terça-feira, 25 de outubro de 2022

AND SO ON, AND SO FORTH

Mas vejam que miséria quando o clube

perde em casa, quando chove no molhado

do recreio a tarde toda, quando o carteiro

 

faz greve e o outono se insinua –

vejam que miséria este défice de razões5

para pôr em movimento a roda perra

 

do dia, esta pomba trucidada pela ambulância

que guina, enquanto o vizinho almoça e o poeta

transfigura – mas vejam que miséria

 

quando a arte não resgata e a orquestra

não anima e o amor torna mais árdua

a triste faina da vida.

 

Rui Pires Cabral

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO


Procuremos entrar na morte de olhos abertos.

Marguerite Yourcenar em Memórias de Adriano

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

 

Quadra escrita por José Saramago a Ilda Reis, sua futura mulher, em José Saramago: A Consistência dos Sonhos de Fernando Gómez Aguilera.

OLHAR AS CAPAS


 Memórias de Adriano

Marguerite Yourcenar

Tradução: Maria Lamas

Prefácio: Isabel Alçada

Capa: Rui Garrido

Colecção Essencial nº 20

Leya/Livros RTP, Lisboa, Janeiro 2018

Assegurei-lhe o futuro; ele não gosta da Itália; poderá realizar o seu sonho que é voltar a Gádaros e abrir ali com um amigo uma escola de eloquência; não tem nada a perder com a minha morte. E contudo, o frágil ombro agita-se convulsamente sob as pregas da túnica; sinto sob os meus dedos lágrimas deliciosas. Adriano terá sido humanamente amado até ao fim.

Almazinha, alma terna e flutuante, companheira do meu corpo, de que foste hóspede, vais descer àqueles lugares pálidos, duros r nus onde terás que renunciar aos jogos de outrora. Contemplemos juntos, um instante ainda, as praias familiares, os objectos que certamente nunca mais veremos… Procuremos entrar na morte de olhos abertos.

POEMA DAS COISAS

Amo o espaço e o lugar, e as coisas que não falam.
O estar ali, o ser de certo modo,
o saber-se como é, onde é que está e como,
o aguardar sem pressa, e atender-nos
da forma necessária.

Serenas em si mesmas, sempre iguais a si próprias,
esperam as coisas que o desespero as busque.

Abre-se a porta e o próprio ar nos fala.
As cortinas de rede, exactamente aquelas,
a cadeira onde a memória está sentada,
a mesa, o copo, a chávena, o relógio,
o móvel onde alguém permanece encostado
sem volume e sem tempo,
nós próprios, quando os olhos indignados
nas pálpebras se encobrem.

Põe-se a pedra na mão, e a pedra pesa,
pesa connosco, forma um corpo inteiro

Fecha-se a mão, e a mão toma-lhe a forma,
conhece a pedra, entende-lhe o feitio,
sente-a macia ou áspera, e sabe em que lugares.
Abre-se a mão, e a mesma pedra avulta.

Se fosse o amor dos homens
quando se abrisse a mão já lá não estava.

António Gedeão de Poemas Póstumos em Obra Completa


domingo, 23 de outubro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

 

Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constituem os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Os primeiros livrosde José Saramago.

Como conta Juan Arias: «… talvez por nunca ter desejado nada na vida, por não ter tido maiores ambições, lhe pareça agora que conseguiu tudo.»

Aos 12 anos a mãe oferece-lhe o seu primeiro: «O Mistério do Moinho» de J. Jefferson Farjeon, comprado numa pequena capelista na Praça do Chile. O resto, e parte importante, são leituras de livros na biblioteca da Escola Afonso Domingues e na Biblioteca do Palácio das Galveias no Campo Pequeno.

«Depois de jantar ia a pé, apesar de ser longe da minha casa, para a Biblioteca do Palácio das Galveais, e até à hora de fechar lia tudo o que podia, sem nenhuma orientação, sem ninguém que me dissesse se aquilo era demasiado ou pouco para mim. Lia tudo o que me parecia interessante…»

Os Cadernos Inquérito estavam divididos em 9 séries:

Série A – Política e História

Série B – Economia e Sociologia

Série C – Filosofia e Religião

Série D – Pedagogia e Linguística

Série E – Direito

Série F – Ciências

Série G – Crítica e História Literária

Série H -  Literatura Clássica

Série  I  -  Arte

Os volumes dos Cadernos Inquérito existentes na Biblioteca da Casa apresentam dois preços: 3 escudos e 4 escudos.

Caros? Baratos?

Talvez acessíveis. Talvez.

Lembro-me do meu pai contar que muitos livros foram comprados com sacrifícios de ordem vária: andar a pé em vez de utilizar o electrico, um café, um whiskinho  a menos, uma  não ida aqui ou acolá, mas do que nunca conseguiu prescindir foi os três maços de tabaco «UNIC» que fumava por dia.

Diga-se que a 10 de Novembro de 1941 José Saramago é contratado como serralheiro mecânico dos Serviços Industriais dos Hospitais Civis de Lisboa, com um salário de 8$00, que em breve passa a 9$00.

Em 1942 um amigo empresta-lhe 300$00 com os quais compra os seus primeiros livros que são constituídos por volumes dos Cadernos Culturais Inquérito publicados pela Editorial Inquérito.

«Vivi com toda a naturalidade, sem nenhuma ambição. E como disse antes: «o que tiver de ser meu, às mãos me há-de vir ter, uma coisa depois da outra. Por vezes digo que talvez hoje tenha tudo porque nunca quis nada. Esta é a pura realidade: nunca quis nada.»

E assim aconteceu: um dia deram-lhe o Prémio Nobel.

Um Nobel que leu Cadernos Culturais da Inquérito, possíveis porque um amigo lhe emprestou 300 escudos.

Um Nobel que tanta e tanta  gente desejou, rezou, que quando fosse atribuído a um escritor português calhasse a António Lobo Antunes, ou Agustina Bessa-Luís.

 «Há gente que me odeia pelo simples facto de existir», disse um dia.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Poderá pensar-se que Pedro Passos Coelho ainda não digeriu o facto de, tendo ganho umas eleições legislativas, coligado com Paulo Portas,  tenha assistido depois ao passe de mágica de ver o Partido Socialista governar o país em geringonça.

Essa azia tem vindo a impedir o regresso de Passos à política.

Marcelo Rebelo de Sousa nunca simpatizou com Pedro Passos Coelho e daí partirmos para o que lhe deu na cuca para, assim num qualquer repente, desatar a idolatrar o ex-primeiro ministro.

Primeiro, em Amarante, numa evocação dos 100 anos de Agustina Bessa-Luís, considerar que o país ainda deve esperar muito do contributo de Passos , na sexta-feira reafirmando que Pedro Passos Coelho é um activo politico para o futuro e que apenas diz o que muitos portugueses pensam e pedem.

O Expresso desta semana, fora da sua secção «Gente», disse a Marcelo que os elogios que fez a Passos não terão sido bem recebidos pelo ex-primeiro-ministro,

De que terá medo Marcelo?

DAMAS AO BUFETE


É necessário dois para dançar o tango, mas já vos disse que, como tenho cá em casa um pezudo que não gosta de dançar, só ouve música e gosta de ver dançar, em determinados afazeres domésticos, ligo o rádio e danço sozinha.

Nos velhos bailes dominicais das sociedades de bairro, o conjunto fazia uma pausa e o vocalista informava que era tempo de damas ao bufete.

Tacinha de vinho branco para os cavalheiros, laranjada para as damas.

Colaboração de Aida Santos



 



sábado, 22 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Sim, da chuva se poderá dizer: são confetes que caem do céu.

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS



 Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constituem os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Momentos Difíceis.

João Marques Lopes publicou em 2010 uma Biografia de José Saramago.

Na revista Visão, Marques Lopes conclui que Saramago, no sentido sartriano, era um «intelectual total» que também escreveu romances e peças de teatro.

«José Saramago era um sobrevivente e um autodidacta mas ao contrário de Jean-Paul Sartre, cresceu em condições económicas difíceis( viveu com os pais em partes de casa, com outras famílias, sem possibilidade sequer de comprar livros) e, já empregado, foi despedido um primeira vez por causa da sua actividade sundical, um amargo de boca que reviveria depois da revolução ao ser saneado do DN. E não passara do antigo 5º ano do liceu, o que na altura era bom embora ficasse aquém dos outros literatos com quem dividia as atenções dos leitores.»

Biografia, página 23:

«Durante o período em que viveu com os pais, até aos vinte e um anos, Saramago passou por dez casas diferentes em Lisboa. Até 1937, quando por fim alugaram um pequeno andar independente no número 11 da Rua Carlos Ribeiro à Penha de França»

Página 30:

«Não foram poucas as vezes, no tempo da adolescência, que ocupei um envergonhado lugar na fila de aspirantes à sopa e ao quarto de pão que se serviam naquele atarracado e soturno edifíciofronteiro à igreja dos Anjos.»

Página 31:

«… a aprendizagem da língua estrangeira haveria de servir para a tradução remunerada de dezenas de livros, ajudando a equilibrar as finanças ou sendo até o único ganha-pão em momentos difíceis. Não eram contrapontos que indicassem propriamente a construção de um escritor, mas prenunciavam um mundo diferente para um jovem com os antecedentes socioecnómicos de Saramago e com comportamentos tão desviantes dos seus meios como o de frequentar a ópera no Teatro Nacional de S. Carlos, para a qual entrava por amizade de um porteiro relacionado com o seu pai a partir de cujo «galinheiro» bem mais ouvia do que via as representações por causa do camarote rela que tapava parte do palco… Algo estava ali em gestação!»

Página 32:

À data, vive ainda com os pais no pequeno andar independente do número 11 da Rua Carlos Ribeiro, à Penha de França. Entre a casa, o emprego e as bibliotecas, o serralheiro mecânico iniciava um tímido processo de mobilidade social. Transitava a amanuense. Estava prestes a comprar os seus primeiros livros – todos da colecção «Cadernos Inquérito», à época instrumento importante de divulgação cultural e generalista – graças ao empréstimo de trezentos escudos feito por um colega de trabalho. E conservava o hábito de frequentar sistematicamente as bibliotecas públicas.»

O INVERNO QUE SE APROXIMA...

«A guerra da Ucrânia vai-se agravar em termos militares, em termos de destruição, em termos de mortes civis. A guerra da Ucrânia não tem solução negociada. A guerra da Ucrânia vai-se alastrar em termos geográficos e nacionais. A guerra da Ucrânia vai chegar ao limiar de um conflito nuclear, não penso que o ultrapasse. Para já.

Quem não compreende isto não se prepara como deve. Nenhuma previsão realista pode deixar de ter em conta estas circunstâncias: estamos em guerra com todas as consequências económicas, sociais, militares e políticas. Não é uma questão de a desejarmos, é um facto. As acusações de belicosidade só podem ter um destinatário, Putin, e, quando não têm e misturam tudo, são pura hipocrisia.»

José Pacheco Pereira no Público

QUOTIDIANOS

«Ex-preso político com direito a vista privilegiada para o mar revolto de Peniche, contou-me ele, anos passados do 25 de Abril, que um dia se cruzou com três Pides conhecidos que tomavam a bica ao balcão do café perto da nossa casa.

"E o pai, o que fez?", perguntei eu, jovem. 

E o meu pai: "O que fiz? Tomei a minha bica e vim-me embora sem pagar. Estou velho. Eles eram três. O que querias tu que fizesse?"»

Ana Cristina Leonardo

NOTÍCIAS DO CIRCO

Ontem no Jornal de Notícias: «Agravamento do custo de vida fez disparar furto de alimentos nas superfícies comerciais. Leite, salsichas e latas de atum estão entre os produtos mais roubados.»

sexta-feira, 21 de outubro de 2022

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 A Colecção Vampiro começou a publicar-se em Abril de 1947, cujo 1º número é Poirot Desvenda o Passado de Agatha Christie.

Em Março de 1989 publica-se este nº 500.

Esta edição comemorativa também inclui a lista das obras publicadas na Colecção Vampiro por ordem alfabética.

São mais de 700 os volumes publicados na Colecção Vampiro.

Grande parte das traduções deixam muito a desejar.

Mas convém recordar que Mário-Henrique Leiria traduziu O Imenso Adeus de Raymond Chandler nº  da colecção e Alexandre O'Neill traduziu  A Sombra Chinesa de Georges Simenon, nº 71 da colecção E estas são mesmo traduções de qualidade.

FernandoPessoa também traduziu, se bem que parcialamente, O Caso da 5ª Avenida de Anna Katherine Green.

No caso das capas da Colecção Vampiro também há que slientar que nem todas são famosas, mas não se podem deixar de referir as da autoria de Cândido Costa Pinto e Lima de Freitas.

Em Maio de 2022 começou a ser publicada uma Nova Série da Vampiro.

O 1º volume desta nova série é Os Crimes do Bispo de S.S. Van Dine.

Reedição de volumes já publicados anteriormente mas com novas capas e novas traduções.

OLHAR AS CAPAS

Quem Matou o Almirante?

Agatha Christie – Dorothy L. Sayers – C.K. Chesterton e Outros

Tradução: Raul de Sousa Machado

Capa: A. Pedro

Colecção Vampiro nº 500

Livros do Brasil, Lisboa 1989

Três olhares através das volutas de fumo de ópio, três histórias que ainda pairam sobre um esquálido antro de ópio em Hong-Kong, podem muito bem ser consideradas como ideias irrealizáveis quando vistas a esta distância.

quinta-feira, 20 de outubro de 2022

CASA DE BONECAS

Viam-se do quarto n.º 405

e pareciam,

à primeira vista, gente.

Mas não; eram apenas bonecas

a tomar diariamente chá

numa mesa colorida pelo desespero.

 

A única pessoa, já velha, era

a que veio pôr a secar

umas largas cuecas brancas,

em perfeito contraste

com o tule rosado das bonecas.

Manuel de Freitas

quarta-feira, 19 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO

A minha biografia não tem nada de extraordinário. Ou talvez tenha, sem eu saber. Hei-de perguntar a alguém que me conheça.

Manuel António Pina

Legenda: pormenor da capa da autoria de Ilda David de Poesia Reunida de Manuel António Pina.

UM SÍTIO ONDE POUSAR A CABEÇA


Em Lisboa, desde a madrugada que chove torrencialmente.

Há dez anos ficávamos a saber que Manuel António Pina decidira ir poetizar e fumar cigarrilhas sabe-se lá para onde.

Nem o seu grande amigo e seu excelente biógrafo Álvaro Magalhães sabe onde ele está.

Claro que temos ali os seus poemas, as suas crónicas, todas as suas palavras mas porra!, não é bem a mesma coisa.

A sua presença faz-nos muita falta!

Como um dia disse:

«Os Livros que li foram importantíssimos para minha escrita, as maiores emoções – desastres, mortes, amores fatais, foi em livros que li que vivi.»

Pina gostava de livros, gostava de os escrever, gostava de os ler, gostava que fossem objectos bonitos e pensava em tudo para que isso acontecesse.

Na página 297 de Para Quê Tudo Isto?, Álvaro Magalhães lembra:

«Era um poeta de produção escassa, contava os poemas para saber se chegavam para compor uma lombada de livro que se visse. Também se preocupava com aspetos invulgares, entrando em guerra com as páginas, as pares e as ímpares: «Fiz poemas de propósito para estarem em determinado sítio dos meus livros. Por exemplo, quando um poema é um bocadinho longo, e ocupa mais do que uma página par (plano da esquerda) e acabe numa página ímpar (plano da direita). Há uma respiração que é preciso ter em conta.»

O seu primeiro poema, incluído nesse livro com o título, logo isso um outro poema, «Ainda Não é Fim Nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas Tarde» tem como primeiro verso: «Os tempos não vão bons para os mortos».

Os tempos não vão bons para nós, os mortos.
Fala-se de mais nestes tempos (inclusive cala-se).
As palavras esmagam-se entre o silêncio
que as cerca e o silêncio que transportam.

É pelo hálito que te conheço no entanto
o mesmo escultor modelou os teus ouvidos
e a minha voz, agora silenciosa porque nestes tempos
fala-se de mais são tempos de poucas palavras.

Falo contigo de mais assim me calo e porque
te pertence esta gramática assim te falta
e eis por que não temos nada a perder e por que é
cada vez mais pesada a paz dos cemitérios.

Continua a chover torrencialmente em Lisboa.

DOCKERY PLANTATION (BIRTHPLACE OF THE BLUES?)


Embora faça todo o sentido, a interrogação não é minha, mas sim da própria “Mississippi Blues Commission”, numa daquelas placas azuis que, nesse Estado, assinalam tudo quanto é lugar importante na História do Blues. 

Tal como nos alerta David Evans logo no início do capítulo dedicado ao Blues do livro “American Roots Music” (pág.34), “although you can trace the probable roots of the blues, its actual birth remains shrouded in mystery. No one knows precisely who performed the first blues song, or where”. 

É por isso que garantir, nos dias de hoje, o preciso local e data onde nasceu o Blues é uma tarefa quase tão difícil como …. (iria surgir aqui uma bicada anti-benfiquista mas, felizmente, a censura interveio a tempo…). 

Entre os finais do séc. XIX  e o início do séc. XX há notícia do aparecimento de músicas muito semelhantes ao Blues em, para além da Louisiana e do Mississippi, locais tão diferentes como o Arkansas, o Texas, o Tennessee, a Geórgia e até lá mais acima, na Virgínia, no Kentucky e no Missouri.

Se nos atendermos aos acontecimentos mais relevantes nos primórdios do Blues, chama-nos a atenção o facto de eles terem ocorrido em locais muito distintos.

Curiosamente, tal como o Fado nos seus primórdios no Brasil, os primeiros Blues eram uma música de dança, instrumentais com uma grande influência do “ragtime”. A primeira música conhecida a utilizar a palavra “blues” no seu título data de 1908, chamou-se “I Got the Blues”e era um instrumental de um violinista de New Orleans de nome Antonio Maggio.

Blind Lemon Jefferson, uma das grandes figuras dos primórdios do Blues e o primeiro “bluesman” a ser alvo de uma gravação, era natural do Texas e começou a cantar em público na segunda década do séc. passado nos bordeis de Elm Street, em Dallas  

W. C. Hardy, o autor dos primeiros êxitos de um blues instrumental, primeiro com “Memphis Blues” e depois, mais tarde e ainda com maior sucesso, com o celebérrimo “St. Louis Blues”, era natural de Florence, no Alabama, e desde muito cedo começou a viajar por todos os Estados Unidos, primeiro sozinho e, mais tarde, levando consigo a sua banda e a sua Música. Na sua autobiografia conta que desde os finais do séc. XIX se recorda de ter ouvido canções que se assemelhavam muito ao Blues não só no Mississippi, mas também no Indiana e no Kentucky 

Um dos primeiros grandes sucessos do blues a nível nacional, que terá vendido um milhão de cópias num curto espaço de tempo, foi “Crazy Blues”, que Mamie Smith gravou para a “Okeh Records” em Agosto de 1920. Ora essa gravação foi feita em New York e Mamie Smith era uma veterana cantora de “vaudeville” que trabalhava nos clubes noturnos de Harlem, era natural de Cincinnati e nunca antes tivera qualquer ligação pessoal ao Sul profundo. Foi a primeira gravação de uma cantora afro-americana a ser especificamente rotulada como Blues.

Nos Apalaches da Virginia surgiu um tipo específico de Blues a que se chamou “Piedmont Blues”, ao qual ficaram ligados, logo a partir dos anos 20 do séc. passado, nomes como Blind Gary Davis e Blind Boy Fuller e, mais tarde, Sonny Terry, Etta Baker e Elizabeth Cotten. A título de curiosidade, o nome dos Pink Floyd ficou a dever-se à junção dos nomes de dois interpretes deste tipo de Blues, o vocalista Pink Anderson e o guitarrista Floyd Council, que tocaram juntos num disco que os membros da banda costumavam ouvir em casa de Syd Barrett.   

Melhor será reconhecer, então, que não existiu apenas um tipo de Blues, mas vários, e que a mera distinção entre “blues rural” e “blues urbano”, que tantas vezes se fez, não é suficiente para englobar toda a multiplicidade de variantes que essa música pode assumir. 


Sendo tudo isto verdade, uma coisa, porém, é certa: hoje, quando olhamos para trás e falamos do velho Blues, é de nomes como Blind Lemon Jefferson, Charlie Patton, Robert Johnson, Bessie Smith, Big Bill Bronzy, Big Joe Williams, Son House, Leadbelly, Howlin’ Wolf, Mississipi John Hurt, Sonny Boy Williamson, Willie Dixon, John Lee Hooker, Skip James, Bukka White, Muddy Waters (meu Deus, eles são tantos que tenho de parar…!) que falamos.  E, com exceção de Blind Lemon, Bessie Smith e Leadbelly, todos os restantes são oriundos do Delta do Mississippi.

O que terá existido, então, de particular em toda essa grande região, que se estende desde Vicksburg, no Mississipi, às proximidades de Memphis, no Tennessee, para ter possibilitado o surgimento desse tipo de música? 


Uma enorme pobreza, 80% de população negra e trabalho árduo no campo, direi eu.

Na “Enciclopédia Ilustrada do Jazz & Blues” (pág 14) afirma-se que “o sistema de plantações de algodão do Delta do Mississippi gerou uma cultura do blues particularmente concentrada e prolifica, pois ao fim de semana os trabalhadores procuravam alivio para os seus males em festas domésticas, em “juke joints”, em jantares rurais, nos churrascos de peixe e nos piqueniques, ou nos cafés, saloons, barrelhouses, clubes noturnos e bordeis da cidade mais próxima”.

E depois acrescenta o que já atrás vos disse, ou seja, que o Blues “servia principalmente como música de dança, tocada por tocadores de banjo, bandolim e guitarras, grupos de cordas com violinos, tocadores de harmónica e washboard, pífaro e tambor, e jug bands”, e que  “no topo da escala dos artistas estavam os pianistas”, sendo o piano “o mais importante instrumento do blues ao longo de várias décadas”.

Na citação atrás mencionada existe uma frase-chave que é “os trabalhadores procuravam alivio para os seus males”…

Num dos documentários realizados  sob a égide de Martin Scorsese alguém diz (penso que Son House, mas não garanto…) que para se ter voz e alma para cantar o blues era preciso saber o que era estar de sol a sol a lavrar a terra com um arado e a berrar com a mula que o puxava…!

Assim sendo, não se podendo afirmar, ou negar, com absoluta certeza, que o Blues nasceu no Delta do Mississippi, já se torna possível garantir que foi aí, na dura vida das suas plantações e na extrema exploração e segregação a que estavam sujeitos os seus trabalhadores que nasceu o Blues rural mais cru, mais pungente e mais sofrido que nos ficou na memória. E também o mais resistente já que, quando a voz humana começou, progressivamente, a acompanhar o som instrumental, por vezes ao se cantar acerca de uma mulher amada que não nos merecia, que nos fazia sofrer e que nos tratava mal, bem lá no fundo era do capataz e/ou do patrão que se estava a falar.  

De todas as plantações que existiram no Delta do Mississippi, duas houve que tiveram uma importância fulcral no desenvolvimento do Blues em toda essa região: Stovall Plantation, onde viveu e trabalhou Muddy Waters e, acima de tudo, Dockery Plantation, por onde passaram um número muito significativo dos clássicos intérpretes do Blues, como trabalhadores a tempo inteiro, a tempo parcial, simples biscateiros ou músicos semi-profissionais que por lá passavam para animar as festas de que atrás se falou.

 Dockery Plantation foi estabelecida nos finais do séc. XIX  e prosperou nas primeiras décadas do séc. XX, sobretudo com o cultivo do algodão, mas não só.

Chegou a empregar 2.000 trabalhadores e era de uma extensão tão grande (104 km2) que no seu interior disponha de um apeadeiro de comboio, uma estação de correios, uma bomba de gasolina, diversos armazéns de venda de produtos e uma grande Igreja, para além de várias capelas mais pequenas.

Como se se tratasse de um estado dentro do próprio Estado, Dockery tinha a particularidade de cunhar a sua própria moeda e com ela pagar à maior parte dos seus trabalhadores, que com esse dinheiro se podiam abastecer do que necessitassem para a sua sobrevivência nos grandes armazéns da Plantação. 

Esta era uma maneira extremamente hábil de manter toda uma população de trabalhadores ditos “livres” amarrados à terra, sobretudo quando as primeiras grandes indústrias do Norte se apresentavam já como um grande polo de atração à imigração interna.

Por muito dinheiro que os trabalhadores de Dockery conseguissem juntar (e, geralmente, não o conseguiam…), isso de nada lhes serviria fora dos portões da Plantação. 

E como havia sempre um grande incentivo à compra a crédito nos armazéns da Plantação, esta subtil forma de manutenção do trabalhador na permanente dependência do seu patrão era ainda mais acentuada, tal como nos lembra a célebre canção “Sixty Tons”.

“You load 16 tons, what do you get?

Another day older and deeper in debt

St. Peter, don’t call me ‘cause I can’t go

I owe my soul to the company store”

Charlie Patton, um dos precursores do Blues, foi, ainda rapazinho e na companhia da sua família, um dos primeiros futuros músicos a ir trabalhar para Dockery. Mas não foi o primeiro porque ele próprio terá aprendido a tocar com Henry Sloan, um músico mais velho que já lá se encontrava.

Mas a fama de Patton como músico não só virtuoso, mas também explosivo e exuberante nas suas atuações, começou a alastrar. 

No geral, todos queriam ir trabalhar para Dockery, porque parece que, em comparação com outras plantações da região, os seus trabalhadores não eram muito maltratados. Mas no que se refere aos músicos ou candidatos a músicos, todos queriam, acima de tudo, ver, ouvir e aprender com Charlie Patton.

De forma intermitente, Charlie Patton terá vivido em Dockery durante as primeiras três décadas do séc. XX e, a exemplo dele, outros músicos tão importantes como Willie Brown, Son House, Howlin’ Wolf, Robert Johnson, Willie Dixon, Tommy Johhson e Pops Staples, o futuro pai dos “Staple Singers”, por lá passaram, o que deu a essa Plantação a fama de ter sido, de facto, o local onde o Delta Blues nasceu e se desenvolveu.

Com o passar dos anos e o progresso da mecanização agrícola, a Plantação foi perdendo relevância em número de trabalhadores e diversificando a sua produção.

Quanto aos músicos do Delta, a maior parte deles abandonou as respetivas plantações e seguiu em direção ao Norte para Memphis, St. Louis e, sobretudo, Chicago, onde na década de 50 nomes como Muddy Waters, Howlin’ Wolf e Sonny Boy Williamson viriam a dar origem a um novo tipo de Blues urbano, o chamado “Chicago Blues”.     

Hoje Dockery Plantation pouco mais é do que um enorme museu ao ar livre dedicado à História do Blues e do trabalho rural.       

Ao contrário do que sucede com outros lugares célebres do Mississippi profundo, chegar a Dockery é a coisa mais fácil deste Mundo. Apanha-se a Estrada 49 que sai de Clarksdale e em menos de uma hora ela surge-nos bem visível, à esquerda, mesmo à beira da estrada.

Aqui vos deixo algumas fotografias, incluindo a bomba de gasolina e a bonita igreja principal.  

PS:

Já vos dei essa informação noutra ocasião mas, tendo já passado algum tempo, nunca será demais relembrar… Não sendo eu um especialista do Blues, nem pretendendo fingir que o sou, a maior parte das informações fatuais constantes deste texto foram obtidas nas seguintes três obras: “Enciclopédia Ilustrada do Jazz & Blues” (2005), organizada por Howard Mandel, de que existe tradução portuguesa nas Edições Afrontamento; “American Roots Music” (2001), cujo principal Coordenador foi Robert Santelli; “The Land Where The Blues Was Born” (1993), de Alan Lomax, do qual utilizei uma edição francesa da Editora Les Fondeurs de Briques.

Depois de duas ou três visões nos últimos anos, é natural que também qualquer coisa me tenha ficado na memória da séria “Martin Scorsese Presents: The Blues”, composta de sete documentários realizados por diversos realizadores    

 

Texto e fotografias de Luís Miguel Mira

terça-feira, 18 de outubro de 2022

DENTRO DAS IMAGENS

Os poemas têm veneno na boca.

 

Na estrada da minha vida

plantei a árvore

sem saber quem era.

 

Em que parte do planeta

há mais ódio? A matéria

erosiva transforma o corpo

e não há regresso. Não

restará um monte de estrume.

 

Em todo o lado

parece que o mundo em desordem

pouco a pouco enlouqueceu

e os homens atam a corda

à espera de que aconteça.

 

São infelizes

mas não o suficiente.

Não sabem dizer

por que se esquecem de amar.

 

Isabel de Sá

segunda-feira, 17 de outubro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS

Quando chateado com o quotidiano, quando chateado com o mundo, José Cardoso Pires desabafava que a culpa era dos padres.

Ouvindo os disparates, os erros de análise de tudo e mais alguma coisa, que o bispo do Porto, o bispo de Leiria e Fátima bolsaram, há dias, sobre o drama sexual das crianças que se vive nas sacristias, podemos pensar o que andou gente como esta a ler, a pensar nos seminários, nos recolhimentos, nas secretas aulas eclesiásticas.

Tirando as citações da Bíblia que admito que as saibam, mas não chegam à sua  interpretação, revelam um analfabetismo arrepiante. Podem ter saído das aldeias onde nasceram, mas as aldeias nunca saíram dentro deles.

Há uma ínfima minoria que não é assim tão boçal e ignorante, diga-se.

José Saramago, confesso ateu, leu e interpretou muito melhor os textos que toda esta gente. Os sublinhados saramaguianos abordam a religião e têm Deus como alvo.

«Seria mais cómodo acreditar em Deus, mas escolhi o lugar da incomodidade.»

«Deus é uma criação humana e, como muitas outras criações humanas, a certa altura toma o freio nos dentes e passa a condicionar os seres que criaram essa ideia.»

Entrevista ao Expresso, 2 de Novembro de 1991

«Sou um ateu produzido pelo Cristianismo.»

Entrevista ao Jornal do Fundão

«As religiões nunca serviram para aproximar os seres humanos. A história de uma religião é sempre uma história do sofrimento que se inflige, que se auto-inflige ou que se inflige aos seguidores de outra e qualquer religião. E isto parece-me de tal forma absurdo que creio mesmo que o lugar do absurdo por excelência é a religião.»

Diálogos Com José Saramago, Carlos Reis, pág. 144

«Para mim sempre foi muito claro: Deus não existe.»

Diálogos Com José Saramago, Carlos Reis, pág. 145

«Eu tenho umas contas pendentes com Deus, porque há coisas que não lhe perdoo, como a de supostamente existir, Não suporto a maldade e a hiprocisia que cresceram à sombra não só do cristianismo como das religiões em geral, que nunca serviram para unir os homens»

Entrevista ao jornal La Provincia, Março de 2009

«Como será possível acreditar num Deus criador do Universo, se o mesmo Deus criou a espécie humana? Por outras palavras, e existência do homem, precisamente, é o que prova a inexistência de Deus.»

Cadernos de Lanzarote, Vol. I, pág. 26 

ORQUÍDEAS

Foi um erro substituir

por orquídeas

as flores artificiais

no centro da mesa.

Exigem luz, cuidados,

uma humidade temperada.

Bem as conheço:

flores venenosas

donas de uma beleza gratuita.

Às outras bastava passar

o pano do pó às vezes,

nem olhava para elas,

para as suas folhas baças,

para os seus ramos secos de arame;

estas ensinam-me, com esplendor, a tua morte,

a ferida com que o mundo vai acabar.

Luís Filipe Parrado

domingo, 16 de outubro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Em geral, nós somos o discurso dos outros. Nós, por nós próprios, não temos discurso. Não devemos ter. Mas mesmo que quiséssemos ter também não tínhamos. Agora, cada um, no seu relacionamento com o outro tem uma imagem. Culturalmente, no domínio da imagem pública, sou um ensaísta. E já estou crucificado nessa maravilhosa cruz.

Agustina Bessa-Luís

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS



Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constituem os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

No dia 14 de Outubro de 1922 nascia Agustina Bessa-Luís.

Também há cem anos mas a 16 de Novembro nascia José Saramago.

Tempo para recordar algumas abordagens que Saramago fez a Agustina.

Peguemos antes de mais no livro José Saramago: A Luz e o Sombreado de Fernando Venâncio:

Fomos muitos os que passámos uma fase de deslumbramento por Agustina. De José Saramago é que não se adivinhava semelhante fraqueza. São duas as vezes que dela na Seara Nova se ocupa, à distância de seis meses, e tanto parece ter bastado para a quebra do feitiço. Decerto: logo começara por achar que as ideias da romancista “não se limitam a ser conservadoras: são retrógadas.” Mas, pergunta-se ele, “como é possível não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo?” E conclui: se há em Portugal “um escritor de génio”, esse é Agustina Bessa-Luís.

Saramago estava apanhadinho. Mas, meio ano depois, caía em si. Começa devagar, com passos de felino: “Sendo ou não sendo o maior escritor de hoje, é caertamente o que melhor domina e molda o barro da língua.” Mas… ela tem “os defeitos das suas virtudes”, E poderá acabar embalada na música que ela própria produz. Deste modo, “tanta beleza plástica, tanta profundidade”, vão terminar afundadas na confusão, na incoerência.

Pode dizer-se: José Saramago admirava Agustina Bessa Luís.

É numa crítica, publicada na Seara Nova de Maio de 1967, ao livro de Agustina As Relações Humanas, que Saramago expõe essa admiração:


Algumas das ideias de Agustina Bessa Luís não se limitam a ser conservadoras: são retrógradas. Repugnam a um nosso deliberado amor de claridade, de abertura para o inteligível, de definição e construção de um sistema de relações em que a magia não seja utilizada como meio (entre tantos) de dominação de classe. Mas… Como é possível, resistindo e opondo-nos embora no plano das ideias e da sua prática, não ser submergido pela beleza torrencial desta escrita, que não tem igual na literatura portuguesa deste tempo? Como é possível ficar indiferente a certas bruscas iluminações que vão mais longe e mais fundo, no sentido do conhecimento de si e do outro, que todo o material de análise que comumente manuseamos? Como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vá esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?

(…)
Quem escreve assim, quem assim resolve, mistura e separa um universo de figuras dramáticas, mais que humanas, num cenário que mesmo quando quotidiano, apresenta sempre um ondular crispado de mundo em transe de criação, pode dar-se talvez ao supremo desdém de não exprimir ideias concretas ou de exprimi-las segundo uma escala de valores para nós, mortais de consumo corrente, ultrapassada e negativa. Fica uma lição e uma profissão de beleza. E a beleza, essa, não é concretamente um valor ultrapassado.

Fica por saber, se José Saramago manteve, para sempre, essa admiração.


Numa entrada, 10 de Outubro de 1994, no 2º volume dos Cadernos de Lanzarote, escreve José Saramago:


Agora chegou-me a notícia de que Agustina Bessa Luís passou a dedicar-se também a estas activ9dades conjuntas de polícia, ministério público e juiz. Declarou que eu não sou um «grande escritor», que sou apenas «produto de diversas circunstâncias»… Ser eu, ou não, um «grande escritor» não tiraria nem acrescentaria nada à glória literária e à importância social de Agustina Bessa Luís, mas isso para ela é insignificante perante a ocasião que lhe deram de mostrar-se tão traquinas quanto lho pede a natureza. Mesmo que demoradamente explicasse, Bessa Luís não compreenderia que nunca pretendi ser um «grande escritor», mas um escritor simplesmente. Bessa Luís tem os ouvidos tapados para estas distinções, tão tapados como parece que esteve neste caso o seu entendimento ao deixar os leitores da entrevista dada ao Independente sem saber – porque as não mencionou – de que as circunstâncias perversas sou eu mistificador produto. Muito pior ainda, se é possível, foi ter Agustina Bessa Luís calado as circunstâncias que fizeram dela a «grande escritora» que sem dúvida acredita ser…


Anos mais tarde, em Uma Longa Viagem com José Saramago, dirá a João Céu e Silva:


Não que seja um génio, mas apareço com o meu trabalho feito e a natureza do meu trabalho, o meu tipo de escrita, os temas que eu trato – que saem fora da rotina mais ou menos convencional de uma situação sentimental ou de conflito familiar. Isso é uma área que não me interessa – e os livros têm êxito, os leitores multiplicam-se e isso não se me perdoou. O Vergílio Ferreira… A Agustina, numa entrevista que deu disse que em Portugal só havia dois escritores que mereciam o Prémio Nobel: um era o Vergílio Ferreira outro era ela. E também diz a certa altura: «Não o José Saramago não é um grande escritor. É o produto de certas circunstâncias» e por aqui se ficou. Nem disse quais eram as circ8unstãncias nem disse como é que se chegava a ser grande escritor como certamente ela supunha que era. Não vale a pena, no fundo a inveja é uma coisa que todos mais ou menos sofremos. Alguns dominam-na e transformam-na noutra coisa. Se eu invejo aquele tipo que aquele tipo que é mais alto do que eu, vou fazer ginástica para ser mais alto que ele…

Enquanto crítico da Seara Nova, José Saramago debruçou-se duas vezes sobre livros de Agustina Bessa Luís:  As Relações Humanas e  Homens e Mulheres. 

Numa chamou “génio” a Agustina, noutra disse que Agustina “corre o risco muito sério de adormecer ao som da sua própria música”

Quem não achou piada alguma à história foi José Gomes Ferreira, possivelmente, por entender que José Saramago seria a última pessoa no mundo a chamar génio a Agustina Bessa-Luís. 

A 2 de Janeiro de 1968 escreve José Gomes Ferreira no 4º volume dos seus Dias Comuns:

«Quase todos os críticos têm chamado génio a Agustina Bessa Luís (verdade seja que alguns depois se arrependem; Gaspar Simões, Óscar Lopes, José Régio, sei lá quantos).

Agora, chegou a vez ao Saramago que, no último número da “Seara Nova”, não resistiu a proclamar: “como é possível não reconhecer e declarar que se há em Portugal um escritor onde habite o génio (vã esta palavra, ainda que perigosa e equívoca) esse escritor é Agustina Bessa Luís?»


Legenda: Recorte da crítica de José Saramago ao livro «Relaçoes Humanas» de Agustina Bessa-Luís publicado na «Seara Nova» nº 1467, Janriro de 1968.

NOTÍCIAS DO CIRCO

Pedro Passos Coelho.

Acusou os portugueses de eternos kalimeros, convidou os jovens à emigração, roubou valores importantes aos ordenados e reformas dos portugueses, outras sacanices que agora não me apetece lembrar, passou além do que a troika exigiu.

Marcelo aproveitou, ontem, uma lembrança da data centenária do  nascimento de Agustina Bessa Luís para, em Amarante, para saudar Pedro Passos Coelho que estava na primeira fila da assistência.

«Sendo tão novo, o país pode esperar, deve esperar muito ainda do seu contributo no futuro, não tenho dúvidas.»

Já não paciência.

Há dias, os disparates sobre os casos de abuso sexual de menores nas sacristias das igrejas, agora esta sobre Passos Coelho, o enorme homem-político do nosso futuro.

Reparo ainda que ainda falta uma imensidão de tempo para que saia de Belém