domingo, 18 de junho de 2017

V.S.T. & ETC


Feira do Livro.
Já sabia que quando passasse pelo pavilhão da & etc., voltaria a não encontrar o Vitor Silva Tavares.

sábado, 17 de junho de 2017

ATÉ APAZIGUARMOS A NOSSA ALMA...


Fora da estrada, a vida era uma confusão. Sem aquela dose noturna de adrenalina ministrada pelo espetáculo, eu ficava um bocado perdido, deixando que me viesse bater à porta o que quer que fosse que me andava a corroer. Fora do estúdio e da estrada, eu… não existia. Acabei por ter de enfrentar o facto de que não estou bem a descansar, portanto, não posso descansar para poder estar bem. Os concertos mantinham-me focado e sereno, mas não podiam resolver os meus problemas. Não tinha família, não tinha casa, não tinha uma vida real. Não é nenhuma novidade; muitos artistas vão dizer-vos a mesma coisa. É uma maleita bastante comum, assim uma espécie de perfil típico da minha profissão. Nós somos viajantes, gente que corre estrada fora, e não gente que fica quieta. Mas cada homem e cada mulher acabam por correr ou ficar à sua própria maneira. Eu percebi finalmente que uma das razões de os meus discos levarem tanto a fazer era que eu não tinha mais nada para fazer; não havia mais nada em que me sentisse confortável a afazer. Por isso, porque não fazer como cantava o Sam Cooke, e levar «a noite inteira… a noite inteira… a noite inteira»? As minhas gravações eram como um regresso à caminhada de três quarteirões até à escola, que todas as manhãs eu tentava prolongar até à eternidade. Get in the groove and let the good times roll, we gonna stay here ‘til we soothe our soul. (Entra no ritmo e deixa correr as coisas boas, vamos ficar por aqui até apaziguarmos a nossa alma.)
Até apaziguarmos a nossa alma… isso era capaz de levar algum tempo.

Bruce Springsteen em Born to Run

TRUMPALHADAS



Tenho a ideia de que Donald Trump não irá completar os quatro de presidência, mas não sei como é que isso irá acontecer.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

É MELHOR NÃO RECEBER CARTA


!5-2-1967
Recebi carta da K. Faltam de 283 a 320 (*) e o dinheiro que me enviou. Como penso, é melhor não receber carta – a minha boa disposição para escrever, fugiu! E a K. tem um pouco a culpa! É pena não poder ter nem por escrito, uma boa jardinagem – ela pensa que tudo é à medida de nossos desejos e não reflecte um pouco senão não mandava cartas volumosas nem dinheiro como ela aliás, bem sabe, e diz! Vai-me ser difícil escrever a carta de resposta. De tudo isto fuca-me o amargo de a irritação se voltar contra quem não devo. A propósito de Eusébios, Duo Ouro Negro etc… a mentalidade geral é a de saber qto ganham, como empregam as massas, se estão a gastar em vez de guardar para o «futuro» criticando os que gastam as massas com a sua vida bem vivida.

(*) José Luandino Vieira e L. numeravam todas as cartas que trocavam com o objectivo de controlar as que não eram entregues. Aqui o autor refere-se à não entrega das cartas de L. respeitantes ao intervalo de páginas 283-320.

José Luandino Vieira em Papéis da Prisão

OLHAR AS CAPAS


Livro das Insónias sem Mestre
8º Volume de Dias Comuns

José Gomes Ferreira
Capa: Rui Garrido
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Fevereiro de 2017

A CEUD que o Mário Soares opôs à CDE foi um fiasco – por falta de base popular e juventude. Os filhos dos aderentes da CEUD pertenciam quase todos à CDE que, como uma Boa Nova, se espalhou por colégios, liceus, universidades, lares de raparigas… Os próprios alunos das escolas primárias não escaparam ao sortilégio.
Só o meu neto Pedro José parecia indiferente.
- Ó Pedro: és da CDE?
- Não. Sou do Benfica…
- Porquê?
- Porque ganha quase sempre.
Apreciei o rigor deste quase.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

NÃO HAVIA NENHUM DISCO DA CARTER FAMILY


Também não havia nenhum disco da Carter Family no apartamento. A Chloe despejou um bocado de bife com cebolas no meu prato e disse «Toma, faz-te bem». Ela era porreira à brava, fixe da cabeça aos pés, uma bichana maltesa, uma verdadeira víbora – acertava sempre à primeira. Não sei quanta erva ela fumava mas era muita. Tinha umas ideias muito próprias acerca da natureza das coisas, disse-me que a morte era uma fingidora e que o nascimento era uma invasão de privacidade. O que é que havia a dizer? Não se podia responder nada quando ela dizia coisas daquelas. É que não se podia provar o contrário. Nova Iorque não a perturbava nem um bocadinho. «É tudo uma macacada nesta cidade», dizia ela. E ao falar com ela percebia-se logo porquê. Pus o meu boné e vesti o casaco, peguei na minha guitarra e comecei a fazer a trouxa. A Chloe sabia que eu estava a tentar fazer coisas. «Se calhar um dia o teu nome ainda vai correr o país como fogo posto», dizia ela, «Se alguma vez conseguires uns pares de notas de cem, compra-me qualquer coisa».

Bob Dylan em Crónicas

RECADOS


No dia da morte de Armando Silva Carvalho, deixei o registo de que O Livro do Meio, romance epistolar escrito por Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa, é um livro fascinante que – tenho essa ideia… - passou um tanto ao lado de críticos – ainda há crítica literária?!... – e leitores.

Aguardava vez para entrar em «Olhar as Capas» e fiz agora a publicação, com o lamento que só agora aconteça porque o Armando nos deixou.

Obviamente, a capa leva textos de cada um dos autores.


O livro junta memórias de infância, de outros tempos, uma cumplicidade de anos e anos de vivências e que, dado o calibre dos autores, nunca poderia sair fruta bichada.

Pelas 412 páginas do livro, passeia uma série de gente, alguns vivos, outros já mortos, ódios, amores, quotidianos, tristezas, alegrias, leituras e notícias do quotidiano, histórias de escárnio e maldizer, amigos e inimigos, perdas e danos, um humor mordaz, venenoso q.b, mas inteligente.

Claro que o livro retém episódios e gentes que escapam ao leitor comum, que são vivências próprias dos autores, «afectos flutuantes», como algures deixa cair Maria Velho da Costa, a mesma Maria que deixa assinalada uma frase de Agustina Bessa Luís: «a amizade é confortável como uma almofada de penas», ou Armando Silva Carvalho que a páginas 322 cita um verso de Jorge de Sena: «sempre me soube a destino a minha vida».

Repito: um livro imperdivel, editado pela Caminho no tempo em que ainda não tinha sido devorada pela Leya.

Pode ser que ainda o encontrem na Feira do Livro, que fecha portas no domingo.

OLHAR AS CAPAS


O Livro do Meio

Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 2006

Uma casa é uma casa como uma rosa é uma rosa.
E já que estás com a casa na boca, falemos de casas, como disse o Herberto. Eu, hoje, tenho três casas, sou um felizardo. Durmo na da mana, trabalho na minha e derramo-me na nossa, a de Peniche.
Aqui, na de lisboa, assaltam-me as lembranças do sexo, as causas amantes, e fazem-me companhia duas ou três coisas essenciais. Não me pedem comida, não me roçam as pernas e não me dão cuidados de higiene.
Uma é a pintura do Hogan, que me defende duma provável miséria que já me ameaça. Comprei-a nas Belas Artes a uma senhora dada ao espiritismo e que me apresentou mais tarde esse pintor das pedras solitárias.
A segunda é o espelho enorme e oval em que me olho de frente enquanto escrevo (dantes usavam-se as caveiras). Ele lembra-me uma grande amiga do porto, a M., que me deu a conhecer o seu grande amigo, o José Cardoso Pires. Foi ele que mo ofereceu, em tempos mais narcisistas, e é um impressionante reflexo de mim a meio-corpo, em moldura rica e trabalhada. Um dia cheguei a casa e fui dar com uma encomenda gigante à minha espera. Eu não adivinhava, Ajudou-me a porteira que quase caiu de cu ao ver o objecto nu. Que rima! Passou-se já tanto tempo que pensei até mudar-lhe o sítio. Eu ficava mais distraído do tempo, do meu tempo. Só que assim a velhice não me espanta. E o espelho repete-me o que não repetiu à Madrasta da outra. Lembra-te de que és pó, etc., etc.

E em terceiro lugar vem a bebida. E bem à mão, numa mesinha de jogo (expressão que me fazia cócegas quando o objecto amado lhe gabava as proporções delicadas). É a lírica mais consumível que alguma vez tive na vida, tanto tempo passado, depois de ter escrito esse livrinho de nome tão aberrante. Criatura volúvel, derramável, ergue-me no ar para me deixar aos tombos, e me faz companhia em verso, prosa ou dura dor de corno.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

UM SUJEITO CONTRADITÓRIO


Carta de Jorge de Sena, datada de 25 de Maio de 1969, para Eugénio de Andrade:

Em matérias de glórias, eu sou, francamente, um sujeito contraditório: ao mesmo tempo as pessoas incomodam-me (e muitas vezes até quando escrevem admirativamente a meu respeito, sem que nisto vá ingratidão), o êxito parece-me risível,  e sei melhor que ninguém a que várias circunstâncias pode dever-se. Mas a hostilidade com que lutei desde a primeira hora, ou que suscitei sem querer (ou muitas vezes por querer), deu-me também uma sede de triunfo, de mundo a meus pés – talvez pelo que de outcast tenho sido sempre de grupos literários ou profissionais. E isso o não sinto menos na minha vida universitária, onde, no fundo, os meus «colegas» de cá e de lá não me perdoam que eu tenha entrado na profissão «por cima», por força de uma bagagem maior que a deles todos juntos. Mas tudo me fere: fui sempre a vida inteira o mesmo menino esquecido e jogado entre os pais, sedento de atenção e de amor, dividido entre estar só e acompanhado.

OLHAR AS CAPAS


O Livro do Meio

Armando Silva Carvalho e Maria Velho da Costa
Capa: José Serrão
Editorial Caminho, Lisboa, Novembro de 2006

O dia hoje foi curto. Tentar absorver a absorvência da pequena J. Ela comunica por gestualidade e sons, uns mais competentes que outros. Na amizade é preciso traduzir. Revejo-me nela.
A M.G. veio chorara um pouco a morte do Pluma, o cão de família que foi dela e do João César Monteiro, já velho e incontinente. Diz a Agustina que as pessoas que amam os cães são as mais egoístas sobre a terra. E ela gosta de cães. Porque os cães são uns mestres de zelar pelo que é teu, a família, os bens, as emoções profundas, mesmo quando tu te desleixas ou adoeces?  Lobo da decência e da perseverança, o cão. Causa amante, contra toda a evidência, um cão.
Ars longa, vita brevis. Sobretudo a dos cães.
Tenho medo de quem tem medo dos cães.

terça-feira, 13 de junho de 2017

SANTO ANTÓNIO


Trono de Santo António na Vila Berta.

LISBOA E DESFADOS


Construir a cidade e dá-la a toda gente.
Lisboa é uma cidade que vê com os pés. «andando pensa-se melhor do que sentado», diz o João Botelho
«O que há em Lisboa?» pergunta Bogart na tela da sala escura.
Lisboa de Cesário Verde, «nas nossas ruas, ao anoitecer, há tal soturnidade, há tal melancolia», Lisboa de José Gomes Ferreira, Lisboa do Armindo «decerto esta é a mais bela cidade de todas as cidades do mundo, e hoje toda a cidade me fala de ti», Lisboa de Eugénio de Andrade «alguém diz com lentidão: Lisboa, sabes…». Lisboa de António de Sousa «de mal te conhecer é que eu sofria, cidade clara em tuas sete colinas!», Lisboa «cidade branca» de Tanner. Ou Fernando Assis Pacheco: «se fosse Deus parava o sol sobre Lisboa», Lisboa que «cheira aos cafés do Rossio, cheira a castanha assada se faz frio. A fruta madura quando é Verão». Lisboa de José  Cardoso Pires, «logo a abrir, pareces-me pousada sobre o Tejo como uma cidade de navegar», Lisboa de José Saramago, Lisboa de José Rodrigues Miguéis, Lisboa de Alexandre O’Neill «se uma gaivota viesse trazer-me o céu de Lisboa»,  a «Lisboa menina e moça de Ary dos Santos», Lisboa de tanta e tanta gente, «chamar-te a ti Lisboa camarada e depois eu sei lá enlouquecer», para citar Joaquim Pessoa, lembrar Desfado da Ana Moura e, hoje, por aqui ficar.

VIGÉSIMO TERCEIRO POEMA SOBRE A MORTE DE DEUS


Emudecia.

Dizia:……………
Como se fosse Deus.

António Rego Chaves em Três Vezes Deus

Nota do editor: o primeiro poema está publicado em Dizendo-me Aqui Estou

segunda-feira, 12 de junho de 2017

MORRER DE AMOR


A neve queima
mas o fogo do teu corpo
que tanto me incendeia
transforma-se às vezes
numa estátua de pedra.

A neve queima
e nela me deitava
abraçado à montanha.
Brilhava assim na paixão
e não gelava – ardia
o coração.

A neve queima
com flores geladas.
Para mim são labaredas
esses outeiros brancos
a arder num só olhar.

A neve queima
mas gelo nos incêndios
do prazer. Serei fogo
das estrelas? Ou apenas
a confusão dos elementos.
Eu sei: vogar no ar.

A neve queima
mas quero arder
no teu corpo ardente.
E quebrar o gelo
dessa estátua minha.

A neve queima.
Mesmo a tremer de frio
procuro no ar que respiro
o fogo que me leve
às águas mais profundas
dos teus vulcões acesos.

A neve queima
ao sabê-la fria.
Desço aos infernos
dos fantasmas
e procuro água de beber.

A neve queima
e nas veredas encontro
a paz desse silêncio.
Mas gritar eu quero
no ar ardente
dos teus sentidos.

A neve queima
quando nem a sinto
Busco no teu olhar
o sinal mais simples:
unir gelo e chamas.

A neve queima
mas eu quero arder
nos elementos maiores.
Incendeia-me, amor!
Vogar no ar, morrer
nas águas do teu fogo.

Lisboa, Julho de 1994

Eduardo Guerra Carneiro em Ler nº 28, Outubro 1994

O PROPÓSITO DE IR MELHORANDO


Não que as aulas sejam; - apesar da confiança em mim, e até do arzinho de vaidade que às vezes pareço ter e não sei reprimir, sinto que me faltam muitas qualidades; sabe-me a pouco, cá dentro, tudo quanto faço, e bem vistas as coisas não tenho vaidade nenhuma. Tenho para mim que o vaidoso só o é verdadeiramente se está convencido de que é um ás naquilo de que é vaidoso; ora eu não estou convencido; aparento por vezes que o estou, levado por um demónio que não sou capaz de afogar. Eisó estou convencido de que tenho em mim algumas qualidades, graças às quais não é desonestamente que sou professor; e estou convencido também de que há mil outros que não têm estas qualidades, ao mesmo tempo que há outros ainda que têm, além das minhas, aquelas que me fazem falta. O que me absolve é que tenho o bom propósito de ir melhorando e de chegar um dia (se o espírito não se acovardar com o tempo…) em que serei quase um bom professor; é justamente nesse dia que eu morrerei: quando for quase um bom professor.

Sebastião da Gama em Diário

domingo, 11 de junho de 2017

TRUMPALHADAS


Donald Trump, anunciou à primeira-ministra britânica, Theresa May, que não vai aceitar o convite de Estado para visitar o país enquanto os protestos nas ruas forem previsíveis.

De acordo com o The Guardian, Trump não quer visitar o Reino Unido enquanto não houver um apoio do público à sua presença.

Theresa May ter-se-á mostrado surpreendida.

Não se entende bem porquê.

O presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, desde que se soube do convite em nome da Raínha expressou a sua forte oposição a um discurso de Trump no Palácio de Westminster.

Mais recentemente o «mayor»de Londres, Sadiq Khan, disse  que o convite da primeira-ministra foi prematuro tendo em conta que muitos britânicos não estão de acordo com muitas das políticas de Donald Trump.

DA IMPORTÂNCIA DE VIVER


George Steiner disse recentemente que vivemos demasiado.

Numa velha entrevista ao Expresso, Maria João Seixas, quando viveu em África, referiu que o animal que mais a impressionou foi o elefante. Pela sua maneira de viver em grupo, de se sociabilizar…

«Também porque nos dá uma grande lição de morte. A dignidade da morte é uma coisa que nos escapa. Os elefantes quando sentem que vão morrer escolhem um parceiro e afastam-se do grupo com ele. Podem andar os dois vários quilómetros em silêncio. A um dado momento o elefante que sabe que vai morrer encontra o seu cemitério, um círculo imaginário na terra queimada na savana, e estaca no perímetro. Trombeteia para o outro que lhe responde e vai-se embora. O elefante doente senta-se espera a morte. Sozinho».

Elio Vittorini publicou, em 1947, Consideram-se Mortos e Morrem.

Da nota final que Vittorini escreveu:

«Discurso sobre a morte, poderia eu ter chamado ao livrinho. Ou pelo contrário: Da importância de viver. Porque não?
Eu não pensava, ao escrever, terminar onde terminei. Tinha na ideia uma segunda parte em que procuraríamos, pelos bosques em torno da cidade, o velho que se foi. Mas não digo que não retome em mãos a coisa, dentro de algum tempo. É um motivo que me é muito caro. Portanto, pode acontecer que nos voltemos a ver por aí, com o «meu avô», pouco importa se não for propriamente no livro imediatamente a seguir a este».

OLHAR AS CAPAS


Consideram-se Mortos e Morrem

Elio Vittorini
Tradução: José Terra
Capa: Luís Jardim
Colecção O Livro de Bolso nº 7
Portugália Editora, Lisboa s/d

O avô volta-se então, do limiar que alcançou entre as árvores. À sua direita, acende-se no céu já claro o olho vermelho do semáforo. Ele ergue a sua bengala e, agitando-a, diz-nos adeus; e a luz vermelha do semáforo apaga-se, volta a acender-se.
- Nós também somos elefantes – diz-nos a minha mãe.
E, dizendo isto, impede-nos de correr atrás do avô a fim de trazê-lo para casa. Volta a entrar na cozinha, nós entramos com ela, e, à luz eléctrica que empalidece com a claridade do dia, o seu rosto mostra-se sorridente.
- Não percebeis patavina – diz-nos – Não é o princípio da noite. É o fim.
Aponta-nos a hora do velho relógio de parede.
-- São seis e meia, vedes? Já os operários atravessam o parque, dirigindo-se para o trabalho. Hão-de encontrá-lo e trazer-no-lo. Mas se lhe dá na telha, entretanto!...

À MESA



Texto de Maria Leonor Nunes publicado no JL, s/d

sábado, 10 de junho de 2017

OLHAR AS CAPAS


Micropaisagem

Carlos de Oliveira
Capa: Fernando Felgueiras
Colecção de Poesia nº 1
Publicações Dom Quixote, Lisboa, Novembro de 1968

assim
se cumpre
o eclipse
gradual
sobre o centímetro
quadrado que
os líquenes
cobrem
na memória,
assim
a luz e a neve
se ocultam
pouco a pouco, assim
se esquece

MARCADORES DE LIVROS


CÁLIDA E CHEIROSA A NOITE


Naquela longa varanda suspensa no espaço, pista de corridas, parque infantil, observatório do mundo, passei horas inesquecíveis. Recordo particularmente as noites de verão, cálidas, cheirosas das flores da vizinhança, na meia obscuridade. Apagava-se a luz da casa de jantar, para poupar o gás e porque nem sequer se justificava o seu consumo. A mãe trazia uma cadeira para a varanda e sentava-se, permanecendo com os olhos fechados e o seu sorrido de todas as horas. O pai ficava cá dentro a ressonar na sua cadeira de braços. A avó estava na cozinha a lavar a loiça, e as irmãs andavam por cá e por lá.
Cálida e cheirosa, a noite. O céu azul-escuro, repleto de estrelas cintilantes. Espectáculo maravilhoso de um firmamento que a civilização aniquilou. Não é saudosismo, Juro! Já não se vêem estrelas, à noite, no céu de lisboa, nem nos céus dos grandes aglomerados populacionais. Os gases de combustão da gasolina dos automóveis, dos óleos dos camiões, do combustível dos aviões, a incessante fumarada das chaminés das fábricas, cobriram a cidade de um capacete denso que não se deixa atravessar pela fraca luz das estrelas. É um facto observado; não é saudosismo, repito. As novas gerações não sabem o que é um céu estrelado, a não ser que o tenham visto em regiões menos poluídas, talvez no campo ou na praia. Mas o campo não interessa aos jovens e a praia, à noite não é para fitar o céu mas para morder a terra.
Perdeu-se o sentido do que é o firmamento estrelado profusamente, e que constitui um dos espectáculos mais belos da natureza. Fitavam-se os olhos nas estrelas e encantavam-se com a sua nervosa cintilação, reparava-se na mudança de posições que as estrelas iam ocupando no céu, identificavam-se as constelações, as Ursas, o Orion, a Cassiopeia, e localizava-se a Estrela Polar. E tudo isto na noite cálida, cheirosa, com a mãe de olhos fechados na cadeira e o pai a ressonar lá dentro.

Rómulo de Carvalho em Memórias

sexta-feira, 9 de junho de 2017

COMO AVALIAR DO INTERESSE DO PÚBLICO?


Carta de José Rodrigues Miguéis, datada de 16 de Janeiro de 1968, para José Saramago:

Apoquenta-me muito a péssima distribuição dos meus livros, que não encontrei em muitas livrarias, ou de que só havia um ou dois exemplares. O Diário de Notícias do Rossio tinha dois: costumava tê-los todos! Por outro lado, sem os algarismos das vendas, sou como um cego: como avaliar do interesse do público? Quanto aos pagamentos, voltaremos ao acordo de prestações mensais? (Não consegui resolver o problema que aí me levou e estou cada vez mais pobre… ) A Léah, prometida para Out-Nov., ainda não saiu. Como posso eu trabalhar sem apoio nem reconforto? Não percebo o desinteresse (?) da Cor que sempre me obsequiou! Valerá a pena tanto esforço, nas condições angustiosas em que tenho vivido? É como se de Portugal só me viessem contrariedades e desilusões… Antes o silêncio e a paz em que dantes vivia!
Nada desta amargura é obra sua, querido Poeta! Só lastimo ter de me abrir consigo, e amargura-lo também. Tinha muito mais a dizer-lhe, mas já não cabe aqui.

O QU'É QUE VAI NO PIOLHO?


Quando morrer e chegar ao céu, é tipo para dar uma seca maluca a Deus por tê-lo feito careca.

Marlon Brando sobre Frank Sinatra.

Segundo Manuel S. Fonseca, Brando ficou cheio de Sinatra em «Guys and Dolls», filme de Mankiewicz.

Sinatra foi contra a contratação de Marlon Brando para o papel de Sky, pois ele queria esse papel.

Sinatra detestava Brando, por ele, um não-cantor, ter sido a estrela do filme.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

ESTA NOITE VOU ESTAR NAQUELA COLINA

Decidi que os primórdios do meu objetivo, da minha razão de ser, da minha paixão, estavam nas ruas da minha terra natal. A par com o catolicismo, descobri a outra peça do «génesis» da minha experiência familiar daquele tempo, que se tornou o início da minha canção: casa, raízes, consanguinidade, comunidade, responsabilidade, manter a dureza, manter a fúria de viver, mantermo-nos vivos. Estas são as coisas que, com a dição açucarada dos carros, miúdas e fortuna, orientaram a minha odisseia musical. Eu até podia viajar para muito longe, afastar-me anos-luz e gostar muito disso, mas acabava por nunca deixar verdadeiramente a minha casa. A minha música começou a ter mais implicações políticas; tentei encontrar uma forma de colocar o meu trabalho ao serviço de causas. Li e estudei para me tornar num escritor melhor e mais eficaz., Eu abrigava dentro de mim uma crença e ambição extravagantes acerca do efeito provocado pelas canções pop. Queria que a minha música se sustentasse na minha vida, na vida da minha família e no sangue, suor e lágrimas das vidas das pessoas que eu tinha conhecido.
Em termos emocionais, a maior parte das minhas letras são autobiográficas. Aprendi que temos de puxar para cima as coisas que nos dizem qualquer coisa de maneira a que elas signifiquem alguma coisa para o público. É aí que reside a prova. É assim que as pessoas ficam a saber que não estamos no gozo. Com a frase final do disco, Tonight I’ll be on that hill(Esta noite vou estar naquela colina), os meus personagens mantém-se inseguros quanto ao seu destino, mas estão empenhados e entrincheirados. No final de Darkness, eu encontrara a minha voz adulta.

Bruce Springsteen em Born To Run