terça-feira, 11 de dezembro de 2018

ÚLTIMO CADERNO DE LANZAROTE


Último Caderno de Lanzarote

José Saramago
Capa: fotografia de Sebastião Salgado
Porto Editora, porto, Outubro de 2018


Este é o tempo em que passam vinte anos sobre a atribuição do Prémio Nobel da Literatura a José Saramago.

Por sinal o ano em que, por motivos literopornográficos, o Prémio não foi atribuído.

Voltará a ser?

Dizem-nos que o 6º volume de Cadernos de Lanzarote ficou perdido no disco rígido que Saramago utilizava para escrever os seus livros.

Esse livro O Último Caderno de Lanzarote, que corresponde ao diário de José Saramago em 1998, o ano em que recebeu o Prémio Nobel da Literatura, foi publicado em Outubro.

Contam-nos que a pasta Cadernos de Lanzarote estava no computador de José Saramago, e sempre que Pilar del Río lá entrava pensava que continha apenas os cadernos que já estavam publicados. Mas, no final de Fevereiro - quando estava à procura de uma referência a uma determinada conferência, fez o que nunca tinha feito. Clicou na pasta e deparou-se com: caderno 1, caderno 2, caderno 3, caderno 4, caderno 5 e caderno 6…

Pilar del Río sabia que existiam cinco cadernos e que havia outros textos dispersos que Saramago tinha escrito, mas pensava que estavam por organizar. De repente, ficou surpreendida ao encontrar um caderno completo que nunca tinha sido publicado.

Aceitemos a história tal como nos contaram.

À pergunta de Zeferino Coelho para quando mais um volume dos Cadernos, Saramago terá dito que chegara ao seu fim.

Mas por rotina, o que quer que seja, foi alinhavando palavras, temas, efemérides e ideias.

A publicação deste Último Caderno reflecte o desejo que uma leitora, durante uma sessão de autógrafos na Feira do Livro do ano de 1995, colocou a Saramago:

«Uma leitora na Feira: «Para o ano que vem teremos mais Cadernos?» respondo medievalmente como de costume: «Vida havendo e saúde não faltando…» E ela: É que quero ler neles a notícia do Prémio Nobel…»
Ponho a cara de sempre, sorriso contrafeito, tonto e de pouco caso, agradeço a gentileza do voto, e passo a assinar o livro que o leitor seguinte me apresenta. «Eu também…», diz este, que ouviu a rápida troca de palavras. Desta vez fico sem saber que sorriso pôr. O terceiro leitor, felizmente, é dos calados»

Mas não há muito a ler naquela dia de 8 de Outubro de 1998. Apenas tópicos para futuro desenvolvimento posterior:

«Aeroporto de Frankfurt. Prémio Nobel. A hospedeira. Teresa Cruz. Entrevistas.»


Comprei o livro logo que saiu, cheirava àquele bom velho cheiro das tipografias.

Li-o de uma penada, tenho regressado a algumas páginas.

Não é bem o Saramago que gosto.

Aliás, sempre li os Cadernos de Lanzarote com um pé atrás.

Nunca me entusiasmaram.

Este último caderno começa no dia 1 de Janeiro de 1998 e termina no final desse ano, mas inclui também duas entradas relativas ao primeiro mês do ano seguinte, uma a 9 de Janeiro e outra a 14 de Janeiro.

E encontramos Saramago, no primeiro dia do ano, às voltas com o vento que envolve a casa:

«Durante a noite, o vento andou de cabeça perdida, dando voltas contínuas à casa, servindo-se de quantas saliências e interstícios encontrava para fazer soar a gama completa de instrumentos da sua orquestra particular, sobretudo os gemidos, os silvos e os roncos das cordas, pontuados de vez em quando pelo golpe de uma persiana mal fechada. Nervosos, os cães lançavam-se de rompante pela gateira da porta da cozinha (o ruído é inconfundível) para irem ladrar lá fora ao inimigo invisível que não os deixava dormir. Manhã cedo, antes mesmo do pequeno-almoço, descia ao jardim para ver os estragos, se os houvera. A força da ventania não tinha esmorecido, bem pelo contrário, sacudia com injusta ferocidade os ramos das árvores, sobretudo os da acácia, que com uma simples e bonançosa aragem s e deixam mover. As duas oliveiras e as duas alfarrobeiras, novas ainda, pelejavam bravamente, opondo aos esticões do malvado a elasticidade das suas fibras juvenis. E as palmeiras, essas, já se sabe, nem um tufão as consegue arrancar. Com os catos também não valia a pena preocupar-me, resistem a tudo, chegam a dar a impressão de que o vento faz um rodeio quando os vê, passa por eles de largo, com medo de se espetar nos espinhos.. Ao longo do muro, os pinheiros canários, em fila, mais desgrenhados que de costume, cumpriam o dever de quem foi colocado na linha da frente: aguentar os primeiros choques. Tudo parecia estar em ordem, podia ir preparar o meu pequreno-almoço de sumo de laranja, iogurte, chá verde e torradas com azeite e açúcar»

Viajamos pelo livro para pararmos a 5 de Janeiro quando Saramago regista a morte de Ilda Reis, mãe de sua filha Violante.

Um toque de sensibilidade, de ternura:

«Morreu a Ilda. A Ilda era a Ilda Reis, que nos tempos de rapariga começou a sua vida de trabalho como datilógrafa dos serviços administrativos dos Caminhos de Ferro, e depois, obrigando um corpo demasiadas vezes sofredor, esforçando a tenacidade de um espírito que as adversidades nunca conseguiram dobrar, se entregou à vocação que faria dela um dos mais importantes gravadores portugueses. Gozou dessa felicidade substituta que o êxito costuma vender caro, mas tinha-lhe fugido o simples contentamento de viver, As sua gravuras e as suas pinturas foram em geral dramáticas, cindidas, autorreflexivas, de expressão tendencialmente esquizofrénica (diga-se sem nenhuma certeza), como se teimasse ainda em procurar uma complementaridade para sempre perdida. Fomos casados durante vinte e seis anos. Tivemos uma filha.»

Nova paragem a 19 de Janeiro para registar a morte de Maria Judite de Carvalho:

«Chega-me aqui a notícia da morte de Maria Judite de Carvalho. Nunca li uma página sua em que não pensasse na pessoa que a tinha escrito. E creio que ela o queria assim. Que o leitor compreendesse que do outro lado não havia estado apenas uma escritora, mas sim alguém que, conhecendo como raros a arte do conto e as íntimas ressonâncias de cada palavra, usava essa arte e esse sentido musical para dizer quem era. Com obstinação, mas também com simplicidade e discreta reserva. Como Irene Lisboa, ao lado de quem a história da Literatura lhe guardará lugar, o alcance da sua voz era o espaço do coração. O ser que foi Maria Judite de Carvalho já não pertence ao mundo dos viventes, mas podemos encontrar nos seus livros tudo o que ela quis que da sua pessoa se soubesse.»

A 26 de Outubro:

Morte de José Cardoso Pires.

Tantos outros acontecimentos espalhados pelo livro que apenas referem propósitos para futura abordagem.

Que não aconteceria.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

POSTAIS DE NATAL DE BEATRIX POTTER



Numa Feira do Livro, realizada na APISAL, comprei uma lindíssima colecção de postais de Boas Festas de Beatrix Potter.

Por estes dias vou coloca-los por aqui:

O Alfaiate Velhote

«Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do di de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que dizem).»

Colaboração de Aida Santos

ILUMINAÇÕES DE NATAL





As iluminações na Avenida João XXI.

Fotografias de Aida Santos.

SONNY BOY WILLIAMSON



“He is gone, Sonny Boy is dead and gone
He is gone, Sonny Boy is dead and gone
Can’t nobody play harp the way he done
He is dead, he’s dead, I ain’t crying but I’m sad
He is dead, he’s dead, I ain’t crying but I’m sad
He made you feel good when he played and me feel sad
I’m so glad, I’m so glad, that is music is going on
I’m so glad, I’m so glad thar is music is going on
But I’m so sad, so sad, the greatest one is gone”
(Sonny Boy Williamson - Jack Bruce e Paul Jones)

Aí pelos meus 15/16 anos, quando não tinha aulas passava as tardes em casa do meu amigo João Pedro a jogar às cartas ou aos matraquilhos e a ouvir música.
Por vezes apareciam por lá outros colegas dele da Escola Alemã.  Lembro-me do Eduardo, do Guimarães e até o Herman José por lá passou…

Por essa altura, em que a nossa Religião era a chamada música popular de expressão britânica e a nossa Igreja o “Em Órbita”, o meu amigo João tinha em sua casa algumas preciosidades (Simon & Garfunkel, Tim Buckley,  Leonard Cohen, Tim Hardin, Donovan, Fairport Convention…) que tornavam essas tardes de lazer uma verdadeira delícia.

Mas quando os amigalhaços do João lá estavam, a música era outra e, quase sempre, bastante mais “pesada”… Ten Years After, Canned Heat, Led Zeppelin e outras coisas do mesmo estilo que, na sua generalidade, eu já pouco apreciava.
No final dos anos 60 coincidiram por lá dois discos que eram ouvidos em permanência: “Super Session”, de Mike Bloomfield, Steve Stills e Al Kooper e “The Life Adventures of Mike Bloomfield & Al Kooper”. Que estes dois últimos não eram flor que se cheirasse vim eu a saber mais tarde, porque foram precisamente eles os comparsas de Bob Dylan naquela célebre noite de Newport em Julho de 1965, de que ainda no outro dia vos falei.

Como vos disse, as músicas desses dois discos eram ouvidas em sessões contínuas, sobretudo “Season of the Witch”, do primeiro, que durava mais de 10 minutos e cujos solos de guitarra de Mike Bloomfield e de orgão de Al Kooper me deixavam os cabelos em pé (na altura tinha muitos…). Se “Season” já não fazia parte das minhas músicas favoritas do Donovan, esta versão era pura e simplesmente intragável para os meus ouvidos de então.

Mas o segundo disco tinha uma música com uma batida muito agradável, que se chamava “Sonny Boy Williamson”, de que conseguia gostar.  O problema era que a tal batida era de muito curta duração em comparação com os intermináveis solos a que aqueles dois, mais o Carlinhos Santana, invariavelmente se dedicavam. Em todo o caso, bem melhor do que a versão original de Paul Jones, que só vim a conhecer alguns anos mais tarde.




Durante tardes a fio aqueles “Fritzs” da Escola Alemã estendiam-se ao comprido no sofá, fumavam uma reles imitação de charro com erva plantada na “marquise” das traseiras e fingiam que partiam numa longa viagem…! E por cada três “Season of the Witch” eu só tinha direito a um “Sonny Boy Williamson”, injustiça que aguentei com grande espírito de compreensão e de camaradagem. E quanto a charros, estou como o outro: fumei mas não inalei…!

Dava para perceber que era um músico, mas eu estava então longe de saber quem era esse tal de Sonny Boy Williamson.

Naquele tempo não havia Net nem livros à mão de semear. O stock das discotecas era muito limitado, e o acesso à informação demorado e complicado. Já se podia mandar vir livros e discos do estrangeiro (a saudosa “Tandy’s Records”…!) mas demorava uma eternidade e, que diabo, conhecer Sonny Boy Williamson não era, para mim, uma prioridade…!

E só muitos anos mais tarde vim a saber quem ele era. E mais: que não havia apenas um, mas dois Sonny Boys Williamsons…

O primeiro, John Lee Williamson de seu nome verdadeiro, era oriundo do Tennessee, fez quase toda a sua carreira em Chicago e era um exímio tocador de harmónica. Morreu assassinado em 1948 e ficou na História por ser o autor de “Good Morning Little School Girl”, que muito anos mais tarde chegaria a ser gravada pelos Grateful Dead e pelos Ten Years After.

O segundo rapinou o nome ao primeiro ainda em vida dele, e era um malandro de Glendora, no Mississippi, de nome Alex “Rice” Miller que aprendeu a tocar harmónica muito cedo e também muito cedo se meteu à estrada, tocando onde calhava e com quem calhava (chegou a tocar com Robert Johnson, Big Joe Williams e Elmore James …..), inicialmente com o nome de “Little Boy Blue”.


A partir de 1941 teve um programa de rádio em Helena, no Arkansas, onde se começou a apresentar sob o nome de Sonny Boy Williamson. No final dessa década viveu em West Memphis com a irmã e o cunhado, o célebre Howlin’ Wolf, que depois acompanhou para Chicago em meados dos anos 50, vindo a alcançar aí grande popularidade como vocalista e tocador de harmónica, junto de uma população maioritariamente negra.  

Mas o seu pico de celebridade teve-o nos anos 60, quando passou largas temporadas na Europa e se tornou, juntamente com Muddy Waters, B. B. King, John Lee Hooker e tantos outros, um dos grandes ídolos da geração de músicos ingleses que haveria de estar na origem do Rock-Blues e que incluía nomes como Eric Clapton, John Mayall, Steve Winwood, Eric Burdon, Jack Bruce, Ginger Baker,  Long John Baldry, Jimmy Page, Jeff Beck, Georgie Fame, Chris Farlowe, Manfred Mann, Paul Jones ou Alexis Korner, para já não falar em Brian Jones, Keith Richards e Mick Jagger, na altura também totalmente devotados ao Blues (como se sabe, o próprio nome “Rolling Stones” foi retirado de uma música de Muddy Waters).

Essa gente veio a estar na origem de bandas famosas (Yardbirds, Spencer Davis Group, Cream, The Blues Incorported, Manfred Mann, The Bluesbreakers, Rolling Stones, Led Zeppelin, etc). E essas bandas não só divulgavam, através de novas interpretações, os velhos blues do antigamente, como convidavam esses bluesmen para tocarem com elas e, muitas vezes, abrirem os concertos onde eram a principal atracção. Ainda hoje Bill Wyman afirma (vd. documentário “The Life of Riley”, sobre B. B. King, que tem vindo a passar nos Telecines) que a tournée que os Stones fizeram com B. B. em 1969 terá sido a melhor de sempre da banda.

Essas bandas britânicas tiveram, por outro lado, um sucesso muito grande no outro lado do Atlântico junto de um público jovem branco (a british invasion não foram apenas os Beatles…), que em grande parte desconhecia a existência dessa música e desses músicos negros.


No documentário de Richard Pearce “The Road to Memphis” (desculpem-me o excesso de citações, mas não posso estar aqui a dar palpites sem citar as minhas fontes…), é comovente ver B.B. King a contar como ele e a sua banda, que raramente tocavam para brancos,  chegaram ao Fillmore (East ou West, já não me lembro…) para dar um espetáculo e viram bichas enormes de malta branca e ficaram a olhar uns para os outros, convencidos que se tinham enganado no local…  


A divida desses velhos bluesmen para com esta geração inglesa é enorme, tal como o próprio B. B. King, uma vez mais, o reconheceu noutra ocasião:


“Se não tivessem sido os músicos britânicos, muitos de nós, músicos negros da América, continuaríamos a passar muito mal, tal como passávamos antes. Graças a eles abriram-se portas que nunca imaginei que se abrissem na minha vida” (B. B. King in documentário “Red, White and Blues”, de Mike Figgis)

Tudo isto faz parte da História do Blues e Sony Boy cavalgou essa onda de popularidade.

Gravou com os Yardbirds e com os Animals, fez diversas “tournées” pela Europa com os “American Folk Blues Festival”, que era um conjunto de músicos de blues, folk blues e rhythm & blues que punham em cena a sua música em espetáculos ao vivo.
Sonny Boy Williamson II, como agora é conhecido, era um figurão (ou, se preferirem, a “colorfull character”, como lhe chama a placa do “Blues Trail” na sua terra natal…) e pode ser visto  no YouTube, apresentando-se em palco impecavelmente vestido, de chapéu de coco na cabeça e chapéu de chuva na mão, para além da mala onde transportava todos os seus instrumentos. Era um verdadeiro “one man show” e uma das suas especialidades era engolir meia harmónica e tocá-la assim mesmo, sem a ajuda das mãos.

Mas era conflituoso e com tendência para se meter em alhadas, o que terá apressado o seu regresso à Pátria em finais de 1964.  Retomou em Helena, no Arkansas, ao seu antigo trabalho de animador radiofónico, para pouco depois, em 1965, morrer de um ataque cardíaco em pleno sono.

Em Helena não me lembro de ter visto nada que guardasse a sua memória.    
Mas Glendora, sua terra natal, não se esqueceu dele… Acolhe o visitante com um bonito cartaz de boas-vindas em seu nome e dedica um pequeno museu à sua memória, paredes meias com o de Emmett Till.  Bem pobre e feinho, por sinal, como feio é quase tudo o que vi em Glendora, um dos lugares mais miseráveis que visitei em todo o Mississippi.


Saí de Glendora  em direção a Money, localidade onde foi barbaramente assassinado Emmett Till, como vos contarei no próximo texto. Mas tive saudades do meu amigo João e dos nossos  tempos de adolescência, e também muita pena de não ter no carro nem  “Season of the Witch” nem “Sonny Boy Williamson”, que naquele preciso momento me teriam sabido muito bem ir a ouvir pelo caminho…

PS:

Não o disse na altura própria e agora não quero sobrecarregar o texto, mas “Sonny Boy Williamson” foi uma homenagem ao músico por ocasião da sua morte, composta por Jack Bruce e Paul Jones e interpretada por este último em 1967, como B-Side de “I’ve Been a Bad, Bad Boy”, música do filme “Privilege”, de Peter Watkins.
Paul Jones passa, aliás, por ser o maior “otário” da História da Música Rock, porque parece ter recusado ser o vocalista da banda que viria a dar origem aos “Stones”. Mick Jagger agradeceu…

PS2:

Não obstante o meu tom jocoso, Mike Bloomfield e Al Kooper foram figuras muito importantes do blues revival americano dos anos 60/70, na esteia dos seus colegas ingleses. De Kooper guardo um excelente disco na minha coleção: “Easy Does It”, que tem a melhor cover que conheço de “I Got a Woman”, do Ray Charles.   

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

DISCURSOS DE ESTOCOLMO


Discursos de Estocolmo

José Saramago
Fundação José Saramago, Lisboa s/d

Cumpriram-se hoje exactamente 50 anos sobre a assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Não têm faltado comemorações à efeméride. Sabendo-se, porém, como a atenção se cansa quando as circunstâncias lhe pedem que se ocupe de assuntos sérios, não é arriscado prever que o interesse público por esta questão comece a diminuir já a partir de amanhã. Nada tenho contra esses actos comemorativos, eu próprio contribuí para eles, modestamente, com algumas palavras. E uma vez que a data o pede e a ocasião não o desaconselha, permita-se-me que diga aqui umas quantas mais.
Neste meio século não parece que os governos tenham feito pelos direitos humanos tudo aquilo a que moralmente estavam obrigados. As injustiças multiplicam-se, as desigualdades agravam-se, a ignorância cresce, a miséria alastra. A mesma esquizofrénica humanidade capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.
Alguém não anda a cumprir o seu dever. Não andam a cumpri-lo os governos, porque não sabem, porque não podem, ou porque não querem. Ou porque não lho permitem aquelas que efectivamente governam o mundo, as empresas multinacionais e pluricontinentais cujo poder, absolutamente não democrático, reduziu a quase nada o que ainda restava do ideal da democracia. Mas também não estão a cumprir o seu dever os cidadãos que somos. Pensamos que nenhuns direitos humanos poderão subsistir sem a simetria dos deveres que lhes correspondem e que não é de esperar que os governos façam nos próximos 50 anos o que não fizeram nestes que comemoramos. Tomemos então, nós, cidadãos comuns, a palavra. Com a mesma veemência com que reivindicamos direitos, reivindiquemos também o dever dos nossos deveres. Talvez o mundo possa tornar-se um pouco melhor.
Não esqueci os agradecimentos. Em Frankfurt, no dia 8 de Outubro, as primeiras palavras que pronunciei foram para agradecer à Academia Sueca a atribuição do Prémio Nobel da Literatura. Agradeci igualmente aos meus editores, aos meus tradutores e aos meus leitores. A todos torno a agradecer. E agora também aos escritores portugueses e de língua portuguesa, aos do passado e aos de hoje: é por eles que as nossas literaturas existem, eu sou apenas mais um que a eles se veio juntar. Disse naquele dia que não nasci para isto, mas isto foi-me dado. Bem hajam portanto.

domingo, 9 de dezembro de 2018

POSTAIS DE NATAL DE BEATRIX POTTER


Numa Feira do Livro, realizada na APISAL, comprei uma lindíssima colecção de postais de Boas Festas de Beatrix Potter.

Por estes dias vou coloca-los por aqui:

O Alfaiate Velhote

«Reza uma lenda muito antiga que, entre a noite da véspera de Natal e a manhã do di de Natal, todos os animais falam (embora muito poucas pessoas consigam ouvi-los ou perceber o que dizem).»

ILUMINAÇÕES DE NATAL





Cada vez há menos ruas com iluminações de Natal. 
Em cada ano se nota a diferença..
É pena.
O comércio tradicional tem vindo a sofrer alterações e os proprietários chineses, paquistaneses, nepaleses, outros povos, não entendem que as juntas de freguesia e a própria Câmara não podem chegar a tudo, e necessitavam do seu apoio, algo que os comerciantes portugueses percebem mas cada vez são menos.

NO NOSSO NADA


25 de Março de 1950

Ninguém se mata pelo amor de uma mulher. Matamo-nos porque um amor, não importa qual, nos revela a nós mesmos na nossa nudez, na nossa miséria, no nosso estado inerme, no nosso nada.

Cesare Pavese em Ofício de Viver

DITOS & REDITOS


Quanto mais se olha menos se vê.

Manda quem pode.

O material tem sempre razão.

Só se procura o que se conhece.

O que se passa quando não se passa nada.

Dança do saber.

Cozinhar não é uma forma de estar, é uma forma de amar.

Disto, daquilo, daqueloutro.

sábado, 8 de dezembro de 2018

OLHAR AS CAPAS


A Linguagem dos Pássaros

Ana Teresa Pereira
Capa: Fernando Mateus sobre quadro de Mark Rothko
Colecção Crime Perfeito nº 14
Relógio D’Água, Lisboa, Novembro de 2001

Foi num mês de Abril, há muitos anos, éramos ainda crianças. Estamos de novo em Abril, o mês mais doce, aquele de que Miguel mais gosta, o mês azul, a nossa casa fica mergulhada em lilases, que escorrem pelo jardim, sobem as árvores, por vezes chegam ao muro que dá para as rochas. É também o mês dos jacarandás, os jacarandás ao longo da rua estão cobertos de flores violetas, que vemos da janela do nosso quarto, da varanda da torre, de um lado do mar até ao infinito, do outro o mar de flores. E o sim dos pássaros, desde Fevereiro que acordo a meio da noite com os pássaros, e deixo-me ficar imóvel, ouvindo-os até adormecer de novo e despertar de manhã, para mais pássaros, e para ele,

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

QUANDO ME FALTA A LEITURA...


De Faro, a 18 de Abril de 1953, António Ramos Rosa escreve a Jorge de Sena:

Alguma coisa que está longe de ser modéstia e é ancestral timidez, comodíssima, leva-me a preferir o gosto lavado do leitor obscuro que muito tempo fui, e afinal continuo a ser, às vaidades do nome impresso de que já me comecei a aborrecer. Assim é que uma contradição se arraiga em mim entre o suposto crítico que fui levado a ser por imposições amigas, o suposto entendedor de poesia que gostaria de ser e só por cintilações intermitentes possivelmente sou, e aquele comodista e sequioso leitor que incorrigivelmente continuo a ser e para quem certos nomes funcionam perfeitamente como deuses, como outrora na minha infância funcionavam as fotografias dos jogadores e corredores que eu recordava dos jornais e com os quais organizava desafios e corridas, estas, por sinal, com um capacho de abanar… Ora, parece, as tentativas para que eu funcione como um deus, não têm dado qualquer resultado até aqui… A felicidade para mim, ou pelo menos uma forma dela, consistiria em possuir uma riquíssima biblioteca e passar os meus dias a ler tranquilamente o melhor que se publicasse no planeta… Eu hoje já não sei viver sem esse estímulo e a cor do dia, uma certa espontaneidade, um certo à vontade, a graça, podem ser produzidos por um verso, um período de filosofia, um apontamento sociológico, um ensaio sobre poesia. Quando me falta a leitura, falta-me tudo. Talvez porque tudo me tem faltado e eu já não tenho coragem senão para pensar em substituição O que é terrível, não acha?).

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

O PASSADO NÃO SE PODE MUDAR

.
Não me servia de nada dizer que de todos os sarilhos em que me vi metido sempre me saí bem,
tanto das fortunas como das desgraças. O passado é como uma bicha solitária cada vez mais comprida e que trago enrolada dentro de mim e que nunca perde os anéis por mais que eu me esforce por esvaziar as tripas em todas as retretes à inglesa ou á turca, ou nos baldes das prisões ou nas arrastadeiras dos hospitais ou nas fossas dos acampamentos, ou simplesmente nos arbustos, vendo bem se não aparece de repente uma cobra, como daquela vez na Venezuela. O passado não se pode mudar tal como não se pode mudar de nome, que por mais passaportes que tenha tido, com nomes de que já não me lembro, todos me chamaram o suíço Ruedi: para onde quer que fosse e eme apresentasse, havia sempre alguém que sabia quem eu era e o que fazia, embora o meu aspecto tenha mudado muito com o passar dos anos, especialmente desde que o meu crânio ficou calvo e amarelo como uma toranja, e isto sucedeu na epidemia de tifo a bordo do Stjarna, quando pela carga que levávamos não podíamos aproximar-nos da margem nem sequer para pedir socorros via rádio.

OLHAR AS CAPAS


Um Homem Só

Roger Vailland
Tradução: José Vaz Pereira
Capa: Manuel Dias
Colecção Minerva nº 12
Editorial Minerva, Lisboa, Novembro de 1972

- Agradeço-lhe os esclarecimentos – disse o inspector-chefe, e tomou várias notas.
- Efectivamente, lembro-me que me informaram, há perto de seis meses, de que o senhor Favart teve uma discussão com o velho Madru – recomeçou o inspector da Polícia local.
- A que propósito?
- Não me lembro muito bem, Mas é fácil de averiguar. O caso passou-se numa taberna cujo dono é nosso amigo. Nosso amigo é uma maneira de falar: o taberneiro vende absinto, nós fechamos os olhos e, em contrapartida, ele informa-nos de todas as conversas. Utilizamo-lo sobretudo para os relatórios que apresentamos às Informações Gerais sobre as reacções operárias aos acontecimentos do dia. A taberna está bem situada, mesmo à saída da estação.
- Vamos até lá – decidiu Marchand – Acompanhe-me, inspector. Até à vista, comissário.

PAISAGEM COM FIGURAS


Não há muito que ver nesta paisagem:
Campinas alagadas, ramos nus
De choupos e salgueiros eriçados:
Raízes descobertas que trocaram
O natural do chão pelo céu vazio.
Aqui damos as mãos e vamos indo,
A romper nevoeiros.
Jardim do paraíso, obra nossa,
Somos nós os primeiros.

José Saramago em Provàvelmente Alegria

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

SARAMAGUEANDO



O interrogatório do homem que saiu de casa depois da hora de
recolher começou há quinze dias e ainda não acabou

Os inquiridores fazem uma pergunta em cada sessenta minutos
vinte e quatro horas por dia e exigem cinquenta e nove respostas
diferentes para cada uma

É um método novo

Acreditam que é impossível não estar a resposta verdadeira entre
as cinquenta e nove que foram dadas

E contam com a perspicácia do ordenador para descobrir qual
delas seja e a sua ligação com as outras

Há quinze dias que o homem não dorme nem dormirá enquanto
o ordenador não disser não preciso de mais ou o médico não
preciso de tanto

Caso em que terá o seu definitivo sono

O homem que saiu de casa depois da hora de recolher não dirá
por que saiu

E os inquiridores não sabem que a verdade está na sexagésima
resposta

Entretanto a tortura continua até que o médico declare
Não vale a pena

José Saramago em O Ano de 1993

Por um daqueles mistérios que me vão acontecendo ao longo dos dias, dos meses, dos anos, só em 1977 consegui encontrar esta edição da Futura, publicada em Março de 1975. Comprei-a na Festa do Avante e nessa tarde, na única vez em que conversei com Saramago, lhe falei desse mistério em que desde 1966 tendo comprado todos os seus livros logo que saíram, este me falhou.

A saber:

Os Poemas Possíveis ,1966
Provavelmente Alegria, 1970
Deste Mundo e do Outro, 1971
A Bagagem do Viajante, 1973
As Opiniões que o DL Teve, 1974
Os Apontamentos, 1976
Manual de Pintura e Caligrafia, 1976

Reconto a história:

Nunca me interessei por autógrafos, sejam em livros, discos, o que quer que seja. Tirando os livros que os amigos escrevem, e me oferecem, contam-se pelos dedos de uma mão, e ainda sobram dedos, os livros autografados. Que me lembre, há um livro de José Gomes Ferreira, Antologia Poética, editado pela Diabril, comprada na Feira do Livro de 1976 de  e outro do José Saramago.

Apenas uma vez conversei com José Saramago: foi na Festa do Avante, no Vale do Jamor, em 1977.

Naquele tempo a organização das tasquinhas na Festa, era muito diferente da que hoje existe.

Cheguei-me ao pré pagamento da tasquinha de São Pedro do Sul, e passados uns instantes verifico que à minha rente estava o José Saramago, 

José Saramago ainda não tinha publicado o “Levantado do Chão”, era um autor conhecido, apenas, por uma imensa minoria. Cumprimentei-o.

Em Dezembro de 1976 José Saramago publicara Manual de Pintura e Caligrafia. Ainda hoje é um livro de que gosto muito e desse gosto dei conta a Saramago, e por ali ficámos um pouco à conversa sobre o livro, de como o descobrira, aquando da publicação de Os Poemas Possíveis, do excerto de um texto meu sobre Deste Mundo e do Outro” que colocaram nas badanas de A Bagagem do Viajante” publicado em 1973 pela Editorial Futura. 

Saramago lembrava-se da citação panegírica. Gostara, mas a escolha não tinha sido dele, porque, as badanas, normalmente, são da responsabilidade dos editores.
Servidos dos comes e bebes que à tasquinha de São Pedro do Sul nos levara, cada um partiu para seu lado e à despedida o Saramago disse que daí a pouco estaria no Centro do Livro e do Disco para uma sessão de autógrafos e poderíamos conversar um pouco mais. 

Sim, porque naquele tempo, Saramago ainda não tinha extensas filas de leitores para obterem autógrafos, e havia alguns tempos mortos.

Da conversa com José Saramago retenho todos os pormenores, até da luminosidade do cair daquela tarde de Setembro consigo lembrar-me. 

Obviamente as despesas da conversa foram de Saramago, limitando-me a beber as palavras claras daquele conversador nato. 


Tirando o meu pai nunca mais encontrei um conversador como ele e, estou bem certo,  não mais encontrarei.

Cito Cecília Meireles: «Há pessoas que nos falam e nem as escutamos; há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam. Mas há pessoas que, simplesmente, aparecem em nossa vida e que marcam para sempre...» 

Comprei  “ O Ano de 1993”, edição da “Futura” e José Saramago nele deixou escrito:

“Na Festa do Avante 77: Saudade!”


É isso: saudade.


Nunca mais fui a uma sessão de autógrafos do José Saramago.

Quando em 1987, a Caminho publicou O Ano de 1993, com as lindíssimas ilustrações da Graça Morais, ainda ponderei ir pedir a José Saramago um autógrafo para aquela edição. 

Mas, mesmo não concordando de todo com a recomendação de Cesare Pavese, de que não devemos voltar aos lugares onde fomos felizes, foi isso que acabou por suceder.

E, de mim para mim concluí, que importante, importante era o autógrafo daquele Setembro de 1977, que fez de mim um tipo feliz. 

Ainda hoje sinto essa felicidade, o afecto, cumplicidades silenciosas, coisas simples que nos emocionam até aos limites da ternura.

Mais não digo, porque não sei como fazer.

Hemingway dizia que uma palavra a mais mata qualquer história.

Legenda: capa de O Ano de 1993 publicado pela Porto Editora. A caligrafia da capa é da autoria de José Manuel Mendes.

OLHAR AS CAPAS



A Vingança é Minha

Mickey Spillane
Tradução: Almeida Campos
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº143
Livros do Brasil, Lisboa s/d

Juno morreu a ouvir tudo isto e eu dei uma nova gargalhada enquanto me dirigia para o corpo sem vida, afastando da minha frente todos os artifícios em espuma de borracha que haviam caído dela quando o vestido ficar nas minhas mãos, os inevitáveis postiços que ela punha sobre os sólidos músculos e que eram encobertos por vestidos compridos e de mangas até aos pulsos. Era engraçado. Muito engraçado. Mais engraçado do que eu poderia supor. Talvez vocês também se riam. Cuspi sobre a argila que era Juno, rainha dos deuses e das deusas, e fiquei a saber o motivo porque tinha sempre um recuo instintivo perante ela, que agora se tornava num asco, ao fitá-la.
Juno era uma rainha sem dúvida, uma rainha verdadeira e viva. Sabeis o que quero dizer.
JUNO ERA UM HOMEM!

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

SUL PROFUNDO


Sabendo que me encontrava a preparar uma viagem prolongada pelo Sul dos Estados Unidos, o meu amigo e vizinho Jorge Barata Preto aconselhou-me a leitura deste Sul Profundo”, de Paul Theroux.

Agradeci a sugestão, dizendo-lhe que desconhecia o autor, o que pouco depois vim a verificar não ser verdade, já que tinha lido anteriormente o seu “A Arte da Viagem”, também editado em Portugal pela Quetzal, embora não tivesse fixado o nome do autor.

Foi-me muito útil a leitura deste livro, embora ele nada tenha a ver com qualquer tipo de “leitura de viagens” tradicional, como inicialmente pensei. Theroux tem uma abordagem algures a meio caminho entre a de um sociólogo, um antropólogo e a de um economista social.

Afasta claramente tudo quanto seja “turístico” ou “cultural” e chega a ser exasperante vê-lo chegar a um determinado lugar e dizer, como o faz por diversas vezes, qualquer coisa deste tipo: “Abundam nesta cidade casas e lugares muito interessantes para se verem, mas a mim não é isso que me interessa…”

Paul Theroux efetuou três viagens ao “Deep South”, cada uma com cerca de três meses de duração.

Chegava a um lugar com um ou dois nomes que lhe haviam sido indicados como referências, e cada um desses contactos lhe passava, por sua vez,  mais dois ou três, e assim sucessivamente até possuir uma rede já bastante alargada de pessoas com quem falar, algumas das quais voltava a visitar em viagens ulteriores.

Por norma chegava a um sítio e instalava-se durante vários dias. Falava com gerentes de motel, barbeiros, empregados dos correios, empregados de bar e de restaurantes, representantes das Igrejas locais e membros de associações não governamentais de apoio às comunidades.  Gostava, particularmente, de visitar feiras de vendas de armamento pois, dizia, é um dos melhores sítios para nos apercebermos das características de personalidade do americano médio do Sul.

Quando acabei de ler o livro registei de imediato, no próprio livro, as principais conclusões que dele tinha retirado. Como ando há já uns tempos a falar convosco acerca desta região, pareceu-me útil passar-vos também estas “sínteses de leitura”, no preciso estado em que se encontram, isto é, sem qualquer reformulação ou desenvolvimento posterior.

Aqui vai, então:

1) 20% da população sulista vive abaixo do patamar da pobreza. Há zonas mais pobres do que as piores regiões encontradas pelo autor em Africa ou na Ásia;

2) O Governo Federal tem demonstrado pouca preocupação pelo Sul. Apoia mais facilmente outras regiões carenciadas por esse Mundo fora. O mesmo se diga de Organizações não Governamentais tipo Fundação Bill Clinton, oriundo do Sul e pelo qual o autor não parece nutrir grande simpatia;

3) Como principais motivos da pobreza do Sul o autor indica a mecanização da agricultura, que atira a mão-de-obra agrícola para o desemprego, e a fuga de muitas empresas industriais para outras regiões do Globo de MDO mais barata e menores impostos (Ex: Médio Oriente, México, etc);


4) Existem muitas ONGs de carácter não lucrativo que ajudam as populações a suprir algumas necessidades básicas, nomeadamente no que respeita à Saúde e à Alimentação (Ex: recuperação de casas degradadas, construção de novas casas, etc;

5)  Ao contrário da ideia que muitas vezes se tem de que o americano é individualista e autocentrado, parecem existir fortes laços de solidariedade social na sociedade sulista;

6) A Religião continua a ser muito importante e a Igreja constitui um forte fator de integração e coesão social;

7) Continuam a existir muitas formas de segregação na sociedade sulista e, em muitos lugares, o Ku Klux Klan permanece ativo e bem visível…;

8) Os relatos do autor ajudam a perceber a vitória de Trump nas eleições de 2017;

9) Curiosamente, nada é dito nem comentado no que respeita à governação de Obama, tendo o livro sido escrito nas vésperas da sua reeleição.

Et voilá!   O livro não me deu espaço para mais…

Acabei por não registar três coisas que achei curiosas e que agora vos conto.

Uma é que Paul Theroux faz no início do livro uma citação das “Viagens na Minha Terra”, de Almeida Garrett, o que me parece interessantíssimo para um autor americano a escrever na América.

Outra é que o autor realça a extrema simpatia e disponibilidade da maior parte das pessoas que encontrou, as quais muitas vezes tomavam a iniciativa de se dirigiam a ele para o ajudarem sem que nada lhes tivesse sido pedido. Isso posso corroborar, porque passei por essa boa experiência várias vezes, nesta e em anteriores viagens.

A última, mais ao estilo de fait-divers, é que o autor conta que quase todos os motéis de estrada que encontrou ao longo da sua viagem são propriedades de indianos de nome Patel… 

Mas isso não tive a possibilidade de comprovar.

Moteis de estrada, verdadeiros moteis de estrada é coisa que a minha Querida Companheira de viagem certamente se recusaria a frequentar, com medo de ser violada por um índio das cavernas, disfarçado de Donadl Trump…! Comigo a assistir em primeira fila, amordaçado e atado a uma cadeira…!

É o que acontece quando se abusa da Netflix…

Texto de Luís Miguel Mira

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

QUEM ME DERA ESTAR EM NEW ORLEANS


Ficam aqui algumas das fotografias da enorme exposição de garrafas que o Luís Miguel Mira viu em Nova Orleans, bem arrumadas em bonitas estantes de madeira.
Fica também a canção do Tom Waits, I Wish I Was in New Orleans, que pertence ao álbum Small Changes de 1976, bem como a tradução feita pelo João Lisboa em Nocturnos.






Quem me dera estar em New Orleans
Estou quase a ver-me num sonho
De braço dado por Burgundy abaixo
Uma garrafa, os meus amigos e eu
A deitar abaixo umas canecas bem geladas
A jogar «pool» e a escutar aquele sax tenor
Que chama por mim
E quase oiço a banda a começar
When The Saints Go Marching In
Juro pela minha saúde
New Orleans aí vou eu!

Beberei mais do que todos
E de nariz vermelho iremos passear
Pelos velhos antros
O que eu quero é feijão com arroz
Vestir o fato de que mais gosto
Encontrarmo-nos todos no velho saloon
E que não falte uma lua do sul
New Orleans aí vou eu!

Dar cartas, lançar os dados
E diabos me levem se aquele não é o velho Chuck E. Weiss…
Pela Clayborn Avenue eu, tu,
Sam Jones, todos
Quem me dera estar em New Orleans
Estou quase a ver-me num sonho
De braço dado por Burgundy abaixo
Uma garrafa, os meus amigos e eu
New Orleans aí vou eu!

I WISH I WAS IN NEW ORLEANS


"And I wish I was in New Orleans, ‘cause I can see it in my dreams
Arm-in-arm down Burgundy, a bottle and my friends and me
New Orleans, I’ll be there"

Tom Waits

Os restaurantes e cafés de New Orleans são espantosamente bonitos.

Mesmo quando parecem ser demasiado grandes, têm sempre um balcão ou um cantinho onde nos podemos recolher confortavelmente e em tranquilidade.

Este que vos mostro, na Bourbon Street, atraiu-me pela enorme exposição que tinha de garrafas de whiskey, cognac e brandy, numa variedade que não me lembro de ter visto em mais lado nenhum. E tudo bem arrumado em bonitas estantes e armários de madeira, a que a má qualidade das fotografias não permite fazer jus.

Lembrei-me de o dedicar a Tom Waits, que gostava de se imaginar em New Orleans com uma garrafa na mão…

Para ele e para o piano, daria certamente para alguns (poucos…) dias…

Texto e fotografia de Luís Miguel Mira

domingo, 2 de dezembro de 2018

DEMASIADOS LÁPIS!


2 de Julho de 1970

O João Gaspar Simões disse-me ontem pelo telefone que se vira obrigado a emendar algumas palavras na minha última crónica, para a gente de O Primeiro de Janeiro a deixar sair.
Que palavras?
Estas: tipa, macha, pernas, etc. (Incrível), consideradas impróprias por um energúmeno velhorro da redacção que as sublinhou com lápis vermelho.
Fiquei furioso. Duas censuras ( a oficial e a do velhorro paralítico cerebral) parecem-me cadeias demais para poder dançar!
Quanto à atitude de João Gaspar Simões – seria uma covardia escrever aqui o que não ousei dizer-lhe por delicadeza… Aliás, estou convencido de que da parte dele houve apenas camaradagem jornalística. Custava-lhe que eu perdesse os 400 paus do artigo – como me confessou.
Agradeci-lhe a camaradagem.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume IX

Legenda: João Gaspar Simões

OUTRAS FOTOGRAFIAS DO PÉCHE SEAFOOD


 



Outras fotografias do Péche Seaffod em New Orleans.

Fotografias de Luís Miguel Mira.

PÉCHE SEAFOOD - NEW ORLEANS


“The Beguiled” (2017), remake do filme do mesmo nome que Don Siegel havia realizado em 1971, é o último filme de Sofia Coppola.

Os dois filmes são muito semelhantes na sua estrutura, ambos baseados num livro de Thomas Cullinan.

Mais estilizado e contido o de Sofia.   Mais frenético o de Siegel, que aqui e além deixa transparecer alguns dos “tiques” característicos do cinema americano dos anos 70 (o excesso de “zooms”, por exemplo…). E Clint Eastwood não é Colin Farrel, …… nem Geraldine Page Nicole Kidman.

Ambos os filmes foram realizados em diferentes Plantações do Louisiana.
Li numa entrevista que, enquanto se encontrava em filmagens, Sofia Coppola ficou instalada em New Orleans e um dos restaurantes que gostava de frequentar era “Pêche Seafood Grill”, em Magazine Street.

Como sei que Sofia foi ensinada a comer bem e a beber ainda melhor, fiquei logo com vontade de ir lá meter o bedelho… E não tardou que a reserva fosse confirmada: 15 de Agosto, 20h30…

O restaurante é pertença do Chef Donald Link, que parece ser muito conceituado por aquelas bandas. Mas é um espaço simples e informal, nada pretensioso e com uma relação qualidade/preço muito simpática.

A especialidade é o peixe e o marisco, tal como se esperava, e a lista era interminável mas dificilmente decifrável…

 Ambos comemos, de entrada, “bisque” de camarão, que estava delicioso. Depois ela optou por   “catfish”, uma das grandes especialidade dos estados do Sul, e eu por um “capellini”, que mais não era do que um excelente preparado de peixe e marisco, capeado por uma camada de massa folhada.

Como sempre, a pobre ficou com inveja do meu prato…

Texto e fotografia de Luís Miguel Mira

sábado, 1 de dezembro de 2018

NOTA DO AUTOR POR CAUSA DA PROVÍNCIA



O seu primeiro livro como escritor foi a Carta-Sincera a José Gomes Ferreira?

Isso era uma carta, um panfleto, não era um livro. O meu primeiro livro foi a Crítica de Circunstância, edição Ulisseia e do Vítor Silva Tavares. Foi o gajo que de facto começou comigo e começou com coragem porque eles sabiam que o livro ia ser apreendido. E foi! Agora, a carta ao Gomes Ferreira, escrita em 1953, foi o meu primeiro texto com alguma dimensão, com alguma pontaria. Eu mandei-lhe o texto numa carta registada com aviso de recepção. Recebi o aviso de recepção assinado pelo José Gomes Ferreira mas ele nunca deu resposta. O Gomes Ferreira não percebeu aquela carta. Aquilo era uma irritação e uma homenagem, uma irritação porque ele estava a abandalhar-se como escritor e uma homenagem porque o Gomes Ferreira tinha sido um dos meus ídolos de juventude. Esse texto foi escrito para um projecto meu, do Cesariny e do Lisboa, que era “Duas gerações, Três cartas”. Eu escrevia uma carta ao Gomes Ferreira, o Cesariny ao Gaspar Simões e o Lisboa ao Casais Monteiro. A carta do Lisboa (“Carta Aberta ao Srº. Dr. Adolfo Casais Monteiro”) está naquela edição da Assírio & Alvim, o tijolo cor-de-rosa, organizada pelo Cesariny. Lembro-me perfeitamente de o Lisboa ter estado comigo na Inspecção dos Espectáculos, no r/c, na Calçada da Glória, com uma máquina muito velha, ele a ditar-me a carta e eu a escrever a carta à máquina. Dali o Lisboa foi ao Diário Popular para ser publicada como resposta à entrevista do Casais Monteiro ao Gaspar Simões... para elucidar esse texto do Lisboa há que ler a entrevista... Não sei se ele chegou a ir ao Popular, não sei se se arrependeu pelo caminho. Ora como é que essa carta chega à mão do Cesariny? Não sei. O que eu sei é que quando tentei fazer um trabalho sobre o Casais Monteiro, eu na altura não tinha envergadura para fazer aquilo, lembro-me que estava no Café Portugal, no Rossio, com um livro do Casais... aquele primeiro livro... o livro de ensaios... o Lisboa disse-me, muito sacana e perfurante: “estás a agarrar-te ao Casais porque não tens tomates para te agarrares ao José Régio”. É natural que o Lisboa tivesse preferência pela poesia do Régio ou que considerasse o Régio mais importante que o Casais... a poesia do Lisboa é muito mais achegada à poesia do Casais do que ao Régio. No Lisboa não havia problemas metafísicos, nem de Deus, nem do Além nem nada disso, como há no Régio e não há no Casais. Ora, anos depois, já eu estava no Pote d’Água, o Cesariny pediu-me para publicar a Carta-Sincera na Antologia em 1958, a colecção dele, que era feita na Rua Nova do Loureiro, na Editora Gráfica Portuguesa. O título completo era Carta-Sincera a José Gomes Ferreira com uma Nota do Autor por causa da Província.

ENTÃO, É NATAL!


A doença de minha mãe não me deixa tempo para colaborar no blogue.
Mas, apesar de tudo, não esqueço que começa a mais bela época do ano e de que gosto tanto.

CAFÉ DU MONDE - NEW ORLEANS


Agora que moro em Algés acontece-me passar, frequentemente, defronte dos Pasteis de Belém, e de cada vez que por lá passo não me canso de rir e de me espantar com as intermináveis bichas que vejo à sua porta, maioritariamente constituídas por turistas estrangeiros.

Os pobres vão atrás daquilo que lhes impingem os livros, os sites de viagens, os guias turísticos, eu sei lá, e mal sonham que a Galp de Oeiras vende, nos seus bons dias, pasteis de nata bem mais saborosos do que os de Belém. Isto é o que me diz a minha experiência mais ou menos recente…

Mas, como eu bem sei por longa experiência própria, em viagens pelo estrangeiro o chapeuzinho de saloio está à nossa espera na primeira oportunidade…


O Café du Monde, em New Orleans, na Decatur Street bem próximo de Jackson Square, é uma instituição mais que centenária, assim uma espécie de Pasteis de Belém local. Nenhum turista passa por New Orleans sem lá entrar…
Abriu ao público em 1862 e é um dos mais antigos cafés do Frenck Market ainda em  funcionamento nos dias de hoje, 24 horas por dia nos 7 dias da semana. Tem uma particularidade: só serve beignets, normalmente acompanhados por uma chávena de café com leite.


A Cristina, que adora beignets de maçã, salivava só de pensar neles enquanto andávamos às voltas pelo Mississippi no steamboat  Natchez, outra das saloiices indispensáveis em New Orleans.

Quando chegámos ao Café du Monde a bicha não era, felizmente, comparável às dos Pasteis de Belém e sentámo-nos sem grande dificuldade. Beignets para os dois e cafezinho com leite para ela, mas não para mim que não vim a New Orleans beber copinhos de leite…

E então o espantoso aconteceu… Os beignets eram …… de beignet!!  Só a massa polvilhada com açucar em pó… Sem mais…. Mas bastou para a fotografia!
Hoje, quando passo defronte dos Pasteis de Belém, riu-me ainda com mais vontade…

De mim próprio, claro está…!  

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira