quarta-feira, 6 de março de 2024

NESTA HORA

Nesta hora limpa da verdade é preciso dizer a verdade toda
Mesmo aquela que é impopular neste dia em que se invoca o povo
Pois é preciso que o povo regresse do seu longo exílio
E lhe seja proposta uma verdade inteira e não meia verdade

Meia verdade é como habitar meio quarto
Ganhar meio salário
Como só ter direito
A metade da vida

O demagogo diz da verdade a metade
E o resto joga com habilidade
Porque pensa que o povo só pensa metade
Porque pensa que o povo não percebe nem sabe

A verdade não é uma especialidade
Para especializados clérigos letrados

Não basta gritar povo é preciso expor
Partir do olhar da mão e da razão
Partir da limpidez do elementar

Como quem parte do sol do mar do ar
Como quem parte da terra onde os homens estão
Para construir o canto do terrestre
— Sob o ausente olhar silente de atenção

Para construir a festa do terrestre
Na nudez de alegria que nos veste

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 5 de março de 2024

VIAGENS POR ABRIL


           Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                    João Bénard da Costa

 

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

O que acima se vê é o relatório do dia 3 de Março de 1974, um domingo, publicado por Diniz de Almeida, no seu livro Origens e Evolução do Movimento dos Capitães, dando conta que nesse dia teve lugar em Algés, na casa do capitão Seabra, uma reunião que resultou na elaboração  do documento O Movimento, as Forças Armadas que veio a ser presente dois antes da reunião de Cascais.

Diniz de Almeida que para sua elaboração do documento concorreram elementos de uma Comissão dos 3 ramos das Forças Armadas e cujos nomes se podem ler.

O Dia das Surpresas caminhava a todo o vapor.

Amanhã, Marcelo Caetano, com uma vaga (?) sensação do que os militares empreendiam,  discursará na Assembleia Nacional e. socorrendo-nos do Notícias de Portugal, veremos o que o ditador disse e o que então disse estava muito longe dos que os militares tinham quase concluído: «Sem democratização do País não é possível pensar em qualquer outra solução válida para os gravíssimos problemas que se abatem sobre nós.»

Entretanto, 16 de Março há-de acontecer a saída das tropas do RI5 sito nas Caldas da Raínha, mas isso foi apenas um episódio fora da caixa de que a seu tempo, nestas Viagens Por Abril, será abordado.

OLHAR AS CAPAS


O Pensamento Vivo de Rousseau

Romain Rolland

Tradução: J. Cruz Costa, São Paulo

Biblioteca do Pensamento Vivo nº 8

Livraria Martins, São Paulo, 1960

A vida e obra de Jean- Jacques Rousseau oferecem à história literária, o caso talvez único de um homem de génio, que o génio visitou sem que ele tivesse procurado.

GANIMEDES

Os pensamentos pastam na verdura,
balindo mansamente em torno dele,
e o rio corre sussurrante em pedras
que as sombras do arvoredo fazem negras.

Numa árvore se encosta o tronco magro
que os cotovelos finca nos erguidos joelhos,
enquanto as finas ancas pousam na verdura
e de uma sombra entre elas pende uma brancura.

Delicados e firmes, os lábios se contraem
na tersa flauta em que os seus dedos dançam
ao mesmo tempo segurando-a leves.
Quase é silêncio a curta melodia.

Do fundo e vítreo azul que imobiliza
o campo e o arvoredo, um ponto negro vem
crescendo em asas, garras, bico adunco
entreaberto à frente de sanguíneos olhos.

E adeja no alto, imensa e monstruosa,
uma ave gigantesca. Os pensamentos sentem-na,
que os faz fugir, dispersos, assustados.
A melodia se suspende. O pastor olha.

Numa surpresa vê que as asas se desabam
sobre ele, escurecendo e recobrindo tudo.
Quando abre os olhos, elas voam vastas
entre ele e o azul, e as garras pela cinta o cingem.

Lá em baixo o rio brilha entre o arvoredo,
e pontos brancos, vagos, são o seu rebanho.
O bico hiante à sua boca chega
numa doçura a atormentá-lo inteiro.

E a negridão se acende pouco a pouco
de um resplendor de carne que é o do céu em volta,
e que o rodeia e rasga de um calor ardente
em que o seu corpo avança como um róseo dardo.

Mas quem avança em quem? O deus se entrega,
ou é quem viola, e como, o corpo arrebatado?
Quem é o senhor de quem? Ou sempre, ou mutuamente?
Ou cada um se humilha à sujeição do outro.

E mais: sem que o soubesse, aquele humano estava
já destinado às garras longamente curvas?
Ou por acaso foi que o deus se apaixonou?
E essa paixão durou? E que destino teve

o rebanho dispersado em susto? E a flauta
que entre a verdura mal se vê, perdida?
E o corpo do pastor, que pensa agora?
Só isto – o decisivo – não sabemos.


Jorge de Sena em Perigrinatio Ad Loca Infecta

segunda-feira, 4 de março de 2024

POSTAIS SEM SELO


Para que serve a utopia?

Serve para que eu não deixe de caminhar.

 Eduardo Galeano

NOTÍCIAS DO CIRCO

Na sua crónica de hoje no Público, com o título: «Os barões da AD são retrógrados e machistas», CarmoAfonso escreveu:

«Fui educada numa família tradicional e conservadora. Recordo-me de me terem dito: “Não existe nada mais triste do que uma mulher bêbeda.” E recordo-me de pensar qual seria a razão para essa consideração de que uma mulher bêbeda seria uma situação triste, mas um homem bêbedo não.»

O parágrafo levou-me para o tempo dos meus 8 anos.

Minha avó materna vivia numa vila de Lisboa, casas pequenas, com deficientíssimas-condições-sanitárias-uma-família-vulgar-tradicional- pobre-de-anos-50-sem-água-canalizada-sem-casa-de- banho-uma-série-de-lacunas-de-vida.

Uma das minhas primas, gostava do seu copito, vivia com a avó.

Um dia chegou lá a mãe e, mãos nas ancas, disse à prima:

«Ouve lá! Não há putas na família terá que haver bêbadas!... 

VIAGENS POR ABRIL


         Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                  João Bénard da Costa


Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

A imagem que encima o texto, mostra as Conclusões da tese que José Medeiros Ferreira, apresentou no 3º Congresso da Oposição Democrática.

A tese foi lida no Congresso pela mulher de José Medeiros Ferreira que se encontrava exilado, desde 1968, na Suiça.

O jornalista do Público Nuno Ribeiro, em Janeiro de 2014, teve uma conversa com Medeiros Ferreira que viria a morrer em 18 de Março de 2014.

Na edição do dia seguinte à morte, Nuno Ribeiro, publica um resumo da conversa que mantivera com Medeiros Ferreira e que agora se citam algumas passagens

“O pensamento estratégico da instituição militar estava a mudar no sentido de obrigar o Governo de Marcello Caetano a defender objectivos ao alcance dos meios militares portugueses”, referiu Medeiros Ferreira: “As Forças Armadas não se iam oferecer muito mais tempo ao regime.”

Esta tese percursora, redigida no Natal de 1972, não foi acolhida pela oposição ao regime. “Quando regressou a Genebra a minha mulher contou-me que a tese não tinha sido bem recebida. Aliás, não faz parte das conclusões que, entre outros, foram feitas por Gomes Canotilho”, recordou José Medeiros Ferreira: “A minha tese afrontava as teses do PCP.

O historiador José Pacheco Pereira estava presente em Aveiro aquando da apresentação da tese. “A maioria das pessoas não prestou atenção. Mas houve protestos, recordo uma mulher jovem que afirmava ser da Amadora dizer conhecer os militares e que a tese era mentira”, lembra. “A maioria das pessoas ali presente tinha relações com o PCP e viam na tese de Medeiros Ferreira a reminiscência do putschismo do republicanismo histórico”, conta Pacheco Pereira. Em clara contradição, “com a tese do levantamento nacional armado de Álvaro Cunhal descrita no Rumo à Vitória”.

Pacheco Pereira contextualiza, por fim, o Congresso de Aveiro: “O ambiente era de um comício contra o regime, era tudo a preto e branco, contra o regime e os esquerdistas contra o PCP”. Assim, a tese de um outsider exilado, como era José Medeiros Ferreira, careceu de apoio e atenção.»

O OUTRO LADO DAS CAPAS

A Seara Nova, entre Maio e Agosto de 1974, publicou, em 7 volumes, as teses apresentadas e discutidas no 3º Congresso da Oposição Democrática que se realizou em Aveiro de 4 a 8 de Abril de 1973.

O recorte do Diário de Lisboa de 8 de Dezembro de 1972 mostra a notícia da primeira reunião para a realização do 3º Congresso da Oposição Democrática.

Em 6 de Outubro de 1957 realizara-se, também em Aveiro, o 1º Congresso Republicano de Aveiro. O II Congresso Republicano de Aveiro realizou-se em 1969. A Seara Nova deste II Congresso também publicou, em 2 volumes, as teses do Congresso.

O Congresso, por imposição do governador civil de Aveiro, a mando censório emanado de Lisboa, mudará de nome: de Congresso Republicano para Congresso da Oposição Democrática. As autoridades censórias entendiam que o termo «republicano» não se justificava por a questão do regime já não estar em causa.

O volume que se apresenta em Olhar as Capas contém as teses da 8ª Secção «Situação e Perspectiva Política no Plano Nacional e Internacional» em que José Medeiros Ferreira apresenta a tese «Da Necessidade de Um Plano Para a Nação» que previa a queda do regime às mãos dos militares,

Esta previsão, do que viria a acontecer em 25 de Abril de 1974, é tratada nas Viagens Por Abril de hoje.

Neste Blogue, na etiqueta Congressos da Oposição pode encontrar mais informação.

OLHAR AS CAPAS


3º Congresso da Oposição Democrática de Aveiro

Teses – 8ª Secção

Capa: Teresa Dias Coelho

Editora Seara Nova, Lisboa, Agosto de 1974

Há na Oposição Democrática várias correntes políticas.

Há diversos conceitos de democracia, mas há em todos eles um conjunto de factores que são comuns.

Sobre o caminho a seguir para estabelecer uma democracia, prtindo da situação actual, divergem os meios a empregar e seu doseamento em cada momento desse caminho, também não há uma unanimidade de ideias.

No entanto, nem tudo é negativo.

CORAÇÃO SEM IMAGENS

Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?

Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.

Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.

Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.

Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.

Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.

Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.

E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.

Raul de Carvalho em Poesia

domingo, 3 de março de 2024

POSTAIS SEM SELO


Ninguém é tão surdo como aqueles que não querem ouvir.

Autor desconhecido

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da imagem.

OLHAR AS CAPAS


Viagem ao Fim da Noite

Céline

Introdução de Clara Ferreira Alves

Capa: José Teófilo Duarte

Círculo Leitores, Lisboa, Junho de 1989

Para eles o canhão não era mais que um barulho. Por causa disso as guerras conseguem durara. Mesmo os que a fazem, os que estão a fazê-la, não dão por ela. De bala no ventre teriam continuado a apanhar na estrada sandálias velhas que «ainda podiam servir». Tal como o carneiro que agoniza sobre o flanco, no prado a pastar. A maior parte das pessoas não morre senão no último momento; outras começam a agarrar-se a isso com vinte anos de antecedência, e às vezes mais. São os infelizes deste mundo.

VIAGENS POR ABRIL


              Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                       João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


O recorte é antigo, desconhece-se o autor, o jornal de onde foi tirado mas certo é que

Ricardo Araújo Pereira, provavelmente, não sabia que um dia diria que não se deve gozar com quem trabalha.

Tenho caminhadas suficientes para, tirando um qualquer eventual pormenor temporal, não necessitar de debates e arruadas, para saber para onde vai o meu voto.

Mas como leio jornais tenho apanhado alguns momentos da campanha eleitoral

Pois fiquei a saber, lendo Ana Sá Lopes no Público, que ex-minitros e individualidades diversas do PSD e do CDS apareceram ao lado de Júlio Montenegro.

Coisas assim:

1.

Se a entrada de Passos Coelho na campanha pode ter servido para roubar votos ao Chega (uma boa notícia, a confirmar-se), fez zero pelo recentramento da Aliança Democrática. A falsa associação entre imigração e insegurança (“sensação”, chamou-lhe o ex-primeiro-ministro), não sendo uma novidade nos discursos de Passos Coelho, dificilmente captou um voto em quem votou PS nas últimas legislativas. A abertura ao Chega implícita no discurso (“O Luís saberá o que fazer para dar força ao Governo”) e a memória dos cortes das pensões do tempo da troika foram extremamente prejudiciais para o “recentramento”, como se viu na cena, que passou na televisão, em que duas pensionistas interpelam Montenegro no dia seguinte e atacam Passos.»

2.

«Quantos votos a AD ganhou com a entrada de Durão Barroso na campanha a dizer aos portugueses que o PSD tem “orgulho” no governo da troika? De que serve Barroso na campanha? Só se for, como disse na SIC Notícias Martim Silva, director adjunto do Expresso, "para mostrar que Montenegro é melhor". Já nem é bom falar da misoginia afirmada este sábado por outro ex-líder, Luís Filipe Menezes, que falou de “um ex-secretário dos Assuntos Parlamentares que só tinha olhos para as meninas do Bloco de Esquerda com quem agora se quer coligar”.»

Sim somos um povo que sempre viveu de pequenas alegrias, grandes dificuldades, tudo envolvido em pequenas esperanças.

Agora que se aproxima a Páscoa, convém não esquecer que, em muitos e muitos tempos idos, religiosos contaram que  Pilatos teve o cuidado preliminar de perguntar ao povo por quem optava: se por Cristo, se por Barrabás. Sabendo-se o resto da história significa que o mais importante não foi a pergunta de Pilatos. O mais importante foi o povo ter escolhido mal.

Primeiras eleições no Portugal democrático.

Os jornais percorriam o país tentando compreender, informar o que as gentes do país pensavam dessas eleições.

Recorte do Público:

«Margarida, 60 anos, militante do Partido Comunista, trabalhadora rural de uma aldeia perto de Aviz. Diz não saber política: «Só sei discutir o que agente dantes não tinha e hoje tem, aquilo que passei e hoje não passo».

OLHARES


Nesses tempos da infância ir à padaria comprar pão era um pedaço de pequena festa.

O cheiro do pão nas manhãs da infância, cosido, durante a noite, em grandes fornos a lenha.

Em casa dos pais, comia-se pão escuro. O pão era pesado e, para completar o peso, havia a necessidade de juntar um pequeno pedaço. Esse pedaço de pão era comido a caminho de casa, e ainda hoje sente esse gosto, o gosto de um antigamente com um qualquer floco de melancolia.

Poderá dizer que ir comprar pão é um dos grandes prazeres do seu quotidiano?

Quase diariamente, vai comprar, a uma lojeca de comida «take a way», pão dito alentejano.

Mania que o pão há-de ser alentejano, as alheiras de Mirandela, a carne de Lafões, mas resume-se tudo a meros travestis completada com a nossa velha mania de gostarmos de ser enganados.

Acontece que, ontem, na pequenas caminhada para a compra do pão, encontrou, numa das pontes do viaduto das Olaias, a frase gritante que a imagem acima mostra:

 

QUEM PRODUZ TODA A RIQUEZA ÉS TU!


No desenrolar da caminhada deu para lebrar um poema do Eduardo Valente Valente a que chamou Do admirável:


Um operário é admirável,

Não por ser um operário, mas por ser admirável.

E assim sucessivamente…

OS FANTASMAS DO NATAL PASSADO

«A maior parte das pessoas que vive e trabalha em Portugal não está contente com a situação económica, social e política do país. Mas não estar contente não significa querer uma situação ainda pior da que existe hoje. Muito menos continuar o processo de empobrecimento da grande maioria da população que persiste há décadas, independentemente de estar o PS ou PSD no comando.

Grande parte da campanha de Luís Montenegro consiste em garantir que não vai fazer o que sempre a direita tem feito no governo. Ao mesmo tempo que inscreve cortes fiscais para as maiores empresas e os contribuintes mais ricos, garante que não vai cortar nas pensões, salários e muito menos manter a situação de catástrofe que existe a nível da habitação, por total falta de ação dos governos para ir além do mercado. Estaríamos perante um grande milagre. Baixam-se os impostos aos muito ricos e os pobres sobem ao reino dos céus do rendimento. 

É uma operação difícil. Até porque vários expoentes da direita insistem em revelar ideias revanchistas no campo da imigração, interrupção voluntária da gravidez, falta de combate às alterações climáticas e mesmo advogar o não aumento de salários. 

Vários apoiantes da direita, nos estúdios de televisão e em comícios, têm feito uma tentativa de branqueamento da gestão do governo de Passos Coelho durante a Troika. Essa operação ideológica começa por falsificar as razões que levaram à crise de 2011, passa por ignorar que se comprometeram com o PS no plano de ajustamento da Troika e, sobretudo, pretende esconder que foram convictamente muito para além da Troika.

A chamada crise da dívida soberana precipitou-se depois da crise financeira mundial, devido ao rebentar da bolha especulativa financeira originada nas hipotecas subprime, que obrigou os estados a pagarem grande parte do buraco financeiro deixado pelos bancos privados.

No início da crise, um dos grandes cronistas do Financial Times comparava as políticas da Troika à decisão de um condenado à morte, a quem é dada a possibilidade de viver caso ensine inglês ao cavalo do rei. O homem aceita o desafio pensando: “Este ano, o rei pode morrer, eu posso fugir e até o cavalo pode aprender inglês”.

Não consta que a Troika e Passos Coelho tenham resolvido a crise, e nem que o cavalo tenha aprendido a falar inglês.

No dia 6 de julho de 2011, Passos Coelho garantia à Reuters que o governo queria ir para além das medidas da Troika, afirmando que não desejava ser um peso para os seus parceiros europeus, e garantindo a intenção de “surpreender e ir além do acordo”. Coisa que fez nos cortes de salários e pensões e nas privatizações de empresas estratégicas, altamente lucrativas, entregues a grupos privados estrangeiros a preço de saldos.

A crença ideológica de que havia uma “austeridade expansionista” e que quanto mais cortes de salários e pensões se fizesse melhor ficava a economia era sobretudo uma máquina de guerra para roubar salários e dar uma parte maior do rendimento ao capital.

A maior parte dos países que foi “ajudado” pelo FMI, Banco Central Europeu e Comissão Europeia não tinha dívidas públicas superiores à média europeia. E a chamada crise da dívida soberana não foi resolvida por estas medidas de austeridade, mas apenas pela declaração de Mario Dragui, governador do Banco Central Europeu, que devido ao falhanço dos programas de ajustamento, garantiu que faria tudo o que fosse necessário para salvar o euro, inclusive comprar dívida pública dos estados endividados. “Dentro do seu mandato, o BCE está pronto para, custe o que custar, preservar o euro”, disse Dragui, em Londres, na Global Investment Conference, a 26 de julho de 2012. Depois de uma pausa muito curta, acrescentou: “E acreditem, será suficiente.”

O falhanço do programa passista-troikista é evidente: foram retirados mais de 27 mil milhões de euros da economia, pela via do corte dos salários, das pensões e do aumento de impostos. Esta brutal sangria só reduziu o défice público em 9 mil milhões de euros, como faz notar Rui Peres Jorge no seu livro Os 10 Erros da Troika em Portugal.

Como escreve o economista João Rodrigues, no Público, a solução da crise estava nas mãos dos Banco Central Europeu e podia ter sido acionada há muito, não fosse a cegueira ideológica e a vontade de baixar estruturalmente os ordenados de quem trabalha.

“Na altura, a política de inação do Banco Central Europeu (BCE) permitiu que a taxa de juro das obrigações do tesouro nacional a dez anos chegasse aos 16%, com a dívida pública a ultrapassar os 120% do PIB. Tal não permitia continuar a fazer face ao serviço da dívida. Havia a alternativa da reestruturação por iniciativa do devedor. As elites do poder optaram por aceitar uma reestruturação liderada pelo credor, com austeridade destrutiva associada.”

“Quase dez anos depois, em plena crise pandémica, a dívida ultrapassou de novo os 120% do PIB, mas a taxa de juro das obrigações do tesouro nacional a dez anos ficou-se por uns residuais 0,25% e assim permaneceu enquanto o BCE quis, pois é este que pode controlar indefinidamente a taxa de juro de toda a dívida denominada na moeda por si emitida. É tão simples que a mente quase que bloqueia. Retrospetivamente, a austeridade imposta a partir de 2010-2011, com centenas de milhares de postos de trabalho destruídos e com centenas de milhares de portugueses compelidos a emigrar, a par do aumento da pobreza, foi um evitável desperdício, feito em nome da consolidação de um modelo neoliberal”, escreve João Rodrigues.

Na altura, o governo de Passos Coelho só não conseguiu ir mais longe, porque parte das medidas, como o corte de 10% das pensões superiores a 600 euros brutos, foram condenadas pelo Tribunal Constitucional, e o pagamento da TSU dos trabalhadores foi barrado por centenas de milhares de manifestantes em 15 de setembro de 2012, que precederam os mais de um milhão de pessoas que saíram às ruas a 2 de março de 2013, a dizer “Que se Lixe a Troika!”.»

Nuno Ramos de Almeida no Diário de Notícias de hoje

sábado, 2 de março de 2024

POSTAIS SEM SELO

Vivi o encanto e o desencanto deste país. Tenho a sensação de que este país fica sempre aquém do que podia ter sido.

Fernando Matos Silva

OLHAR AS CAPAS


Encontros ao Acaso

Somerset Maufgham

Tradução Luiza Maria D’Eça Leal

Editora Ulisseia, Lisboa,1954

Eu nunca pretendi ser outra coisa senão escritor de contos. Diverte-me contar histórias, e tenho contado muitas. É uma desventura para mim que o contar uma história só pelo prazer da história não seja actividade da simpatia dos intelectuais. Mas procuro sofre a minha desventura com coragem.

VIAGENS POR ABRIL


                                      Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                     João Bénard da Costa

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.

 

Anos 50, 60, por aí fora.

Em algumas terras do interior deste país à beira-mar plantado, poderia ler-se certos avisos:

«É proibida a mendicidade».

Esta semana a Cáritas alertou que a pobreza em Portugal pode ser ainda mais elevada do que o consta das estatísticas nacionais. Segundo a instituição revela, em 2022, 17% dos portugueses estavam no limiar da pobreza.

Ricos e Pobres. Pobres e Ricos.

Há alguns meses, uma velhota, a sair de um pequeno mercado na Rua Morais Soares, desabafava para si própria.

«Há mais gente a pedir que a trabalhar!»

Lidia Jorge numa entrevista ao Público:

«A pobreza entre nós é um escandalo. É a questão mais urgente em Portuga.»

Roger Vailland em Cabra-Cega:

Na verdade qualquer amizade é, por definição, impossível entre o rico e o pobre; o primeiro suspeitará sempre que o segundo é um crava e este que o rico é egoísta e avaro. Se houvesse verdadeira amizade, o rico não seria rico ou o pobre não seria pobre.

Jurei a mim mesmo, de uma vez por todas, não ser delicado para com os ricos. É uma promessa difícil de cumprir, porque é agradável ser-se louvado pelos poderosos.

Rodrigo deixa Marat a monologar».

COMEÇOS DE LIVROS


«Em Megara, parte baixa de Cartago, e nos jardins de Amílcar.»

Este é o começo de Salambô de Gustave Flaubert na tradução de F. da Silva Vieira, que existe na Biblioteca da Casa.

Contudo, Ana Cristina Leonardo, numa das suas crónicas com vai-vem ao café do Monte, considera que é um bom começo de livro e ela leu na tradução de Pedro Tamen:

«Era em Megara, subúrbio de Cartago, nos jardins de Amilcar.»

E adianta, Ana Cristina: «Mas mais felizes ainda os que conseguem ouvir a música da frase em francês:

«C’était à Megara, faubourg de Carthage, dans les jardins d’Hamilcar»

Os livros devem ler-se nas línguas originais.

Como saem os livros de José Saramago nas diversas traduções?

O meu pai sempre insistiu que, pelo menos, eu deveria aprender, a sério, o francês e o inglês.

Aconteceram, pela minha parte, os costumados ouvidos de mercador, fingir que não ouvi, fazer-me desentendido.

Hoje, pelas manhãs, torço a orelha.

sexta-feira, 1 de março de 2024

POSTAIS SEM SELO


O homem nasceu livre, mas em toda a parte está a ferros.

Jean-Jacques Rousseau  em Contrato Social            

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...



 

Os governantes, os intelectuais esqueceram que, há 500 anos, nascia um dos maiores vultos da História portuguesa: Luís Vaz de Camões.

Na estrofe 145 do Canto X de Os Lusíadas ele lembra a austera, apagada e vil tristeza das gentes portuguesas e agora que, a passos muito rápidos, se aproxima o dia das eleições para novo governo da nação, lembrar às mesmas gentes algo que Henrik Ibsen disse: «prometer mudança, aafinal de contas, resume-se a mentir, por muito respeitável que seja quem promete.»

No topo do texto, apresenta-se a estrofe 145 do Canto x tirada da  5ª edição de Os Lusíadas, organizada por Emanuel Paulo Ramos para a Porto Editora s/d, por onde, começos dos anos 60, dividi orações e estudei as mais diversas  aventuras gramaticais camoneanas e a lápis ainda estão as notas tomadas no decorrer das aulas.

Este poema foi o pesadelo de muitos estudantes que passaram a odiar a poesia e acabando por não reconhecer, desconhecer Luís de Camões como um enorme nome da nossa literaturaa.

1.

São muito maus os políticos que, nas últimas duas décadas, pelo menos, têm dirigido os destinos da Europa.

Esta semana, o presidente Macron, olhando o descalabro trágico dos dias na Ucrânia disse, numa reunião em Paris de líderes da União europeia e da NATO formou a opinião de que, para além de ajuda monetária e de armas e munições, a Nato deveria começar a pensar em enviar militares para a Ucrânia.

Declaradamente nenhum líder se mostrou favoravelmente à ideia, mas soube-se, pelos corredores, que membros dos países do leste europeu, sentados nas cadeiras do parlamento europeu, seriam favoráveis à ideia.

Como também não nos podemos esquecer que, nas próximas eleições europeias, a extrema direita aumentará, quase brutalmente, o número de deputados. 

2.

Portugal exportou menos quantidade de azeite mas, com a inflação, acabou por ultrapassar a barreira dos 1000 milhões de euros.

Contudo em Portugal a subida do preço do azeite está a provocar uma quebra no consumo. O preço já ultrapassa os 10 euros por litro.

3.

No conjunto dos 27 países da União Europeia, Portugal é o país que está envelhecer a um ritmo mais rápido: 25% das pessoas com mais de 75 anos vivem sozinhas.

4.

No ano passado fecharam 16 lojas históricas de Lisboa, o número mais alto dos últimos anos.

O Restaurante Bota Alta, desde 1976, no Bairro Alto, será a próxima.

 «Estamos a assistir a uma desfiguração total do Bairro Alto e também da cidade. Uma autêntica bandalheira, para a qual temos alertado, nos últimos dez anos, mas em relação à qual nada tem sido feito», acusa Paulo Cassiano, gerente do restaurante que encerrará devido ao aumento da renda mensal pedido pelo senhorio. De 1300 euros passaria para 11 mil.

5.

“Queria agradecer daqui, deste comício, ao meu amigo Pedro Passos Coelho por ter conseguido em poucos minutos explicado a Luís Montenegro tudo o que eu ainda não consegui explicar em dois anos de liderança”, disse perante os mais de 300 apoiantes que se reuniram numa sala de eventos em Sever do Vouga. Aos olhos do líder do Chega, o que Passos fez foi um “bom serviço à democracia”, que resumiu em poucas palavras: “Acho que Pedro Passos Coelho fez bem em ter vindo para dizer à direita e aqueles que se dizem de direita que o caminho não é por aqui. Basicamente o que Pedro Passos Coelho disse foi ‘ponham os olhos no Chega’.”

Pouco antes, aos jornalistas, tinha sublinhado que “em 20 minutos Passos Coelho explicou a Montenegro como é que há dois anos devia fazer no PSD”, nomeadamente ao levar para o debate temas como a imigração, a ideologia de género e até a estabilidade governativa.

6.

Nos últimos cinco anos houve 10 008 profissionais que se reformaram no SNS e, destes, 3226 são médicos. O presidente da Associação dos Administradores Hospitalares lembra que o pico das reformas ainda está para chegar.

7.

Nas últimas legislativas, em 2022, a percentagem de eleitores que apenas decidiram o voto no dia das eleições foi de 14%, ou seja mais de 750 mil pessoas; 

8.

Exportações portuguesas vão para países vizinhos para contornar sanções à Rússia
De repente, de 2021 para 2023, as exportações portuguesas de produtos químicos para o Quirguistão passaram de apenas 100 euros para mais de 80 mil euros e as vendas de todos os bens nacionais para esse país passaram a ser quase oito vezes maiores do que eram. A explicação? Exportar bens para o Quirguistão e para vários outros países próximos da Rússia parece estar a ser uma forma de as empresas europeias, incluindo as portuguesas, passarem ao lado das sanções impostas ao comércio com a Rússia por causa da guerra na Ucrânia.

9.

A ideia de que Donald Trump está a ser usado por Deus para moralizar a América, mesmo por causa e apesar de todos os seus defeitos, é uma crença tão forte que quase faz equivaler o trumpismo a uma religião. Assente nesse dogmatismo, os defeitos de carácter e os processos judiciais de Trump não abalam a convicção de que todos nós somos pecadores à espera de ser redimidos e que o ex-Presidente dos Estados Unidos é o escolhido por Deus para esta cruzada.

David P. Gushee, catedrático de Ética social cristã na Universidade Livre de Amesterdão, disse: “Se procuras uma justificação para alguma coisa, normalmente vais encontrá-la. Por isso, a ideia de que Trump é muito provavelmente a escolha por causa da sua má folha de serviço é uma prova ainda maior de que Deus o deve ter escolhido porque só Deus faria algo tão grandioso, não é assim?”

10.

«Quando um país já não tem anéis, sobram os dedos. Sempre houve gente nos governos capaz de trocar o interesse público por 30 dinheiros. Agora trata-se de espoliar pessoas dos seus bens e destruir a biodiversidade para enriquecer uma minoria em nome de álibis "verdes". No passado, o poder de interesses influentes arruinou a ferrovia, plantou autoestradas para ninguém, e pontes nos sítios errados. Agora querem fazer de Portugal o Congo europeu do lítio e do hidrogénio. Não é só mais uma crise do regime. O país está cada vez mais vulnerável.»

Vitorino Soromenho Marques


VIAGENS POR ABRIL




Este não é o dia seguinte do dia que foi ontem.

                                                  João Bénard da Costa          

Será um desfilar de histórias, de opiniões, de livros, de discos, poemas, canções, fotografias, figuras e figurões, que irão aparecendo sem obedecer a qualquer especificação do dia, mês, ano em que aconteceram.


Hoje é o primeiro dia do mês de Março.

A palavra que não se recusa, o grito que não se oprime, o gesto de nascer que a Primavera tem, todos os anos, quando Março chega.

A Primavera não tarda e fomos aprendendo que mais importante que a chegada da Primavera é estarmos à sua espera e com isso nos surpreendemos como se fosse a coisa mais simples, mais terna das nossas vidas.

Donde virá a Primavera que todos a esperam febrilmente?

As Viagens, a partir daqui, mantendo passadas já dadas, passarão a ter outras cambiantes, outras datas, outros personagens.

O que em cima encontram, são páginas (175, 176, 177)  do Depoimento de Marcelo Caetano escrito no Rio de Janeiro país do seu exílio após o 25 de Abril.

Nestas páginas que aqui se publicam, Marcelo Caetano aborda a inicial génese que fez cair o regime ditatorial. 

São de notar as palavras de Marcelo reconhecendo que o governo chegou à undécima hora na ignorância do que se passava nas Forças Armadas.

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 

Este livro, capa castanha, encadernado de origem, com as Poesias de Bocage, é um dos que o meu avô paterno trouxe para a Biblioteca da Casa quando foi viver para a casa dos  meus pais.

O livro não tem indicação da tipografia que, em Lisboa, o editou no ano de 1910 e tem poesias que na edição das obras do poeta não foram publicadas em Lisboa numa edição no ano de  1853.

Tem uma «Advertencia Preliminar» que termina assim:

«Sirvam estas razões de salvo-conduto com que grangeemos obter vénia perante os ânimos sensatos e despreocupados: quanto  áqueles, para quem (na phase de um nosso amabilissimo contemporâneo) é mais escândalo escrever um beijo do que tomar cento; -  esses teem em si mesmos contra o veneno do livro um preservativo tão fácil quanto infalível: - Não  o comprem, nem o leiam, e ficaremos em boa paz.»

 Falar de Bocage sem lembrar Alexandre O’ Neill?

 Auto-Retrato  de Alexandre O’ Neill à maneira de Bocage: tirado de Poemas Com Endereço :

 ONeill (Alexandre), moreno

português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele ONeill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Um outro poema do O’ Neill sobre Bocage:

 

A UM POETA QUE DEIXOU DE COMPARECER  NAS ANTOLOGIAS

 

Tinha de suceder deixares de suceder

a ti próprio.

 

Já Bocage não és? - claro! -

e quem sabe se alguma vez o foste?

Digo-te mais : nunca o serás,

nem apocrifamente.

 

Não almejavas tanto?

 

Bravo, rapaz, parece que caíste

em ti!

 

Como queres que uma antologia se acrescente

sem, tarde ou cedo, se diminuir?

 

Sabes por que se diz « gemem os prelos»?

Não penses que é por ti.

 

Sê razoável!

 

Teus versos hão-de espiritualizar muita família.

 

Entre netos, uma velha senhora esquecerá a meio

um soneto dos teus.

 

Se a sorte não te for de todo adversa,

Um lusófilo, algures,

citará entre barras versos da tua lavra

numa elegante nota de rodapé.

OLHAR AS CAPAS


 Poesias

Eroticas, Burlescas e Satyricas

M.M. de Barbosa du Bocage

Bruxellas, 1910


XIII


É pau, e rei dos paus, não marmeleiro,

Bem que duas gamboas lhe lombrigo;

Dá leite, sem ser arvore de figo,

Da glande o fructo tem, sem ser sobreiro:

 

Verga, e não quebra, como o zambujeiro;

Occo, qual sabugueiro tem o umbigo;

Brando às vezes, qual vime, está comsigo;

Outras vezes mais rijo que um pinheiro:

 

À roda da raiz produz carqueja:

Todo o resto do tronco é calvo e nu;

Nem cedro, nem pau-sancto mais negreja!

 

Para carualho ser falta-lhe um u;

Adivinhem agora que pau seja,

E quem adivinhar metta-o no cu.      

PODÍAMOS SABER UM POUCO MAIS

Podíamos saber um pouco mais

da morte. Mas não seria isso que nos faria

ter vontade de morrer mais

depressa.

Podíamos saber um pouco mais

da vida. Talvez não precisássemos de viver

tanto, quando só o que é preciso é saber

que temos de viver.

Podíamos saber um pouco mais

do amor. Mas não seria isso que nos faria deixar

de amar ao saber exactamente o que é o amor, ou

amar mais ainda ao descobrir que, mesmo assim, nada

sabemos do amor.

Nuno Júdice