domingo, 17 de outubro de 2010

O ORÇAMENTO


- Sei apenas duas coisas muito simples, disse Heikal.
- São talvez as que eu próprio sei.
- Sem dúvida. É por isso que aqui estou, e é por isso que podemos falar com toda a franqueza.
- Diz-me então a primeira dessas coisas. Sou todo ouvidos.
- A primeira é que o mundo onde vivemos é regido pela mais ignóbil quadrilha de tratantes que alguma vez pisou o chão deste planeta.
- Subscrevo por inteiro essa afirmação. E a segunda?
- A segunda é esta: acima de tudo, convém não os levarmos a sério; é isso que eles querem, que os levemos a sério.

Albert Cossery em "A Violênciua e o Escárnio"

EQUINÓCIO


Chega-se a este ponto em que se fica à espera
Em que apetece um ombro   o pano de um teatro
um passeio de noite a sós de bicicleta
o riso que ninguém reteve num retrato

Folheia-se num bar o horário da Morte
Encomenda-se um gim enquanto ela não chega
Loucura foi não ter incendiado o bosque
Já não sei em que mês se deu aquela cena

Chega-se a este ponto    Arrepiar caminho
Soletrar no passado a imagem do futuro
Abrir uma janela    Acender o cachimbo
para deixar no mundo uma herança de fumo

Rola mais um trovão    Chega-se a este ponto
em que apetece um ombro e nos pedem um sabre
Em que a rota do Sol é a roda do sono
Chega-se a este ponto em que a gente não sabe

David Mourão-Ferreira do livro Do Tempo do Coração em Obra Poética 

Legenda: Não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

ONDE É QUE ESTÁS?


O telemóvel é um objecto útil.
Simplesmente, na esmagadora maioria dos casos ,é utilizado para disparates e banalidades.
Hoje no metro uma jovem entrou ,e ainda mal se tinha sentado, já estava com o telemóvel na mão.
Segundo o “Público”,14.909.595 era o número de assinaturas de telemóvel em 2008, para uma população residente de 10.627.250 pessoas.
Cada português tem, em média, mais que um telemóvel.”
Digo eu: os portugueses, em média, não chegam a ler um livro por ano.
Curiosamente os maiores analfabetos que conheço sabem ler e escrever!...

sábado, 16 de outubro de 2010

ADRIANO


Adriano Correia de Oliveira ,“alguma coisa de criança”, no dizer de Urbano Tavares Rodrigues.
Morreu no dia 16 de Outubro de 1982.

Tinha 40 anos. 

Foi um dos cantores mais desrespeitado e explorado.

Nem o Partido, a que orgulhosamente sempre pertenceu, lhe prestou o devido valor.

O Adriano não era um sectário, nem alinhava em capelinhas, pela simples razão de entender que o Partido não é nenhuma congregação religiosa.

Pensar pela própria cabeça tem riscos, e o sectarismo de muitos dos seus camaradas afectou-o profundamente. Junto a outras pequenas-grandes-coisas levaram o Adriano à morte.

Morreu por escolha.

Tirado daqui, este poema de Rui Namorado dedicado a Adriano Correia de Oliveira:

“Na secreta raiz de algum poema
tu nasceste por dentro das palavras.

Cantar era para ti uma viagem.
Sentias a revolta, nervo a nervo,
como um pássaro ferido.

Neste tempo rasteiro e abafado,
guardavas o veneno precioso.

Ias para longe de mais e o tempo passa:
os milhafres do nojo prosseguiam,
rasgando a carne pura do teu sonho.

Matavas o silêncio.
Mas na sombra do tempo houve uma pausa,
um outono mais rápido,
um inverno mais súbito.
E as pétalas da noite desabaram,
corroendo o teu nome de grinaldas perdidas”.

IDÍLIO EM BICICLETA



Não se repete a dor não se repete a alegria
inteiras renascidas de cada vez
por isso viver é a maravilha
de viver milhões de vidas
de haver sempre outra porta para abrir
e o desejo de abri-la

Poema de Fernando Namora, “Não Se Repete a Dor” em “Marketing”, Publicações Europa-América, Outubro 1978

Fotografia de Idílio Freire

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Deborah Kerr morreu a 16 de Outubro de 2007
.
Tinha 86 anos.

Quando se fala de  injustiças, em relação à atribuição dos “Óscars” da Academia, Deborah Kerr é um bom exemplo.

Participou em filmes espantosos, teve interpretações sublimes: “Até à Eternidade”, realizado por Fred Zinnemann, aquele beijo numa praia no Haway, “O Grande Amor da Minha Vida”, um filme de Leo McCarey, com Cary Grant, encontros e desencontros no topo do Empire State Building “Quando os Sinos Dobram”,  da dupla  Michael Powell-Emmric Pressburger, “O Espírito e Carne” de John Huston, uma freira e um Robert Mitchum perdido de bêbado, "Chá e Simpatia” de Vincente 
Minnelli, (“De cada vez que vejo este filme, mais ele me comove”, para citar João Bénard da Costa) e esse extraordinário  “A Noite de Iguana” de John Huston e as soberbas interpretações de Deborah Kerr, Ava Gardner e Richard Burton.

Nomearam-na seis vezes para um Óscar, mas nunca lho deram. Apenas em 1994 a Academia a premiou com um Óscar honorário de carreira.

Felizmente que os “Oscars” não fazem fazem a história do cinema.

No dia da sua morte, Ferreira Fernandes escreveu esta crónica no "Diário de Notícias":

“O filme Até à Eternidade (1953) tinha ficado na história universal da infâmia através de uma lenda. Frank Sinatra, no ponto mais baixo da sua carreira, queria um papel no filme. O produtor recusou. O cantor pediu a um amigo da Mafia que intercedesse. O produtor, depois de ter recusado de novo, acordou com uma cabeça de cavalo degolada na sua cama. Sinatra teve o papel, ganhou um Óscar e relançou a carreira. Até à Eternidade foi um bom filme, com a amizade de homens (Sinatra, Montgomery Clift...), um solo de trompete, um Ernest Borgnine sólido... Demasiadas boas coisas, tapando o essencial. Um homem e uma mulher apaixonam-se. Eles são belos (Deborah Kerr e Burt Lancaster) e dão o mais belo beijo do cinema (enrolados numa praia do Havai). Ela diz-lhe que foi o melhor beijo dela. Ele pergunta quantos já dera. Ela pergunta se ele trouxe a máquina de calcular. Eles estavam de fato de banho. Um dos pilares da minha civilização apoia-se naquela praia”

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

SALVOS!



Terminou bem o resgate dos 33 mineiros da mina S.an José no Chile.
Não posso esconder lágrimas de contentamento.
Nem sempre assim acontece e o mundo está cheio de tragédias que o foram mesmo.
Lembro-me, por exemplo, dos jovens russos que morreram no submarino “Kurst”: ento e catorze jovens, quase crianças, que perderam as suas vidas.
A libertação dos mineiros chilenos, faz-nos lembrar que, se todos os homens quisessem, muito diferente seria este nosso mundo.

OLHARES


Rodado de locomotiva a vapor do 1º Quartel do Seculo XX com o “Beira Gare” em fundo.

No site da “Casa da Achada-Centro  Mário Dionísio", que há dias comemorou o seu  1º  ano de existência, fiquei a saber que há um desenho de Mário Dionísio, possivelmente de 1948, que se destinava ao Café La Gare e que hoje é o “Beira Gare”

Tinha sido encomendado a Mário Dionísio pelos arquitectos Francisco Castro Rodrigues, José Huertas Lobo e João Simões, autores do projecto do café, que nunca se realizou por ter passado entretanto para as mãos de outros arquitectos.

A maquete colorida do desenho de Mário Dionísio foi iniciada mas não terminada. Como o projecto dos arquitectos não foi realizado, o mural também não.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Talvez não me encontrem num jardim nocturno da Europa e seja visto em granjas, arrozais, plantações de cana, no Maghreb, no último andar do Empire State Building, morrendo de amor como o King Kong. Provisório o caminho: mas caminho.

Eduardo Guerra Carneiro  em É Assim Que Se Faz a História, Assirio &Alvim, Lisboa 1973

Legenda: Imagem do filme King Kong de Ernest B. Schoedsak e Merian C. Cooper, 1933

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

SARAMAGUEANDO


Os Correios de Portugal homenagearam José Saramago emitindo um selo de 200$00.
O selo, da autoria de João Machado, apresenta um retrato de José Saramago, ao lado de uma paisagem alentejana de terra lavrada e inclui ainda uma coluna com um capitel, que pretende representar a ligação entre o trabalho do campo e a criatividade artística.

IDÍLIO EM BICICLETA


O sal é o mar servido à mesa, nas suas praias domésticas, de linho.

Poema de Carlos de Oliveira, “Definição”, em “Sobre o Lado Esquerdo”, “Iniciativas Editoriais”, Janeiro 1968

Fotografia de Idílio Freire

OLHARES


O estaleiro dos “Irmãos Castros” já está instalado na Praça da Figueira.
Faltam 73 dias para que seja Natal, outra vez.

OLHAR AS CAPAS


Exílio

Álvaro Manuel Machado
Capa: Álvaro Manuel Machado sobre um cartaz de Georges de Faure para “Paris Almanach”, 1895
Moraes Editores
Lisboa, 1978

E como é diferente a chuva em Paris da chuva em Lisboa aqui a chuva é como uma nódoa que se alastra sobre as pessoas e as coisas e que nada nem ninguém consegue apagar uma chuva que sufoca enquanto em Lisboa a chuva aparece que abre espaços desconhecidos e cria cores como
 isso: a chuva em Lisboa faz-me lembrar as cores dos berlindes da infância e é boa tem sabor um sabor a fruta fresca colhida pela manhã.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

SARAMAGUEANDO


Em Uma Longa Viagem com José Saramago, de João Céu e Silva, naturalmente, há diversas referências à atribuição do Prémio Nobel da Literatura.


Começo por esta, que é a descrição do próprio Saramago de como soube a notícia:

“Eu estava na Feira do Livro de Frankfurt, onde tinha participado numa mesa redonda com outros escritores, exactamente na altura em que o Prémio Nobel seria anunciado – normalmente é revelado na primeira quinta-feira do mês e eu estava na terça e na quarta em Frankfurt. A Pilar tinha ouvido uns “zunszuns” mas não queria, evidentemente, confirmar nada. Nem poderia… Na manhã do dia em que foi anunciado, quando ela me telefona – ou eu telefono do hotel, já não me lembro qual de nós o fez mas creio que foi ela disse-me: “Porque é que não ficas aí? Porque com essa coisa do Nobel nunca se sabe… E eu: “Pilar, eu fico aqui, não me dão o Nobel e perco o avião! Vou-me embora”. Fui para o Aeroporto de Frankfurt. O avião partia às 12,05 e o anúncio do prémio era feito ao meio-dia, altura em que o secretário da Academia Sueca vinha anunciar o nome do galardoado aos jornalistas que estavam no exterior. Ora, eu já estava na sala de embarque em Frankfurt e na fila dos passageiros para entrar quando, de repente, olho para o relógio e penso: “A esta hora já se sabe quem é que ganhou. É um pouco disparatado ir-me daqui sem saber…!” Então saio da fila, vou a um telefone, ligo para o sector de Portugal na Feira do Livro e mando chamar o Zeferino Coelho. Ele não estava ali e a pessoa que me atendeu foi à sua procura enquanto fiquei à espera. Nessa altura ouço uma voz no altifalante que me chama e ao mesmo tempo aproxima-se uma hospedeira da Lufthansa – apesar do avião ser da Ibéria – que vem com um telefone na mão e diz: 

“Está aqui uma jornalista que quer falar consigo”. O mais curioso é que a correspondente da televisão (Teresa Cruz) deve ter dito a razão porque ela não pôde conter-se e disse-me: “È que o senhor ganhou o Prémio Nobel”

Sei que estava evidentemente feliz, mas era uma felicidade que não se manifestava feliz porque era uma grande coisa da qual eu não tinha noção do tamanho.”

Mais à frente, o jornalista invoca a “rivalidade” com António Lobo Antunes, e Saramago responde:

“Não sei porquê, não há rivalidade, ele faz o seu trabalho e eu faço o meu. Agora o problema dele é que disse numa entrevista que ia ganhar o Prémio Nobel e depois não o ganhou. Pronto acabou, não há mais. Às vezes dizem-me “Ele disse aquilo de ti”, mas isso não me importa nada, eu não alimento polémicas com ninguém. Que não esperem a satisfação da minha resposta a uma crítica mal-intencionada – que de vez em quando aparecem – ou a uma acusação de qualquer tipo. Não contem com uma resposta que eu não a dou, é um princípio sagrado. Quanto ao António Lobo Antunes, chegámos, mais ou menos, a ser amigos, estava tudo bem há vinte anos e, de repente, não se sabe bem porquê, ou talvez se saiba demasiado bem, entrou numa espécie de frenesim, de maledicência, de calúnia e do insulto.”

Ainda mais esta:

“A Agustina, numa entrevista que deu disse que o em Portugal só havia dois escritores que mereciam o Nobel: um era o Vergílio Ferreira e o outro era ela. E também diz a certa altura: “Não, o José Saramago não é um grande escritor. É o produto de certas circunstâncias” e por aqui se ficou.”
Numa entrevista à “Visão”, António Lobo Antunes teve este assomo de modéstia:
“Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares. E nada disto tem a ver com vaidade porque, como sabe, sou modesto e humilde”.

Apenas como mera opinião, cabe dizer que o meu interesse por António Lobo Antunes queda-se pelos três primeiros livros e pelas crónicas que vai escrevendo em jornais e revistas, e que vão sendo publicadas em livro.

Nos restantes livros, tornou-se demasiado repetitivo.

Um chato!

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Quando dantes não se viajava por auto-estradas, mas por caminhos interiores, percorrendo  povoações e  mais povoações, raro, muito raro mesmo, era não encontrar no meio de uma quinta, esquina de um prédio um anúncio ao “Nitrato do Chile”

BAILES DA VIDA



Os Eps de Nat “King” Cole a cantar em espanhol faziam parte dos “Bailes da Vida”. O primeiro foi o que continha o “Cachito Cachito”., a que se seguiu, se bem me lembro o EPP que tinha “Ansiedad”. As vezes que esses discos rodaram.

“Ansiedad, de tenerte en mis brazos
Musicando,... palabras de amor
Ansiedad, de tener tus encantos
Y en la boca, volverte a besar
Talvez este llorando mis pensamientos
Mis lagrimas son perlas que caen al mar
Y el eco adormecido, de este lamento
Hace que este presente en mi soñar
Quizás este llorando al recordarme
Estreche mi retrato con frenesi
Hasta tu oido llegue la melodia selvaje
Y el eco de la pena de estar sin ti.”

Mais tarde comprámos os 3 LPs de Nat “King Cole” a cantar em espanhol.
São 35 canções e, entre outras, podem ouvir-se Maria Helena, Quizás, Quizás, Quizás, Acercate Mas, Noche de Ronda, Te Quiero, Digiste, Aduis Mariquita Linda, Vaya Com Dios, A Media Luz, Solamente Una Vez, Aquelles Ojos Verdes, Perfidia, Ansiedad, Não Tenho Lágrimas.
Inesquecível.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

SARAMAGUEANDO


Ontem passaram por aqui algumas das azias que a atribuição do Prémio Nobel a José Saramago provocou. Seria agora a vez dos elogios. Mas são centenas e centenas e seria fastidioso trazê-los aqui.

Aliás o escritor Mário de Carvalho escreveu no “JL”, de 21 de Outubro de 1998, referindo o Nobel atribuído a Saramago, escreveu um artigo que terminava assim:

“Resisti um bocado a escrever estas linhas. E ter-me-ia escapado, se não fosse a resistência, de certo modo firme, de quem me encomendou a prosa. Neste momento de euforia, abençoada euforia, toda a gente tem coisas para dizer. Em alguns casos vem-me ao espírito aquela expressão brasileira do “papagaio do pirata”. Sabem o que são os “papagaios do pirata? São aqueles tipos que se atrelam às celebridades e aproveitam para se mostrarem por cima do ombro delas quando as câmaras começam a filmar. O José Saramago está neste momento a ser assediado por milhentos “papagaios de pirata”. É natural, e é humano. Mas eu preferia não estar entre eles.”

Assim colocada a questão, limito-me a ir buscar um elogio.

Aquele que António Rego Chaves escreveu no “Diário de Notícias” de 9 de Outubro de 1998
Esse elogio remete para uma crónica que António Rego Chaves publicara, meses antes, na edição de 11 de Abril de 1968 do “Diário de Notícias”, ainda José Saramago não era Nobel.

Começava assim essa crónica:

“O escritor José Saramago que esteve recentemente em Chiapas, tendo conversado com os sobreviventes da matança de Acteal no lugar da chacina e visitado o campo de refugiados de Polhó, entregou um comovido depoimento à revista semanal do jornal espanhol “El Mundo”. Algumas frases a não esquecer:
“Se alguma vez houve na história da Humanidade uma guerra desigual, não houve nunca uma como esta. É uma guerra de desprezo, desprezo para com os indígenas. O Governo esperava que com o tempo acabassem todos, simplesmente isso. Mas eles sobrevivem, alimentando-se da sua própria dignidade. Não têm nada mas são tudo (…) A palavra Chiapas não estará ausente um só dia da minha vida. Se temos consciência mas não a utilizamos para nos aproximarmos do sofrimento, de que nos serve a consciência.”

António Rego Chaves fechava, deste modo, a crónica:

“Já tardava. Já tardava termos um escritor português vivo de renome internacional que se dignificasse e nos dignificasse por tornar público um gesto de fraternidade que ultrapassasse as fronteiras ontológicas do seu querido umbigo e dos bairros que lhe são adjacentes. Já tardava termos bem vivo um cidadão português do mundo, escritor ainda que exilado algures em Tenerife. Obrigado, José Saramago”.

Este não é, de modo algum, um elogio de um “qualquer papagaio do pirata".
Assim como são de sublinhar as palavras de Saramago:

“Se temos consciência mas não a utilizamos para nos aproximarmos do sofrimento, de que nos serve a consciência.”

MEMÓRIAS


Concerto de Pink Martini
Anfiteatro da Aula Magna, 11 de Novembro de 2005.

ÓPERA NO COLISEU


Em Lisboa a ópera representava-se em São Carlos, mas depois descia até ao Coliseu, sempre com lotações esgotadas, o que, claramente, desmentia o alegado desinteresse da populaça pela arte, pela cultura, para grande desgosto dos politiqueiros daquele tempo, dos parvos e dos ricaços.

Do ambiente bafiento de peles, smokings, jóias e perfumes ,dos espectáculos de ópera em São Carlos, não reza a história, mas não é difícil imaginar que a esmagadora maioria se borrifavam para o espectáculo e apenas queriam pavonear-se pelos corredores, num triste e desesperante circo de vaidades.

A 24 de Abril de 1974 Joan Sutherland, interpretou “La Traviata” no Coliseu dos Recreios. Com ela actuaram o tenor Alfredo Kraus, o barítono Giorgio Zancanaro, acompanhados pela Orquetsra Filarmónica de Lisboa dirigida pelo maestro Richard Bonynge.

Depois de uma enorme e prolongada ovação, quando os espectadores começaram a sair, do Coliseu, já João Paulo Dinis, aos microfones da Rádio Peninsular dos Emissores Associados de Lisboa”, pusera a rodar “E Depois do Adeus” de Paulo de Carvalho, já José Afonso, na Rádio Renascença entoara “Grândola Vila Morena", já era 25 de Abril de 1974.

Numa crítica, não assinada, o “Diário de Notícias” de 26 de Abril de 1974, destacava:

“A memorável récita de ontem à noite no Coliseu dos Recreios com “La Traviata” de Verdi, vai, certamente ficar no historial do palco do Coliseu, onde a tradição operática não é um mito, e no das temporadas populares de ópera que o Teatro Nacional de São Carlos, de há muito ali vem realizando, e nos quais se contam autênticos êxitos, como um dos momentos de maior expressividade e relevo que neles se tem verificado e registado.
A grande artista Joan Sutherland – um nome agora revelado ao nosso público – voltou a ser, como em São Carlos, uma “Violeta” extraordinária em voz, em nusicalidade, em estilo e sentido dramático; uma “Violeta” excepcional, a que o tenor Alfredo Kraus – outra grande figura do canto eda cena lírica, sublinhou a sua já conhecida interpretação do “Alfredo Germont.”

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

JOAN SUTHERLAND


Neste domingo, aos 83 anos, morreu a soprano Joan Sutherland.
“Joy To The World”, é um disco Natal de Joan Sutherlamd, um disco muito estimado cá na casa.

SARAMAGUEANDO


Manteigas, 7 de Outubro de 1998.

Enquanto a Aida e o Garrudo compravam postais, eu olhava os jornais.

Um chamou-me a atenção: o “24 Horas”, jornal que nunca frequentei, tinha uma chamada na 1ª página em que revelava que para o Nobel da Literatura os "americanos apostam em Saramago.”
Comprei o jornal e o desenvolvimento da notícia, a Associated Press revelava que na bolsa das apostas  para o Nobel constavam muitos nomes entre os quais o de José Saramago. A seu lado surgia o chinês Bei Dao, o sueco Tomas Transtroemer e o albanês Ismail Kadare. 

De mim para mim fui dizendo que esta coisa dos prováveis vencedores é a história do costume, e não vale a pena pensar muito nisso.

No dia a seguir, a caminho de Constança, o Mário informava-nos, pelo telemóvel, que José Saramago ganhara o Prémio Nobel da Literatura.

A alegria, diga-se jubilo, foi demasiado grande para aqui caber. 

Apenas que o jantar em Constança teve um sabor único, tal como o vinho tinto que à saúde do Nobel português tratámos de beber e bem. Donde se pode inferir que o melhor vinho pouco tem a ver com marcas, com isto, com aquilo, com aqueloutro, antes remete para o ambiente certo, com as pessoas certas para comemorar uma transcendência que, de modo algum, é de todos os dias. 

Aquele foi mesmo o melhor vinho do mundo.

Num artigo no “Diário de Notícias”, José Viale Moutinho escreveu:

“Obviamente, a atribuição do Prémio Nobel a José Saramago fez vir ao de cimo o azeite mais ácido de alguns indivíduos da nossa sociedade”

Passemos os olhos por algumas dessas azias:

José António Saraiva no “Expresso”:

“Saramago é demasiado seco, demasiado amargo, a sua escrita é demasiado carpinteirada para os portugueses gostarem dela.”

Sousa Lara:

“Estou de consciência tranquila e hoje voltaria a fazer o mesmo, pois não se trata de discutir a estética da sua obra, mas de defender convicções. Encaro a sua vitória com fair-play, mas não me vejo obrigado a pedir-lhe desculpa.”

Paulo Portas:

“Quando há anos se deu o problema “O Evangelho Segundo Jesus Cristo” decidi não ler, porque achei que me ia incomodar.”

D. Duarte Pio de Bragança:

“José Saramago é um autor de leitura difícil e pesada e insulta abertamente os sentimentos cristãos. Duvido que os membros do júri tenham lido os seus livros.”

Júlio Pinto, jornalista:

“Ao colocar Saramago no “índex”, a direita portuguesa e romana mais não fez do que dar-lhe uma projecção que os seus livros, só por si, não suscitariam.”

D. António José Rafael, Bispo de Bragança:

“Comparem-no com Eça ou com Camilo e então ficam a saber que ele teve o Nobel não por escrever bem. Vejam como ele faz a pontuação. Não gosto de perder tempo a ler Saramago.”

Vasco Pulido Valente:

“O sr. Saramago ganhou o Prémio Nobel da Literatura, como dezenas de modestas figuras que nunca ninguém leu e que tiveram uma influência efémera".

Na estranja a atribuição do Nobel a José Saramago também provocou engulhos:

O “Obsservatore Romano” lembrou que Saramago é um anti-religioso histórico e um comunista de longa data. Foi um “péssimo sinal que tenham dado o Nobel a um comunista”.

O crítico literário da revista “Time” disse: “Tenho feito críticas a livros toda a minha vida e nunca ouvi falar dele.”

O escritor e historiador norte-americano Stephen Schwartz não Foi de modas e escreveu no "Wall Street Journal":

“José Saramago tem uma história de comportamento verdadeiramente sinistra ao serviço de uma agenda estalinista. Os “snobs” das academias escandinavas, seguros na sua riqueza e poder, continuam fiéis às suas fantasias esquerdistas.”

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


“Aviianense” é a mais antiga fábrica de chocolates em Portugal, tendo iniciado a sua actividade em 1914.
Em 2004, por decreto de falência, encerrou a sua actividade em Viana do Castelo.
Em Agosto de 2005, uma sociedade comprou a marca e reiniciou na vila de Durrães, concelho de Barcelos.
Foi em Durrães que encontrei estacionado este camião de “Avianense”
Os chocolates “Avianense” não atingiam a qualidade dos da “Regina” ou da“A Favorita” mas eram razoáveis e a vantagem de serem mais baratos.
Chocolatedependente que sou, não olho muito às marcas. Se é chocolate, marcha.
Foi “Avianense” que um dia lançou as “Fantasias de Natal”.
Lembram-se?

domingo, 10 de outubro de 2010

SARAMAGUEANDO


A língua portuguesa será, possivelmente, a que mais razões de queixa terá da Academia Sueca, no que à atribuição de Prémios Nobel da Literatura diz respeito.

Saramago, com ironia, ou desdém remetia, a importância do Nobel para um cheque de um milhão de dólares. “A decisão diz respeito aos suecos, o dinheiro também é deles, podem fazer dele o que bem entenderem, Pode ser que o prémio venha no próximo ano e ficarei muito contente ou então que nunca chegue a vir e não farei nenhum drama. Quero viver tranquilo.”

Apenas José Saramago é a excepção num vasto leque de omissões onde constam Aquilino Ribeiro, Ferreira de Castro, Miguel Torga, Sophia de Mello Breyner Andresen, António Ramos Rosa, Vergílio Ferreira, Fernando Namora, António Lobo Antunes, Machado de Assis, Jorge Amado, João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto.

Antes tarde do que nunca

Luciana Stegano Picchio, especialista italiana em literatura portuguesa:

“Este é o prémio mais justo dos últimos 15 anos. Durante todos os anos em que foi atribuído o Nobel, nunca tinha sido reconhecido este bloco linguístico de mais de 200 milhões de pessoas. Estávamos à espera há muito tempo desta notícia, com aquela angústia de quem não vê chegar as malas ao aeroporto. Desta vez chegou. É justo. Saramago merece o Nobel.”

Ao longo dos cinco volumes dos “Cadernos de Lanzarote”, José Saramago refere, várias vezes, o que era esperar pela notícia da atribuição do Nobel.

No 1º volume, a entrada escrita a 26 de Abril de 1993:

“Entrevista a Plínio Fraga, da “Folha de S. Paulo. Uma das questões era que António Houaiss, aqui há tempos, teria apostado em dois nomes para o Prémio Nobel deste ano: João Cabral de Melo neto e este servidor. Pedia-se-me que comentasse a declaração de Houaiss e eu lembrei a Plínio o que Graham Greene respondeu a um jornalista que lhe perguntou o que pensava ele da atribuição do Prémio Nobel a François Mauriac. Foi esta a frase histórica: “O Nobel honrar-me-ia a mim, ao passo que Mauriac honra o Nobel.” Aí tem, disse, eu sou o Grahaam Greene desta história, e João Cabral de Melo Neto o Mauriac. Mas, em seguida, esgotada a minha capacidade de abnegação e modéstia, e também para não aparecer aos leitores da “Folha” como um sujeitinho hipócrita, acrescentei, desta maneira me sangrando em saúde: “Em todo o caso, parecer-me-ia justo que o primeiro Nobel de Literatura para a Língua Portuguesa fosse dado a um português, porque, na verdade, vai para novecentos anos que estamos à espera dele, enquanto vocês nem sequer dois séculos de esperanças frustradas levam…”

No 2º volume, entrada escrita a 12 de Outubro:

“Diz-se em Lisboa que o Nobel está no papo de Lobo Antunes. Pelos vistos, o jornalista brasileiro, amigo de Jorge Amado, sabia do que falava. Também me dizem que Lobo Antunes já se encontra na Suécia.”

No mesmo volume, entrada escrita a 13 de Outubro:

“O Nobel foi para um escritor japonês, Kenzaburo Oe. Afinal, o jornalista estava enganado. Nelson de Matos até tinha feito declarações à rádio, ou à televisão, não sei bem, dando como favas contadas a vitória do seu editado. O que vale é que o ridículo, pacientíssimo, continua a não matar, Quanto a mim, tenho de começar a pedir desculpa aos meus amigos por não ganhar o Nobel…”

No 3º volume, entrada escrita a 23 de Maio:

“Uma leitora na Feira: “Para o ano que vem teremos mais “Cadernos”?”. Respondo medievalmente como de costume: “Vida havendo e saúde não faltando…” E ela: “É que quero ver neles a notícia do Prémio Nobel…”

No 5º volume, entrada escrita a 9 de Outubro de 1997:

“Foi muito simples. Encontrávamo-nos na cozinha, Pilar e eu, sós, quando a rádio informou que o Prémio Nobel tinha sido atribuído a Dario Fo. Olhámo-nos tranquilamente (sim, tranquilamente, jurá-lo-ia se fosse necessário) e eu disse: “Pronto. Podemos voltar ao nosso sossego.” Falámos depois sobre o que naquele momento sentíamos, e ambos estivemos de acordo: alívio”

AH!...OS CÃEZINHOS!...


Não era um pitbull, ou um rottweiler, mas era um cão grande.
Ao ver a miudita a correr pelo jardim, também quis brincar e atirou-a ao chão. A mãe da criança insurgiu-se e gritou à mulher-dona-do-cão, que deveria andar com o cão pela trela.
A dona do cão, uma tia-enfiada-numas-calças-de-ganga-mais-que-justas-e-umas-botas-de-montar, rematou em histeria que se a criança não andasse a correr no jardim já o cão não lhe saltava às pernas.
No silêncio do Jardim da Paiva Couceiro, com os velhos em fundo a jogar à sueca, concluí de mim para mim, que o fundamentalismo dos donos de animais começa a atingir níveis próximos duma paranóia de outro mundo.
Já tenho de fazer gincanas nos passeios da rua onde vivo para não pisar merda de cão dejectada sem que os donos dos cãezinhos tratem de a apanhar para um saquinho de plástico, tal como mandam os regulamentos camarários, a civilidade, o respeito pelos outros.
Fico agora a saber que as crianças não podem correr nos jardins porque enervam os cães e os põem em alvoroço.

OLHAR AS CAPAS


Poemas a Guevara

Selecção e tradução de Egito Gonçalves
Capa de Armando Alves
Colecção  Os Olhos e a memória nº 1
Editora Limiar, Porto Janeiro 1975

Che

Eu tive um irmão
Não nos vimos nunca
mas não importava.

Eu tive um irmão
que andava na selva
enquanto eu dormia.

O amei ao meu modo,
lhe tomei a voz
livre como a água,
caminhei às vezes
perto de sua sombra.
meu irmão desperto
enquanto eu dormia.

Meu irmão mostrando-me
por detrás da noite
a sua estrela eleita.

Júlio Cortázar