terça-feira, 29 de setembro de 2026

HERBERTIANAS


Na Biografia do Herberto Helder escrita pelo João Pedro George, também há um capítulo que poderia entrar na secção de Livros Autografados.

Paramos na página 630 e cito:

«Outro amigo a quem Herberto ofereceu Flash foi António Barahona. Dias depois. Disse que o tinha perdido e Herberto ofereceu-lhe outro exemplar. Acontece que, mais tarde, os dois apareceram à venda num alfarrabista, o que enfureceu Herberto: julgava que tinha um amigo mas, afinal, o que tinha era um amigo que o estava a usar. Olga Lima recorda a amarga decepção que Herberto sofreu quando se apercebeu disso: »O Herberto zangou-se com o Barahona porque lhe ofereceu dos exemplares do Flash autografados e o Barahona vendeu-os porque precisava de dinheiro. Depois disso o Herberto nunca mais lhe ofereceu livro nenhum.»

No funeral de Herberto Helder, António Barahona resolveu aparecer sem ser convidado. Quando Olga, a viúva do Herberto, o viu, não resistiu e atirou-lhe na cara:

«Tu aqui!!!??? O Herberto dedicava-te livros e depois ias vendê-los aos alfarrabistas.» Gisela Oliveira estava a sair do elevador do piso de casa do pai quando deparou com esta cena, Olga à porta, muito exaltada impedindo Barahona de entrar e dizendo-lhe que estava proibido de ir ao funeral. Porque Olga, diz a filha, associava também «o Barahona ao grupo de críticos que tinham dito muito mal do último livro do meu pai. Lembro-me de ver o Barahona quase em lágrimas, a dizer: “Ola, isso não é verdade, eu amava o Herberto!”».

Legenda: capa de uma 1ª edição de Flash à venda, na internet, por 1200 euros.

2 comentários:

Luis Eme disse...

Esta é a parte que me faz mais confusão da biografia e da vida de Herberto Helder.

Mesmo sabendo que foi esta sua filosofia que valorizou tanto a sua obra...

Sammy, o paquete disse...

Tenho um historial longo de leitura de biografias, autobiografias, correspondência entre intelectuais, mas não tenho ideia de ter lido algo como a biografia de Herberto Helder. Tive a confirmação de coisas que desconfiava, a redução de exemplares dos livros que publicava, mais ou menos, é uma delas, as relações entre amigos, críticos, editores, conselheiros permitiu que Herberto Helder, deixando de lado a qualidade da sua poesia, nem toda em minha opinião, subisse ao pedestal em que permaneceu longo tempo da sua vida. Nesses aspectos a vida literária portuguesa não se modificou muito, ou quase nada.
E há inúmeras e bem desagradáveis surpresas. Cito uma: alguns procedimentos de Vitor Silva Tavares perante alguns pares, que estaria longe de imaginar que as praticasse. Enfim…
Neste momento ando a ler, devagar, devagarinho, «Nos Passos de José Rodrigues Miguéis» de Teresa Martins Marque, um livro notável, e Miguéis conta algo dos escritores e críticos daqueles tempos que me deixaram de boca aberta. Por exemplo, Manuel Mendes, um intelectual respeitável, que não primou pela lealdade para com Rodrigues Miguéis.
Entretanto Setembro chegou ao fim e ainda não atinei com o nosso, sempre adiado, encontro.
Abraço.