quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

OLHAR AS CAPAS



O Príncipe da Neblina

Carlos Ruiz Zafón
Tradução: Maria do Carmo Abreu
Capa: Lígia Pinto
Planeta Manuscrito, Lisboa Setembro 2011

Este Outono farei setenta e dois anos e, embora me reste o consolo de que não os aparento, cada um deles pesa-me como uma pedra às costas. A idade faz-nos ver certas coisas. Por exemplo, agora sei que a vida de um homem se divide em três períodos. No primeiro, nem sequer pensamos que envelheceremos, nem que o tempo passas, nem que, desde o primeiro dia, quando nascemos avançamos para um único fim. Passada a primeira juventude, começa o segundo período, onde nos apercebemos da fragilidade da própria vida e o que no princípio é uma simples inquietação vai crescendo no nosso íntimo como um mar de dúvidas e incertezas que nos acompanham durante o resto dos nossos dias. Por último, no fim da vida, abre-se o terceiro período, o da aceitação da realidade e, por consequência, da resignação e da espera. Ao longo da minha existência conheci muitas pessoas que ficaram ancoradas em qualquer desses períodos e nunca os conseguiram superar. É uma coisa terrível.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

POSTAIS SEM SELO


Os mistérios do vento. A melancolia da estrada. O pó. As estações da memória. As rugas do tempo. As silenciosas montanhas. As árvores muito nuas. As tuas mãos contra o esquecimento. A suave saudade dos teus olhos. O teu riso muito longe. As florestas densas. O brilho de todas as estrelas mortas. As gotas paradas da chuva. A nostalgia da infância. O fumo. A lua cheia e lenta. A cor das minhas ideias. A obscuridade vagarosa. O deus enorme dos desertos. Os comboios que atravessam as noites. Podia ser um país. Esta poeira. Eu.
Texto retirado do blogue Bebedeiras de Jazz.

ASTROLÁBIO


Guardei o recibo, que não serve para nada.
Dados impessoais: o nosso subtotal foi de 6.35
- pediste uma água mineral, um café
e umas sandes de ovo (em que nem tocaste);
pagámos caro por estarmos ali os dois,
na cafetaria do aeroporto com uma hora inteira
só para dizer uma palavra. Tudo
processado por computador, IVA incluído.
Uma operação que teve início precisamente
às 00:45 da madrugada. Agora
temos muito tempo para nos contentarmos
por já não termos que disputar as contas,
tu pagas os teus cafés, e eu sem ti
passo bem sem café.


Diogo Vaz Pinto em Resumo: a Poesia em 2009, Assírio &Alvim, Lisboa Março 2010

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

O DIA SEGUINTE


Como só meia-dúzia de amigos nos lêem, não houve reparos ao facto de não termos deixado, por aqui, votos de um Bom Ano.

Ainda houve quem pensasse nisso, mas não apareceram pernas para andar.

Agora que terminadas estão as festividades (?), voltamos á realidade.

Alguma vez deixou de estar presente?

Por um destes dias, José Pacheco Pereira escrevia no Público que em 2013 nada vai correr bem.

Tudo o que está suficiente será medíocre. Tudo o que está mau ficará pior. Pobreza, desemprego, economia, dívidas, falências, direitos, liberdades, garantias, corrupção, ataques à democracia.

Em 1945, Fernando Lopes Graça, convocou os melhores poetas portugueses, pediu-lhes poemas e compôs música para esses poemas.

Chamou-lhe as Canções Heróicas.

As Canções Heróicas foram proibidas durante a ditadura, e apenas pós  25 de Abril voltaram a ser editadas, mas nunca deixaram de ser cantadas.

Não foi em vão que um ministro de Salazar disse ser mais perigoso um mi bemol de Lopes Graça do que mil panfletos subversivos.

A cantora lírica Ana Maria Pinto, nas comemorações oficiais do último 5 de Outubro, depois de Cavaco Silva ter proferido o seu discurso, cantou Firmeza, poema de João José Cochofel, uma das tais Canções Heróicas de Lopes Graça.

Ana Maria Pinto explicou, então, aos jornalistas que foi uma forma de mostrar a sua discordância em relação ao rumo do país. A cantora lírica já tinha cantado Acordai à porta do Palácio de Belém no protesto que decorreu no dia do último Conselho de Estado.

Fica aqui o poema.

Diz tudo o que há para dizer, nos primeiros passos de um Novo Ano:

Sem frases de desânimo,
Nem complicações de alma,
Que o teu corpo agora fale,
Presente e seguro do que vale.

Pedra em que a vida se alicerça,

Argamassa e nervo,
Pega-lhe como um senhor
E nunca como um servo.

Não seja o travor das lágrimas

Capaz de embargar-te a voz;
Que a boca a sorrir não mate
Nos lábios o brado de combate.

Olha que a vida nos acena

Para além da luta.
Canta os sonhos com que esperas,
Que o espelho da vida nos escuta.

domingo, 6 de janeiro de 2013

DIA DE REIS


Foi o ano em que recebi menos postais de Boas-Festas.

Peço desculpa, a crise pode servir para muitas coisas, mas não para serve para tudo.

Alguns amigos entenderam enviar-me SMS, outros mails, outros apareceram aqui em casa.

Não sei quando se perdeu esta velha tradição de mandar postais de Boas-Festas à família, aos amigos, mas eu teimo sempre.
Lembro-me, quando era miúda, ir à papelaria da rua onde morava.

Havia um tabuleiro cheio de cartões de Boas-Festas, de todos os tamanhos, de todos os preços, ainda não havia normalização de envelopes ou lá o que lhe chamam. Eram difíceis os tempos, o dinheiro curto, mas os mais chegados recebiam sempre um postalinho. As palavras, os desejos sempre os mesmos mas o importante é o lembrar.

 Os tempos são o que são, mas eu teimo: mando sempre Boas-Festas aos meus netos, aos meus sobrinhos, aos sobrinhos-netos, aos meus amigos, alguns que já não vejo há tanto tempo.

Até ao dia 10 de Dezembro os postais ficam escritos, colocados nos envelopes, e depois é um gosto só meu de ir ao correio, estar algum tempo na fila, e enviar a minha amizade, a minha afectividade por aí fora.

Dia de Reis.

Agora é o velho ataque de nostalgia, uma certa tristeza, o ter de desmanchar as decorações, a árvore de Natal, o presépio, guardar tudo em caixas e esperar que seja outra vez Natal.

OS PRESÉPIOS DA CASA


Quando deixámos a casa do Freitas, o presépio da família começou a ser feito aqui.
O Mário, primeiro filho a sair, levou com ele o presépio e fê-lo nesse Natal.
Por mais dois natais isso aconteceu.
Quando chegou o tempo de a Sara ir para a sua casa, coube-lhe a ela o armar do presépio.
A ideia inicial era que os filhos alternassem a sua armação.
Cedo se concluiu que a casa da Sara é a que possui melhores condições para a exposição do presépio. Assim tem acontecido.
Este ano, o presépio da família, ficou assim.
E hoje, como diz a Maria, é o desmanchar da feira.
Até para o ano.

WINTER WONDERLAND


Há uma memória decorrente do cinema, um gosto que nunca hei-de concretizar: patinar, pelo Natal, nos lagos gelados de Nova Iorque.
Os arranha-céus, os jardins, a neve a cair, os rostos felizes, uma canção ao longe, Frank Sinatra a cantar Young at Heart.
Alguém disse:
Porque há coisas que não acontecem. São sonhadas.


NATAL DOCE, DOCE NATAL


Escolhi a partilha como o último pacotinho de açúcar deste Natal Doce, Doce natal. 
Nestes tempos difíceis que atravessamos, partilhar terá que ser um caminho a percorrer.
Apenas conseguimos ter uma vaga ideia do que vai este novo ano.
Dar as mãos para que seja possível dar a volta ao que nos espera.
Partilhar.

sábado, 5 de janeiro de 2013

UM NATAL SOMBRIO





Para o meu primo Mário, essencialmente, o Natal são as luzes.

Como todos os anos, cumpriu o habitual programa: percorrer as ruas da cidade, olhar as iluminações, ver a azáfama das pessoas: umas a fazer compras, outras simplesmente a olhar as montras.

Há dias, com muita amargura, dizia-me que até esse prazer simples lhe roubaram.

As iluminações são praticamente inexistentes, e as que vemos são de uma pobreza franciscana.

O problema é que hoje não serviria de nada apanhar o barco até à Trafaria, sabe como é o Inverno. Aliás, hoje nem sequer dava para sair de casa. Eu explico. Esta parte da cidade encheu-se de luzes de repente. É o mesmo todos os anos, por esta altura. Luzes à volta das árvores, por cima das ruas, nas montras das lojas e dos cafés. Luzes de todas as cores. Uma loucura. Homens grotescos com nomes ainda mais grotescos esticando quilómetros de cabos sobre as nossas cabeças. O que é que dá nesta gente para, de um dia para o outro, decidir encher tudo de luzes? Não pensarão nas pessoas? Não lhe ocorrerá, nem por um segundo, o quanto isto pode ser terrível? Já não falo da economia. Mas dos pássaros.

Esta citação é tirada de uma história de João Ricardo Pedro, publicada no Expresso de 15 de Dezembro.

Felizmente que o meu primo não lê o Expresso, tão pouco frequenta blogues porque nem internet tem.

Certamente que ficaria fulo.

Acontece que também gosto de iluminações de Natal, mas compreendo a ironia do escritor.

Também andei por Lisboa.

Acabado o passeio, senti-me sem conseguir lidar com uma melancolia parva para a qual não tenho palavras.

Fica aqui o desalento que encontrei.

Rua do Ouro: uma estrela por cada quarteirão.

Rossio: uma bola colorida, um carroucel, cheiro a algodão doce.

Rua Morais Soares: duas estrelas perdidas na imensidão da rua. A que se vê em primeiro plano, uma outra, lá muito ao fundo.

Para o ano será muito pior, arriscou o meu primo.

OS PRESÉPIOS DA CASA




Quando o Mário saiu para casar, coube-lhe, na sua nova casa, armar o presépio da família.
Fiquei com saudade daquele presépio.
Tantos anos que o vi em casa do Freitas, tantos anos que o vi aqui em casa.
No primeiro Natal que o presépio já aqui não foi montado, comprei o Menino Jesus, José e Maria, o burro e vaca e coloquei-os junto à árvore de Natal.
No Natal seguinte comprei mais umas figuras e por todos os natais segui o mesmo procedimento.
Passaram treze anos e o presépio, que agora monto aqui em casa, já quase compete com o presépio da família.
A perfeição dos bonecos é que já é uma outra história: não chega, nem de perto nem de longe, aos bonecos que nos tempos atrasados eram feitos.
Faltam 355 dias para que tudo se repita.

POSTAIS SEM SELO


A tarde inclina-se. E é tudo. Mais lentamente que as ondas, mas sem ruído.

Alberto de Lacerda

Legenda: não foi possível identificar o autor/otigem da fotografia.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

NATAL DOCE, DOCE NATAL



A sabedoria como tema do pacotinho de açúcar de hoje.

MEMÓRIAS


Ainda havemos de ir a Viena!

DO BAÚ DOS POSTAIS


Continuam a chegar palavras.
As de hoje vêm de Reinbek e são da Helga e do Dieter.

DESVERSOS


Um comboio pode esconder outro
evita os filmes de terror
deixa o Annapurna em paz
cuidado com o sal e as gorduras
não atravesses no amarelo
morrer é mais do que suficiente


Fernando Assis Pacheco em Respiração Assistida, Assírio & Alvim, Lisboa Novembro 2003

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

UM TRAMBOLHO NATALÍCIO



A crise obrigou que as iluminações de Natal, nas ruas das cidades portuguesas, fossem reduzidas ao mínimo dos mínimos. Em algumas nem isso foi possível.

A Camara Municipal de Lisboa atribuíu à União de Associações de Comércio e Serviços 250 mil euros para decorarem as ruas da cidade.

Mas sem o conhecimento dos vereadores da oposição, a autarquia contratou bens e serviços, sem concurso público e através de uma empresa municipal, no valor de 229.637 euros para a execução da árvore de Natal que foi colocada no Terreiro do Paço.

O conceito do projecto concebido por Leonel Moura baseia-se na ideia de que as pessoas são a árvore.

Disse Moura: Neste período de crise em que há uma certa desvalorização das pessoas, achei interessante valorizá-las.

A imagem dos visitantes é projectada na árvore, construída em forma de pirâmide com três lados. São também projectados vídeos com imagens do Terreiro do Paço e de outros locais da cidade.

Passei por lá.

O defeito é necessariamente meu, mas não entendo como o dinheiro dos contribuintes possa ser gasto numa coisa daquelas.

Vergonhoso, para utilizar uma linguagem muito suave.

Tirei o boneco ao trambolho no cair da tarde e nem sequer esperei pela noite para ver o triste espectáculo que Moura concebeu.

UTILIDADES


Abre garrafas natalício.

O POETA QUE SE ATIROU PARA O CÉU


Para a História, a morte de Eduardo Guerra Carneiro está datada de 3 de Janeiro de 2004.

Foi nesse dia que o encontraram na laje do prédio onde vivia, ali ao Príncipe Real, mais concretamente, na Travessa do Abarracamento de Peniche.

Dos vulcões gostava de falar, em tom de arrepio, como se um vento de fogo cortasse de súbito os sonhos.
Um voo filho da puta pôs fim à solidão do Eduardo Guerra Carneiro.
Foi então que vi luzir no firmamento as claraboias da minha salvação.
De há muito tempo, mesmo muito tempo, entendi os findares e os começos dos anos como qualquer coisa que não me traz qualquer espécie de sobressalto.
O sacana do Enrique Vila-Matas costumava dizer: sou optmista, mas as coisas acabam sempre mal.
Mas aconteça o que acontecer, vou sempre à estante buscar um livro do Eduardo, um qualquer.

Este ano veio à mão Lixo.
Foi quando me recordei que o Baptista-Bastos citara o livro em O Cavalo a Tinta-da China.
Já lá vão nove anos que o Eduardo, tal como o mesmo Baptista-Bastos escreveu, se atirou para o céu.
Já ninguém (quase) se lembra, já ninguém (quase) o lê.
Quando soube da morte do Eduardo, o Jorge Silva Melo escreveu no Público, que era importante fazer sair um livro, um livro desarrumado e incerto, com as muitas coisas que, com toda a certeza, o Eduardo deixou.
Até hoje, ninguém mais falou desse livro, nada se sabe desses papéis, desses poemas, dessas cartas, dessas crónicas, dessas desarrumações.
Mas um destes dias, por um outro assunto, terei que ir visitar o Vitor Silva Tavares à & etc., e hei-de perguntar-lhe por tudo isso, ele que foi atento editor de alguns dos seus livros.
Quase adivinho o que me dirá.
E serão tristes os motivos de que, certamente, me dará conta.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

OLHAR AS CAPAS


O Cavalo a Tinta-da-China
Baptista-Bastos
Capa: Cláudia Gigliom
Edições Temas da Actualidade, Lisboa 1995
Clara espera. Tem um livro na mão. Leu algumas páginas, pousou-o, olha para Manuel, volta a ler algumas páginas, pousa de novo o livro.
- Que livro é esse?
Clara cerra as persianas, volta a pegar no livro, dirigisse-se para o espelho, contempla-se, faz uns gestos grotescos, mima alguém, ri, continua com o livro na mão, ouve-se um estalido da madeira do armário, Manuel segue todos os seus movimentos, Clara lê em voz alta:

Vai então, contador de histórias, e constrói
a nave dos milagres. Procura tudo e todos
nos mínimos sentidos, no lírio das barmas,
na nuvem secreta, nas formigas, no bosque
que se forma ao virar da esquina.
É no real que encontras o sentido último
do mais profundo e mágico mundo novo.

- Que livro é esse?
- Do Eduardo Guerra Carneiro. Trouxeste-o há dias.
- Ah!, pois. Estive a beber com ele.
- Pois. Já vinhas com uns dedos acima do nível.
- Gosto de beber com ele. É um tipo cordial e louco.
- É bom poeta?
- É muito bom poeta.
- Suficientemente bom?
- Quem o é?
- Quem vence a morte – diz Clara, mais baixo, e retém o olhar em Manuel. – Quem morre e permanece vivo
- Ou aqueles que disseram coisas que ninguém tinha dito até então.

NATAL DOCE, DOCE NATAL


Hoje, o tema do pacotinho de açúcar da Sidul é a Esperança.
Sim, Esperança no que quer que seja.

DESPOJOS DO ANO VELHO





Hoje, pela manhã, um curto passeio pelo bairro.

MINIATURAS DE NATAL

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

OS CROMOS DO BOTECO


Mensagem de Paz - Noite Feliz - Jingle Bells - Natal Branco

Interpretações do Coral Cata Vento do Recife.

MINIATURAS DE NATAL

OS PRESÉPIOS DA CASA