sábado, 5 de fevereiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Por aqueles tempos, nascia-se em casa.

Na rua onde nasci, não havia qualquer sala de cinema mas, em redor, havia uma enormidade de cinemas.

Mentalmente percorro essas ruas, sigo em direcção à Graça e encontro o Cine-Oriente, o Royal, junto à Morais Soares o Max, o Imperial, na Almirante Reis o Cinema Império, o Lys, o Rex, mais abaixo o Salão Lisboa, e se subir até à Duque de Ávila encontro o Avis.

Desapareceram quase todos, outros mantêm o espaço, mas viraram diversos, quiçá estranhos,locais de consumo.

O cinema é um mundo de afectos que provoca uma grande e inolvidável memória e a cada um o seu Cinema Paraíso, a sua última sessão.

É assim que também a morte nos visita.

Legenda: Cinema Royal na Rua da Graça, hoje um supermercado.

LAURO ANTÓNIO (1942-2022)


 Na quinta-feira, aos 79 anos, morreu Lauro António.

Uma vida dedicada à cultura, mas principalmente ao cinema.

Não tinha grande apetência por holofotes.

«Como crítico, como organizador de festivais, como professor, como dinimizador cultural, nunca foi minha intenção impor opiniões.».

Entendia a crítica de cinema com paixão e, por isso mesmo, era parcial.

Manteve, nos primeiros tempos da TVI, o programa «Lauro António Apresenta», cujos textos de apresentação dos filmes foram publicados em Junho de 1994 pelas Edições ASA.

 Quem gosta da vida vai ao cinema.

É lá que tudo se passa.

«Nos nossos cinemas, ou no que resta dos nossos cinemas, se me quiser fazer entender.» é o começo de uma crónica de João Bénard da Costa.

Lauro António, entre Setembro de 1974 e Março de 1975, realizou um filme-documentário a que chamou «Vamos ao Nimas».

Nos seus 18 minutos de duração, o filme pretende ser uma evocação dos cinemas de bairro, os chamados «piolhos», que já não existem, das salas de cinema que pelo país, um pouco por toda a parte, foram encerrando as portas, e em muitos casos, com os edifícios destruídos.

Escreveu  Lauro António: «por maquinações do capitalismo, os velhos “clássicos”da aventura, do humor, do “suspense” ou do amor cederam progressivamente o seu lugar a este estendal de violência gratuita, de especulação, de barbárie que por todo o lado cresce. Enquanto desaparecem as salas que viram nascer e morrer uma época de ouro.»

Ainda Lauro António:

«Aqui existiu uma sala de cinema. Uma sala popular. Um bilhete para uma sessão dava direito a ver duas fitas em reprise.
Aqui existiu uma sala de ilusões. Aqui Gene Kelly dançava à chuva.
Marilyn amava.
James Bond tinha ordem para matar.
Chatrlot dava pontapés nos polícias
Os Marx faziam coisas impossíveis
Tarzan lutava com crocodilos-"Me Tarzan. You Jane."
Zorro e Fantomas na mesma sessão.
Bogart em "Casablanca"
A malta sorria - ria - sonhava - vibrava.»

De Lauro António retenho ainda o ter sido programador da sala de cinema do Centro Comercial Apolo 70, uma sala confortável com a excelência de uma projecção e de um som que dela fizeram um autêntico «must»

«Ao abrir as portas, todo o cinema que se preza orgulha-se de se apresentar ao público referindo normalmente a excelência da sua projecção, a comodidade dos seus lugares, o bom gosto do seu ambiente, o interesse espectacular da sua programação, etc. Apolo 70 poderia começar também por isso (e cremos que o faria com inteira justiça), mas as responsabilidades que irá contrair são sobretudo de um outro tipo. Com o que a sua declaração de princípio pretenderá atingir um alcance muito mais vasto».

E não se podem esquecer as sessões da meia-noite que por lá aconteceram.

Foi no Apolo 70 que, com o meu pai, vi dois filmes do Francis Ford Coppola: «Appocalipse Now» e «Do Fundo do Coração».

Outra referência minha de Lauro António data de finais de 1967 quando, juntamente com o Eduardo Prado Coelho, mais tarde com o João César Monteiro e o Vitor Silva Tavares, se tornaram críticos de cinema de Diário de Lisboa, crítica de cinema a sério, o que levou as distribuidoras de filmes a dizer a Ruella Ramos, proprietário do jornal, que ou punha aqueles senhores a andar dali para fora ou nunca mais via um tostão de publicidade.

Os senhores das exibidoras não estavam a ver bem com que quem estavam a lidar, não só os críticos não saíram como se gerou uma enorme onda de solidariedade entre os jornalistas e escritores, bem como dos leitores do jornal, e tiveram que arrepiar caminho.

O jornal não cedeu a qualquer tipo de chantagem.

Lauro António criou, no ano passado, a Casa das Imagens, em Setúbal, para onde levou uma boa parte do seu acervo, entre livros, filmes, cartazes, fotografias e onde organizava ciclos de programação.

No jornal digital Mensagem de Lisboa, podem encontrar as crónicas que Lauro António escreveu para esta publicação.

«Um velho sábio, elegante, a tentar agarrar a memória da sua paixão, o cinema, e a generosidade da militância pelo cinema», tal como de Lauro António escreveu Ferreira Fernandes.

Legenda: fotografia de Maria Eduarda Colares

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

OLHAR AS CAPAS


Diário Inédito

1944-1949

Vergílio Ferreira

Apresentação: Hélder Godinho

Edição: Fernanda Irene Fonseca

Capa: Rui Rodrigues

Quetzal Editores, Lisboa, Março de 2010

 

Basta de literatices. A arte é, no fim de contas, uma coisa bem estúpida. Que lucrou o mundo com os génios das letras? Uma razão para erguer estátuas ou rotular ruas.

Porque escrevo eu livros? Ora! Pela mesma razão que um albardeiro faz albardas, quando as faz por gosto. Em todod o caso sempre é uma madureza mais desculpável do que fazer bricabraque ou investigar das raízes de palavras gregas. Três quartas partes do que o homem faz são madurezas. E são essas madurezas as suas necessidades. Não: as faculdades do espírito não deviam ser desperdiçadas. Um cavalo, com a décima parte da inteligência de um homem medíocre, seria um animal muito equilibrado, seria, decerto, o rei da criação. Não faço blague. 

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

NOTÍCIAS DO CIRCO


 Manuel Pinho, ex-ministro de José Sócrates, está em prisão domiciliária desde 15 de Dezembro de 2021.

Segundo o Ministério Público  terá beneficiado a EDP em 1,2 mil milhões de euros e é ainda suspeito de ter recebido uma avença mensal de 15 mil euros através do chamado saco azul do Grupo Espírito Santo,

O Juiz Carlos Alexandre, a pedido do Ministério Público mandou arrestar três imóveis a Manuel Pinho e outros 10 à sua mulher. A pensão de 15 mil euros foi congelada. Ex-ministro, passa a receber 2.115 euros por mês.

Legenda: recorte de uma 1ª página do Expresso.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Decorrendo os dias pós eleições legislativas, faço uma paragem pelas Folhas Políticas, onde José Saramago deixou alguns textos sobre a unidade da esquerda.

Hoje e amanhã são estes os Sublinhados Saramaguainos

«Do alto da sua tribuna, o presidente da Assembleia da República não vê a Nação: vê (quando estão todos) 263 deputados que, pela graça da aritmética, a representam. Está a Direita, está o Centro, está a Esquerda: Ninguém precisa de (se) interrogar sobre o que seja a Direita, ninguém acha oportuno averiguar se o Centro o é de facto, mas todos nos inquietamos com a Esquerda, com o passado, o presente e o futuro da Esquerda. Falta saber (o tempo virá a dizer, por força) se essa inquietação é sinal de saúde ou de doença, da Esquerda e de quem para ela se volta interrogativo, com uma preocupação porventura autêntica, mas não destituída de algum comprazimento. Outra vez em Portugal se tornou mais fácil falar das coisas adio que fazê-las, outra vez (passe a banalidade da alusão) cuidamos mais de discutir o sexo angélico do que de investigar os modos de levar os anjos a fazer filhos, sejam os ditos anjos machos ou fêmeas.

(…)

Por aqui se concluirá que, segundo entendo, a questão da Esquerda, logo a questão do Socialismo, tem de passar por uma definição do partido Socialista no que toca ao lugar que ocupará (ou não) na futura luta, ou, se a linguagem parecer demasiado bélica, no futuro empenhamento das forças de Esquerda. A grande responsabilidade do partido Socialista tem sido a de paralisar, pela sua contradição interna, a irrecusável definição: é possível, por isso, afirmar que, no sentido mais rigoroso do termo, o Partido Socialista adiou o Socialismo. Porque o adiou dentro de si próprio.

(…)

Encontremo-nos, pois, e confrontemos. Sabendo cada um o lugar que ocupa, agora, no sector da esquerda que for o seu, sem subvalorização do que, efectivamente, esse sector representar como expressão colectiva. E tenhamos em vista que o objectivo é o Socialismo. A esquerda não é um fim em si, um modo vitimizante ou triunfalizante de estar no mundo: é uma estrutura, um instrumento, uma organização. Que, como todas as coisas, serão julgados pelos resultados. E nós de caminho.»

 

De um texto publicado na revista Abril, Fevereiro de 1976 e que pode ser encontrado na página 13.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2022

O RISCO DE SE FICAR MAL NO RETRATO

Num comício em Outubro de 2015, Jerónimo de Sousa afirmou que o «PS só não forma governo se não quiser.»

Passos Coelho e Paulo Portas tinham ganho as eleições, mas existia uma maioria de esquerda na Assembleia.

No dia 15 de Fevereiro de 2016 por aqui se escrevia:

«Há um governo do Partido Socialista, apoiado pelas esquerdas.

O passe de mágica que destronou a direita, que se preparava para nos infernizar a vida por mais quatro anos, aconteceu.

Lembrar o quanto José Saramago ficaria feliz com a possibilidade das esquerdas -finalmente! – terem iniciado os caminhos da unidade.

Uma unidade que já vem dos tempos da Assembleia Constituinte, mas que certos actores, com fins então inconfessáveis, desprezaram.

 Em artigos de opinião, em conferências, em entrevistas, José Saramago nunca deixou de vincar o mote da unidade com vista ao nosso futuro de povo.

Nos dias que correm, estão muito difíceis os tempos deste governo do Partido Socialista apoiado pelas esquerdas.

Bruxelas, os mercados, o raio que os parta, tudo junto, a tentarem que o sonho, mesmo sendo débil, se desfaça.

Um trabalho que, tanto o Partido Socialista, o Partido Comunista, o Bloco de Esquerda, têm de preservar.

Sob pena de não existir uma outra oportunidade e de todos ficarem mal no retrato.»

A água continuou a correr por debaixo das pontes.

Corria o findar de Outubro de 2021.

Cada um com a devida quota parte de responsabilidades, Partido Socialista, Partido Comunista, Bloco de Esquerda, acabaram por provocar o desfecho de obrigarem o Presidente da República a marcar eleições legislativas para o dia 30 de Janeiro de 2022.

Cada um tem a sua explicação.

Ressalta a quem lê a história por fora, que António Costa apenas aguardava a oportunidade de afastar aquela esquerda do seu caminho.

Quando Paulo Portas chamou «geringonça» aos acordos do PS, do PCP, do BE, António Costa, num debate quinzenal na Assembleia da República, ainda disse:

«É geringonça, mas funciona.»

Mas era difícil o palmilhar naquele caminho de pedras.

António Costa ainda lembrou que os portugueses não gostam de maiorias, mas começou a recente campanha por exigi-la.

Os palradores televisivos logo disserem que uma maioria absoluta era quase uma impossibilidade.

As sondagens das diversas empresas foram dando empates técnicos, ligeira percentagem a António Costa, uma sondagem ainda conseguiu dar a vitória a Rui Rio, mas os resultados são aqueles que os votantes entenderam dar no domingo.

Não sei como funciona o negócio das sondagens mas terá que existir uma qualquer explicação para tanto disparate.

Há clubes de futebol que arranjam bruxos para influenciar resultados, há partidos que arranjem gurus para mexer cordelinhos.

Outras histórias.

Segundo o Diário de Notícias, António Costa pretende indicar Edite Estrela como futura Presidente da Assembleia da República.

Se assim acontecer, opinião minha, os novos caminhos não começam nada bem…

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

O DIA SEGUINTE

Alexandre O’ Neill, em tempos de ditadura, poetizava que o medo tem tendência natural para ter tudo e pensava no que o medo ia ter e tinha medo, que é justamente o que o medo queria e assim perfilados de medo, cada um por seu caminho, chegaríamos a ratos, sim, a ratos.

Lembra-se que a avó muitas vezes dizia que quem tem cu tem medo, mas que quem tem medo devia comprar um cão.

Pedro Tadeu, hoje, no Diário de Notícias escreveu:

«O medo de um governo de direita, que as inúmeras sondagens anteriores às eleições tornaram, erradamente, uma possibilidade viável na cabeça de muitos eleitores, levaram a uma concentração de votos da população de esquerda no Partido Socialista, com sacrifício do Bloco e da CDU, e originaram uma grande vitória pessoal de António Costa.»

Henrique Bento Fialho no seu blogue Antologia do Esquecimento:

«O discurso do voto útil, o medo de ver o tiranete Rui Rio no poder, coligado com uma horda de tontos, hipócritas e corruptos, pesou. O medo pesa sempre muito. Daqui a quatro anos, o mais provável e ninguém ter votado PS. Aconteceu o mesmo com Sócrates. As pessoas têm memória, mas é curta e só serve para o que lhes serve. A paz, que o pão, a saúde, a habitação, a gente cá se vai amanhando. Agora é olhar em frente e continuar a lutar por quem trabalha, trabalhando com quem luta. Viva a democracia, viva a liberdade, viva Abril.»

Se isto fosse a sério, se as empresas de sondagens não estivessem ao serviço não se sabe bem de que mandaretes, era tempo de  colocar toda aquela gente no desemprego a que se juntaria os palavrosos-parvónios- -comentaristas de serviço pelas televisões.

Sim, houve o medo, mas é bom que se diga que isso, pouco ou nada, explica o tsunami eleitoral que ontem aconteceu.

domingo, 30 de janeiro de 2022

NÃO UM DOMINGO COMO OUTRO QUALQUER


Há dias, durante os estúpidos silêncios em que o Cais mergulhou, o viajante Seve perguntou que livros eu tinha lido no ano que findou.

Li muito, mas poucos livros novos.

Tornei-me, como dizem os ingleses, que nem sequer têm literatura, nem cinema, tudo o que têm lhes chega da Irlanda, um «slow reader» e, acima de tudo, ando em releituras, principalmente de José Saramago que,  ao fim de tanta e tantas leituras, ainda descubro coisas novas e de espanto.

Mas de um livro quero falar porque é uma pequena bíblia desenhada por um escritor que escreve muitíssimo bem, é uma excelente pessoa e nunca troquei sequer uma palavra com ele.

 O livro chama-se «De Maneira Que É Claro…» e o autor é Mário de Carvalho.

Foi funcionário do Partido Comunista, partido de que há muito deixou de ser militante, mas numa entrevista a Ana Sá Lopes, Público de 19 de Novembro de 2021, afirmou que no Partido sempre tem votado:

Ele o disse:

«Se o PC desaparecer, se enfraquecer mais, todos perdemos com isso. Faz parte do nosso quadro democrático.»

 O livro são pequenas memórias de uma vida muito rica, «apontamentos muito curtos sobre alguns aspectos – não todos – do meu percurso de vida que me pareceu interessante partilhar com o leitor.»

 Comprei o livro em Novembro, li-o de um folego só, e depois passei a pegar nele, não direi todos os dias, mas amiúde dou com ele nas minhas mãos.

 É um livro de encantamento e, como já disse, muito bem escrito, forte apanágio do autor.

 Mentiria se dissesse que não sei das razões por que falo do livro neste domingo. E sei-o tão bem, que não hesito em copiar a historinha mariocarvalhiana que se encontra na página 192:

 «A separação do PCP foi-me longa e dolorosa. Era (com outros) um património de família. Anos de reminiscências afectivas. Memórias de militância, por vezes difícil e dura. Ilusões, desilusões, vitórias e frustrações. Preços pagos!

O sentido da incongruência, após a revolução, foi-se firmando a pouco e pouco. Conheci pessoalmente, quase todos os meus heróis míticos. Senti, em dada altura, que já me ouvia a dizer coisas em que não acreditava.

Tive duas conversas, espaçadas, com Álvaro Cunhal. Iniciativa dele. Não que eu, na casa, fosse importante. Mas ele queria conhecer tudo e todos. Chamou-me. Um encanto de pessoa. Após a segunda conversa foi-me enviado um recado por terceiro: «Negando o papel de vanguarda da classe operária, faltavam-me condições para continuar na direcção do ”sector intelectual”.» Pode ser que as palavras não tenham sido exactamente estas, mas o significado foi.

E ainda bem, porque a relação já se ia deslassando, devagar. Os factos minavam quotidianamente esta minha aposta. A dada altura tornou-se-me evidente que não apenas certo tipo de análise, mas também um estilo de funcionamento e, até, de linguagem, me diziam cada vez menos. Caiu o tal muro, soçobrou a União Soviética, um antigo futuro de radiosa esperança transformou-se em ruim passado.

Houve movimentos, encontros, infindas discussões, agitação periférica, papéis, cismas. Reavaliar, transformar, adequar… O que se sabe.

Nesse confronto, muitas pessoas que me são estimáveis, por esta ou aquela razão, ficaram do outro lado. Não deixo por isso de as prezar e admirar.

Posso ironizar, brincar, desdizer. Mas não me está no feitio hostilizar o Partido.»

Legenda: desenho de Rogério Ribeiro

AO SER-ME SOLICITADO UM POEMA DE GUERRA


Em tempos como estes parece-me melhor que

A boca de um poeta tudo cale, pois na verdade

Não nos cabe o dom de corrigir um estadista;

Já se intromete bastante quem logra agradar

A uma rapariga na indolência da sua juventude

Ou a um velho numa noite de inverno.

W.B. Yeats em Poemas Escolhidos, tradução de Frederico Pedreira, Relógio d’Água

sábado, 29 de janeiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


 Viver é tomar partido.

José Rodrigues Miguéis em  Nikalai! Nikalai!

Legenda: desenho de José Rodrigues Miguéis

QUOTIDIANOS


Salazar tomou conta do país em 1933.

Vivia-se miseravelmente.

Em 1935 a CARRIS, por ideia de Teotónio Lima, subsecretário de Estado das Corporações e Previdência Social, cria o «bilhete operário».


Nas carreiras entre Belém-Almirante Reis, Belém-Caminhos de Ferro, Ajuda-Rossio, Rossio-Poço do Bispo e Praça do Comércio-Alto de São João., devidamente identificadas como Carros operários.

O bilhete operário tinha de ser comprado entre as 5 as 8 horas da manhã e o retorno verificava-se entre as 17 e as 20,00 horas. Dependendo das zonas a utilizar, começaram por custar 30 e 50 centavos.

Os bilhetes operários acabaram no início dos anos 70.

SOZINHO DIANTE DAS ESTRELAS


 Em miúdo sonhava com barcos, comboios, aviões, moinhos de vento.

Duvida que coisas destas façam, hoje em dia, sonhar um qualquer miúdo.

Também se fala de comboios, das estações ferroviárias mas, acima de tudo, é uma história de amor.

Maravilhosas73 páginas que se leem num só folego.

«A condessa Walewska, o criado e Fallmerayer levaram-no para o seu quarto no primeiro andar, onde tinham preparado uma cama para ele.

«Boa noite!», disse Fallmerayer. Chegou ainda a ver como a sua amante endireitava os travesseiros e se sentava na borda da cama.

Em seguida, Fallmerayer partiu; nunca mais se ouviu falar dele.»


Legenda: contra capa de O Chefe de Estação Fallmerayer, de Joseph Roth

sexta-feira, 28 de janeiro de 2022

POSTAIS SEM SELO


«Neste inverno há homens que enlouquecem e outros que se salvam. Todos caem, alguns saberão levantar-se.»

― Nuno Camarneiro em Debaixo de Algum Céu

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa. 

Eusébio nasceu em Lourenço Marques no dia 25 de Janeiro de 1942.

José Saramago nunca foi muito de futebóis. Por influência do pai terá sido sócio do Benfica. No livro José Saramago: A Consistência dos Sonhos, na página, 25 podemos vê-lo, aos 11 anos, com o emblema do clube na lapela do casaco.

Mas no dia 25 de Abril de 1995, escreve no 3º volume dos seus Cadernos de Lanzarote:

«O motorista do táxi que me leva a Grande central Station pergunta-me se sou espanhol: algo lhe deveria ter soado desse género aos ouvidos. Do género ibérico, digo, uma vez que não admitiu a possibilidade de eu ser argentino ou mexicano. Respondi-lhe como devia, uma vez que à pátria não há que renega-la nunca. Então vejo abrir-se no espelho retrovisor um sorriso feliz, cintilar um olhar deslumbrado, e ouço, deformada por uma pronúncia atroz, muito pior do que tinha sido a minha, a mágica palavra: «Eusébio.» Surpreendido, julgando ter ouvido mal, pedi-lhe que repetisse, e ele repetiu: «Eusébio, Eusébio…» Tantos anos passados sobre os seus tempos de glória, o nosso Eusébio de Moçambique ainda tem quem o recorde no Novo Mundo. E, como se isto fosse pouco, um motorista de táxi, de quem não cheguei a apurar as origens, sabia que ele era português…»

O ARREPIO DA ENCRUZILHADA


 «O que me enrugava a disposição era tão intraduzível como isto: a imagem do meu estúdio em Paris a dizer coisas indigestas: «Meu filho, meu filho, porque me abandonaste?» O estúdio vazio, com as marcas todas de espaço onde um homem vive só.

Tentei concentrar-me no meu aqui-agora, que era aquela estação terminus. Então ocorreu-me (inesperadamente) que uma estação terminus é sobretudo como um sino: pode repicar de casamento ou dobrar a finados.

Senti – concreta – a possibilidade de retomar viagem na direcção de todas as outras cidades do planeta. Seria isso o que me arrepanhava? O arrepio da encruzilhada quando um tipo se calha está perdido? Uns anos antes tinha sentidod coisa mesmo assim, em Istambul. Mas com direcção concreta, a dizer-me «vem daí»: por um triz de triz estivera para tomar o transiberiano Istambul-Pequim. Ao lá vai disto, a ver.»

Nuno Bragança em Square Tolstoi

Legenda: Estação ferroviária de Porta Nuova, Turim.

Nuno Bragança começa assim Square Tolstoi:  «O pressentimento de estar tropeçando no destino. Sabem como é?» 

OLHAR AS CAPAS

 

O Chefe de Estação Fallmerayer

Joseph Roth

Tradução e introdução cronológica: Álvaro Gonçalves

Colecção Gato Maltês nº 85

Assírio & Alvim, Lisboa, Março de 2019

Chovia e o ar estava tépido. Nunca o chefe de estação Fallmerayer assistira à chegada tão prematura da primavera. Os comboios-expresso que iam em direcção ao Sul para Merano, para Trieste, para Itália nunca paravam na sua minúscula estação. Os comboios-expresso passavam a uma velocidade vertiginosa por Fallmerayer, que, duas vezes por dia, aparecia na plataforma a cumprimenta-los com o seu boné vermelho reluzente; esses comboios degradavam o chefe de estação quase à categoria de guarda-linha. Os rostos dos passageiros nas grandes janelas desvaneciam-se numa massa branca-acinzentada. Raramente o chefe de estação Fallmerayer conseguia ver o rosto dum passageiro que viajava em direcção ao Sul. E para o chefe de estação o «Sul» era o mar, o mar feito do sol, da liberdade e da felicidade.

TRISTEZA

Perto de onde se ouvem as ondas azuis do céu

Acho que perdi
Qualquer coisa de muito valor.

Numa estação nitidamente no passado
Em frente do funcionário dos perdidos e achados
Senti-me ainda mais triste.

Tanikawa Shuntaro

Tradução de José Alberto de Oliveira

Poema tirado da antologia A Rosa do Mundo

quinta-feira, 27 de janeiro de 2022

REGRESSO

De repente, ficou sem saber como sair do buraco em que se meteu.

Mark Twain costumava dizer que, quando em dúvida, se deve dizer a verdade.

No seu belo livro, «Vidas Secas», Graciliano Ramos deixou escrito:

Lembrou-se de seu Tomás da bolandeira. Dos homens do sertão o mais arrasado era seu Tomás da bolandeira. Porquê? Só se era porque lia de mais. Êle, Fabiano, muitas vezes dissera: - “Seu Tomás, vossemecê não regula. Para quê tanto papel? Quando a desgraça chegar, seu Tomás se estrepa, igualzinho aos outros”.

Eugénio de Andrade num dos seus textos poéticos:

«Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados.»

Mas como é possível, depois de milhões de palavras lidas, vivências várias, ter de ir buscar uma conversa do avô paterno, tida para aí nos finais dos anos 50, em que lhe dizia que odiava os meses de Janeiro e Fevereiro?

«Acabam-se as festas do Natal e ficamos nas sombras de dois meses de tristeza-quase-trevas, restando-nos aguardar os primeiros salpicos da Primavera que há-de chegar!».

 De uma maneira ou de outra, sempre conseguiu ultrapassar este sentimento depressivo, mas os tempos desta quarentena sem fim à vista, já deixara mossas nos anos anteriores, mas agora deixou-se afundar.

Decidiu que durante estes meses, velho sonho, não pisaria uma pedra do Cais.

Tudo muito bonito se não tivesse esquecido que isso mereceria uma palavra de aviso aos viajantes que por aqui passam.

Ao terceiro dia de silêncio, olhou o estupor do disparate em que se enredou e deixou de saber onde as pedras iam cair, tal como canta o Tom Waits.

É por isso que este, é um texto de vergonha: a sua vergonha.

Um texto que não sabe escrever –alguma vez soube escrever o que quer que seja? - porque toda esta situação está envolta num manto desastroso de disparates sem fim.

Sabe que nada, mas mesmo nada, abonará estes parvos dias de silêncio.

Pedir desculpas não chega.

Pois é, seu Sammy, para quê tanto papel se você se estrepa igualzinho aos outros?

Então, presenciou a verdade de toda a lamentável situação, e estremeceu.

Até amanhã!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

OS IMBECIS VÃO TOMAR CONTA DO MUNDO


 Possivelmente sei das razões que em cada dia do final do ano me lembrar da frase de Umberto Eco, mas nunca atino com a razão:

«Os imbecis vão tomar conta do mundo.»

Miguel Torga, em Milão, no último dia do ano de 1932:

«Não se pode dormir com tanta gente lá fora, aos uivos, a festejar o ano novo. Como se fosse possível um ano novo rer melhor do que o velho!»

Vergílio Ferreira, no findar de 1978:

«Estava eu a querer saber o que vou fazer este ano. Não sei.»

António Alçada Baptista, em Dezembro de 1984:

«Olho para o novo ano com fé e esperança. O meu incansável de sobrevivência faz-me recordar mais as alegrias que tive do que as tristezas. O que é que querem que eu faça? Gosto de viver e detesto a existência em forma de lamúria.»

O velho ano está quase a escapulir-se.

Foi mais um, e foi péssimo!

A Sophia gostava de dizer que não sabia por que as pessoas celebravam a passagem do ano porque o ano estava sempre a passar.

O tempo do meu cachimbo estar apagado, o meu copo vazio e a chegar-me a lembrança do Helder Pinho, na passagem do ano de 1972, a telefonar para casa do meu pai e a gritar-me, o Helder morava, junto ao Tejo, na Rua da Manutenção: «eh pá! estou a ouvir a ronca dos barcos no Tejo a saudar o novo ano. Que maravilha!...que maravilha.» e mais outra lembrança, José Saramago, na noite estrelada cálida e tranquila de Lanzarote, no findar do ano de 1994: «Ninguém mais no mundo quer esta paz?»

Agora, segue-se o salto sem rede no vazio incógnito do novo ano.

Será, então, tempo de voltar a acender o cachimbo, voltar a encher o copo.

Será?

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


Dito já que começaram as iniciativas que visam registar o centenário do nascimento de José Saramago, acrescenta-se que irei pegando num qualquer livro de José Saramago e copiarei dele uma frase, um parágrafo, aquilo que constitui os milhares de sublinhados que, ao longo dos muitos anos de leituras, invadiram os livros de José Saramago que habitam a  Biblioteca da Casa.

Pegamos em O Ano da Morte de Ricardo Reis para lermos o que José Saramago nos tem para dizer sobre um findar de ano:

«Hoje é o último dia do ano. Em todo o mundo que este calendário rege andam as pessoas entretidas a debater consigo mesmas as boas acções que tencionam praticar no ano que entra, jurando que vão ser rectas, justas e equânimes, que da sua emendada boca não voltará a sair uma palavra má, uma mentira, uma insídia, ainda que as merecesse o inimigo, claro que é das pessoas vulgares que estamos falando, as outras, as de excepção, as incomuns, regulam-se por razões suas próprias para serem e fazerem o contrário sempre que lhes apeteça ou aproveite, essas são as que não se deixam iludir, chegam a rir-se de nós e das boas intenções que mostramos, mas, enfim, vamos aprendendo com a experiência, logo nos primeiros dias de Janeiro teremos esquecido metade do que havíamos prometido, e, tendo esquecido tanto, não há realmente motivo para cumprir o resto, é como um castelo de cartas, se já lhe faltam as obras superiores, melhor é que caia tudo e se confundam os naipes.»

SÍLABA


Toda a manhã procurei uma sílaba.

É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.

Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.

Por isso a procurava com obstinação.

Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.

Uma única sílaba.

A salvação.

Eugénio de Andrade em  Ofício de Paciência

Colaboração de Aida Santos

Legenda: Desenho pintado por Aida Santos

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

CHOVER NO MOLHADO

1 de Janeiro de 1992

O calendário bem o diz. Mas é chover no molhado. Há muito tempo já que os anos são sempre velhos em Portugal.

Miguel Torga em Diário Volume IX

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

A VELHICE É ISSO...

14 de Maio de 1977

A velhice é isso – sermos só nós a nossa testemunha.

Vergílio Ferreira em Conta-Corrente 2º Volume

terça-feira, 28 de dezembro de 2021

SENSAÇÃO...

16 de Setembro de 1969

Ouvi agora, transmitido pela Rádio, Dido e Eneias de Purcell. Sensação, como sempre da Hora da Morte.

José Gomes Ferreira em Dias Comuns Volume VIII

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

NOTÍCIAS DO CIRCO

1.

O Presidente da República afirmou que Mendes Calado mostrou disponibilidade para deixar o cargo de Chefe de Estado-Maior da Armada.

O Almirante garante que a saída do cargo não acontece por «vontade própria.

Marcelo e o Governo aparecem envolvidos numa trapalhada de meninos brincando no recreio da escola.

Henrique Gouveia e Melo tomou hoje posse, numa cerimónia rodeada de ruidoso silêncio, em que ninguém aparece bem na fotografia.

2.

Mais uma de Marcelo Rebelo de Sousa que pode ler-se em O Tempo das Cerejas de Vitor Dias:

«Apesar de ser véspera de Natal  não posso deixar de notar que um Presidente da República não tem nada que pedir maiorias em eleições legislativas. A única coisa que, sobre as eleições, pode dizer é que deseja que os portugueses votem de acordo com as suas convicções.»

3.

Manuel Pinho, ex-ministro de um governo de José Sócrates, declarou há dias:

«Fiz mal em ir para o Governo. Perdi uma fortuna incalculável.»

O juiz Carlos Albuquerque determinou que Manuel Pinho fica em prisão domiciliária enquanto não fizer o pagamento de 6 milhões de euros de caução.

Por uma qualquer arte mágina alguém decidiu agora que o juiz Carlos Albuquerque já não ficará com o caso EDP em que o nome de Manuel Pinho se encontra envolvido.

4.

Também por uma qualquer arte mágica, soube-se agora que o russo Roman Abramovich, um dos homens mais ricos do mundo, é cidadão português desde Abril.

Depois de, em rapazinho,  andar a vender patinhos de borracha, nos anos 90 construiu uma fortuna de 12 mil milhões de euros na indústria do petróleo.

Como foi possível esta cidadania?

Por onde e para quem escorreu o dinheiro do suspeitoso novo cidadão português?