terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

OLHAR AS CAPAS

Sagrada Esperança

Agostinho Neto
Bibliografia de Agostinho Neto por Manuel Ferreira
Capa e ilustrações: António Domingues
União dos Escritores Angolanos, Luanda, Setembro de 1986

Minha mãe
       (todas as mãe negras
       cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz eléctrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
       (todas as mães negras
       cujos filhos partiram)
vão em busca de vida.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


Não é o sentido da vida que me preocupa, mas o meu sentido na vida.

Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

A VIDA SE FAZ COM AS MÃOS

      
mas os outros, dissera Pedro, e também Clara, mas as muitas possibilidades das coisas, disseram, porque nada está nunca terminado enquanto se está vivo e é sempre possível recomeçar de outro modo, de repente estender a mão e inverter os termos da relação com o mundo, porque a vida se faz com as mãos, disse Clara, é apenas uma questão de desejar com força, deseja-se apenas ao de leve, como se não fosse verdade, mas se muita gente começar a empurrar o mundo ele vira-se para outro lado e transforma-se, há toda uma transformação subterrânea que sem se dar conta se opera, e de súbito há um outro horizonte possível, porque o mundo está ainda só muito imperfeitamente inventado.

OLHAR AS CAPAS


Vida e Obra de José Gomes Ferreira

Alexandre Pinheiro Torres
Capa: José Cândido
Livraria Bertrand, Lisboa, Março de 1975

Encontrava-se este livro terminado há meses quando se deu o golpe militar de 25 de Abril, que pôs termo a quase meio século de Ditadura fascista e de acéfalo salazarismo. Pareceu-me então que a obra concluída necessitaria de ser totalmente refeita, já que a Censura acabava por fim de ser «arrolhada», e eu podia agora «desarrolhar» o manuscrito. A Mesa Censória era obviamente a mesma com que tinha velhas contas a ajustar, a mafia que tantas vezes pessoalmente enfrentara em largas discussões com os reformados coronelíferos capangas dela, em especial na militantíssima primeira metade da década de 60 (começara a Guerra em África), em que eu via os meus artigos para a Seara Nova, ou Diário de Lisboa, ou Jornal de Letras e Artes ou Jornal de Notícias (que não havia mais jornais que me aceitassem a prosa) reduzidos a nada, ou a uma fracção, quando, mercê dos cortes estratégicos dos ressuscitados inquisidores do Santo Ofício, a coisa não era ainda pior, pois que amputações bem calculadas transformavam o que já não seria brilhante em charadas onde fosse visível a inarticulação lógica quando não a burrice do escriba.
Os diálogos (?) com os Mercenários da Rolha não tive, porém, que continuá-los depois de 1965, ano da atribuição do Grande Prémio da Novela da Sociedade Portuguesa de Escritores a Luandino Vieira, facto que me levaria a mim, o Augusto Abelaira e o Manuel da Fonseca a um estágio forçado no Forte de Caxias, ao encerramento da Sociedade por decreto do Estado Novo, e ao desventurado autor de Luunda a nunca mais ver a cor aos 50 contos do prémio, quando já não bastasse a repressão mais sinistra de lhe ser prolongada a pena que então cumpria na paradisíaca estncia do Tarrafal, de himmleriana menória.

(Da Introdução de Alexandre Pinheiro Torres)

QUARTO EM EDIMBURGO II


Eu certamente acabaria por arder
se ficasse mais tempo enovelada
no banco da janela,
certamente
os meus limites individuais
acabariam por esbater-se,
como é justo acontecer no amor
e em nada mais
do vulgarmente humano.

Como no amor, de facto,
algo de bruto e de
invasivo, algo que
está longe de dar as boas vindas.
Parece mas não é
uma cidade.
Parecemos mas não somo
os seus hóspedes.
Pode ouvir-se o trabalho
das aranhas
como não se ouve em mais
lugar algum,
e, no entanto, não nos prevenimos,
viciados como estamos,
embalados
pelo desfile da noite,
pelas máscaras da noite, tudo o que
dança com os turistas rua acima,
fingindo explicar tudo, simulando
o gosto da catástrofe
ali mesmo
onde a velha catástrofe perdura.

É realmente necessário um esforço
que rebente as cadeias
que nos traga
para a superfície da respiração,
é necessário que juntemos todos
os pedaços do corpo e,
como no amor,
nos arranquemos,
a muito custo,
dos lugares do perigo,
a minutos de ardemos,
a minutos
de o turno da manhã
levar as cinzas.

Hélia Correia em Resumo: a poesia em 2013

domingo, 9 de fevereiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


Gente de bem não bebe gin.

Raymond Chandler em Perdeu-se Uma Mulher

OLHAR AS CAPAS


Inquisição e Cristãos-Novos
António José Saraiva
Capa: Armando Alves
Colecção Civilização Portuguesa nº 2
Editorial Inova, Porto, Fevereiro 1969

A vitória da Inquisição sobre os Cristãos-novos e os Jesuítas, em 1861, de modo algum destruiu o verme roedor que no espírito de um sector cada vez mais vasto do grupo dirigente a reduzia a uma carcaça sobrevivente e sem substância. É um fenómeno quase fascinante, embora mito recorrente, esta exibição soberba de um poder ilimitado, este recrudescimento do terror dos autos-de-fé, bem nutridos de vítimas durante o reinado de D. João V, esse respeito atemorizado e subserviente que inspirava o pretensamente Santo Tribunal, tanto no Rei, como nos súbditos, ao mesmo tempo que, nos gabinetes dos poderosos, nas celas dos conventos e mesmo no confessionário régio, se desprezava e odiava, a um tempo, este anacronismo bárbaro, a propósito do qual o padre António Vieira dizia que Portugal estava mais atrasado que os índios selvagens do Brasil.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

SEMPRE SOL-POSTO


P’ra tudo quanto é nascido
dizem que o sol alumeia,
mas uns têm a casa cheia
e outros o chão varrido!
Está isto mal dividido,
o mundo está mal composto,
uns vivendo com desgosto,
outros com muita alegria;
p’ra estes é sempre de dia
p’ra mim é sempre sol-posto!.

Manuel da Fonseca em Cerromaior

Segundo o autor, esta e outras décimas, intercaladas em Cerromaior, são do poeta José da Graça Cabrita, de Santa Luzia, e que era analfabeto.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2020

OLHARES


Lisboa, Avenida Almirante Reis.
Para que a calçada portuguesa não tenha um fim.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


A sorte é um vento que sopra sempre a favor do mais forte.

Alves Redol em Barranco de Cegos

KIRK DOUGLAS (1916-2020)


Com 103 anos, morreu o actor Kirk Douglas.

Provavelmente a última lenda do meu cinema.

Que tenho para dizer?

Apenas uma grande tristeza.

Hollywood nunca lhe deu um Óscar, mas isso não conta para nada porque os Óscars de 

Hollywood são uma história demasiado estafada e sem qualquer ponta de interesse.

Acabaram por dar, em 1966, a Kirk Douglas a esmola-óscar-de-carreira, mas esqueceram tudo o resto.

Que se danem!

Kirk Douglas terá percorrido todos os géneros de filmes que o cinema nos ofereceu, tendo sido dirigido pelos maiores mestres da sétima arte: entre outros Billy Wilder, Vincente Minnelli, Howard Hawks, Stanley Kubrik, Elia Kazan.

Meia dúzia de filmes de Kirk Douglas de mera escolha pessoal por motivos que não sei bem explicar ou iria demorar algum tempo.

Ulisses

Duelo de Fogo

Céu Aberto

Spartacus

A Vida Apaixonada de Van Gogh

O Grande Carnaval.

Ulisses terá sido o primeiro filme que vi de Kirk Douglas. Nunca esqueci o pisar das uvas para embebedar o tal gigante. Vi-o mais de uma vez, a última na Cinemateca, em Setembro de 2010, com o meu neto Afonso então com 11 anos.

Não esqueço que Kirk Douglas, para além de actor, foi produtor executivo de Spartacus e escolheu para argumentista Dalton Trump que, estando na lista negra do macartismo, se encontrava sem possibilidade de trabalhar.

SÍLABAS


Sílabas.
O álcool de Dezembro é frio e rouco.
O cigarro amarga. É um cigarro clínico.
Sílabas.
Com sílabas se fazem versos.

O tampo da mesa é liso.
Uma colher é uma forma complexa
 familiar e deliciosa.
Um copo é nítido
como um criado sem servilismo.
Uma mulher condensa-se
no olhar do poeta.
Um corpo. Duas sílabas.
O dinheiro à justa. A gola da gabardina
para tapar a nuca
e os ouvidos.
Sílabas.

António Ramos Rosa de Viagem Através de Uma Nebulosa em Obra Poética Vol. I

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


«O sonho da democracia», escreveu ele, «elevar o proletariado a atingir o nível de estupidez conseguido pela burguesia».

Julian Barnes em O Papagaio de Flaubert

QUOTIDIANOS


Como lembra António Cabrita, um escritor é acima de tudo um leitor, regra geral apaixonado, «que às tantas tem mais vontade de ler do que escrever.» Num quarto só para si.

Inês Fonseca Santos em Vale a Pena?

OLHAR AS CAPAS



Poirot e a Terceira Inquilina

Agatha Christie
Tradução: Fernanda Pinto Rodrigues
Capa: Lima de Freitas
Colecção Vampiro nº 260
Livros do brasil, Lisboa s/d

Hercule Poirot estava sentado à mesa, a tomar o pequeno almoço. À sua direita, fumegava uma chávena de chocolate – sempre fora um bocadinho guloso… - e, ao aldo, para acompanhar, um brioche. Os brioches ligavam bem com o chocolate. Acenou com a cabeça, aprovadoramente. O pequeno almoço viera do quarto estabelecimento que experimentara, uma patisserie dinamarquesa, infinitamente superior à que se dizia francesa e ficava perto. O que esta lhe mandara fora um autêntica vigarice.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


O silêncio é bom enquanto dura a memória do ruído. Perdida ela definitivamente, o que fica não é a pacificação mas a imbecilidade, que está logo a seguir.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente Vol. I

OLHAR AS CAPAS


Luar de Janeiro

Augusto Gil
Capa e ilustrações: Maria Keil Amaral
Portugália Editora, Lisboa s/d

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
- Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
- e cai no meu coração.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


Gosto da palavra em que não se passa nada.


Legenda: não foi possível identificar o autor/origem da fotografia.

OLHARES


Não lembra bem, mas um dia o pai mandou lá ir a casa um amigo fotógrafo para que tirasse retratos à família, uma casa em que viviam os pais, a irmã, um avô paterno, uma avó materna.

Na foto, ele está a ler em tempo de pose fotográfica.

Na biblioteca do pai, a estante que se vê era a da literatura inglesa. Mandou a mão e saiu um qualquer livro para tirar o boneco, ele que nem sequer sabia ler bem o português, exercitava-se na leitura de A Bola, ao tempo trissemanário, que há dias fez 75 anos e ele os fará em começos da Primavera que vem a caminho, quanto mais o inglês.

Um esgar de flash da máquina do fotógrafo aparece reflectido no velho Nordmend, comprado pelo pai, em suaves prestações, e onde, espantados e felizes, o primeiro programa que a família viu, foi um Nat King Cole Show.

Reconhece, hoje que desses Nat King Cole Show de então, alguma coisa ficou para mais tarde ter aprimorado o gosto por crooners.

Nesse mesmo Nordmend viu a final da 1ª Taça dos Campeões Europeus ganha pelo Benfica ao Barcelona, uma transmissão que a determinada altura foi interrompida porque a Eurovisão iria passar a chegada de John Kennedy a Paris.

No topo da estante está um vaso que o «Tio» Valentim, sargento da Armada, que casara, em segundas núpcias com a minha avó paterna, trouxera de Macau, juntamente com um serviço de café.

Curiosamente esse vaso quebrar-se-ia na madrugada de 28 de Fevereiro de 1969, durante o tremorde terra que alvoroçou Portugal, magnitude 8 na escala de Richter, demorou escassíssimos minutos mas pareceram uma eternidade.

Na véspera tínhamos enterrado o meu avõ paterno.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

POSTAIS SEM SELO


Se não esqueceres os teus amigos, eles viverão enquanto tu viveres. Não há mortes individuais. Nem vidas.

VAI E VEM


Se ainda andasse por cá, o João César Monteiro fazia hoje 81 anos.
Ontem, a Câmara Municipal da Figueira da Foz em lugar de lhe dar um nome de rua decidiu dar o seu nome a um auditório do Centro de Artes e Espectáculos, o que me parece mais ajustado.
Ajustado nos parece também recordar a Certidão de Nascimento que o João escreveu e que foi publicada no semanário & etc. nº 4 de 28 de Fevereiro de 1973.
Já agora se dirá que amanhã passam 17 anos sobre o dia em que o João, de cigarro na beiça, sem dever nada a ninguém, partiu sabe-se lá para onde.

«Tive infância caprichosa e bem nutrida, no seio de uma família fortemente dominada pelo espirito, chamemos-lhe assim, da 1 ª República. Escusado será dizer que abundavam os dichotes anti-clericais, muito embora o meu pai desejasse que eu viesse a seguir a carreira eclesiástica. Em suma: não se percebia nada. Pelo menos à primeira vista.
Por volta dos 16 anos, fixei-me com a família em Lisboa, para poder prosseguir a minha medíocre odisseia liceal. Instalado no colégio do dr. Mário Soares, acabei por ser expulso ao contrair perigosíssima doença venérea. Pensei, então, que entre a política e as fraquezas da carne devia existir qualquer obscena incompatibilidade e nunca mais fui visto na companhia de políticos.

Tendo finalmente conseguido dissipar toda a fortuna na satisfação de brutais apetites, o meu garboso pai veio a falecer vitimado por cruel ataque cardíaco, deixando-me, perplexo e sem um chavo, a coçar a cabeça. Era chegada a hora de dar o corpinho ao manifesto, como a maior parte das pessoas. Filho que era de meu pai, atravessei senhorialmente muitos e variados empregos, mas em breve me apercebi que já não podia olhar o mundo da mesma maneira. Fui até Paris para ensaiar até onde me era possível ir. Não me era possível ir muito longe. Meses depois, «ayant connu pas mal de choses», era repatriado.

Em 1960, encontrei o Sr. Seixas Santos que teve a bondade de me ensinar um pouco do muito que sabe de cinema. O Sr. Vasconcelos andava ao mesmo e parecia fazer progressos que, infelizmente (para ele), o futuro ainda não comprovou. 
No ano seguinte, trabalhei como assistente de realização do Sr. Perdigão Queiroga e admito que poderia ter aprendido mais qualquercoisinha se não tivesse sido tão presunçoso.

Em 1963, na injusta qualidade de bolseiro da Fundação Calouste Gu1benkian, parti para Londres e fim de frequentar a London School of Film Technique. Suponho que nunca por aquela escola passou aluno tão mau, mas nesse passo não tive grandes culpas no cartório: é que de facto os ingleses não nasceram para o cinema. Aliás, ainda não percebi muito bem para que é que os ingleses nasceram. Deve com certeza ser pela mesma razão que nasceram os percevejos, as baratas e o pão integral, vulgo pão que o diabo amassou. A estadia em Londres, essa foi extremamente divertida, sobretudo no salutar plano das doces amizades; contudo, no regresso à Pátria, o meu pavoroso aproveitamento escolar foi muito sentido, como vergonhosa acção, por provincianas carpideiras a quem nunca passará pelas cabeças, tão chorosas dos mal gastos dinheirinhos da Gulbenkian, que a estupidez e a incompetência assentam arraiais em qualquer parte do mundo, inclusive no coração de Londres, sob o pomposo nome de London School of Film Technique.

 Em 1965, conheci o Paulo Rocha e os seus «Verdes Anos», o Fernando Lopes e o seu «Belarmino». Tomei-me de amizade pelo Fernando e de amores pelo filme do senhor Rocha, cujos hábitos de anacoreta o tornavam pouco acessível.

 Nesse mesmo ano, tentei pôr de pé um projecto de filme em 16 m/m, intitulado «Quem espera por sapatos de defunto morre descalços». Dois dias de filmagens e rabinho entre as pernas. Falta de xis. Esse ano negro não findaria, no entanto, sem que deixasse a meio o primeiro filme publicitário que me enfiaram nas unhas: de como, graças ao Não-sei-quê, fazer desaparecer em três penadas o mau cheiro do sovaco, e me internassem num hospício para acalmar as febres.

De novo na vida civil, os meus excessos ultra-românticos, temperados pela mais nobre profundidade sentimental, tiveram enfim (ai filhas de Sidon) a justa consagração, o que não me livrou de amouchar durante um ano, como escriba de Filmes Castello Lopes, Lda.

Em 1968, após um reconfortante período em que descobri que mães há muitas e pai só um, o celeste, dei mostras de, para além do instinto de conservação, possuir muitos outros bons instintos e fui finalmente recomendado ao produtor Ricardo Malheiro. Foi, pois, na mais desregrada euforia que fiz o filmezinho sobre Dona Sophia. Pouco tempo volvido (ó desgraça!), o Malheiro ia à falência ou, o que vinha a dar ao mesmo, a falência ia ao Malheiro. Sem grande proveito, tentei ainda a publicidade. Desesperadamente. Três ou quatro filmes, uma viagem, hélas! à Guiné, e disse.

No ano seguinte, estimulado por algumas boas vontades (saudades), resolvi repegar no projecto «Quem espera por sapatos de defunto morre descalço», cujas filmagens se arrastaram ao longo de dois anos. Numa altura em que eu já deitava o filme pelos olhos, a Fundação Gu1benkian concedeu-me (obrigadinho) um subsidio de $$$$$$$$$$$$$$$$... 180 contos, divididos em 3 prestações. Aqui, tive a tentação de dar uma volta. Pedi ao Vasconcelos para filmar dois planos que faltavam ainda ao filme, e fui. Itália e a inevitável Paris. Esgotada a finança, voltei para acabar o filme, receber a última prestação e partir outra vez, ora de comboio, ora à boleia, consoante a inspiração: Barcelona, Marselha, Florença, Milão, Como, Cernobbio, Paris.

Entretanto, o filme começou por ser relativamente mal recebido junto do Mecenas (quereriam ópera por 180 contos?), continuou, pateado num festival no Sul de Espanha e foi friamente acolhido pelos críticos presentes em Nice, aquando da chamada Semaine du Jeune Cinéma Portugais. Foi pena, porque me teria dado jeito, sobretudo no que toca à fruição de algumas benesses locais, mas já que não pôde ser, paciência! Tirando isso, aproveitei a estadia niceoise para comprar um lindo fato de banho de duas peças com a nota de 100 francos que o João Bénard me emprestou e ameacei partir uma garrafa de tinto na cabeça do Cunha Teles que, impensadamente, me chamou oportunista. Não sou uma natureza agressiva, antes pelo contrário, mas ser insultado por um manhoso negociante é coisa que me põe fora de mim. Detesto a promiscuidade e ensinaram-me a guardar escrupulosamente as distâncias. Por uma única e bem simples exigência: a de manter intacta e intocada e minha pessoa, para além da consciência de todos os meus erros e imperfeições. Levo, as mais das vezes, esta fantochada com o riso no costado, mas não é por acaso que, cada vez mais, me dou com menos pessoas.

Arrumados definitivamente os «Sapatos» iniciei, no Verão passado, «A Sagrada Família», que espero terminar por um destes dias. Presumo que não lhe estará reservada melhor sorte que a do filme anterior, mas devo confessar que a considero uma experiência relativamente importante, se não, e com certeza que não, no plano global de um cinema português, pelo menos, no plano particular do meu próprio cinema e na exacta medida em que, por um lado, discute e corrige dialècticamente o filme anterior e, por outro, prepara já o filme seguinte.
O filme seguinte chama-se «A Tempestade», baseia-se no poema dramático de Shakespeare e na ópera de Purcell e será perpetrado numa Arrábida pintada a Robbialac se, como se espera, a edilidade local não levantar intransponíveis obstáculos. Quanto mais não seja, há que atender aos relevantes serviços que a prestimosa tinta, que é só a que mais pinta e que mais dura, tem prestado ao colorido da Nação.

Que pensar de tudo isto? Em primeiro lugar, que a vida está má para os pobres. Depois que, nisto ou naquilo, vivemos todos muito ocupados, inclusive na falta de ocupação. Por último, que enquanto, pela parte que me toca, passo o tempo, como agora e aqui, a acariciar o meu dilatado egozinho e a fornecer de mim imagens razoavelmente aliciantes, como estas, existem pessoas bem mais obscuras que, discreta e devotadamente se vão ocupando de mim e do meu glorioso destino o que, aliás, não é novo. Parece que tem sido uma constante da História.

Assim sendo, resta-me reconhecer a solidão moral de uma prática cinematográfica cavada na dupla recusa de ser uma espécie de carro de aluguer da classe mais favorecida e, o que é mais grave, de trocar essa profunda exigência por toda e qualquer forma de demagogia neo-fadista que transporte e venda a miserável ilusão de servir outra coisa.

VELHAS CANÇÕES


Ainda eu não tinha apanhado o swing de Sammy Davis Jr., já dele sabia, anos 60, por ter ouvido contar que, num escândalo para a época, ter casado com a loira actriz sueca May Britt.

Por que raio o amor havia de ter cor?

Este standard Hey There tem inúmeras versões mas gosto particularmente da de Sammy Davis. 

Penso que já escrevi mas repito:

Caetano Veloso disse um dia que a gente teria outra alma, se não tivesse ouvido estas canções. 

Seríamos espiritualmente menos ricos se não tivéssemos ouvido Without a Song in My Heart, Let’s Face the Music and Dance.

Pelo seu lado o jornalista brasileiro Paulo Francis disse que uma das razões por que morrer o incomodava era não ouvir mais as canções de Cole Porter.

Por humor, por ironia, espirra do computador a velha frase: I haven’t changed, only the times have changed.

FUI SEMPRE DESCRENTE DE MIM MESMO


António ramos Rosa escreveu da melhor poesia portuguesa contemporânea.

Um homem amável que viveu quase sempre com imensas dificuldades económicas. agarrado a uma saúde muito débil.

De manhã escrevia os seus poemas, à tarde desenhava e elaborava as suas críticas literárias, traduzia, escrevia cartas aos seus pares e essa é uma parte importantíssima do seu espólio.


Grande parte das fotografias de Ramos Rosa mostram-no sempre rodeado de livros, jornais, papéis e desenhos.

Gosto muito de António Ramos Rosa.

Vergílio Ferreira também.

Ao longo dos volumes da sua Conta-Corrente, Vergílio Ferreira tem algumas referências a António Ramos Rosa.

Esta pertence ao 1º volume, foi escrita a 26 de Fevereiro de 1969, uma quarta-feira:

«Conversa pró-prandial com o Ramos Rosa num café. Que personagem curiosa este grande poeta. Claude Roy disse dele, salvo erro, que lembrava um Quixote surrado. Enganou-se de mundo, anda aqui por se ter distraído. Porque ele nasceu para viver noutro lado onde não haja regras de trânsito, de disciplina, de subsistência. De modo que faz um esforço enorme para se acomodar. Um grande achado para ele foram as práticas do ioga ou coisa que o valha. O mundo em que circula desarranja-lhe os mecanismos interiores. E toda a sua preocupação é consertá-los. Mas ele a compor e a realidade a estragar. Quando julga que venceu, fica radiante. Dias depois volta à oficina com o psíquico esmurrado. Não chegará nunca a tirar a carta de condução no mundo. Hoje trazia outra descoberta: mastigar interminavelmente um pedaço de alimento até sentir vómitos. Isso lhe afinaria o sabor para recuperar um paladar originário. E ria. E estava feliz. Nós alimentamo-nos tão estupidamente, com um paladar tão encortiçado. Ele quer restaurar cá, o sabor que deve haver talvez do lado de lá. Encantado com a descoberta. E eu com o encantamento. Adorável poeta. Extraordinário poeta.»

sábado, 1 de fevereiro de 2020

OLHAR AS CAPAS


Casa da Malta

Fernando Namora
Capa e ilustrações de Manuel Ribeiro de Pavia
Editorial Inquérito, Lisboa, 1951

Abílio, durante os seus três anos de vadiagem, lembrava-se sempre, à noite, do marulhar do rio. Era como se lhe faltasse uma música de embalar. Quando o rapaz do cornetim lhe ensinara o segredo de dominar e compor os sons, ao entardecer ia para um canto solitário, tocando, em surdina, uma toada lenta e monótona – imitando o rio. Imitando o rio e a melancolia da sua vida de acaso. Mesmo depois do circo desmanchado, continuara companheiro do tocador. Amigos, unidos por coisas que nem se esclareciam e pela música.
O circo acabara numa aldeia escura da Beira. Quando chegaram a esses sítios amaldiçoados em penedias e estevas já o grupo tinha minguado: as raparigas gordas fugidas na companhia de maltezes, a velha e duas crianças mortas de doença e miséria.
A velha arrastara ainda por um ano uma perna ulcerada e imunda. Ia aos médicos das terras onde paravam e eles diziam:
- Só cortando a perna.
E ela abanava furiosamente a cabeça.
Mas era ainda a velha que cozinhava umas sopas para o grupo, apesar do nojo dessa mistura de chagas, trapos purulentos e de comida. Depois que ela morrera, o chefe tinha vendido o carro e as mulas; tinha-os bebido, e ninguém mais pensara em comer o caldo. Pedaços de pão, chouriço, fruta roubada nos pomares das estradas.
A atracção do circo era agora o ganapo, esbandalhando o corpo como uma aranha; o rapaz do cornetim substituíra vários números acrobáticos e Abílio tocava o tambor e recitava versos brejeiros.

UM POEMA DE CAFÉ


Sentadinhos à mesa do café
alguns intelectuais do dito
resolvem tu cá tu lá os males
deste caótico mundo.
Um sujeito sentado a um canto
lê guloso dez tostões de alegria
num jornal fabricado de propósito
por velhos mal humorados
com direito a reforma por inteiro.
Um homem com ar de asceta
metido num grosso volume
dum filósofo compendiador
do pensamento luso-europeu.
Uma dama espadaúda
faz colagens num rapaz mimoso.
Um recém-licenciado
é muitíssimo doutorado ao telefone.
Um criado procura a espinha dorsal
perdida em trinta anos de serviço efectivo.

Mendes de Carvalho de Camaleões &Altifalantes em Satírica