A certa altura, temos enfim a vida em
ordem – os filhos arrumados, as ideais arrumadas, os livros escolhidos, a
mulher enfim escolhida, o trabalho realizado, todas as opções feitas. É a
altura finalmente de vivermos, de gozarmos do que acumulámos, de sermos homens
a valer. Mas é justamente nessa altura que nos põem fora da vida. São horas de
a loja fechar ou de ser trespassada.
Quando alguém me vem dizer que os meus
textos se tornaram «mais claros», suspeito sempre que se trata de um imbecil.
Eu sei que os meus textos se tornaram mais comunicativos, mais contagiantes – isto é, que uma certa aridez teorizante se foi
desvanecendo. Mas cuidado! Um dia a Marguerite Duras disse-me de uma
determinada personagem que havia conhecido em Portugal: «Ela não é bela; tem a
aparência da beleza.» Diria o mesmo do que hoje escrevo: os meus textos não são
claros; têm a aparência da clareza.
Eduardo Prado
Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II
Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
nenhum de nós dirá nada
mas a mãe largará o bordado
o pai largará o jornal
as crianças os brinquedos
e abriremos para ti os nossos corações.
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres. Maria Eugénia Cunhal em Silêncio de Vidro
Legenda: Ilustração de Rogério Ribeiro
para o livro de Manuel Tiago Até Amanhã, Camaradas
Os portugueses consomem 70.000 toneladas
de bacalhau por ano, sendo cinco toneladas pelo Natal.
«Entre aquilo que Portugal deixou
neste país africano, podemos destacar o costume de se comer bacalhau na noite
de Natal. E não se pense que é hábito de reduzida elite urbana, nostálgica de
tempos coloniais, que alguns estudiosos gostam de impropriamente chamar
“crioula”. Para já, a população urbana é metade da de Angola e vai servindo de
matriz cada vez mais avassaladora da cultura angolana. E o costume está
absolutamente espalhado, pelo menos por todas as cidades.»
- Pepetela
A
única certeza da vida é a morte. E é a certeza em que menos se acredita. Toda a
história do mundo assentou sempre na ignorância de que se é mortal. Aqueles
mesmo que o sabem não o vêem – a não ser em instantes de excepção. Que seria o
mundo com essa evidência sempre presente? Só o homem sabe que é mortal. Mas
raramente o homem sobe até si. O animal pesa nele, mesmo no que não é do
animal. Assim a arte, a cultura, poucas vezes funcionam como o que é para o
espírito, sendo para o que é da nossa grosseria.
Dito
já que começaram as iniciativas que visam
registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei
pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um
parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo
dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam
a Biblioteca da Casa.
Ainda estamos no 1º capítulo do livro de
Conceição Madruga: A Paixão Segundo José Saramago:
«Neste labirinto de luz que se nos
afigura ser a obra de Saramago, estabelecemos um “corpus” constituído
pelos romances Manual de Pintura e Caligrafia, Levantado do Chão, Memorial do
Convento, O Ano da Morte de Ricardo Reis, A jangada de Pedra e História do
Cerco de Lisboa, no qual perseguiremos possíveis respostas, ainda que ambíguas
e, por isso, criativas, sobre o conhecimento possível do Mundo, admitindo,
porém com Saramago, que a ambiguidade é mais nossa, porque o lemos:
«Imagino que sabe que o lugar ambíguo é
a cabeça de quem ouve ou lê.» (História do Cerco de Lisboa, página 88 –
Nota do Editor. No topo a página do livro de onde é tirada a citação.)
«A linguagem do Conhecimento: eis a
grande busca de Saramago. A certeza da nossa incapacidade de o mostrar
totalmente, a nossa aposta.»
Esta
manhã, uma velha que de mando de um namorado levava um lindo molho de cravos a
casa da namorada. Parou a perguntar-me se eu conhecia a menina e se lhe podia
ensinar onde ela morava. Nas suas mãos encardidas e calosas o ramo parecia ter
ainda as raízes no estrume.
-
Bonitos! – exclamei eu, deslumbrado.
-
São… - respondeu ela com cepticismo- - Mas há coisas mais bonitas…
-
Por exemplo?
-
Um bocado de broa e uma sardinha, quando a gente está cheia de fome.
Durante muitos anos trabalhei perto da Praça
da Figueira.
Recordo-me de nos Restauradores, por
esta época natalícia, perto do Hotel Avenida Palace, com cenário montado estava,
por lá um Pai Natal, trenó, árvore de Natal, para a velha fotografia das
crianças mandarem à família.
Alguém me contou que um dia, o Pai Natal
perguntou a um garoto, que se aprestava para a fotografia, se ele se portava
bem lá por casa e que lhe respondeu:
«Eu porto. Quem não se porta bem é o meu
avô que chega todos os dias bêbado.»
Dito
já que começaram as iniciativas que visam
registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei
pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um
parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo
dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam
a Biblioteca da Casa.
Mais um livro que aborda a obra e a
personalidade de José Saramago.
É mesmo um livro de paixão. A Paixão do Verbo e o Verbo da Paixão.
Mário David Soares, à guisa de prefácio,
escreve:
«Para
quem gostar de Saramago, para quem ainda não compreende Saramago, para quem tem
que analisar Saramago este é um livro fundamental para aprofundar gostos,
ultrapassar incompreensões e ajudar a análises.»
É um livro apaixonado e as paixões não
se explicam.
O percurso de leitura de Maria da
Conceição Madruga inicia-se com o Manual
de Pintura e Caligrafia e termina com a História
do Cerco de Lisboa.
Seguindo estes livros, sublinhei os
sublinhados que a autora fez dos livros de Saramago.
Importa pouco, ou nada, se são
coincidentes.
Entremos
no primeiro capítulo do livro: O Enigma da Leitura:
«Os
livros de Saramago abertos sobre a mesa são uma rememoração, um chamamento.
Convidam-nos à viagem, em busca do fio que nos conduza no labirinto do
conhecimento de nós, do mundo, do Conhecimento. Viagem inaugural, redentora e
de retorno à infância, na acepção de Blanchot:
“Continuamos a ler desde há milénios, como se mais não fizéssemos do que
começar a aprender a ler”.
Saramago
revela-se-nos, desde logo, o contador da História e de histórias, que nos
fascinam e nos apaixonam. É a grande Voz e o grande Olho, dizendo o que ouviu e
viu, lá em nenhum lugar. Nem em nenhum tempo, porque como ele próprio refere, “tudo
provavelmente são ficções” (Citação de A Jangada de Pedra, pág. 138 (2ª edição,
Nota do Editor).
«Retemo-nos
nas suas páginas, tentando aliar a paixão da deriva à exigência do olhar.
Assumimos uma leitura de paixão e de desespero provocada pelo próprio texto,
onde um narrador irónico e mordaz se compraz em demonstrar-nos a
(im)possibilidade de interpretar.»
Conceição Madruga neste capítulo, faz
uma citação de O Ano da Morte de Ricardo
Reis:
«As
frases, quando ditas, são como portas, ficam abertas, quase sempre entramos,
mas às vezes deixamo-nos estar do lado de fora, à espera de que outra porta se
abra, de que outra frase de diga.» (Citação de O
Ano da Morte de Ricardo Reis, pág. 183, 1ª edição, Nota do Editor.)
Esta frase está sublinhada pelo editor,
pertence a um diálogo de Marcenda com Ricardo Reis. Fica aqui o sublinhado do editor:
«Não
deve perder a esperança, Suponho que essa já está perdida, qualquer dia sou
capaz de ir a Fátima para ver se a fé ainda pode salvar-me. Tem fé, Sou
católica, Praticante, sim, vou à missa, confesso-me, comungo, faço tudo o que
os católicos fazem. Não parece muito convicta, É jeito meu, não pôr muita
expressão no que digo. A isto não respondeu Ricardo Reis, as frases, quando
ditas, são como portas, ficam abertas, quase sempre entramos, mas às vezes
deixamo-nos estar do lado de fora, à espera de que outra porta se abra, de que
outra frase de diga.»
O avô era um tipo assaz curioso, patusco
mesmo. Por chalaça, por um certo gosto anarquista, apresentava-se às pessoas
como: «Mário Santos – benfiquista, republicano histórico e anticlerical».
Ficava depois a gozar o efeito das
palavras.
Tinha um béguin pelo Johnny Guitar de
Nicholas Ray, aquele diálogo fabuloso em que Vienna pede a Johnny para lhe
contar mentiras, que ainda a ama como ela o ama e o velho vaqueiro, a filosofar
sobre Johnny: tal como ele disse, só precisa de um café e de uma boa
cigarrada.
Este disco existe porque pediu ao filho que lhe arranjasse a canção tema do
filme.
Naqueles tempos a oferta de bandas sonoras era quase nula, o filho não
encontrou a interpretação da Peggy Lee e comprou esta versão, em espanhol,
cantada pela Juanita Cuenca, uma soberba capa amarela, uma fotografia como
mandavam as regras.
O avô morreu com 85 anos e nunca conseguiu entender-se com o “pick-up”. Quando
lhe dava a saudade dizia: «eh pá! Põe a tocar o Johnny Guitar».
Na estante onde estão os LPs, puxados ligeiramente 5 ou 6 para fora, está
lá pendurado o boné – Donegal Tweed Woven in Ireland – que foi
o último que o pai usou.
Tem dias, mas principalmente noites, que sente que o pai anda por aí, a
solicitar um whisquinho e a dizer: «Eh! Pá põe lá o «Johnyy Guitar” para o teu e eu
avô ouvirmos»
«Play the guitar, play it again, my Johnny, maybe you're cold, but you're so
warm inside.»
E
uma nostalgia do tamanho do mundo apodera-se da prosa.
Johnny Guitar é cantado em espanhol e está identificado como sendo
um «bolero afrocubano». O disco tem ainda: Mis Manos, que é a
versão espanhola de uma velha canção do Gilbert Bécaud, um fado fox, Lejana
Lisboa, assinado por A. Angel e Garcia Cote, e Faustina, um
baião que, no antigamente, muito no antigamente, era tocado, dezenas de vezes,
na mesma noite, nos bailes lá de casa.
É quando ele diz a frase certa: um tipo só precisa de um café e de uma
boa cigarrada.
Ouve-se a frase no Johnny Guitar, um dos
filmes da vida de muita gente.
De João Bénard da Costa sabemos que era.
«Só
recordam aqueles que confidenciam, a recordação é uma arte que arranca da
solidão e do silêncio», escrevi há quarenta e muitos anos, sem ainda saber ler
nem escrever. Hoje, que tinha obrigação de saber mais, só posso repetir que
esta arte recordatória, este filme mítico, este filme-mito (tão, tão diferente
da memória) arranca também daí: da solidão e do silêncio.»
Uma ópera? O melhor diálogo da história
do cinema?
Ainda Bénard da Costa:
«Reduzido a escrito e a seco, o diálogo
é confrangedoramente banal, Se as pessoas ficam com tal memória dele é pelo
concerto das vozes – raspante, a de Crawford, átona a de Hayden – que se ouve
no filme e pela associação delas à fabulosa partitura de Victor Young.»
“Vienna – É uma história triste.
Johnny – Sou bom ouvinte de
histórias tristes.
Vienna – Há cinco anos
apaixonei-me por um homem. Não era bom nem mau, mas… eu amava-o. Quis casar com
ele, ajudá-lo a construir um futuro.
Johnny – Mereciam ser felizes…
Vienna – Mas não foram.
Separaram-se. Ele não se via amarrado a uma família.
Johnny – Felizmente ela foi
esperta e livrou-se dele.
Vienna – Claro que foi.
Aprendeu, daí em diante, a não se apaixonar por ninguém.
Johnny – Cinco anos é muito
tempo… Com certeza que, entretanto, na sua vida houve outros homens.
Vienna – Os suficientes.
Johnny – O que aconteceria se
esse homem voltasse?
Vienna – Quando um fogo se
extingue, só restam as cinzas.
Johnny – Quantos homens já
esqueceste?
Vienna – Tantos quantas as
mulheres de que te lembras.
Johnny – Não te vás embora.
Vienna – Nâo me mexi.
Johnny – Diz-me qualquer coisa
bonita.
Vienna – Que queres que eu te
diga?
Johnny – Mente-me. Diz-me que
esperaste por mim todos estes anos.
Vienna – Todos os anos esperei
por ti.
Johnny – Diz-me que morrerias se
eu não tivesse voltado.
Vienna – Morreria se tu não voltasses.
Johnny – Diz-me que ainda me amas como
sempre te amei.
Vienna – Ainda te amo como tu me
amas.
Johnny
– Obrigado. Muito obrigado.
Play the
guitar play it again my johnny
Maybe
you're cold, but you're so warm inside
I was always a fool for my johnny
For the one they call johnny guitar
Play it again, johnny guitar
What if you go what if you stay i love you
What if you're cruel you can be kind i know
There was never a man like my johnny
Iike the one they call johnny guitar
There was never a man like my johnny
Iike the one they call johnny guitar
Play it again johnny guitar
Ainda João Bénard da Costa:
«Muitas vezes ouvi a banda sonora
do Johnny Guitar sem ver as
imagens. Tudo vem, por acréscimo, toda a memória do filme se repovoa, Mas, para
que isso suceda, é preciso haver memória, é preciso ter-se visto o filme. Se é
verdade que Johnny Guitar é também uma ópera, não o é menos
que está dependente daquela única e irrepetível mise en céne.»
Nunca se vê um filme da mesma maneira,
há sempre maneiras diferentes de o ver.
Hoje, na Cinemateca, provavelmente,
seria a última oportunidade para eu ver o Johnny
Guitar numa sala de cinema, onde todos os filmes têm de ser vistos!
Outros afazeres não me permitirão esse
prazer.
Não impede que, abusando da vossa
paciência, deixe por aqui algumas das coisas que já foram ditas sobre o filme.
JOHNNY GUITAR
de Nicholas Ray
com Joan Crawford, Sterling Hayden,
Mercedes McCambridge, Scott Brady, Ward Bond
Estados Unidos, 1954 - 110 min
legendado em português | M/12
Um dos westerns maiores
da história do cinema, de cores agressivas e imagens barrocas (as fabulosas
cenas de Joan Crawford no interior do saloon, o cenário deste com
os fantomáticos croupiers e a roleta a rodar). Um filme “onde
os cowboys desmaiam e morrem com a graça das bailarinas”
(Truffaut). E um “duelo” sem tréguas entre as fabulosas Vienna (Crawford) e
Emma (McCambridge). “Rever as imagens do JOHNNY GUITAR é rever a recordação
delas. Para quem o vê pela primeira vez, é ainda de rever que se trata. Porque
todas as personagens não fazem outra coisa. […] JOHNNY GUITAR é um filme construído
em flashback sobre uma imensa elipse? Ou é uma imensa elipse
construída sobre um flash que não pode come back?
Ou será que é tudo a mesma coisa?” (João Bénard da Costa).
No cinema, Basic Instinct, com
Sharon Stone em grandeza e plenitude. Curiosamente, é um filme de que quase
toda a gente se sente obrigada a dizer mal, com a preocupação de se demarcar de
qualquer suspeita de poder ter gostado por motivos menos puros. Contudo,
trata-se de um policial interessante e bem executado, e é difícil ficarmos
indiferentes à presença de Sharon Stone. Mas porquê? Por ela ser belíssima e
elegantíssima? Seria insuficiente. Há no filme um suplemento de fascínio, que
resulta do confronto entre a mera inteligência masculina e uma inteligência
sexual que combina o mais feminino dos corpos com a mais masculina capacidade
de raciocínio. A famosa cena do interrogatório não é apenas interessante pelo
facto de Sharon Stone, ao descruzar as pernas num relance o sexo nu. O que se
passa é mais do que isso: é uma debandada (em todos os sentidos do termo) da
inteligência masculino policial face a uma inteligência que se reforça na
afirmação fálica através do modo como desafia os homens quanto à sua vontade de
continuar a fumar. O riso nervoso e perturbado que se difunde entre polícias e
espectadores do filme é apenas o reconhecimento constrangido de que uma
inteligência sexual é sempre mais inteligente do que uma simples inteligência
sem mais nada. O que o filme de Paul Verhoeven tem de provocatório é o
curto-circuito que estabelece entre o primitivo da instância sexual e o mito
computorizado de uma inteligência sem falhas.
Eduardo Prado
Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II
Levanto-me
– para quê?, é a amargura que todos os dias me invade. Leio, mal ou bem, até às
tantas, sofro sonhos desabridos em que desponta ao acordar, uma ou outra ideia,
que se esvai, por não a conduzir até à secretária. Inicio a rotina com sarro na
boca e, nos intervalos dela, garatujo que porei um dia, aqui, o que agora não
faço. Faço projectos para a hora a que regressar a casa, mas, chegado lá, o
ciclo fecha-se, não há forças que o rompam.
Reduzo-me,
assim, à paisagem interior que is livros visitam. Será isto viver? Valerá a
pena teimar? Não é nem vale, mas assim me «cumpro», não sei por que teima
abjecta. Uma protérvia, esta vida arrepiada!
Neste comércio festivo que há dois mil
anos quase
perdura mal cobrindo remendadamente
o solstício do Inverno e os deuses sempre vivos
de cuja falsa morte o mundo paga em crimes,
como em vileza humana, o medo que escolheu
quando ao claror da aurora rósea e livre
de viver como os deuses e com eles
preferiu a lei e a ordem projectadas
na sombra em sombras da caverna obscura
e desejou o mal em preço de ser-se homem —
tudo o que em milhares de anos é tribal
congrega-se feliz num doce rebolar-se
da traição de que fomos contra a vida.
Tão vil que levou séculos a inventar
um deus assassinado para desculpá-la,
e fez dele o comércio das famílias
que cortam no peru as raivas de existirem,
beijando-se visguentas, comovidas,
tal como têm babado os pés dos deuses,
ah não eles mesmos mas imagens vãs
que não resplendam da grandeza humana.
Alguma vez teremos o dinheiro
para comprar de novo o Paraíso,
em vez de prendas para o sapatinho?
O Paraíso aqui — aquele que venderam
no começar do mundo. E que nos trocam
por outros no futuro ou nos aléns,
agora, aqui, aberto a todos, claro
- um sol sem fim nos bosques ou nas praias,
uma nudez sem morte nos corpos sem alma.
Afinal,
voltei a isto. Velho literato, impróprio já para serviços pesados, restam-me
estes servicinhos ligeiros. Tento iludir-me com projectos – não há forças. E
todavia sinto
que ainda posso realizar os dois ou três livros que imaginei. É a ilusão dos
velhos que ainda se imaginam capazes de amar. Só já se ama em imaginação. Ou
nem isso: na lembrança inverosímil de quando se imaginava.
-
O nosso maior receio é termos herdado a violência dele.
-
Engano vosso, meus filhos – declarou a mãe.
-
O vosso pai nunca ergueu um dedo contra mim.
-
Como pode protegê-lo depois de tantos anos?
-
Alguma vez viram uma nódoa negra no meu corpo?
-
Então de quem eram os gritos? – perguntou o meu irmão. – De quem era o choro?
-
Eu gritava e chorava – respondeu a mãe – porque o vosso pai se agredia a si
mesmo.
O
facto de a raiva do vosso pai se dirigir exclusivamente contra ele mesmo era um
prova de amor tão verdadeiro que, em prantos e soluços, a mãe implorava que o
homem, nesses acessos de raiva. A agredisse a aela.
-
O vosso pai só me tocou para me amar.
E
o seu verdaeiro vício não era o álcool. O seu verdadeiro vício éramos nós, a
sua família, que ele amava e que não sabia o que fazer com esse amor. O nosso
pai nunca aprendera a exercer a ternura que havia nele. Tinha medo de se
entregar e de não regressar. A bebida afastava-o dessa carência.