Luís Mateus
quarta-feira, 26 de abril de 2017
terça-feira, 25 de abril de 2017
NOME DE ABRIL
Só algo de muito
transcendente me leva, no 25 de Abril, a não descer a Avenida.
Fico sempre com
a ideia de que, em cada ano, está mais gente e hoje via-se muita gente jovem.
Há pouco, nas
reportagens da televisão, confirmei a ideia.
E muito feliz, e
comovida fiquei, quando por mim alguém passou levando um cartaz com um nome:
Vasco.
A RAPARIGA DO PAÍS DE ABRIL
Habito o sol dentro de ti
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.
descubro a terra aprendo o mar
rio acima rio abaixo vou remando
por esse Tejo aberto no teu corpo.
E sou metade camponês metade marinheiro
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.
apascento meus sonhos iço as velas
sobre o teu corpo que de certo modo
é um país marítimo com árvores no meio.
Tu és meu vinho. Tu és meu pão.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.
Guitarra e fruta. Melodia.
A mesma melodia destas noites
enlouquecidas pela brisa no País de Abril.
Começa a pátria onde começas. Verde campo
verde mar. Capital da ternura.
Tu és a lâmpada no meio desta festa
com fogueiras e povo dentro dos poemas.
Era a estranha paisagem da pobreza
o cheiro secular das coisas que apodrecem
era a canção cantada pelos bêbados
que vomitam seu fardo de viver.
E eu procurava-te nas pontes da tristeza
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.
cantava adivinhando-te cantava
quando o País de Abril se vestia de ti
e eu perguntava atónito quem eras.
Quando vieste tudo ficou certo.
Encheram-se de trevo os campos das palavras
encheram-se de gente as mãos de cada verso
com sete estrelas sete luas nós cantámos.
E tu disseste: ergue-te e vai.
Não ouves este vento este soluço?
Ergue-te e canta uma canção para o teu povo.
Com sete barcos sete espadas nós partimos.
Raparigas sentaram-se ao redor do poema.
E então cantei de amor por ti cantei
na língua que por vezes é tão triste
a nossa língua que por vezes é assim: tão pura.
Mulher por ti
cantei. E tu me deste
um puro continente algarves de ternura.
Por ti cantei entre meu povo e meu poema
e achei
achando-te o País de Abril.
Manuel Alegre em
Praça da Canção
Legenda: ilustração de Cipriano Dourado.
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TABLÓIDES
A capa da edição
do Círculo de Leitores de Aforismos &Desaforismos de Aparício,
de José Rodrigues Miguéis, é amarela e sem qualquer título ou nome do autor.
Existe uma
sobrecapa, mas o volume que comprei num alfarrabista, já não a tinha.
Essa sobrecapa,
que acima se publica, retirei-a do Catálogo da Exposição Comemorativa do Centenário do Nascimento de José RodriguesMiguéis.
Este volume da
obra de Miguéis, reúne os «Tablóides» que durante sete anos foram publicados no
Diário Popular, uma colaboração que Jacinto Baptista, jornalista, escritor
e amigo de José Rodrigues Miguéis, lhe solicitara em 1979 e que se prolongou
até perto da morte do escritor.
Trata-se da
secção, com o mesmo título, que Miguéis mantivera em tempos na Seara Nova,
interrompida em data que não consegui averiguar, mas com recomeço, na mesma Seara
Nova, no seu nº 1447, Maio de 1966.
São pequenos
«fait-divers» e comentários breves a temas nacionais e estrangeiros.
Dou comigo a meditar, por vezes, se o que escrevo
nestes «Tablóides» é na realidade o que penso, ou se é fruto espontâneo da
fantasia ficcional do escritor – isto é o que diriam imaginárias personagens de
novela! Pendo antes a crer, hoje, que não devo responder pelo respectivo
conteúdo, a não ser como obra de ficção. Escrevo o que me acode ao bico da
pena, automaticamente. A minha razão poderia com frequência opor-se-lhe!
O volume poderia
chamar-se, simplesmente, «Tablóides», mas o autor quis que fosse Aforismos
&Desaforismos de Aparício, personagem que aparece em O Espelho
Poliédrico, em quatro capítulos, mas com o título de Aforismos &Venenos de Aparício.
Em carta, datada
de 8 de Abril de 1978, e dirigida a Jorge de Sena, escreve sobre os seus
«Tablóides:
Enfim, virei velho-ranzinza. Os meus venenos
empeçonham-me a vida. Só me têm valido os «Tablóides» onde vou vertendo com
cautela uma gota deles de vez em quando. Já levo mais de CEM colunas no
Popular.
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José Rodrigues Miguéis
OLHAR AS CAPAS
Aforismos & Desaforismos de Aparício
José Rodrigues
Miguéis
Organização e
Introdução de Onésimo Teotónio Almeida
Círculo de
Leitores, Lisboa, Maio de 1996
18 de Abril de 1978
Todos falam de «liberdade», como se a tivessem
inventado, restabelecido ou merecido. Mas se eu não afivelar a máscara de um
partido nem agitar o pendão de uma seita, serei sem demora ignorado, suprimido
ou oprimido pela mais vil das armas políticas (ou fascistas!), que é o boicote
ou o silêncio; pela crítica caluniosa ou degradante; ou pior que tudo isso,
pela impossibilidade de publicar. Não terei jornal, nem editor, nem lugar ao
sol. Cada grupo, facção ou quadrilha que se apodera dos postos de comando nas
instituições públicas ou privadas onde se dispõe das vidas, carreiras e
reputações dos cidadãos, exerce a seu modo, e na medida dos seus rancores, as
funções que ontem cabiam ao ditador, ao censor e aos seus agentes policiais,
impondo gostos, ideias, modas e ofícios.
Por isso eu me refugiei neste jornal de esquerda
pluralista, onde encontro até a liberdade de escrever por vezes aquilo em que
com ele não estou de acordo – porque a ninguém, nem a mim mesmo, reconheço a
virtude de possuir toda a verdade. Deixei assim aos «neutros» e/ou
«indiferentes», que ontem bajulavam ou serviam obedientemente os bonzos da
tirania, o privilégio de passar a bajular ou servir os semideuses e mandarins
do presente: servindo-se a si próprios, no processo, pela sua aptidão a serem
amigos-toda-a-gente – o que os não obriga a serem amigos de ninguém.
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O DIA EM QUE ACABOU A CENSURA
Já do dealbar da
tarde de 25 de Abril, depois de vividos os acontecimentos do Largo do Carmo, os
tiros na fachada do quartel, o discurso de Francisco Sousa Tavares, megafone em
punho, desemboquei na redacção do República.
O último dos
tunantes de que fala o Fernando Assis Pacheco, nos cinco minutos para contar
uma história, foi o José Cardoso Pires, sentado na secretária do Vítor Direito, sita no canto, junto à varanda, da redacção do República, um grande sorriso na cara, olho
brilhante, cigarro atrás de cigarro.
O relato da
transmissão das polícias do regime, foi publicado no República de 26 de
Abril e que acima se reproduz.
Fica também a crónica
do Assis Pacheco e um pormenor da capa do República de 26 de Abril: nunca mais
um jornal foi visado pela Censura.
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segunda-feira, 24 de abril de 2017
POSTAIS SEM SELO
Que palavra é o silêncio?
Que silêncio é esta voz
que num soluço suspenso
chora cá dentro de nós?
Natália Correia
em As Maças de Orestes.
Legenda: Rocha
de Conde de Óbidos: embarque de tropas para a guerra colonial.
Não foi possível
identificar o autor/origem da fotografia.
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Guerra Colonial,
Natália Correia,
Postais Sem Selo
CRAVOS E VERDI
Nos últimos anos
da ditadura, o Teatro São Carlos estabeleceu uma parceria com
o Coliseu dos Recreios de modo a que as óperas que Eram representadas
no São Carlos também pudessem ser vistas na velha sala das Portas de Santo
Antão.
Era a
possibilidade de um vasto leque da população, sem dinheiro, nem fraque, nem
jóias para frequentar São Carlos, pudessem usufruir desses
espectáculos, como que dando seguimento à célebre frase de António Silva de
que a ópera é música para operários.
Quando, nessa
noite, 24 de Abril de 1974, perto de cinco mil pessoas aplaudiram
freneticamente os artistas, com Alfredo Kraus e Joan Sutherland à frente do
elenco, que representaram La Traviatta de Verdi, já as senhas
do Movimento das Forças Armadas tinham sido transmitidas pela rádio.
A reportagem do Diário
de Notícias dava conta que, no meio das ovações intermináveis, cravos
foram lançados das frisas.
Regressando a
suas casas, desconheciam que esse começo de 25 de Abril não era mais um
dia do calendário, um dia como outro qualquer.
Um regime
decrépito, que nos massacrava os ouvidos com afirmações de coragem e
heroicidade, que se as forças do mal atentassem contra a ordem
estabelecida, vinham para as ruas dar o peito às balas.
Em escassas horas, o senil regime esfrangalhou-se.
Não soltaram um pio.
Como disse o Hélder: foi um ar que lhes deu.
Em escassas horas, o senil regime esfrangalhou-se.
Não soltaram um pio.
Como disse o Hélder: foi um ar que lhes deu.
A partir desse
dia, protagonistas de uma grande esperança, nem nos pesadelos mais negros,
admitimos que viríamos a ser invadidos por um desencanto sem nome.
Aconteceu!
Encharca-nos os dias.
Encharca-nos os dias.
Mas é bom não
esquecer que há coisas que não têm fim: a esperança num mundo melhor, por
exemplo, e a luta por consegui-lo.
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25 de Abril,
Helder Pinho,
Ópera
A RELIGIÃO É HUMANAMENTE IMPOSSÍVEL
Muito lhe agradeço Eugénio a prosa que escreveu, e que
a tenha escrito. Sem que isso implique juízos de valor a meu próprio respeito,
gosto muito dela – e só lhe pediria que cortasse aquela da «nostalgia do
catolicismo» (que é livre de manter se acha que não tenho razão) que já tem
dado, ao longo dos anos, equívocos demasiados. O que nos meus primeiros livros
apareceu, foi uma série de poemas irónicos, precisamente para libertação do que
acaso existia de tal em mim, e que não sinto que haja. Nostalgia, afim, se a
tenho, é de que a religião seja humanamente impossível. E nisso o catolicismo
tem muito pouco ou nada. Se a nós sempre parece que essas questões se equacionam
em termos dele, é porque na nossa tradição, não temos outros (e alguns anos de
contacto com o protestantismo no Brasil e nos Estados Unidos mostram-me que a
mentalidade protestante é ainda mais odiosa). E, pela minha parte, nunca senti
senão repugnância pelas religiões orientais e extremo-orientais, tão em moda
agora.
Carta de Jorge
de Sena, 18 de Fevereiro de 1968, para Eugénio de Andrade em Correspondência
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Jorge de Sena Correspondência,
Religião
LIMITES
Há uma linha de Verlaine que não mais recordarei,
Há uma rua próxima vedada aos meus passos,
Há um espelho que me viu pela última vez,
Há uma porta que eu fechei até ao fim do mundo.
Entre os livros da minha biblioteca estou (estou a
vê-los)
Algum existirá que já não abrirei.
Este verão farei cinquenta anos;
A morte, incessantemente, vai-me desgastando.
Jorge Luís
Borges
Legenda:
fotograma de O Sétimo Selo de Ingmar Bergman
domingo, 23 de abril de 2017
POSTAIS SEM SELO
Se uma pessoa está condenada a viver sempre com medo
mais lhe vale morrer.
Agatha Christie
em Morrer Não é o Fim
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Agatha Christie,
Postais Sem Selo
RECADOS
AO PROFESSOR S. R. K. GLANVILLE
Caro Stephen:
Foi você quem primeiro me sugeriu a ideia de uma
história de detectives passada no antigo Egipto, e se não fosse a sua ajuda
activa e o seu encorajamento este livro nunca teria sido escrito.
Quero testemunhar-lhe quanto apreciei toda a interessante
literatura que me emprestou, assim como agradecer-lhe a paciência com que
respondeu às minhas perguntas, o tempo que perdeu e os incómodos a que se
sujeitou. O prazer e o interesse que experimentei ao escrever este livro já
você conhece.
Sua amiga grata e afeiçoada.
AGATHA CHRISTIE
Dedicatória de Morrer Não é o Fim.
OLHAR AS CAPAS
Morrer Não É O Fim
Agatha Christie
Tradução:
Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de
Freitas
Colecção Vampiro
nº 237
Livros do
Brasil, Lisboa s/d
- Estarás em segurança, Renisenb, porque se descres o
carreiro eu descê-lo-ei contigo e nenhum mal te acontecerá.
Mas a jovem franziu a testa e abanou a cabeça.
- Não, Hori, descerei sozinha.
- Porquê, pequena Renisenb? Não terás medo?
- Terei, creio que terei… Mas, mesmo assim, devo
fazê-lo. Lá em casa todos tremem, correm aos templos para comprar amuletos e
afirmam que não se deve andar neste caminho à hora do pôr do Sol. No entanto,
não foi magia o que fez a Satipy cambalear e cair; foi medo, medo provocado por
um crime que praticara. È crime cruel roubar a vida a alguém que é jovem e
forte e gosta de viver. Mas eu não fiz mal nenhum e, por isso, mesmo que a
Nofret me odiasse, o seu ódio não me pode molestar. É assim que penso. De
resto, se uma pessoa está condenada a viver sempre com medo mais lhe vale
morrer. Sobrepor-me-ei ao meu medo
-Essas palavras são corajosas, Reinsenb.
- São-no talvez mais do que eu, Hori... - Sorriu-lhe e
levantou-se- - Mas fez-me bem dizê-las.
sábado, 22 de abril de 2017
DÉCIMO OITAVO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS
Proibia
a paz entre os amantes.
Dizia: agora agarrem-se
depois esperem o tédio
e no inferno separem-se.
Como se fosse Deus.
António Rego
Chaves em Três Vezes
Deus
Nota do editor:
o primeiro poema está publicado em Dizendo-me
Aqui Estou
Legenda: pintura
de Van Gogh
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António Rego Chaves,
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Van Gogh
QUOTIDIANOS
Durante dez anos Gracinda Rosa foi guarda substituta.
Sempre nas passagens de nível em torno da Lamarosa, tendo muitas vezes que
percorrer alguns quilómetros pela beira da linha para pegar ao serviço e para
regressar a casa. Acompanhava-a o farnel com comida e a garrafa de água, porque
alguns dos postos de trabalho onde cumpria turnos de 12 ou 14 horas não tinham
sequer um poço. À noite, Gracinda tinha a companhia da lanterna com que fazia
sinal aos comboios. De vez em quando, o farol de uma locomotiva varria a
escuridão, o comboio passava veloz, e a ferroviária ficava a ver o farol da
cauda, a luzinha vermelha a esvair-se na noite. Depois, novamente as trevas.
Dez anos demorou a entrar nos quadros da CP e, mesmo
assim, só por ordem do tribunal. «Em 1990 é que entrei para o quadro. Foi o
sindicato que tratou de tudo no tribunal. Foi fácil. Entrei para efectiva e
ainda recebi uma indemnização».
Carlos Cipriano
em Guardas de Passagem de Nível.
sexta-feira, 21 de abril de 2017
DA MINHA GALERIA
Gosto de boleros e gosto muito da Cesária Évora.
Esta é uma extraordinária interpretação de Besame Mucho. Um bolero com um cheirinho a morna.
BASTA UMA JANELA PARA ME FAZER FELIZ
Verdade seja dita: não tenho muitas queixas a fazer do
Destino. E aqui no estágio, além do mais, encontrei uma varanda linda: Linda
porque Lisboa é linda e vê-se metade dela da varanda da sala 19. Uma vez subi a
um quarto andar onde mora um tipógrafo; ia com ganas de lhe comer os fígados,
porque me andava a enganar desde que o livro entrara na oficina. Pois
recebeu-me, lá no alto, um sol magnífico a cair sobre Lisboa: isto tudo visto
por uma pequena janela. Adeus, fúrias, adeus palavras como punhais! Basta uma
janela para me fazer feliz e foi o que me aconteceu, quando cheguei à sala 19.
Era o castelo, era o Tejo, era a cidade de mármore e granito (como dizem) a
espreitar para dentro da aula. Vai, que fiz eu? Como queria tomar o pulso aos
rapazes em matéria de escrita, propus-lhes aquele tema. «Da varanda da nossa
aula» podia muito bem ser o título da redacção; mas também podia ser outro, à
escolha do freguês. O que eles escrevessem servia para eu ver como escreviam,
como viam e como imaginavam.
Sebastião da Gama
em Diário
NOTÍCIAS DO CIRCO
O reitor do Santuário de Fátima, Carlos Cabecinhas,
considerou hoje que a canonização de Francisco e Jacinta Marto, a 13 de Maio,
reconhece a importância mundial de Fátima.
INFLUÊNCIA HUMANA
Conheci o William Burroughs quando tinha cerca de 22
anos, no Chelsea Hotel. Eu era bastante nova e o William costumava vir ao hotel
com o seu sobretudo negro, as suas camisas e gravatas, e achei que era muito
digno e tinha uma paixoneta colegial por ele… Costumava segui-lo por toda a
parte e ele costumava dizer-me: «Bem, tu sabes que eu prefiro rapazes…», mas eu
respondia-lhe «Tudo bem, eu vou ser a tua miúda de qualquer das maneiras…»
Tornámo-nos grandes amigos e ele apoiou muito o meu trabalho. Costumava vir ao
CBGB e sentar-se lá, nos primeiros tempos. Foi um grande amigo até morrer, visitei-o
até ao fim da vida. Oliver e eu fomos ao seu funeral e está sempre na minha
cabeça. Sempre adorei o seu trabalho, mas a maior influência que William
Burroughs teve em mim foi uma influência humana. Ele tinha muita dignidade e
sempre ensinou uma coisa: «Tem um bom nome, esforça-te por fazer bom trabalho»,
mas, em termos de sucesso… Para ele, sucesso era: se uma cidade que ele queria
visitar o convidasse, mesmo que não tivessem dinheiro nenhum, mas a cidade o
trouxesse e o tratasse bem, se lhe dessem algum café. Jantar, um pouco de vinho
e amizade, ele actuava. Foi por isso que as coisas correram bem para mim. Vim a
Lisboa, convidaram-me para o festival e foi um acto mútuo de fé. Não é um
trabalho oficial, mas trouxeram-me cá e trataram-me muito bem, como uma amiga,
e em troca eu faço o meu trabalho.
Patti Smith em
Outubro de 2007.
quinta-feira, 20 de abril de 2017
A VIDA NUNCA ME SEDUZIU
No dia 31 de
Março, terminei a peregrinação por algumas das páginas do livro que Cristina
Carvalho escreveu sobre o seu pai, Rómulo de Carvalho, também poeta António
Gedeão.
É tempo de
cumprir promessa aqui deixada no dia 17 de Maio de 2011, dia em que comprei, na
Feira do Livro, Memórias de Rómulo de Carvalho e em que deixei escrito
que voltaria a falar do livro.
Li-o, então, de
uma assentada, muitas vezes já o revisitei e, agora, é tempo de cumprir a
promessa.
Trata-se de um livro
comovente, lindíssimo, envolvente, 557 páginas, o delicadíssimo prazer de
escrita de alguém, que, para meu grande espanto, a escassos 14 dias de morrer,
deixou escrito:
A vida nunca me
seduziu. Entre o viver e o morrer sempre preferi o morrer. Se não tivesse
nascido, ninguém daria pela minha falta. Reconheço que estou a ser indelicado
com todos aqueles que gostam de mim, mas peço-lhes que me desculpem.
Estas são as
primeiras palavras da Introdução das Memórias de Rómulo de Carvalho:
Pois queridos filhos dos netos dos meus netos, tão
queridos quanto é certo que nunca teremos trato pessoal. É fácil amarmos as pessoas
à distância e por isso nos condoemos dos que padecem quando temos notícias dos
sofrimentos, através dos meios de comunicação social. Se as conhecêssemos
pessoalmente diríamos que tinham tido o que mereciam, e voltávamos a página. Eu
amo-vos por princípio, mas como já haverá tanto sangue diverso entrecruzado nas
vossas veias,, pouco teremos de comum.
Saí há dois dias do hospital onde fui sujeito a uma
intervenção cirúrgica. Não sei se lá para meados do século XXI precisarão de
consultar uma enciclopédia para saberem o que é um hospital. É um
estabelecimento onde se recolhem as pessoas necessitadas de cuidados médicos
que exigem vigilância activa e o emprego de aparelhagem que não se tem em casa.
Recorri ao hospital porque o meu coração (sabem o que é?) precisa de conserto.
Enquanto os corações normais funcionam ao ritmo de 70 pulsações por minuto, o
meu, pobrezinho, tímido, inadaptado, envergonhado, trabalhava com metade
daquele valor. Vinha assim decrescendo, em frequência, desde anos atrás, e
preparava-se para me dar uma morte suave, com um suspiro, mais dia, menos dia.
No hospital estenderam-me numa cama, abriram-me o peito com um golpe, à frente,
à esquerda e em cima, quase a tocar no ombro, e por aí introduziram uma
caixinha misteriosa, pequenina e complexa, superiormente sábia, que lá ficou
escondida debaixo da pele e do tecido muscular. Da caixinha sai um tubo fininho
que foi enfiado ao longo de uma veia até que a ponta tocasse no coração,
metendo-o na ordem, fazendo-o pulsar com a frequência devida. Que métodos tão
atrasados! Como era aquilo naquele tempo! Dirão vocês. E eu direi: que
extraordinário progresso!
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António Gedeão Leituras,
Leituras
PEQUENOS CADERNOS
Nos Pequenos Cadernos há de tudo, como na botica.
Até um recorte da explicação de como surgiram as alheiras.
Pelo-me por alheiras.
Grelos salteados, uma batatinha cozida, um ovinho estrelado.
As alheiras mais maravilhosas que comi, foram as que uma tia do Germano fazia em Montalegre, Verdadeiramente de fabrico caseiro.
A tia do Germano já não se encontra entre nós.
Mas ficou o sabor e o prazer.
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