O julgamento de José Sócrates é uma verdadeira novela mexicana.
Adensa-se
a ideia de que tudo irá prescrever.
De
uma notícia de Ana Henriques no Público de hoje:
O julgamento de José Sócrates é uma verdadeira novela mexicana.
Adensa-se
a ideia de que tudo irá prescrever.
De
uma notícia de Ana Henriques no Público de hoje:
Entre eternos dias de
poeira
entre noites imensas de ferrugem
bebendo a cinza que nos dão por vida
cuspindo nevoeiros de silêncio
de mãos amarradas pelo medo
e bocas sufocadas pela sombra
com os pés viscosamente presos
num solo de pântano e repulsa
olhos perdidos e sem luz
reflectindo apenas um remoto horizonte
a desfazer-se em treva
assim vamos quotidianamente
mastigando sem força a própria cobardia
afagando a vergonha podre em que vivemos
entre uma longa interminável
estrada de baionetas
na obediência inútil e servil
a uma voz sem rosto e sem presença
cumprindo surdas ordens de ódio e mentira
marchando sem razão e sem destino
assim vamos quotidianamente
Mário-Henrique Leiria
Perspectivas da América Latina
Diversos autores
Tradução:
Waltensir Dutra
Capa: Érico
Zahar Editores,
Rio de Janeiro, 1964
Revolução, sim! Não se iludam, americanos. Abram os olhos.
Perguntem ao camponês peruano. Que masca coca e come ratos, se deseja eleições
forjadas ou revoluções. Perguntem ao mineiro chileno, que se arrasta pelos
túneis de Lota, se acredita na livre empresa ou na revolução. Perguntem ao
camponês do Nordeste do Brasil se deseja capitalismo ou revolução. Perguntem ao
estudante castrado pelo ditador paraguaio se deseja a imprensa livre de Stroessner
ou a revolução. Perguntem ao camponês guatemalteco, “libertado” por Castillo
Armas se quer a Aliança para o Progresso ou a revolução. Perguntem aos
latinos-americanos quem corrompe a imprensa e os sindicatos, quem apoia os
exércitos e as oligarquias, quem paga salários miseráveis, quem é o dono das
minas e dos poços de petróleo. Perguntem a eles quem fica com o dinheiro da
Aliança para o Progresso, e que uso fazem dele. Perguntem a eles se acreditam
no mundo livre de Franco, Salazar, Chiang Kai-shek e Ngo Dinh Diem. Perguntem a
eles, e saberão porque o povo cuspiu em Nixon.
Perguntem aos homens que vivem nas “vilas da miséria”
em Buenos Aires, nas “favelas” do Rio, na “cayampa” de Santiago, se têm medo do
comunismo. Esses mendigos, esses párias, responderão que só têm medo de seus
atuais opressores, daqueles que os exploram em nome do capitalismo e da democracia
representativa, e que preferem qualquer coisa que possa significar uma
transformação.
(Carlos Fuentes)
«Escrever um texto é como ajustar o vidro da
vitrine do museu: separa-nos do mundo no tempo em que aconteceu, ao mesmo tempo
que o dá a ver. As palavras escolhidas para uma paisagem, um encontro entre
duas pessoas, uma história ouvida a alguém são apenas uma de todas as maneiras
possíveis de inscrever esse recorte de realidade numa nova ordem, outra
sequência, uma superfície onde não pertence, mas onde acaba por ficar»
Margarida Ferra em Saber Perder
Dizia-se,
ontem, por aqui que este nosso mundo não só está mais perigoso, como caminha
precipitadamente para o abismo!
Há
silêncios que gritam tão alto, mas ninguém os ouve, ninguém os quer ouvir.
Os
povos não aprendem com a História.
Poder-se-á
dizer que, por exemplo, os venezuelanos já poderiam ter transformado as suas
vidas, o seu futuro, mas nada aconteceu.
Teria
que ser os Estados Unidos a intervir na deposição de Maduro como presidente-do-país-que-nunca-foi?
Não,
não teria que ser.
Nós
portugueses, pela luta férrea de muitos democratas, alguns não viram a cor da
liberdade, pela decisão militar e política dos Capitães, levámos quase meio século
para derrubar a ditadura de Salazar e Caetano.
Os tais silêncios…
Legenda: imagem de Geogia O’Keeffe.
A
loucura trumpista leva-o para outras fronteiras, e não apenas na América
Latina.
É o que nos lembra Pedro Guerreiro, hoje no Público:
«Precisamos da Gronelândia, absolutamente.” Ataque à Venezuela anima expansionismo de Trumpdeitei a cabeça
em cima da fotografia
e com a respiração despertei teu corpo
do sítio penumbroso onde viveras
o tempo não se gastou
passei estes anos a colocar as coisas
nos seus devidos lugares
ainda ouço
a voz outonal das palmeiras e o murmúrio
do vento cercando a casa protegida pelo bolor
era uma pequena ilha dizias
onde os ruídos duma vida anterior a esta
dormitavam ainda
agora está tudo arrumado
agito-me em volta das coisas
mas nada posso corrigir
o que está feito está feito
levanto-me daqui e corro para o telefone
tento saber se estás onde penso existir
uma cidade... ninguém responde
onde estarás?
deste ou do outro lado do telefone?
um puto irrompe da insónia
deitando-me a língua de fora
de qualquer maneira não consegui a ligação
Al Berto em O Medo
A festa inclui duas pessoas a comer salada de batata e umas salsichas saborosas.
Não
tenho a certeza se as duas pessoas vão aguentar ficar acordadas até à
meia-noite, mas vamos ver o que acontece.
Porque
comemoramos a passagem de ano em frente à televisão.
Se
sobrevivermos até à meia-noite, talvez bebamos uma taça de champanhe ou talvez
tenhamos começado a dormir mais cedo, então, sem champanhe.
1.
Lisboa perdeu mais 12 ecrãs de cinema com o encerramento, no final de 2025, do
complexo Alvaláxia, explorado pela Nos Cinemas. É uma dúzia de salas perdidas
que se junta aos 37 outros ecrãs apagados em várias cidades do país no ano
passado, entre os quais cinco em Portimão, e aos nove que estão a caminho de
encerrar em Vila Nova de Gaia.
2.
O secretário-geral do PS, José Luís Carneiro, manifestou na passada
quarta-feira repúdio pelas recentes notícias de exonerações de administrações
hospitalares, acusando o Governo de actuar por razões "estritamente de
natureza política".
O governo vai afastar a administração da Unidade Local de Saúde (ULS) de São
José em Lisboa e vai escolher um militante do PSD para o cargo. O mesmo vai
suceder com a ULS de Coimbra.
3.
«Segundo a ONU, até novembro de 2025 mais de 69 mil
palestinianos foram mortos e cerca de 170 mil feridos pelos bombardeamentos em
Gaza ocorridos depois de um ataque terrorista perpetrado pelo Hamas a 7 de
outubro de 2023, que matou 726 civis bem como 379 militares e polícias
israelitas.
A resposta desproporcional de Israel ao terrorismo,
assim quantificada, foi objetivamente uma carnificina, um autêntico genocídio,
como muitos o classificam.
A entrada em vigor do acordo de paz entre Israel e o Hamas negociado em outubro deste ano por Donald Trump retirou do foco mediático a situação humanitária no território palestiniano, mas a ONU voltou a fazer soar o alarme, perante a indiferença ocidental.»
Pedro Tadeu no Diário de Notícias
4.
Os Estados
Unidos invadiram a Venezuela para prender o ditador Nicolás Maduro e fazer o
seu julgamento nos Estados Unidos.
Donald Trump
disse que com este acto militar apenas pretende o petróleo venezuelano e
instalar companhias norte-americanas para renovar o parque de extracção de
petróleo que se encontra praticamente degradado.
Não se sabe o
que seguirá mais: a Colômbia, Cuba...ah! sim, a Gronelândia?
Dizer ainda que este nosso mundo não só está mais perigoso como caminha precipitadamente para o abismo!
Atirar Para o Torto
Margarida Vale
de Gato
Capa: V. Tavares
Edições
Tinta-da- China, Lisboa, Maio de 2021
DE SE FAZER PARA
QUE TUDO ARDA
Vi rutilar cada grés do tijolo
burro do amor e vi dilapidar
cada escama ao corpo refletor
e sôfrego de ar, pulsando tolo
a puxar fio em vez de afrouxar
o travo, o isco, o peito louco arco (
os pés fincados contra a derrocada
em vez de a coluna se vergar
e juntar no chão o ruído sonho)
de muito alto, retesado, logo
atrás do estilhaço do abandono
servindo o incêndio não cuidamos
de destroncar excessos, terminamos
cada um a seu campo só um fogo.
Paulo Rangel, ministro dos negócios estrangeiros português, classifica as “intenções” norte-americanas na Venezuela como “benignas”
Entretanto, Luís Montenegro, primeiro-ministro de Portugal, defendeu o
“restabelecimento de uma democracia plena” na Venezuela e que a nomeação de
Edmundo González como Presidente é a solução “preferível”.
Nenhum
deles condena a intervenção dos Estados Unidos na invasão da Venezuela e prisão de
Nicolás Maduro e o governo português entende que a acção militar norte-americana, apenas pretende instalar uma
transição estável na Venezuela e o regresso ao trilho democrático.
Edificante!
Desde
Mar-a-Lago, Trump voltou a lembrar ao mundo que a invasão da Venezuela tinha, acima de tudo,
a ver com petróleo, dinheiro, lucros e, consequentemente, prender o ditador
Maduro e fazer o julgamento e condenação do personagem na América, como traficante de droga e terrorista.
A democracia e o povo venezuelano ficarão para mais tarde ou… para nunca.
Nicolás Maduro era um ditador e o seu regime era ilegítimo e brutal e fez a vida dos seus cidadãos muitíssimo pior do que era antes.
Tudo bem, mas isso não valida a invasão da Venezuela, contudo, mas esse é o sinal que os Estados Unidos não estão muito preocupados com o cumprimento do direito internacional e o exemplo do que poderá acontecer a outros líderes se, por uma razão ou outra, desagradarem à Administração Trump, por outras palavras: fazer regressar toda a América Latina à sua quinta de outras eras.
Donald Trump “não faz jogos” e que quando diz que quer alguma coisa “tem de ser levado a sério”, disse este sábado o secretário de Estado Marco Rubio.
Como se fosse um filme, Trump assitiu à “espectacular» intervenção dos militares americanos na captura de Maduro que, segundo o presidente, "não podia ser realizado por mais nenhuma nação que não os Estados Unidos".
Questionado sobre o dia seguinte, ou seja, sobre quem vai assumir o poder depois de Maduro, Trump disse: os Estados Unidos vão governar a Venezuela “até haver uma transição adequada, segura e séria” e as empresas norte-americanas vão também tomar as instalações petrolíferas. “Fomos nós que construímos essa indústria”, que “nos foi roubada pelo regime socialista como se fôssemos bebé,»
"Saiu um ditador e entrou um invasor", resumiu ao Público o
investigador no Centro de Estudos Internacionais do ISCTE Marcelo Moriconi. «O que se ouviu de Trump e Rubio foi uma narrativa totalmente incoerente e
fabricada para justificar a decisão de intervir num país para ficar com os seus
recursos naturais».
Marcelo
Moriconi acredita que a Venezuela corre o risco de vir a ser "ingovernável
nos próximos anos ou décadas" devido à inevitável luta armada entre
facções internas pelo poder.
Venha
o diabo e escolha, diria a minha avó.
Nicolás Maduro cai não depois de uma revolta popular ou de uma implosão interna do regime, mas pela mão directa dos Estados Unidos, após quase uma década de pressão económica, diplomática e militar.
É provável que Trump, e os seus sequazes bélicos e económicos, não saiba como vão ser os dias seguintes na Venezuela, mas já sabe de sabedoria certa que não dará espaço político a Maria Carolina Machado “ é uma senhora simpática mas pouco mais do que isso” .Donald
Trump ordenou a invasão da Venezuela e a prisão do presidente Nicolás Maduro.
Uma
coisa é sabermos quem é Nicolás Maduro e a sua presidência, outra, é sabermos
que os Estados Unidos querem tornar-se, de novo, os donos da América Latina… e
não só…
O
que se segue é uma montagem do que é, hoje, publicado pelo Público:
1.
«Num post na sua conta na rede social Truth Social, Donald Trump admitiu o ataque dos Estados Unidos da América à Venezuela, garantindo que Maduro e a sua mulher foram capturados pelas forças norte-americanas e enviados para fora do país.
“Os
Estados Unidos da América levaram a cabo com sucesso um ataque de grande escala
contra a Venezuela e o seu líder, o Presidente Nicolás Maduro, que foi
capturado juntamente com a sua esposa e retirado do país por via aérea”, lê-se
na publicação.
O Presidente dos EUA adiantou ainda que está prevista uma conferência de imprensa em Mar-a-Lago, “pelas 11h deste sábado” (16h em Portugal continental), onde serão divulgados mais detalhes sobre a “operação realizada em coordenação com as forças de segurança norte-americanas”
A alta representante para a Política Externa e Segurança da União Europeia, Kaja Kallas, afirmou, este sábado, que a União Europeia está a monitorizar de perto a situação e apela à “moderação” para garantir a segurança dos cidadãos europeus na Venezuela.
Kallas, que terá falado com Marco Rubio sobre a situação na Venezuela, apela ainda a que se respeitem os princípios da lei internacional e da Carta das Nações Unidas. De acordo com a Reuters, a alta representante europeia lembrou ainda que o bloco não reconhece legitimidade a Nicolas Maduro enquanto líder da Venezuela, mas que defendeu sempre uma transição pacífica.
O senador republicano Mike Lee disse, este sábado, que o Secretário de Estado, Marco Rubio, lhe disse que Nicolas Maduro, detido por forças norte-americanas, poderia vir a ser julgado nos EUA.»
3.
A OPINIÃO DE PEDRO PONTE E SOUSA
«Trata-se
de uma agressão, ao arrepio do Direito Internacional. O crime de agressão
internacional, pelo uso da força, pela sua gravidade e dimensão, é uma violação
manifesta da soberania da Venezuela e à da Carta das Nações Unidas.
Não há qualquer justificação plausível para esta gravíssima acção ilegítima. O
uso da força está proibido nas relações internacionais, excepto em casos muito
bem definidos, que este não constitui.
A Venezuela não é um actor significativo no narcotráfico, nem na produção nem
na distribuição pelo continente americano, ou na sua facilitação para chegada
aos EUA, pelo que a justificação americana é falsa. Assim como a Venezuela não
é uma ameaça à paz e segurança internacional, nem a qualidade da democracia da Venezuela
é uma causa relevante para o ataque em causa - até porque muitos dos aliados,
tradicionais dos EUA, e dos mais próximos da Administração Trump, não têm uma
maior qualidade da democracia do que a Venezuela.
O
principal motivo é a mudança de regime, a instalação de um governo fantoche
próximo aos interesses dos EUA, nomeadamente procurando uma maior presença das
empresas americanas nos sectores do petróleo, gás, e outros minerais. A motivo
ideológico também está presente na Administração Trump, com o propósito de
eliminar um governo socialista, desalinhado da estratégia dos EUA para a
região, de um quintal que alinhe automaticamente com os interesses
americanos.
Trump apenas aprofunda algo que tem sido política externa dos EUA por séculos: o direito internacional deve ser promovido apenas quando corresponda aos nossos interesses e objectivos. Quando outros o desrespeitam, são alvos legítimos da nossa acção; quando nós o fazemos, o direito internacional é irrelevante, e pode e deve ser evitado para salvaguardar outros objectivos, do interesse nacional, frequentemente mascarados com propósitos humanitários, democráticos, ou da liberdade.»
O
poeta Zé Gomes Ferreira amiúde dizia: «saudades. Só do futuro!»
Mas
não há começo de ano que não se lembre do Eduardo Guerra Carneiro e do seu
último itinerário.
Há 22 anos, corriam as primeiras horas de um novo ano, quando o poeta e jornalista Eduardo Guerra Carneiro, envolvido por uma imensa amargura, cansado de muita coisa, cansado de estar por aqui, se mandou da janela para o pátio da casa onde vivia em Lisboa. A notícia quase foi isso.
Baptista-Bastos, recordando o amigo e camarada de profissão, titulou um artigo no Público : «O poeta que se atirou para o céu».
Eduardo Guerra Carneiro deixou passar o Natal, sabe-se lá porquê, para se suicidar.
Era previsível, disseram os amigos que lhe eram chegados. Parecia ser
esse o caminho por ele traçado, depois de uma filha ter morrido.
A pouco e pouco foi dizendo «escrevo com medo de ser tarde».
Marilyn Monroe, actriz que ele muito venerava e amava, também ela um dia deixou
escrito, ou num dia qualquer, com alguém desabafou: «É Natal! Quem tenho?
Ninguém! Para que preciso de viver?»
Sempre gostou muito do Eduardo Guerra Carneiro. Ao longo destes anos em que nos deixou, aos seus livros tem recorrido e pena tem que tão poucos o conheçam: «vivia dos cafés e das conversas, de uma poesia lírica feita na continuação do mesmo gesto imparável de viver, vivia de um desarrumada ligação entre a vida e letras, letras e tinta, rotativas e provas. E a sua morte escolhida prolonga a sua arte, ele tantas vezes abandonado a si mesmo, indefeso, estóico, solitário, libertário e tímido, rapaz para sempere de província apostrofando a desordem da cidade», escreveu Jorge Sila Melo.
Em 1970 publicou um livro a que chamou Isto Anda Tudo Ligado. E deste título se passou a fazer remate para conversas e prosas. Sim, isto anda tudo ligado, como dizia o poeta.
«Foi então que o barulho das luzes começou a sentir-se.
Foi então que o barulho das luzes começou a crescer.
Foi então que o barulho das luzes começou a entusiasmar.
Qual a cor das luzes do futuro?»
No seu livro O Revólver do Repórter deixou escrito:
«Abro as janelas para o
rio, meto o papel na máquina, acendo um cigarro e penso: “Que grande solidão!”»
Chama-se Luís o gato do terceiro
e é companheiro de um
mestre filósofo.
Em madrugadas altas há
por vezes sobressalto,
quando o bichano acorda
mal disposto.
O professor, sábio
também
em jogos de paciência,
acalma
o animal e já o
mima. Trata-se,
vendo bem, de outra
ciência,
tão difícil de
conseguir como
um estudo de
Pessoa. Chama-se Agostinho
da Silva, o do
terceiro, e tem um gato
com quem, à vontade,
discreteia.
Luís, discípulo,
ronrona baixinho.
Tudo vai bem, assim, no
sete desta rua.
Eduardo Guerra Carneiro em Contra a Corrente.
Quando Ricardo Reis
desceu para jantar, já perto das nove horas, conforme a si mesmo havia
prometido, encontrou a sala deserta, os criados a conversarem a um canto,
finalmente apareceu Salvador, mexeram-se os serventuários um pouco, é o que
devemos fazer sempre que nos apareça o superior hierárquico, basta, por
exemplo, descansar o corpo sobre a perna direita se antes sobre a esquerda repousava,
muitas vezes não é preciso mais, ou nem tanto, E jantar, pode-se, perguntou
hesitante o hóspede, claro que sim, para isso ali estavam, e também Salvador
para dizer que não se admirasse o senhor doutor, na passagem do ano tinham em
geral poucos clientes, e os que havia jantavam fora, é o réveillon, ou
révelion, que foi a palavra, dantes dava-se aqui no hotel a festa, mas os
proprietários acharam que as despesas eram grandes, desorganizava-se o serviço,
uma trabalheira, sem falar nos estragos causados pela alegria dos hóspedes,
sabe-se como as coisas acontecem, atrás de copo, copo vem, às tantas as pessoas
não se entendem, e depois era o barulho, a agitação, as queixas dos que não
tinham alegria para festas, que sempre os há, Enfim, acabámos com o révelion,
mas tenho pena, confesso, era uma noite bonita, dava ao hotel uma reputação
fina e moderna, agora é o que se está vendo, este deserto, Deixe lá, vai mais
cedo para a cama, consolou Ricardo Reis, e Salvador respondeu que não, que
sempre ouvia as badaladas da meia-noite em casa, era uma tradição da família,
comiam doze passas de uva, uma a cada badalada, ouvira dizer que dava sorte
para o ano seguinte, no estrangeiro usa-se muito, São países ricos, e a si,
acha que lhe dá realmente sorte, Não sei, não posso comparar, se calhar
corria-me pior o ano se não as comesse, assim seria, por estas e outras é que
quem não tem Deus procura deuses, quem deuses abandonou a Deus inventa, um dia
nos livraremos deste e daqueles, Tenho as minhas dúvidas, aparte que alguém
lançou, ou antes ou depois, mas não aqui, que não se tomam tais liberdades com
os dignos hóspedes.
(…)
Ricardo Reis sobe devagar a escada, cansado, parece a personagem daquelas rábulas de revista ou dos desenhos alusivos à época, ano velho carregado de cãs e de rugas, já com a ampulheta vazia, sumindo-se na treva profunda do tempo passado, enquanto o ano novo se aproxima num raio de luz, gordinho como os meninos da farinha lacto-búlgara, e dizendo, em infantil toada, como se nos convidasse para a dança das horas, Sou o ano de mil novecentos e trinta e seis, venham ser felizes comigo. Entra no quarto e senta-se, tem a cama aberta, água renovada na garrafa para as securas nocturnas, os chinelos sobre o tapete, alguém está velando por mim, anjo bom, obrigado. Na rua passa uma algazarra de latas, já deram as onze horas, e é então que Ricardo Reis se levanta bruscamente, quase violento, Que estou eu para aqui a fazer, toda a gente a festejar e a divertir-se, em suas casas, nas ruas, nos bailes, nos teatros e nos cinemas, nos casinos, nos cabarés, ao menos que eu vá ao Rossio ver o relógio da estação central, o olho da tempo, o ciclope que não atira com penedos mas com minutos e segundos, tão ásperos e pesados como eles, e que eu tenho de ir aguentando, como aguentamos todos nós, até que um último e todos somados me rebentem com as tábuas do barco, mas assim não, a olhar para o relógio, aqui, aqui sentado, sobre mim próprio dobrado, aqui sentado, e, tendo rematado o solilóquio, vestiu a gabardina, pôs o chapéu, deitou mão ao guarda-chuva, enérgico, um homem é logo outro homem quando toma uma decisão.
José
Saramago em OAno
da Morte de Ricardo Reis
Texto
publicado em 30 de Março de 2018
Migalhas para um novo ano:
O aroma inconfundível de um bom vinho tinto, o cheiro a leite-creme acabado de queimar, o cheiro a café.
1.
«Tentei ligar um
percurso através dos salpicos ténues na neve, mas continuavam a surgir
dispersos e quando abri os olhos já estavam totalmente dissipados. Tateei
à procura do comando da televisão e liguei-a, tendo o cuidado de evitar os
balanços relativos ao ano anterior ou as perspectivas para o Ano Novo. A
surdina aconchegante de uma maratona de episódiso da série Lei e Ordem era
exactamente o que eu precisava. O detetive Lennie Brisoe tinha obviamente
recomeçado a beber e fitava o fundo de um copo de uísque de terceira categoria.
Levantei-me, deitei um pouco de mescal num pequeno copo de água e sentei-me à
beira da cama a bebê-lo ao mesmo tempo que ele, observando num silêncio
entorpecido mais uma repetição de outra repetição. Faço um brinde ao Ano Novo,
mas é um brinde a coisa nenhuma.
Imaginei o meu casaco
preto a vir bater-me no ombro.
- Desculpa, velho amigo
– disse eu -, mas andei mesmo à tua procura, sabes’
Chamei mas não ouvi resposta; cumprimentos de onda desnivelados diminuíram qualquer esperança de averiguar o seu paradeiro. É assim que acontece com o chamamento e a capacidade de ouvir. Abraão ouviu o chamamento de Deus. Jane Eyre ouviu os gritos suplicantes de Mr. Rochester. Mas eu estava surda em relação ao meu casaco.»
Patti Smith em M Train.
2.
Primeiros
anos da década de 60.
Os
tempos não eram fáceis.
No
jantar do Dia de Natal e do Dia de Ano Novo, comia-se perú assado no forno.
Uns
dias antes do Natal, ia com o meu pai ao Lavradio buscar dois perús, que tinham
vindo do Alentejo, criados a bolota e tudo o que há (ou havia) nos montados
alentejanos.
Na
Estação Sul e Sueste apanhávamos o barco para o Barreiro, ainda a vapor.
Depois
a camioneta do José Cândido Belo para o Lavradio, onde vivia um tio que
trabalhava na CUF.
Mais
de meio-dia de viagens, acreditem.
Os
perús vinham, vivos, em dois cestos de verga.
O
do Natal era logo embebedado com bagaço, depois temperado pela minha avó
materna.
O do Ano Novo ficava dentro do tanque de lavar a roupa, ia comendo uma mistura de pedacinhos de couve e milho, e a aguardar a bebedeira antes de entrar no forno.
Éramos
tantos à mesa, tanta gente morta, agora...
3.
Carruagem
do Metropolitano entre a Alameda e as Olaias, uma moça, em conversa ao
telemóvel – bem alto para toda a carruagem ouvir:
- O que te digo é que
este ano foi péssimo, mas o próximo vai ser muito pior!...
- ?
- É como te digo…
- ?...
- Janto e enfio-me na
cama, não quero saber de mais nada…
4.
Este ano, vindas não
sei de onde, as cerejas estavam a 18 euros o quilo.
De uma tisana de Ana
Hatherly:
«Quando eu era criança do que eu mais gostava era de cerejas».
5.
Vergílio Ferreira, no findar de 1978:
«Estava eu a querer saber o que vou fazer este ano. Não sei.»
Se viram um amável filme do norte-americano Rob Reiner, com Meg Ryan e Billy Cristal, «When Harry Meet Sally», que, parvamente, em português se chamou, Um Amor Inevitável, o tal filme em que a Meg Ryan simula um orgasmo em pleno snack e, finda a performance, a cliente da mesa ao lado, que esperava para fazer o seu pedido, volta-se para o empregado e diz: «quero o mesmo que aquela senhora», e certamente lembrar-se-ão que quase no final do filme, quando, numa festa de fim de ano, Harry reencontra Sally, começam a ouvir-se os acordes de Auld Lang Syne, e Henry diz que nunca entendeu o significado da canção pois diz que os velhos conhecidos devem ser esquecidos ou que se os esquecemos devemos recordá-los mas como recordar se já os esquecemos? Sally não tem resposta mas, sorrindo, acaba por lhe dizer: “seja o que for é uma canção sobre velhas amizades”.
Chegamos a bom porto: velhas amizades, lembrar os que já não estão connosco,
com os que estão, os que ainda fazem do Natal a festa dos amigos, celebrar a
amizade, sempre, enquanto não chega a hora do adeus.
É isso!
Ao mesmo tempo lembrar a velha tia, que repetia sempre os mesmos votos de Ano Novo: «não se pede grande coisa: trabalho e saúde...» e sabendo que o meu cachimbo está apagado, o meu copo vazio, ouvir aquela canção celta:
«Que a estrada se abra
à tua frente,
Que o vento sopre levemente nas tuas costas,
Que o sol brilhe morno e suave na tua face,
Que a chuva caia de mansinho nos teus campos.
Ou aqueles versos de um poema do Jorge de Sena:
«Já tudo
escureceu;
contudo ainda resta
algum dia
suspenso de onde veio a noite que chegou primeiro.
É de sempre este resto de dia
e acompanha-a pelo céu em busca das estrelas frágeis.
A noite, uma vez,
compreenderá que ele vem do mesmo lado que ela.»
Sim,
quantas vezes eles andaram naquele Elevador, mais subidas que descidas.
Não
conseguem, agora, saber a data em que a fotografia do Elevador da Glória, com o
assador das castanhas em fundo, foi tirada.
Dado
o fumo das castanhas, talvez um tempo outonal/invernoso.
Mas foi a 3 de Setembro que a tragédia se abateu sobre o velho Elevador da Glória.
«Foi numa quarta-feira, a 3 de Setembro, com o país regressado de férias,
mas com Lisboa ainda repleta de veraneantes, que o elevador da Glória salta
para as páginas dos jornais de todo o mundo. Aquilo que era para ser mais uma
das 87 viagens diárias de rotina do elevador mais conhecido de Lisboa, acaba em
tragédia quando um dos dois veículos se desliga do cabo que o sustentava (e
rebocava) e corre desgovernado pela Calçada da Glória abaixo embatendo numa
esquina e em dois postes de electricidade, provocando a morte de 16 pessoas.
As ondas de choque deste acidente dominariam as notícias e a vida política do
país durante semanas. O elevador da Glória transportava 3 milhões de
passageiros por ano, na sua maioria estrangeiros e era um ícone da capital
portuguesa. Num país europeu, considerado seguro, não era suposto que o cabo de
um equipamento tão importante se desligasse do veículo e o deixasse à solta,
fora dos carris, sem outra redundância eficaz para o fazer parar.»
Quanto
às indemnizações, a que todas as vítimas da tragédia têm direito, deverão
decorrer ainda muitos anos para que isso venha a acontecer, uma lonjura de
tempo em que as companhias de seguros são exímios mestres.
Entrada a noite,
a gata Electra
esquece vinganças
se senta-se
ao meu lado.
Ouvimos os trios de
cordas.
eu bebo whisky,
a bem da morte sóbria
ou, pelo menos,
de um sono conforme;
a vida patece suave,
a pulsação
quase perfeita
e gata pensa
que não há direito
que alguém sofra.
José
Alberto Oliveira
Na mais profunda das
confusões
Nas vozes alteradas dos turistas
A pedirem desculpa dos empurrões
Aos vulgares passageiros, aos jornalistas
A quem todos os dias te
percorre
Quase sem dar pelo ângulo da subida
E em cada viagem também morre
Ou (pelo menos) deixa um pouco de vida
Às crianças com três
anos de idade
Na voz hesitante dos seus pais
Perdida entre o apelo da verdade
E os gostos da poupança, naturais
A todos que comigo
viajaram
E posso ter como testemunhas
E este fado comigo cantaram
Numa guitarra velha como as unhas
A todos direi; tomem
nota por favor:
não há lugares sentados neste elevador.
José
do Carmo Francisco em Transporte
Sentimental
QUOTIDIANOS
Pedro Neves pôs o
candeeiro de petróleo em cima duma cadeira poeirenta. Emagrecer, o rosto
parecia alongar-se na sombra projectada na parede branca. Reprimiu um gesto,
talvez uma palavra.
- Comprendo. Exponha-se
o menos possível, peço-lhe. Se ninguém vem aqui…
- Não, ninguém. Só eu.
- … o esconderijo
parece seguro. Mas são só dois dias, o máximo três.
Apertaram as mãos com
muita força. Antes de fechar a porta, Judite voltou-se para ele.
- Que cigarros fuma?
-
Unic.
- Tem graça, são os do
meu pai, Trago-os amanhã.
E sorriu.
Álvaro Guerra em Café República
O
meu pai também fumava cigarros Unic, tabaco negro. Três maços
por dia, cigarros que o ajudaram a viver e acabaram por o matar.
Legenda: imagem tirada de Tododcoleccion
Texto
publicado em 11 de Junho de 2018
Se
ainda andasse por aqui, a bebericar litradas de Whisky Johnny Walker, rótulo
preto, a unicar três maços de tabaco negro por dia, o meu pai faria 113 anos.
Era miúdo, teria uns 8 anos, lembro-me de ele ter chegado a casa com um disco de 78rpm do trompetista Eddie Calvert a tocar uma velha canção «Oh, My Papa».
Ele adorava esta canção e quando fazia anos, gostava de a por a tocar.
O disco partiu-se e, alguns anos antes de nos deixar, consegui
encontrar na Feira da Ladra, um EP do Eddie Calvert. O disco terá pertencido a
alguém chamado Ilda, que lhe terá sido oferecido em 21 de Fevereiro de 1964,
mas as coisas não terão corrido bem, riscou a dedicatória e, por tuta e meia, vendeu
o disco.
O meu pai, o melhor ouvinte e conversador que tive, e lembro as noites de Verão-de-micro-clima, em Almoçageme, numa velha casa alugada, sentados no alpendre a ouvir o silêncio, ao longe a ronca do Cabo da Roca, ele a beber o seu whisky, eu a beber o meu gin-tonic.
A vida é feita de nadas:
De grandes serras
paradas
À espera de movimento;
De searas onduladas
Pelo vento;
De casas de moradia
Caídas e com sinais
De ninhos que outrora
havia
Nos beirais;
De poeira;
De sombra de uma figueira;
De ver esta maravilha:
Meu Pai a erguer uma
videira
Como uma Mãe que faz a
trança à filha.
Miguel
Torga