sexta-feira, 18 de março de 2011

NACIONALIZAÇÃO DA BANCA


Fotografia de Alfredo Cunha no álbum “Disparos”, Editora “Terra Livre”, Lisboa, Março 1977

A BEM DA NAÇÃO


Podem sempre dizer, o governo e seus arautos, que como isto foi uma conquista do PREC, não faz sentido manter nos dias de hoje, é contra a modernidade. 
Determine e mande-se publicar.

SARAMAGUEANDO


Há nove meses, José Saramago não subiu para as estrelas porque à terra pertencia.

Registando a efeméride, em Tias, Lanzarote, é hoje aberta ao público, “A Casa”, complexo que integra a casa e a biblioteca de José Saramago.

Num quarto do “Hotel Bragança”, no decorrer de “O Ano da Morte de Ricardo Reis”, Fernando Pessoa e Ricardo Reis filosofam. Saramago coloca na boca de Fernando Pessoa que demoramos nove meses a sair do ventre da mãe e nove meses para sermos esquecidos.

“Soube que me foi visitar, eu não estava mas disseram-me quando cheguei, e Ricardo reis respondeu assim, Pensei que estivesse, pensei que nunca de lá saísse, Por enquanto saio, ainda tenho unas oito meses para circular à vontade, explicou Fernando Pessoa, Oito meses porquê, perguntou Ricardo reis e Fernando Pessoa esclareceu a informação, Contas certas, no geral e em média, são nove meses, tantos quantos os que andámos na barriga das nossas mães, acho que é por uma questão de equilíbrio, antes de nascermos ainda não nos podem ver mas todos os dias pensam em nós, depois de morrermos deixam de poder ver-nos e todos os dias nos vão esquecendo um pouco, salvo casos excepcionais nove meses é quanto basta para o total olvido, e agora diga-me você que é que o trouxe a Portugal.”

Acontece que, nove meses depois, continuamos a recordar quem não queremos esquecer.

quinta-feira, 17 de março de 2011

BEM A SINTO! BEM A SINTO!


Melhor que a Primavera é estar à espera que ela chegue.

Depois do longo inverno a natureza a espreguiçar-se para os dias que aí vêm. A vida que renasce. Lembro o meu avô que, todos os anos desmesuradamente, aguardava a chegada da Primavera. Odiava Janeiro e Fevereiro  e os primeiros salpicos de sol primaveril traziam-lhe um brilhozinho aos olhos. Mas, pelos começos de um longínquo Fevereiro, não conseguiu resistir e, serenamente, partiu.

O dia do equinócio é igual à sua noite. Na horta semeiam-se coentros e morangos. Memórias. cheiros. No miradouro do Monte Agudo, quando miúdo, ficávamos a ver a chegada dos primeiros gafanhotos, gafanhoto que em francês é uma palavra bonita: grasshopper. Passar o tempo nisto. Suavemente. Dias primaveris, águas de Março anunciando o Verão. O cheiro da terra.

Há gostos assim. Há quem diga que são os melhores…

Primavera. Sagração. A festa. Os parágrafos de Raul de Carvalho:

“Dizer que Primavera é simples e palpável como um coração. Um coração que fala. Um coração que canta.
Dizer que estamos na Primavera…
Dizer que eu amo gente de quem não sei o nome, nem é preciso; que amo estas ruas estreitas, cariciosamente recolhidas ao sol, um sol camarada; que amo este rio com barcos verdadeiramente azuis, tão azuis como o mar, tão azuis que se confundem; dizer que amo esta palavra anónima que corre de boca em boca dizendo que é Primavera.
E todos os anos haverá semelhante milagre. A ele assisto."

Já agora, fiquem a saber que no próximo dia 19, véspera de equinócio, poderão observar   a maior Lua Cheia das últimas duas décadas.

Mais pormenores aqui

OLHAR AS CAPAS



Pastoral Americana

Philip Roth
Tradução: Maria João Delgado e Luísa Feijó
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote
Lisboa, 2010

Ela desistiu porque há coisas que para ela são mais importantes do que as letras B-b-b.A. num bocado de papel. Chamas a isto extremismo? Não, eu acho que extremismo é continuar a viver como se nada fosse quando existe este tipo de loucura, quando as pessoas são exploradas à esquerda, à direita e ao centro, e a gente continua a enfiar o fatinho e a gravata e a ir todos os dias para o emprego. Como se nada se passasse. Isso é que é extremismo. É de uma estupidez extrema, é o que é.

IDÍLIO EM BICICLETA


Das viagens tinha o nervoso do antes mas ninguém lhe conhecia ânsias de chegar.

Imagem de Idílio Freire

quarta-feira, 16 de março de 2011

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Os dias de piolho deram-me gostos e gentes para toda uma vida.

Filmes de visão garantida eram Charlot, os “Três Estarolas”, “Bucha & Estica”, Abott & Costello" e a dupla Jerry Lewis & Dean Martin. Sei que falta aqui o Pamplinas, mas acontece que os seus filmes rareavam nas matines dos domingos.

O dia em que lá em casa apareceu Dean Martin a cantar “Volare” fiquei com um cantor para sempre. Canastrão qb, enredado em fios mafiosos com Sammt Davis Jr. Frank Sinatra, chamam-lhe todos os nomes, mas o velho Dino é muito cá de casa “That’s Amore”.

De Jerry Lewis só muito mais tarde lhe apanhei o talento. Quando miúdo, Jerry apenas me fazia rir porque não tinha eu artes para lhe alcançar os voos. “Pintores e Raparigas” de Frank Tashlin é um filme que nunca deixo de rever. Porque também por lá anda, em início de carreira uma pequena de que muito gosto: Shirley MacLaine, já antes  deliciosa e bem humorada no seu primeiro filme, não mais que "OTerceiro Tiro” de Alfred Hitchcock.

Poderia falar desse “must” que dá pelo nome de “Rei da Comédia” de Martin Scorsese com Jerry e Robert De Niro, mas só sairiam banalidades.

Jerry Lewis é um dos muitos injustiçados da Academia de Hollywood, mas eu já disse que a Academia é um ninho de vermes que têm pelo cinema  ideias e dentimento que ninguém consegue perceber. Nos últimos anos desatou a resolver a sua ignorância com uns Prémios Honorários, quando actores e realizadores estão quase com os pés para a cova. Jerry Lewis recebeu-o em 2009.

Jerry Lewis, de seu nome Joseph Levitch, faz hoje 85 anos e é um dos últimos moicanos dos tempos do “meu cinema” Jean Luc Goddard com aquela dose de atrevimento que tanto o caracteriza, disse um dia que Jerry é muito melhor que Charles Chaplin e Buster Keaton.

Parabéns, Mr. Jerry Lewis.

Legenda: Fotograma de “Pintores &Raparigas” de Frank Tashlin

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio publicado numa revista brasileira.

terça-feira, 15 de março de 2011

OLHARES

Árvores em flor junto ao Mercado de Sapadores em Lisboa.

segunda-feira, 14 de março de 2011

IDÍLIO EM BICICLETA


O caminho é em frente, sempre!

Texto e Imagem de Idílio Freire

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Não vi Relíquia Macabra no piolho. 

Penso que a primeira vez que o vi, das muitas que já levo, terá sido num dos muitos cinemas de “reprisse” lá do bairro, não lembro qual.

O filme, realizado por John Huston em 1941, encontra-se catalogado nos chamados “film noir”.

A expressão “fim noir” é usada para descrever os filmes americanos da década de 40 e começo da de 50, produzidos em Hollywood, nos quais era retratado o sub mundo escuro e sombrio do crime e da corrupção. Filmes cujos heróis, bem como os maus, eram cínicos, desiludidos e, frequentemente, solitários e inseguros, fortemente ligados ao passado e a borrifarem-se para o futuro. Passam-se quase sempre de noite e são filmados a preto e branco. Também há “films noir” a cores mas isso é uma outra história.

Esta designação de “film noir” apanhei-a já em tempos recentes, porque nos meus tempos do “Cine-Oriente”, para a malta da rua os filmes eram policiais ou de gangsters, de índios e cowboys, e tudo o resto, musicais incluídos, eram filmes de manteiga que víamos sem qualquer brilhozinho nos olhos.

Claro que o cinema não seria aquilo que hoje é, se não houvesse “film noir”.

Grande parte dos filmes do meu panteão encontram-se aqui.

Uma das características destes filmes são os seus personagens. Gente que entra, gente que sai, uns regressam outros não. Perco-me sistematicamente nos enredos e isso é um enorme gozo. Mesmo já tendo visto o filme, e avisado que estou, perco-me, e de caminho descubro, um prazer dentro de outros prazeres, coisas que me tinham escapado.

O Falcão de Malta é uma estatueta negra, perseguida por um bando de malfeitores, de “valor incalculável”, na expressão de Mr. Gutman.

Um tesouro pelo qual vale a pena matar. Sam Spade, um detective privado já curtido pelo tempo, com o seu solitário código de ética. Um bizarro ladrão chamado Joel Cairo, um homem gordo que dá pelo nome de Gutman e Brigid O'Shaughnessy, uma bela e traiçoeira mulher cuja lealdade muda com um tilintar de moedas.


O filme é a adaptação de um livro de Dashiel Hammett, O Falcão de Malta, cuja tradução portuguesa, de Baptista de Carvalho, é o número 34 da Colecção Vampiro. Por aqui existe também uma edição de “A Regra do Jogo”, traduzida por Helena Domingos, número 2  da Série Negra.


O livro começa assim:

O rosto de Samuel Spade era longo e ossudo e o seu queixo formava um pronunciado V, sob o V mais suave da boca. As narinas abriam-se, também sob a forma de um V mais pequeno. Os seus olhos verdes claros rasgavam-se horizontalmente, em forma de amêndoa. Sobranceiras a um nariz aquilino, viam-se duas rugas paralelas donde emergiam espessas sobrancelhas cuja configuração era, uma vez mais, a de um V bem vincado caprichosamente invertido. O cabelo castanho claro tinha como fronteira uma testa alta a despida de rugas sobre a qual avançara, como um istmo original, uma porção de cabelo que formava assim, no centro, um “bico de viúva”. À primeira vista, Spade tinha o aspecto agradável de um demónio saxão. Naquele momento, inquiria de Effie Perine_
- Que se passa, meu amor?

O The Times Lierary Suplement considerou que O Falcão de Malta não é apenas a melhor história de detectives que alguma vez lemos; é um romance extraordinariamente bem escrito, enquanto que o The Boston Globe considerava que Dashiel Hammett é um mestre das histórias de detectives, sim, mas também um escritor dos diabo  e o The New York Times que a prosa de Hammett é limpa e totalmente excepcional. As suas personagens são as mais perspicazes e concisamente definidas da ficção americana.


No filme de Huston, são soberbas as interpretações de Humphrey Bogart e Mary Astor,  mas é justo salientar o desempenho de Peter Lorre na pele de um amaricado Joel Cairo.

O filme tem excelentes diálogos, Na lista do American Film Institute para as cem melhores linhas de diálogo da história do cinema, há uma citação para Relíquia Macabra, quando no final o idiota inspector de polícia, depois de prender Brigid, pega na estatueta negra, vira-se para Sam e pergunta:


“É pesada. O que é?”

Sam Spade responde-lhe:

- É aquilo de que são feitos os sonhos.

Fiquemos com dois deliciosos diálogos do filme. O primeiro entre Sam Spade e Mr. Gutman, o outro entre o mesmo Sam e Brigid, quando ele lhe diz que sabe que ela matou o seu sócio e a vai denunciar à polícia:

Gutman – É um homem reservado?

Sam – Não, gosto de falar.

Gutman – Desconfio dos homens reservados. Normalmente escolhem mal a altura para falarem e dizem disparates. Falar é uma coisa que não se faz judiciosamente a não ser que se pratique muito. Se quiser podemos falar. Digo-lhe desde já que sou um homem que gosta de falar com um homem que gosta de falar.

Sam – Óptimo. Vamos falar do pássaro negro?

Gutman – É o homem certo para mim. Nada de rodeios: direito ao assunto. Falemos do pássaro negro. Pois, como sabe, no auge da acção os homens tendem a esquecer o que é melhor para eles e deixam-se levar pelas emoções.”

 “Sam – Se tiveres sorte, daqui a vinte anos sais da prisão, e nessa altura volta para mim. Espero que não te enforquem por esse pescoço lindo.

Brigid – Não vais…

Sam – Vou pois, meu anjo. Deves apanhar prisão perpétua e se portares bem, sais daqui a vinte anos. Estarei à tua espera. Se te enforcarem, hei-de sempre lembrar-me de ti.

Brigid – Sam, não digas isso nem a brincar. Por um momento assustei-me. Pensei que ias mesmo… Fazes coisas tão estranhas e imprevisíveis!

Sam – Não sejas tola. Vais mesmo dentro. Mataste o MIles e vais pagar por isso.

Brigid – Como podes fazer-me isso. De certeza que o Archer não significava tanto para ti como…
Sam – Ouve, não vale a pena. Nunca vais compreender-me, mas vou tentar uma vez. Quando o colega de alguém é morto, esse alguém tem de fazer alguma coisa. Não interessa o que se pensava dele. Era colega, e há que fazer qualquer coisa e acontece que estamos na actividade de detectives. Quando alguém da organização é morto é mau deixar-se o criminoso fugir. É mau para toda agente. É mau para todos os detectives. Se tudo isto não significa nada para ti, então esquece tudo e ficamos assim; não faço o que queres, porque eu o quero também apesar das consequências, e porque estás a contar que eu o faça, tal como contaste com os outros também.

Brigid – Terias feito isso se o falcão fosse verdadeiro e tivesses recebido o dinheiro que esperavas?
Sam – Não penses que sou tão malandro como se pensa. Esse tipo de fama talvez fosse bom negócio, chamando trabalhos que pagassem bem e tornando mais fácil lidar com o inimigo mas muito dinheiro teria sido mais peso do teu lado da balança.

Brigid – Não esperas que o que estás a dizer seja razão suficiente para me mandares prender.
Sam – Deixa-me acabar, depois falas. Não tenho razão nenhuma para acreditar em ti e se eu te deixasse escapar terias sempre algo de que me  acusar sempre que quisesses como tenho agora contra ti, não sei se um dia não me darias um tiro. Tudo isso pesa de um lado. Nem todos estes factores são importantes. Não discuto isso. Mas vê quantos são. E do outro lado, o que é que temos? Que tu talvez gostes de mim e que eu talvez goste de ti.

Brigid – Sabes se gostas de mim ou não?

Sam – Talvez. Vou ter noites horríveis depois de te mandar prender mas isso passa.

Brigid – Se gostasses de mim, não precisavas de mais pesos desse lado”.

sábado, 12 de março de 2011

ESTOU À RASCA.


Miguel Sousa Tavares no "Expresso" de hoje.

QUOTIDIANOS


Anúncio publicado no “Diário de Notícias”  aí pela década de 60.

POSTAIS SEM SELO


Do “Diário Íntimo de João de Deus”:

Segunda-feira, 8 de Julho

“As cuecas da filha do Dona Assunção desapareceram da corda da roupa.”

João César Monteiro em “Uma Semana Noutra Cidade”

sexta-feira, 11 de março de 2011

11 DE MARÇO DE 1975



Faz hoje 36 anos, foi derrotada uma primeira tentativa militar de acabar com a revolução de Abril. Foi um momento que me ficou sempre gravado na memória, embora ainda criança, nunca me esquecerei das imagens da conversa, no Ralis, entre Dinis de Almeida e o comandante das tropas 11marçoparaquedistas que montavam cerco aquela unidade militar. A derrota desta tentativa de golpe, comandada pelo Gen. Spínola, com o apoio de Soares e Sá Carneiro, embora rapidamente tenham mudado de lado após o desfecho, reforçou ainda mais a revolução, dando seguimento ás políticas que originaram as maiores conquistas que os trabalhadores tiveram ao nível das regalias e da diminuição das desigualdades. Infelizmente, como é sabido, a revolução terminou meses depois, em 25 de Novembro, dando origem ao actual regime, que nos conduziu aquilo que podemos observar, mas isso é outra História....hoje lembrei-me daqueles dias de inocência, em que se tentou criar uma sociedade melhor, entretanto adiada até ao concretizar dos sonhos, pois esses não morrem nem são transacionáveis, felizmente.

IDÍLIO EM BICICLETA


O deserto não é a ausência.
É o estado anterior à presença, antes da travessia dos nómadas, antes da paragem dos aventureiros...
É nostalgia que trazemos connosco, que dá por vezes o sentimento de termos perdido a parte de imensidão que é nossa....
Haverá um espaço perdido, que pode ressurgir ao sabor dos nossos confrontos com as imensidões que cruzamos, o céu, os oceanos, os desertos, a noite...
Trará o código genético, além dos testamentos, o vestígio de uma viagem sem limites através dos esconderijos do universo...
Há nestes impulsos misteriosos para espaços infinitos, a marca de um esforço para o reencontro com uma imensidão dantes conhecida e, depois, desaparecida...
A vida seria então a construção de um invólucro que desamarra do mundo uma parcela de infinito, para lhe dar um peso, um lugar, um princípio e um fim.

Yves Simon em “O Viajante Magnífico”

Imagem de Idílio Freire

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Aqui, neste nº 14 da Avenida Guerra Junqueiro, funcionou o “Star”.

Uma sala de cinema agradável, confortável. Foi pena ter fechado. Esplendidamente situada possibilitava, antes ou depois das sessões um espraiar pela esplanada da “Mexicana”, ainda hoje icon daquela zona da cidade.

O “Star” tinha uma programação a pensar nas tias da Avenida de Roma que, depois da sessão, iam para a esplanada da “Mexicana”, mais para a converseta-má-lingua, em redor de chá e torradas, refrescos de café, do que para percorrer as peripécias do filme.

Foi no “Star” que se estreou “Les Uns e Les Autres” do Claude Lelouch e, ficam a saber, o quando isso as encheu as pessoas de felicidade.


O “Star” já não existe, está lá agora o “C&A”, uma loja de trapos, mas a “Mexicana” mantém-se firme, e no interior, ainda lá  está o “Sol Ardente”, lindíssimo painel cerâmico, da autoria de Querubim Lapa.

Tirei a fotografia, subi e avenida, olhei a esplanada da “Mexicana”, e tentei o exercício de imaginar que, as simpáticas velhinhas que por lá se sentavam, são as mesmas que, no tempo de avenidas novas, elegantes e glamourosas, iam às sessões do “Star”.

Estava uma bonita tarde de sol.

quinta-feira, 10 de março de 2011

PESADELO PARTE II


É oficial: Aníbal Cavaco Silva é, desde as 16:40 de ontem, o 20º Presidente da Republica.
Um pesadelo que durará cinco anos.

Homens como Cavaco Silva irritam-me, e tudo o que eu possa escrever acerca da criatura, será escrito sob o signo dessa irritação.

Não gosto do homem, nem do estilo.

Ontem, não foi inocente a colocação aqui de estilhaços de discursos do “imolado contra-almirante”, como Nuno Bragança chamava a Américo Tomás.

Perspectivavam o discurso melancólico, vazio, redondo de nada dizer, insensível, próprio de um homem do regime, que Cavaco iria pronunciar.

Houve quem aplaudisse. 

Até o Alberto João gostou do discurso do Sr. Silva.

"Só um diagnóstico correcto e um discurso de verdade sobre a natureza e a dimensão dos problemas económicos e sociais que Portugal enfrenta permitirão uma resposta adequada", disse o homem que, há mais de uma década, iniciou, como ministro das Finanças, depois como primeiro-ministro, o regabofe a que chegámos.

Ameaçou que irá ter uma "magistratura activa" e disse aos portugueses:

"É necessário um sobressalto cívico que faça despertar os portugueses para a necessidade de uma sociedade civil forte, dinâmica e, sobretudo, mais autónoma perante os poderes públicos".

Mas o que é um “sobressalto cívico”?

Vende-se nos supermercados?

Este homem não é sério.

Esteve cinco anos em Belém, entretido em passeatas, conspirações e inaugurações, e diz que “agora é que vai ser”!

Daqui por uns dias, alguém terá que dizer ao Sr. Silva que foi eleito para Presidente da República e não para Chefe do Governo.

O oficioso, atento e venerando “Diário de Notícias” de hoje, finalizava assim o seu editorial:

“Este discurso prova mais uma vez que, boas intenções à parte, nunca se elege um presidente de todos os portugueses. Elege-se, isso sim, um homem com as suas ideias e as suas convicções.”
Estamos conversados!

POSTAIS SEM SELO


Durante a depressão – disse-me o cowboy – eu costumava viajar em comboios de carga pelo menos uma vez por mês. Nesses dias podia ver-se uma centena de homens num vagão aberto ou fechado, e não eram só vagabundos, mas toda a espécie de desempregados que iam de um lado para o outro, alguns deles só a vadiar. Era assim em todo o oeste. Os ferroviários nesse tempo nunca nos chateavam. Hoje não sei.

Jack Kerouak em “Pela Estrada Fora”

SARAMAGUEANDO


Excerto da crónica”Divórcios bibliotecas” de José Saramago, inserta no 1º volume de “O Caderno”:

“Por duas vezes, ou talvez tivessem sido três, apareceram-me na Feira do Livro de Lisboa, em anos passados, outros tantos leitores, os dois ou os três, ajoujados ao peso de dezenas de volumes novos, comprados de fresco, e em geral ainda acondicionados nos sacos de plástico de origem. Ao primeiro que assim se me apresentou fiz-lhe a pergunta que me pareceu mais lógica, isto é, se o seu encontro com o meu trabalho de escritor havia sido para ele coisa recente e, pelos vistos, fulminante. Respondeu-me que não, que me lia desde há muito tempo, mas que se tinha divorciado, e que a ex-esposa, também leitora entusiasta, havia levado para a sua nova vida a biblioteca da família agora desfeita. Ocorreu-me então, e sobre isso escrevi umas linhas nos velhos Cadernos de Lanzarote, que seria interessante estudar o assunto do ponto de vista do que nessa altura designei como a importância dos divórcios na multiplicação das bibliotecas. Reconheço que a ideia era algo provocadora, por isso deixei-a em paz, ao menos para não vir a ser acusado de colocar os meus interesses materiais acima da harmonia dos casais. Não sei, nem o imagino, quantas separações conjugais terão dado origem à formação de novas bibliotecas sem prejuízo das antigas. Dois ou três casos, que tantos são os que conheci, não foram suficientes para fazer nascer uma primavera, ou, por palavras mais explícitas, por aí não melhoraram nem os lucros do editor, nem a minha cobrança direitos de autor”.


Legenda: Fotografia de Gean Gaumy

terça-feira, 8 de março de 2011

POSTAIS SEM SELO


O Jazz nasceu à beira de um abismo. O corpo em situação extrema a descobrir a alma. Não a alma pendurada numa parede do museu teológico, mas a psique aprisionada nas masmorras da santa sé da moral que se liberta no grito que o homem lança no limiar do abismo. O grito é o orgasmo: o Jazz. É neste sentido que se pode falar de um erotismo do Jazz: a escalada de psique para eros. Escalada, apenas. Nunca o ponto de repouso da chegada. Por isso o Jazz é tensão, estirada, dor agudíssima, os ingredientes que elaboram o orgasmo em suspensão. Por isso o Jazz não é terminal, recusa-se a um fim, continua mesmo quando acaba. É fome de amor que se alimenta da insatisfação. Por isso no Jazz se abre o leque dos sons com que a lost generation ventilou o seu rosto afogueado pelo último Verão do mundo. Poesia sem letras, magia sem esperança, assembleia de bacantes na festa do descobridor da vinha, limando as unhas para arrancar olhos aos usurpadores do sonho. Porque no Jazz o que importa, acima de tudo, é não acordar!

Natália Correia

Legenda: Pintura de Stuart Carvalhais

IDÍLIO EM BICICLETA


A escrita exige mais escrita. Escrever, o acto de escrever, exige continuidade.
Talvez seja essa a razão de viajar. A verdade é que viajo para escrever. Faço assim a minha aprendizagem de escritor. Aprendizagem lenta do movimento sinuoso do mundo.

Al Berto em “O Anjo Mudo”

Imagem de Idílio Freire

DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Título de 1ª página do "Público" de 7 de Fevereiro.

segunda-feira, 7 de março de 2011

VÍTOR DAMAS, SIMPLESMEMTE!


À boleia de Peter Handke, num bonito romance, que também deu um interessante filme realizado por Wim Wenders, quando penso em guarda-redes ocorre-me sempre a angústia no momento da marcação do penalty. 

Não tem nome de livro ou filme, mas também há a angústia do jogador que tem de marcar o penalty. Lembro-me, há um bom par de anos, de Bebeto,  craque  brasileiro, a falhar, no último minuto, na última jornada, um penalty que, caso tivesse entrado, teria dado ao Deportivo da Coruña o título de campeão  de Espanha.

Portugal sempre teve excelentes guarda-redes. Por ordem preferencial:

Victor Damas
Manuel Galrinho Bento
Costa Pereira, o dos frangos à Costa Pereira
José Henriques, o célebre Zé Gato, “uma provocação vestida de roxo”, como um dia, numa crónica na “Flama”, lhe chamou o poeta Herberto Helder.

Num guarda-redes gosto que ele seja elegante, espectacular, que seja louco.

Os mais antigos “keepers”, tal como se dizia quando eu era puto, que lembro de ter viso jogar:

João Azevedo do Sporting, mas já não com a camisola do Sporting, mas com a do Oriental, o célebre COL do Campo Engº Carlos Salema, na Azinhaga dos Alfinetes.

Barrigana do F. C. do Porto

Martelo do Lusitano de Évora

Cesário do S. C. de Braga

Ernesto do Atlético

José Pereira do Belenenses, o pássaro azu
l
Carlos Gomes do Sporting, que teve de fugir do país por causa de uma série de trapalhadas, que envolviam mulheres e dinheiros, e que acabou a carreira a defender as balizas da equipa de futebol da Polícia de Marrocos.

Mas hoje venho por Vítor Damas

Quando naquele Setembro de 2003, Vítor Damas, com 55 anos, nos deixou, falando com os meus botões, disse que, muito dificilmente, voltaria a ver um guarda-redes como ele e o tempo tem-me dado razão. Também poderá ser que eu queira que os meus olhos não vejam outro guarda-redes como Vítor Damas. Sou assim, e já estou velho para mudar…

Quando soube da sua morte, Eusébio disse de Damas que ele “era um senhor”, e mais ninguém o poderia ser com tanta propriedade, sentimento de coração destroçado, muito poucos o poderiam dizer, pois foi com ele que Vítor Damas protagonizou os mais belos duelos da história do futebol português e ambos, coisas de génios, fazem parte dos ventos lendários dessa história.

Há lugares comuns que se tornam banais, mas não vejo como dizer, eu que gosto de futebol, que 
Damas e Eusébio, entre outras coisas várias, são parte integrante da minha história.

Majestoso, elegante, ágil, espectacular fantástico e, sempre, aquele boné à Vítor Damas.

Como um dia disse o jornalista Carlos Pinhão, Vítor Damas, era o “Eusébio do Sporting”.

Legenda: Caricatura de Francisco Zambujal.

DA MINHA GALERIA



Carnaval molhado, águas de Março.
Um velho “single” de Elis Regina.
Ninguém mais interpretou, como Elis Regina, a canção de António Carlos Jobim.
Bom Carnaval, se possível!

“É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um caco de vidro, é a vida, é o sol
É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol
É peroba do campo, é o nó da madeira

Caingá, candeia, é o MatitaPereira
É madeira de vento, tombo da ribanceira
É o mistério profundo, é o queira ou não queira
É o vento ventando, é o fim da ladeira
É a viga, é o vão, festa da cumeeira

É a chuva chovendo, é conversa ribeira
Das águas de março, é o fim da canseira
É o pé, é o chão, é a marcha estradeira

Passarinho na mão, pedra de atiradeira
É uma ave no céu, é uma ave no chão
É um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão
É o fundo do poço, é o fim do caminho

No rosto o desgosto, é um pouco sozinho
É um estrepe, é um prego, é uma ponta, é um ponto
É um pingo pingando, é uma conta, é um conto
É um peixe, é um gesto, é uma prata brilhando

É a luz da manhã, é o tijolo chegando
É a lenha, é o dia, é o fim da picada
É a garrafa de cana, o estilhaço na estrada
É o projeto da casa, é o corpo na cama

É o carro enguiçado, é a lama, é a lama
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um resto de mato, na luz da manhã
São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração
É uma cobra, é um pau, é João, é José

É um espinho na mão, é um corte no pé
São as águas de março fechando o verão,

É a promessa de vida no teu coração
É pau, é pedra, é o fim do caminho

É um resto de toco, é um pouco sozinho
É um passo, é uma ponte, é um sapo, é uma rã
É um belo horizonte, é uma febre terçã
São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração
pau, pedra, fim, caminho
resto, toco, pouco, sozinho
caco, vidro, vida, sol, noite, morte, laço, anzol
São as águas de março fechando o verão

É a promessa de vida no teu coração.”