sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

CONVERSANDO


 Não gosto do título que o Jorge Calado escolheu para as suas memórias lisboetas, ribatejanas, oxfordianas: Mocidade Portuguesa.

Se perguntarem o porquê, nem sei bem explicar, e se calhar nem tem a ver com o atentado de obrigarem rapazes e raparigas de 10 anos, a seguirem pisadas totalizantes-nazi-fascistas para formar homens e mulheres novos ao serviço do regime salazarista.

Adiante.

 O livro foi apresentado no dia 23 de Junho do passado ano, na Biblioteca da Imprensa Nacional pela Alice Vieira, uma velha e querida amiga de Jorge Calado. 

Entrou logo na longa lista de «Livros a Comprar», era para o adquirir na Feira do Livro, mas a única visita feita ao certame foi desastrosa.

Por Dezembro o filho pediu livros para me oferecer como prenda de Natal.

Assim aconteceu.

Folhei-o, como sempre gosto de fazer, mas o sentar para ler, após diversas ressacas natalícias, aconteceu apenas na sexta-feira 13. A 18 estava pronto para entrar no «Olhar as Capas».

Seis dias para ler as 561 páginas de um livro notável que termina assim:

«Hoje sorrio quando penso em Oxford. Foi lá que começou o resto da minha…»

E ficamos desde já à espera de outro livro, para ficarmos a saber dos dias maravilhosos  que são o resto dos trabalhos, dos gostos e vida de um homem entusiasmante.

Continua na minha lista de »Livros a Comprar» , Um Vestido Curto de Festa do escritor francês Christian Bobin, que morreu, com 71 anos, noa dia 24 de Novembro do ano passado. A curiosidade nasceu depois de ler esta passagem na Antologia doEsquecimento:

 «Para que serve ler? Para nada, ou quase nada. É como amar, como jogar. E como rezar. Os livros são como rosários de tinta negra, cada conta rolando entre os dedos, palavra após palavra. E o que é realmente rezar? É silenciar-se. Afastar-se de si no silêncio. Talvez seja impossível. Talvez não saibamos rezar como se deve: há sempre demasiado barulho nos lábios, sempre muitas coisas nos nossos corações. Nas igrejas ninguém reza, excepto as velas. Elas perdem todo o seu sangue. Elas despendem toda a sua chama. Elas não guardam nada para elas, elas dão tudo o que são, e esse dom transforma-se em luz. A mais bela imagem da oração, a mais clara imagem da leitura, sim, seria isto: o desgaste lento de uma vela na igreja fria.»

 Tantos e tantos que se interrogam:

Sim, para que serve ler?

Aqui estaríamos longas horas a falar disso.

 Mas termino com um comentário que encontrei no Público a propósito de uma crónica de Ana Cristina Leonardo:

«Vou contar um pouco de um mim, jovem adolescente e leitor dos livros da biblioteca ambulante. Escolher um livro quando se é pequeno e as estantes são altas, quando se é curioso e não se conhece bem como a literatura se apresenta, pode criar acontecimentos memoráveis. Ler Pascal e tentar percebê-lo com uma imaginação infantil. Requisitar "A Montanha Mágica" e sonhar, no caminho até casa, com uma leitura do género fantástico, ficar decepcionado mas mesmo assim ler até ao fim e com isso compreender a existência de mundos que estariam no futuro da vida por viver. Relê-lo muitos anos mais tarde porque se teve essa experiência na adolescência.»

DAVID CROSBY (1941-2023)


 Morreu David Crosby.

Continua o tempo dos que me ajudaram a palmilhar caminhos, estarem a desaparecer.

Onde estão os fins de tarde a ouvir o Cândido Mota a anunciar os Crosby, Stills, Nash and Young?


quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 Recomeço. Não tenho outro ofício.

 Eugénio de Andrade

 Legenda: pintura de Marcel Duchamp

CONVERSANDO


 Neste dia, há cem anos nascia José Fontinhas, mais conhecido por Eugénio de Andrade, um poeta único, o Geninho como dizia o José Leal Ferreira.

«Que posso eu fazer senão escutar o coração inseguro dos pássaros, encostar o coração, a minha face ao rosto lunar dos bêbados e perguntar o que aconteceu…»

Numa das crónicas que, semanalmente, publica no Expresso, José Tolentino Mendonça começa assim:

«Em Portugal, que eu saiba, o melhor lugar para ouvir as cigarras é a poesia de Eugénio de Andrade. Ao menos para mim representa o sítio onde verdadeiramente as escutei pela primeira vez.»

Conheci Eugénio de Andrade, corriam os primeiros meses do ano de 1967, nos Poemas, 23º volume da excelente Colecção Poetas de Hoje da Portugália Editora, que comecei a adquirir quando um livreiro aconselhou o meu pai que esse seria o melhor caminho para conhecer boa parte da nova Poesia Portuguesa e Despedida é o antepenúltimo poema do livro:

«Colhe

todo o oiro do dia

na haste mais alta

da melancolia.

Escreve Luís Miguel Queiros no Público de hoje:

«… cem anos após o nascimento do poeta na freguesia de Póvoa de Atalaia, no concelho do Fundão, e decorridas quase duas décadas desde a sua morte, em 2005, a presença de Eugénio parece estar a esbater-se mais depressa do que poderia esperar quem testemunhou a generalizada admiração de que gozou em vida, mesmo que esta possa ter sido sempre um pouco menos consensual em Lisboa do que no seu Porto adoptivo.»

Que se pode esperar de um país em que poucos, mesmo muito poucos, são os que lêem livros?

O sobressalto de um número recentemente  divulgado: 61% dos portugueses não leram qualquer livro impresso de espaço de um ano.

Um povo inculto apenas com os olhos para o que lhes aparece nos telemóveis.

E, no entanto, está tudo nos livros!

«Boa noite. Eu vou com as aves», como diria o Eugénio.

 

Legenda: fotografia de Paulo Pimenta no Público de hoje.

MAR DE SETEMBRO/OSTINATO RIGORE

Sobre a mesa os dois livros. Somente um
volume do “Mar de Setembro”, mas do “Ostinato
Rigore”, três exemplares. O meu, o do Manuel, o
do Joaquim. No final do dia ainda se juntaria

um outro, o do José Manuel Bulhão Martins.
Comprados nessa manhã na Guimarães; os três
decidiam-se pelo novo título, eu permaneci fiel,
até hoje, ao mar de setembro. Nenhum deles tinha

a minha relação com o mar, por isso viam no
verso de Eugénio um jovem a trabalhar a terra
vermelha do verão – o seu tronco, o vigor da argila vermelha do verão
mas o mar de setembro dava-me o melhor nadador
de agosto, o que perseguia desde maio até às marés vivas
o apelo absurdo da beleza
o espaço de tempo de um relâmpago

«com o rosto para sempre perdido / com o sorriso e
a sua tez dourada» algum de nós disse, mas nenhum
o chegou a escrever nas folhas que se espalhavam
sobre as mesas de fórmica.

João Miguel Fernandes Jorge

EUGÉNIO DE ANDRADE

Sou filho de camponeses, passei a infância numa daquelas aldeias da Beira Baixa que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante só conheci o sol e a água. Nesse tempo, que só não foi de pobreza por estar cheio do amor vigilante e sem fadiga de minha mãe, aprendi que poucas coisas há absolutamente necessárias. São essas coisas que os meus versos amam e exaltam. A terra e a água, a luz e o vento consubstanciaram-se para dar corpo a todo o amor de que a minha poesia é capaz. As minhas raízes mergulham desde a infância no mundo mais elemental. Guardo desse tempo o gosto por uma arquitectura extremamente clara e despida, que os meus poemas tanto se têm empenhado em reflectir; o amor pela brancura da cal, a que se mistura invariavelmente, no meu espírito, o canto duro das cigarras; uma preferência pela linguagem falada, quase reduzida às palavras nuas e limpas de um cerimonial arcaico – o da comunicação das necessidades primeiras do corpo e da alma. Dessa infância trouxe também o desprezo pelo luxo, que nas suas múltiplas formas ê sempre uma degradação; a plenitude dos instantes em que o ser mergulha inteiro nas suas águas, talvez porque então o mundo não estava dividido, a luz cindida, o bem e o mal compartimentados; e ainda uma repugnância por todos os dualismos, tão do gosto da cultura ocidental, sobretudo por aqueles que conduzem à mineralização do desejo num coração de homem. A pureza, de que tanto se tem falado a propósito da minha poesia, é simplesmente paixão, paixão pelas coisas da terra, na sua forma mais ardente e ainda não consumada.

Eugénio de Andrade 

ARREPIO NA TARDE

 Não sei quem, nem em que lugar,
mas alguém me deve ter morrido.
Senti essa morte num arrepio da tarde.
Qualquer amigo, um dos vários
que não conheço e só a poesia
sustenta. Talvez a morte fosse
outra: um pequeno réptil
no sol súbito e quente de Março
esmagado por pancada certeira;
um cão atropelado por um bruto
que, ao volante, se julga um deus
de arrabalde, com sucesso garantido
junto de três ou quatro putas de turno.
Talvez a de uma estrela, porque também
elas morrem, também elas morrem.

Eugénio de Andrade de Os Sulcos de Sede em Poesia

quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

O OUTRO LADO DAS CAPAS


 O semanário «Expresso» começou a publicar-se no dia 6 de Janeiro de 1973.

Jorge Calado, nasceu no dia 6 de Janeiro de 1938.

«Tive sorte com o nome e com o dia. Chamo-me Jorge e nasci em Lisboa a 6 de Janeiro, Dia de Reis.»

E foi no «Expresso», como crítico de música clássica, de exposições de fotografia pintura, também de teatro e cinema, que comecei a deparar com o nome de Jorge Calado e a gostar do que, e como, escrevia.

«Seis de Janeiro era, então, festa e feriado: a Epifania, o 12º e último diua de Natal. É também o título da minha peça favorita de Shakespeare, a «Noite de Reis»

E já venho a citar «Mocidade Portuguesa», livro que Jorge Calado publicou no Verão passado, livro de memórias, se bem que o autor nos diga que não o é, tão pouco lhe chama autobiografia.

Diga-se que é um livro de memórias.

«Hoje vejo a memória como um museu cujo conteúdo é precisos estudar, preservar e divulgar.»

Gosto de autobiografias, livros de memórias, correspondência.

O livro de Jorge Calado é um livro fascinante, tão perto, tão perto de outro livro que me encantou: «Memórias» de Rómulo de Carvalho, também António Gedeão.

Tanto num como noutro livro, ficamos a saber de uma Lisboa de outras eras. Rómulo de Carvalho nasceu em 1906, Jorge Calado em 1938, Rómulo foi professor no Liceu Pedro Nunes, Calado aluno do mesmo Liceu e deixa expressa a mágoa de não ter sido aluno desse notável professor.

Acabei há dias a leitura do livro que ficou devidamente sublinhado e mercado, um livro belíssimo, lamentavelmente publicado segundo o atentado dito por Acordês.

 Naquelas páginas encontramos música, cinema, fotografia, pintura, o quotidiano da infância de Lisboa, a paixão de Jorge Calado pelo azul e por Shakespeare.

 Tenho saudades dos sabores da minha infância, quase todos oriundos do Ribatejo: os bolos-de-cabeça, a broa de milho, a morcela de arroz, a uva-maçã cor-de-rosa e carnuda, a erva-doce das broas de Todos-os-Santos, os ouregos para temperar o tomate acabado de colher.

Também eu gosto imenso das broas de Todos os Santos que o Garrudo me trazia, outros tempos, outros tempos, de Alcanena.

Jorge Calado «gostava de seguir as mãos habilidosas da minha mãe moldando as massas cruas em formas estranhas. Uns pós ou cristais (farinha, açúcar, fermento ou bicarbonato de sódio, às vezes sal) mais uns líquidos (água, leite, porventura um cálice de licor ou de vinho do Porto) e uma pasta (manteiga), vida em miniatura (ovos), e proporções variáveis, formavam o barro primordial de que eram feitos doce e salgados. Verifiquei que no girar e bater é que estava a graça, e que a A cozinha não era o estômago, mas sim o coração da casa

Retenho esta frase:

A cozinha não era o estômago, mas sim o coração da casa.

Hei-de voltar mais vezes a este livro mas, por acaso, aberto na página, copio:

 A roupa passava dos mais velhos para os mais novos. Fatos antigos e gastos do meu pai eram oferecidos aos membros mais necessitados da família, e depois adaptados ao novo corpo. Coisas velhas, avariadas ou partidas não se deitavam fora; antes eram recicladas e/ou remendadas ou passajadas. Aplicavam-se cotoveleiras às mangas de casacos e camisolas puídas pelo uso, e nós fundilhos aos calções gastos; viravam-se punhos e colarinhos às camisas coçadas do meu pai; os sapatos levavam tacões, biqueiras, meias solas ou solas inteiras novas.

E não me vou embora sem copiar esta frase, devidamente sublinhado, porque penso do mesmo modo, e retirada da página 21:

«Não me bastava ler um livro; queria possuí-lo, para voltar a ele sempre que quisesse.»

OLHAR AS CAPAS


Mocidade Portuguesa

Jorge Calado

Capa: Magda M. Coelho

Colecção Olhares

Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, Outubro de 2022

No verão de 1968, interrompi os trabalhos de doutoramento em Oxford para duas semanas de férias em Portugal. Preparava-me para o meu último ano oxoniano, com a investigação a progredir de vento empopa. Como habitualmente juntei-me aos meus pais no Buçaco para um fim de semana. Lembro-me de estarmos sentados no varandim do hotel a esmoer o almoço, quando o meu pai foi chamado ao telefone. «O Salazar caiu!» era a notícia de um colega de Lisboa. «Não acredito!, acrescentei eu, pensando que a queda era do governo. «Não, o velho caiu da cadeira de repouso e bateu com a cabeça no chão de pedra. A coisa parece ser séria!», explicou o meu pai. A queda do ditador é um daqueles eventos fulcrais – como o assassínio do Presidente Kennedy, a morte estúpida da Princesa Diana ou a destruição terrorista das Torres Gémeas de Manhattan – em que inevitavelmente sabemos onde estávamos quando ouvimos a notícia. Nesse sábado, dia 3 de agosto de 1968, eu estava no Buçaco, O resto não foi silêncio, como no Hamlet; pelo contrário, à semelhança da Criação, de Joseph Haydn, ouvimos luz – a luz bruxuleante da liberdade ao fundo de um longo túnel de quatro décadas de Ditadura. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2023

GINA LOLLOBRIGIDA (1927-2023)


 Aos 95 anos morreu a linndissima Gina Lollobrigida.

NOTÍCIAS DO CIRCO

«Da escolha de presidente de junta de freguesia à de membros do Governo temos mesmo de ser muito exigentes, muito mais exigentes.»

António Costa na Convenção do Partido Socialista do passado sábado.

Então para que serve aquela coisa, perfeitamente inútil, do questionário aos futuros políticos de 34 ou 36, talvez mais, talvez menos, perguntas?

Exigência é o que se pretende... apenas!

BILHETE PARA O AMIGO AUSENTE

Lembrar teus carinhos induz

a ter existido um pomar

intangíveis laranjas de luz

laranjas que apetece roubar.

 

Teu luar de ontem na cintura

é ainda o vestido que trago

seda imaterial seda pura

de criança afogada no lago.

 

Os motores que entre nós aceleram

os vazios comboios do sonho

das mulheres que estão à espera

são o único luto que ponho.


Natália Correia em OVinho e Lira

domingo, 15 de janeiro de 2023

POSTAIS SEM SELO


 A velhice é o que sobra da vida.

Louis-Ferdinand Céline

CONVERSANDO


 Não podemos ser destrutivos ao ponto de dizer que a «Revista» do Expresso não tem ponta por onde se lhe pegue.

Há por lá uma secção «Planetário – No Caminho das Estrelas» da responsabilidade de João Pacheco, filho do poeta Fernando Assis Pacheco que morreu, prematuramente, à porta da Livraria Bucholz.

Numa das suas últimas colunas, João Pacheco disserta sobre Movimentos Improváveis:

«O prato do dia era ensopado de borrego à moda de Borba. Mas o que estava em causa naquela jogada arriscada era uma garrafa de Porto de 1952. A aposta fora feita à volta da mesa de bilhar opondo o maître da Casa do Alentejo ao narrador do livro “Requiem”.»

Regressei ao livro e apanho estas palavras:

«Aparentemente estou lixado, mas não me vou dar por vencido, é proibido o macê? O macê não, disse com ironia o Maitre da Casa do Alentejo, mas se o senhor rasgar o pano terá que pagá-lo. Está bem, disse eu, então acho que vou tentar um macê.»

Na Rua dos Anjos, em Lisboa, quase a cortar para a Almirante Reis, com o antigo Cinema Lyz na outra esquina, havia um café formidável: o «Ribatejano».

Café, restaurante, sala de jogos, do lado direito que tem entrava, venda de jornais, revistas e tabacos, engraxador por entre as mesas, um belo balcão.

O antigo Café Ribatejano,  no lado esquerdo o espaço da venda de jornais, revistas.
 

                                                       O antigo Café Ribatejano, o café e  o restaurante, a sala de jogos.

O café há muito que fechou portas e no seu lugar ainda está a Nortel – Utensílios e Equipamentos para Hotéis e Restaurantes.

Tantas horas que passei naquele café, a ler o Diário de Lisboa, um qualquer livro, o café era de «saco», tinha uma pastelaria fina e uns excelentes pastéis de bacalhau.

Acabada a leitura, rumava para a sala de jogos: damas, xadrez, bilhares, a três tabelas e snooker.

Na parede o aviso: «É proibido o macê».

O mesmo aviso existia na sala de jogos, no primeiro andar da Cervejaria Portugália.

Nunca tive habilidades para o bilhar, limitava-me a ver e gostava disso, pricipalmente o snooker.

Ainda o Requiem do Tabucchi:

«O Maitre da Casa do Alentejo tapou a garrafa e disse: o que fica é para quem ganhar, acho que chegou a altura de o senhor experimentar o seu macê.

Levantámo-nos e eu senti que tinha as peernas pouco seguras, pensei que naquelas condições era uma milagre se conseguisse acertar na bola, mesmo assim peguei no meu taco, passei o giz na ponta e fui até à beira da mesa de bilhar. Pus-me na ponta dos pés para atingir a bola de cima. A minha mão tremia ligeiramente, teria de precisar de um apoio, mas o macê joga-se sem apoio, de cima para baixo.»

João Pacheco, para ilustrar o texto, escolheu «Grande Masse», de 1933 do artista japonês NakagawaIsaku e adianta sobre o macê:

«O objectivo do jogador é picar a bola, mas esse malabarismo é muito arriscado, até para a saúde do panoi verde da mesa de bilhar. É também esse truque de bilharista que esta jogadora está atentar na gravura “Grand Masse”»

Por macê não poderia deixar de trazer aqui a loucura mansa de Alexandre O’Neill com o seu «É Proibido o Macê», que faz parte de «As Andorinhas Não Têm Restaurante»,  nº 7 da Colecção Cadernos de Literatura, publicado em 1970 pelas Publicações Dom Quixote, livro que levou sumiço da Biblioteca da Casa:

 «Satisfeita a malvada, Datuatia mete o último preso na enxovia, passa a a língua pelo teclado e pelas gengives e diz que este do carvoeiro é que sim, é que pinta. Observada uma aflita à velha, que tem os pintores escondidos atrás do Sagrado Coração e está a dar carapau ao Benfica, Datuatia pega na albarda, resmunga «tèlogomãe». «Não venhas tarde» cacareja a velha num arrasto neopopulista de varizes.

Ao passar pelo Vicente, Datuatia traqueja e diz para a velha das castanhas «troque-me este em miúdos!» e ri-se como um selvagem. A tiazinha fica-se a dar ao abano, como que a espalhar o petisco com que Datuatia a mimoseara. «Que vá gozar a patusca da mãe dele» diz a tiazinha de mistura com outras gentilezas de fazer corar o mais conspícuo, mas já Datuatia virara a esquina na bruta gáspea.

Em menos duma loja de barbeiro, Datuatia chega aos Bilhares, atira o cabedal para uma cadeira, põe a pata em cima do verde e declara que dá quinze às cinquenta a qualquer dos èpás que por ali se coçavam. «Prajá» disse um deles. Chamaram o Rentàterra, que em três trrrins tirou as bolas, depositou-as em cima do verde e preveniu pela estafadésima vez os èpás que era proibido o macê.»

sábado, 14 de janeiro de 2023

NOTÍCIAS DO CIRCO

António Costa, na Assembleia da República, por causa da ex-secretária de estado da Agricultura, meteu os pés pelas mãos. Acontece aos melhores, mas a saída que arranjou para «disfarçar» a inabulidade discursiva, o tal questionário a que os futuros governantes têm que responder, não lembra a qualquer careca e, acima de tudo, vesgo que sou, não resolve nada.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2023

DOS REBOTALHOS E COISAS ASSIM

Pode ser que os tempos mudem e numa destas manhãs, quando consultar os jornais diários, não se me depare autarcas, apanhados pela polícia judiciária em actos de corrupção e outras vergonhas, membros do governo, sejam ministros, assessores, secretários de estado, a saírem do executivo por tudo e mais alguma coisa, como no anúncio televisisvo da Worten.

Mas, por hoje vou sabendo que Rita Marques, saiu de secretária do Turismo para uma empresa cuja área tutelava e atribuíra 5,4 milhões de euros de apoio, mas, acabou por seguir o conselho da vizinha de baixo, porque era uma vergonha não ter cumprido o período de nojo e acabou por  constatar que, face à histeria reinante, não tinha condições para aceitar o emprego que lhe ofereceram, ao passo que Alexandra Reis ainda não devolveu o que recebeu a mais de indemiuzação quando foi posta a andar do conselho de gerência da TAP.

Ah! e hoje tem sido uma calma sexta-feira dia 13, tirando, na Assembleia da República, a  triste e inqualificável afirmação do Ventura, quando disse que o Brasil é governado por um bandido e prontamente foi admoestado pelo presidente da Assembleia, enquanto que a deputada do PAN lembrou que nos incidentes em Brasília houve também violência contra animais das forças de segurança, não referindo que uma obra de arte de Emiliano Di Cavalcanti , «As Mulatas» de 1962, que estava na parede do Palácio do Planalto, foi completamente destruída pelos energúmenos.

 1.

 Refere-se a longevidade da população portuguesa mas esquece-se que a qualidade de vida, da maior parte desses idosos, anda pelas ruas da amargura.

 2.

O número de utentes do Serviço Nacional de Saúde sem médico de família, passou de 776 mil, em 2016, para 1,4 milhão, em 2022.

 3.

 A rede de Cuidados Continuados tem uma lista de espera com mais de 1500 pessoas.

 O Ministro da Cultura não tem informações sobre o desaparecimento de 94 obras da colecção de arte contemporânea do Estado.

 4.

Os preços das casas em Portugal sobem duas vezes mais que a média da Zona Euro.

 5.

O Ministro da Cultura não tem informações sobre o desaparecimento de 94 obras da colecção de arte contemporânea do Estado.

 6.

Conta o jornalista Afonso Melo que Tom Jobim, quando andou pelos Estados Unidos com pouco sucesso, assentara praça num bar onde passava os dias bebendo, numa tentativa para liquidar amarguras diárias. Volta e meia o dono do bar avisava-o: «Cara, está aí um gringo teimoso ligando para você faz dias. Um tal de Franque». E o Tom, encolhendo os ombros: «Não sei quem possa ser. Esquece ele. Ou então pede o número que uma tarde dessas ligo de volta». Ligou mesmo. O Franque era Frances Albert Sinatra. Queria que Tom embarcasse no primeiro avião para Miami para gravarem o álbum que seria Frank Sinatra Canta Tom Jobim e que, dizem os brasileiros, deu mais jeito a Sinatra do que a Jobim , seja lá o que eles querem dizer. 

OLHAR AS CAPAS


 Romance: O Mundo Em Equação

Alexandre Pinheiro Torres

Colecção Problemas nº 19

Portugália Editora, Lisboa, Abril de 1968

Eis a profunda lição que nos deixa o exaltante humanismo de Albert Camus. Que ela seja, pois, capaz de guiar todos aqueles que se empenham na luta contra qualquer forma de peste, contra qualquer dos seus rostos particulares, porque o seu bacilo – como rezam os últimos períodos da maravilhosa parábola que nos legou - «não morre nem desaparece nunca, pode ficar dezenas de anos adormecido nos móveis e na roupa, esperando pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços e na papelada». E saibamos, como Rieux, que, mesmo de pois de vencida, há sempre o perigo de voltar o dia em que, para desgraça e ensinamento dos homens, a peste faça acordar os seus ratos e os mande tornar a morrer numa cidade feliz.

ESCRITA DA TERRA

1.
Sê tu a palavra,
branca rosa brava.

2.
Só o desejo é matinal.

3.
Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.

4.
Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.

5.
Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.

6.
Da chama à espada
o caminho é solitário.


7.
Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?

 

Eugénio de Andrade

SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Diga-se que Deste Mundo e do Outro de José Saramago é um belíssimo livro.

Tem páginas maravilhosas, palavras largamente sublinhadas.

«Não conhecemos a força do mar enquanto ele não se move. Não conhecemos o amor antes do amor.»

«A história das pessoas é feita de lágrimas, alguns risos, umas tantas pequena alegrias e uma grande dor final.»

«… nesta apreensão súbita de um destino ainda por cumprir.»

«Ora, a vida é feita de pequenas e minúsculas tarefas. Escrever é uma delas.»

No meio do livro Saramago ainda lembra que os tempos que então corriam, não iam para crónicas. Mas calcularia ele que os testemunhos que deixou poderiam ser pretexto para uma dança?

Certamente que não. Eu próprio, olho o livro, releio algumas palavras, e não estou a fim de pensar se possível tal coisa.

Assim não pensou a coreógrafa Olga Roriz.

 «Deste mundo e do outro é, acima de tudo, uma celebração.

Uma homenagem à vida, “A vida é breve, mas cabe nela muito mais do que somos capazes de viver.”

A 16 de Novembro de 1922 nasce José Saramago. 100 anos depois temos uma herança maior, as suas palavras, o seu mundo, a sua visão feita pensamento, sentir, emoção.

Saramago descreve e reflete sobre a humanidade, demonstrando o seu amor e preocupação.

O escritor leva-nos às profundezas das gentes, dos lugares, de épocas antigas ou por vir onde o detalhe da escrita nos faz sentir e entrar pelas terras dentro.

A sua obra é uma visão do mundo e esta peça que agora criámos não poderá ser mais do que um sentir sobre essa visão.

Caminhadas sem fim como a passagem da humanidade à face da terra, para carregar o leve e o pesado, o real e o imaginado. Para carregar a vida.

Uma massa indistinta de gente, onde cada um já perdeu o centro. Mas ainda há quem lute, quem levante a voz. Ainda há quem repare no mal alheio. Quem estenda o olhar, a mão e o coração.

Olga Roriz

Maio 2022»

 O bailado foi estreado, no âmbito do Centenário de José Saramago, no dia 23 de Junho do ano passado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

OLHAR AS CAPAS


 À Noite Logo Se Vê

Mário Zambujal

Capa: Antunes

Círculo de Leitores, Lisboa, Setembro de 1986

Esquisito, não é? Noite clara, estrelada, riscadinha até de pirilampos, e agora, zás!, um nevoeiro assim. Parece algodão doce.

Por quê doce, querido?

Tudo é dpce quando tu estás.

Doçura tua, caramelo. Mas cuidado, Mino, olha a estrada.

Olhar eu olho, bombom, o problema é ver. Sabes, do olhar ao ver, vai distância.

Distância, pois: a que distância estaremos? Falaste em trinta quilómetros.

Trinta, quinze, oitenta e oito, tudo é relativo, Natinha. Os teus trinta e sete anos, recatados e adubadinhos de creme, valem bem vinte e três.

Agradecida. E isso, Mino, a propósito de quer?

Da subjectividade aritmética.

Poupa-me filho.

Ou seja: trinta quilómetros em nevoeiro de chantili equivalem a uns cinquenta com nevoeiro decente, setenta e cinco em caso de neblina e uma longa viagem com tempo bom.

INVERNO

como lobos em período de seca
crescemos por toda a parte
amamos a chuva
amamos o outono
um dia até pensamos
em enviar uma carta de agradecimento ao céu
com uma folha de outono como selo de correio
acreditávamos que as montanhas desapareceriam
os mares se dissipariam
apenas o amor seria eterno
de súbito separamo-nos
ela gostava de sofás compridos
e eu de longos navios
ela gostava de sussurrar e suspirar nos cafés
eu gostava de saltar e gritar nas ruas
e, apesar de tudo,
os meus braços vastos como o universo
estão à espera dela…


Muhammad Al-Maghut

(Tradução Adalberto Alves)

Em  Rosa do Mundo

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

... E MUITO MAIS VINHO TINTO

Em 1986, Manuel S. Fonseca esteve três meses em Los Angeles e esse tempo permitiu-lhe «estudar Coppola e ouvir John Huston, esse Hemingway do cinema, já de garrafinha de oxigénio, a dizer que, a mudar alguma coisa na sua vida, teria bebido muito menos uísque e muito mais vinho tinto.»

AS CULTURAS PERDEM COM QUASE TUDO...


 Finais dos anos 50, cheguei a ter um professor de Organização Política que amiúde dizia que a cultura era perigosa e que tivéssemos muita atenção. Comentando o caso com o meu pai, logo disse para me pôr a pau com essa gajada salazarista.

Depois fui aprendendo que a cultura não é um enfeite, antes uma ferramenta para entendermos o mundo.

Decididamente não podemos espantar-nos com as «ideias» (não) culturais dos nossos governos. Têm todos, sem excepção, um soberano desprezo pela cultura, não compreendem que o maior problema do país é de ordem cultural e não apenas de ordem económica e não conseguem distinguir um livro de uma abóbora.

Lembro que um dia, quando Sá Carneiro estava a constituir um dos seus governos, tinha de arranjar um secretário de estado da cultura. Vasco Pulido Valente seu adjunto, foi incumbido de encontrar o tal secretário. Como Sá Carneiro tinha de apresentar a lista do governo ao presidente Ramalho Eanes até às oito da noite, começou a enervar-se. Ligou ao Vasco: «Já tem o SEC?», respondeu um não. «Então vai você, porque não posso apresentar a lista incompleta». O amargo Vasco ainda lhe respondeu que ia ser um fiasco. E Sá Carneiro: «Se for um fiasco logo se vê, mas sempre se ganha tempo.»

Dos 4 ou 5 blogues que leio, O Largo da Memória está nessa lista. Gostei do que li hoje e aqui coloco o texto, dizendo que a fotografia também do é do Luís Eme:

 «Acendeu um cigarro e depois disse: «as salas de teatro voltaram a ter demasiados lugares vagos.»

Antes que eu o interrompesse,  explicou-nos o óbvio. «Sei que não é nenhuma novidade. Acontece sempre que aumenta o preço do pão, do leite, do peixe, da carne...»

E depois fez uma confissão: «É nestes momentos que tenho inveja do futebol. Não há nenhuma crise que consiga tirar os malucos das bancadas dos estádios.»

Levantou-se e antes de nos virar costas, ofereceu-nos mais meia-dúzia de palavras, com um sorriso que tinha tanto de amargo como de derrotista: «As culturas perdem com quase tudo...»

JUNTO À ÁGUA

Os homens temem as longas viagens,
os ladrões da estrada, as hospedarias,
e temem morrer em frios leitos
e ter sepultura em terra estranha.
Por isso os seus passos os levam
de regresso a casa, às veredas da infância,
ao velho portão em ruínas, à poeira
das primeiras, das únicas lágrimas.

Quantas vezes em
desolados quartos de hotel
esperei em vão que me batesses à porta,
voz de infância, que o teu silêncio me chamasse!

E perdi-vos para sempre entre prédios altos,
sonhos de beleza, e em ruas intermináveis,
e no meio das multidões dos aeroportos.
Agora só quero dormir um sono sem olhos

e sem escuridão, sob um telhado por fim.
À minha volta estilhaça-se
o meu rosto em infinitos espelhos
e desmoronam-se os meus retratos nas molduras.

Só quero um sítio onde pousar a cabeça.
Anoitece em todas as cidades do mundo,
acenderam-se as luzes de corredores sonâmbulos
onde o meu coração, falando, vagueia.

Manuel António Pina


SUBLINHADOS SARAMAGUIANOS


 Estamos com o 3º volume dos Cadernos de Lanzarote, na página 147, entrada datada de 1 de Setembro de 1995.

Às voltas com o raio das insónias que volta e meia me atormentam, acabei por rir à gargalhada sobre o sublinhado feito, a quando da 1ª leitura do livro, a propósito de uma notícia peruano com a intenção de privatizarem o Machu Piccu e a cidadela de Chan Chan: «… e já agora, privatize-se também  a puta que os pariu a todos.»

 

« Regressados de uma viagem a Argentina e Bolívia, os meus cunhados Maria e Javier trazem-me o jornal Clarín de 30 de agosto. Aí vem a notícia de que vai ser apresentada ao Parlamento peruano uma nova lei de turismo que contempla a possibilidade de entregar a exploração de zonas arqueológicas importantes, como Machu Pichu e a cidade pré-incaica de Chan Chan, a empresas privadas, mediante concurso internacional.

Clarín chama a isto “la loca carrera privatista de Fujimore”. O autor da proposta de lei é um tal Ricardo Marcenaro, presidente da Comissão de Turismo, Telecomunicações e Infra-estrutura do Congresso Peruano, que alega o seguinte, sem precisar de tradução “En vista de que el Estado há administrado bien nuestras zonas arqueológicas – qué passaria si las otorgamos a empresas especializadas en esta materia que vienen operando en otros países com gran efectividad?” A mim parece-me bem.

Privatize-se Machu Pichu, privatize-se a Capela Sixtina, privatize-se o Partenon, privatize-se o Nunu Gonçalves, privatize-se a Catedral de Chartres, privatize-se o Descobrimento da Cruz do Antonio de Crestalcore, privatize-se o Pórtico da Glória de Santiago de Compostel, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, a Justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for o diurno e de olhos abertos.

E finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo… E, já agora, privatize-se também a p. que os pariu a todos.»