quinta-feira, 11 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Cada qual procura-se onde se sente perdido. Eu perdi-me em Portugal e procuro-me nele.

Miguel Torga, Diário Vol. VIII

Legenda: Amieira, onde Torga, no dia 24 de Outubro de 1958, escreveu esta entrada do seu Diário.

Fotografia tirada de A Letra de Um Alentejo

NOTÍCIAS DO CIRCO


OLHARES


O sol põe-se e nasce um vento quente que se prolonga pela noite e que faz das noites alentejanas as noites mais maravilhosas que encontrar se possa. 

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Em Setembro esquecemos o fogo e o cheiro da terra queimada.
Em Outubro a chuva já levou a cinza.
Em Novembro apercebemo-nos de que já não encontramos a árvore onde escrevemos a canivete o nome do nosso primeiro amor.
Em Dezembro decoramos a sala com um pequeno pinheiro de plástico.
E então em Junho do ano seguinte os dias voltam a ser mais curtos e o fumo cobre-nos o corpo, entranha-se na roupa, tolha-nos a visão.Foi isto que Solvstag me disse e é isto que vos digo.

NOTÍCIAS DO CIRCO


Logo que os incêndios começam a assolar o país, vêm à memória as palavras dos autarcas, dos ministros que, no passado Verão, no meio das tragédias, nos falaram do que iria ser feito para que os incêndios não tomassem as proporções dramáticas que, em cada Verão, são o nosso calvário: mais meios de combate aos incêndios, formação especifica para os bombeiros, os serviços florestais que irão proceder , regularmente, à limpeza das matas,  mais vigilância, mais isto, mais aquilo.

Palavras… palavras… palavras…

As mesmas que, neste momento, voltamos a ouvir.

As condições meteorológicas não podem ser o pano de fundo onde se esconde a incúria, a negociata dos madeireiros.

Mais que combater incêndios, há que preveni-los e isso terá que ser o trabalho de todo um ano.
A tragédia que assolou a Madeira, mortos e desalojados, prejuízos vários e incalculáveis, faz-nos pensar no dinheiro que se andou a gastar em túneis e estradas e que deveria ter sido aplicado no ordenamento da ilha.

São impressionantes as imagens que as televisões nos mostram.

A luta abnegada dos bombeiros, o desespero das populações combatendo o fogo com baldes de água, mangueiras de regar a horta e o jardim.

A desolação.

É sempre tarde quando se chora.


Quando é que, por uma vez, começamos a prevenir em vez de remediar e deixamos de conviver com o terrorismo incendiário?

terça-feira, 9 de agosto de 2016

QUOTIDIANOS


A minha mãe amava-me profundamente e era talvez uma mãe superprotectora e um pouco possessiva. Eu era muito pedinchão, adorava fazer listas, escrever coisas, colecionar recortes de jornais, e a minha mãe não só tolerava como incentivava todos estes comportamentos, mantendo-me sempre abastecido de papel e lápis. Chamava-me «The Peerie Professor», «peerie» queria dizer «pequeno» no dialecto das Shetland. Eu amava-a, mas talvez o tipo de mundo onde tinha vindo nascer não favorecesse a minha identificação com a sua nostalgia do passado; havia em mim algo mais forte que me empurrava para o mundo do meu pai, e, afinal, isso era o que se esperava dos rapazes nos anos 20.

Eric Lomax em Uma Longa Viagem

OLHAR AS CAPAS


Kaos

Ruben A.
Posfácio de José Palla e Carmo
Capa: Armando Alves
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa, Novembro de 1981

Sabes, meu amigo, somos mouros, ou saloios, ou árabes, ou lá o que é. Orgulhosos da nossa incapacidade.
Talvez.
Arrogantes do nada.
Em Portugal gastam-se energias produtivas a desfazer asneiras e muitas vezes a emendar os erros dos outros. É uma máquina, uma locomotiva que anda para trás. Um país, assim, progride como os cágados.
É tudo uma cagada. Ah! Perdão minhas senhoras.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O ÚLTIMO GRAU DA SELVAJARIA


Albert Camus
Editorial publicado originalmente sem assinatura e sem título no jornal Combat de 8 de Agosto de 1945
Recorte do Público de 6 de Agosto de 1995.

DITOS & REDITOS


Tudo faz parte de tudo.

Quem se deita à noite sem ceia, toda a noite rabeia.

Pensar dá prazer.

É maravilhoso ter desilusões.                                                                                                                                                                                                                       
O paradoxo é a verdade vista do avesso.

O excesso de saúde prejudica gravemente o prazer.

Não há ninguém tão cego como aqueles que não ouvem.

Não é com vinagre que se apanham as moscas.

FOI PENA QUE NÃO TIVESSE VINDO MAIS CEDO...


Tal como ficou prometido em AH!...AS ABÓBORAS!...

domingo, 7 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


No dia 7 de Agosto de 1945 Miguel Torga, escrevia, no seu Diário:

A primeira bomba atómica. Que maravilhoso bicho, o homem! Teimou, teimou, e descobriu a pedra filosofal.

TODA A MEMÓRIA



Texto de Fernando Lopes, sobre o filme Hiroshima, Meu Amor de Alain Resnais, publicado no nº 1 do Cinéfilo, 4 de Outubro de 1973.

sábado, 6 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Hiroshima

John Hersey
Tradução: Rogério Fernandes
Capa: Bernardo Marques
Colecção Miniatura nº 87
Livros do Brasil, Lisboa, s/d


Exactamente às oito horas e quinze minutos da manhã de 6 de Agosto de 1945, hora japonesa, no momento em que a bomba atómica relampagueou sobre Hiroshima, a Menina Toshiko Sasaki, empregada de escritório na secção de pessoal da “Construções Metálicas da Ásia Oriental, acabava precisamente de sentar-se no seu lugar no escritório da fábrica, e estava a voltar a cabeça para falar à rapariga da secretária mais próxima. No mesmo momento, o dr. Mazakazu Fujii instalara-se de perna traçada no pórtico da sua clínica particular, debruçada sobre um dos sete rios do delta que divide Hiroshima, a fim de ler o “Asahi” de Osaka; a srª Hatsuyo Nakamura, viúva de um alfaiate, encontrava-se à janela da cozinha observando um vizinho que demolia a sua casa situada numa linha de protecção contra incêndios causados por ataques aéreos; o Padre Wilhelm Kleinsorge, sacerdote alemão da Companhia de Jesus, deitado em trajos menores numa cama do último dos três andares do prédio pertencente à sua Ordem, lia uma revista jesuíta, “Stimmen der Zeit”; o dr. Terefumi Sasaki, jovem membro da equipe de cirurgia do amplo e moderno Hospital da Cruz Vermelha da cidade, caminhava por um dos corredores do edifício, levando na mão uma amostra de sangue para uma reacção de Wassermann; e o reverendo sr. Kiyoshi Tanimoto, pastor da igreja metodista de Hiroshima, descansava à porta de um homem rico, em Koi, o subúrbio ocidental da cidade, e preparava-se para descarregar um carro de mão cheio de coisas que tinha evacuado da cidade com medo de um ataque maciço dos B-29 que toda a gente espertava que Hiroshima sofresse. A bomba atómica matou cem mil pessoas e estas seis ficaram entre os sobreviventes. Ainda se espantam de estarem vivos quando tantos outros morreram. Cada um deles aponta os múltiplos pormenores de sorte ou vontade – um degrau subido a tempo, a decisão de entrar num edifício apanhando um eléctrico em vez do eléctrico seguinte – que os salvaram. E agora, cada um deles sabe que no acto de sobreviver viveu uma dúzia de vidas e viu mais morte do que alguma vez pensara poder ver. Naquele momento nenhum deles percebeu o que quer que fosse.

É PERMITIDO AFIXAR ANÚNCIOS


Anúncio ao Restaurante da FIL, na Junqueira, por ocasião da inauguração da Ponte sobre o Tejo:
Uma janela aberta sobre a ponte.
Anúncio publicado no Diário de Lisboa de 6 de Agosto de 1966.

HÁ 50 ANOS


A ponte sobre o Tejo foi inaugurada há 60 anos.

Ficou a chamar-se Ponte Salazar.

Hoje, chama-se Ponte 25 de Abril.

O ditador nunca concordou com a obra e nem por escassas horas um dia se dignou visitar as obras.

Passou a ser a maior ponte suspensa da Europa e a maior do Mundo fora dos Estados Unidos.


Segundo previsões, moderadas, da altura a ponte renderia cem mil contos por ano.
Nos primeiros dois dias não foram cobradas portagens.

Um automóvel vulgar pagava vinte escudos de portagem e uma camioneta cem escudos.


O general França Borges, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, discursando no dia da inauguração:

Porque não foi possível verificar então a realização desta e de tantas outras obras notáveis, no nosso tempo?

A resposta é simples e clara: anteriormente à Revolução Nacional não foi possível realizar obra construtiva porque Salazar não existia. No nosso tempo tudo foi possível porque Salazar existe.
Na verdade o Tejo, a velha estrada de Lisboa, tem razão para gritar connosco:

- Muito obrigado Professor Salazar por nos ter dado também a Ponte Salazar.

Ouviu.se a Aleluia de Haendel, o Cardeal Cerejeira abençoou a ponte, a Rádio Televisão Portuguesa transmitiu a cerimónia, o ditador Franco enviou ao Almirante Tomás, um telegrama:

Ao inaugurar-se grandiosa obra ponte sobre o Tejo envio Vossa Excelência minhas mais entusiásticas felicitações.

A fotografia mostra a afluência de veículos na Praça da Portagem, nas primeiras horas da madrugada do dia seguinte à inauguração

Foi este o programa dos festejos:

Sábado, dia 6

10,30 horas – Cerimónia da inauguração da Ponte
13,00 horas – Chegada do Cortejo que acompanha Sua Excelência o Chefe do Estado à Praça Afonso de Albuquerque e desfile em frente ao Palácio de Belém.

A ponte ficará aberta ao tráfego a partir das 13,30 horas

00,30 horas – Fogo de artificio no rio e nas colinas da margem sul.

Domingo, dia 7

09,00 horas – Regatas de remo e vela, provas de natação na área compreendida entre a
Ponte e a doca de recreio em Belém, Porto Brandão e Trafaria.
10,00 horas – Missa campal no Santuário de Cristo-Rei
19,30 horas – Tourada de gala na Praça Carlos Relvas, em Setúbal.
21,30 horas – Iluminações Públicas e arraiais em Lisboa, Setúbal e Almada.


Não constava do programa oficial, mas na segunda-feira dia 8, o Ministro das Obras Públicas ofereceu uma recepção de gala no Palácio Nacional de Queluz a que estiveram presentes o Chefe de Estado, sua esposa e o Presidente do Conselho.
Tudo muito bem-disposto, como se vê pela fotografia. Atrás das citadas personalidades, em pleno Agosto, as madamas de peles.

Da reportagem do Notícias de Portugal:

A auto-estrada é atingida às 13,30. Aí o cortejo desmembra-se. O Almirante Américo Tomás dirige-se para o Palácio de Belém e o Presidente do Conselho ruma ao Estoril.

Destaco o pormenor: o Presidente do Conselho ruma ao Estoril.

De facto, Salazar passava os primeiros dias de Agosto no Forte de Santo António.

Foi aí, que no dia 3 de Agosto de 1968, mandou-se para uma cadeira de lona e acabou estatelado no lajedo.

Não mais recuperaria da pancada que sofreu na cabeça, e até à sua morte em 27 de Julho de 1970, viveu rodeado de um deplorável teatro de fingimento e hipocrisia. 

Legenda: recortes e fotografias tirados do Notícias de Portugal nº 1006 de 13 de Agosto de 1966.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Quando vemos Marilyn no ecrã, não queremos que lhe aconteça nada de mal.

Natalie Wood

Legenda: Marilyn Monroe em Os Inadaptados

ADEUS, MARIANNE


No dia 28 de Julho, com 81 anos, morreu Marianne Ihlen.

Foi companheira de Leonard Cohen, musa inspiradora de poemas e canções, sendo a mais conhecida So Long Marianne.

Ainda ouviu as palavras de despedida que Cohen lhe enviou:

Chegámos a um tempo em que somos tão velhos que os nossos corpos se desfazem; penso que serei o próximo, dentro em pouco. Quero que saibas que estou tão próximo de ti que, se estenderes a mão, talvez possas tocar a minha. Sabes que sempre amei a tua beleza e sabedoria, mas não preciso de discorrer sobre isso porque já sabes de tudo perfeitamente. Quero apenas desejar-te boa viagem. Adeus, velha amiga. Todo o amor, encontramo-nos no caminho.

Para So Long Marianne, utilizámos a tradução de José Alfredo Marques:

Vem junto da janela, meu amor
Gostava de tentar ler a palma da tua mão.
Eu costumava pensar que era uma espécie de cigano
antes de deixar que me trouxessem para casa.
Oh, adeus Marianne!
É tempo de começarmos de novo a rir e a chorar.
A chorar e a rir de tudo isso novamente!

Bem, tu sabes que eu gosto de viver contigo!
Mas, fazes-me esquecer tanta coisa!
Esqueço-me de rezar pelo anjo,
E então os anjos esquecem-se de rezar por nós.

Encontrámo-nos quando éramos quase novos,
no fundo do parque verde e lilás.
Tu seguravas-me como se eu fosse um crucifixo,
Enquanto ajoelhávamos na escuridão.

Todas as tuas cartas dizem que agora estás ao meu lado.
Então porque me sinto tão só?
Estou à beira de um abismo,
e a tua fina teia de aranha
prende o meu tornozelo a uma pedra.

Por agora necessito o teu amor oculto.
Estou gelado como uma lâmina de barbear.
Abandonaste-me quando te disse que era curioso,
mas eu nunca disse que era corajosos!

Oh, tu és realmente uma dessas meninas bonitas!
Sei que partiste, e mudaste de nome outra vez,
precisamente quando eu escalava esta alta montanha
para lavar as minhas pálpebras na chuva.


OLHAR AS CAPAS


O Homem em Ponto

Baptista- Bastos
Capa: João Botelho
Relógio d’Água, Lisboa. Abril de 1984


Todos os livros são datados; quero dizer: devolvem, fragmentariamente embora, a imagem das épocas em que foram redigidos. Este não escapa à regra: assume-a e exige-a, ao contrário de outros, que, um tanto grotescamente, aspiram à pretensa intemporalidade de horizontes improváveis e imponderáveis. Precário e transitório, como tudo o que é humano, reflecte uma particular atmosfera mental portuguesa, e, sem a ambição de extenuar a História, fixa um determinado comportamento plural, através das singulares palavras dos outros e das peculiares situações de momento. Estas entrevistas (mais cinquenta) foram publicadas no semanário O Ponto, nascido de um singelo sonho de liberdade e acalentado por um grupo de jornalistas que de seu só possuía a honra jamais hipotecada e a ingénua convicção de que as palavras (sempre de recusa, sempre de protesto, sempre exaltantes) poderiam ser integradas na grande voz colectiva e aceites pelas minorias sem voz. O Ponto foi um jornal arrebatadamente jovem, truculento, vitalizante, diferente – sobretudo porque admitiu, compreendeu e defendeu o direito à diferença. O que muitos consideraram o seu erro fatal, a sua condenação à partida. O que nós havíamos premeditado como estandarte e cobiçado como emblema.

OLHARES


Em algumas terras da província, ainda é assim.
O importante é que as cartas, os postais, chegam ao destino.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


As Novas Mil e uma Noites

Robert Louis Stevenson
Tradução: Catarina Rocha Lima
Capa: A. Pedro
Colecção Vampiro nº 660
Livros do Brasil, Lisboa, Julho de 2002

- Se é assim, como se pode dizer que ele é um poeta moral? --disse Mark. - Quer dizer, olha o que ele faz. Olha para o comportamento dele. Nunca usa um sinal de alarme ou uma bóia de salvação e, o que é mais, nunca dá a entender que tem alguma à mão para ser usada por alguém ou por ele próprio.
- Não.
- Como se podem aplicar juízos morais quando vemos quantas direcções ele toma ao mesmo tempo? Será que ele não tem já problemas suficientes? Olha até onde ele chega. Encontra-se consigo próprio regressando, afunda-se até aos joelhos, esquece a deriva, foge consigo próprio, retira-se para a geometria, recusa os becos sem saída, fica entregue a si próprio, e acaba quase sempre por perder todas as jogadas. Mas o pano, meu caro, nunca se rompe. A corda esticada está sempre bem esticada. Ele aguenta o negócio, é o que é, e se desatasse a fazer juízos morais ia à bancarrota como os outros.
- O problema com Shakespeare --disse Pete, batendo na mesa-- é que ele nunca equaciona o homem em relação à ideia e dá sugestões quanto ao resultado final.
- Não era do género de fazer apostas.
- Punha as coisas a nu, é tudo. Desafio qualquer um que tenha dito que ele via o bem e o mal como abstracções. Não via. É certo que o nosso próprio sentido moral, tal como é, poderá ser obliterado durante este processo. E se tormarmos essa obliteração como um mal, poderemos considerar Shakespeare como um poeta imoral. Mas por outro lado, enquanto a experiência neutraliza a nossa própria moralidade, devemos manter certos critérios pelos quais medir toda a questão. Se não tivermos pontos de referência, será uma experiência perdida.
- E então?
- O que acontece é uma substituição. Nós temos, em vez de uma moral vulgar de Lineu -- uma convenção socioreligiosa assente no acordo dos homens para viverem em comum--, temos em vez disso o simples facto de que o homem é o seu próprio juiz involuntário, porque sendo capaz de escolhas ele está obrigado a aceitar a responsabilidade das suas acções. Poderia então dizer-se que, na medida em que põe isso em realce, ele é um poeta moral.
- Ah. Mas então em que ficamos agora?
- De volta ao nosso ponto de partida.
- Que é o quê?
- De volta à cerveja --disse Pete.- Fala comigo quando eu estiver sóbrio. Toda esta questão está tão cheia de incógnitas que até me dá azia.
- Que é que bebes?
- A mesma coisa.

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

OLHAR AS CAPAS


Afrodite
Histórias, Receitas e Outros Afrodisíacos

Ilustrações: Robert Shekter
Receitas: Panchita Llona
Tradução: Cristina Rodriguez e Artur Guerra
Difel, Lisboa, Janeiro de 1998


Os cinquenta anos são como a última hora da tarde, quando o Sol já se pôs e nos inclinamos naturalmente para a reflexão. No entanto, no meu caso o crepúsculo leva-me a pecar e, talvez por isso, aos cinquenta reflicto sobre a minha relação com a comida e o erotismo, as fraquezas da carne que mais me tentam, hélas, não tenham sido as que mais pratiquei. Arrependo-me das dietas, dos pratos deliciosos rejeitados por vaidade, tanto como lamento as ocasiões de fazer amor que deixei passar por estar ocupada em tarefas pendentes ou por virtude puritana. Passeando pelos jardins da memória, descubro que as minhas recordações estão associadas aos sentidos.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

POSTAIS SEM SELO


Velhice não é idade: é um cansaço.

Mia Couto em  Jesusalém

legenda: não foi possível identificar o autor /origem da fotografia.

MNF


António Lobo Antunes em Os Cus de Judas.

Cecília Supico Pinto.

Em Janeiro de 2008, Sílvia Espirito Santo publicou o livro Cecília Supico Pinto – O Rosto do Movimento Nacional Feminino, Esfera dos Livros, Lisboa.

Sinopse do livro, feito pela editora:


«Dei tudo o que tinha. O Movimento foi a minha vida! (…) Os militares e o trabalho no Movimento foram, de certo modo, os filhos a que me dediquei.» Em 1961, Cecília Supico Pinto fundou o Movimento Nacional Feminino. Uma organização independente do Estado que congregava as mulheres portuguesas no auxílio moral e material aos soldados que lutavam nas antigas colónias portuguesas. Durante treze anos, Cecília Supico Pinto multiplicou-se em viagens entre a metrópole e as «províncias ultramarinas», ameaçadas pelos movimentos independentistas. Cilinha, como era conhecida, vestiu o camuflado, dormiu em tendas de campanha, esteve debaixo de fogo e embrenhou-se no mato de África, mesmo quando um acidente a obrigou a andar de muletas e com um pé engessado. Tudo em nome de uma missão. Na bagagem levava mantimentos, recordações e anedotas para contar aos soldados portugueses. Cilinha foi a primeira-dama do Estado Novo de Salazar, «um verdadeiro príncipe», que apreciava a sua alegria, ria-se das suas anedotas, admirava a sua frontalidade e escutava os seus conselhos. Garante que, muitas vezes, o aconselhou a ir a Angola. O presidente do Conselho resistiu sempre. Elogiada por muitos, mas principalmente criticada por outros tantos.

RELACIONADOS


O livro Contos Exemplares de Sophia de Mello Breyner Andresen é dedicado a Francisco Sousa Tavares, então, seu marido 

Para o Francisco, que me ensinou a coragem e a alegria do combate desigual.

Numa nota, de que não tenho indicação de origem, o crítico Eduardo Pitta escreve:

É um retrato implacável da mulher que, sendo casada com o presidente da Câmara Corporativa (e antigo ministro da Economia), fundou o Movimento Nacional Feminino, pilar de apoio à guerra colonial. Nos anos 1960-70, quando as pessoas discutiam os “Contos Exemplares”, um dos que vinha à baila era esse retrato. Muita gente sabia quem era a retratada. Mas nem toda a gente saberia que a Cilinha várias vezes intercedeu junto de Salazar — parece ter sido a interlocutora mais influente do ditador — a favor de Francisco de Sousa Tavares, advogado e marido de Sophia, que a ela recorria quando o marido era preso. Amigas, portanto.

Num depoimento, prestado a Fernando Madaíl, Diário de Notícias de 8 de Fevereiro de 2006, Cecília Supico Pinto, amiga de infância de Sophia, a quem tratava por Xixa, diz que não acredita que a tenha caricaturado no conto Retrato de Mónica.

OLHAR AS CAPAS


Contos Exemplares

Sophia de Mello Breyner Andresen
Capa: João da Câmara Leme
Colecção Contemporânea nº 85
Portugália Editora, Lisboa, Abril de 1966

Mónica é uma pessoa tão extraordinária que consegue simultaneamente: ser boa mãe de família, ser chiquíssima, ser dirigente da “Liga Internacional das Mulheres Inúteis”, ajudar o marido nos negócios, fazer ginástica todas as manhãs, ser pontual, ter imensos amigos, dar muitos jantares, ir a muitos jantares, não fumar, não envelhecer, gostar de toda a gente, gostar dela, dizer bem de toda a gente, toda a gente dizer bem dela, coleccionar colheres do séc. XVII, jogar golfe, deitar-se tarde, levantar-se cedo, comer iogurte, fazer ioga, gostar de pintura abstracta, ser sócia de todas as sociedades musicais, estar sempre divertida, ser um belo exemplo de virtudes, ter muito sucesso e ser muito séria.
Tenho conhecido na vida muitas pessoas parecidas com a Mónica. Mas são só a sua caricatura. Esquecem–se sempre ou do ioga ou da pintura abstracta.
Por trás de tudo isto há um trabalho severo e sem tréguas e uma disciplina rigorosa e constante. Pode-se dizer que Mónica trabalha de sol a sol.
De facto, para conquistar todo o sucesso e todos os gloriosos bens que possui, Mónica teve que renunciar a três coisas: à poesia, ao amor e à santidade.
A poesia é oferecida a cada pessoa só uma vez e o efeito da negação é irreversível. O amor é oferecido raramente e aquele que o nega algumas vezes depois não o encontra mais. Mas a santidade é oferecida a cada pessoa de novo cada dia, e por isso aqueles que renunciam à santidade são obrigados a repetir a negação todos os dias.
Isto obriga Mónica a observar uma disciplina severa. Como se diz no circo, “qualquer distracção pode causar a morte do artista”. Mónica nunca tem uma distracção. Todos os seus vestidos são bem escolhidos e todos os seus amigos são úteis. Como um instrumento de precisão, ela mede o grau de utilidade de todas as situações e de todas as pessoas. E como um cavalo bem ensinado, ela salta sem tocar os obstáculos e limpa todos os percursos. Por isso tudo lhe corre bem, até os desgostos.
Os jantares de Mónica também correm sempre muito bem. Cada lugar é um emprego de capital. A comida é óptima e na conversa toda a gente está sempre de acordo, porque Mónica nunca convida pessoas que possam ter opiniões inoportunas. Ela põe a sua inteligência ao serviço da estupidez. Ou, mais exactamente: a sua inteligência é feita da estupidez dos outros. Esta é a forma de inteligência que garante o domínio. Por isso o reino de Mónica é sólido e grande.
Ela é íntima de mandarins e de banqueiros e é também íntima de manicuras, caixeiros e cabeleireiros. Quando ela chega a um cabeleireiro ou a uma loja, fala sempre com a voz num tom mais elevado para que todos compreendam que ela chegou. E precipitam-se manicuras e caixeiros. A chegada de Mónica é, em toda a parte, sempre um sucesso. Quando ela está na praia, o próprio Sol se enerva.
O marido de Mónica é um pobre diabo que Mónica transformou num homem importantíssimo. Deste marido maçador Mónica tem tirado o máximo rendimento. Ela ajuda-o, aconselha-o, governa-o. Quando ele é nomeado administrador de mais alguma coisa, é Mónica que é nomeada. Eles não são o homem e a mulher. Não são o casamento. São, antes, dois sócios trabalhando para o triunfo da mesma firma. O contrato que os une é indissolúvel, pois o divórcio arruína as situações mundanas. O mundo dos negócios é bem-pensante.
É por isso que Mónica, tendo renunciado à santidade, se dedica com grande dinamismo a obras de caridade. Ela faz casacos de tricot para as crianças que os seus amigos condenam à fome. Às vezes, quando os casacos estão prontos, as crianças já morreram de fome. Mas a vida continua. E o sucesso de Mónica também. Ela todos os anos parece mais nova. A miséria, a humilhação, a ruína não roçam sequer a fímbria dos seus vestidos. Entre ela e os humilhados e ofendidos não há nada de comum.
E por isso Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora de seus silêncios e de seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito, que ela serve.
Pode-se dizer que em cada edifício construído neste tempo houve sempre uma pedra trazida por Mónica.
Há vários meses que não vejo Mónica. Ultimamente contaram-me que em certa festa ela estivera muito tempo conversando com o Príncipe deste Mundo. Falavam os dois com grande intimidade. Nisto não há evidentemente nenhum mal. Toda a gente sabe que Mónica é seriíssima e toda a gente sabe que o Príncipe deste Mundo é um homem austero e casto.
Não é o desejo do amor que os une. O que os une é justamente uma vontade sem amor.

E é natural que ele mostre publicamente a sua gratidão por Mónica. Todos sabemos que ela é o seu maior apoio, o mais firme fundamento do seu poder.