terça-feira, 6 de janeiro de 2026

NOTÍCIAS DO CIRCO

 O julgamento de José Sócrates é uma verdadeira novela mexicana.

Adensa-se a ideia de que tudo irá prescrever.

De uma notícia de Ana Henriques no Público de hoje:

«A juíza que dirige o julgamento da Operação Marquês decidiu indicar uma advogada oficiosa para representar o principal arguido do processo, o antigo primeiro-ministro José Sócrates, cujo representante legal não pôde comparecer na sala de audiências por se encontrar internado no hospital. Porém, a defensora Inês Louro resolveu pedir escusa, alegando objecção de consciência por ser do Chega, partido que muito tem falado deste caso judicial. Candidata à presidência da Câmara de Azambuja nas últimas eleições, a advogada renunciou ao cargo de vereadora antes da tomada de posse.»

VELHOS RECORTES


 Ontem, quando fiz a capa de Perspectivas da América Latina, encontrei este telegrama da Reuter que o meu pai por lá colocou.

CANÇÃO DO MUNDO NOVO

Entre eternos dias de poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva

assim vamos quotidianamente

mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino

assim vamos quotidianamente

 

Mário-Henrique Leiria

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

POSTAIS SEM SELO

O inexplicável ardor de quem se inicia na eternidade.

Herberto Helder

OLHAR AS CAPAS


Perspectivas da América Latina

Diversos autores

Tradução: Waltensir Dutra

Capa: Érico

Zahar Editores, Rio de Janeiro, 1964

Revolução, sim! Não se iludam, americanos. Abram os olhos. Perguntem ao camponês peruano. Que masca coca e come ratos, se deseja eleições forjadas ou revoluções. Perguntem ao mineiro chileno, que se arrasta pelos túneis de Lota, se acredita na livre empresa ou na revolução. Perguntem ao camponês do Nordeste do Brasil se deseja capitalismo ou revolução. Perguntem ao estudante castrado pelo ditador paraguaio se deseja a imprensa livre de Stroessner ou a revolução. Perguntem ao camponês guatemalteco, “libertado” por Castillo Armas se quer a Aliança para o Progresso ou a revolução. Perguntem aos latinos-americanos quem corrompe a imprensa e os sindicatos, quem apoia os exércitos e as oligarquias, quem paga salários miseráveis, quem é o dono das minas e dos poços de petróleo. Perguntem a eles quem fica com o dinheiro da Aliança para o Progresso, e que uso fazem dele. Perguntem a eles se acreditam no mundo livre de Franco, Salazar, Chiang Kai-shek e Ngo Dinh Diem. Perguntem a eles, e saberão porque o povo cuspiu em Nixon.

Perguntem aos homens que vivem nas “vilas da miséria” em Buenos Aires, nas “favelas” do Rio, na “cayampa” de Santiago, se têm medo do comunismo. Esses mendigos, esses párias, responderão que só têm medo de seus atuais opressores, daqueles que os exploram em nome do capitalismo e da democracia representativa, e que preferem qualquer coisa que possa significar uma transformação.

(Carlos Fuentes)

HISTÓRIA OUVIDA A ALGUÉM

 «Escrever um texto é como ajustar o vidro da vitrine do museu: separa-nos do mundo no tempo em que aconteceu, ao mesmo tempo que o dá a ver. As palavras escolhidas para uma paisagem, um encontro entre duas pessoas, uma história ouvida a alguém são apenas uma de todas as maneiras possíveis de inscrever esse recorte de realidade numa nova ordem, outra sequência, uma superfície onde não pertence, mas onde acaba por ficar»

Margarida Ferra em Saber Perder

CONVERSANDO

Dizia-se, ontem, por aqui que este nosso mundo não só está mais perigoso, como caminha precipitadamente para o abismo!

Há silêncios que gritam tão alto, mas ninguém os ouve, ninguém os quer ouvir.

Os povos não aprendem com a História.

Poder-se-á dizer que, por exemplo, os venezuelanos já poderiam ter transformado as suas vidas,  o seu futuro, mas nada aconteceu.

Teria que ser os Estados Unidos a intervir na deposição de Maduro como presidente-do-país-que-nunca-foi?

Não, não teria que ser.

Nós portugueses, pela luta férrea de muitos democratas, alguns não viram a cor da liberdade, pela decisão militar e política dos Capitães, levámos quase meio século para derrubar a ditadura de Salazar e Caetano.

Os tais silêncios…

Legenda: imagem de Geogia O’Keeffe.

À LUPA


 A invasão da Venezuela pelas tropas dos Estados Unidos não é um acto isolado.

A loucura trumpista leva-o para outras fronteiras, e não apenas na América Latina.

É o que nos lembra Pedro Guerreiro, hoje no Público:

«Precisamos da Gronelândia, absolutamente.” Ataque à Venezuela anima expansionismo de Trump
O sucesso do ataque fulminante dos Estados Unidos à Venezuela, na madrugada de sábado, com a captura de Nicolás Maduro e o anúncio de uma tutela norte-americana interina, intensificou as ameaças expressas ao mais alto nível em Washington em relação à Gronelândia, território autónomo dinamarquês no Árctico. “Precisamos da Gronelândia, absolutamente”, declarou Donald Trump, este domingo, em entrevista à revista The Atlantic ao ser questionado se o ataque a Caracas poderia sinalizar que os EUA estão dispostos a agir militarmente também a norte.»

DEITEI A CABEÇA EM CIMA DA FOTOGRAFIA

deitei a cabeça em cima da fotografia
e com a respiração despertei teu corpo
do sítio penumbroso onde viveras
o tempo não se gastou
passei estes anos a colocar as coisas
nos seus devidos lugares
ainda ouço
a voz outonal das palmeiras e o murmúrio
do vento cercando a casa protegida pelo bolor
era uma pequena ilha dizias
onde os ruídos duma vida anterior a esta
dormitavam ainda
 
agora está tudo arrumado
agito-me em volta das coisas
mas nada posso corrigir
o que está feito está feito
 
levanto-me daqui e corro para o telefone
tento saber se estás onde penso existir
uma cidade... ninguém responde
 
onde estarás?
deste ou do outro lado do telefone?
um puto irrompe da insónia
deitando-me a língua de fora
 
de qualquer maneira não consegui a ligação

Al Berto em O Medo 

domingo, 4 de janeiro de 2026

DISTO, DAQUILO E DAQUELOUTRO


 Requisitámos trabalho para o Mourad e a Aishe  limparem a casa para a festa de Ano Novo que vamos dar.

A festa inclui duas pessoas a comer salada de batata e umas salsichas saborosas.

Não tenho a certeza se as duas pessoas vão aguentar ficar acordadas até à meia-noite, mas vamos ver o que acontece.

Porque comemoramos a passagem de ano em frente à televisão.

Se sobrevivermos até à meia-noite, talvez bebamos uma taça de champanhe ou talvez tenhamos começado a dormir mais cedo, então, sem champanhe.

1.


Lisboa perdeu mais 12 ecrãs de cinema com o encerramento, no final de 2025, do complexo Alvaláxia, explorado pela Nos Cinemas. É uma dúzia de salas perdidas que se junta aos 37 outros ecrãs apagados em várias cidades do país no ano passado, entre os quais cinco em Portimão, e aos nove que estão a caminho de encerrar em Vila Nova de Gaia.

2.

O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, manifestou na passada quarta-feira repúdio pelas recentes notícias de exonerações de administrações hospitalares, acusando o Governo de actuar por razões "estritamente de natureza política".
O governo vai afastar a administração da Unidade Local de Saúde (ULS) de São José em Lisboa e vai escolher um militante do PSD para o cargo. O mesmo vai suceder com a ULS de Coimbra.

3.

«Segundo a ONU, até novembro de 2025 mais de 69 mil palestinianos foram mortos e cerca de 170 mil feridos pelos bombardeamentos em Gaza ocorridos depois de um ataque terrorista perpetrado pelo Hamas a 7 de outubro de 2023, que matou 726 civis bem como 379 militares e polícias israelitas.

A resposta desproporcional de Israel ao terrorismo, assim quantificada, foi objetivamente uma carnificina, um autêntico genocídio, como muitos o classificam.

A entrada em vigor do acordo de paz entre Israel e o Hamas negociado em outubro deste ano por Donald Trump retirou do foco mediático a situação humanitária no território palestiniano, mas a ONU voltou a fazer soar o alarme, perante a indiferença ocidental.»

Pedro Tadeu no Diário de Notícias

4.

Os Estados Unidos invadiram a Venezuela para prender o ditador Nicolás Maduro e fazer o seu julgamento nos Estados Unidos.

Donald Trump disse que com este acto militar apenas pretende o petróleo venezuelano e instalar companhias norte-americanas para renovar o parque de extracção de petróleo que se encontra praticamente degradado.

Não se sabe o que seguirá mais: a Colômbia, Cuba...ah! sim, a Gronelândia?

Dizer ainda que este nosso mundo não só está mais perigoso como caminha precipitadamente para o abismo!

OLHAR AS CAPAS


 

Atirar Para o Torto

Margarida Vale de Gato

Capa: V. Tavares

Edições Tinta-da- China, Lisboa, Maio de 2021

 

DE SE FAZER PARA QUE TUDO ARDA

 

Vi rutilar cada grés do tijolo

burro do amor e vi dilapidar

cada escama ao corpo refletor

e sôfrego de ar, pulsando tolo

 

a puxar fio em vez de afrouxar

o travo, o isco, o peito louco arco (

os pés fincados contra a derrocada

em vez de a coluna se vergar

 

e juntar no chão o ruído sonho)

de muito alto, retesado, logo

atrás do estilhaço do abandono

 

servindo o incêndio não cuidamos

de destroncar excessos, terminamos

cada um a seu campo só um fogo.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Paulo Rangel, ministro dos negócios estrangeiros português, classifica as “intenções” norte-americanas na Venezuela como “benignas”

Entretanto, Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, defendeu o “restabelecimento de uma democracia plena” na Venezuela e que a nomeação de Edmundo González como Presidente é a solução “preferível”.

Nenhum deles condena a intervenção dos Estados Unidos na invasão da Venezuela e prisão de Nicolás Maduro e o governo português  entende que a acção militar norte-americana, apenas pretende instalar uma transição estável na Venezuela e o regresso ao trilho democrático.

Edificante!

TRUMP INVADE A VEVEZUELA


Desde Mar-a-Lago, Trump voltou a lembrar ao mundo que a invasão da Venezuela tinha, acima de tudo, a ver com petróleo, dinheiro, lucros e, consequentemente, prender o ditador Maduro e fazer o julgamento e condenação do personagem na América, como traficante de droga e terrorista.

 A democracia e o povo venezuelano ficarão para mais tarde ou… para nunca.

 Nicolás Maduro era um ditador e o seu regime era ilegítimo e brutal e fez a vida dos seus cidadãos muitíssimo pior do que era antes.

Tudo bem, mas isso não valida a invasão da Venezuela, contudo, mas esse é o sinal que os Estados Unidos não estão muito preocupados com o cumprimento do direito internacional e o exemplo do que poderá acontecer a outros líderes se, por uma razão ou outra, desagradarem à Administração Trump, por outras palavras: fazer regressar toda a América Latina à sua quinta de outras eras.

 Donald Trump “não faz jogos” e que quando diz que quer alguma coisa “tem de ser levado a sério”, disse este sábado o secretário de Estado Marco Rubio.

Como se fosse um filme, Trump assitiu à “espectacular»  intervenção dos militares americanos na captura de Maduro que, segundo o presidente, "não podia ser realizado por mais nenhuma nação que não os Estados Unidos".

Questionado sobre o dia seguinte, ou seja, sobre quem vai assumir o poder depois de Maduro, Trump disse: os Estados Unidos vão governar a Venezuela “até haver uma transição adequada, segura e séria” e as empresas norte-americanas vão também tomar as instalações petrolíferas. “Fomos nós que construímos essa indústria”, que “nos foi roubada pelo regime socialista como se fôssemos bebé,»

"Saiu um ditador e entrou um invasor", resumiu ao Público o investigador no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE Marcelo Moriconi. «O que se ouviu de Trump e Rubio foi uma narrativa totalmente incoerente e fabricada para justificar a decisão de intervir num país para ficar com os seus recursos naturais».

Marcelo Moriconi acredita que a Venezuela corre o risco de vir a ser "ingovernável nos próximos anos ou décadas" devido à inevitável luta armada entre facções internas pelo poder.

Venha o diabo e escolha, diria a minha avó.

Nicolás Maduro cai não depois de uma revolta popular ou de uma implosão interna do regime, mas pela mão directa dos Estados Unidos, após quase uma década de pressão económica, diplomática e militar.

É provável que Trump, e os seus sequazes bélicos e económicos, não saiba como vão ser os dias seguintes na Venezuela, mas já sabe de sabedoria certa que não dará espaço político a Maria Carolina Machado “ é uma senhora simpática mas pouco mais do que isso” .

sábado, 3 de janeiro de 2026

TRUMP INVADE A VENEZUELA


Donald Trump ordenou a invasão da Venezuela e a prisão do presidente Nicolás Maduro.

Uma coisa é sabermos quem é Nicolás Maduro e a sua presidência, outra, é sabermos que os Estados Unidos querem tornar-se, de novo, os donos da América Latina… e não só…

O que se segue é uma montagem do que é, hoje, publicado pelo Público:

1.

«Num post na sua conta na rede social Truth Social, Donald Trump admitiu o ataque dos Estados Unidos da América à Venezuela, garantindo que Maduro e a sua mulher foram capturados pelas forças norte-americanas e enviados para fora do país.

“Os Estados Unidos da América levaram a cabo com sucesso um ataque de grande escala contra a Venezuela e o seu líder, o Presidente Nicolás Maduro, que foi capturado juntamente com a sua esposa e retirado do país por via aérea”, lê-se na publicação.

O Presidente dos EUA adiantou ainda que está prevista uma conferência de imprensa em Mar-a-Lago, “pelas 11h deste sábado” (16h em Portugal continental), onde serão divulgados mais detalhes sobre a “operação realizada em coordenação com as forças de segurança norte-americanas”

2.

A alta representante para a Política Externa e Segurança da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou, este sábado, que a União Europeia está a monitorizar de perto a situação e apela à “moderação” para garantir a segurança dos cidadãos europeus na Venezuela.

Kallas, que terá falado com Marco Rubio sobre a situação na Venezuela, apela ainda a que se respeitem os princípios da lei internacional e da Carta das Nações Unidas. De acordo com a Reuters, a alta representante europeia lembrou ainda que o bloco não reconhece legitimidade a Nicolas Maduro enquanto líder da Venezuela, mas que defendeu sempre uma transição pacífica.

O senador republicano Mike Lee disse, este sábado, que o Secretário de Estado, Marco Rubio, lhe disse que Nicolas Maduro, detido por forças norte-americanas, poderia vir a ser julgado nos EUA.»

3.

A OPINIÃO DE PEDRO PONTE E SOUSA

«Trata-se de uma agressão, ao arrepio do Direito Internacional. O crime de agressão internacional, pelo uso da força, pela sua gravidade e dimensão, é uma violação manifesta da soberania da Venezuela e à da Carta das Nações Unidas. 
Não há qualquer justificação plausível para esta gravíssima acção ilegítima. O uso da força está proibido nas relações internacionais, excepto em casos muito bem definidos, que este não constitui.

A Venezuela não é um actor significativo no narcotráfico, nem na produção nem na distribuição pelo continente americano, ou na sua facilitação para chegada aos EUA, pelo que a justificação americana é falsa. Assim como a Venezuela não é uma ameaça à paz e segurança internacional, nem a qualidade da democracia da Venezuela é uma causa relevante para o ataque em causa - até porque muitos dos aliados, tradicionais dos EUA, e dos mais próximos da Administração Trump, não têm uma maior qualidade da democracia do que a Venezuela. 

O principal motivo é a mudança de regime, a instalação de um governo fantoche próximo aos interesses dos EUA, nomeadamente procurando uma maior presença das empresas americanas nos sectores do petróleo, gás, e outros minerais. A motivo ideológico também está presente na Administração Trump, com o propósito de eliminar um governo socialista, desalinhado da estratégia dos EUA para a região, de um quintal que alinhe automaticamente com os interesses americanos. 

Trump apenas aprofunda algo que tem sido política externa dos EUA por séculos: o direito internacional deve ser promovido apenas quando corresponda aos nossos interesses e objectivos. Quando outros o desrespeitam, são alvos legítimos da nossa acção; quando nós o fazemos, o direito internacional é irrelevante, e pode e deve ser evitado para salvaguardar outros objectivos, do interesse nacional, frequentemente mascarados com propósitos humanitários, democráticos, ou da liberdade.»

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

OS ITINERÁRIOS DO EDUARDO


Sentir saudades?

O poeta Zé Gomes Ferreira amiúde dizia: «saudades. Só do futuro!»

Mas não há começo de ano que não se lembre do Eduardo Guerra Carneiro e do seu último itinerário.

Há 22 anos, corriam as primeiras horas de um novo ano, quando o poeta e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, envolvido por uma imensa amargura, cansado de muita coisa, cansado de estar por aqui, se mandou da janela para o pátio da casa onde vivia em Lisboa. A notícia quase foi isso.

Baptista-Bastos, recordando o amigo e camarada de profissão, titulou um artigo no Público : «O poeta que se atirou para o céu».

Eduardo Guerra Carneiro deixou passar o Natal, sabe-se lá porquê, para se suicidar.

Era previsível, disseram os amigos que lhe eram chegados. Parecia ser esse o caminho por ele traçado, depois de uma filha ter morrido.
A pouco e pouco foi dizendo «escrevo com medo de ser tarde».
Marilyn Monroe, actriz que ele muito venerava e amava, também ela um dia deixou escrito, ou num dia qualquer, com alguém desabafou: «É Natal! Quem tenho? Ninguém! Para que preciso de viver?»

Sempre gostou muito do Eduardo Guerra Carneiro. Ao longo destes anos em que nos deixou, aos seus livros tem recorrido e pena tem que tão poucos o conheçam: «vivia dos cafés e das conversas, de uma poesia lírica feita na continuação do mesmo gesto imparável de viver, vivia de um desarrumada ligação entre a vida e letras, letras e tinta, rotativas e provas. E a sua morte escolhida prolonga a sua arte, ele tantas vezes abandonado a si mesmo, indefeso, estóico, solitário, libertário e tímido, rapaz para sempere de província apostrofando a desordem da cidade», escreveu Jorge Sila Melo.

Em 1970 publicou um livro a que chamou Isto Anda Tudo Ligado. E deste título se passou a fazer remate para conversas e prosas. Sim, isto anda tudo ligado, como dizia o poeta.

«Foi então que o barulho das luzes começou a sentir-se.
Foi então que o barulho das luzes começou a crescer.
Foi então que o barulho das luzes começou a entusiasmar.
Qual a cor das luzes do futuro?»


No seu livro O Revólver do Repórter deixou escrito:

«Abro as janelas para o rio, meto o papel na máquina, acendo um cigarro e penso: “Que grande solidão!”»

GATO

Chama-se Luís o gato do terceiro

e é companheiro de um mestre filósofo.

Em madrugadas altas há por vezes sobressalto,

quando o bichano acorda mal disposto.

O professor, sábio também

em jogos de paciência, acalma

o animal e já o mima. Trata-se,

vendo bem, de outra ciência,

tão difícil de conseguir como

um estudo de Pessoa. Chama-se Agostinho

da Silva, o do terceiro, e tem um gato

com quem, à vontade, discreteia.

Luís, discípulo, ronrona baixinho.

Tudo vai bem, assim, no sete desta rua.

 

Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

REOLHARES


 ATRÁS DE COPO, COPO VEM

Quando Ricardo Reis desceu para jantar, já perto das nove horas, conforme a si mesmo havia prometido, encontrou a sala deserta, os criados a conversarem a um canto, finalmente apareceu Salvador, mexeram-se os serventuários um pouco, é o que devemos fazer sempre que nos apareça o superior hierárquico, basta, por exemplo, descansar o corpo sobre a perna direita se antes sobre a esquerda repousava, muitas vezes não é preciso mais, ou nem tanto, E jantar, pode-se, perguntou hesitante o hóspede, claro que sim, para isso ali estavam, e também Salvador para dizer que não se admirasse o senhor doutor, na passagem do ano tinham em geral poucos clientes, e os que havia jantavam fora, é o réveillon, ou révelion, que foi a palavra, dantes dava-se aqui no hotel a festa, mas os proprietários acharam que as despesas eram grandes, desorganizava-se o serviço, uma trabalheira, sem falar nos estragos causados pela alegria dos hóspedes, sabe-se como as coisas acontecem, atrás de copo, copo vem, às tantas as pessoas não se entendem, e depois era o barulho, a agitação, as queixas dos que não tinham alegria para festas, que sempre os há, Enfim, acabámos com o révelion, mas tenho pena, confesso, era uma noite bonita, dava ao hotel uma reputação fina e moderna, agora é o que se está vendo, este deserto, Deixe lá, vai mais cedo para a cama, consolou Ricardo Reis, e Salvador respondeu que não, que sempre ouvia as badaladas da meia-noite em casa, era uma tradição da família, comiam doze passas de uva, uma a cada badalada, ouvira dizer que dava sorte para o ano seguinte, no estrangeiro usa-se muito, São países ricos, e a si, acha que lhe dá realmente sorte, Não sei, não posso comparar, se calhar corria-me pior o ano se não as comesse, assim seria, por estas e outras é que quem não tem Deus procura deuses, quem deuses abandonou a Deus inventa, um dia nos livraremos deste e daqueles, Tenho as minhas dúvidas, aparte que alguém lançou, ou antes ou depois, mas não aqui, que não se tomam tais liberdades com os dignos hóspedes.

(…)

Ricardo Reis sobe devagar a escada, cansado, parece a personagem daquelas rábulas de revista ou dos desenhos alusivos à época, ano velho carregado de cãs e de rugas, já com a ampulheta vazia, sumindo-se na treva profunda do tempo passado, enquanto o ano novo se aproxima num raio de luz, gordinho como os meninos da farinha lacto-búlgara, e dizendo, em infantil toada, como se nos convidasse para a dança das horas, Sou o ano de mil novecentos e trinta e seis, venham ser felizes comigo. Entra no quarto e senta-se, tem a cama aberta, água renovada na garrafa para as securas nocturnas, os chinelos sobre o tapete, alguém está velando por mim, anjo bom, obrigado. Na rua passa uma algazarra de latas, já deram as onze horas, e é então que Ricardo Reis se levanta bruscamente, quase violento, Que estou eu para aqui a fazer, toda a gente a festejar e a divertir-se, em suas casas, nas ruas, nos bailes, nos teatros e nos cinemas, nos casinos, nos cabarés, ao menos que eu vá ao Rossio ver o relógio da estação central, o olho da tempo, o ciclope que não atira com penedos mas com minutos e segundos, tão ásperos e pesados como eles, e que eu tenho de ir aguentando, como aguentamos todos nós, até que um último e todos somados me rebentem com as tábuas do barco, mas assim não, a olhar para o relógio, aqui, aqui sentado, sobre mim próprio dobrado, aqui sentado, e, tendo rematado o solilóquio, vestiu a gabardina, pôs o chapéu, deitou mão ao guarda-chuva, enérgico, um homem é logo outro homem quando toma uma decisão.

José Saramago em OAno da Morte de Ricardo Reis

Texto publicado em 30 de Março de 2018

CONVERSANDO


Migalhas para um novo ano:

O aroma inconfundível de um bom vinho tinto, o cheiro a leite-creme acabado de queimar, o cheiro a café.

1.

«Tentei ligar um percurso através dos salpicos ténues na neve, mas continuavam a surgir dispersos e quando abri  os olhos já estavam totalmente dissipados. Tateei à procura do comando da televisão e liguei-a, tendo o cuidado de evitar os balanços relativos ao ano anterior ou as perspectivas para o Ano Novo. A surdina aconchegante de uma maratona de episódiso da série Lei e Ordem era exactamente o que eu precisava. O detetive Lennie Brisoe tinha obviamente recomeçado a beber e fitava o fundo de um copo de uísque de terceira categoria. Levantei-me, deitei um pouco de mescal num pequeno copo de água e sentei-me à beira da cama a bebê-lo ao mesmo tempo que ele, observando num silêncio entorpecido mais uma repetição de outra repetição. Faço um brinde ao Ano Novo, mas é um brinde a coisa nenhuma.

Imaginei o meu casaco preto a vir bater-me no ombro.

- Desculpa, velho amigo – disse eu -, mas andei mesmo à tua procura, sabes’

Chamei mas não ouvi resposta; cumprimentos de onda desnivelados diminuíram qualquer esperança de averiguar o seu paradeiro. É assim que acontece com o chamamento e a capacidade de ouvir. Abraão ouviu o chamamento de Deus. Jane Eyre ouviu os gritos suplicantes de Mr. Rochester. Mas eu estava surda em relação ao meu casaco.»

Patti Smith em M Train.

2.

Primeiros anos da década de 60.

 Os tempos não eram fáceis.

No jantar do Dia de Natal e do Dia de Ano Novo, comia-se perú assado no forno.

Uns dias antes do Natal, ia com o meu pai ao Lavradio buscar dois perús, que tinham vindo do Alentejo, criados a bolota e tudo o que há (ou havia) nos montados alentejanos.

 Na Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda a vapor.

 Depois a camioneta do José Cândido Belo para o Lavradio, onde vivia um tio que trabalhava na CUF.

 Mais de meio-dia de viagens, acreditem.

 Os perús vinham, vivos, em dois cestos de verga.

 O do Natal era logo embebedado com bagaço, depois temperado pela minha avó materna.

 O do Ano Novo ficava dentro do tanque de lavar a roupa, ia comendo uma mistura de pedacinhos de couve e milho, e a aguardar a bebedeira antes de entrar no forno.

Éramos tantos à mesa, tanta gente morta, agora...

3.

Carruagem do Metropolitano entre a Alameda e as Olaias, uma moça, em conversa ao telemóvel – bem alto para toda a carruagem ouvir:

- O que te digo é que este ano foi péssimo, mas o próximo vai ser muito pior!...

- ?

- É como te digo…

- ?...

- Janto e enfio-me na cama, não quero saber de mais nada…

4.

Este ano, vindas não sei de onde, as cerejas estavam a 18 euros o quilo.

De uma tisana de Ana Hatherly:

«Quando eu era criança do que eu mais gostava era de cerejas».

5.

Vergílio Ferreira, no findar de 1978:

«Estava eu a querer saber o que vou fazer este ano. Não sei.»

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

MÚSICA PELA MANHÃ


Se viram um amável filme do norte-americano Rob Reiner, com Meg Ryan e Billy Cristal, «When Harry Meet Sally», que, parvamente, em português se chamou, Um Amor Inevitável, o tal filme em que a Meg Ryan simula um orgasmo em pleno snack e, finda a performance, a cliente da mesa ao lado, que esperava para fazer o seu pedido, volta-se para o empregado e diz: «quero o mesmo que aquela senhora», e certamente lembrar-se-ão que quase no final do filme, quando, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: “seja o que for é uma canção sobre velhas amizades”.

Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco, com os que estão, os que ainda fazem do Natal a festa dos amigos, celebrar a amizade, sempre, enquanto não chega a hora do adeus.

É isso!

Ao mesmo tempo lembrar a velha tia, que repetia sempre os mesmos votos de Ano Novo: «não se pede grande coisa: trabalho e saúde...» e sabendo que o meu cachimbo está apagado, o meu copo vazio, ouvir aquela canção celta:

«Que a estrada se abra à tua frente,
Que o vento sopre levemente nas tuas costas,
Que o sol brilhe morno e suave na tua face,
Que a chuva caia de mansinho nos teus campos.

Ou aqueles versos de um poema do Jorge de Sena:

 «Já tudo escureceu;

contudo ainda resta algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.

É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.

A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.» 



SÍTIOS POR ONDE ELES ANDARAM

Sim, quantas vezes eles andaram naquele Elevador, mais subidas que descidas.

Não conseguem, agora, saber a data em que a fotografia do Elevador da Glória, com o assador das castanhas em fundo, foi tirada.

Dado o fumo das castanhas, talvez um tempo outonal/invernoso.

Mas foi a 3 de Setembro que a tragédia se abateu sobre o velho Elevador da Glória.

«Foi numa quarta-feira, a 3 de Setembro, com o país regressado de férias, mas com Lisboa ainda repleta de veraneantes, que o elevador da Glória salta para as páginas dos jornais de todo o mundo. Aquilo que era para ser mais uma das 87 viagens diárias de rotina do elevador mais conhecido de Lisboa, acaba em tragédia quando um dos dois veículos se desliga do cabo que o sustentava (e rebocava) e corre desgovernado pela Calçada da Glória abaixo embatendo numa esquina e em dois postes de electricidade, provocando a morte de 16 pessoas.

As ondas de choque deste acidente dominariam as notícias e a vida política do país durante semanas. O elevador da Glória transportava 3 milhões de passageiros por ano, na sua maioria estrangeiros e era um ícone da capital portuguesa. Num país europeu, considerado seguro, não era suposto que o cabo de um equipamento tão importante se desligasse do veículo e o deixasse à solta, fora dos carris, sem outra redundância eficaz para o fazer parar.»

Quanto às indemnizações, a que todas as vítimas da tragédia têm direito, deverão decorrer ainda muitos anos para que isso venha a acontecer, uma lonjura de tempo em que as companhias de seguros são exímios mestres.


A GATA E BEETHOVEN

Entrada a noite,

a gata Electra

esquece vinganças

se senta-se

ao meu lado.

Ouvimos os trios de cordas.

eu bebo whisky,

a bem da morte sóbria

ou, pelo menos,

de um sono conforme;

a vida patece suave,

a pulsação

quase perfeita

e gata pensa

que não há direito

que alguém sofra.

 

José Alberto Oliveira

ELEVADOR DA GLÓRIA

Na mais profunda das confusões
Nas vozes alteradas dos turistas
A pedirem desculpa dos empurrões
Aos vulgares passageiros, aos jornalistas

A quem todos os dias te percorre
Quase sem dar pelo ângulo da subida
E em cada viagem também morre
Ou (pelo menos) deixa um pouco de vida

Às crianças com três anos de idade
Na voz hesitante dos seus pais
Perdida entre o apelo da verdade
E os gostos da poupança, naturais

A todos que comigo viajaram
E posso ter como testemunhas
E este fado comigo cantaram
Numa guitarra velha como as unhas

A todos direi; tomem nota por favor:
não há lugares sentados neste elevador.

José do Carmo Francisco em Transporte Sentimental

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

REOLHARES


QUOTIDIANOS


Pedro Neves pôs o candeeiro de petróleo em cima duma cadeira poeirenta. Emagrecer, o rosto parecia alongar-se na sombra projectada na parede branca. Reprimiu um gesto, talvez uma palavra.

- Comprendo. Exponha-se o menos possível, peço-lhe. Se ninguém vem aqui…

- Não, ninguém. Só eu.

- … o esconderijo parece seguro. Mas são só dois dias, o máximo três.

Apertaram as mãos com muita força. Antes de fechar a porta, Judite voltou-se para ele.

- Que cigarros fuma?

-  Unic.

- Tem graça, são os do meu pai, Trago-os amanhã.

E sorriu.

 

Álvaro Guerra em Café República

O meu pai também fumava cigarros Unic, tabaco negro. Três maços por dia, cigarros que o ajudaram a viver e acabaram por o matar.

Legenda: imagem tirada de Tododcoleccion

 

Texto publicado em 11 de Junho de 2018

MÚSICA PELA MANHÃ

Se ainda andasse por aqui, a bebericar litradas de Whisky Johnny Walker, rótulo preto, a unicar três maços de tabaco negro por dia, o meu pai faria 113 anos.

Era miúdo, teria uns 8 anos, lembro-me de ele ter chegado a casa com um disco de 78rpm do trompetista Eddie Calvert a tocar uma velha canção «Oh, My Papa». 

Ele adorava esta canção e quando fazia anos, gostava de a por a tocar. 

O disco partiu-se e, alguns anos antes de nos deixar, consegui encontrar na Feira da Ladra, um EP do Eddie Calvert. O disco terá pertencido a alguém chamado Ilda, que lhe terá sido oferecido em 21 de Fevereiro de 1964, mas as coisas não terão corrido bem, riscou a dedicatória e, por tuta e meia, vendeu o disco.

O meu pai, o melhor ouvinte e conversador que tive, e lembro as noites de Verão-de-micro-clima, em Almoçageme, numa velha casa alugada, sentados no alpendre a ouvir o silêncio, ao longe a ronca do Cabo da Roca, ele a beber o seu whisky, eu a beber o meu gin-tonic.



BUCÓLICA

A vida é feita de nadas:

De grandes serras paradas

À espera de movimento;

De searas onduladas

Pelo vento;


De casas de moradia

Caídas e com sinais

De ninhos que outrora havia

Nos beirais;


De poeira;

De sombra de uma figueira;

De ver esta maravilha:

Meu Pai a erguer uma videira

Como uma Mãe que faz a trança à filha.


Miguel Torga