domingo, 19 de dezembro de 2021

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Natal

Neste caminho cortado

Entre pureza e pecado

Que chamo vida,

Nesta vertigem de altura

Que me absorve e depura

De tanta queda caída,

É que Tu nasces ainda

Como nasceste

Do ventre da Tua mãe.

Bendita a Tua candura.

Bendita a minha também.

 

Mas se me perco e Te perco,

Quando me afogo no esterco

Do meu destino cumprido,

À hora em que Te rejeito

E sangra e dói no Teu peito

A chaga de eu ter esquecido,

É que Tu jazes por mim

Como jazeste

No colo da Tua mãe.

Bendita a Tua amargura

Bendita a minha também.

 

Reinaldo Ferreira em Natal… Natais, antologia organizada porVasco Graça Moura, Público, Lisboa s/d

Legenda: pintura de Heidi Malott

sábado, 18 de dezembro de 2021

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM...


 Há livros que deveríamos transportar, em lugar do telemóvel, diariamente no bolso.

A Balada do Café Triste de Carson McCullers, é um desses livros.

«Havia uma razão profunda para o café ser tão enaltecido. E esta razão profunda tinha que ver com um determinado orgulho antes desconhecido. Para compreender este novo sentimento é preciso não esquecer o pouco valor que se atribui à vida humana. Muita gente dependia da fábrica, mas era rara a família que tinha o suficiente para comer e vestir. A vida pode tornar-se numa luta desordenada apenas porque se tem de obter aquilo que é necessário para manter as pessoas vivas. E o problema reside nisto: todas as coisas têm um valor, e é preciso dinheiro para as ter, pois é assim que o mundo funciona. Sabe-se quanto custa o fardo de algodão ou uma quarta de melaço. Mas a vida humana não tem preço: é-nos dada de graça e levam-na sem pagar nada. Quanto vale? A julgar pelo que nos rodeia, por vezes o seu valor é pouco ou nenhum. Muitas vezes esforçamo-nos sem descanso e as coisas não melhoram, e depois surge a sensação de que não se vale nada.
Ora, o orgulho que o café despertou na povoação, teve um claro efeito em quase toda a gente, incluindo as crianças. Para ali se estar não era preciso pagar o jantar ou um quarto de whisky. Havia bebidas a níquel para quem não pudesse pagar mais e Miss Amélia vendia uma bebida, «Cherry Juice» cor-de-rosa e muito doce, a um penny o copo. Quase todos, com excepção do Reverendo T.M. Willin, passavam pelo café pelo menos uma vez por semana. As crianças adoram adormecer em casas diferentes das suas e comer à mesa dos vizinhos; em tais ocasiões, comportam-se sempre bem e sentem-se orgulhosas disso. As pessoas da terra sentiam o mesmo tipo de orgulho ao sentarem-se no café. Lavavam-se e limpavam a sola das botas antes de entrarem. Aí, pelo menos durante algum tempo, o amargo sentimento de não se valer nada neste mundo quase desaparecia.»

1.

O número de pessoas sem abrigo em Portugal aumentou em 2020 para 8029, mais 1000 cidadãos que no ano anterior. 

2.

Há 2,3 milhões de portugueses em risco de pobreza ou exclusão social.

Quase 230 mil portugueses caíram na pobreza em 2020.

3.

Dizem especialistas que as reformas antecipadas, ao invés de resolverem o problema do desemprego, significam, antes, uma redução do potencial produtivo e da experiência laboral, apressando o envelhecimento dos cidadãos prematuramente retirados dos seus postos de trabalho e, em em muitos casos, substituídos não por ekmpragdos mais jobesn mas por máquinas.

4.

«A detenção de João Rendeiro não me faz esquecer que a Assembleia da República, graças aos partidos do chamado "arco do poder" - PS, PSD e CDS - nunca conseguiu legislar de forma constitucional sobre enriquecimento ilícito ou para penalizar quem mete dinheiro em offshores.

A detenção de João Rendeiro não me faz esquecer que o poder político não demonstra nem capacidade nem vontade de atacar seriamente o problema da corrupção de grande dimensão - atitude que um eventual governo de bloco central PS/PSD, resultante das eleições de 30 de janeiro, irá agravar, dada a natureza dessa união de interesses "obrigar" a eliminar instrumentos fiscalizadores políticos, económicos, judiciais ou dos media. Numa altura de circulação de milhares de milhão de euros vindos da União Europeia, um bloco central a governar o país seria como meter uma raposa numa capoeira.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias. 

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.


Um livro de seis-histórias-seis, uma delas extraordinária, A Cadeira, que gira à volta do dia em que o ditador de Santa Comba bateu com a cabeça nas pedras da esplanada do Forte de Santo António e aí iniciou o caminho para viagem sem regresso, ocorrida em Julho de 1970, prolegómenos da futura mudança de um país.

«Há muito tempo que não tínhamos um tempo assim.»


«A cadeira começou a cair, a ir abaixo, a tombar, mas não, no rigor do termo, a desabar. Em sentido estrito, desabar significa caírem as abas a. Ora, de uma cadeira não se dirá que tem abas, e se as tiver, por exemplo, uns apoios laterais para os braços, dir-se-á que estão caindo os braços da cadeira e não que desabam. Mas verdade é que desabam chuvadas, digo também, ou lembro já, para que não aconteça cair em minhas próprias armadilhas: Assim desabam bátegas, que é apenas modo diferente de dizer o mesmo, não poderiam afinal desabar cadeiras, mesmo abas não tendo? Ao menos por liberdade poética? Ao menos por singelo artifício de um dizer que se proclama estilo? Aceite-se então que desabem cadeiras, embora seja preferível que se limitem a cair, a tombar, a ir abaixo. Desabe, sim, quem nesta cadeira se sentou, ou já não sentado está, mas caindo, como é o caso, e o estilo aproveitará da variedade das palavras, que afinal, nunca dizem o mesmo, por mais que se queira. Se o mesmo dissessem, se aos grupos se juntassem por homologia, então a vida poderia ser muito mais simples, por via de redução sucessiva, até à ainda também não simples onomatopeia, e por aí fora seguindo, provavelmente até ao silêncio, a que chamaríamos o sinónimo geral ou omnivalente. Não é sequer onomatopéia, ou não é formável ela a partir deste som articulado (que não tem a voz humana sons puros e portanto inarticulados, a não ser talvez no canto, e mesmo assim conviria a ouvir de mais perto), formado na garganta do tombante ou cadente, embora não estrela, palavras ambas de ressonância heráldica que estão designando agora aquele que desaba, pois não se achou correcto juntar a este verbo a desinência paralela (ante) que perfaria a escolha e completaria o círculo. Desta maneira fica provado que não é perfeito o mundo.»

 

  

A FINGIR DE VIVO MAIS ALGUM TEMPO

Natal de 1948

Uma consoada triste, com minha mãe a apodrecer no cemitério. À chegada, já não estava ela à porta a esperar-nos, nem ao jantar as rabanadas tinham o mesmo gosto. O velho, coitado, foi até onde pôde  para se mostrar mais humanizado. Recebeu-nos ele, e fez as honras da casa. Como era impossível delegar na companheira perdida as delicadezas e os sorrisos, a sua timidez esforçou-se e apresentou-se gentil e afectuosa. É como se ele tivesse também morrido já, mas estivesse condenado a fingir de vivo mais algum tempo.

Miguel Torga em Diário, Volume IV

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Em Que se Fala do Menino Jesus


Fiz a maldade e olhei Jesus.

Ele baixou os olhos e corou
e toda a gente julgou...
que quem fez a maldade foi Jesus .

E todos Lhe perdoaram ...

- Obrigado, Menino ! Mas agora
tira os olhos do bebé e vem brincar,
que eu prometo pra não Te ver corar,
já não fazer das minhas .
Anda jogar ao pé das flores, no chão,
comigo às cinco pedrinhas ...
anda jogar pra esqueceres
o preço do meu perdão ...

Sebastião da Gama em Natal… Natais

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 

Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Nas conversas que José Saramago manteve com Carlos Reis, fala de um seu livro que nunca foi publicado e que se seguiu à “Terra do Pecado”:

 «Escrevi esse livro que se chama A Clarabóia e é um romance. É a história de um prédio com seis inquilinos sucessivamente envolvidos num enredo. Acho que o livro não está mal construído. Enfim, é um livro também ingénuo, mas que, tanto quanto me recordo, tem coisas que já têm que ver com o meu modo de ser.»

José Saramago acabou de escrever Claraboia no dia 5 de Janeiro de 1953.

Era o seu segundo romance e entregou-o a um amigo que o levou à Notícias Editora que não lhe dedicou qualquer tipo de atenção.

Encafuado nas prateleiras de um qualquer armazém, foi descoberto já Saramago atingira a relevância que se reconhece.

Mostraram interesse em publicá-lo. Saramago recusou e recuperou o manuscrito mas, enquanto fosse vivo, não quis que o livro  fosse publicado.

A sua publicação ocorreu em Setembro de 2011.

 Alguns pedaços vadios devidamente sublinhados:

Aprendi a ver mais longe que a sola destes sapatos, aprendi que, por detrás desta vida desgraçada que os homens levam, há um grande ideal, uma grande esperança. Aprendi que a vida de cada um de nós deve ser orientada por essa esperança e por esse ideal. E que se há gente que não sente assim, é porque morreu antes de nascer.»

 «Aquela aguda sensação que faz temer a loucura e desejá-la.»

 «Um silêncio pesado, como se a morte tivesse vindo sentar- se entre os dois homens.»

«No meu entender, as mulheres bonitas não querem amar, querem ser amadas.»

«Talvez agora o seu amor fosse maior, porque já não se alimentava de perfeições reais ou imaginárias.»

«Ter não é possuir. Pode ter-se aquilo que se não deseja. A posse é o ter e o desfrutar o que se tem.»

«O cigarro fazia parte de uma complicada rede de atitudes, palavras e gestos, todos com o mesmo objetivo: impressionar.»

«Os três estavam contentes, tinham aquele sorriso de olhos que vale por todos os sorrisos de dentes e lábios.«

«Ouviu-se um suspiro: Rosália atingira o êxtase, o intermédio lírico terminara. Das altas regiões da adoração, desceu ao prosaísmo terrestre.»

«Quando Maria Cláudia entrou... as sombras da cozinha saíram.»

«O que eu queria é que a sua preocupação de fugir a prisões não o levasse a ficar prisioneiro de si mesmo, do seu cepticismo.»

«- Vivemos entre os homens, ajudemos os homens.

-E que faz o senhor para isso?

- Conserto-lhes os sapatos, já que nada mais posso fazer agora»

NOTÍCIAS DO CIRCO

Sete militares da GNR foram acusados de crimes relacionados com alegados maus-tratos a imigrantes em Odemira. Em comunicado, a GNR faz saber que denunciou agressões por parte de cinco elementos da GNR às autoridades em 2018. Esse processo, que já foi julgado e que resultou em condenações, levou à abertura do inquérito que envolve agora os sete militares.

Os agentes filmaram-se a humilhar e agredir os imigrantes.

A GNR confirma que três dos suspeitos são reincidentes. Dois militares estão suspensos, os restantes cinco aguardam pela conclusão do inquérito da Inspeção-Geral da Administração Interna.

De há muito se sabe que o racismo, a xenofobia estão espalhados pelas forças de segurança sem que o governo tome medidas rigorosas para as combater.

Sabermos que imigrantes vêm para Portugal buscar condições mínimas de sobrevivência, sem o conseguirem, e, ao mesmo tempo, são alvos destes enxovalhos por parte das autoridades do país,  é algo inconcebível e que me deixa verdadeiramente fora de controlo.

António Costa, numa qualquer noite de Inverno, há-de confrontar-se com o quanto lhe será prejudicial o ter mantido, numa quase eternidade, o ministro Cabrita nos seus governos.

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Oratória do Natal Cósmico

 

Natividade. Um deus rompe e sai

sai da terra no romper da haste

seu presépio é uma flor de urânio

a vaca, trator branco

o burro, um guindaste

 

carpinteiro de astronaves seu pai

 

reis magos em nuvem supersónica

 

harpas eletrónicas

 

e o anjo que ao sol despia

o resplendor, as asas e o véu

às gentes descrentes anuncia:

 

- quando ele volta, livre, do cosmos

deuses morrem à míngua de céu

 

Luís Veiga Leitão em Natal… Natais

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Os Sublinhados Saramaguianos começaram com uma citação tirada do Último Caderno de Lanzarote (sobre a morte de Ilda Reis, primeira mulher de José Saramago) e ao livro volto para bater na tecla que continua por publicar a correspondência que José Saramago manteve com os seus pares e também com os seus leitores.

E enquanto esta publicação não acontecer, eu não a deixo de reclamar.

Por isso volto ao Último Caderno, à página 133:

«Saramago escreve pela manhã e no final da tarde a sua quota diária de literatura, nunca mais de duas páginas, ao som de Mozart, Bach ou Beethoven, e responde a algumas das cartas, cerca de 100, em média, que lhe chegam todos os meses de vários cantos do mundo.»

PARA GANHAR UMAS COROAS!...

2 de Julho de 1968

Depois da extinção dramática da Sociedade de Escritores apareceu no mercado uma edição clandestina dos contos de Luandino Vieira (impressos no Brasil como constava do livro). A pedido da mulher do escritor, condenado a 14 anos de cadeia, o advogado Pires de Lima queixou-se da falsificação à Judiciária e esta acabou por descobrir que o livro havia sido secretamente editado em Lisboa pelo dono de uma tipografia - ´pasmo dos espantos maiores! – por um inspector da Pide!

Inquirido pelo Dr. Pires de Lima das razões do facto, o falsificador explicou:

- Foi para ganhar umas coroas!

A mulher do Luandino que se encontra tuberculosa. Pede 200 contos de indemnização.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns, Volume V

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Puer Natus Est Nobis

Dos contos de fadas da

minha infância, este da Divina

Criança era dos mais maravilhosos. Não

faltaram os exóticos magos guiados

pela mística estrela, a noite gelada, os

mansos animais, o desvalido ermo, a pobreza

transformada em glória. O bem

sucedido parto de uma virgem, tantos séculos

antes das pesquisas genéticas. O pior

foi quando quiseram contar o Tempo

a partir desta história. Podiam ter escolhido

outra, com um fim menos cruel. Antes

a da Cinderela ou a do Príncipe Sapo, onde

todos viveram felizes para sempre. Sempre?

E o que é

   

    Sempre?

 

Inês Lourenço em Natal… Natais

 

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Hoje pegámos no livro de Carlos Reis «Diálogos com José Saramago».

Escreveu Carlos Reis na apresentação do livro:

«Em finais de Janeiro de 1997, durante três dias e ao longo de quatro sessões de trabalho, num total de cerca de sete horas, recolhidas em seis cassetes áudio, mantive com o escritor José Saramago um intenso e sistemático conjunto de diálogos.»

E ainda:

Os Diálogos com José Saramago são do escritor, mais do que meus; a forma como fui colocando as questões não expressa, contudo, uma pura e neutra indagação.»

A este livro voltaremos algumas vezes.

Hoje, porque o tempo de Natal vai acontecendo, esta questão de Carlos Reis a José Saramago:

«Uma coisa que você disse agora – a poesia como prólogo para o romance – leva-me a um poema seu, que é um poema muito curioso, sobre o Natal, e que talvez tenha que ver com uma tendência que existe na sua obra, sobretudo em relação a temas e a motivos religiosos, para uma certa e às vezes agreste desmistificação. Você diz assim neste poema:

Nem aqui, nem agora. Vã promessa
Doutro calor e nova descoberta
Se desfaz sob a hora que anoitece.
Brilham lumes no céu? Sempre brilharam.
Dessa velha ilusão desenganemos:
É dia de Natal. Nada acontece.»

José Saramago responde:

«Provavelmente também tem que ver com experiências pessoais. Tenho na memória da minha infância que o Natal, parecendo festa, não o era nunca: há uma tristeza nesses dias, há uma coisa muito dura, que eu contei numa crónica que se chama o «Natal de há cem Anos», Nem Jesus nasceu nesse dia.»

TUDO SE REPETE SEM NADA SE PERDER

11 de Maio de 1992

Num livro único e maravilhoso, As Cidades Invisíveis de Italo Calvino, livro em que tudo se repete sem nada se perder, há um momento em que o autor insinua que o outro lado, a face clandestina de todas as cidades, só pode ser a sereníssima cidade de Veneza – um lugar de partida onde nunca se chega. Porque Veneza é isso mesmo o paradoxo indecifrável de um lugar-mais-que-comum e de um não-lugar definitivo.

Eduardo Prado Coelho em Tudo O Que Não Escrevi, Volume II

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Prelúdio de Natal

Tudo principiava

pela cúmplice neblina

que vinha perfumada

de lenha e tangerinas

 

Só depois se rasgava

a primeira cortina

E dispersa e dourada

no palco das vitrinas

 

a festa começava

entre odor a resina

a gosto a noz-moscada

de paisagens alpinas

 

E a multidão passava

E a chuva era tão fina

que parecia filtrada

de taças clandestinas

 

Finalmente chegava

triunfal    em surdina

a noite convocada

em todas as esquinas

 

Mas não se derramava

Como tinta-da-china

Na cidade acordada

já se ouviam matinas

David Mourão-Ferreira de Cancioneiro de Natal em Obra Poética

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 

Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Decididamente a pandemia alterou por completo os meus quotidianos.

Apenas saio de casa para o estritamente necessário.

Deixei de ir a livrarias – se o que para aí há, se pode chamar livrarias. Não leio jornais como lia, se bem que os jornais já não sejam como os jornais que comprava e lia demoradamente.

No breve intuito de comprar um livro para o aniversário de um amigo, mandei os meus passos para uma livraria. Foi então que encontrei este livro de Citações e Pensamentos de José Saramago organizado por Paulo Neves da Silva, - 640 citações, 280 temas, e 20 textos temáticos - editado em Maio deste ano, de que não tinha qualquer referência.

Curiosamente entra na Biblioteca da Casa quando por aqui andamos a colecionar sublinhamos saramaguianos.

Um trabalho interessante que talvez leve a futuros leitores da obra de José Saramago e que se junta a José Saramago Nas Suas Palavras, organizado por Fernando Gómez Aguilera e publicado em Outubro de 2010.

OLHAR AS CAPAS


Citações e Pensamentos de José Saramago

Organização de Paulo Neves da Silva

Capa: Rui Rodrigues

Design da capa: Pedro Vieira

Porto Editora e Contraponto, Porto, Maio de 2021

Não há dúvida de que certos leitores, de tão bons que são. Dariam escritores ótimos, capazes realmente de descer ao fundo das coisas. A partir de agora, remate cada leitor o livro como melhor lhe parecer.

José Saramago em Último Caderno de Lanzarote

QUE RAIO DE COISA!

6 de Agosto de 1968

Esta noite tive um sonho em-que-não-me-deram-a-palavra. Que raio de coisa!

Mário Sacramento em Diário

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 

Se Ao Menos Nevasse

Nesse tempo chegávamos ao natal pelas estradas
dos ingleses construídas em yes
num emaranhado de malfadadas curvas em obras que haveriam
mais tarde de justificar discussões políticas sobre
o emprego dos fundos comunitários
uns diziam que era preciso o progresso avançar
assim ao ritmo do asfalto cortando declives
aproximando as encostas de um e outro lado do vale mesmo
ou sobretudo que a urze e a lírica passassem ao caralho
outros que na educação e na formação é que estava
o futuro de um povo e por essa altura vá
lá saber-se porquê davam como exemplo a dinamarca

As minhas primas cagavam-se no discurso ideológico e
metiam-se às costelas de vinho e alho à carne da peça
às rabanadas e ao vinho quente das fatias de parida
a lírica delas eram os sonho fritados às colheres até
rebentar ou golpearem-se à tesoura
as filhós as orelhas de abade o
bolo de monja com seu bico de grinalda e muitos ovos que
as galinhas quase nem davam feito e
na consoada amandavam-se gulosas ao polvo e
ao bacalhau cozido e à couve galega idem com
azeite de vila flor a escorrer-lhes salvo seja
dos carnudos lábios adolescentes
que era um mimo

E chegávamos também ao natal pelo
tronco dos vidoeiros antes da neve e pelo fogo do pobo e
pelo presépio nos degraus da câmara
com musgo e serradura nos caminhos e santinhos de barro
esculpidos decerto em braga em tamanho natural que
a gente era como se o menino jesus tivesse acabado de nascer
e até se benzia mesmo antes da missa do
galo quando o meu tio baptista bêbado que nem uma puta
rezava o pai nosso em siríaco e a família
tapava o rosto com as mãos muito
dividida entre o orgulho na erudição clássica do
velho seminarista e a vergonha pela sua queda em
sentido literal pelo tinto de valpaços

Talvez o problema seja só o
de envelhecermos mal e nos habituarmos a
culpar o mundo em abstracto a
darmos um outro nome à tristeza que a nós mesmos apenas pertence
talvez o problema seja desta raiz metálica que
nos perfura o estômago e
que nem folhas dá quanto mais flores a
verdade é que tudo agora é difuso e insípido
a gente chega ao natal de auto-estrada pagando as portagens
e ele é o algodão nos pinheirinhos de plástico com
o logotipo da sociedade ponto verde a
garantir que tudo será reciclado e
apetece logo poluir o alto do larouco
a gente chega ao natal e ao meu tio baptista dão-lhe
comprimidos e chá de cidreira
e até o clafouti de maçã reineta já não leva conhaque e vai
ao forno com manteiga sem sal e
as minhas primas muito magras erguendo-se a medir a cintura
discutem a dieta e as sessões de mesoterapia
e se bem compreendo não coisam nem com os legítimos esposos se
a retoiça não vier especificada na tabela de calorias do livro que
é agora uma bíblia
da senhora doutora isabel do carmo

Que saudades da neve se
ao menos nevasse
penso por instantes enquanto
venho à rua e acendo um cigarro
às quatro da manhã

José Carlos Barros em Resumo. A Poesia em 2009, Assírio & Alvim, Lisboa Março 2010

Legenda: fotografia da Magnum

segunda-feira, 13 de dezembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Os sublinhados saramaguianos inclinam-se hoje para os Discursos pronunciados por José Saramago aquando da entrega do Prémio Nobel da Literatura.

O sublinhado de hoje refere o segundo discurso, pronunciado no Banquete do Nobel, realizado no dia 10 de Dezembro de 1998, no exacto dia em que se cumpriram cinquenta anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos.

E Saramago não perdeu a oportunidade de deixar bem vincado, que não sendo o mundo nada perfeito, isso acontece porque os governos olvidam as múltiplas injustiças que vão acontecendo.

«ALGUÉM NÃO ANDA A CUMPRIR O SEU DEVER».

«Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto.»

POSTAIS DE NATAL


«- Não posso brincar contigo, disse a raposa. Ainda ninguém me cativou.
- Ah perdão, disse o principezinho.
Mas depois de ter reflectido, acrescentou:
- Que significa “cativar”?
- Tu não deves ser daqui, observou a raposa. Que procuras?
- Procuro os homens. Que significa “cativar”?
- Os homens têm espingardas e caçam. É uma maçada! Também criam galinhas. É o único interesse que lhes acho. Andas à procura de galinhas?
- Não, disse o principezinho. Ando à procura de amigos. Que significa “cativar”?
- É uma coisa de que toda a gente se esqueceu, disse a raposa. Significa “criar laços”.»

Antoine Saint-Exupéry em O Principezinho

Colaboração de Aida Santos

A MESQUINHEZ...

31 de Dezembro de 1976

Confessarmo-nos pequenos pode ser um acto de grandeza. Porque ser pequeno não é por força ser-se mesquinho. E só a mesquinhez é pequena no ser-se pequeno ou grande.

Vergílio Ferreira em Conta Corrente, Volume I

CONVERSANDO

Há longo tempo que procura uma frase de Camilo Castelo Branco.

Foi o pai que a citou, mas não lhe disse o nome do livro nem ele perguntou.

Num comboio antigo, lugares de pau e virados uns para os outros, a conversa ia animada. Alguém ia ouvindo e a certa altura comentou para si próprio:

«Como o sujeito era estúpido, concluiu que era do Porto.»

NOTÍCIAS DO CIRCO

A prisão do ex-banqueiro e conhecido vigarista, João Rendeiro, mereceu, maioritariamente, elogios à Polícia Judiciária.

Rui Rio, presidente do PSD, não concorda e sugeriu que a realização de eleições legislativas em 30 de Janeiro influenciou a detenção de João Rendeiro.

«Pelos vistos, o azar de João Rendeiro foi haver eleições em Janeiro», escreveu Rui Rio noTwitter.

Este candidato a primeiro-ministro de Portugal existirá mesmo? Ou é um mero homem do Porto?

Nada disto lembraria ao careca, como diria um antigo comentador político.

REVISITAÇÃO DE POEMAS DE NATAL


 Natal

 

Há um sapato pequeno para encher de brinquedos:
um sapatinho azul
como uma história antiga.

Há uma espera no olhar
da criança que espera
a sonhar cavaleiros e canções.

 

E os meus braços caem abertos,

paralelos à vida.

 

(As arcas da Índia

de sândalo e pérolas

ignoram a chama de um sapato frio.)

 

A noite envelheceu.

O sapatinho azul

(história antiga)

vazio de brinquedos,

cansado de sonhar,

adormece sem fé.


Fernando Guedes, poema tirado da Antologia Natal… Natais

domingo, 12 de dezembro de 2021

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

No último Sublinhados Saramaguianos trouxemos aqui a crítica que em 1968, na Seara Nova, José Saramago fez a O Delfim de José Cardoso Pires e a pergunta que, em 1994, perante aquela crítica, José Saramago faz: Onde tinha a cabeça?

No meio destas datas, há um episódio que junta Saramago e Cardoso Pires, precisamente o ano de 1983, e refere a atribuição do Prémio da Associação Portuguesa de Escritores.

Na revista do Expresso de 1 de Abril de 1983, Regina Louro, reportava uma antevisão do prémio.

Título da peça: Grande Prémio para um escritor: quem será, será…

«Na próxima quarta-feira haverá em Portugal um escritor feliz. Feliz e abonado. Terá ganho o Grande Prémio da Associação de Escritores, e o mesmo é dizer: o maior galardão literário existente entre nós.»

 

O ano de 1982 dera uma safra de bons romances, se bem que no balanço publicado pelo Diário de Notícias, João Gaspar Simões chamou-lhe «o balanço impressionista de um ano pouco impressionante» e o balanço de Maria Lúcia Lepecki, no Expresso, deixa vincado que «não são numerosos os livros absolutamente invulgares, mas muitos são francamente bons».

O júri, os nomes só viriam a ser conhecidos no dia da atribuição do prémio, debruçou-se sobre uma trintena de livros, onde se encontravam: Café República de Álvaro Guerra, Ora Esguardae de Olga Gonçalves, Paisagem com Mulher e Mar ao Fundo de Teolinda Gersão, O Inventário de Ana de Maria Isabel Barreno, O Número dos Vivos de Hélia Correia, A Manta Religiosa de Nuno Júdice, Explicação dos Pássaros de António Lobo Antunes, Passeios do Sonhador Solitário, O Bosque Harmonioso de Augusto Abelaira, O Cais das Merendas de Lídia Jorge, Balada da Praia dos Cães de José Cardoso Pires, Rio Triste de Fernando Namora, Memorial do Convento de José Saramago.

Em Abril de 1983, apenas tinha lido as obras de Cardoso Pires, de Saramago, de Teolinda Gersão, de Abelaira, de Hélia Correia, de Lídia Jorge.

No lote dos favoritos estavam Saramago, Cardoso Pires e Namora.

Volto ao artigo de Regina Louro:

«É claro que eu poderia confessar que já sei, a uma semana de distância, quem é que vai ganhar. Ninguém me prenderia por isso, ao que suponho, e até talvez aumentasse a minha reputação jornalística.»

No dia 6 de Abril de 1983 ficava a saber-se que, por unanimidade do júri, José Cardoso Pires era o primeiro galardoado com o prémio da Associação Portuguesa de Escritores.

O júri era composto por Jacinto Prado Coelho, Maria da Glória Padrão, Maria Lúcia Lepecki, Óscar Lopes, Álvaro Salema.

Clara Ferreira Alves no JL:

«Dizia-se a meia voz e pelos cantos habituais que o júri zaragateava, barafustava, gritava e discutia com veemência os méritos dos principais candidatos à paternidade da que seria considerada a melhor obra de ficção de 1982.»

Olham-se os nomes que constituíam o júri, e muito dificilmente, tanto quanto deles se conhecia, se entende a unanimidade.

Suspeito que sou, a minha escolha recaía em José Saramago.

Como normalmente se diz sobre o raio das escolhas: amizades, ódios, invejas, gostos, tendências, conciliábulos, boatos, especulações, política.

Apenas em 1993, com O Evangelho Segundo Jesus Cristo, o prémio da Associação Portuguesa de Escritores, é atribuído a José Saramago.

No 1º volume dos seus Cadernos de Lanzarote, José Saramago fala-nos deste encontro:

« Colóquio no Centro Nacional de Cultura. Fizemos – a Lidia Jorge, o Cardoso Pires e eu – o melhor que sabíamos e podíamos, mas o público não quis ajudar: poucas perguntas, e nenhuma com interesse. Em certa altura faltou a luz, tiveram de acender velas. No fim, fomos jantar à Bénard: um bom jantar e uma conversa ainda melhor. Para não variar, quando nos despedimos, perguntámos uns aos outros: «Por que é que não nos vemos mais vezes.»