS A POESIA SERVE O SEU DESTINO — CATAPULTAR O HOMEM NOS ABISMOS DO DESEJO INCONTROLADO ONDE O PRÓPRIO ASSASSINATO É UM ACTO DE POESIA E DE AMOR. ESTE ASSASSINATO DE QUE FALO É O GRANDE AMPLEXO DE HOMEM PARA HOMEM A SOLIDARIEDADE E A TERNURA, NÃO A CARIDADE HIPÓCRITA OU A CAMA DE FAMÍLIA, COM TODO O SEU PEQUENO CORTEJO DE HORRORES, ONDE A EXPLORAÇÃO DO FILHO PELO PAI DITA A SUA LEI.
Pedro Oom em Grifo, Abril, 1970
V.S.T. & ETC
O nº 25 da &etc, folheca cultural q.b. de Outubro de 1974.
Dedicado à an-arkia é o seu último número.
Este exemplar foi-me oferecido, pelo Vitor Silva Tavares, na manhã em que levei ao Subterrâneo a minha colecção encadernada da &etc.
O tempo em que ele, olho de lince, viu logo que na colecção faltavam os números 24 e 25.
Foi um fartote de rir.
Fica-me a faltar o número 24 e, um dia quando o encontrar - difícil, difícil, dizia o Vitor - irei encadernar tudo de novo e, então, ficará completa.
DITOS & REDITOS
Perdido por cem, perdido por mil.
Quando um elefante tem problemas até uma rã lhe dá
pontapés.
O que se faz por paixão faz-se sem sacrifício.
Não é tarde nem é cedo.
Valha-nos a Senhora da Agrela que não há santa como
ela.
Esperar o inesperado.
Quando o pobre come galinha um dos dois está doente.
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
POSTAIS SEM SELO
Assim como lavamos o corpo deveríamos lavar o destino,
mudar de vida como mudamos de roupa - não para salvar a vida, como comemos e
dormimos, mas por aquele respeito alheio por nós mesmos, a que propriamente
chamamos asseio.
Fernando Pessoa
em O Livro do Desassossego.
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Fernando Pessoa,
Postais Sem Selo
CANÇÕES DE ENTARDECERES
Primeiro entardecer do Outono.
Uma cor laranja,
derramando uma luz amigável, muito serena.
A visibilidade
dos afectos.
Albert Camus que
nos diz que o Outono é outra Primavera, cada folha uma flor.
Chega-se a este
ponto e voltamos a reaprender o Outono.
Os pássaros
voltarão em Março.
A canção
escolhida para este entardecer é La Vie En Rose.
As
interpretações de Diana Krall e Louis Armstrong.V.S.T. & ETC
Faltam os
números 24 e 25.
Morte gloriosa ao 25º número publicado. Certidão de
óbito: nº a nº acumulados pela distribuidora os exemplares devolvidos, acontece
que esta apresentou no papelinho das contas uma soma de exemplares “devolvidos”
de um dos números finais superior à da própria tiragem. Record mundial
absoluto: vendas abaixo de zero! Guiness já já para a &etc! E que é deles,
os exemplares “devolvidos”? – Por “distracção lamentável, comunicado da
distribuidora, foram-se para a guilhotina na companhia de toneladas de tralha
impressa tida por jornais e revistas. Resultado do holocausto: só foi possível
salvar 50 colecções completas, logo encadernadas e entregues a outros tantos
colaboradores mais próximos. Tudo está bem quando acaba bem.
QUOTIDIANOS
Começo do
Outono.
Ainda ontem as
vi no meio do arvoredo, mas as andorinhas não tardam em partir para outras
paragens.
Abre-se o guarda-roupa e
já apetece uma lãzinha.
LXXXIX
Quando eu morrer quero as tuas mãos em meus olhos;
quero a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim a sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos continuem a ouvir o vento,
que sintas o perfume do mar que ambos amamos
e continues a pisar a areia que pisamos.
Quero que tudo o que amo continue vivo
e a ti ame-tei e cantei-te sobre todas as coisas
por isso, ó florida, continua a florir,
para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que a minha sombra passeies pelos teus cabelos
para que assim conheçam a razão do meu canto.
passar uma vez mais sobre mim a sua frescura:
sentir a suavidade que mudou o meu destino.
Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos continuem a ouvir o vento,
que sintas o perfume do mar que ambos amamos
e continues a pisar a areia que pisamos.
Quero que tudo o que amo continue vivo
e a ti ame-tei e cantei-te sobre todas as coisas
por isso, ó florida, continua a florir,
para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que a minha sombra passeies pelos teus cabelos
para que assim conheçam a razão do meu canto.
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Pablo Neruda Poemas
terça-feira, 22 de setembro de 2015
POSTAIS SEM SELO
Vitor Silva Tavares morreu hoje vítima de uma infeção
generalizada.
Estava há cerca de uma semana e meia internado no
Hospital de Santa Maria devido a uma infeção que se generalizou e que os
médicos não conseguiram controlar.
Dos jornais
… fumo maço e meio de SG Filtro por dia.
Vitor Silva Tavares em entrevista ao Público.
... e sei não houvera de saber que há um caixão desconhecido que espera por mim...
Vitor Silva Tavares em Para Já Para Já
... e sei não houvera de saber que há um caixão desconhecido que espera por mim...
Vitor Silva Tavares em Para Já Para Já
Atirou fumaças para o tecto. Era bom alimentar alguns
vícios. Quando fora bom viver na vida sem tentações? Ceder a algumas era até um
sinal de valentia; só o covarde é que não se deixava tentar, ou estarei
enganado?
Alexandre Pinheiro
Torres em O Adeus às Virgens.
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