sexta-feira, 17 de março de 2023

DA LITERATURA

Gosto de pessoas que não escondem as suas fragilidades. Não precisam de usá-las na lapela do casaco, é claro, mas que não as escondam se calharem em conversa. Fobias, egoísmos, incompetências, doenças psiquiátricas, mendicidades, etc., são o melhor que temos para nos dar. Porque o mais é falso ou não é particularmente nosso. O Pierce Brosnan e a Tyra Banks não existem; a nouvelle cuisine é uma cagada; o Fernando Mendes e o peixe frito são mesmo muito bons. Sou muito melhor escritor do que o Hemingway. Quase toda a gente é muito melhor escritor do que o Hemingway. Não percam tempo com o Hemingway se tiverem uma bola, alguns amigos e um jardim onde jogarem. Não percam uma oportunidade de suar. O suor é sempre bom, a menos que se sue por dinheiro. Fumem. Fumem muito. Os dentes castanhos são melhores do que os brancos. Melhor do que os dentes castanhos só não ter dentes nenhuns mas ter quem nos corte maçãs e queijo da ilha aos bocados pequeninos. Que se foda o Hemingway.

Miguel Martins em Resumo: a poesia em 2011

O REGRESSO DAS ANDORINHAS, DOS LÍRIOS...

Gosta de crónicas.

Já por aqui tem falado das crónicas que Ana Cristina Leonardo publica às sextas-feiras no Público crónicas que o ajudam no meio medo dos dias que correm, crónicas que falam das notícias do mundo lá de fora, do mundo cá de dentro, do monte onde Ana Cristina vive.

A de hoje fala-nos das primeiras andorinhas que regressam cheias de pressa, dos campos que se vão enchendo de lírios que merecem ser olhados com olhos de ver, como dizia o poeta mas, acima de tudo, da sua entrada no café em busca da cafeína que lhe abrirá os sentidos:   

«As mulheres, como é hábito, mostram-se mais inteligentes e resistentes, resultado de séculos e séculos de aprendizagem de sobrevivência.

Contrariando a ideia comum de que a metafísica é um saber reservado aos homens – dos tempos gregos antigos apenas nos restou, e quase nada de certo, Aspásia, estando Simone de Beauvoir com a razão quando escreveu n’O Segundo Sexo que “toda a história das mulheres foi feita por homens” – fui há dias surpreendentemente interpelada, sem preliminares, pelas mulheres reunidas no interior do café do monte – os homens num grupo separado no exterior ao sol.

Diga-nos, disseram-me elas, acredita que os mortos voltam à vida? Sem cafeína ainda que me carburasse o cérebro, hesitei na resposta, até porque algumas das presentes eram, além de crentes, viúvas, e quem sou eu para desesperançar quem quer que seja?

Lembrei-me do diálogo de Platão sobre a imortalidade da alma – cuja leitura obsessiva há anos me comprovaria a genialidade de Sócrates –, mas, sem o Fédon ali à mão, decidi que improvisaria. Antes que pudesse dizer palavra, a mais crente das presentes antecipou-se: “Eu sou católica, acredito em tudo, na Nossa Senhora, em tudo, mas não me venham cá dizer que os mortos voltam à vida”, e, demonstrando um empirismo de fazer inveja a Francis Bacon, acrescentou: “Das portas do Céu, ainda ninguém mostrou a chave”. »

NÃO GOSTO

Não gosto de contar os desastres em detalhe
mas, se quiserem, posso escrever uma lista com nomes e camas.

Sou bem capaz de molhar o pezinho na história da barbárie,
condecorar o medo,
cortar-me a mão com que limpo as feridas
de uma civilização em queda.

Posso perfeitamente
ir afiando o gume da esperança
com a flor branca de um cancro.

Sou, em definitivo, este comediante de rua
que serve a desconhecidos,
em copos pequenos,
a medida certa da sua agonia.
Descobre sonhos
onde outros só encontram coelhos.
Hoje por exemplo, quando tirou as luvas,
viu que lhe faltavam dedos.

Golgona Anghel em Resumo: a poesia em 2011.

quinta-feira, 16 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Marcelo Rebelo de Sousa, criticou os partidos à direita no parlamento por se terem oposto a que o Presidente do Brasil, Lula da Silva, discursasse na sessão solene do 25 de Abril.

1.

A Transtejo adquiriu a uma empresa espanhola dez catamarãs eléctricos por 52,4 milhões de euros para transporte de passageiros entre Lisboa e a margem Sul do Tejo, por concurso público internacional, mas apenas uma bateria — equipamento sem o qual as embarcações não podem navegar. Depois tentou comprar os nove acumuladores em falta, à parte, por mais 15,5 milhões, mas por ajuste directo, à mesma empresa. Para o Tribunal de Contas, que fez um acórdão demolidor a recusar o visto prévio à segunda aquisição, comprar catamarãs sem baterias é equivalente a comprar um carro “sem motor”, uma “bicicleta sem pedais” ou uma “moto sem rodas”.

A administração da Transtejo demitiu-se. O governo aceitou a demissão.

2.

No dia 11 de Março, quatro sargentos e nove praças não embarcaram no NRP Mondego para uma missão de acompanhamento de um navio russo, por consideraram que não existiam condições de segurança para a efetuar.

Entre as várias limitações técnicas invocadas pelos militares constava o facto de um motor e um gerador de energia elétrica estarem inoperacionais.

O Sr. almirante Gouveia e Melo disse aos jornalistas que «este acto vai ficar registado na nossa História porque um acto de insubordinação nas Forças Armadas é um acto de uma gravidade muito grande e nós não podemos ignorar.

No dia em que formos indisciplinados, no dia em que não acreditarmos na linha de comando, no dia em que essa linha de comando é subvertida, nós ficamos sem Forças Armadas.»

Os governos de Portugal há décadas que fazem enormes cortes nos dinheiros destinados às Forças Armadas. Razão mais que suficiente para não termos navios de guerra operacionais, nem aviões, nem tanques.

Soldados e marinheiros há muito que lutam para a obtenção de ordenados e subsídios que estejam de acordo com as responsabilidades que lhes são exigidas.

O sr. Almirante não devia ter dito o que disse, e nunca da maneira como o disse. São inquietantes as afirmações do sr. Almirante. A praça pública não pode substituir os tribunais.  

AO ACORDAR

Ainda mal tinha acordado, veio-lhe à memória

de súbito o rapaz que era costume

pagar na leitaria um copo a todos os amigos.


O dinheiro acendia-se-lhe

nas mãos antes de o pôr sobre o balcão.

 

Luís Miguel Nava em Poesia

quarta-feira, 15 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS

 A CEO da Sonae, escreveu uma carta aos trabalhadores da empresa em que declara que, face aos aumentos que se verificam na cadeia alimentar, existe  uma «campanha de desinformação» e que tal provoca «danos gravosos para a reputação do sector da distribuição alimentar», não deixando de lembrar trabalhadores, pagos quase miseravelmente e com horários de escravatura que: como sabem, baixámos as nossas margens para acomodar o aumento dos custos». 

Agora, «Os Mesmos de Sempre a Pagar» fizeram a entrega nos escritórios da Sonae em Matosinhos de uma carta-resposta à CEO:

«Esquece-se, Cláudia Azevedo, que os trabalhadores a quem se dirige conhecem os lucros anunciados pela Sonae e sentem na pele as dificuldades provocadas pelos preços praticados pelos supermercados, cujo grande número é propriedade da Sonae». A essas dificuldades, afirma o movimento, acrescem os «salários miseravelmente baixos que levam para casa»: responsabilidade directa de Cláudia Azevedo.

Não vale a pena tentar disfarçar, «eles sabem bem que os vossos lucros foram e continuam a ser acomodados no aumento dos preços».

Se mais não houvesse a condenar na missiva, o facto de colocar o ónus da questão numa campanha de desinformação sobre as causas da inflação alimentar, com danos gravosos para a reputação do sector da distribuição já seria suficiente: afinal, num momento tão difícil, a Sonae registou um lucro consolidado de 143 milhões de euros em 2022, mais 19% do que em 2021.

«Como cidadãos preocupados com estes aumentos escandalosos dos preços, principalmente nos bens alimentares e de primeira necessidade, consideramos urgente e necessário o controlo e fixação dos preços

dos bens essenciais, para além do aumento geral dos salários, tal como consideramos totalmente desnecessárias e desrespeitosas campanhas de desinformação, venham elas de onde vierem», mas «muito especialmente quando vêm de quem efectivamente especula»

 1.

Segundo o Jornal de Notícias, um professor da Escola Secundária de Baião foi hoje agredido por um aluno à cabeçada e ao pontapé, tendo ficado ferido.

Pelo que foi possível apurar, as ameaças de agressão a professores e a auxiliares de ação educativa eram frequentes. 

2.

Gavril Yushvaev é, segundo a Forbes, uma das cem pessoas mais ricas da Rússia.

Cinco meses depois de ter sido sancionado pelo Conselho Nacional de Segurança e Defesa da Ucrânia por ligações próximas ao Presidente russo, Vladimir Putin, o multimilionário Gavril Yushvaev, com nacionalidade russa e israelita, continua a aguardar pela naturalização portuguesa, ao abrigo da lei dos sefarditas, que possibilita a atribuição da nacionalidade aos descendentes de antigos judeus que habitavam na Península Ibérica no final do século XV. O oligarca tem cadastro criminal e foi apontado, nomeadamente pelo Governo espanhol, como estando ligado a um dos mais poderosos grupos de crime organizado da Rússia.

Recorde-se que Roman Abramovich, oligarca russo ex-dono do Chelsea, por portas e travessas mais que escuras, obteve a nacionalidade portuguesa numa operação consentida pela autoriddaes portuguesas e repleta de irregularidades cometidas.

3.

As obras de modernização da linha ferroviária do Oeste estão paradas há dez meses e correm o risco de perder financiamento comunitário.

4

Vão abrir 65 hotéis em Portugal durante 2123. mas o sector do turismo perdeu 45 mil trabalhadores durante a pandemia e debate-se com dificuldades em contratar pessoal.

 5.

 Ana Cristina Leonardo, no Café do Monte, regressa  Mário Cesariny de Vasconcelos:

 «… o homem precisa da mulher. É a tragédia dele. Inventou a Matemática, a Aritmética, a aviação, a Nona Sinfonia, a ida à Lua… (…) Ela, muito quietinha em casa, a tratar de coisas importantes, como a comida e a roupa, enquanto o sábio está a chorar frente às equações.»

terça-feira, 14 de março de 2023

FARPAS

Tanta farpa cravei por acidente
no meu próprio flanco.

As farpas oscilam a cada passo meu,
lacerando sempre um pouco mais
os rasgões que já trago na carne.

Toma para ti - ò touro divino,
verdadeiro destinatário delas! -
algumas dessas farpas.

Que todas sobre mim são muito peso,
muita dor,
muito sangue empastando sobre a pele,
muita mosca cevando-se no sangue.


A.M. Pires Cabral

segunda-feira, 13 de março de 2023

CONVERSANDO

A tradição popular da minha avó, de todas as avós, dizia-me que o «prometido é devido». Mais tarde aprendi no Alentejo o que eles dizem de uma forma mais bonita:

«O prometido é como jurado».

O QUE È A POESIA

É possível que este poema não seja

um poema. De facto, embora escrito em verso,

com cesuras que estão no sítio em que

deviam, umas, e onde não deviam, outras,

e apesar do ritmo que segue algumas das regras

próprias de um discurso com marcas musicais,

produzindo o prazer da harmonia de vogais

e consoantes para ouvidos mais atentos, este

poema pode ser considerado, por alguns, como

não sendo um poema, ou não fazendo parte

daquilo a que se dá o nome de poesia. Uma frase mais

longa do que o habitual, em vez do discurso

equilibrado e consonante com os hábitos

da dicção; ou um raciocínio que nasce de uma discussão

técnica sobre as regras que o poeta deveria

seguir para chegar ao seu objectivo: eis, só aqui,

dois motivos mais do que suficientes para que se diga

que este poema não o é. Porém, outros podem

trazer argumentos mais profundos: que falta aqui

uma transcendência, um sublime, um contacto

com o divino. Estes, são os clássicos. Ou que

não se sente a presença de uma inspiração de carne

e osso, da pele macia daquela que se aproxima, sem

que a estejamos a ver, e que nos diz ao ouvido a palavra

do amor: são os românticos. Ou ainda que nada disto

teria de ter um sentido, e que as imagens teriam

de andar umas contra as outras no saco da estrofe: são

os modernos.

Deixo-os a discutir uns com os outros, a trocar

os seus argumentos e as suas ambições, e espero que

me digas que este poema que pôs tudo de lado quando

chegaste ao pé de mim, é um poema; e se me disseres

isso, então sei que é teu este poema, e o resto

que fique para quem julga que sabe o que é,

ou não é, a poesia

Nuno Judie em O Fruto da Gramática

domingo, 12 de março de 2023

VELHOS RECORTES


 Em tempo de largas tempestades na Igreja, lembrar este velho recorte da edição do Diário Popular de 28 de Agosto de 1978.

O tempo em que os meios de comunicação social já referiam ao que vinha este Papa João Paulo I e que rapidamente começou a causar perplexidade. Pretendia uma Igreja arejada, atenta aos problemas quotidianosm mas a Curia começou a inquietar-se.

O Papa João Paulo I morreu, durante o sono, na madrugada de 28 de Setembro de 1978, apenas 33 dias depois da sua nomeação.

Ainda hoje, encontra-se envolta em larga controvérsia, o mistério da sua morte.

Retenho uma frase lida há muito tempo.«Os padres são quem melhor conhece o poder porque o invejam e o amam».

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 Este interessantíssimo e útil livro de Maria de Fátima Bivar, Ensino Primário e Ideologia, é uma viagem pelos Livros de Leitura utilizados no ensino primário nos anos 50 e 60.

Todos eles seguiam as regras impostas por Salazar naquela frase lapidar de Deus, Pátria e Autoridade, que então se entendia ser tão ou mais importante que saber ler e escrever.

A autora também é conhecida como Maria Velho da Costa. De seu nome completo Maria de Fátima Bivar Velho da Costa.

O Outro Lado das Capas deste livro, não tem sequer uma linha escrita, pelo que se entendeu introduzir um pedaço do Livro de Leitura da Primeira Classe.

E pela mais descarada propaganda salazarista, pela demagogia pornográfica, introduz-se um outro texto:

Andei pela escola primária de 1952 a 1955, frequência na Escola Primária nº 68, na Rua da Penha de França, mesmo ao lado da sede do Sporting Club da Penha.

Uma escola escura, fria, um professor, o Sr. Amilcar, que nas nossas idas ao quadro, exibia o ponteiro na mão, um professor do quero, posso e mando.

Dos primeiros dias de escola, lembro os que iam de sapatos, os que iam de tamancos, os que iam de alpergatas, os que iam descalços. Os que levavam os livros, os cadernos, a ardósia numa pasta, os que levavam os mesmos livros, os mesmos cadernos, a mesma ardósia, numa sacola de serapilheira, ou  amarrados com uma corda.

Nada a ver com aquele conto, lido anos mais tarde, em Os Meus Amores de Trindade Coelho.

 «- Muito bons dias. Lá de casa mandam dizer que aqui está a encomendinha.

 Oh! Oh! A encomendinha era eu, que ia pela primeira vez à escola. Ali estava a encomendinha.”

 A determinada altura, o professor falando para a Srª Helena, a que levara a encomendinha, e perante uma risada geral da aula, diz:

 “Caluda, seus fedelhos! Caluda, porque se peço licença à Srª Helena, começo numa ponta e levo tudo a eito, corro tudo a bolos, tudo, mas o que se chama tudo!

 É o que vê, Srª Helena – disse então vitorioso, a sorrir-se, o bom do Sr. Professor – É o que vê! Um mestre sem palmatória é um artista sem ferramenta, não faz nada. Santa Luzia milagrosa! Aqui onde a vê tem feito muitos doutores.»

OLHAR AS CAPAS


Ensino Primário e Ideologia

Maria de Fátima Bivar

Capa:  Henrique Ruivo

Colecção Educação e Ensino nº 1

Seara Nova Editora, Lisboa, Novembro de 1975

Que fizemos do 25 de Abril – um magnífico arremesso de esperança contra a conformidade dos países próximos ou tão somente o espasmo final antes da diluição final nesse espaço  geográfico que nos levou força de trabalho e amor próprio?

Para poder avançar é necessário saber o que se tem. Não um povo despolitizado, mas um povo politizado assim, educado assim. E nós com ele. Saber que até a resistência a isto terá a marca disto, ao menos de início. E em nós.

sábado, 11 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


Serão terríveis os nossos dias futuros!

Marcelo Rebelo de Sousa entendeu assinalar os seus 7 anos de Presidência da República  com uma entrevista televisiva, conduzida por  António José Teixeira da RTP e Manuel Carvalho do Público, do em que foi buscar laivos catequistas dos domingos na TVI, malandrices como quando enganou Paulo Portas com a tal vichyssoise.

No fundo dos fundos arrasou António Costa e os padres que andam completamente desorientados no meio da pedofilia que pretenderam esconder durante anos e anos.

Resumindo:

A maioria de António Costa enrola-se num desgaste físico e mental que vai olhando para o curto prazo e não para os dias futuros, um ano político praticamente perdido, um PRR que, na visão de Belém, está atrasado, assinala as sucessivas greves dos professores, o ter que se repensar rapidamente a reconstituição do Serviço Nacional de Saúde (allô,allô, privados), e as trapalhadas da TAP e o diploma sobre a habitação.

Sobre a TAP deixa um sério aviso a Fernando Medina para que reveja os últimos anos em que foi Presidente da Câmara de Lisboa, porque podem aparecer alguns esqueletos no armário, dando a entender que tem informação privilegiada sobre algo que só ele saberá o quê.

«Dar sete dias para discutir um diploma sobre habitação depois de sete anos de espera é uma coisa do outro mundo e já se percebeu que os municípios não têm capacidade para descobrir as casas devolutas.»

Por fim não deixou de lembrar:

«O Presidente da República, até ao dia 9 de Setembro de 2025, tem o poder de dissolução.»

 «Mantenho esse princípio de manter a legislatura até ao fim, mas não peçam para renunciar ao poder de dissolver a Assembleia da República.»

1.

A crise nos Açores pressiona PSD a separar águas. Chega e IL são descritos pelos sociais-democratas como “imaturos e não confiáveis”.

O PSD pensou que poderia constitui nos Açores uma geringonça de direita.

Esqueceram-se que os partidos da geringonça de esquerda, com todos os seus defeitos, de algo não poderiam ser acusados: de imaturos e não confiáveis.

2.

 O governo acordou tarde para os preços que andam a ser marcados nos super e híper mercados. A ASAE no terreno  revela elementos que tornam evidentes as desconfianças de aproveitamento relativamente ao aumento do custo de vida. Todos os elementos levam à conclusão de que as margens brutas, ou seja, a percentagem de lucro obtida com a venda de produtos, considerando o custo de aquisição junto dos fornecedores e produtores e o preço a que, posteriormente os produtos são vendidos, aumentaram.

Os camionistas já vieram dizer que não é por eles que os produtos alimentares têm o aumento que se verifica.

Também a CEO da Sonae, que registou um lucro consolidado de 143 milhões de euros em 2022, mais 19% do que em 2021, escreveu uma carta aos trabalhadores da empresa em que declara que, face aos aumentos que se verificam na cadeia alimentar, existe  uma «campanha de desinformação» e que tal provoca «danos gravosos para a reputação do sector da distribuição alimentar». Nunca falando dos lucros, a empresária reconhece que existe inflação dos produtos alimentares, mas que tal é consequência de um «fenómeno global». Procurando a compreensão dos trabalhadores, lembra: «Como sabem, baixámos as nossas margens para acomodar o aumento dos custos». 

Por sua vez a Confederação Nacional dos Agricultores garante que enquanto os lucros das grandes empresas aumentam, o «rendimento dos agricultores desceu 11,8% em 2022», e que a culpa primeira terá que ser endereçada ao governo de António Costa.

3.

Os cinco maiores bancos que operam em Portugal obtiveram lucros agregados de 2583 milhões de euros em 2022, mais mil milhões de euros do que em 2021, segundo as contas da Lusa.

A Caixa Geral de Depósitos (CGD) foi o que conseguiu os maiores lucros, de 843 milhões de euros em 2022, mais 45% do que em 2021. O banco público anunciou ainda que pretende dar ao seu acionista, o Estado, o "maior dividendo" da sua história, de 350 milhões de euros.

O Santander Totta foi o segundo banco com melhores resultados em 2022, sendo o banco privado com mais lucros, o resultado do banco detido pelo espanhol Santander foi o maior da sua história, já o Novo Banco triplicou os lucros enquanto os lucros do BCP subiram 50% para 207,5 milhões de euros e os do BPI cresceram 19% para 365 milhões de euros.

4.

Ainda não esquecemos as borlas e regalias que o ex-presidente da Câmara de Lisboa Fernando Medina deu à cantora Madona e vai-se agora sabendo que Medina comprometeu a autarquia em encargos que durarão até o investigador e bibliógrafo argentino Alberto Manguel morrer: despesas diárias pagas e o palacete onde será alojada a biblioteca do argentino tem de ter cozinha e WC só para Manguel. A revista Sábado revelou agora a polémica relação entre a Câmara Municipal de Lisboa  e Manguel: um protocolo, um memorando e um contrato. Até hoje, só o primeiro tinha sido tornado público pela CML.

Enquanto o Ministro, Pedro Adão e Siulva, vão afirmando que é muito curto o dinheiro destinado aos artistas e companhias de cultura!

MÚSICA PELA MANHÃ

Claro que Leonard Cohen, num daqueles banquetes lá no paraíso, mandou descer mais uma garrafa de vinho tinto, e esboçou um sorriso.

É que os filhos, mais o agente que geriu os dez últimos anos, de Cohen andam em sérias contendas, tudo à volta de como gerir, ou gamar, um património avaliado em 45 milhões de euros.

Provoca alguma tristeza saber que um tipo que escreveu das mais brilhantes canções, se veja enredado em estúpidas contas de mercearia.

A família acontece-nos mas os agentes escolhem-se e Cohen nunca foi muito bom nesse pormenor. Ainda nos lembramos que já tivera problemas com Kelley Lynch que acabou condenada em tribunal por se ter abotoado com cinco milhões de dólares enquanto Cohen esteve a viver num retiro budista.

Mas fiquemo-nos com as coisas muito boas, para além das canções, que Leonard Cohen fez enquanto por aqui andou. Como aquele dia em que soube que à sua musa Marianne Ilhen, os médicos tinham diagnosticado uma leucemia incurável e ele apressou-se a escrever-lhe:

«Bem, Marianne, chegámos a este ponto em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que te seguirei muito em breve. Quero que saibas que estou tão próximo de ti que, se estenderes a tua mão, creio que conseguirás tocar a minha. Sabes que sempre te amei pela tua beleza e sabedoria, mas não preciso de alongar-me, porque já sabes tudo isso. Quero apenas desejar-te boa viagem. Adeus, velha amiga. Com todo o amor, encontrar-te-ei pelo caminho».

sexta-feira, 10 de março de 2023

QUOTIDIANOS


Se não houver um caminho, constrói-o.

quinta-feira, 9 de março de 2023

UMA QUESTÃO DE TEMPO

Do outro lado da casa, as crianças brincam com o tempo

que corre para que elas não brinquem com ele. Na casa

ao lado, um cão vê o tempo a passar e ladra-lhe

para ele fugir como se fosse um ladrão. Na rua, o mendigo

pede a toda a gente a esmola de um tempo, e toda

a gente diz que não tem tempo para lhe dar. No café, peço

uma chávena de tempo, curto e bem forte

porque não tenho tempo para dormir, mas

ao meu lado há quem peça uma chávena bem cheia

de tempo para que o tempo demore a beber. Há

quem corra por falta de tempo, e o tempo vai

atrás dele para o apanhar. No metro, a rapariga

atravessa o cais, devagar, como se tivesse mais tempo

do que todos os que contam o tempo para

não lhes descontarem no tempo. E quando me perguntam

se tenho tempo, olho para o relógio, como se ele

estivesse cheio de tempo, e peço que tirem de dentro

dele todo o tempo, e que o esvaziem até ao último

segundo, para eu ficar com tempo para

ver quanto tempo já passou.

Nuno Júdice

quarta-feira, 8 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Assim entendia Salazar o papel da mulher na sociedade.

«O trabalho das mulheres fora de casa não deve ser incentivado. Uma boa dona de casa tem sempre muito que fazer.

Salazar em 1936.

A mulher quer-se é em casa. A mulher obesa e estúpida que despeja penicos e põe as refeições na mesa. Nas casas de muitas infâncias podia encontrar-se um quadrinho que dizia: «Cá em casa manda ela e nela mando eu».

Tal como dizia a mãe à Emilita: «Quando fores grande, hás-de ser uma boa de casa.», lia-se no Livro Único da Terceira Classe

«Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez, meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os fatos-macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.»

Maria Velho da Costa em Cravo

Em Outubro de 1970, uma reportagem do Diário de Lisboa, referia que a escassez da mão-de-obra masculina – a emigração e a guerra colonial levava os homens do país… - e o pagamento inferior do trabalho feminino tinham feito surgir de mulheres a trabalhar nas estradas nacionais em reparação. Quarenta mulheres em Alcácer do Sal, sob sol escaldante, lançavam e espalhavam o saibro na estrada.

Então, o encarregado da obra soube dizer ao repórter: «Elas são melhores para este trbalho. Dobram-se melhor. Os rins delas aguentam-se mais tempo curvados e são menos insofridas do que os homens».

Faltou-lhe dizer que também ganhavam muito menos do que os homens.

No século XVII, já um tal D. Francisco de Melo se ria dos que julgavam as mulheres intelectualmente aos homens.

«Diz mulher ao teu país como lutaste até hoje o que fizeram de ti o que quiseram que fosses como prenderam teu grito sob a boca amordaçada mas como cantaste assim do teu teu desgosto apertada.»

Maria Teresa Horta em Mulheres de Abril.

DIZ

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

o que fizeram de ti

o que quiseram
que fosses

Como prenderam teu
grito
sob a boca amordaçada

Mas como cantaste
assim
do teu desgosto apartada

Diz mulher
ao teu país

conta a vida em que
cresceste

Como algemaram
teus pulsos

conta aquilo
que aprendeste

Do saque da tua
vida
relata os dias passados

da cadeia em que estiveste
descreve
o pavor rasgado

as torturas que sofreste
o medo nunca acabado

Diz mulher
ao teu país
como lutaste até hoje

não cales mais
a recusa
do que quiseram que fosses...

não silencies
a renúncia
a que te viste obrigada

Não desistas
de gritar
tua vida encarcerada

Maria Teresa Horta em Mulheres deAbril

terça-feira, 7 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS

O primeiro-ministro António Costa falou hoje das conclusões do relatório da Inspeção Geral de Finanças relativamente à TAP.

«O relatório da Inspecção Geral de Finaças veio explicar pela enésima vez que o actual ministro da Finanças e o anterior ministro das Finanças não tiveram intervenção nem conhecimento deste processo».

Sem querer ofender, digam-nos quando é que os governos passam a considerar os portugueses como gente, e não como camelos a quem se contam histórias.

1.

 Contrariamente ao que por aí se diz, a polémica da TAP não chegou ao fim com ordem de regresso aos cofres da empresa de perto de meio milhão de euros e mais duas cadeiras vazias. As conclusões do relatório da Inspeção Geral de Finanças, no caso da indemnização de 500 mil euros pagos a Alexandra Reis, ditaram a demissão da CEO da transportadora aérea, Christine Ourmières-Widener, e do chairman, Manuel Beja, pelo governo.

Christine Ourmières-Widener, acusou já a Inspeção-Geral de Finanças de "comportamento discriminatório", no âmbito da auditoria ao processo que levou ao pagamento de uma indemnização a Alexandra Reis e ameaçou retirar "consequências legais".

 A polémica ainda nem sequer saiu do adro da igreja.

Os advogados, de qualquer dos lados, vão ter muito que fazer e muitos milhares de euros irão amealhar.

 2.

Rui Nabeiro, presidente do Grupo Delta Cafés, foi considerado pelos portugueses o líder mais relevante e com melhor reputação de 2022, de acordo com um estudo da consultora OnStrategy.

Concorda-se plenamente!

O resto dos empresários, que a Onstrategy aponta como empresários reputados, são meros travestis e, de modo algum chegam aos calcanhares de Rui Nabeiro.

3.

O bispo de Beja sugere que os padres suspeitos de abusar sexualmente de menores possam ser perdoados, caso estejam arrependidos e tenham feito penitência.

 Esta gente não merece o ar que respira!

 Ana Cristina Leonardo à mesa do Café do Monte:

«Ainda vamos ouvir dizer que suspender padres acusados de pedofilia é um atentado aos direitos humanos!»

PERDI O TEU ROSTO

perdi o teu rosto

o de maio

e também o de junho com a cidreira

não há esperança

agora os dias são menos dias

diz-se que mais curtos

atrás das folhagens do verão

é uma hipótese para as pequenas aves

e talvez que bicando    voando

recuperem elas qualquer coisa

do que foi a tua passagem por aqui

 

Abel Neves

segunda-feira, 6 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Com letra e música de José Mário Branco encontramos, no seu primeiro álbum, «Mudam-se os Tempos Mudam-se as Vontades», a canção «Nevoeiro» que nos fala de um caminheiro, com o seu passo apressado, indo ao cais do terreiro saber de um tal rei Sebastião, chegado num veleiro sem leme nem gageiro, num lençol amortalhado, ficaria bem enterrado.

 Pedro Passos Coelho aparece-nos nos últimos dias qual dom sebastião para salvar a direita e concretamente o PSD. Anda por  aí uma enorme polvorosa,  O Diário de Notícias ouviu hoje diversos politólogos e um deles, Paula Espírito Santo, adianta: «Não se pode esquecer que foi, na altura, alguém que uniu o partido, ganhou eleições e trouxe o poder ao PSD numa altura difícil na vida do país.»

Lembrar-se-á a senhora que Passos Coelho nos lixou a vida, ultrapassando largamente o que a tal troika nos impôs?

Muitos e muitos trabalhadores, reformados, estão bem lembrados e não nos queiram fazer esquecer esses com toques de cantares de sereia envolvidos em nevoeiros sebastianistas.

1.

Identificados pelo INE existem, sem qualquer tipo de utilização, 723.215 fogos devolutos em Portugal.

2.

 O Papa Francisco apelou, este domingo, ao fim do tráfico ilegal de migrantes, uma semana depois de um barco se ter afundado no sul de Itália, matando pelo menos 70 pessoas, incluindo 15 menores.

Na sua oração dominical, o Papa Francisco disse:

"Que os traficantes de seres humanos sejam detidos, que deixem de poder dispor da vida de tantas pessoas inocentes, que estas viagens de esperança nunca mais se transformem em viagens de morte e que as águas claras do Mediterrâneo já não sejam ensanguentadas por incidentes tão dramáticos».

Três suspeitos de serem contrabandistas foram presos. De acordo com relatos dos meios de comunicação italianos, são suspeitos de terem cobrado entre 5 mil e 8 mil euros a cada migrante que tinham trazido para a Turquia, três dias antes.

Como se passará, há tantos e tantos, nas odemiras do nosso Portugal à beira-mar plantado?

4.

José Sócrates foi detido há mais de oito anos, em Novembro de 2014, foi acusado em Outubro de 2017 e pronunciado em Abril de 2021.

A partir daqui uma nuvem enorme de recursos tem vindo a bloquear a continuação do processo e a data do início do julgamento estará perdida ninguém sabe onde. Duvida-se que alguma vez acontecerá.

A Justiça atrasa-se.

 Os advogados vão enchendo os bolsos.

5.

Os primeiros meses do ano arrancaram difíceis para as famílias portuguesas que, só em Janeiro, gastaram 907 milhões de euros nos supermercados.

Apesar de algumas inspecções, o governo não consegue  impedir as especulações dos grandes merceeiros do país, que nos obrigam a sair a porta dos supermercados com menos produtos no carrinho e menos dinheiro na carteira.

A incompetência governamental, ou os diversos compadrios com o patronato, continua a manter fora das intenções da maioria absoluta a questão de taxar os lucros, mais que excessivos, de certas e bem conhecidas empresas.

5.

«Duas semanas depois de ter recebido o relatório da Comissão Independente, a Igreja ainda anda aos papéis. Não para encontrar a melhor forma de confortar as vítimas e fazer justiça, mas com a preocupação de salvaguardar a posição dos seus abusadores e encobridores.»

Paulo Baldaia, hoje,  no Diário de Notícias

6.

Lido no Jornal de Notícias:

Dada a falta de mão de obra nacional, um grupo de cerca de 500 indonésios, cerca de 75% dos tripulantes, trabalham nos barcos de pesca em Caxinas, a maior comunidade piscatória do país. 

Sendo a Indonésia um país de pesca, estes imigrantes já chegam habituados ao mar e adaptam-se rapidamente. Os trabalhadores recebem o salário mínimo, mas com estadia, alimentação e viagens pagas, parte do dinheiro vai para a família, que está a 13 mil quilómetros de distância.

 7.

«Era um homem de muitos talentos, mas destaco um: sabia escrever cartas. Um atalho para o coração. Reconheço na escrita de uma carta a maior finura do espírito, a verbalização do que em abstracto se sente ou se pensa e um exercício da inteligência.»

Carmo Afonso, recordando o advogado José Manuel Galvão Teles, crónica no Público. 

Legenda: pintura de Aurora Bernardo

OLHAR AS CAPAS


 

A Palavra é de Oiro

Augusto Abelaira

Livraria Bertrand, Lisboa s/d

«Sem dúvida: muitas vezes, quando escrevo, sinto que escrever é um assunto pessoal que só a mim me diz respeito, sinto que é comigo próprio que estou a falar. Mas logo, até porque publico o que escrevi (porque publicarei umas coisas e outras não?), me assaltam algumas dúvidas. E acabo por pensar que escrever não será um monólogo (será pleonástico dizer a sós?), um desabafo em frente do espelho, será sim um diálogo projectado para fora das quatro paredes que me cercam (do café em que geralmente me encontro, para ser mais rigoroso); que ao pegar numa caneta se anima em mim um desejo de comunicação, que baixar essa caneta sobre o papel pressupõe, mesmo se de forma escondida ou nebulosa, um tu a quem realmente me dirijo – alguém que talvez não exista (eu gostaria que existisse, decerto), alguém que depois de ler aquelas páginas desejará responder-me.»

(Do Posfácio, datado de Novembro de 1972)

A SOMBRIA BELEZA DO TEMA DA ESTAÇÃO E DA MORTE

a sombria beleza do tema
da estação e da morte", diz o Kundera algures.
nesta imagem desenha-se um olival perdido
de surdas tonalidades, atrás do cais de onde

se despenhou alguém, alguma forma
aflita e trágica, vinda do fundo súbito de uma
paisagem tão modesta, sob as vozes
de quem chega e quem parte, ou simplesmete foi ali para olhar

outros seres de passagem, outros rasos destinos sem anjo para o remorso.
há flores, dirás, algumas flores diurnas, confiantes,
que outras mãos hão-de dispor na jarra, relembrada
junto à parede branca, mas essas são um ténue

sopro de acaso, ou um fulgor antecipando outra nudez.
quando a luz já se tornou mais húmida e quase musical,
e através da folhagem a harpa do desgaste estremeceu,
e passaram as horas e passaram,

pesadas, contadas, divididas, já não dói
a beleza de alguém que vai partir, a sombria beleza
da sua ocultação intransmissível, uma brisa leve misturar-se-á
ao cheiro de óleo, aos acenos afectuosos, aos

ruídos do tema da estação. é tudo. à noite o olival
será uma massa negra de clareiras adiadas,
atrás do cais sem ninguém e sem tempo, como sempre acontece
nas pequenas estações de uma província da alma.

Vasco da Graça Moura

domingo, 5 de março de 2023

O FECHAR DOS TAIPAIS


 Tendo de começar por qualquer lado, há que dizer que a conferência de imprensa concedida, na sexta-feira, pela Conferência Episcopal Portuguesa, para falar dos crimes cometidos pelos padres, foi simplesmente miserável, um nojo que nos coloca no limiar do vómito.

«Não podemos delegar responsabilidades e ficar à espera que a Igreja resolva sozinha os desmandos. Seria tornarmo-nos cúmplices desta vergonha»

 Pedro Norton no Público.

Hoje, o Cardeal Patriarca de Lisboa retira todas as dúvidas sobre o que a igreja portuguesa vai fazer aos padres criminosos: NADA!

A notícia é retirada do Público:

«O cardeal-patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, afastou este domingo a suspensão de alegados padres abusadores de menores sem que haja "factos comprovados, sujeitos a contraditório" e um processo canónico feito pela Santa Sé. Em declarações à RTP, SIC e Rádio Renascença após a procissão do Senhor dos Passos, em Lisboa, Manuel Clemente salientou que Portugal é um "país de lei e qualquer pessoa que seja acusada tem de saber do que é que é acusada".

"Aquilo que nos foi entregue pela Comissão Independente foi uma lista de nomes. Se essa lista de nomes for preenchida por factos, tanto nós como as autoridades civis podemos actuar. Da parte da Igreja, estamos completamente disponíveis para procurar a resolução deste problema, em colaboração, claro está, com as entidades civis e canónicas", afirmou o cardeal-patriarca de Lisboa.

Questionado se a resolução do problema pode passar pela suspensão imediata dos alegados padres abusadores de menores, Manuel Clemente respondeu: "Essa é uma pena muito grave, é a mais grave que a Santa Sé poderá dar e é a Santa Sé que a poderá dar". "Se nós tivermos factos, e factos comprovados e sujeitos a contraditório, claro – nós estamos num país de direito e de leis – só pode ser feita pela Santa Sé, não é uma coisa que um bispo possa fazer por si", referiu.»

Os senhores padres terão que perceber, de uma vez por todas, que estão a falar para todos os portugueses e não para os crentes que vão à missa a uma igreja perdida no Portugal profundo, em que contam as patranhas que há anos e anos andam a impingir, e em que todos os pecados são tratados pela reza de dez avés-marias, ou dez padres-nossos.

 Susana Peralta no Público:

«A Igreja está em causa porque a sua arquitectura institucioinal atrai criminosos sexuais, que aparentemente a vêem como porto seguro»

sábado, 4 de março de 2023

OLHARES


 Esta fotografia tirada, pela Aida, há largos anos, na tabacaria à porta da Brasileira do Chiado, reúne uma série de coisas que, se não estão já extintas, estão em vias disso: cafés, jornais, revistas, algo mais.

O Armindo, às segundas-feiras, depois das reuniões do Juvenil do Diário de Lisboa, com o Mário Castrim, apesar de saber dos pides que pululavam sentados nas mesas, gostava de beber o café na Brasileira.

O Armindo, para fugir à Guerra Colonial, acabaria, juntamente com o Zé Ferraz, por fugir para França.

Com imensa pena, perdi-lhes completamente o rasto.

Daniel Blaufuks no seu Lisboa Cliché, mostra uma fotografia sua, uma tabacaria, sem referência de nome e deixou estas palavras:

«Uma tabacaria onde, além dos óbvios cigarros e charutos, se vendem igualmente jornais, revistas, lotarias, brindes, brinquedos, água, rebuçados, totobola, isqueiros, lenços de papel, incenso e por aí fora.

Foi numa tabacaria destas que eu vi, numa terça-feira de manhã cedo e pela primeira vez, uma fotografia minha impressa, depois de ter descido as escdas a correr, ansioso por comprar o Blitz, um semanário de música e espectáculos com o qual tinha começado a colaborar na semana anterior.»