domingo, 6 de novembro de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO

«As maiorias absolutas felizes são todas iguais, as infelizes são-no cada uma à sua maneira? Não me lembro de nenhuma maioria absoluta feliz em Portugal. Em comum, todas as maiorias absolutas têm um desprezo, que com os anos se vai tornando maior, pelo povo que os elegeu, pelo Parlamento e pela comunicação social, um contrapoder indispensável numa democracia (às vezes é preciso dizer banalidades destas em Portugal, porque a ditadura só acabou há 50 anos, um tempo minimal em História). Basta recordar o tempo do cavaquismo, os anos Sócrates e o governo da troika Passos/Portas para os exemplos abundarem. Mesmo quando não andava a “mercadejar” o cargo, Sócrates funcionava como um Luís XIV de trazer por casa e tinha na cabeça a frase “L’État c’est moi”.»

 De uma crónica de Ana Sá Lopes no Público de hoje

FALA DO VELHO DO RESTELO AO ASTRONAUTA

Aqui, na Terra, a fome continua, 

A miséria, o luto, e outra vez a fome. 

Acendemos cigarros em fogos de napalme 

E dizemos amor sem saber o que seja. 

Mas fizemos de ti a prova da riqueza, 

Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez, 

E pusemos em ti nem eu sei que desejo 

De mais alto que nós, e melhor e mais puro. 

No jornal soletramos, de olhos tensos, 

Maravilhas de espaço e de vertigem: 

Salgados oceanos que circundam 

Ilhas mortas de sede, onde não chove. 

Mas o mundo, astronauta, é boa mesa 

(E as bombas de napalme são brinquedos)

Onde come, brincando, só a fome, 

Só a fome, astronauta, só a fome, 

José Saramago em Os Poemas Possíveis

sábado, 5 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


Algumas pessoas levam a vida à procura da infância que perderam. Creio que sou uma delas.

José Saramago

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


A uma velocidade vertiginosa, e mesmo assim queremos não dar por isso, a extrema-direita galga fronteiras. Agora em Itália, a senhora Giorgia Meloni venceu as eleições, primeira mulher a liderar um governo em Itália, como líder de uma coligação que reúne, entre outros trastes, o antigo primeiro-ministro Silvio Berlusconi.

Em Junho de 2009, José Saramago chamou a Berlusconi , entre outros mimos, delinquente. Então num artigo no «El País» escreveu: «Esta coisa, esta doença, este vírus ameaça ser a causa da morte moral do país se um vômito profundo não conseguir arrancá-lo da consciência dos italianos antes que o veneno acabe correndo as veias e destruindo o coração de uma das mais ricas culturas europeias", acrescentou. Berlusconi é uma coisa perigosamente parecida a um ser humano, uma coisa que dá festas, organiza orgias e manda em um país chamado Itália».

Já em Maio desse mesmo ano a coisa Berlusconi, dono da Editora Einaudi, recusara a publicação de O Caderno, por alegadas ofensas ao primeiro-ministro.

O texto está no 1 volume de O Caderno e chama-se «Berlusconi & Cª»:

«Segundo a revista  Forbes, o Gotha da riqueza mundial, a fortuna de Berlusconi ascende a quase 10 mil milhões de dólares. Honradamente ganhos, claro, embora com não poucas ajudas exteriores, como tem sido, por exemplo, a minha. Sendo eu publicado em Itália pela editora Einaudi, propriedade do dito Berlusconi, algum dinheiro lhe terei feito ganhar. Uma ínfima gota de água no oceano, obviamente, mas que ao menos lhe deve estar dando para pagar os charutos, supondo que a corrupção não é o seu único vício. Salvo o que é do conhecimento geral, sei pouquíssimo da vida e milagres de Silvio Berlusconi, il Cavalieri. Muito mais do que eu há-de saber com certeza o povo italiano que uma, duas, três vezes o sentou na cadeira de primeiro-ministro. Ora, como é costume ouvir dizer, os povos são soberanos, e não só soberanos, mas também sábios e prudentes, sobretudo desde que o continuado exercicio da democracia facilitou aos cidadãos certos conhecimentos úteis sobre como funciona a política e sobre as diversas formas de alcançar o poder. Isto significa que o povo sabe muito bem o que quer quando o chamam a votar. No caso concreto do povo italiano, que é dele que estamos falando, e não de outro (já chegará sua vez), está demonstrado que a inclinação sentimental que experimenta por Berlusconi, três vezes manifestada, é indiferente a qualquer consideração de ordem moral. Realmente, na terra da mafia e da camorra, que importância poderá ter o facto provado de que o primeiro-ministro seja um delinquente? Numa terra em que a justiça nunca gozou de boa reputação, que mais dá que o primeiro-ministro faça aprovar leis à medida dos seus interesses, protegendo-se contra qualquer tentativa de punição dos seus desmandos e abusos de autoridade?Eça de Queiroz dizia que, se passeássemos uma gargalhada ao redor de uma instituição, ela se desmonoraria, feita em pedaços. Isso era dantes. Que diremos da recente proibição, ordenada por Berlusconi, de que o filme W. de Oliver Stone seja ali exibido? Já lá chegaram os poderes de il Cavaliere? Como é possível ter-se cometido semelhante arbitrariedade, ainda por cima sabendo nós que, por mais gargalhadas que déssemos ao redor dos quirinais, eles não cairiam? É justa a nossa indignação, embora devamos fazer um esforço para compreender a complexidade do coração humano. W. é um filme que ataca a Bush, e Berlusconi, homem de coração como o pode ser um chefe mafioso, é amigo, colega, compincha do ainda presidente dos Estados Unidos. Estão bem um para o outro. O que não estará nada bem é que o povo italiano venha a chegar uma quarta vez às pousadeiras de Berlusconi a cadeira do poder. Não haverá, então, gargalhada que nos salve.»

 

Legenda: Berlusconi com o seu amigo Putin durante durante uma visita à península anexada da Crimeia no ano de 2015.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Fotografias, quadros, garrafas de vinho, tacos de golfe e uma máquina de flippers foram alguns dos objectos apreendidos esta quinta-feira numa quinta onde vive, em prisão domiciliária, no âmbito das rendas da EDP, o ex-ministro Manuel Pinho, em Braga.

O Ministério Público avançou entretanto com o pedido de arresto da totalidade dos 26 mil euros brutos da pensão (quase 20 mil euros líquidos) de Pinho.

Ricardo Sá Fernandes, advogado de Manuel Pinho, uma vezes de chapéu, outras vezes de panamá na cabeça, disse aos jornalistas que o Ministério Público não está interessado em justiça, antes em humilhar Manuel Pinho.

CONVERSANDO


 Que podemos nós distinguir nos diversos quotidianos que vão acontecendo?

O sem-abrigo que mata um homem atirando-o para o mar da Boca do Inferno.

Manuel da Fonseca sabendo que os domingos estavam a caminho, sonhava com as coisas mais belas que um homem pode fazer na vida.

«… no entanto, conheço um homem

que  ia para a beira do rio

e passava um dia inteirinho de domingo,

segurando uma cama donde caía um fio para a água…

… um dia pescou um peixe,

 nunca mais lá voltou…»

Pois, o pior é pensar, concluía o Manuel.

José Saramago que um dia, olhando o rio Almonda, já o sol se punha, sentiu o que nunca mais conseguiu esquecer:

«lancei o anzol e esperei.

Não creio que exista no mundo

um silêncio mais profundo que o silêncio da água.»

Que podemos nós distinguir?…, sim, o quê?... e como?...


Legenda: pintura de Nikolay Bogdanov Belsky

QUOTIDIANOS

Há cada vez mais pescadores lúdicos em Portugal devidamente autorizados. Números disponíveis mostram que em 2020 foram passadas mais 40 535 licenças de pesca lúdica do que no ano anterior.

 Numa pequena plataforma, na Boca do Inferno, em Cascais, um sem-abrigo ganha algumas moedas reservando espaços para alguns pescadores lúdicos.

Na noite de quarta-feira um pescador não se mostrou agradado com essas reservas de espaço e entrou em discussão com o sem-abrigo que acabou por o empurrar, de uma altura de três metros, para o mar.

Outros pescadores que se encontravam no local, tentaram salvá-lo, mas as fortes correntes marítimas que ali acontecem, não possibilitaram o salvamento.

O sem-abrigo confessou às autoridades que empurrou a vítima, mas sem qualquer pretensão de o matar.

PESADELO

Há um terror de mãos na madrugada,
Um rangido de porta, uma suspeita,
Um grito perfurante como espada,
Um olho exorbitado que me espreita.
Há um fragor de fim e derrocada,
Um doente que rasga uma receita,
Uma criança que chora sufocada,
Um juramento que ninguém aceita,
Uma esquina que salta de emboscada,
Um risco negro, um braço que rejeita,
Um resto de comida mastigada,
Uma mulher espancada que se deita.

Nove círculos de inferno neste sonho,
Doze provas mortais para vencer,
Mas nasce o dia, e o dia recomponho:
Tinha de ser, amor, tinha de ser.

José Saramago em Os Poemas Possíveis

sexta-feira, 4 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Nós não mentimos, quando é preciso limitamo-nos a usar as palavras que mentem.

José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

José Saramago ia a São Carlos beneficiando da cumplicidade de um porteiro do teatro, que era amigo de seu pai, e essa era, a partir do galinheiro, a possibilidade , mais de ouvir do que ver, os espectáculos operáticos.

Saramago, numa entrada datada de 30 de Março de 1996, Cadernos de Lanzarote, Volume IV, conta a história:

 

«Naquele tempo eu ia à ópera sem pagar. Um porteiro simpático do Teatro Nacional de São Carlos, bom amigo de meu pai, fazia-me sinal para entrar quando faltavam dois ou três minutos para começar a função e os espectadores pagantes já tinham ocupado os seus lugares. Excitado, nervoso, subia rapidamente as íngremes escadas que levavam ao último andar, aonde chegava com o coração a saltar-me da boca. (A porta que o benévolo guardião fiscalizava não dava acesso à plateia nem aos camarotes, era só para espectadores pouco abonados, os que tinham que contentar-se com as torrinhas, que assim se chama aos camarotes de última ordem, e com o galinheiro, cujo nome já está a dizer tudo.) Como eu era um dos que não deixavam sequer um centavo na bilheteira, o meu lugar tinha de ser o galinheiro, se é que, chegando no último segundo, ainda lá encontrava um sítio para me sentar... Por diabólico castigo, exceptuando os pouquíssimos espectadores que se apertavam na primeira fila, ninguém conseguia ver dali o palco por inteiro. A culpa tinha-o o enorme camarote real (presidencial depois da República) que, começando à altura dos camarotes de primeira ordem, trepava pelo teatro acima, quase alcançando o tecto, onde, praticamente, pairávamos. Quando os cantores, cumprindo as marcações de cena, se deslocavam para o lado escondido, era como se tivessem passado para a outra face da lua. Ouvíamos-lhes as vozes (os entendidos afirmavam que a melhor acústica do São Carlos era a do galinheiro...), mas tínhamos de esperar pacientemente que a continuação do enredo trouxesse outra vez os artistas à nesga de palco visível de onde estávamos. Encimando o camarote presidencial e dificultando ainda mais a visão, havia (e lá continua) uma grande e sumptuosa coroa real, de talha dourada, símbolo que sobrou das monarquias passadas, agora reduzida a mero adorno figurativo. Com propriedade e com rigor, porém, o que víamos não era a coroa na sua plenitude aparente, a que oferecia a sua magnificência e o seu esplendor aos espectadores privilegiados dos camarotes e da plateia. Nós, os do galinheiro, tínhamos de contentar-nos com o reverso dela, a parte de trás, o outro lado, numa palavra, a ausência. Sim, a ausência. Ou porque tinha querido poupar algum dinheiro em madeira e em folha de ouro, ou porque acharam que as pessoas que viriam a sentar-se ali não eram merecedoras de mais consideração, a coroa do Teatro nacional de São Carlos não é uma coroa completa, é três quartos de coroa, ou ainda menos. Lá dentro, amparando a real estrutura, viam-se naquele tempo uns sarrafos mal aplainados, fixados com pregos torcidos, muito pó, teias de aranha, alguma vingativa e republicana ponta de cigarro. Como se alguém, nesses distantes e ingénuos dias, tivesse acendido a luz que haveria de iluminar-me a existência, compreendi que o ponto de vista do galinheiro é indispensável se realmente quisermos conhecer a coroa.

 


Sempre gostei de ópera e das razões desse gosto não consigo encontrar a mínima explicação. Nem por influência do meu pai, caso da música clássica, mas tinha pouco, ou nenhum, gosto, paciência pela ópera.

Nos últimos anos da ditadura, o Teatro São Carlos estabeleceu uma parceria com o Coliseu dos Recreios de modo a que as óperas que eram representadas no São Carlos também pudessem ser vistas na velha sala das Portas de Santo Antão.

Era a possibilidade de um vasto leque da população, sem dinheiro, nem fraque, nem jóias para frequentar São Carlos, pudessem usufruir desses espectáculos, como que, provavelmente, dando seguimento à célebre frase de António Silva de que a ópera é música para operários.

Vezes sem conta, tentei arranjar bilhetes para ir ver as récitas das óperas que do São Carlos desciam até ao Coliseu, mas nunca consegui.

Sabia que os bilhetes eram distribuídos por aqui e por ali e os poucos que restavam eram postos à venda mas desapareciam num ápice.

Pela leitura da Alvorada de Abril do Otelo Saraiva de Carvalho fiquei a saber que a Secção de Actividades Culturais e Recreativas da Academia Militar era uma das entidades a quem eram distribuídos os bilhetes para o Coliseu.


A primeira vez – e única – que entrei no São Carlos foi para assistir à representação de Blimunda, libreto de Azio Corghi e José Saramago, música de Azio Corghi.

Não esquecerei esse dia, mas quanto ao resto estou como Ruy Vieira Nery:

«Gostaria, logo à partida, de deixar claro que o melhor da ópera é o libreto de Corghi e Saramago. No conjunto, um espectáculo sério e interessante, agradável à vista e ao ouvido mas de cuja continuidade no reportório operático, uma vez terminado o ciclo das suas produções iniciais, tenho as maiores e mais fundadas dúvidas.»

EPITÁFIO PARA LUÍS DE CAMÕES

Que sabemos de ti, se versos só deixaste,

Que lembrança ficou no mundo em que viveste?

Do nascer ao morrer, encheste os dias todos,

Ou roubaram-te a vida os versos que fizeste?

José Saramago em Os Poemas Possíveis

quinta-feira, 3 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


As pessoas não escolhem os sonhos que têm, São, pois, os sonhos que escolhem as pessoas, Nunca o ouvi dizer a ninguém, mas assim deve ser.

José Saramago em O Evangelho Segundo Jesus Cristo

A MESA É O PRIMEIRO OBJECTO...

A mesa é o primeiro objecto do sonho.

É branca, de madeira branca, sem pintura.

Tem papéis brancos que flutuam e se esquivam aos

     Gestos.   

O lugar seria um escritório se não fosse uma espé-

     cie de abside com degraus.

A parede curva, sem reboco, mostra as pedras roídas.

Quando o sonhador acordar, tentará saber onde

   esteve e há-de lembrar-se de uma ruína assim,

   em Paris, no museu de Cluny.

Mas não tem a certeza.

Os papéis brancos não obedecem, e isto impacienta o sonhador.

De repente há uma presença na abside, não bem uma presença, uma ameaça que se difunde e paira.

Começa o terror.

O homem que sonha quer resistir, mas o medo

     é mais forte, e não há ali ninguém a quem tivesse

    de mostrar coragem.
Foge por um longo corredor e pára junto de uma

     porta que dá certamente para um jardim.


Olha para trás, vai aparecer alguém.
Ao fundo do corredor passa de relance uma rapa-


      riga cor de fumo.
O medo é insuportável.


A rapariga vem pelo corredor, rodopiando em zigue-

       zague, fazendo ricochete de parede a parede.


«Quem és?», pergunta o homem que sonha.


«Papoila», responde a rapariga, e ri sem ruído.


O medo lança o homem no jardim.


Cai no chão, e a rapariga, já não cor de fumo,

      mas suja, cai também.
Ao cair duplica-se, e as duas lutam arrancando-se


      bocados de roupas e de carne que logo se recons

     tituem.

Há sobretudo arrancamentos tubulares que se pro-

     longam como ventosas, puxadas pelos dentes.

O homem não aguenta mais, tem de libertar-se já.


Mas outra rapariga surge, igual às duas, e esta é

     muito maior.


Estão todos estendidos no chão, presos uns aos

     outros, e contudo não se tocam.


A rapariga grande tem um ovo dentro do bolso

     do avental.
Se aquele ovo for tirado e lançado pelo jardim fora

     e partido, será o fim do pesadelo.
Porque nesta altura o homem sabe que está

    a sonhar.


A rapariga grande senta-se no chão, dobra os joe

    lhos, a saia escorrega sobre as coxas, o sexo

    fica à vista.


O ovo, é preciso tirar-lhe o ovo.


A rapariga começa a remexer-se, rindo.


Chegou o momento.


O homem mete-lhe a mão no bolso, agarra o ovo.


E acorda.

José Saramago em Provavelmente Alegria

quarta-feira, 2 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Um impossível nunca vem só.

José Saramago em Ensaio Sobre a Lucidez

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Já deixei por aí escrito que um dos livros que mais encantaram os meus dias de leitor, foi  Cem Anos de Solidão. De Gabriel Garcia Marquez. Da primeira à última palavra e tem um começo extraordinário:

«Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía havia de recordar aquela tarde remota em que o pai o levou a conhecer o gelo.»

 

No segundo volume de O Caderno, José Saramago fala desse livro, ao texto chamou simplesmente «Gabo»:

 

«Os escritores dividem-se (imaginando que aceitem ser assim divididos…) em dois grupos: o mais reduzido, daqueles que foram capazes de rasgar à literatura novos caminhos, o mais numeroso, o dos que vão atrás e se servem desses caminhos para a sua própria viagem. É assim desde o princípio do planeta e a (legítima?) vaidade dos autores nada pode contra as claridades da evidência. Gabriel García Márquez usou o seu engenho para abrir e consolidar a estrada do depois mal chamado “realismo mágico” por onde logo avançaram multidões de seguidores e, como sempre acontece, os detractores de turno. O primeiro livro seu que me veio às mãos foi Cem Anos de Solidão e o choque que me causou foi tal que tive de parar de ler ao fim de cinquenta páginas. Necesitava pôr alguma ordem na cabeça, alguma disciplina no coração, e, sobretudo, aprender a manejar a bússola com que tinha a esperança de orientar-me nas veredas do mundo novo que se apresentava aos meus olhos. Na minha vida de leitor foram pouquíssimas as ocasiões em que uma experiência como esta se produziu. Se a palavra traumatismo pudesse ter um significado positivo, de bom grado a aplicaria ao caso. Mas, já que foi escrita, aí a deixo ficar. Espero que se entenda.»

OLHAR AS CAPAS


 Passageiro para Francforte

Agatha Christie

Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues

Capa: Lima de Freitas

Colecção Vampiro nº 292

Livros do Brasil, Lisboa s/d

Não é uma história impossível; é apenas uma história fantástica.

SALMO 136

Nem por abandonadas se calavam
As harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos Hebreus as não tocavam,
O vento de Sião, nas cordas tensas,
A música da lembrança repetia.
Mas nesta Babilónia em que vivemos,
Na memória Sião e no futuro,
Até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimos nos pusessem,
Mais do que os corpos, as almas e as vontades,
Que nem sentimos já o ferro duro,
Se do que fomos nos deixam as vaidades.

Têm os povos os fados que merecem.

 José Saramago em Os Poemas Possíveis

terça-feira, 1 de novembro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Creio mesmo que é essa a primeira solidão, não nos sentirmos úteis.

José Saramago em O Ano da Morte de Ricardo Reis

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Quando pensei nestes Sublinhados Saramaguianos não segui nenhuma ideia, nenhum projecto , para além de pegar nos livros de José Saramago  e copiar o que deixei sublinhado nos livros.

Diversas vezes não foi apenas isso, atravessei-me com outras prosas, outras situações. Como a de hoje.

Estive ontem com o Último Caderno de Lanzarote.

Já há uns dias falei de que a Fundação José Saramago ainda não se concentrou na publicação da Correspondência de Saramago com o seus pares, com os seus amigos, com os seus leitores.

Neste Último Caderno, no dia 8 de Agosto de 1998, Saramago insiste:

«Um dia deixei consignada nestes Cadernos a única ideia em tudo original que até aí tinha produzido (e suspeito que desde então não consegui espremer da cabeça outra de quilate semelhante), aquela luminosíssima ocorrência de que na publicação da completa de um escritor deveria haver um voluyme ou mais com as cartas dos leitores.»

O que hoje aqui se recorda é uma carta de Jorge de Sena para José Saramago, no tempo em que este exerceu nos Estúdios Cor o trabalho de Director Editorial:

«Assis, 18/5/961

Meu caríssimo Saramago

A sua carta de 10, que levou cinco dias (!) a chegar cá, não me acusa ainda a recepção do original de Metamorfoses, que lhe enviei. Mas, embora não recorde ao certo a data, não há provavelmente demora ou extravio, mas apenas desencontro.

Ontem, os jornais brasileiros noticiavam a concessão do prémio CCB à Fernanda Botelho, o que eu esperava, desde que, junto, no mesmo correio, com aquela sua carta, me veio um recorte do D. de Lisboa (ou coisa parecida), em que havia uma longa lista indiscreta com os nomes dos mais eminentes concorredores. Quero crer que meu cunhado e o Dionísio terão votado em mim; e que o espírito de corpo, em mistura, da Faculdade de Letras e da velha “Távola”, tenha, nas pessoas do David  (do qual o mesmo correio me trouxe uma obrinha sobre o Teixeira Gomes, com maviosíssima dedicatória) e do Jacinto, votado na Botelho que, se bem me lembro, já haviam querido premiar contra o Migueis. Claro que os interesses da Bertrand, a que todos mais ou menos se encontram ligados, fez o resto, já que o Simões votaria no diabo, e não no demónio em andanças … Agradam-me, porém, duas ou três coisas: 1o – eu não concorri, mas a editorial…; 2o havia, na lista, o Régio, e outros (que eu não considero muito, mas são “eminentes”) como o Redol, o Abelaira, o Urbano, também premiáveis; 3o – a concessão do prémio à Botelho, notoriamente neutra ou fascistoide, mas pelo menos autora de uma literatura castrada do ponto de vista ético-político, é manifestamente uma “prudência”, uma subserviência, não digo à ordem estabelecida, mas ao não incomodarem-na. Enfim, não me lamento, porque o prémio sempre eu achei que o não ganhava; e não vos culpo: porque achei legítimo concorrer e não me opuz. Do ponto de vista financeiro, os cincoenta contos, para quem devia em Lisboa, ainda, mais do que isso e em requerência de pagamento urgente, sem saber onde há-de ir buscá-lo, esses trinta (cincoenta, não é?) contos, assim passados por diante do nariz, são um rude golpe. Do ponto de vista da minha situação aqui também o são, porque eram – embora eu não acredite em prémios – um acréscimo de prestígio entre os que acreditam neles; e, para os meus inimigos, é um farto motivo de goso. Mas não cuidemos mais desta história toda, ainda que eu fique, curiosamente, à espera dos seus comentários póstumos. E, se não fosse poder parecer uma “chantagem” moral, eu pediria a VV., sobre as Metamorfoses, um adiantamento; e quem diz sobre estas diz sobre uma tradução que VV poderiam dar (do francês) para minha Mulher fazer, que eu não tenho tempo. O que são as traduções dela pode ver-se nos livros que traduziu (assinando Freitas Leça): O Crime dos Justos e Adeline Venicien, do Chamson – por exemplo (Livros do Brasil), – e também Le Grand Ecart, do Cocteau, e O Ouro, do Cendrars, cujas traduções acho, com serem difíceis, perfeitas. E Os Nossos avós Gauleses (Portugália) – cujas provas, no nosso mútuo acordo, eu li, como ela lê as daquilo que eu publico.

Gostei muitíssimo da sua carta (e obrigado pela diligência junto desse imarcessível Amaro), das melhores que tenho consoladamente recebido de V. Como sempre são aquela discreta amizade, uma desencantada e sã amargura, o humor de quem sabe que o riso nem todos o merecem; e, por trás de tudo, um bom senso e um equilíbrio que lhe invejo sinceramente, quando os meus me custam (e a V. também, quem sabe) olímpicos, tanto ranger de dentes… Quanto à imodéstia, meu caro, eu sempre achei, e acho, a modéstia a menos legítima das virtudes.

Se eu for, como pretendo, e insisto, para Araraquara (apesar da “côrte” contraditória e interesseira que parece esboçar-se aqui, e foi ao ponto de o meu Director rebaixar-se a pedir-me para vir jantar a minha casa, aonde não o convidáramos mais, para conversar comigo, o que será na próxima semana), não me parece que as coisas possam repetir-se, além do normal que V. tão bem descreve. Eu sou, humanamente, a mais desencantada das pessoas (quase sempre, é certo, sem a sã amargura acima referida) – e não impunemente se é demitido aos 18 anos do mais alto sonho da sua vida, já descrente então da vida de família, para percorrer depois os submundos da miséria, e ter sido, durante anos, tropa, funcionário público, político, homem de letras, na aquisição de uma experiência que me dará contos e poemas até ao fim da vida. A cátedra e, além da cátedra, a ilusão de renovação pedagógica autêntica que era Assis, foram, suponho eu, uma última metamorfose minha, em que era natural que eu entrasse impante e acreditando. Ter um “status” universitário e uma posição preponderante nesse outro mundo – eis sonhos que eu não realizara ainda. Naturais, pois, a ilusão e a desilusão, que não poderão repetir-se já para Araraquara nenhuma. Aí, como nas mais cátedras que eu venha a aquecer ou não, terei os desgostos e as arrelias que temos em tudo, maiores ou menores. Mas, como sou incorrigível no afecto desinteressado com que me dedico a tudo (e 15 anos de funcionalismo não puderam corrigir-me), é possível que eu, no fundo de ingenuidades que me salva do tanto de horrível (e também de bom) que a vida tem me dado, ainda venha a ter, mais que arrelias, dores. Neste momento, meu caro, desconfiado com o longo silêncio do Conselho Universitário do Rio , eu já espero, naquela divisão entre indignação reservada e resignação risonha, que é a minha, eu já espero mais uma derrota: a de encalhar, num recife burocrático qualquer, o meu processo de doutoramento. Consolo-me, já pensando que, afinal, as derrotas, como a rude franqueza com que tenho incansavelmente denunciado tantas pessoas e coisas (aqueles pavões e perus, de que V. fala), cortando-me acessos e integrações “corporativas”, pondo-me à margem, me libertam, na medida em que me livram de silêncios, de concessões tácitas, de arregimentações quaisquer. Sempre assim foi. A esse último respeito, embora às vezes sonhe com o mundo a meus pés, nunca tive ilusões impróprias: desde que me conheci (e levei algum tempo, porque tinha muito que conhecer), sempre soube que sou daqueles que os Arcanjos da Estrada (que não é metáfora do Pessoa, mas termo das iniciações) têm por obrigação deixar em pelota. E não podem os ditos cujos queixar-se de que eu não tenha, às vezes com precipitada generosidade, facilitado, e justificado até, o trabalho deles.

A minha produção de contos – o que, há tantos anos, aguardava, dentro de mim, tempo que a poesia nunca me requereu – prossegue num ritmo exaustivo. Acabei ante-ontem um, muito longo, que creio, pela amplidão, a complexidade, a violência, das coisas melhores que já escrevi . Mas também nisso flutuo numa libertação total que, neste por exemplo, deixa a perder de vista, mero exercício, Os Amantes, no que se refere à descrição e análise da experiência sexual. Escrevo-os como para um mundo ideal onde fosse possível publicar tudo. Além de Os Amantes e de Um Conto Brevíssimo (uma pequena brincadeira séria que vai sair no Estado de São Paulo) tenho já mais cinco contos mais ou menos longos que dariam um volume. Tecnicamente, e o que não é possível ainda, Os Amantes e Um C.B. pertencem a uma reedição das Andanças. Por isso mesmo, de Os Amantes tirei cópias “mimeografadas” para distribuição restrita às pessoas que receberam oferta do volume (claro que lhe vou mandar uma). Os outros contos, com mais dois ou três, serão um volume terrífico, em que a “pátria”, o Exército, a Armada, a Justiça, a Moral, etc. etc. ouvirão o que nunca ouviram. É possível que eu tire, para já e para amostra, cópia de um deles, que lhe mandarei também. Esse volume será, não sei se lhe disse, Os Grão-Capitães. Com ele farei o seguinte: tentarei publicá-lo aqui, o que pode talvez conseguir-se, embora me desagrade, pelo escândalo político e “moral”. Em jornais e revistas… as dimensões e os “contextos” são proibitivos. Mas, em qualquer caso, reservarei os direitos de uma edição vossa, a publicar tão logo seja possível… Para tanto, oportunamente, receberão organizado um original. Tudo isto sem prejuízo de um volume que venha – se esta fornalha de ficção se demorar acesa – a coligir-se de contos publicáveis aí.

Recebi de Nova York e do Migueis, a Escola do Paraiso e o Passageiro. Este li e achei fraco; o romance não tive ainda tempo de o ler, mas emprestei-o, por exemplo, ao Victor Ramos, que o achou uma obra-prima. Não sei se VV mandam ao Migueis as vossas edições, eu, desorientado entre as ofertas de tanta obra sucessiva, creio que lho não ofereci. Poderia V. mandar-lhe, com a dedicatória que junto envio, um exemplar das Andanças? Muito obrigado, desde já.

Quanto ao Sr. Crippa, manda-se o livro desta vez, e logo vemos se também eu devo, como o Miguéis, cortar-lhe a coleta.

E, para a colecção de ensaios, e ainda bem que lhe agradou a ideia, cá estou gratamente às ordens.

Esta já vai longuíssima, mas ainda quero comentar essa de eu me guardar para o regresso… Será que eu regressarei alguma vez? Sem dúvida que, aqui entre nós, o Brasil, com todas as suas vantagens, é pior que Portugal, com todos os seus defeitos. Quando e se as coisas mudarem, as saudades que tenho da minha casa e dos meus amigos (e também o patriotismo de lágrima ao canto do olho) funcionarão activamente. Mas, meu caro, dentro das premissas que V. lucidamente expôs, de as cátedras e os lugares serem para os outros (que terão sobre mim a vantagem da minha ausência), com que hei-de dar de comer aos meus filhos? Muito provavelmente, eles voltarão, e eu gostaria que voltassem… Mas V. vê-me, a mim, depois destas aventuras catedralícias, voltado a engenheiro de 3ª da Junta Autónoma das Estradas? Com, para mais, uma viagem vertiginosa a quase-ministro ?… E, no Portugal que se avizinha, mesmo que eu fosse um glorioso mixto de Victor Hugo e Balzac, ninguém vai poder viver das letras… – que, aliás, não viveram delas. Talvez eu acabe na China.

Dê as minhas melhores lembranças ao Canhão e ao Correia. Mande-me notícias do Nataniel. E receba o grande, saudoso e grato abraço do seu muito amigo

Jorge de Sena

NO SILÊNCIO DOS OLHOS

Em que língua se diz, em que nação,
Em que outra humanidade se aprendeu
A palavra que ordene a confusão
Que neste remoinho se teceu?
Que murmúrio de vento, que dourados
Cantos de ave pousada em altos ramos
Dirão, em som, as coisas que, calados,
No silêncio dos olhos confessamos?

 José Saramago em Os Poemas Possíveis

segunda-feira, 31 de outubro de 2022

SARAMAGUEANDO

Amanhã começa Novembro.

Há 100 anos, a 16 de Novembro - e não no dia 18, como consta na Conservatória do Registo Civil – às 14.00 horas, nasce José Saramago.

«Nasci numa família de camponeses sem terra, em Azinhaga, uma pequena povoação situada na província do Ribatejo, na margem direita do Rio Almonda, a uns cem quilómetros a nordeste de Lisboa.. Meus pais chamavam-se José de Sousa e Maria da Piedade. José de Sousa teria sido também o meu nome se o funcionário, não lhe tivesse acrescentado a alcunha por que a família de meu pai era conhecida na aldeia: Saramago.»

A partir de amanhã, e durante todo o mês de Novembro, o dia por aqui começará com um poema de José Saramago e fechará com um Postal Sem Selo que incluirá uma frase do autor e pelo meio existirão Sublinhados.

 

SARAMAGO

 

Nome científico: Raphanus raphanistrum

Sinonímias: Raphanus microcarpus, Raphanus raphanistrum subsp. Microcarpus

Nomes comuns: Saramago, Labresto-branco, Cabresto, Ineixa, Rábão, Rábão-bravo, Rábão-silvestre

Família: Brassicaceae (Cruciferae)

O saramago é uma planta herbácea anual com a raiz muito dividida e grossa. O seu caule é ereto com ramos ascendentes, possuindo, na base, pelos compridos, rígidos e afastados e apresentando-se depois sem pelos até ao ápice. As suas folhas são alternadas, pecioladas, com margens irregularmente serreadas a onduladas e de textura áspera, encontrando-se suspensas num caule delicado. As suas inflorescências são cachos que podem apresentar entre 10 a 25 flores, compostas por 4 pétalas dispostas em cruz, branco-amareladas com estrias arroxeadas ou azuladas. A sua floração ocorre, normalmente, de abril a novembro. O seu fruto é alongado, ascendente, reto ou curvo, apresentando uma coloração verde quando jovem e acastanhada quando maduro.

Esta planta é espontânea e muito frequente em Portugal, é resistente e pode ser encontrada em campos cultivados, terrenos incultos, pousios e searas. É considerada a “erva dos campos e pastagens” e uma “erva-daninha” em várias culturas.

 (Infopédia)

«O saramago é uma planta. Nos tempos da minha infância e antes, as pessoas da minha aldeia, em épocas de crises, comiam saramagos.»

José Saramago

Legenda: Saramago. Fotografia de Francisco Clamote no blogue Plantas:Beleza e Diversidade.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Os leitores vistos pelo escritor Saramago:

 «Pergunto-me se o que move o leitor à leitura não será a secreta esperança ou a simples possibilidade de vir a descobrir, dentro do livro, mais do que a história contada, a pessoa invisível, mas omnipresente, que é o autor. O romance é uma mascara que oculta e ao mesmo tempo revela os traços do romancista. Se a pessoa que o romancista é não interessa, o romance não pode interessar. O leitor não lê o romance, lê o romancista.»

 Cadernos de Lanzarote,  Volume II, página 60.

 «Quem lê, lê para quê? Para encontrar, ou para encontrar-se.? Quando o leitor assoma à entrada de um livro, é para conhecê-lo ou para se se reconhecer a si mesmo nele?»

 Último Caderno de Lanzarote, página 250

 «Uma leitora alemã, Maria Schwenn, de Offenbach, escreveu-me para dizer que ao ler em o Evangelho segundo Jesus Cristo a frase: «Homens, perdoai-lhes porque ele não sabe o que fez», sentiu desejo de imitar o Raimundo Silva da História do Cerco de Lisboa, mudando de lugar o não, para ficar assim: «Homens, não lhe perdoeis, porque ele sabe o que fez.» Como se verifica. Maria Schwenn foi muito mais longe do que eu, pondo na boca de Jesus as palavras que são provavelmente a conclusão lógica do romance e a que o autor não se atreveu, ou, melhor dizendo, nem tal lhe passou pela cabeça. Não há dúvida de que certos leitores, de tão bons que são, dariam escritores ótimos, capazes realmente de descer ao fundo das coisas. A partir de agora, remate cada leitor o livro como melhor lhe parecer».

Último Caderno de Lanzarote, página 83

 «O que o autor vai narrando nos seus livros, é, tão-somente, a sua história pessoal. Não o relato da sua vida, não a sua biografia linearmente contada, quantas vezes anódina, quantas vezes desinteressantes, mas uma ou outra, a vida labiríntica, a vida profunda, aquela que dificilmente ele ousaria ou saberia contar com o seu próprio nome.»

Último Caderno de Lanzarote, página 253

DEUS NOS LÍRIOS

                                                          para a minha mãe

sinto deus, todas as noites, nos lírios

de Monet. olham para mim,
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demónios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho,
com os pardais, um verso branco.

Renata Correia Botelho

domingo, 30 de outubro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 José Saramago não gostava do Natal. Tão pouco de festas de aniversário.

Talvez reflexo de uma infância e de uma adolescência muito difíceis, o Natal, para Saramago, não foi um toque de mágica. 

Deixou, em A Bagagem do Viajante algo a que chamou Natalmente Crónica; «para incréus empedernidos como eu, o caso não tem assim tanta importância: é mais uma das trezentas mil datas assinaladas de que se servem inteligentemente as religiões para aferventar crenças que no passar do tempo se tornariam letra morta e água chilra.» 


Disse uma  em Madrid que «O Natal é uma Borbulha Consumista que nos Separa do Apocalipse, e de uma maneira seca, quase definitiva, finalizou um poema: É dia de Natal. Nada acontece».

 A um jornalista do Público, que lhe perguntou como gostaria de ser recordado, Saramago respondeu:

«Gostaria de ser recordado como o escritor que criou a personagem do cão das lágrimas, no “Ensaio sobre a cegueira”. É um dos momentos mais belos que fiz até hoje como escritor. Se no futuro puder ser recordado como “aquele tipo que fez aquela coisa do cão que bebeu as lágrimas da mulher” ficarei contente.»

No dia 25 de Dezembro, em Lanzarote, sobre os seus cães

«Há cerca de um mês apareceu-nos aqui outro cão, uma cadela terrier de Yorkshire, de raça pura. Não sabemos donde veio, até agora não apareceram a reclamá-la, apesar de termos informado imediatamente a polícia e a associação protectora de animais. Pepe começou por recebê-la com desconfiança, perplexo diante do tamanho diminuto da intrusa, depois confundido com as liberdades e descaros que ele desde logo passou a permitir-se, como se a casa fosse sua. Agora começa a olhá-la com um ar que eu classificaria de resignada benevolência, suponho que disposto a esperar que ele venha a tornar-se naquilo que já é: um cão sério, maduro, ciente do seu papel de guarda e protector da família. Ora, disse Marga, a veterinária, que a cadelinha ainda não fez um ano, portanto Pepe terá de esperar… Ou não. Algo me diz que a cadela não ficará connosco. Mais dia menos dia aparecem-nos aí os donos: um bichinho destes vale cento e cinquenta contos, não é nenhum desperdício. Esse não foi o caso de Pepe, evidente produto de uma irregularidade de acasalamento, Pepe, quando nos apareceu, era um cão infeliz, abandonado. Esta fulana não, impertinente, irresponsável, ou se perdeu, ou fugiu. E tanto se lhe dá que os donos chorem o dinheiro perdido e o amor transviado, o que ela quer é que lhe cocem a barriga.»

Cadernos de Lanzarote, Volume II, página 264.

DITOS & REDITOS


A vida pode ser um lugar bem estranho.

Não devemos recusar o que nos é oferecido.

A pior miséria é sempre a de espirito.

Está tudo bem assim e não podia ser de outra forma.

Conhecer as coisas da vida.

Confundir a beira da estrada com a Estrada da Beira.

Quando as coisas começam a descarrilar, vai tudo a eito.

Para sobreviver, há que aprender.