sábado, 16 de março de 2013

NACIONALIZAÇÃO DOS SEGUROS


Continuavam os dias alucinantes pós 11 de Março de 1975.
Depois da nacionalização da banca, o país ficava a saber que o Conselho Superior da Revolução decretava que as companhias de seguros também eram nacionalizadas.
Na edição de 20 de Março da Vida Mundial podia ler-se o seguinte título:
Começou a revolução?
O mercado de seguros no nosso país era dominado por cinco grandes companhias: Império, Tranquilidade, Mundial, Confiança e Comércio e Indústria, basicamente controladas por cinco grandes grupos financeiros: C.U.F., Champalimaud, Espírito santo, Jorge de Brito e Pinto de Magalhães.
Só por si a Companhia de Seguros Império detinha cerca de um quinto do mercado e exercia, conjuntamente com a Tranquilidade e a Mundial, uma influência declaradamente do tipo monopolista.
Neste dia ficava saber-se que, após algumas hesitações, o governo brasileiro dava asilo político ao ex-general Spínola...
À chegada a São Paulo, Spínola apressou-se a desmentir que tivesse afirmado não  desejar voltar algum dia a Portugal, ao mesmo tempo que declarava que se dedicaria a «actividades intelectuais», com o propósito de escrever um livro: «Reflexões sobre os Dilemas do Mundo Contemporâneo».
Mas o antigo governador da Guanabara, Carlos Lacerda, afirmava, ao Jornal da Tarde, que o ex-general «está decidido a continuar a luta».

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Enquanto Claudette Colbert lê, John Wayne pensa:
Elas têm o direito de trabalhar onde quiserem, desde que tenham o jantar pronto quando se chega a casa.
Legenda: cena do filme Without Reservations de Mervyn Leroy, 1946, com Claudette Colbert e John Wayne

COISAS EXTINTAS OU EM VIAS DE...


Pelos idos de Março do ano de 1975 começaram a aparecer, em jornais e revistas, o anúncio que revelava que, em breve, sairia para as bancas um novo jornal.
O seu nome era precisamente Jornal Novo.
O primeiro número saíu no dia 17 de Abril de 1975 e tinha, como director, o cronista, dramaturgo e romancista Artur Portela Filho que, antes e depois do 25 de Abril, manteve uma coluna no República intitulada A Funda.
Criado para combater aquilo a que determinados sectores chamavam gonçalvismo, foi perdendo espaço à medida que a acalmia se ia instalando no país.
O último número do Jornal Novo saíu no dia 29 de Setembro de 1979.
Foram também seus directores Proença de Carvalho, Helena Roseta, Torquato da Luz
Anos mais tarde, Artur Portela Filho explicou como nasceu o Jornal Novo:
Trabalhava na altura numa agência de publicidade que tinha como cliente a CIP, dirigida por Vasco Mello, Morais Cabral e Carlos Robalo. Sugeri-lhes que se criasse um diário, diário porque os acontecimentos sucediam-se em catadupa, que defendesse uma democracia de tipo ocidental para o país. Mostraram interesse. Convidei o historiador Vitorino Magalhães Godinho para director mas surgiram problemas. Depois contactei o Eduardo Lourenço, que não tinha disponibilidade. Eu próprio assumi o cargo. O José Sasportes era o chefe de redação, o Francisco Agarez o director da publicidade, o Luís Duran o autor do grafismo. Saímos sem dinheiro, sem estrutura. A administração não deu os apoios de que necessitávamos. O projecto, a estrutura eram inovadores. A ideologia seguida, socialista e independente, provocou desde logo atritos com a administração. Entrámos em ruptura quando não apoiámos a ilegalização do PCP proposta pela direita após o 25 de Novembro. Fui despedido. O Sasportes e outros solidarizaram-se comigo e saíram.
Cumprindo o seu papel o Jornal Novo, estava em funções o V Governo Provisório chefiado por Vasco Gonçalves, é o primeiro órgão de comunicação a publicar o Documento do Grupo dos Nove que visava defender a pureza do MFA.
Em pleno Verão Quente, os partidários de Mário Soares já tinham lançado a palavra de ordem: O Povo NÃO está com o MFA.
Não tardaria muito que Novembro entrasse pelos quarteis dentro.

sexta-feira, 15 de março de 2013

REQUIEM PELO SPINOLISMO


Sobre os acontecimentos de 11 de Março de 1975, Marcelo Rebelo de Sousa titulava assim a sua habitual coluna de opinião no Expresso: 

Requiem pelo bonapartismo spinolista.
O 11 de Março foi a oportunidade primeira de se suscitar o confronto destas duas linhas de pensamento e de acção. É ainda cedo para se compreender em toda a sua complexidade o que efectivamente sucedeu a 11 de março. O inquérito oficial – assegurou o Chefe de Estado – corre ainda os seus trâmites, a ritmo acelerado. Segundo Costa Gomes, ele poderá mesmo a vir a clarificar os acontecimentos de 28 de Setembro que permaneciam, seis meses depois, envoltos em relativo segredo de estado.
Entretanto, algumas perguntas se fazem quanto aos factos os observadores políticos.
1ª Spínola terá liderado desde o início do golpe conforme é genericamente dito, ou teria assumido a liderança momentânea sob o peso de uma versão errada do que ocorria? – conforme disse Salgueiro Maia ao “Século”?
2ª Porquê a incipiente estrutura de um golpe que segundo meios oficiosos, estaria sendo preparado há já algum tempo?
3ª Porquê a aparente ausência de elementos golpistas operacionais de ligação às diversas unidades, e pelo contrário a sua concentração em Tancos de onde fugiram para Espanha?
Estas e outras questões serão certamente respondidas de forma cabal pelo relatório que está em preparação sobre a tentativa aventureirista da direita.

OLHAR AS CAPAS


Depois das Revoluções

Mário Murteira
Prefácio: Fernando Piteira Santos
Capa: Luís Carrolo
Edições ES, Lisboa Novembro de 1986

O 25 de Abril foi o romper do dique que a ditadura salazarista construiu para suster o tempo histórico em Portugal. O tempo português, assim liberto, correu vertiginosamente em 1974/75. Depois, a pouco e pouco, a política nacional o passo – mas bem na cauda, ou na periferia, da Europa.
O chamado gonçalvismo nunca existiu. Existiu, sim, no Portugal recém-libertado, um movimento social anticapitalista que entre Março e Novembro de 1975 atingiu o climax. Em 16 de Novembro desse ano, no Terreiro do Paço, entre algumas centenas de milhares de manifestantes, pareceu-me que a revolução era possível. Mas tratava-se de um equívoco. A revolução é, em última análise, uma questão de poder. E o poder não estava nas ruas de Lisboa ou nos campos do Alentejo.
Na altura, não se sabia bem onde estava o poder - se poder havia. Hoje, sei que estava e está na lógica de um sistema mundial que nos permite alguns graus de liberdade, mas não todos. A menos que...

MÁRIO MURTEIRA (1933-2013)


Num livro autobiográfico, publicado em 2002, autointitulou-se o economista acidental e voador frequente.
Foi uma das figuras mais marcantes saídas da geração de economistas dos anos 50 e 60.
Mário Murteira, jubilara-se no ISCTE em 2002 e passaria a professor emérito da mesma universidade em 2008. Era professor do ISCTE desde a fundação em 1972.
Licenciou-se em "Económicas" em Lisboa, o então denominado Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras, hoje ISEG, a principal escola de economia do país, em 1956. Realizou estudos de pós-gradução em Paris e Roma em 1959 e 1960 e viria a doutorar-se-ia pela Universidade Técnica de Lisboa em 1970. Foi assistente do Centro de Estudos Sociais e Corporativos, dirigido por Sedas Nunes, em 1957/58, e da Divisão de Estudos de Economia Industrial do Instituto Nacional de Investigação Industrial em 1959/61.
Foi ministro dos Assuntos Sociais no I Governo Provisório em 1974 e ministro do Planeamento e Coordenação Económica nos IV e V Governos Provisórios em 1975. Foi nomeado, em março de 1975, vice-governador do Banco de Portugal. Foi militante e dirigente da União de Esquerda Socialista Democrática (UEDS).
Em 2009 foi-lhe atribuído o Prémio Carreira" pela Ordem dos Economistas. Em 2010 foi condecorado com a Primeira Classe da medalha de Mérito pelo Presidente da República de Cabo Verde. Pedro Pires, pelo trabalho desenvolvido na formação de quadros superiores em Economia e Gestão. 

POSTAIS SEM SELO


- Já viste? Tudo o que nos contaram sobre o comunismo é mentira.
- Isso não é o pior. O pior é que o que nos contaram sobre o capitalismo é verdade!

Legenda: cena do filme Segundas ao Sol de Fernando Léon Aranoa, 2002.

quinta-feira, 14 de março de 2013

A NACIONALIZAÇÃO DA BANCA



Há 38 anos, o país era surpreendido com a notícia de que , na sua primeira reunião, o Conselho de Revolução decretara a nacionalização da Banca.
A reacção geral foi de apoio a esta medida.
Um dia de alegria para todos menos para aqueles que beneficiavam largamente do sistema anteriormente vigente, no dizer emocionado do primeiro-ministro Vasco Gonçalves..
O PPD, hoje PSD, sublinhava que substituir um capitalismo liberal por um capitalismo de estado não resolve as contradições com que se debate hoje a sociedade portuguesa.
Mário Soares chamava-lhe um dia histórico em que se pode assinalar que o capitalismo se afundou. Efectivamente a nacionalização da banca privada, que por sua vez detém nas carteiras a maior parte das acções das grandes empresas e, ao mesmo tempo, a fuga e a prisão dos chefes das nove grandes famílias que dominavam Portugal indica de uma maneira bem calar que se está a caminho de se criar uma sociedade nova em Portugal.
Para que não restassem quaisquer dúvidas, José Magalhães Godinho lembrava que a nacionalização estava inscrita no programa do Partido Socialista.
O economista Eugénio Rosa lembrava:
É suficiente dizer, e só a título de exemplo, o que aconteceu até há pouco tempo com um banco. O grupo económico a que ele pertencia criou 15 empresas no mesmo edifício, com um capital social de 3.500 contos, a quem emprestou mais de 3 milhões de contos para que aquelas pudessem jogar em acções especulativas, sem qualquer interesse para satisfação das necessidades populares.



Para o povo o dinheiro do povo?
Passados 38 anos, sabemos da quantidade de água que passou por debaixo das pontes, as voltas e reviravoltas, as contorções, as cambalhotas, as omissões e as traições de quem entendia que o comboio estava a andar depressa demais e urgente seria começar a pensar em meter travão às quatro rodas.
Alguma dessa gente já não se encontra entre nós, mas outros ainda estão por aí.
Como se sentirão quando de manhã se olham ao espelho?
Não sentem nada!
Antes aproveitam para dizer que os trabalhadores, porque aguentam, aguentam têm de baixar ainda mais os ordenados que auferem, que os reformados vivem tempos demasiado longos.
Não é suficiente chamar-lhes nomes feios!...

TEMOS PAPA: FRANCISCO I


Católica que sou, não tão praticante como em outros tempos fui, sinto que a Igreja não tem acompanhado as novas realidades do mundo, congratulo-me com a eleição de Francisco, o novo Papa.
GOSTO
Que seja um homem modesto, humilde, que recusou viver no palácio apostólico preferindo um modesto apartamento em Buenos Aires, onde confecionava as suas refeições, que dispensava o carro que lhe era atribuído, preferindo andar em transportes públicos.
Que tenha uma grande preocupação com os mais pobres.
Que goste de futebol e de tangos.
NÃO GOSTO
Que não tenha sido escolhido um papa mais novo, de preferência vindo de África.
Que o novo papa seja contra o aborto, a contracepção, o casamento gay, a adopção por  casais homossexuais.
DESEJO
Que os luxos e os vícios do Vaticano não lhe estraguem as virtudes e que da sua cadeira consiga olhar e denunciar os graves problemas do mundo.

quarta-feira, 13 de março de 2013

VELHOS DISCOS


Volto aos discos comprados na velha Grande Feira do Disco.
Para animar os Bailes da Vida, depois doa tangos, não poderiam faltar os passodobles.

O PREC À BOCA DE CENA


Continuamos a acompanhar os dias que se seguiram ao 11 de Março.
O jornal inglês Morning Star comentava a tentativa de golpe de estado em Portugal:
Com o exemplo do Chile no espírito muitos desejarão saber até onde a N.A.T.O. e os serviços de informação como a C.I.A. estão implicados.
Num relato «passo a passo» dos acontecimentos do 11 de Março, o Expresso revelava que, no dia 13 pelas 20,30 horas, uma esquadra da N.A.T.O. aproximou-se da costa portuguesa, mas não adianta pormenores, nem motivos.


O cinema Universal, antigo Cinema Bélgica, decidiu estrear o filme colectivo feito durante 1º de Maio e que nunca tinha sido visto: As Armas e o Povo.
Foi exibido durante 24 horas, em sessões contínuas e gratuitas.
A Federação Portuguesa de Hóquei em Patins foi superiormente autorizada a participar no Torneio Internacional de Montreux, que todos os anos se realiza, nas férias da Páscoa, naquela cidade suiça.
Spínola abandonou a sua residência na Quinta das Flores em Massamá.
Em três helicópteros, juntamente com mais 15 oficiais, Spínola chegou à base espanhola de Talavera La Real. Terá afirmado que nunca mais regressaria a Portugal e mostrou o desejo de encontrar asilo político fora de Espanha sem precisar a que país contava recorrer.
De um comunicado da Comissão Política do Partido Comunista Português:
A tentativa de golpe do 11 de Março foi derrotada. Mas não é de crer que a conspiração abrangesse apenas os responsáveis já conhecidos. Alguma coisa falhou no plano e isso significa que houve conjurados que, por qualquer razão, não entraram em acção.
A passos rápidos, o PREC chega-se à boca de cena.

OLHAR AS CAPAS


Rififi

August Le Breton
Tradução de Mário-Henrique Leiria
Capa de ZéPaulo
Colecção Alibi nº2
Edições 70, Lisboa s/d

Ao desembarcar na estação de Victoria, Jo o Sueco cheirou o ar de Londres. Velha cidade! Não era a primeira vez que ali punha os butes. Os autocarros vermelhos de dois andares, o nevoeiro que envolvia os candeeiros acesos, os bobbies, grandes, dignos, com o capacete em forma de ovo de Páscoa na tola, tudo aquilo lhe recordava velhos tempos: a época de antes da guerra, quando ele e Tony se batiam no Soho contra os polacks e os manos malteses pela supremacia do meio francês.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Página de espectáculos do Diário de Lisboa de 12 de Março de 1975.
Estes eram os filmes que se encontravam em exibição.
A esmagadora maioriados cinemas  já não existe.
Uns deixaram de exibir  filmes, outros passaram a outros ramos de negócio, O Império, por exemplo, é sede de uma seita religiosa e outros ainda, depois de remodelados, casos do S. Jorge, Monumental e Alvalade, continuam como cinemas.
Curiosamente, por estes dias, o cinema Londres, por falta de pagamento da conta de electricidade, fechou portas.
Dado que a Socorama-Castello Lopes pediu a insolvência, é bem provável que tão cedo se possa voltar a assistir à exibição de filmes no Cinema Londres.

terça-feira, 12 de março de 2013

QUOTIDIANOS

Título do Público

HAVERÁ ELEIÇÕES!



Numa assembleia que reuniu perto de 200 oficiais do M.F.A., incluindo membros da Junta de Salvação Nacionakl e da Comissão Coordenadora e que foi presidida pelo Chefe de Estado General Costa Gomes, é decidido remodelar o governo, criar o Conselho da Revolução e manter as eleições para a data prevista.
À saída da reunião os jornalistas puderam ouvir breves declarações dos intervenientes.
O General Fabião, chefe do Estado-Maior do Exército (e membro da J.S.N) afirmou que os acontecimentos da Encarnação o surpreenderam um tanto. Andava «qualquer coisa no ar», realmente, mas daí até se pensar num ataque com meios aéreos e terrestres ia um grande passo.
Analisando os acontecimentos o Diário de Lisboa escrevia:
Sobre o 11 de Março apetece dizer que foi um erro histórico. Spínola fala de uma “causa perdida”: lá terá as suas razões, ele que se dizia «um general de reserva» e não na «reserva». De qualquer modo passa agora, em termos práticos, à reserva da nossa memória recente. Vigilantes, importa não o perdermos de vista.
Na véspera, Otelo Saraiva de Carvalho, em entrevista à Rádio Renascença, avisara:



 Numa fotografia publicada pelo Diário Popular, vêem-se populares, um deles é uma criança, a presenciarem o bombardeamento ao R.A.L. 1.


A legenda diz:
De arma aperrada, o militar não parece aperceber-se da presença de civis.



 Por mera curiosidade atente-se no que os telespectadores poderiam ver nesse 12 de Março de 1975.:



Mário Castrim intitulava a sua crítica de televisão: “Vitória em Março – um cheirinho a Primavera” e finalizava:

Foi dito com a clareza máxima: chegou o momento de se saber quem está e quem não está com o M.F.A.. Quem está com ele a sério, isto é, em defesa do povo português. É preciso saber quem invoca, sem ser em vão, o nome do M.F.A Na boca de muitos andadrá ele; nem todos se poderão gabar de o trazer no coração.

À LUPA


A Europa gastou milhões de euros para resgatar os bancos, mas, com a crise e os actuais níveis de desemprego, em particular entre os jovens, arrisca-se a perder uma geração, considera o presidente do Parlamento Europeu.
Em entrevista à Reuters, o alemão Martin Schulz identifica a perda de confiança dos cidadãos na capacidade de a União Europeia resolver os seus problemas como “uma das principais ameaças” da própria UE. “E se a nova geração perde confiança, penso que é a UE que está verdadeiramente em perigo”, diz.
Para Schulz se a zona euro encontrou “700 mil milhões de euros para estabilizar o sistema financeiro”, terá de investir um montante idêntico para “estabilizar” as novas gerações nos países em dificuldades. “Somos os campeões do mundo dos cortes orçamentais, mas temos menos ideias quando é preciso estimular o crescimento”.

Dos Jornais

POSTAIS SEM SELO


Lembrei-me de ouvir o silêncio do Alentejo, tão profundo e ancestral como o cante dos homens nos jordões ou nas tabernas. Reflecti sobre a sabedoria posta em cada refeição - quase como um acto sagrado - que requer o tempo necessário, a calma que permite distinguir cada sabor, cada textura, cada aparência (o paio a deitar pingo, o queijo com olhinhos de azeite, o aveludado do vinho, a “coida” do pão).
Todas as coisas ficam sem pressa, quase paradas, entre a cultura e a alma, entre o choro e a ironia. Qualquer acto se reveste de um enorme significado.
Ser alentejano é uma Arte e uma Crença: crença no pouco que se tem e na alquimia da transformação do nada em quase tudo:
- faltam monumentos, mas há pão;
- faltam fontes, mas há vinho;
- falta o verde, mas há ouro.
Alentejo: o Património de todos os sentidos.

Maria José Bravo Balancho

Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

segunda-feira, 11 de março de 2013

UM GOLPE CONTRA-REVOLUCIONÁRIO


Se a uma grande parte dos jovens de hoje o 25 de Abril já diz muito pouco, então sobre o 11 de Março não lhes diz nada.
Ainda hoje, o 1 de Março, é um passo da nossa história que não se encontra devidamente estudado.
Talvez daqui por uns anos se faça outro tipo de luz ou se continue a manter a ideia de que mais não foi do que uma farsa, com fins preconcebidos, mas mal elaborada, mal representada.
Outra coisa não seria de esperar da coronelada, da generalada, a célebre brigada do reumático, saudosa da ditadura.
No dia 6 de Março, a revista francesa «Témoignage Chrétien» publica uma notícia que revela: «Spínola prepara um golpe de Estado em Portugal», afirmando que Spínola receber luz verde do embaixador dos Estados Unidos, Frank Carlucci, para tentar subverter o processo revolucionário iniciado em Portugal.
Varela Gomes, no seu livro Sobre os Golpes Contra-revolucionários de 11 de Março e de 25 de Novembro de 1975:
Considero o acontecimento em 11 de Março de 1975, como um golpe contra-revolucionário integrado na poderosa e persistente ofensiva montada pela reacção interna e internacional contra o 25 de Abril/Revolução (distinguindo do 25 de Abril/Golpe de Estado), cujas outras duas datas culminantes a montante e a jusante r4espectivamente, foram 28 de Setembro de 1974 e 25 de Novembro de 1975.



 Almeida Faria, no seu romance Lusitânia, faz um retrato,assaz curioso, do que foi esse dia.:
CARTA DE JC A MARTA TENTANDO NARRAR AS PERIPÉCIAS DUM DIA TÃO INCRÍVEL QUE PARECE FICTÍCIO
Lx, 11-3-75
Querida Marta,
 não vais entender nada do que contam os jornais, nem nós, chamados testemunhas visuais, conseguimos perceber a aventura surrealista dum teco-teco militar sobrevoando a saloia capital durante mais de uma hora, metralhando um único quartel onde matou um soldado e regressou à base, liquidando a direita acusada de ter tentado tomar o poder com este avião de brinquedo, arrumada por isso para os próximos meses. Perdeste a oportunidade de presenciar uma intentona pela TV, que filmou o impagável diálogo dum oficial intentonista com o célebre Dinis de Almeida, comandante do quartel metralhado e sitiado pelo pelotão ou talvez nem isso, por um grupo de soldados “reaças” que começaram a chorar diante da TV quando a esquerda razoável lhes explicou terem sido enganados, manobrados ou obrados pelos maus que, como bons malandros já fugiram para Espanha deixando os pobres soldados ali de G3 na mão sem saberem bem porquê nem contra quem nem para quê nem para quem, os chefes só lhes disseram que era preciso ir salvar a revolução em perigo e todos se consideram salvadores da cuja dita. O Woody Allen tinha previsto um assassinato de presidente de república dado em directo pela TV, mas acho que a nossa ridícula realidade ultrapassa em tragicómico a ficção de “Bananas”. À hora em que te escrevo já os vencedores preparam a mitificação ou beatificação do soldado Luís, vítima desta brincadeira de mau gosto, ele que não tinha nenhum interesse em ver-se transformado em herói. Como explicação para tão




absurda e obtusa acção de fogo, fala-se numa #matança da Páscoa” que o lobo mau prepararia a fim de cortar uma série de cabeças. Quem meteu isto nas fracas cabeças assim ameaçadas, ou se elas próprias inventaram tal estória, ignoro-o. Um ano de revolução permanente, ardentemente sonhada por nós leitores de Lev, começa a fatigar a burguesia que no início a ela aderiu por curiosidade ou simples desejo de mudar, como se fosse novo vestido ou penteado. Agora volta a vir ao de cima o nosso secular cepticismo, indiferença, fatalismo, transformado em gesto nacional o encolher-de-ombros de outrora conhecido. A fase de instrução colectiva luta agora contra as forças da inércia. Dizia mestre Lev: à fusão criadora do consciente com o inconsciente é que se chama inspiração. No momento em que a inércia tenta tomar conta do prec, uma espécie de usura apodera-se das pessoas, passam a pensar em termos de contabilidade, esquecem que com usura nenhum homem tem casa de boa pedra, que a usura é uma praga, que com usura, pecado contranatura, talvez se chegue ao poder, não se chega à liberdade. Também eu não chego a nenhum lado, a não ser aos exames que não sei se se fazem. De resto para que serve estudar leis num país que quero deixar? Ainda por cima leis tornadas diariamente arcaicas pela constante inflação da legislação, inflação só semelhante à da nossa moeda, pobre dela.
Da próxima vez prometo carta diferente, falando mais de mim que do prec que afinal te não interessa. Pergunto-me se eu te interesso.
 Teu
 JC
Almeida Faria Lusitânia, Edições 70 Lisboa Dezembro de 1980

domingo, 10 de março de 2013

LAMENTO


Que vai ser do vento
sem o teu rosto por detrás da janela,
as mãos separando as cortinas?

Que vai ser da árvore
com os meus passos incapazes
de achar o caminho de casa?

Que vai ser do mar
sem as tuas palavras incitando-me
a abrir o portão de ferro?

Que vai ser do ar
que respiro sem as tuas mãos
por perto a impedirem-me de cair?

Jorge Gomes Miranda.
Legenda: ilustração de Izvor Pende.

OLHAR AS CAPAS


No Reino dos Falsos Avestruzes
João Martins Pereira
Capa: João B.
A Regra do Jogo, Lisboa 1983


Eu fiz 20 anos em 1952. Não-crente já então, se é que o fui alguma vez, eu era a ignorância do mundo, das coisas, das pessoas. Estudava engenharia, afincadamente. Mas desencantadamente. Punham-se-me as questões metafísicas (e físicas) do costume, as ditas «próprias da idade», e outras menos próprias. No meio disto, apenas duas armas, que já deviam vir, como hoje se diz, no meu «código genético»: uma enorme curiosidade, uma visceral propensão para o«não-alinhamento». Debicava sem nexo, como qualquer galináceo, nos grãos que, ao acaso das circunstâncias, me vinham cair no minúsculo pedaço em que me movia: livros, filmes (cine-clubes),associação de estudantes, pouco mais. E sem nexo continuei, anos fora, até que, já nem sei como, dei comigo embrenhado no «mundo sartriano».

NOTÍCIAS DO CIRCO


A LUXUOSA clique cavaquista no BPN continua a sua saga.
Arlindo de Carvalho, ex-ministro da saúde de Cavaco Silva é um dos nove acusados no processo. Desta vez a burla ascende a um montante global superior a 160 milhões de euros
Arlindo de Carvalho, ex-ministro da Saúde de Cavaco Silva, e José Neto, seu sócio e antigo governante, são acusados pelo Ministério Público de terem recebido ilegitimamente mais de 80 milhões de euros do BPN.

O BEM-INSTALADO-NA-VIDA-JOÃO-SALGUEIRO saíu-se com mais uma:

Se não sabem o que fazer, ponham metade dos desempregados a abrir buracos e a outra metade a tapá-los. O que interessa é que estejam ocupados

OUTRO BEM-INSTALADO-NA-VIDA-ANTÒNIO-BORGES, não contente com as atoardas infames que tem bolsado, defende agora que o ideal era que os salários descessem como aconteceu noutros países como solução imediata para resolver o problema do desemprego.

AINDA UM OUTRO BEM-INSTALADO-NA-VIDA-FILIPE PINHAL, antigo presidente do BCP, saído da instituição bancária por causa de alguns escândalos relacionados com off-shores e manipulação de ações em bolsa, que recebe uma pensão de 70 mil euros, criou a Associação dos Reformados Indignados.

O ZIGUE-ZAGUEANTE-ISALTINO-MORAIS, viu o recurso, apresentado ao Tribunal de Relação de Lisboa, rejeitado e vai agora recorrer para o Tribunal Constitucional.

COMO NEM TODA A JUSTIÇA É IGUAL, uma mulher foi detida e vai responder num processo judicial por alegadamente ter furtado uma embalagem de polvo congelado num hipermercado de Bragança, divulgou a PSP.
Entretanto O DIAP de Coimbra teve de abrir um inquérito sobre o furto de 77 cêntimos de feijão-verde, num supermercado Lidl. Uma procuradora-adjunta arquivou o caso, por se tratar de bagatela, mas o supermercado reclamou e, agora, o caso ocupa uma procuradora da República.
O caso tinha os ingredientes para ser julgado em processo sumário, o que dispensaria a abertura de inquérito, mas o Lidl inviabilizou essa possibilidade: era preciso que apresentasse queixa, logo que o seu segurança apanhou o ladrão e chamou a PSP, e não o fez.

O ESTRELAR-PRESIDENTE-CAVACO-SILVA, já afirmou por aí que não pensem que é pelos baixos salários baixos que se garante a competitividade da economia e acaba de divulgar o prefácio do novo livro Roteiros VII, onde garante que, mesmo em silêncio, nas sombras das paredes de Belém, tem travado um duro combate com a troika para evitar (?) a crise que se instalou na sociedade portuguesa.

COM TUDO A CORRER TÃO MAL, pior ficou quando se soube que a socialite Lili Caneças, vai emigrar para Los Angeles.

Estou um bocadinho farta desta pobreza, desta desgraça, de tanta miséria.

sábado, 9 de março de 2013

OS CROMOS DO BOTECO

À LUPA


O Banco Central Europeu aumentou os seus lucros no ano passado.
O lucro terá aumentado 35%.
Em grande parte esse lucro ficou a dever-se ao resgate à Grécia.

ENSAIOS DA PRIMAVERA


Mais importante que a Primavera é estarmos à espera dela.
Sempre.
Em Coimbra, por um Março de 1942, tem empo de segunda guerra mundial, Miguel Torga escrevia no seu Diário:

Há momentos nestes primeiros ensaios da primavera em que parece que é por um tris que a verdade última da vida não rasga o seu véu misteriosos e aparece toda nua diante dos olhos do mundo. Ou porque um pássaro acabou por encontrar o sítio para fazer o ninho, ou porque uma flor começou a abris, ou por qualquer outra razão que se não vê, as árvores param de mexer, as aves param de cantar, as águas param de correr, e um grande silêncio de espectativa pura pira na cósmica alegria de tudo. A natureza parece inteira em jejum de comunhão.
Mas os segundos passam, aquela tensão exaspera-se, começa a bulir uma folha, a trinar um melro, a murmurar uma fonte e nada acontece.

Miguel Torga, Diário Vol. II, Edição do Autor, Coimbra 1943

sexta-feira, 8 de março de 2013

UM DIA, TODOS OS DIAS


Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.
Maria Velho da Costa, capítulo 7 de Revolução e Mulheres em Cravo, Moraes Editores,
Legenda: ilustração do Google para o Dia Internacional da Mulher.