segunda-feira, 21 de novembro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 No sábado sublinhámos aqui a alegria de José Saramago sentiu quando olhou a publicação de Viagem a Portugal publicado como um livro do tamanho daqueles que constituem a sua Obra Completa.

Voltamos hoje a essa viagem.

Não é história, não é guia turístico, é um manancial de palavras e sítios que fogem aos chavões dos guias turísticos.

Um livro notável e que Mário Castrim (Junho de 1981) disse constituir um marco na literatura portuguesa: «Raramente a arte de escrever voou tão alto».

Há pormenores deliciosos, como este, (página 204), passado no Redondo:

«Desistiu de ir às antas da serra de Ossa, não por causa das ursas, que se acabaram, mas por causa do tempo, que se acabara também. Comeu, no entanto, as mais saborosas, suculentas e sumptuosas costeletas de porco que, em sua vida inteira, ao dente lhe chegaram. Dê Redondo isto a quem lá vá, e não lhe faltarão amizades.»

Coisas tão simples como umas costeletas de porco, comidas no Redondo.

Em Portugal sempre se comeu bem mas este tempo era um tempo em que havia tabernas, casas e casinhas, sem «chefs» a armar ao pingarelho.

Mas que já que estamos com o livro nas mãos fiquemos com o delicioso final:

«Este é o país do regresso. A viagem acabou.

Não é verdade. A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: «Não há mais que ver», sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre. O viajante volta já».

DE PAZ E DE GUERRA

Na mão serena que num gesto de onda

Em estátua musical o ar modela.

Na mão crispada que num frio de gelo

Na parede dos dias fundos gritos traça

Na mão de febre que num suor de chama

Em cinzas vai mudando quanto toca.

 Na mão de seda que num afago de asa

Faz que os sonhos nasçam como fontes de água.

Na tua mão de paz na tua mão de guerra,

Abre a flor do amor e faz o ninho a mágoa.

 

José Saramago em Os Poemas Possíveis

domingo, 20 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO

Ninguém escreve para o futuro, ao contrário do que se julga. Somos pessoas do presente que escrevemos para o presente.

José Saramago

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


É hoje que começa no Catar o Campeonato do Mundo da Vergonha.

A um país que o não é, antes uma choldra, o campeonato sujo custou 220 mil milhões de dólares e, segundo números, apenas até 2020, do The Guardian, já tinham morrido no Catar 6.500 trabalhadores.

Na longa conversa que manteve com João Céu e Silva, lamentava o espectáculo de os portugueses, por ocasião do Euro 2004, seguindo uma ideia provinciano-disparatada de Scolari, terem colocado bandeiras nacionais nas janelas e engalanado as ruas – e o patriotismo do portuguesinho não é assim tanto.

«Era profundamente ridículo essa quantidade de bandeiras. É aquilo a que eu chamo fogos de palha, que ardem com muita violência, queimam-se, esgotam-se e reduzem-se a cinzas em pouco.»

Já no seu livro Intermitências da Morte, ridicularizara o facto. 

Lembremos as palavras de Saramago:

«Um dia, uma senhora em estado de viúva recente, não encontrando outra maneira de manifestar a nova felicidade que lhe inundava o ser, e se bem que com a ligeira dor de saber que, não morrendo ela, nunca mais voltaria a ver o pranteado defunto, lembrou-se de pendurar para a rua, na sacada florida da sua casa de jantar, a bandeira nacional. Foi o que se costuma chamar meu dito, meu feito. Em menos de quarenta e oito horas o embandeiramento alastrou a todo o país, as cores e os símbolos da bandeira tomaram conta da paisagem, com maior visibilidade nas cidades pela evidente razão de 3estarem mais beneficiadas de varandas e janelas que o campo. Era impossível resistir a um tal fervor patriótico, sobretudo porque, vindas não se sabia donde, haviam começado a difundir-se certas declarações inquietantes, para não dizer francamente ameaçadoras, como fosse, por exemplo, Quem não puser a imortal bandeira da pátria à janela da sal casa, não merece estar vivo, Aqueles que não andam com a bandeira nacional bem à vista é porque se venderam à morte, Junte-se a nós, seja patriota, compre uma bandeira, Compre outra, Compre mais outra, Abaixo os inimigos da vida, o que lhes vale a eles é já não haver morte. As ruas eram um autêntico arraial de insígnias desfraldadas, batidas pelo vento, se este soprava, ou, quando não, um ventilador eléctrico colocado a jeito fazia-lhe as vezes, e se a potência do aparelho não era bastante para que o estandarte virilmente drapejasse, obrigando-o a dar aqueles estalos de chicote que tanto exaltam os espíritos marciais, ao menos fazia com que ondulassem honrosamente as cores da pátria. Alguma raras pessoas, à boca pequena, murmuravam que aquilo era um exagero, um despropósito, que mais tarde ou mis cedo não haveria outro remédio que retirar aquele bandeiral todo, e quanto mais cedo melhor o fizermos, melhor, porque da mesma maneira que demasiado açúcar no pudim dá cabo do paladar e prejudica o processo digestivo, também o normal e mais do que respeito pelos emblemas patrióticos acabará por converter-se em chacota se permitirmos que descambe em autênticos atentados contra o pudor, como os exibicionistas de gabardina de execrada memória. Além disso, diziam, as bandeiras estão aí para celebrar o facto de que a morte deixou de matar, então de duas uma, os as retiramos antes de que com a fartura comecemos a embirrar com os símbolos da pátria, ou vamos levar o resto da vida, isto é, a eternidade, sim, dizemos bem, a eternidade, a mudá-los de cada vez que os apodreça a chuva, que o vento os esfarrape ou que o sol lhes coma o colorido. Eram pouquíssimas as pessoas que tinham a coragem de pôr assim, publicamente, o dedo na ferida, e um pobre homem houve que teve de pagar a antipatriótico desabafo com uma tareia que, se não lhe acabou ali mesmo com a triste vida, foi só porque a morte havia deixado de operar neste país desde o princípio do ano.

José Saramago em As Intermitências da Morte, página 26.

JOGO DO LENÇO

Trago no bolso do peito 

Um lenço de seda fina, 

Dobrado de certo jeito. 

Não sei quem tanto lhe ensina 

Que quanto faz é bem feito.

 

Acena nas despedidas, 

Quando a voz já lá não chega 

Por distâncias desmedidas. 

Depois, no bolso aconchega 

As saudades permitidas.

 

Também o suor salgado, 

Às vezes, enxugo a medo, 

Que o lenço é mal empregado. 

E quando me feri um dedo, 

Com ele o trouxe ligado.

 

Nunca mais chegava ao fim 

Se as graças todas dissesse 

Deste meu lenço e de mim, 

Mas uma coisa acontece 

De que não sei porque sim:

 

Quando os meus olhos molhados 

Pedem auxílio do lenço, 

São pedidos escusados. 

E é bem por isso que penso 

Que os meus olhos, se molhados, 

Só se enxugam no teu lenço."


José Saramago em Os Poemas Possíveis

sábado, 19 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.

José Saramago em Deste Mundo e do Outro.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Nos Cadernos de Lanzarote, que tanto foram criticados por dizerem que Saramago se rodeava de vaidades, - ou como o próprio Saramago disse «tratados à pedradada» - encontramos traços importantes para que, para além dos livros, se conheça melhor o autor. Como neste exemplo, datado de 8 de Fevereiro de 1995, em que Saramago fala de uma coisa tão simples mas que lhe deu uma alegria quase transcendente:

«Chegaram exemplares duma nova edição da Viagem a Portugal, brochada e sem ilustrações. Realizou-se enfim o meu sonho de sempre (que Pilar, há uns anos, em conversa com Zeferino reanimou). Ver este livro ao lado dos seus irmãos, igualzinho a eles, sem tratamento especial. Até agora, a Viagem precisava de um lugar diferente na estante, um vão mais alto para poder acomodar a sua estatura de álbum rico. A partir de hoje, os leitores já podem andar por aí com ele debaixo do braço, familiarmente, despreocupados dos cuidados requeridos pelo papel couché e pelo acetinado das imagens. Catorze anos depois da sua primeira publicação, a Viagem é um livro como outro qualquer. Bem-vindo seja, pois, à comunidade dos livros comuns.»

Cadernos de Lanzarote Volume III, página 39.

Viagem a Portugal, publicado em Março de 1981, pelo Círculo de Leitores, é um dos livros mais notáveis publicados, nesse ano, em Portugal, e constitui o grande salto para a consagração do autor.

Este belíssimo livro, profusamente ilustrado, passava a constituir um marco na literatura portuguesa e beneficiou da projecção que o Circulo de Leitores tinha por todo o país. Note-se, que a 1ª edição teve uma tiragem de 30.000 exemplares.

Um Portugal visto com outros olhos, longe do guia turístico, longe dos livros de viagens, um Portugal que muitos desconheciam, também muitos ainda desconhecem, escrito com um brilho, uma força e um sentir só possíveis a quem verdadeiramente ama o seu país. Um olhar terno, humano, vigilante.

Ou como José Saramago descreve tão bem:            

«Esta viagem a Portugal é uma história. História de um viajante no interior da viagem que fez, história de uma viagem que em si transportou um viajante, história de viagem e viajantes reunidos em uma procurada fusão daquele que vê e daquilo que é visto, encontro nem sempre pacífico de subjectividades e objectividades. Logo: choque e adequação, reconhecimento e descoberta, confirmação e surpresa. O viajante viajou no seu país. Isto significa que viajou por dentro de si mesmo, pela cultura que o formou e está formando, significa que foi durante muitas semanas, um espelho reflector das imagens exteriores, uma vidraça transparente que luzes e sombras atravessaram, uma

ESFUMOU-SE A MAGIA DO ALGODÃO DOCE...?


Tal como qualquer criança que se preze, quando eu era menino os dias de ida à Feira Popular eram de grande excitação.

Embora a minha Mãe me tenha garantido que os meus Pais me chegaram a levar, de tenra idade, à primeira grande Feira que existiu em Palhavã, nos terrenos onde depois se instalou a Fundação Gulbenkian, não tenho qualquer recordação desses tempos.

Para mim, Feira Popular foi e sempre será a de Entrecampos, com o fascínio adicional de se realizar nos terrenos onde brinquei até aos 5 anos de idade e de ainda por lá ter ficado de pé, durante muitos anos, a própria casa onde nasci.

Essa Feira abriu ao público em 1961, tinha eu 7 anos, pelo que não será de estranhar que as minhas primeiras memórias dela sejam as de ver desaparecer de vista os meus três irmãos, muito mais velhos do que eu, e ficar sentadinho na mesa do restaurante ao lado dos meus Pais, ansiosamente à espera que o meu Pai acabasse de fumar o charuto ou a cigarrilha com que se deleitava no final dessas refeições.

Depois, ano após ano, fui ganhando alguma autonomia, desde que não desaparecesse para muito longe e não faltasse ao encontro no local determinado.   

Nesses primeiros tempos, passar pela grande porta principal da Feira Popular, aquela que se abria para a Avª da Republica, era como entrar no Paraíso.

Logo à entrada, do lado esquerdo, estavam os aviões e um pouco mais à frente, deslocado sobre o lado direito, estava um lago onde havia um barco a motor feito de madeira, daqueles que eu costumava ver nos filmes e nas séries que passavam na televisão. Era o divertimento mais caro de toda a Feira e os miúdos pequenos só podiam entrar acompanhados por um adulto, pelo que tive de esperar ainda muitos anos até poder ter o prazer de lá ir sozinho e conduzir o barco só com uma mão…

Como é normal numa grande Feira como aquela, os divertimentos eram imensos e não os poderei evocar aqui todos, mas apenas alguns que recordo com maior nostalgia.

O Poço da Morte, ao fundo do lado esquerdo, onde uma mulher muito forte e um rapaz mais novo e magrinho, que iria jurar que se chamava Joselito, anunciavam a mais ousada e perigosa de todas as aventuras. Era, de facto, arrepiante ver o Joselito a andar de mota nas paredes de um profundo poço, às vezes sem mãos e outras de pé no assento da motoreta. Ainda hoje me arrepio só de pensar no medo que, então, me suscitavam essas visões.

O grande Carrocel do meio da Feira (havia outros mais pequenos…), que teve o condão de me permitir avaliar o meu próprio crescimento, à medida que ia conseguindo socar as bolas que se encontravam lá bem no alto. Já mais crescidote, o meu grande gozo era batê-las com força tal que elas andassem por lá às voltas durante tanto tempo que quem viesse sentado atrás de mim não tivesse sequer a mínima hipótese de as alcançar.

A meio da Feira, perto dos cafés das farturas, estava instalada uma maquineta que, nos anos 60, era uma precursora dos “vídeoclips” que chegariam em força décadas mais tarde. Metia-se uma moedinha  e escolhia-se um filme a cores, com um artista a cantar, que depois passava  num ecrã grande que lá estava instalado, bem no alto.  Quem pagasse tinha direito a ficar na primeira fila, mas todos os restantes mirones estavam autorizados a ficar a ver mais atrás, sem qualquer problema. A seleção não deveria ser muito variada, porque aqueles que me lembro de lá ter visto foram sempre os mesmos: Sylvie Vartan a cantar “Si je Chante” à beira de uma piscina, Johnny Hallyday a andar a cavalo e a cantar já não me lembro bem o quê e um espanhol chamado Niño de Múrcia a cantar “Granada”,  enquanto se passeava por uns lagos e por uns jardins, que hoje posso imaginar que seriam os do Alhambra. Sempre que por lá passava, se estivesse a passar um filme não perdoava, mesmo que já o tivesse visto uma dezena de vezes…

Outra diversão imperdível para mim era, na zona norte da Feira, mais próxima de Entrecampos, um boneco de madeira que fazia de guarda-redes, com um buraco no meio. Rematava-se de longe, e quem conseguisse meter a bola no buraco ganhava um pirolito. Com o andar dos anos tornei-me um verdadeiro especialista naquilo… A técnica era não chutar de biqueira, mas sim devagar e com a parte lateral esquerda do pé direito, levando a bola a levantar um pouco, mas apenas o suficiente para ela passar pelo buraco. Tinha uma taxa de sucesso elevada, e porque não me apetecia andar a beber gasosas umas atrás das outras, às vezes trocava esse prémio pelo direito a dar mais uns chutos…  

Uma outra coisa que, se me deixassem, não perdia, era ir ver uns filmes a um edifício que ficava logo à entrada da porta principal, do lado esquerdo. Julgo que deveria ser qualquer coisa ligada à Camara Municipal, porque lá passavam curtos filmes acerca dos bairros antigos de Lisboa. O que eu mais gostava de ver era o Miradouro de Santa Luzia, e esse fascínio de ver o casario a descer por ali abaixo, com o rio ao fundo, acompanhou-me durante décadas. Hoje aquilo está apinhado de turistas e já o perdi um pouco, mas assim que tive ordem de soltura para andar a vaguear pela cidade, quantas vezes subi eu do Martin Moniz a Alfama e à Costa do Castelo só pelo prazer de me passear por essas ruelas. E, mais tarde, também namorar, claro está…

Para além do jantar familiar, o meu Pai tinha duas rotinas na Feira de que não abdicava: uma era a de ir à grande barraca das “panelinhas” e eu adorava aquela confusão, com o “speaker” bem lá no alto a gritar  “vai rodar, rodar, rodar as panelinhas!”, e depois toda a gente a olhar para as senhas para ver se lhes tinha saído alguma coisa e a deitá-las para o chão quando não tinham prémio, que era a esmagadora maioria das situações; outra era a de, no momento da saída da Feira, passar pelo balcão dos “furinhos” dos chocolates, perguntar se as bolas dourada e prateada já tinha saído e, na negativa, furar o resto que havia a furar na caixa, desde que já não faltassem assim tantos furos para ela ficar esgotada. Regressávamos a casa com um saquinho cheio de chocolates e, com alguma sorte, alguma coisinha me haveria de calhar…

Não falo aqui do Comboio Fantasma porque, não sei porquê, essa viagem sempre me meteu medo até muito tarde e eu era alvo de chacota por parte dos meus irmãos. Fugia daquilo como Diabo da cruz, mas os sacaninhas, muitas vezes, obrigavam-me a ir à viva força…

Eram belas essas noites quentes de Verão na Feira Popular com toda a Família, e recordo-as com muita saudade.

Mas quando hoje olho para trás percebo que, para mim, o fascínio não emanava todo ele da Feira em si. Naquelas noites de Verão, ir jantar à Feira era um momento de harmonia familiar, uma breve pausa num quotidiano que não raras vezes tinha o meu Pai e a minha Mãe às turras um com o outro, os meus irmãos à zaragata entre eles e eu, pequenino, a um canto da sala a tentar passar despercebido para que ninguém se lembrasse de embirrar comigo…

Uma ou duas vezes por ano havia uma noite que era a “Noite do Senhor Milionário”. Tínhamos de andar a perguntar a quem nos aparecesse à frente “O Senhor é que é o Senhor Milionário?”, porque para quem acertasse no homem o prémio era muito atrativo. Nunca encontrei milionário nenhum, mas o meu Pai, que era um homem com ar muito solene que ia para a Feira de fato completo e a única tolerância que permitia no vestuário era tirar a gravata, foi muitas vezes confrontado com essa pergunta. Infelizmente, não era ele o Senhor Milionário…

Uma outra tradição inesquecível da Feira Popular era o jantar da passagem de ano escolar…

Desde que ele me levou lá pela primeira vez por ter passado no exame da 4ª classe e da Admissão, sempre exigi que o meu Pai mantivesse essa tradição de me levar à Feira Popular comer um frango inteiro com batatas fritas, quando eu passava de ano escolar. Íamos quase sempre ao Restaurante Pescador, que ficava mesmo ao lado do “Café dos Pretos” (perdão, dos africanos, como hoje seriamos obrigados a dizer…!), e no final do jantar ele dava-me uma nota de 20 escudos para gastar onde quisesse, o que era uma autêntica fortuna. Fiz questão que essa tradição do jantar na Feira nunca se perdesse, até aos meus tempos da Faculdade, e só se perdeu com a morte do meu Pai, em 1974… 

À medida que os anos passavam a Feira foi-se alastrando, a casa onde eu nasci foi deitada abaixo e eu fui perdendo o interesse em lá ir, com exceção do tal jantar. 

Até por volta dos meus 16/17 anos ainda às vezes lá ia à noite só para jogar matraquilhos com o meu amigo João Pedro, estando ele longe de imaginar que, algumas décadas depois, iria tornar-se Administrador da entidade que gíria todo aquele espaço…


Muitos anos mais tarde passei a ir lá com as minhas filhas, com quem procurei manter a tradição do jantar da passagem de ano escolar. Mas eram outros tempos, a facilidade de acesso a outro tipo de diversões que elas então tinham não era comparável com a da minha infância e eu percebia que elas não sentiam naquele espaço a mesma magia que fora minha…

Depois disso ainda lá fui várias vezes com o meu sogro e com o meu cunhado, de propósito para comer ensopado de enguias num dos restaurantes que lá havia.

E foi, para mim, o canto do cisne da Feira Popular, que viria a encerrar em 2003, não mais voltando a abrir em lado nenhum, pese embora as promessas então efectuadas… 

Deixei, propositadamente, para o fim outro dos grandes prazeres de infância que eu tinha na Feira Popular, que era o de comer algodão doce.

Era mais outro fascínio, esse, o de sentir o cheirinho a aproximar-se, chegar à banca e ver um senhor todo vestido de branco, com um chapéu igualmente branco na cabeça, puxar de um pauzinho e aos poucos, como se de um verdadeiro golpe de magia se tratasse, vermos esse pauzinho a encher-se de um algodão doce que nos parecia saído não se sabe bem de onde, à medida que ele o girava no ar… 

Com o passar dos anos foram aparecendo outras cores, mas no meu tempo o algodão era branco, muito branco. Levávamos à boca e ficávamos com os lábios e com o queixo cheios de açúcar, que depois trataríamos de lamber até onde a nossa língua chegasse. Às vezes tirávamos pedaços de algodão doce com os dedos e levávamos à boca, e lá teríamos de xupar os dedos no final, para que nada de doce se perdesse.

A verdade é que ao algodão doce, e só a ele, fico a dever o facto de me ter passado pela cabeça vir aqui hoje falar-vos  desses meus gloriosos tempos da Feira Popular.

Porquê, perguntar-me-ão vocês, com razão…?

No Centro Comercial Oeiras Parque encontrei um destes dias a maquineta que aqui vos mostro, que nunca antes tinha visto em lado nenhum. Coloca-se umas moedinhas na ranhura e a máquina trata de tudo sozinha. Podemos escolher  o formato, o sabor e não sei mais quê…

Foi-se o cheirinho, foi-se o tal senhor vestido de branco que fazia piruetas com o pauzinho e que no final, com um sorriso no rosto, nos entregava o algodão na mão, foi-se a magia…  Ficou uma máquina fria e impessoal que nem sequer um sininho no final da operação fez tocar.

As minhas duas netas mais velhas queriam experimentar, mas eu disse-lhes que não, que mais valia comerem pipocas no cinema…

Já desapareceram, nesta cidade, tantas figuras da minha infância: os vendedores de jornais nas esquinas, os engraxadores de sapatos com a caixa de madeira às costas, os vendedores de castanhas, os fotógrafos “a la minuta” que deambulavam pelos jardins, os “amola facas e tesouras” com a sua roda grande que funcionava a pedal, as vendedeiras de figos (“quem quer figos, quem quer almoçar…?”), e até os pobres deixaram de vir pedir às portas, como dantes o faziam aqueles a quem eu abria a porta e que a si próprios se identificavam  como sendo “os pobres da sua (minha…) mãezinha”…

Mas não… Em resposta à minha própria questão, não acredito que se tenha esfumado, de vez, a magia do algodão doce. Iremos continuar a encontrá-la, certamente, nas centenas de Festas de aldeia que na Primavera e no Verão assolam este país de lés a lés.

Mas a verdade é que fiquei a magicar naquela terrível máquina do Centro Comercial e neste admirável Mundo novo em que já vivemos, onde tudo é – garantem-nos… - exclusivamente pensado, não em função da quantidade de dinheiro que entra no bolso de alguns poucos, mas sim em prol do nosso próprio conforto e comodidade….

 

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira 

NOTÍCIAS DO CIRCO

Que sabemos nós do trabalho escravo migrante que se pratica em Portugal?

Os diversos trabalhos agrícolas, apanha do tomate, dos morangos, da azeitona, de quase tudo, empregam trabalhadores «pago»s miseravelmente, «vivendo» em habitações sem o mínimo de condições de habitualidade, explorados por máfias nacionais e internacionais.

Que sabemos dos quase três mil timorenses, chegados a Portugal nos últimos meses, que pagaram a mafiosos para virem trabalhar e nem trabalho nem réstea de uma mínima esperança em dias melhores e, agora arrastam-se, dia e noite, pelo Rossio, pelo Martim Moiniz?

Sim, preocupamo-nos com a exploração dos trabalhadores migrantes no Catar, mas que sabemos realmente do que se passa aqui, mesmo ao nosso lado?

Como disse Marcelo: «… mas, enfim, esqueçamos isso…», nada que um golo do Ronaldo não faça olvidar, ainda mais, toda esta miséria!

Esqueçamos lá essa treta de ter os pés assentes no chão!...

EU LUMINOSO NÃO SOU

Eu luminoso não sou. Nem sei que haja
Um poço mais remoto, e habitado
De cegas criaturas, de histórias e assombros.
Se, no fundo poço, que é o mundo
Intratável e secreto das águas interiores,
Uma roda de céu ondulando se alarga,
Digamos que é o mar: como o rápido canto
Ou apenas o eco, desenha no vazio irrespirável
O movimento de asas. O musgo é um silêncio,
E as cobras de água dobram rugas no céu,
Enquanto, devagar, as aves se recolhem.

José Saramago em Provàvelmente Alegria

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO

«Por muito vadio que de sua natureza um homem, seja, a casa, se a mulher que nela está é estimada e os filhos amados, tem o gosto que tem o pão, não é para todas as horas, mas sente-se-lhe a falta se não for todos os dias.»

José Saramago em Memorial do Convento

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


A vida literária de José Saramago está cheia de episódios rocambolescos. Um deles passa-se ao tempo da atribuição, em 1982, do Prémio Cidade de Lisboa. Governava a cidade o eng. Krus Abecassis que demorou longo tempo em cuidar da azia que lhe invadia as entranhas por ter de entregar a Saramago o respectivo tardio prémio. E Saramago não o poupou quando entendeu terminar o discurso de entrega do prémio, falando de trabalhadores:

« Levantado do Chão fala de trabalhadores. Foi também a trabalhadores que dirigi as palavras que aí ficam. Aprendamos um pouco, isso e o resto, o próprio orgulho também, com aqueles que do chão se levantaram e a ele não tornam, porque do chão só devemos querer o alimento e aceitar a sepultura, nunca a resignação.»

É este o discurso:

« Quase sete meses passados sobre a data em que me foi atribuído, recebo o Prémio Cidade de Lisboa. Decida cada um de nós se foi ou não excessiva a demora, se ela se justificou ou não por mais urgentes obrigações, se faz ou não sentido manifestar eu esta estranheza. Afinal, quem sabe se não será de bom aviso deixar que o tempo dissipe os vapores da imodéstia, os fumos da presunção que, inevitavelmente, atordoam a cabeça do premiado nas primeiras horas, quando lhe chovem em cima abraços, telegramas, palavras calorosas, e, também, inevitavelmente, a morrinha dos despeitados. Parece que é isto a natureza humana. A sete meses de distância as coisas retomaram a sua verdadeira dimensão, entretanto o autor adiantou outro trabalho, o livro distinguido é passado já. Hoje precisaria mesmo de algum esforço para recordar o contentamento que então senti, e se uma parte dessa felicidade está ressurgindo agora, é porque vieram aqui amigos meus. Não distingo entre eles e o prémio, se precisamente não é a presença deles o maior prémio que eu poderia desejar. A todos agradeço, como igualmente agradeço ao senhor presidente da Câmara ter querido, em pessoa, formalizar a decisão do júri.

Ditas estas palavras ninguém levaria a mal se me calasse. Porém, tendo os escritores tão poucas ocasiões de falar nos salões do poder, a mim próprio não perdoaria se deixasse passar esta em claro. Não serei tão longo quanto conviria ao assunto. Peço, no entanto, alguma paciência e atenção.

Começarei por perguntar: é possível e desejável ser escritor em Portugal? Está a sociedade que somos interessada nos escritores que temos? Diria, para responder de uma só vez, que, aparentemente, a sociedade portuguesa nada tem contra nós: publica-nos ocasionalmente os livros, graças à prestimosa, suicidária e também não raro inábil atividade dos editores; dá-nos um lugar na História da Literatura se nos esforçamos por merecê-lo, condição sempre necessária, claro está, embora não suficiente; interessa-se por nós, até ao limite das tiragens ou da proteção oficial; começou agora a preocupar-se com a nossa doença, a nossa reforma, a nossa morte, na proporção dos direitos de autor; e, enfim, se morrermos mesmo, se em vida fomos estimados e conhecidos, se já tínhamos ou prometíamos ocupar algum espaço no panteão das glórias, se havia um remorso a emendar, uma dívida moral a exigir satisfação, ou, menos nobremente, uma vaidade póstuma a lisonjear, hoje a moda é pôr o nome do defunto na esquina duma rua, sem esperar que o tempo faça crescer essa árvore, amadurecer esse fruto, apurar esse vinho. E parece que também tudo isto se tem de agradecer.

Aliás, o escritor português, se quiser viver à boa paz com o mundo das conveniências próprias e dos interesses alheios, há de cultivar o sentimento de gratidão perpétua. Agradece ao editor que o publica, ao livreiro que o expõe, ao crítico que o julga, ao leitor que o lê, à rádio quando o diz, à televisão se o mostra. E os livros, quem lhos reconhece, que de agradecimentos não falo. A pátria? Que pátria? Esta cidade de Lisboa que dá prémios? O Porto? Coimbra? A aldeia onde nascemos? Aquele lugar de além, ou vila de mais longe, aonde o livro, um livro, por milagre chegue? Que peso real, que importância efetiva, que influência concreta tem o escritor português no seu país? Fora da roda dos três mil leitores, e vai com sorte se o lêem tantos, é o deserto. Avançar por ele adentro, plantar oásis, abrir poços, custa muito dinheiro, muito anúncio no jornal, muita campanha de televisão e rádio, enfim, para usar o calão do tempo, muito «marketing».

Fala-se interminavelmente de cultura, mas não se vive a cultura. Comemoram-se os escritores que morrem, mas nada se faz para garantir a atividade dos vivos. Se um escritor, por desespero, deixou de escrever, ninguém lhe vai perguntar: «De que precisas para trabalhar?» Dão-se palmas benévolas aos escritores que envelhecem, mas condenam-se ao silêncio os escritores que nascem. Afirma-se que a cultura é una e nacional, mas impede-se, ou dificulta-se, ou menospreza-se a sua divulgação nos meios de comunicação social. Apregoa-se o pluralismo, fomenta-se a letra única. Teoriza-se o consenso, pratica-se a excomunhão.

Nada disto é novidade. Novidade será dizê-lo aqui, em hora geralmente só de parabéns. Sei que estou a infringir as convenções que usam regular o estilo e a matéria destes discursos, mas não o faço por malevolência ou provocação. Digo estas coisas ácidas com a esperança de que o lugar e a circunstância lhes reforcem o significado. E digo também aos escritores que é nossa obrigação exigir, que não podemos continuar a consentir nesta marginal vida que é a nossa, a frustração de todos os dias, os livros constantemente adiados, o incompleto aprofundamento das questões que importam ao trabalho literário, a dificuldade de romper as barreiras de um quotidiano desgastante, a carência econômica, a insegurança. Quem responde por não terem os escritores condições sequer mínimas para exercer o seu ofício com a responsabilidade inteira de quem não tem que servir outros patrões senão esse, exigentíssimo, que é a criação literária? Insisto: reclamemos mais, e com mais força. Se não nos ouve o poder, tentemos que nos ouça o país. Afirmemos o direito à profissão de escritor como expressão particular de um geral direito ao trabalho. Cuidemos um pouco menos da carreira pessoal e um pouco mais da reivindicação coletiva. Quando cada um de nós, se assim o quis, for escritor em todas as horas do seu dia, talvez não escreva. Melhor por isso, mas acrescentará um novo e legítimo orgulho ao talento que tiver, e se é verdade que de talento todos achamos ter que baste, parece-me que de orgulho deveríamos andar mais bem servidos.

Termino. Procurarei que o meu trabalho futuro seja digno deste prémio. Não esqueço que o receberam Maria Velho da Costa e Augusto Abelaira. Não poderia esquecer que o recebeu Carlos de Oliveira, nossa irremediável perda.

E agora, sim, concluo. Levantado do Chão fala de trabalhadores. Foi também a trabalhadores que dirigi as palavras que aí ficam. Aprendamos um pouco, isso e o resto, o próprio orgulho também, com aqueles que do chão se levantaram e a ele não tornam, porque do chão só devemos querer o alimento e aceitar a sepultura, nunca a resignação.»

José Saramago em Folhas Políticas, página 109.

NOTÍCIAS DO CIRCO

«O Catar não respeita os direitos humanos. Toda a construção dos estádios e tal..., mas, enfim, esqueçamos isto. É criticável, mas concentremo-nos na equipa.»

Marcelo Rebelo de Sousa, ontem, no final do jogo Portugal-Nigéria. 

NA ILHA POR VEZES HABITADA

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade,
e dizem-se as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres,
com a paz e o sorriso de quem se reconhece
e viajou à roda do mundo infatigável,
porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de
nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

José Saramago em Provàvelmente Alegria

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO



 

A amizade, quando quer, tem bons olhos.

José Saramago em Cadernos de Lanzarote, Volume IV

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Não sei, terei um dia destes de me informar, se a Fundação Saramago tem, ou está em vias de editar, um livro com as fotografias tiradas por Saramago, principalmente as que fez para o seu  Viagem a Portugal.

Mas no 3º volume de Cadernos de Lanzarote existe este texto sobre fotografia:

«As mãos levantam a câmara fotográfica à altura dos olhos e o mundo desaparece. Rápido ou lento, segundo o grau de urgência ou de provocação da imagem que vai ser captada, o movimento das mãos respondeu a um estímulo visual. Agora, por trás do visor, o olho fará reaparecer, não o mundo, mas um fragmento dele, o pouco que pode caber num rectângulo cujos lados, como lâminas insensíveis, talham e cerceiam o corpo da realidade. Naquele derradeiro e ínfimo instante que precede o disparo da objectiva, e como se ao longo das linhas que imperativamente limitam o visor existisse uma rede de microscópicas condutas, o mundo exterior ainda procurará penetrar no espaço que lhe foi retirado, para nele deixar um sinal da sua obliterada dimensão. Fragmento de um todo ou da sua aparência, cada fotografia, por sua vez, é fragmento de fragmentos, e, por um movimento de aproximação e expansão em todas as direcções, ao mesmo tempo que pelo movimento contrário de conversão ao ponto de resolução que finalmente é, torna-se, na imagem única que apresenta, leitura múltipla do mundo. Mas isso só mais tarde nos será mostrado, quando a imagem apreendida tiver passado, revelada, ao papel. Então saberemos verdadeiramente o que havíamos visto quando e onde apenas julgávamos não ter feito mais do que olhar. 

Espalhamos as fotografias diante de nós, dispomo-las por temas, assuntos, afinidades, queremos que umas façam perguntas e outras respondam, desejaríamos que contassem uma história, mesmo que breve, mesmo que não viéssemos a conhecer-lhe o fim. Mas parece ser do natural das imagens, ainda quando colhidas de um mesmo objecto e num período mínimo de tempo, resistirem a perder a sua identidade: cada uma delas quererá ser, por supostas e exclusivas virtudes suas, o alfa e o ómega, não só da compreensão de si mesma mas também de todas as decifrações possíveis do espaço invisível que a rodeia, dessa ausência representada pela brancura das margens. O que a fotografia não pode mostrar é precisamente o que emprestaria sentido de realidade ao que estiver mostrando. Por isso talvez seja correcto afirmar que o olho que vê a fotografia, justamente por ser fotografia o que vê, não é o mesmo, ainda que o mesmo seja, que olhou e viu uma parte do mundo para fotografá-la.»

José Saramago em Cadernos de Lanzarote Volume III, página 24.

POEMA PARA LUÍS DE CAMÕES

Meu amigo, meu espanto, meu convívio,
Quem pudera dizer-te estas grandezas,
Que eu não falo do mar, e o céu é nada
Se nos olhos me cabe.
A terra basta onde o caminho pára,
Na figura do corpo está a escala do mundo.
Olho cansado as mãos, o meu trabalho,
E sei, se tanto um homem sabe,
As veredas mais fundas da palavra
E do espaço maior que, por trás dela,
São as terras da alma.
E também sei da luz e da memória,
Das correntes do sangue o desafio
Por cima da fronteira e da diferença.
E a ardência das pedras, a dura combustão
Dos corpos percutidos como sílex,
E as grutas do pavor, onde as sombras
De peixes irreais entram as portas
Da última razão, que se esconde
Sob a névoa confusa do discurso.
E depois o silêncio, e a gravidade
Das estátuas jazentes, repousando,
Não mortas, não geladas, devolvidas
À vida inesperada, descoberta,
E depois, verticais, as labaredas
Ateadas nas frontes como espadas,
E os corpos levantados, as mãos presas,
E o instante dos olhos que se fundem
Na lágrima comum. Assim o caos
Devagar se ordenou entre as estrelas.

Eram estas as grandezas que dizia
Ou diria o meu espanto, se dizê-las
Já não fosse este canto.

José Saramago em Provàvelmente Alegria


quarta-feira, 16 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO

 Há homens que desparecem e logo se descobre que estavam mortos desde muito cedo. Há homens que ficam connosco, pessoas que nos acompanham como tesouros silenciosos no fundo do mar.

Há pessoas que nos falam e nem as escutamos; há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam.

Mas há pessoas que, simplesmente, aparecem em nossa vida e que marcam para sempre...

Cecília Meireles                  

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 16 de Novembro de 1922.

«Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa.»

O programa para o Centenário do Nascimento de José Saramago marca que, uma das muitas iniciativas para o dia de hoje, reside em 100 escolas do Ensino Secundário promoverem a leitura, em simultâneo, de páginas do Memorial do Convento e de O Ano da Morte de Ricardo Reis.

Também quero fazer uma leitura.

Gostaria de ser eu a escolher a obra de José Saramago, mas cinjo-me ao que o programa menciona.

Agora, há que escolher entre as duas obras e a dificuldade começa aí porque, tanto um como o outro, encontram-se nos cinco livros da minha preferência, que é uma ideia simplista como outra qualquer  porque são muito mais esses livros.

Peguei em O Ano da Morte de Ricardo Reis e, delicadamente, escuso-me a não ter que revelar os porquês mas não deixo de dizer que é maravilhoso aquele parágrafo final: «São assim os labirintos, têm ruas, travessas e becos sem saída, há quem diga que a mais segura maneira de sair deles é ir andando e virando sempre para o mesmo lado, mas isso, como temos obrigação de saber, é contrário à natureza humana.»

«Este anúncio é um labirinto, um novelo, uma teia. A olhar para ele, deixou Ricardo Reis esfriar-se o café com leite, coalhar-se nas torradas a manteiga, atenção, estimados clientes, esta casa não tem agências em parte alguma, cuidado com os que se intitulem agentes e representantes, porque o fazem para ludibriar o público, chapas transfuradas para marcar barris, carimbos para os matadouros, quando Lídia entrou para vir buscar a bandeja afligiu-se, O senhor doutor não gostou, e ele disse que tinha gostado, pusera-se a ler o jornal, distraíra-se, Quer que mande fazer outras torradas, aquecer outra vez o café, Não é preciso, fico bem assim, o apetite também não era grande, entretanto levantara-se e para sossegá-la pusera-lhe a mão no braço, sentia a cetineta da manga, o calor da pele, Lídia baixou os olhos, depois deu um passo para o lado, mas a mão acompanhou-a, ficaram assim alguns segundos, enfim Ricardo Reis largou-lhe o braço, e ela agarrou e levantou a bandeja, as porcelanas tremiam, parecia que se estava dando um abalo de terra com o epicentro neste quarto duzentos e um, mais precisamente no coração desta criada, e agora afasta-se, tão cedo não vai serenar, entrará na copa e pousará a louça, a mão pousará no lugar onde a outra esteve, gesto delicado que há-de parecer impossível em pessoa de tão humilde profissão, é o que estará pensando quem se deixe guiar por ideias feitas e sentimentos classificados, como talvez seja o caso de Ricardo Reis que neste momento se recrimina acidamente por ter cedido a uma fraqueza estúpida, Incrível o que eu fiz, uma criada, mas a ele o que lhe vale é não ter de transportar nenhuma bandeja com louça, então saberia como podem tremer igualmente as mãos de um hóspede. São assim os labirintos, têm ruas, travessas e becos sem saída, há quem diga que a mais segura maneira de sair deles é ir andando e virando sempre para o mesmo lado, mas isso, como temos obrigação de saber, é contrário à natureza humana.»

José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis, página 89

OUTONO

Não é agora Verão, nem aqui tornam

Os dias indiferentes do passado.

Já Primavera errada se embuçou

Numa dobra do tempo castigado.

É tudo quanto tenho, o fruto puro

Sob o calor de Outono amadurado.

José Saramago em Os Poemas Possíveis


terça-feira, 15 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Aquilo que tiver que ser meu às mãos me há-de vir ter.

José Saramago

 Legenda: trabalho de Alexandra Silva, revista da Livraria Bertrand

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 O amanhã de há cem anos, uma aldeia ribatejana verá nascer um português que virá a ser Prémio Nobel da Literatura.

Anabela Mota Ribeiro, aquando da publicação de As Pequenas Memórias, entrevistou José Saramago.

Passemos os olhos por parte dessa conversa:

«Houve dois momentos importantes na minha vida que decidiram tudo. Um deles, não muito consciente, foi o facto de ter deixado de escrever depois de ter escrito esses livros (Terra do Pecado e Clarabóia). Durante 20 anos, quase não escrevi. Só voltei a publicar em 1966.

O segundo momento foi em 1975, quando depois do 25 de Novembro, fiquei sem trabalho e sem esperança de o conseguir. «E agora, o que é que eu faço? Ternho aí alguns livros, mas não tenho uma obra, é agora ou nunca.»

Durante cinco ou seis anos, talvez sete, vivi de traduções, ao mesmo tempo que ia escrevendo o Manual de Pintura e Caligrafia, e o Objecto Quase. A sorte foi que o Círculo de Leitores me tivesse convidado para escrever Uma Viagem a Portugal, em 1979-1980. Foi bem pago, deu-me uma estabilidade económica que me permitiu afrontar durante um ou dois anos o trabalho da escrita, sem estar a pensar que tinha que ganhar dinheiro – ele já estava ganho.

O Eduardo Lourenço tem uma explicação mais simples para tudo isto: «A tua vida é um milagre.» E ficámos por ali, não havia mais nada a dizer.

Como é que vou ser recordado? Se calhar vou pedir o impossível: eu considero-me boa pessoa. Então, que nem a pessoa que sou apague o escritor que também sou, e que nem o escritor que sou apague a pessoa que sou. Se calhar é muita sorte alguma destas ficar. Que fiquem as duas, é capaz de ser impossível.»

Legenda: Contracapa de Correspondência entre José Saramago e José Rodrigues Migueis. É um trecho de uma carta de Saramago para Migueis em que Saramago lhe conta que está para ser substituído, como director editorial, por Natália Correia, uma sacanicezinha levado a cabo pelos proprietários da Estúdios Cor.

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Reconhece que, neste mês de Novembro, com as atenções centradas em José Saramago poucas possibilidades têm existido para abordar outros temas e personagens.

Estes Rebotalhos permitem hoje, uma tentativa de remediar qualquer coisinha lembrando que Agustina Bessa-Luís lembrou que num mundo de cegos e cegueiras várias, provavelmente a lucidez se perca algures.

1.

O Partido Comunista mudou de secretário-geral e os media ficaram à beira de um ataque de nervos porque o novo secretário-geral, Paulo Raimundo, não lhes deu pano para manchetes, bisbilhotices e demais coisíssimas menores que eles tanto adoram para encher espaço televisivo e manchetes de jornais.

Exemplarmente,hmbf,exemplarmente, resumiu o assunto de modo eficaz e melhor é quase impossível:

«Já que insistem, cá vai e não me chateiem com o assunto. Paulo Raimundo tem vários problemas:

1.⁰ é comunista

2.⁰ não se formou no ISCTE

3.⁰ ninguém o conhece (isto é altamente problemático, como recentemente ficou demonstrado com a atribuição do Nobel da Literatura a Louise Glück)

4. ⁰ parece ausente das redes sociais, o que torna até duvidosa a sua existência 

5.⁰ ao contrário de Donald Trump, não foi democraticamente eleito

6.⁰ mesmo não sendo conhecido por ninguém, mesmo nada se sabendo sobre ele, é certo e sabido que é mais do mesmo (a mim não me enganam, quem não os conhece que os compre, não conheço mas não gosto...)

7.⁰ não tem experiência profissional fora do partido, tendo sido padeiro, carpinteiro e animador cultural por entretenimento (sublinhe-se o exemplo de António Costa, desde que aderiu à JS com 14 anos teve uma larga e intensa actividade laboral fora da política)

Isto podia continuar, mas tenho mais que fazer. Deixem o homem trabalhar, pá. E depois venham daí as sentenças. Com propriedade, claro, que isto de condenar por antecipação é assim a modos que aposta de casino.»

2.

Nestes dias, poderemos estar a assistir a um princípio para o fim da guerra na Ucrânia?

3.

Em cada dia pressente-se que o governo de maioria absoluta do Partido Socialista é uma balsa navegando à bolina, sem qualquer fim em vista.

4.

Luís Montenegro, qual traste-picareta-falante, em cada hora, vai lembrando todos os casos em redor do primeiro-ministro que têm surgido, desde Março e quando há casos, inventa…

Um desastre falando de outros desastres!...

5.

Percalços e vergonhas várias no poder local.

Isaltino de Morais acusado de prevaricação em assuntos relacionados em negociatas com processos públicos-privados, levando atrás outros arguidos, como uma deputada do PS, um antigo autarca de Mafra.

Ainda a detenção, pela Polícia Judiciária. do presidente e vice-presidente  da Câmara de Montalegre em negócios nebulosos que envolvem 20 milhões de euros. 

5.

 O que se passou com Miguel Alves, ex-braço direito de António Costa, saído agora do governo, aponta para histórias antigas que vêm desde os tempos em que Costa presidia à Câmara de Lisboa e em que terá pago mais de 80 mil euros a Alves em ajustes directos para assessoria, para dizer ainda que o afastamento agora do sorridente Alves desafia, de maneira pornográfica, o surreal.

O vigilante Marque Mendes – futuro presidente da república?, Marcelo também saiu para Belém ido dos comentários domingueiros na TVI – disse no domingo que António Costa foi muito imprudente ao convidar Miguel Alves para o governo.   

6. Em algumas esquinas da cidade há quem lembre, com palavras simples escritas em cartazes, que os preços e lucros das grandes empresas estão a aumentar e o povo está a pagar tudo o que resulta duma especulação desenfreada.

7 

Conclua-se, por hoje, com palavas e gostos amáveis que Pedro Garcias deixou no Público de 15 de Outubro:

«Colhidas as últimas uvas, e com o derradeiro lote, da casta Sousão, ainda por fermentar, fugi às saudades da vindima e fui para Cabo Verde tomar banhos de mar, ouvir mornas e coladeras, beber cerveja Strela e acrescentar mais uma página ao meu passado. Sim, o futuro não passa de uma possibilidade e de um desejo e o presente não é mais do que nada. Tudo o que acontece, em pensamento ou acção, é logo passado. Passamos a vida a somar recordações; e se a vida é longa, ainda corremos o risco de acabar esquecendo tudo.O Outono no Douro é a mais bela manifestação do ideal de beleza de uma paisagem vinhateira. Mesmo sem uvas, as videiras são como um arco-íris em fogo, cheio de encantamento. Mas, quando chega a noite, o imenso vale, ou serei eu, parece mergulhar numa tristeza sem fim, órfão da vindima e do Verão e ainda sem força e vontade de começar tudo de novo.

O Outono no Douro é a mais bela manifestação do ideal de beleza de uma paisagem vinhateira. Mesmo sem uvas, as videiras são como um arco-íris em fogo, cheio de encantamento. Mas, quando chega a noite, o imenso vale, ou serei eu, parece mergulhar numa tristeza sem fim, órfão da vindima e do Verão e ainda sem força e vontade de começar tudo de novo.»

AFRODITE

Ao princípio, é nada. Um sopro apenas, 

Um arrepio de escamas, um perpassar de sombra 

Como de nuvem marinha que se esgarça 

Nos radiais tentáculos da medusa. 

Não se dirá que o mar se comoveu 

E que a onda vai formar-se deste frémito. 

No embalo da água oscilam peixes 

E das algas as hastes serpentinas 

À corrente se dobram, como ao vento 

As searas da terra, as crinas dos cavalos. 

Entre dois infinitos de azul a onda vem,

Toda de sol vestida, rebrilhante, 

Líquido corpo de reflexos cegos.

Da terra, o vento corre para ela,

Tal o macho cioso para a fêmea aberta,

Transportando consigo o pólen das flores.

Fecundada, a onda rola agora, trovejando,

Na corrida para o parto que a espera

No leito de negras rochas que, na costa,

Se adorna de mil vidas fervilhantes.

Mais alto ainda as águas se suspendem

No segundo final da gestação imensa.

E quando, num furor de vida que começa,

A onda se despedaça no rochedo,

O envolve, o cinge, o aperta e dilacera,

Da branca espuma, do sol, do vento que soprou,

Dos peixes, das flores e do seu pólen,

Das algas trémulas, do trigo, dos braços da medusa,

Das crinas dos cavalos, do mar, da vida toda,

Nasce Afrodite, amor, nasce o teu corpo.

 

José Saramago em Os Poemas Possíveis

segunda-feira, 14 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO

Biografamos tudo, às vezes, contamos certo, mas é muito maior quando inventamos. A invenção não pode ser confrontada com a realidade, logo, tem mais probabilidade de ser exacta. A realidade é o intraduzível porque é plástica, dinâmica. E dialética, também. Sei disto um pouco, porque o aprendi em tempos, porque tenho pintado, porque estou a escrever.

José Saramago em Manual de Pintura e Caligrafia