sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

À LUPA


Este governo está a perseguir as pessoas do dinheiro.

Joe Berardo, empresário.

MINIATURAS

POSTAIS SEM SELO


Há muitos mais pobres do que as estatisticas contabilizam.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

QUOTIDIANOS


Vinha do trabalho e passaram-me um cheque de 169 euros. Como o banco fica no caminho, decidi ir levantá-lo, mas fui posto na rua por estar mal vestido, lamenta o empresário, de 36 anos e natural de Figueiredo, Braga.
O gerente disse-me que pensava que eu era romeno. Isto é racismo, lembra, indignado com a situação, acrescentando ter pedido o livro de reclamações, o qual lhe foi inicialmente recusado. Disse que só o dava depois de eu tomar banho e vestir outra roupa, acrescenta ainda.
Acto contínuo, decidiu chamar as autoridades. A GNR foi ao local e tentou identificar o gerente do banco mas, segundo Paulo Ribeiro, sem êxito. Disse que não se identificava e que se as autoridades quisessem identificar alguém que identificassem o banco.

Do Jornal de Notícias

OS CROMOS DO BOTECO


Natal na Bretanha.
Canções tradicionais de Natal, gravadas ao vivo na Chapelle de Landivisuau, pelos Kanerian Bro-Leon.

MARATONA DE CARTAS


Ales,Gao,Narges, Juan e os jovens do Girifna ousaram defender os direitos humanos e, por, isso, as suas vidas estão em risco.
Em Dezembro de 2012 o mundo vai unir-se para os defender na Maratona de Cartas. Este é um evento anual, da Amnistia Internacional, no qual centenas de milhares de pessoas assinam cartas-apelo, num mesmo momento, em defesa de vítimas de violações de direitos humanos.
Participe em: www.amnistia-internacional.pt
Em 2011 fomos mais de um milhão, este ano podemos ser muitos mais.
Ajude-nos a salvar vidas, juntos faremos a diferença.

UM LUGAR VAZIO À MESA


No Natal passado, a Rádio Renascença pediu a Manuel António Pina que partilhasse com os ouvintes uma memória de Natal.
Manuel António Pina escreveu o texto Um Lugar Vazio À Mesa.
Durante a sua leitura ouvia-se, em fundo, o 2º andamento do Concerto nº 2 de Brahms.

A memória de Natal que me é pedido que partilhe é, não de um, mas de 11 dolorosos natais, os de 1963 a 1974.
 Em 1963, meu irmão mais novo, em desacordo com a Guerra Colonial, recusou-se a comparecer à inspecção militar e fugiu clandestinamente para França. Meus pais e eu pensámos que nunca mais o veríamos. O regime de Salazar parecia eterno e as guerras nas colónias africanas constituíam o centro, praticamente exclusivo, da política do país. Daí que a deserção (a situação de meu irmão não era rigorosamente de deserção, pois não chegara a ser incorporado mas, em termos militares, era afim) fosse o mais grave dos crimes, punível mesmo, se em teatro de operações, com a pena de morte.

Além disso, a deserção lançava uma sombra de permanente suspeita política sobre a própria família do desertor, pelo que meus pais receavam nunca vir a ser autorizados a sair de Portugal para visitar meu irmão. Eu próprio, quando, em 1972 ou 1973, depois de cumpridos quase quatro anos de serviço militar e já jornalista, fui encarregado de um trabalho de reportagem na Alemanha, encontrei dificuldades quase insuperáveis para obter passaporte, o que só acabou por ser possível após responsabilização pessoal do director do "JN", Pacheco de Miranda, pelo meu regresso.

Esse primeiro Natal sem o meu irmão (de quem não tivemos, durante meses, notícias senão uma vez, através de um emigrante de Braga seu conhecido que, tendo vindo de férias, nos procurara para nos dizer que ele encontrara trabalho como "voyeur de nuit" e pedia que lhe enviássemos comida e algum dinheiro) foi, por isso, triste e sem palavras. Minha mãe levantava-se de vez em quando da mesa e ia chorar longamente para a cozinha; meu pai esperava um pouco e, depois, levantava-se também e ia buscá-la, regressando ambos em silêncio.

Minha mãe pôs o prato e os talheres de meu irmão e, quando trouxe o bacalhau e as batatas, serviu-lhos. Tudo aquilo se me afigurava patético e doentio, mas também eu chorava por dentro. A certa altura, como a cadeira vazia de meu irmão se encontrava um pouco afastada, minha mãe levantou-se para aproximá-la da mesa e, nesse momento, fingi que precisei de ir à casa de banho e deixei correr livremente as lágrimas.

Nos 10 anos seguintes, na nossa ceia de Natal houve sempre um prato e talheres na mesa para uma ausência presente. Até 1974

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

À LUPA


Cavaco Silva não envia o Orçamento de Estado para 2013 para fiscalização preventiva.
Na Mensagem de Natal, que na sexta-feira disse aos portugueses, Cavaco Silva lembrou:
Ninguém fica indiferente ao Natal. Tempo de família, tempo de pararmos um pouco para pensarmos mais nos que estão à nossa volta e nos que estão longe. Principalmente nos mais frágeis, que exigem mais a nossa atenção e a nossa partilha fraterna. Sabemos todos que vivemos um período muito difícil, mas não podemos perder a esperança", "Se caminharmos unidos, ultrapassaremos as dificuldades.
Um ano de 2013 tão bom quanto possível
Nesta segunda-feira não deixou de lembrar: não cedo a nenhuma pressão.

PERUS PELO NATAL


Tenho dos meus tempos de miúdo, a lembrança de ver, por estes dias de Natal, no Martim Moniz, dezenas de alentejanos a venderem perus.
Ramalho Ortigão escreve no V volume de As Farpas:
Lisboa prepara neste momento a festa de Natal.
Grandes rebanhos de perus, enrabeirados de lama, espalham no macadame as suas manchas movediças e escuras, de reflexos de aço adornadas de florescências brancas e vermelhas dos moncos. Pessoas idóneas pastoreiam esses galináceos, guiando-os a golpes de cana por entre as rodas dos trens e por entre as pernas dos viandantes. Na compra destes perus convém escolher os mais teimosos: à força de Cana são esses os mais tenros.
A minha avó não comprava o peru no Martim Moniz.
Um tio materno, operário da CUF no Barreiro, vivia no Lavradio, quando o Lavradio, até à Baixa da Banheira, era uma enorme quinta a perder de vista.
Uma casa térrea, com horta e capoeiras, e o peru era ali criado a bolota.
Perto do Natal, eu e o meu pai, íamos ao Lavradio buscar o peru.
Na Estação Sul e Sueste, hoje desactivada, apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda movido a carvão.
 No Barreiro apanhávamos a camioneta para o Lavradio.
Barcos e camionetas eram escassos, com longuíssimos  intervalos de espera.
O peru, patas amarradas, viajava numa alcofa.
Trazíamos também alfaces, tomates, cebolas e tangerinas que exalavam um perfume único e embalador.
Nisto se perdia toda uma tarde.
Chegados a casa, a minha avó embebedava o peru com aguaradente, e começava os preparativos para o tempero e o recheio.
Depois era a grande festa do jantar de Natal.
Nunca, mas mesmo nunca, voltei a comer um peru como o que a minha avó cozinhava pelo Natal.
Ainda fiz algumas tentativas, mas já nada era igual.
Nem os barcos a carvão, nem a camioneta da carreira e o o meu tio deixara de ter a horta e as capoeiras.
O cimento tomou conta de tudo e hoje o Lavradio, e tudo à volta, é o que é: betão e mais betão.
Depois chegariam os obsoletos perus de plástico e nunca mais, no jantar de Natal, o peru assentou praça como festim.
Tudo isto é uma doce memória, mas ao mesmo tempo amarga.
Amarga, porque, tal como poema de David Mourão-Ferreira, de que o meu pai muito gostava, se pode ler:
Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio.
Assim foi.,, assim será… e o Nada há-de retomar a cor do infinito.
Legenda: perus a serem vendidos nas ruas de Lisboa. Não foi possível identificar autor/origem da fotografia.

MIUDEZAS DE NATAL

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

O ÚLTIMO ACTO


Capa do JL 1101 de 12 a 25 de Dezembro em que Joaquim Benite, um dos nomes mais destacados do teatro português do século XX, recentemente falecido, é evocado.
As últimas notas que escreveu, os que com ele trabalharam e deixaram textos evocativos. Yvette Centeno, um poema:
A Joaquim Benite no seu Olimpo
(In Memoriam)
Chora o Olimpo
o valoroso herói,
caiu junto aos portões
da cidade de Atenas
Caronte não o deseja:
não aceita as moedas,
a sua luz mais forte
ofuscaria a treva
da memória…
Dionísios vem busca-lo
com as suas bacantes:
ele sobe triunfante
com o Rei do cortejo…
Vénus abre-lhe o colo
de abraços generosos
e Hermes cede-lhe as asas
para poder voar…
Zeus entrega a coroa de fogo
reservada aos heróis:
o Olimpo é o Reino
de memória perpétua
onde não há Carontes
receosos…

POSTAIS SEM SELO


Naqueles anos, o Natal conservava ainda um certo ar de magia e de mistério. O pó dde luz do Inverno, o olhar e a esperança de pessoas que viviam rodeadas de sombras e de silêncios conferiam àquele panorama um leve perfume a verdade, no qual, pelo menos as crianças e aqueles que haviam aprendido a esquecer, ainda poderiam acreditar.

Carlos Ruiz Zafón em O Prisioneiro do Céu, Planeta Manuscrito Junho 2012
Legenda: pintura de Anton Pieck 

DO BAÚ DOS POSTAIS


Aos poucos vão chegando as palavras natalícias dos amigos.
Estas vêm de Hamburgo e são da Angelika e do Hans-Martin.

NATAL DE 1971




Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm?
Dos que não são cristãos?
Ou de quem traz às costas
as cinzas de milhões?
Natal de paz agora
nesta terra de sangue?
Natal de liberdade
num mundo de oprimidos?
Natal de uma justiça
roubada sempre a todos?
Natal de ser-se igual
em ser-se concebido,
em de um ventre nascer-se,
em por de amor sofrer-se,
em de morte morrer-se,
e de ser-se esquecido?
Natal de caridade,
quando a fome ainda mata?
Natal de honesta fé,
com gente que é traição,
vil ódio, mesquinhez,
e até Natal de amor?
Natal de quê? De quem?
Daqueles que o não têm,
ou dos que olhando ao longe
sonham de humana vida
um mundo que não há?
Ou dos que se torturam
e torturados são
na crença de que os homens
devem estender-se a mão?

Novembro 71


Jorge de Sena de Exorcismos em Jorge de Sena, antologia organizada por Eugénio Lisboa, Editorial Presença, Lisboa 1984.
Legenda: pintura de Maria Keil

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

O SUSTO


A redução do limite das deduções com as despesas de saúde, casa e educação está em vigor desde o início deste ano, mas só agora, quando os contribuintes começarem a preparar a entrega da declaração do IRS, se vai sentir o efeito prático destas mudanças.
O impacto será sentido por todos, sobretudo pelos que ganham menos, porque neste caso serão afetados pela alteração do cálculo do valor gasto com a saúde. Quem tem rendimentos mais elevados acabará por ser menos penalizado. O susto terá início em Março.
Do Diário de Notícias

NATAL DOCE, DOCE NATAL


O pacotinho de açúcar de hoje, é dedicado ao sonho:

O sonho é a imaginação sem limites, transformada em ideias e imagens que surgem, na sua grande maioria, durante o sono. Mas sonho é igualmente o nome de um bolo fofof, feito de farinha e ovos, frito e polvilhado com açúcar, ou mergulhado em calda.

RECORDAR É MORRER



Há 106 anos nascia, em Tomar, Fernando Lopes Graça.

Sabe, recordar é morrer, não tenho nada essa tendência para o passado.

Já um seu companheiro de lides culturais e revolucionárias, José Gomes Ferreira, deixou expresso em A Memória das Palavras:

Saudades, só do futuro!

Legenda: Fernando Lopes Graça com José Gomes Ferreira e Manuel da Fonseca, durante uma manifestação.

domingo, 16 de dezembro de 2012

UTILIDADES


Um paliteiro natalício.

POSTAIS SEM SELO


Há ocasiões em que odeio Nova Iorque e os milhões de pessoas apressadas, nervosas e egoístas que a povoam. Uma pessoa inocente pode ser brutalmente assassinada perante meia centena de testemunhas sem que ninguém levante a mão para a defender ou para, sequer, dar o alarme.Pergunto-me se terá sido isto que sucedeu a Karl Swendson.Uma coisa é certa: passaram a poucos palmos da valeta onde jazia o seu corpo esfacelado pelo menos vinte pessoas, e nenhuma delas se dignou ver se estava ligeira ou gravemente ferido, se estava vivo ou morto. Nem uma se deu ao trabalho de telefonar a Polícia.

sábado, 15 de dezembro de 2012

OS CROMOS DO BOTECO


Toto, o "Puto da Malveira canta Sr. Natal, fado latino, letra de José Crispin e É Tão Bom Ser Pequenino, fado Mouraria, letra D.R.

POSTAIS SEM SELO


Que saudades tenho desse tempo
em que não conhecíamos os restaurantes bons
não havia telemóveis
encontrávamos sempre os amigos
a horas desencontradas


José Carlos Barros

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

OLHAR AS CAPAS


Piloto de Guerra

Antoine de Saint-Exupéry
Tradução de Ruy Belo
Editorial Aster, Lisboa s/d

Devo estar a sonhar. Encontro-me no colégio. Tenho quinze anos. DE cotovelos fincados nesta carteira negra, sirvo-me com arte ora do compasso, ora da régua, ora do transferidor. Estou atento e tranquilo. À minha volta, há companheiros que falam em voz baixa. Um deles alinha números num quadro. Alguns, menos sérios, jogam ao bridge. De tempos a tempos, mergulho mais fundo no sonho e lanço um olhar pela janela. Fico-me, durante muito tempo, a olhar. Um ramo de árvore oscila docemente ao sol. Sou um aluno distraído. Experimento um requintado prazer em saborear este sol e este cheiro infantil a carteira, a giz, a quadro. Que alegria sinto em refugiar-me nesta infância tão bem resguardada! Sei-o perfeitamente; começamos pela infância, pelo colégio, pelos camaradas, depois lá chega o dia em que nos submetemos a exame. Em que recebemos um diploma qualquer. Em que atravessamos, com um baque no coração, uns certos umbrais para além dos quais passamos, sem mais nem menos, a ser homens. E nessa altura o pé pisa, com maior força, a terra. Já seguimos o nosso oróprio caminho da vida. Os primeiros passos do nosso caminho. Até que enfim vamos experimentar as armas em adversários autênticos! A régua, o esquadro, o compasso, usá-los-emos para erguer o mundo ou para triunfar dos inimigos. Acabaram-se as brincadeiras.

MIUDEZAS DE NATAL

OLHARES


Temporal desfeito sobre Lisboa.
Chove que se farta, uma ventania de todo o tamanho.
O chapéu-de-chuva, oferta natalícia da farmácia do bairro no ano passado, ficou em fanicos.
O Inverno está a chegar, mas na terça-feira, num automóvel estacionado nas Olaias, ainda encontrei pedaços de Outono.

POEMA DO NATAL


PARA ISSO fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinicius de Morais em O Operário em Construção e Outros Poemas, Publicações Dom Quixote, Lisboa Abril de 1969

Legenda: Adoração dos Magos, quadro de Botticelli